{"id":64565,"date":"2025-11-15T03:44:21","date_gmt":"2025-11-15T06:44:21","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cop30-hora-de-discutir-as-cidades-amazonicas\/"},"modified":"2025-11-15T03:44:21","modified_gmt":"2025-11-15T06:44:21","slug":"cop30-hora-de-discutir-as-cidades-amazonicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cop30-hora-de-discutir-as-cidades-amazonicas\/","title":{"rendered":"COP30: Hora de discutir as cidades amaz\u00f4nicas"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"888\" height=\"474\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/121ca7af-b91d-4ef4-a6cd-7e39e853d3c1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/121ca7af-b91d-4ef4-a6cd-7e39e853d3c1.jpg 888w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/121ca7af-b91d-4ef4-a6cd-7e39e853d3c1-300x160.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/121ca7af-b91d-4ef4-a6cd-7e39e853d3c1-768x410.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 888px) 100vw, 888px\"><figcaption>Foto: Raphael Alves<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Olhemos Bel\u00e9m do Par\u00e1, a cidade das \u00e1guas, segunda mais populosa da regi\u00e3o Norte (Manaus \u00e9 a primeira), cravada no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia brasileira, que sedia a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas de 2025 (COP30), entre 10 e 20 deste m\u00eas. A m\u00eddia a destratou, coitada: o mote principal foi seu setor hoteleiro prec\u00e1rio para receber as mais de cem mil pessoas esperadas para o megaevento, o que teria gerado constrangimentos frente a delega\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Agora, olhemos mais de perto. Especificamente, para a sua crise urbana. Est\u00e1 localizada num estado onde 91% da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem coleta de esgoto. \u00c9 a segunda capital brasileira com o aluguel mais caro; e a alta no primeiro semestre deste ano foi de 5,95%, segundo o IBGE \u2014 mais de dois pontos percentuais acima da m\u00e9dia nacional! 57,2% dos domic\u00edlios est\u00e3o localizados em favelas e comunidades, \u00edndice significativamente superior \u00e0 m\u00e9dia nacional de 8,1%, mostra o Censo 2022. A conta de luz \u00e9 salgada: 31,6% mais cara do que a m\u00e9dia nacional, para ser espec\u00edfico \u2014 apesar do Par\u00e1 abrigar gigantescas hidrel\u00e9tricas como Belo Monte e Tucuru\u00ed. Isso sem falar em outros problemas, que compartilha com a maioria das cidades brasileiras, como o desabastecimento de \u00e1gua, assentamentos prec\u00e1rios, comunidades amea\u00e7adas de remo\u00e7\u00e3o, transporte p\u00fablico insuficiente (e de p\u00e9ssima qualidade), especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria selvagem na esteira da Confer\u00eancia\u2026\u00a0<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o cr\u00edtica carrega contornos ir\u00f4nicos: a execu\u00e7\u00e3o de obras <em>insustent\u00e1veis<\/em> para receber pa\u00edses que discutir\u00e3o\u2026 justamente a sustentabilidade ambiental: projetos rodoviaristas, que se prop\u00f5em a resolver problemas estruturais de mobilidade. Ou seja, amplas interven\u00e7\u00f5es para resolver problemas de mobilidade, refor\u00e7am justamente o modelo urbano respons\u00e1vel por agravar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. E surge outra ironia, pontual mas simb\u00f3lica: a constru\u00e7\u00e3o de \u201ceco-\u00e1rvores\u201d, estruturas artificiais criadas apenas para produzir sombra\u2026 em territ\u00f3rio amaz\u00f4nico.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/15-1-9.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/15-1-9.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/15-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Enfim: a cidade-sede da \u201cCOP das Florestas\u201d foi apresentada como o\u00e1sis ap\u00f3s tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es realizadas em desertos reais, no Azerbaij\u00e3o, nos Emirados \u00c1rabes Unidos e no Egito. Um palco onde seria poss\u00edvel romper a aridez dos debates sobre o futuro do planeta! Por\u00e9m, os dramas urbanos que atravessa \u2014 singulares, por ser uma metr\u00f3pole amaz\u00f4nica; mas compartilhados em certa medida por cidades de todo o mundo \u2014 estar\u00e3o em terceiro, quarto, quinto plano no megaevento\u2026<\/p>\n<p>No contexto da C\u00fapula, quando o Brasil est\u00e1 no centro do debate sobre o futuro do planeta, algumas quest\u00f5es s\u00e3o inevit\u00e1veis: como discutir justi\u00e7a clim\u00e1tica sem enfrentar o modo como constru\u00edmos, nos movemos e respiramos nas cidades \u2014 esse cora\u00e7\u00e3o de concreto da crise clim\u00e1tica? Quais s\u00e3o os desafios das cidades amaz\u00f4nicas? Poder\u00e3o cosmovis\u00f5es ancestrais nos ensinar outros modos de habitar e planejar o territ\u00f3rio \u2014 muito diferentes dos modelos urbanos herdados: rodoviaristas, excludentes, fundados na l\u00f3gica do asfalto e do petr\u00f3leo?<\/p>\n<p><strong>I. Hora de um Estatuto das Cidades Amaz\u00f4nicas?<\/strong><\/p>\n<p>Como dito, as cidades espalhadas por este bioma \u2014 que corresponde a quase 60% do territ\u00f3rio brasileiro, por\u00e9m com 13% da popula\u00e7\u00e3o total \u2014 apresentam alguns dramas urbanos similares aos de outras regi\u00f5es. No entanto, s\u00e3o as suas particularidades, gritantes, que verdadeiramente definem a realidade urbana da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, como mostra o Atlas da Amaz\u00f4nia Brasileira, h\u00e1 uma imensid\u00e3o de terras p\u00fablicas sem destina\u00e7\u00e3o: 28,5% da Amaz\u00f4nia Legal; grileiros j\u00e1 abocanharam 23% deste montante. Um estudo do Incra desatualizado, ainda de 1999, mostrou que 55% das terras griladas no pa\u00eds est\u00e3o localizadas nesta regi\u00e3o. O que leva a outro ponto: os altos \u00edndices de conflito por terra. O Atlas dos Conflitos no Campo Brasileiro de 2025, por exemplo, aponta que, entre 1985 e 2023, a regi\u00e3o concentrou quase metade dos 50.950 casos de viol\u00eancia agr\u00e1ria no pa\u00eds. O alvo principal: povos tradicionais \u2014 v\u00edtimas de metade destes conflitos, como investigou outro importante atlas, o de Conflitos Socioterritoriais Pan-Amaz\u00f4nicos.<\/p>\n<p>O Observat\u00f3rio Amazonicidades, que re\u00fane representantes de universidades e institutos federais e estaduais dos nove estados da Amaz\u00f4nia Legal, apresenta em seu manifesto de lan\u00e7amento elementos cruciais para entender a singularidade da urbaniza\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o. Um desses elementos \u00e9 a complexa quest\u00e3o fundi\u00e1ria, profundamente marcada por interven\u00e7\u00f5es estatais autorit\u00e1rias. Tais interven\u00e7\u00f5es visavam expandir os latif\u00fandios, implementar infraestrutura log\u00edstica para a exporta\u00e7\u00e3o de commodities e construir gigantescas hidrel\u00e9tricas, como Belo Monte e Tucuru\u00ed. Esse modelo de desenvolvimento n\u00e3o apenas desorganizou os modos de vida das popula\u00e7\u00f5es locais, como tamb\u00e9m gerou intensos conflitos socioambientais.<\/p>\n<p>Outro fator: para al\u00e9m da conhecida diversidade de povos ind\u00edgenas, quilombolas e ribeirinhos, a regi\u00e3o \u00e9 palco de uma riqueza \u00e9tnica ainda mais complexa. L\u00e1, tamb\u00e9m habitam camponeses, agricultores familiares, seringueiros, quebradeiras de coco baba\u00e7u, castanheiros, pescadores artesanais, entre outros. E resistem firmemente \u00e0s tentativas de apagamento, sejam pela for\u00e7a bruta ou pelo descaso do poder p\u00fablico. N\u00e3o se trata, por\u00e9m, de \u201cpreserva\u00e7\u00e3o\u201d cultural. Estes povos s\u00e3o guardi\u00f5es de outras cosmovis\u00f5es, que se contrap\u00f5em \u00e0 euroc\u00eantrica, apregoando um caminho para o bem-viver: ao final, n\u00e3o deveria haver (nem h\u00e1) cis\u00e3o entre o que denominamos humano (ou cultura) e Natureza, apregoam. Segundo Ailton Krenak, em<em> Futuro ancestral<\/em>, este \u00e9 um dos cernes da crise civilizat\u00f3ria, cujo exemplo mais gritante est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o das cidades com os rios\u2026\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/HUCITEC-eticadissidencia-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/HUCITEC-eticadissidencia-2.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-eticadissidencia-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Falando nisso\u2026 Como compreender o deslocamento de popula\u00e7\u00f5es em uma regi\u00e3o de paradoxos extremos, que abriga a maior bacia hidrogr\u00e1fica do mundo, detentora de 20% da \u00e1gua doce do planeta e estendendo-se por nove pa\u00edses, regido por um complexo regime hidrol\u00f3gico e que enfrenta uma seca persistente que j\u00e1 atinge mais de 22% de sua por\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio brasileiro? A crise do transporte no Centro-Sul, ainda que grave, \u00e9 de natureza distinta daquela que afeta a Amaz\u00f4nia. Enquanto a primeira debate a precariedade de um sistema existente, a segunda sofre com a quase aus\u00eancia de um sistema organizado. A realidade amaz\u00f4nica \u00e9 definida por uma oferta \u00ednfima de transporte, agravada por uma infraestrutura fluvial subaproveitada, estradas intransit\u00e1veis e vastas dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas. Essa combina\u00e7\u00e3o restringe drasticamente o acesso da popula\u00e7\u00e3o a servi\u00e7os b\u00e1sicos e especializados, aprofundando o isolamento e as desigualdades.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno acaba desencadeando um fluxo migrat\u00f3rio em massa do interior para as metr\u00f3poles, onde as pessoas buscam acesso a recursos, servi\u00e7os e infraestrutura. O resultado \u00e9 a intensifica\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, a expans\u00e3o de ocupa\u00e7\u00f5es informais do territ\u00f3rio e a prolifera\u00e7\u00e3o de periferias dentro e no entorno das cidades. Trata-se de um processo fren\u00e9tico e ainda em curso, que segue na contram\u00e3o do movimento de \u201cdesmetropoliza\u00e7\u00e3o\u201d observado em outras partes do Brasil.<\/p>\n<p>O Estado pouco faz: suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o limitadas ou, ent\u00e3o, \u201cimportadas\u201d, sem serem adaptadas ao contexto local. A pol\u00edtica nacional de desenvolvimento urbano e os instrumentos contidos no Estatuto da Cidade e no Estatuto das Metr\u00f3poles, apesar de importantes, s\u00e3o insuficientes para tratar de problemas relacionados \u00e0s cidades amaz\u00f4nicas.\u00a0<\/p>\n<p><strong>II. Outra vis\u00e3o de cidade e campo<\/strong><\/p>\n<p>O Estatuto da Cidade, aprovado em 2001 ap\u00f3s intensas batalhas de movimentos pelo Direito \u00e0 Cidade para regular o desenvolvimento e o planejamento urbano no Brasil, deixou lacunas \u2014 assim como a campanha dos Planos Diretores Participativos, promovida pelo governo federal em 2005. \u00c9 natural que um marco legal como este carregue contradi\u00e7\u00f5es, seja devido \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es no Congresso que abrandam (ou eliminam) pontos que poderiam abalar o grande capital urbano, ou pela dificuldade de abarcar as complexidades, singularidades e anseios regionais de um pa\u00eds com dimens\u00f5es continentais. Na Amaz\u00f4nia, isso \u00e9 mais que percept\u00edvel.\u00a0<\/p>\n<p>A professora da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA), Ana Cl\u00e1udia Duarte Cardoso, \u00e9 coordenadora do Amazonicidades e tem grande experi\u00eancia na implementa\u00e7\u00e3o de planos diretores no Par\u00e1, quando atuou no poder p\u00fablico. Ela conta que, ao contr\u00e1rio do que ocorre no Centro-Sul, onde o ativismo urbano \u00e9 mais consolidado, a regi\u00e3o amaz\u00f4nica tem forte participa\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais rurais, fato que ajuda a compreender o padr\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nico: \u201cmi\u00fado, disperso e articulado\u201d, define. Afinal, os assentamentos se organizam em vilas e comunidades interligadas por rotas curtas, sem formar grandes aglomera\u00e7\u00f5es urbanas como em outras partes do Brasil. Por\u00e9m, o Estatuto da Cidade foi concebido para grandes centros, com um \u201colhar sudestino\u201d, por assim dizer, trazendo instrumentos pouco compat\u00edveis com a realidade amaz\u00f4nica: por exemplo, pressupunha uma produ\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria empresarial e uma estrutura fundi\u00e1ria privada, enquanto em muitas \u00e1reas da Amaz\u00f4nia o solo \u00e9 p\u00fablico e boa parte das din\u00e2micas urbanas s\u00e3o comunit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Isso motivou anos de pesquisas do Observat\u00f3rio, que ir\u00e1 aproveitar a vitrine da C\u00fapula para apresentar, no dia 16, um trabalho de f\u00f4lego de diversos pesquisadores e que pode fornecer insumos para a necess\u00e1ria constru\u00e7\u00e3o de um Estatuto das Cidades Amaz\u00f4nicas. A publica\u00e7\u00e3o tem o apoio da Editora do Senado Federal e estar\u00e1 dispon\u00edvel na plataforma do Senado em breve. O lan\u00e7amento contar\u00e1 com a\u00e7\u00f5es de divulga\u00e7\u00e3o na Zona Verde da COP, com atividades nos espa\u00e7os do BNDES, do pavilh\u00e3o do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) e tamb\u00e9m da FAO, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura. \u00c9 um pontap\u00e9 num debate inadi\u00e1vel.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o toca em feridas hist\u00f3ricas: do projeto de integra\u00e7\u00e3o do centro-sul do Brasil imposto aos povos amaz\u00f4nicos ao imagin\u00e1rio, que sobrevive at\u00e9 hoje, de \u201cvencer o inferno verde\u201d.\u00a0 \u201cA narrativa de uma floresta vazia e de um povo incapaz de transformar em riqueza o patrim\u00f4nio natural que possui, revela a brutal intensidade do racismo institucionalizado contido no discurso do desenvolvimento. A sobreposi\u00e7\u00e3o de mundos produziu formas h\u00edbridas, expressas em uma pluralidade de din\u00e2micas de cria\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de cidades \u2014 a chamada \u2018urbanodiversidade\u2019 \u2014, ao mesmo tempo em que os arranjos ancestrais que resistem s\u00e3o enquadrados como \u2018rurais\u2019\u201d, escreveu Ana Cl\u00e1udia Cardoso, em artigo com a coautoria de Jos\u00e9 Carlos Matos Pereira.<\/p>\n<p>A agenda proposta pelo Observat\u00f3rio Amazonicidades aventa que, primeiro, \u00e9 preciso ter em conta que cidade e urbano n\u00e3o s\u00e3o, necessariamente, sin\u00f4nimos. Grosseiramente falando, este seria um modo de vida e processo social, em contraponto ao rural; aquele, um lugar f\u00edsico, delimitado e pol\u00edtico, que carrega certa identidade, de assentamento humano. Assim sendo, uma cidade n\u00e3o se faz somente de edifica\u00e7\u00f5es, como sempre nos vem \u00e0 mente: pode ser constitu\u00edda de vilas, comunidades, ch\u00e1caras, \u00e1reas de cultivo etc. Ou seja, \u00e9 preciso repensar a linha invis\u00edvel (e problem\u00e1tica, neste caso) que divide campo e cidade.<\/p>\n<p>Diante desse contexto, \u00e9 crucial tamb\u00e9m pensar as cidades m\u00e9dias como atores estrat\u00e9gicos no sistema urbano amaz\u00f4nico, exercendo uma fun\u00e7\u00e3o de media\u00e7\u00e3o entre as localidades de menor porte e as capitais regionais. O efeito pode ser not\u00e1vel: a interioriza\u00e7\u00e3o do acesso a direitos sociais, como Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o. Para viabilizar essa fun\u00e7\u00e3o, imp\u00f5e-se uma revis\u00e3o dos instrumentos de gest\u00e3o p\u00fablica \u2014 como diretrizes, normas e editais \u2014 de modo a adapt\u00e1-los \u00e0s realidades desses munic\u00edpios. Estes, frequentemente, enfrentam a combina\u00e7\u00e3o perversa de escassez de recursos e excesso de burocracias, que os impede de responder \u00e0 altura de seus desafios espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Paralelamente, \u00e9 premente a cria\u00e7\u00e3o de mecanismos de media\u00e7\u00e3o de conflitos para conter os despejos e a desterritorializa\u00e7\u00e3o que assolam as comunidades. Esta medida, contudo, \u00e9 insepar\u00e1vel do enfrentamento da quest\u00e3o fundi\u00e1ria estrutural. Isso implica duas frentes de a\u00e7\u00e3o complementares: assegurar e regularizar o uso coletivo das terras p\u00fablicas fora dos per\u00edmetros urbanos; e desenvolver uma pol\u00edtica habitacional integrada, que atenda tanto \u00e0 demanda urbana quanto \u00e0 rural, com especial aten\u00e7\u00e3o ao patrim\u00f4nio fundi\u00e1rio da Uni\u00e3o. A Amaz\u00f4nia, portanto, n\u00e3o padece de uma falta de espa\u00e7o, mas sim de uma crise de gest\u00e3o do territ\u00f3rio \u2014 um baita entrave para a garantia do Direito \u00e0 Moradia Digna para suas maiorias.<\/p>\n<p>A colet\u00e2nea avan\u00e7a ainda em propostas estruturantes, articulando a supera\u00e7\u00e3o do paradigma dos grandes projetos \u2014 e de seus impactos socioambientais \u2014 \u00e0 aposta numa economia baseada na \u201cfloresta em p\u00e9\u201d. Essa nova l\u00f3gica econ\u00f4mica prioriza a cria\u00e7\u00e3o de circuitos locais e regionais de produ\u00e7\u00e3o, comercializa\u00e7\u00e3o e consumo, assegurando pre\u00e7os justos e acessibilidade para as popula\u00e7\u00f5es de baixa renda. Um eixo central dessa estrat\u00e9gia \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o entre o urbano e o rural, potencializada pela expans\u00e3o dos quintais produtivos e da agricultura urbana, refor\u00e7ando a seguran\u00e7a alimentar e a resili\u00eancia das cidades. O fio condutor \u00e9 tecer uma nova rela\u00e7\u00e3o entre a cidade e a floresta. E, em contraposi\u00e7\u00e3o a vis\u00f5es romantizadas, que fazem os amaz\u00f4nidas revirar os olhos com tantos clich\u00eas (e desinforma\u00e7\u00e3o), o foco est\u00e1 na organiza\u00e7\u00e3o popular, no Estado e na participa\u00e7\u00e3o coletiva.\u00a0<\/p>\n<p><strong>III. O que os povos das florestas podem ensinar<\/strong><\/p>\n<p>Quest\u00f5es como estas ganham, cada vez mais, f\u00f4lego nos debates sobre o futuro das cidades brasileiras. N\u00e3o somente devido aos eventos clim\u00e1ticos extremos \u2014 de grandes inunda\u00e7\u00f5es e secas a ondas de calor extremo \u2014 que exp\u00f5em os fracassos do modelo ocidental de urbaniza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pelo surgimento de uma \u201cintelectualidade ind\u00edgena\u201d. Antes das problematiza\u00e7\u00f5es pertinentes, explico: a express\u00e3o tem mesmo um cheirinho de exotifica\u00e7\u00e3o e tentativa de associar conhecimentos ancestrais aos moldes do homem branco. Mas, se Daniel Munduruku a utiliza, talvez n\u00e3o tenha tanto problema\u2026 \u00a0<\/p>\n<p>A Lei de Cotas de 2012 catalisou transforma\u00e7\u00f5es nas universidades e, logo, essa intelectualidade. A mon\u00f3tona paisagem acad\u00eamica, majoritariamente branca e de classe m\u00e9dia alta, come\u00e7ou a ser reconfigurada pela presen\u00e7a de jovens das periferias, povos ind\u00edgenas e comunidades quilombolas. Diante de uma institui\u00e7\u00e3o engessada e distante das realidades que representavam, esses grupos n\u00e3o se limitaram a ocupar um espa\u00e7o f\u00edsico: era preciso, tamb\u00e9m, batalhar por repert\u00f3rios te\u00f3ricos e representa\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>A morosidade da revis\u00e3o curricular institucional n\u00e3o os deteve. Pelo contr\u00e1rio, impulsionou sua incurs\u00e3o, ainda que limitada, pela doc\u00eancia, pela p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pelos institutos de pesquisa. A partir desses novos lugares de fala e poder, passaram a conduzir projetos sociais inovadores, a cavar espa\u00e7os na pol\u00edtica institucional e a conferir visibilidade a bibliografias decoloniais. Em paralelo, pensadores como Ailton Krenak, Ant\u00f4nio N\u00eago Bispo e Davi Kopenawa, cujas vozes ecoavam saberes ancestrais e cr\u00edticas radicais, transitaram do reconhecimento comunit\u00e1rio para o destaque midi\u00e1tico e a relev\u00e2ncia acad\u00eamica.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi uma revolu\u00e7\u00e3o, claro. Mas uma in\u00e9dita \u201cocupa\u00e7\u00e3o\u201d de um espa\u00e7o que, historicamente, lhes foi negado. Uma transforma\u00e7\u00e3o \u201cpor dentro do sistema\u201d. Desta nova universidade, forjada pela Lei de Cotas, emerge uma gera\u00e7\u00e3o de militantes amaz\u00f4nicos que traz outros olhares no debate sobre cidade, territ\u00f3rio e justi\u00e7a socioambiental. Como observa a professora Ana Cl\u00e1udia, que acompanha esse processo h\u00e1 13 anos, \u201cest\u00e1 criando uma for\u00e7a nova [pol\u00edtica] no Brasil\u201d \u2014 uma for\u00e7a que op\u00f5e cosmovis\u00f5es alternativas ao modelo de \u201cconcreto, a\u00e7o e asfalto\u201d respons\u00e1vel por sucessivas cat\u00e1strofes. S\u00e3o vozes que, a partir de experi\u00eancias locais, inscrevem novos repert\u00f3rios te\u00f3ricos e abrem a pol\u00edtica para outros modos de habitar o mundo.<\/p>\n<p>Mas o que, <em>concretamente<\/em>, isso implicaria? Afinal, 160 milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o podem viver, hoje, da mesma forma que aldeias amaz\u00f4nicas, como costuma lembrar o renomado antrop\u00f3logo Eduardo Viveiros de Castro, por exemplo. A resposta: <em>simplesmente<\/em>, \u201cuma cidade que tivesse a possibilidade de acesso pr\u00f3ximo \u00e0 natureza, que tivesse suas \u00e1guas vivas \u2014 e n\u00e3o rios mortos \u2014, que tivesse espa\u00e7os para essa reconex\u00e3o. Todo mundo ia se beneficiar\u201d, diz a professora Ana Cl\u00e1udia Duarte Cardoso.<\/p>\n<p>Duas a\u00e7\u00f5es do poder p\u00fablico, por exemplo, seriam uma \u201cm\u00e3o na roda\u201d para catalisar isso. Primeiramente, respeitar as \u00e1reas de v\u00e1rzea. A v\u00e1rzea \u00e9 um lugar que permite aos povos acessar o rio rapidamente, inclusive como meio de transporte, tem a abund\u00e2ncia de prote\u00edna vinda da pesca, possibilita o cultivo entre assentamento e mata, al\u00e9m de ser espa\u00e7o de lazer, espiritualidade e partilha. \u201c\u00c9 o melhor de todos os mundos!\u201d, garante a professora, \u201c\u00e9 uma l\u00f3gica ind\u00edgena de se estabelecer no territ\u00f3rio\u201d. Ao inv\u00e9s de gastar absurdos em obras de macrodrenagem \u2014 obras que ajudam a evitar enchentes e alagamentos em bacias hidrogr\u00e1ficas inteiras, como canaliza\u00e7\u00e3o e retifica\u00e7\u00e3o de rios e c\u00f3rregos urbanos e constru\u00e7\u00e3o de piscin\u00f5es \u2014, governos deveriam investir em tecnologias de ponta para recuperar os rios polu\u00eddos pelo processo de urbaniza\u00e7\u00e3o, que custam cerca de tr\u00eas vezes menos, aponta ela. \u201cInclusive, em cidades menores, \u00e9 comum ver pessoas com as roupas molhadas porque foram dar um mergulho no igarap\u00e9. \u00c0s vezes, as pessoas n\u00e3o querem necessariamente pra\u00e7as, mas um rio limpo, pois isso \u00e9 algo cultural para eles\u201d, diz. Quando isso \u00e9 negado, continua a professora, como em Barcarena, cidade a duas horas de Bel\u00e9m, onde os cursos d\u2019\u00e1gua est\u00e3o envenenados com elementos qu\u00edmicos, h\u00e1 uma <em>morte em vida<\/em>. A solu\u00e7\u00e3o, em geral, \u00e9 retirar comunidades de ocupa\u00e7\u00f5es consolidadas, h\u00e1 s\u00e9culos, sen\u00e3o h\u00e1 mil\u00eanios.\u00a0<\/p>\n<p>Outra forma concreta de inserir perspectivas ancestrais \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da envolt\u00f3ria verde das cidades. De acordo com ela, popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, com suas maneiras pr\u00f3prias de organizar seus territ\u00f3rios, seja de forma circular, linear ou poligonal, t\u00eam algo em comum: a permeabilidade com a floresta, que prov\u00ea sustento e \u00e9 importante reguladora do microclima, especialmente quando cidades como Bel\u00e9m batem os 40 graus.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a gest\u00e3o p\u00fablica est\u00e1 endurecida e em retrocesso, avalia ela, \u201cmarcada por um sistema de representatividade comprometido\u201d. As elei\u00e7\u00f5es, cada vez mais dependentes de grandes investimentos em propaganda, recorrem a financiamentos de origens obscuras, resultando em legislativos dominados por setores conservadores e alheios \u00e0s desigualdades e \u00e0 crise clim\u00e1tica. Obras de macrodrenagem, por exemplo, s\u00e3o capital pol\u00edtico para angariar votos, pois inevitavelmente popula\u00e7\u00f5es de assentamentos informais esperam melhoras \u2014 e r\u00e1pidas, pois quem vive em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria tem pressa. Al\u00e9m disso, mesmo quando o Executivo demonstra vontade de agir, esbarra na resist\u00eancia do Legislativo \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e planos diretores eficazes.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cFaltam outros repert\u00f3rios\u201d, avalia a professora. \u201cH\u00e1 s\u00e9culos somos orientados por uma determinada estrat\u00e9gia. N\u00e3o sabemos como orientar a vida de outra maneira. H\u00e1, ent\u00e3o, um preconceito, uma rela\u00e7\u00e3o de desvaloriza\u00e7\u00e3o, de subalternidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas que sabiam como resolver estas quest\u00f5es e conviver com o bioma. Hoje, isso volta-se contra todos. Isso n\u00e3o aconteceu somente aqui. Afinal, uma caracter\u00edstica do capitalismo \u00e9 homogeneizar espa\u00e7os para control\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Cicatrizes do \u201cprogresso\u201d. Terra: abundante e negada. Riqueza \u00e9tnica e natural. Qual modelo de planejamento as urbes amaz\u00f4nidas necessitam? Como o Estado deveria atuar? Povos da floresta oferecem sa\u00eddas \u2014 mas estamos prontos para ouvi-las?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outras-cidades\/cop30-hora-de-discutir-as-cidades-amazonicas\/\">COP30: Hora de discutir as cidades amaz\u00f4nicas<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":64566,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[30106,2519,30107,30108,30105,30109,30110,30111],"tags":[],"class_list":["post-64565","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cidades-amazonicas","category-cop30","category-estatuto-das-cidades","category-estatuto-das-cidades-amazonicas","category-outras-cidades","category-povos-da-floresta","category-realidade-amazonica","category-rural-e-urbano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64565","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64565"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64565\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64566"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64565"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64565"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64565"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}