{"id":66735,"date":"2025-11-26T19:32:52","date_gmt":"2025-11-26T22:32:52","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wikifavelas-uma-antropologia-das-torcidas-no-futebol\/"},"modified":"2025-11-26T19:32:52","modified_gmt":"2025-11-26T22:32:52","slug":"wikifavelas-uma-antropologia-das-torcidas-no-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wikifavelas-uma-antropologia-das-torcidas-no-futebol\/","title":{"rendered":"Wikifavelas: Uma antropologia das torcidas no futebol"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1125\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Drone-mostra-chegada-da-torcida-do-Vasco-no-CT-Moacyr-Barbosa.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Drone-mostra-chegada-da-torcida-do-Vasco-no-CT-Moacyr-Barbosa-1500x1125.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Drone-mostra-chegada-da-torcida-do-Vasco-no-CT-Moacyr-Barbosa-300x225.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Drone-mostra-chegada-da-torcida-do-Vasco-no-CT-Moacyr-Barbosa-768x576.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Drone-mostra-chegada-da-torcida-do-Vasco-no-CT-Moacyr-Barbosa-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Drone-mostra-chegada-da-torcida-do-Vasco-no-CT-Moacyr-Barbosa.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Mais do que um repert\u00f3rio simb\u00f3lico central do imagin\u00e1rio social do Brasil, o futebol constitui um fen\u00f4meno hist\u00f3rico e social complexo, cuja centralidade no cotidiano das favelas e periferias tem sido analisada por historiadores, soci\u00f3logos e demais formadores de opini\u00e3o como, por exemplo, DaMatta (1982) e Galeano (1995). O debate sobre futebol e viol\u00eancia, em especial, ganha densidade quando observado a partir das din\u00e2micas sociais presentes nesses territ\u00f3rios. Ao abordar o futebol em sua dimens\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o social, \u00e9 poss\u00edvel perceber como essa pr\u00e1tica se consolida historicamente no cotidiano das favelas e periferias, tornando-se um eixo estruturante da sociabilidade local, da forma\u00e7\u00e3o de identidades coletivas e da circula\u00e7\u00e3o de afetos, solidariedades e rivalidades.<\/p>\n<p>O processo de populariza\u00e7\u00e3o do futebol, at\u00e9 seu reconhecimento como o esporte mais seguido do planeta, n\u00e3o pode ser dissociado da participa\u00e7\u00e3o ativa das camadas populares, que transformaram ruas, becos e campos improvisados em espa\u00e7os de conviv\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o cultural. Nessas \u00e1reas, o futebol articula pertencimento, mant\u00e9m vivas tradi\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e serve como uma linguagem comum capaz de unir diferentes gera\u00e7\u00f5es, ao mesmo tempo em que expressa tens\u00f5es presentes na vida cotidiana.<\/p>\n<p>Ao situar o futebol dentro desse tecido social, compreende-se que ele funciona como um fen\u00f4meno cultural que atravessa pol\u00edtica, educa\u00e7\u00e3o e economia, mas cuja rela\u00e7\u00e3o com a viol\u00eancia exige aten\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. A viol\u00eancia que incide sobre as favelas e periferias, marcada por desigualdades hist\u00f3ricas, pela presen\u00e7a intensa do Estado sob a forma de repress\u00e3o e pela persist\u00eancia de conflitos territoriais, influencia diretamente as formas de sociabilidade que se constroem em torno do esporte. Da mesma maneira, a viol\u00eancia associada ao universo futebol\u00edstico, seja em pr\u00e1ticas de torcidas organizadas, disputas territoriais ou tens\u00f5es institucionais, reverbera na vida social desses territ\u00f3rios, refor\u00e7ando estigmas, aprofundando vulnerabilidades e afetando trajet\u00f3rias individuais e coletivas. Assim, discutir futebol e viol\u00eancia implica reconhecer esse movimento de influ\u00eancias rec\u00edprocas, no qual as periferias e favelas n\u00e3o s\u00e3o apenas cen\u00e1rio, mas protagonistas na produ\u00e7\u00e3o de sentidos, pr\u00e1ticas e desafios que estruturam o fen\u00f4meno esportivo e suas implica\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Prancheta--23.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Prancheta--23.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>No Rio de Janeiro, temos o Batalh\u00e3o Especial de Policiamento em Est\u00e1dios (BEPE), unidade da PMERJ respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a em eventos esportivos, desempenha um papel central no monitoramento e na preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no futebol. Segundo o ex-comandante do BEPE, Tenente-Coronel Silvio Luiz, em entrevista concedida a Leonardo Teixeira, as brigas em partidas envolvendo os chamados clubes \u201cgrandes\u201d \u2014 Vasco, Botafogo, Fluminense e Flamengo, que tradicionalmente mobilizam maiores p\u00fablicos \u2014 vinham apresentando redu\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos. Ele ressalta que eliminar completamente esses epis\u00f3dios \u00e9 praticamente imposs\u00edvel, mas destaca que houve avan\u00e7os significativos em compara\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio observado em temporadas anteriores.<\/p>\n<p>Concomitante a isso, observou-se o surgimento de novas din\u00e2micas e o aumento do n\u00famero de integrantes de torcidas organizadas vinculadas a clubes de menor investimento \u2014 aqueles que n\u00e3o contam com grandes massas de torcedores nem ocupam com frequ\u00eancia os principais espa\u00e7os da m\u00eddia esportiva, como Bonsucesso, Olaria, Duque de Caxias, Am\u00e9rica, Bangu e Americano, entre outros. Partidas que historicamente eram percebidas como tranquilas e pouco propensas a conflitos passaram a registrar epis\u00f3dios de viol\u00eancia, enquanto novas rivalidades emergiam e se consolidavam no cen\u00e1rio do futebol carioca.<\/p>\n<p>De maneira geral, os \u00faltimos anos t\u00eam refletido um aumento da viol\u00eancia no futebol em todo o pa\u00eds. S\u00e3o diversos os casos de brigas, feridos e at\u00e9 mesmo mortos em decorr\u00eancia de confrontos entre torcedores rivais nesse tipo de evento. A no\u00e7\u00e3o de \u201cseguran\u00e7a\u201d evocada na resposta \u00e0 viol\u00eancia nos est\u00e1dios exige problematiza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica: n\u00e3o se trata apenas de restabelecer a calma f\u00edsica do espa\u00e7o para que fam\u00edlias e pessoas que n\u00e3o querem compactuar com a viol\u00eancia retornem \u00e0s arquibancadas, mas de entender quais amea\u00e7as s\u00e3o priorizadas, para quem se produz prote\u00e7\u00e3o e a que custo social e legal essa prote\u00e7\u00e3o \u00e9 implementada.<\/p>\n<p>Estudos como o \u201cEsporte, Dados e Direito\u201d, relat\u00f3rio do Centro de Estudos de Seguran\u00e7a e Cidadania (CeSec), demonstram que a seguran\u00e7a nos est\u00e1dios tem sido progressivamente refratada por uma agenda de controle, na qual o foco desloca-se da preven\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria de conflitos e das pol\u00edticas sociais para dispositivos tecnol\u00f3gicos e pr\u00e1ticas punitivas que visam gerir multid\u00f5es e perfis de risco. Esse movimento operacionaliza uma concep\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a centrada na visibilidade e na previsibilidade de comportamentos, o que, na pr\u00e1tica, torna corpos e trajet\u00f3rias, sobretudo de jovens perif\u00e9ricos e de torcedores provenientes de favelas, objetos de vigil\u00e2ncia e de classifica\u00e7\u00e3o \u2014 fen\u00f4meno que pretendemos tratar no decorrer deste texto.<\/p>\n<p><strong>REPRESENTA\u00c7\u00c3O SOCIAL DAS TORCIDAS ORGANIZADAS<\/strong><\/p>\n<p>As torcidas organizadas brasileiras t\u00eam, em sua maioria, origem no final dos anos 1960 e ao longo da d\u00e9cada de 1980 (Pimenta, 2000), sobretudo no caso dos clubes de maior investimento do pa\u00eds. Com o passar do tempo, suas diretrizes, pr\u00e1ticas e formas de atua\u00e7\u00e3o foram se transformando. Em seus primeiros anos, essas torcidas se constitu\u00edam principalmente como coletivos juvenis voltados para a festa: grupos que se mobilizavam para apoiar, animar e celebrar o clube de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob uma perspectiva sociol\u00f3gica, contudo, \u00e9 poss\u00edvel compreender que sua organiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m expressa processos de afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria profundamente vinculados \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o e \u00e0s experi\u00eancias educativas \u2014 formais ou informais. A forma\u00e7\u00e3o dessas identidades envolve a necessidade de pertencimento a grupos, dimens\u00e3o que atravessa a cultura brasileira e nossos modos de educar, refor\u00e7ando a ideia de que integrar-se a coletividades \u00e9 parte constitutiva da constru\u00e7\u00e3o de si. Muitas vezes, essa busca por identidade e pertencimento n\u00e3o encontra respaldo no \u00e2mbito familiar e passa a ser suprida pelas torcidas organizadas, onde jovens que compartilham valores, experi\u00eancias e modos de vida semelhantes encontram um espa\u00e7o de reconhecimento m\u00fatuo. Nesse ambiente, sentem-se mais livres para expressar quem s\u00e3o, elaborar suas tens\u00f5es e construir sociabilidades que lhes conferem sentido, prote\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e afirma\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/ADC30_Engels_anuncio_OP-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/ADC30_Engels_anuncio_OP-3.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ADC30_Engels_anuncio_OP-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Sendo o g\u00eanero uma constru\u00e7\u00e3o social, o universo do futebol se configura como um dos principais palcos de produ\u00e7\u00e3o e reafirma\u00e7\u00e3o da identidade masculina, onde normas, performances e expectativas de masculinidade s\u00e3o continuamente encenadas e negociadas. Diante disso, \u00e9 sabido que o futebol historicamente se consolidou como um espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o da masculinidade, muitas vezes associado \u00e0 for\u00e7a f\u00edsica e \u00e0 virilidade. Na nossa cultura, de modo geral, g\u00eanero \u00e9 um elemento definidor de inteligibilidade; \u201c<em>n\u00e3o se pode dizer que os corpos tenham uma exist\u00eancia signific\u00e1vel anterior \u00e0 marca do seu g\u00eanero<\/em>\u201d (Butler, 2003, p. 27).<\/p>\n<p>Buscando aprofundar essa quest\u00e3o, Dagmar Meyer (2003) aponta algumas implica\u00e7\u00f5es importantes ao se utilizar o conceito nessa perspectiva. Uma dessas perspectivas destaca que as formas de viver masculinidades e feminilidades s\u00f3 podem ser compreendidas a partir de seus contextos hist\u00f3ricos e sociais espec\u00edficos, o que implica reconhecer a exist\u00eancia de m\u00faltiplas maneiras de experimentar e expressar feminilidades e masculinidades. Em fun\u00e7\u00e3o dessa pluralidade, o conceito ganha ainda mais for\u00e7a quando pensada sua articula\u00e7\u00e3o com outros marcadores sociais, como sexualidade, classe, ra\u00e7a ou etnia, reconhecendo que os pap\u00e9is de g\u00eanero tamb\u00e9m se expressam de formas distintas no universo do futebol, refletindo din\u00e2micas mais amplas da vida social. Por fim, a autora tamb\u00e9m aponta as rela\u00e7\u00f5es entre os \u201csujeitos de g\u00eanero\u201d, considerando que as constru\u00e7\u00f5es de masculinidades est\u00e3o relacionadas a (re)produ\u00e7\u00e3o de feminilidades. Nesse caso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel isolar um suposto mundo dos homens de um suposto mundo das mulheres, assim como n\u00e3o somos capazes de enxergar, atualmente, um meio futebol\u00edstico dominado apenas por um deles, ainda que com determinada predomin\u00e2ncia. Para Butler (2003, p.18),<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00a0[\u2026] as institui\u00e7\u00f5es sociais, os s\u00edmbolos, as normas, os conhecimentos, as leis, as doutrinas e as pol\u00edticas de uma sociedade s\u00e3o constitu\u00eddas e atravessadas por representa\u00e7\u00f5es e pressupostos de feminino e de masculino ao mesmo tempo que est\u00e3o centralmente implicadas com sua produ\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o ou ressignifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao presenciar o dia a dia e a rotina futebol\u00edstica nas ruas e nas arquibancadas, \u00e9 poss\u00edvel observar um movimento crescente no que dita a desconstru\u00e7\u00e3o da exclusividade masculina no esporte, tamb\u00e9m refletido em outras modalidades esportivas, refor\u00e7ando que \u201c<em>mesmo que existam regras, que se tracem planos e sejam criadas estrat\u00e9gias e t\u00e9cnicas, haver\u00e1 aqueles e aquelas que rompem as regras e transgridem os arranjos. A imprevisibilidade \u00e9 inerente ao percurso<\/em>\u201d (Louro, 2004, p. 16). Contudo, embora essa tend\u00eancia de inclus\u00e3o feminina tenha avan\u00e7ado em esportes caracterizados por alta competitividade e agressividade, ainda h\u00e1 ind\u00edcios de que a viol\u00eancia relacionada \u00e0s torcidas organizadas permanece predominantemente masculina. Nesse cen\u00e1rio, s\u00e3o refor\u00e7ados tra\u00e7os culturais frequentemente associados aos homens, como a agressividade e a defesa da honra, valores profundamente arraigados na socializa\u00e7\u00e3o desses indiv\u00edduos. Ao direcionar o olhar para a rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica entre masculinidade e competi\u00e7\u00e3o, Cecchetto (2004) aponta que estudos etnogr\u00e1ficos revelam sociedades nas quais a identidade masculina \u00e9 frequentemente associada a uma disposi\u00e7\u00e3o considerada intr\u00ednseca \u2014 algo a ser adquirido por esfor\u00e7o, m\u00e9rito ou supera\u00e7\u00e3o \u2014 e cuja legitima\u00e7\u00e3o passa por rituais, provas ou din\u00e2micas competitivas.<\/p>\n<p>Segundo levantamento realizado pela FGV\/CPDOC, o perfil dos torcedores organizados nos estados do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo \u00e9 majoritariamente masculino (91% no RJ e 86% em SP), solteiro (77% e 72%), com at\u00e9 40 anos (93% e 94%), ensino m\u00e9dio completo (58% e 62%) e residente nas capitais (64% e 67%). Pimenta (2000) apresenta o torcedor organizado a partir de um conceito de <em>novo sujeito social<\/em>. Para tal, caracteriza o sujeito como algu\u00e9m mobilizado pelo prazer e pela excita\u00e7\u00e3o associados \u00e0 pr\u00e1tica de atos violentos. Essa vis\u00e3o de \u201chonra\u201d, que parece justificar confrontos, transcende os limites das arquibancadas, alcan\u00e7ando as \u00e1reas ao redor dos est\u00e1dios, bares e ruas pr\u00f3ximas. Dessa forma, a viol\u00eancia n\u00e3o se restringe ao interior das partidas, mas se desdobra por outros espa\u00e7os urbanos, ampliando seu impacto para al\u00e9m do evento esportivo. Nesse sentido, \u201c<em>a mola propulsora dessas dimens\u00f5es sociais, combinadas com uma infinidade de fatores hist\u00f3ricos, econ\u00f4micos e socioculturais, ganha efeito pela produ\u00e7\u00e3o do esvaziamento pol\u00edtico do sujeito social<\/em>\u201d (Pimenta, 2000, p. 126).<\/p>\n<p>Segundo Barros, Junior e Netto (2009), esses torcedores s\u00e3o majoritariamente jovens oriundos de favelas e periferias, que muitas vezes n\u00e3o contam com a presen\u00e7a cotidiana da figura paterna em raz\u00e3o de diferentes fatores \u2014 entre eles, a necessidade de longas jornadas de trabalho para assegurar o sustento familiar. Nesse contexto, o grupo de torcida passa a assumir, em certa medida, fun\u00e7\u00f5es de substitui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, adquirindo caracter\u00edsticas semelhantes \u00e0s de uma estrutura familiar. Em seu estudo, Pimenta (2000) apresenta tamb\u00e9m a entrada de jovens em torcida organizadas ap\u00f3s serem \u201c<em>atra\u00eddos pela vestimenta, for\u00e7a e coes\u00e3o do grupo, rela\u00e7\u00f5es verticalizadas, estilo de vida, prazer da viol\u00eanci<\/em>a\u201d, ou seja, qualquer simbologia que remetesse \u00e0 padroniza\u00e7\u00e3o, ao pertencimento ou aos modelos de sociedade de consumo instaurados no Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 importante salientar que a viol\u00eancia encontrada nas torcidas n\u00e3o deve de forma alguma ser deslocada da viol\u00eancia presente na sociedade como um todo, desde o seu processo civilizat\u00f3rio, sabendo que, afinal, uma se trata do reflexo da outra. Dowdney (2005), ao investigar as motiva\u00e7\u00f5es que levam jovens a se envolverem com grupos violentos, afirma que esse processo est\u00e1 profundamente relacionado ao desejo de pertencimento \u2014 a necessidade de integrar um grupo ou gangue. Para o autor, tal inser\u00e7\u00e3o conecta-se diretamente \u00e0s aptid\u00f5es e habilidades desses jovens, que n\u00e3o apenas s\u00e3o reconhecidas nesses ambientes, como tamb\u00e9m potencializadas.<\/p>\n<p>De forma mais minuciosa, n\u00e3o se pode afirmar categoricamente que indiv\u00edduos se tornam violentos por integrarem torcidas organizadas, ou que se associam a essas torcidas devido \u00e0 predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia. O ponto essencial \u00e9 reconhecer, diante dos expostos estudados e de observa\u00e7\u00f5es pessoais que temos realizado, que o enfrentamento com torcidas rivais confere ao indiv\u00edduo um sentido de pertencimento, al\u00e9m de garantir prest\u00edgio e reconhecimento entre os demais membros, entendendo que h\u00e1 tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica onde se confere respeito e admira\u00e7\u00e3o entre novatos e antigos.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de ser preso ap\u00f3s um ato de viol\u00eancia, por exemplo, \u00e9 muitas vezes interpretada como um ato de bravura, ousadia e dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 torcida, o que eleva o status e a reputa\u00e7\u00e3o desses indiv\u00edduos dentro do grupo \u2014 ao menos entre aqueles que aderem \u00e0s regras impl\u00edcitas dessas organiza\u00e7\u00f5es. Essa l\u00f3gica est\u00e1 diretamente associada a uma concep\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia naturalizada que atravessa e estrutura as rela\u00e7\u00f5es internas desses coletivos. Da Matta (1982) apresenta uma justificativa curiosa para descrever a viol\u00eancia, o que ajuda a compreender melhor a afirma\u00e7\u00e3o anterior: a viol\u00eancia \u00e9 mais do que intr\u00ednseca \u00e0 sociedade brasileira, \u00e9 fato social, inerente \u00e0 sociedade humana. Seu prop\u00f3sito \u00e9 compreender os modos espec\u00edficos de express\u00e3o dessa realidade da viol\u00eancia na sociedade brasileira. Dado o exposto, compreende-se que, mesmo em uma situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e preju\u00edzo da pr\u00f3pria imagem, a experi\u00eancia do c\u00e1rcere pode ser ressignificada, no interior de grupos intensamente envolvidos em epis\u00f3dios de viol\u00eancia, como parte de uma l\u00f3gica pr\u00f3pria. Inconscientemente, essa percep\u00e7\u00e3o se articula a uma perspectiva que rompe com uma vis\u00e3o linear e historicizada da vida social, conduzindo \u00e0 busca de causas ou origens que justifiquem qualquer ato de viol\u00eancia \u2014 e, por consequ\u00eancia, a pr\u00f3pria experi\u00eancia de encarceramento. Esse tipo de comportamento \u00e9 frequentemente valorizado, sendo tratado como uma conquista simb\u00f3lica que contribui para a legitima\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no contexto das torcidas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o fato de passar por situa\u00e7\u00f5es como a pris\u00e3o pode fortalecer os la\u00e7os de sociabilidade entre os membros, consolidando um senso de comunidade. Para Pimenta (2000, p. 125),<\/p>\n<blockquote>\n<p>O \u201ctorcedor\u201d, no modelo \u201corganizado\u201d, n\u00e3o \u00e9 mais um mero espectador do \u201cjogo\u201d. No grupo ele \u00e9 parte do espet\u00e1culo, ele \u00e9 o espet\u00e1culo. No grupo ele expressa sua masculinidade, seus sentimentos de solidariedade, de companheirismo e de pertencimento em um grupo que o acolhe.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No entanto, as tentativas do Estado, representado pela a\u00e7\u00e3o policial, de conter esses \u201cexcessos\u201d evidenciam outras dimens\u00f5es da desordem social presente nas pr\u00e1ticas desses grupos de torcedores.<\/p>\n<p><strong>O BER\u00c7O DAS TORCIDAS ORGANIZADAS NO BRASIL<\/strong><\/p>\n<p>O Rio de Janeiro foi o ber\u00e7o das primeiras torcidas organizadas, com o surgimento da Torcida Jovem do Flamengo em 1967, seguida pela Torcida Jovem do Botafogo em 1969, For\u00e7a Jovem do Vasco e Torcida Young Flu em 1970, e, por fim, Ra\u00e7a Rubro-Negra em 1977. Esse movimento de cria\u00e7\u00e3o se espalhou rapidamente pelo pa\u00eds, provocando, entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, um aumento expressivo no n\u00famero de torcidas organizadas. Desde o in\u00edcio, a rivalidade se mostrou um elemento estruturante: \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma torcida organizada de determinado clube, seguia-se quase imediatamente o surgimento de uma equivalente do time advers\u00e1rio, alimentando disputas j\u00e1 presentes no cen\u00e1rio futebol\u00edstico.<\/p>\n<p>O interessante nesse ponto \u00e9 que as primeiras torcidas organizadas que tinham o interesse irrestrito de apoiar os times, como a Charanga Rubro-Negra \u2014\u00a0 conhecida como a primeira torcida do Brasil \u2014, foram fundadas anos antes; neste caso, em 1942. Logo em seguida, em 1944, tivemos a funda\u00e7\u00e3o da primeira torcida organizada do Vasco da Gama, a Torcida Organizada do Vasco, mais conhecida como TOV. Com o passar dos anos essas torcidas foram perdendo suas for\u00e7as e o h\u00e1bito das torcidas \u201cjovens\u201d foi come\u00e7ando a dominar o cen\u00e1rio das arquibancadas. Uma combina\u00e7\u00e3o de fatores atravessava esse processo: o entusiasmo juvenil para apoiar o time, a disposi\u00e7\u00e3o \u2014 e a energia \u2014 para enfrentar qualquer situa\u00e7\u00e3o, inclusive a viol\u00eancia, e, sobretudo, a busca por pertencimento a um coletivo. A t\u00edtulo de refer\u00eancia sobre este fato, Bernardo B. B. de Hollanda (2016) descreve a partir do exemplo de algumas torcidas da \u00e9poca, algumas torcidas cariocas:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Assimilando parte da efervesc\u00eancia da \u00e9poca, torcidas como o Jovem-Flu, o Poder Jovem do Flamengo e o Poder Jovem do Botafogo nasciam sob o signo da rebeldia e da contesta\u00e7\u00e3o juvenil. Se as Charangas e as Torcidas Organizadas se restringiam ao princ\u00edpio de \u201capoio incondicional\u201d ao time, suas dissid\u00eancias, as \u201cTorcidas Jovens, criticavam os dirigentes, questionavam o desempenho das equipes e punham em xeque a atua\u00e7\u00e3o do antigo chefe de torcida do mesmo time. Com isto, invertiam a concep\u00e7\u00e3o inicial de torcida organizada at\u00e9 ent\u00e3o, vaiando, fazendo passeatas e protestos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O simples ato de apoiar o clube e animar as arquibancadas deixou de ser o \u00fanico prop\u00f3sito das novas torcidas organizadas. Elas n\u00e3o se satisfaziam apenas com isso; buscavam mais, almejavam ser reconhecidas como as mais poderosas, respeitadas e temidas. Um exemplo evidente da busca por impon\u00eancia por parte dessas torcidas est\u00e1 na escolha de seus nomes, que frequentemente remetem a temas ligados \u00e0 gram\u00e1tica da guerra e do poder. \u00c9 comum encontrar torcidas com denomina\u00e7\u00f5es como \u201cF\u00faria\u201d, \u201cIra\u201d, \u201cFor\u00e7a\u201d, \u201cImp\u00e9rio\u201d, \u201cGuerrilha\u201d, \u201cTerror\u201d, \u201cGuerreiros\u201d, \u201cImbat\u00edveis\u201d, \u201cFalange\u201d, \u201cM\u00e1fia\u201d, \u201cInferno\u201d, entre outras. O que une todos esses nomes \u00e9 a evoca\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, respeito e grandiosidade \u2014 elementos que, de forma direta ou simb\u00f3lica, dialogam com a viol\u00eancia. Assim, desde a escolha de suas denomina\u00e7\u00f5es, frequentemente carregadas de alus\u00f5es a confrontos ou pot\u00eancia f\u00edsica, j\u00e1 se evidencia essa l\u00f3gica, por meio da qual muitas torcidas buscam conquistar a admira\u00e7\u00e3o e o destaque que desejam.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da estrutura administrativa, as torcidas passaram a contar com divis\u00f5es estrat\u00e9gicas focadas em enfrentar os grupos advers\u00e1rios nos embates. Dessa forma, no interior de cada torcida foram surgindo subdivis\u00f5es \u2014 como Pelot\u00f5es, Fam\u00edlias, N\u00facleos e outros segmentos \u2014 respons\u00e1veis por diferentes fun\u00e7\u00f5es, incluindo a prote\u00e7\u00e3o de materiais, como faixas e instrumentos musicais. Esse processo acabou produzindo uma estrutura interna cada vez mais hierarquizada, aproximando a organiza\u00e7\u00e3o das torcidas de uma l\u00f3gica de militariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, j\u00e1 havia registros da ocorr\u00eancia de brigas entre torcedores, embora, naquela \u00e9poca, esses confrontos se limitassem a lutas corporais, sem a utiliza\u00e7\u00e3o de armas brancas ou de fogo. Foi nesse per\u00edodo que o problema come\u00e7ou a ganhar forma, mas as autoridades respons\u00e1veis deixaram de adotar medidas efetivas para cont\u00ea-lo desde o in\u00edcio. Essa ina\u00e7\u00e3o permitiu que a situa\u00e7\u00e3o se agravasse e se expandisse ao longo do tempo. Com o passar dos anos, os conflitos se tornaram mais frequentes, e a agressividade dos envolvidos aumentou significativamente. Se no princ\u00edpio os embates ocorriam apenas com o uso das m\u00e3os, posteriormente passaram a incluir objetos como barras de ferro, peda\u00e7os de madeira, pedras, facas e, em alguns casos, at\u00e9 armas de fogo.<\/p>\n<p>Os anos 1990 ficaram marcados como o per\u00edodo em que a viol\u00eancia entre torcidas organizadas se intensificou. Foi nessa \u00e9poca que os torcedores come\u00e7aram a recorrer a paus e pedras como armas durante os confrontos. Como resultado, houve um aumento consider\u00e1vel no n\u00famero de v\u00edtimas fatais ou pessoas que sofreram sequelas f\u00edsicas permanentes. Um acontecimento que simbolizou o in\u00edcio dessa era violenta foi o assassinato de Cleofas S\u00f3stentes da Silva, um dos fundadores da Torcida Mancha Verde (torcida organizada do Palmeiras), em 1988. Apesar de as investiga\u00e7\u00f5es policiais n\u00e3o terem identificado os respons\u00e1veis, integrantes da torcida acreditam que o crime foi motivado por uma repres\u00e1lia de uma torcida rival ap\u00f3s um confronto anterior. Esse assassinato representou um verdadeiro divisor de \u00e1guas. At\u00e9 ent\u00e3o, vigorava entre as torcidas uma esp\u00e9cie de \u201cc\u00f3digo de conduta\u201d que interditava o uso de armas. Ap\u00f3s o ocorrido, contudo, abriu-se um precedente perigoso, e a utiliza\u00e7\u00e3o de instrumentos letais em confrontos passou a se tornar cada vez mais recorrente. At\u00e9 hoje, o caso permanece sem solu\u00e7\u00e3o, e nenhum envolvido foi identificado.<\/p>\n<p><strong>O PAPEL DO POLICIAMENTO EM EST\u00c1DIOS \u2014 E A RESIST\u00caNCIA DAS RUAS<\/strong><\/p>\n<p>O hist\u00f3rico de despreparo e abordagem repressiva das for\u00e7as policiais em nossa sociedade \u00e9 amplamente conhecido; no futebol essa realidade n\u00e3o \u00e9 diferente. Casos de interven\u00e7\u00f5es inadequadas por parte da pol\u00edcia ocorrem com frequ\u00eancia e evidenciam que, com um treinamento mais adequado, seria poss\u00edvel reduzir significativamente os epis\u00f3dios de viol\u00eancia \u2014 n\u00e3o apenas aqueles relacionados ao esporte, mas tamb\u00e9m os que marcam o cotidiano mais amplo das din\u00e2micas urbanas. No contexto aqui apresentado, enquanto de um lado existem torcedores organizados que buscam o confronto entre si, do outro, h\u00e1 a atua\u00e7\u00e3o de um contingente policial mal preparado, que frequentemente agrava a situa\u00e7\u00e3o diante da responsabilidade de solucion\u00e1-la.\u00a0<\/p>\n<p>Eventos esportivos re\u00fanem multid\u00f5es, o que exige que os profissionais de seguran\u00e7a p\u00fablica sejam devidamente capacitados para lidar com essas situa\u00e7\u00f5es. Contudo, o que se observa na pr\u00e1tica, s\u00e3o policiais equipados com sprays de pimenta, bombas de g\u00e1s e balas de borracha, utilizando essas ferramentas de forma desordenada e, em muitos casos, atingindo inocentes que n\u00e3o t\u00eam liga\u00e7\u00e3o com os eventos potencialmente violentos ocorridos. O policiamento deveria adotar uma postura preventiva, mas, no Brasil, \u00e9 predominantemente reativo e repressivo, o que n\u00e3o s\u00f3 deixa de solucionar os conflitos, como tamb\u00e9m os intensifica.\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 in\u00fameros relatos de uso desproporcional da for\u00e7a policial, resultando em trag\u00e9dias que poderiam ter sido evitadas com melhor preparo. Um exemplo marcante ocorreu em 2017, durante um cl\u00e1ssico entre Vasco e Flamengo, quando, nos arredores do Est\u00e1dio de S\u00e3o Janu\u00e1rio, um tumulto entre torcedores vasca\u00ednos terminou com um disparo fatal de um policial militar, que atingiu um torcedor no abd\u00f4men, levando-o a \u00f3bito.\u00a0 \u00c9 not\u00f3rio que fatos como esse evidenciam a urg\u00eancia de um treinamento mais eficaz e uma capacita\u00e7\u00e3o adequada para os agentes de seguran\u00e7a que atuam neste campo, sendo mais do que percept\u00edvel que a repress\u00e3o, como tem sido aplicada, n\u00e3o contribui para resolver o problema da viol\u00eancia no futebol, pelo contr\u00e1rio, o torna um ambiente ainda mais violento.\u00a0<\/p>\n<p>Especificamente no estado do Rio de Janeiro, o aumento da viol\u00eancia nos est\u00e1dios, desde os anos 1990, levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a policial especializada para lidar com essas situa\u00e7\u00f5es, resultando no surgimento do, at\u00e9 ent\u00e3o, Grupamento Especial de Policiamento em Est\u00e1dios (GEPE), em 1991. Inicialmente denominado Grupo de Vigil\u00e2ncia em Est\u00e1dios, foi idealizado durante a gest\u00e3o do coronel Cerqueira como Chefe do Estado-Maior da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro. O grupamento surgiu ainda com o objetivo de compreender o fen\u00f4meno das torcidas organizadas por meio de estudos e treinamentos voltados aos policiais que o integravam.<\/p>\n<p>Durante o mandato de Leonel Brizola (PDT) \u00e0 frente do governo do Rio de Janeiro, a Pol\u00edcia Militar adotou um modelo de policiamento baseado na proximidade com a comunidade e na defesa dos Direitos Humanos. Nesse contexto, foram criados centros comunit\u00e1rios e grupamentos espec\u00edficos, como os voltados para o turismo e para os est\u00e1dios. Inicialmente, a seguran\u00e7a nos jogos era responsabilidade do batalh\u00e3o local, que destacava parte de seu efetivo para o est\u00e1dio, sem treinamento especializado para a fun\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a implementa\u00e7\u00e3o do GEPE, sua atua\u00e7\u00e3o se restringia ao Complexo Desportivo do Maracan\u00e3, mas logo foi ampliada para eventos esportivos, culturais e art\u00edsticos em todo o estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em junho de 1995, durante o governo de Marcello Alencar (PSDB), o GEPE foi extinto por decis\u00e3o da Secretaria Estadual de Seguran\u00e7a P\u00fablica, segundo arquivos internos do Grupamento cedido a este estudo em vias exclusivas. Contudo, foi recriado em 20 de janeiro de 1999, durante o governo de Anthony Garotinho (PDT), em resposta \u00e0s demandas da popula\u00e7\u00e3o e da imprensa, diretamente ligadas ao novo aumento dos \u00edndices de viol\u00eancia e n\u00fameros de mortes na cidade do Rio de Janeiro. A refunda\u00e7\u00e3o ocorreu no contexto de um amistoso entre Flamengo e Fluminense, marcando a reabertura da geral do Maracan\u00e3 ap\u00f3s quatro anos. A formaliza\u00e7\u00e3o do ato, entretanto, s\u00f3 foi oficializada em 3 de fevereiro de 1999. J\u00e1 em 31 de julho de 2018, durante o governo de Luiz Fernando Pez\u00e3o (PMDB), o GEPE foi transformado em Batalh\u00e3o Especializado de Policiamento em Est\u00e1dios (BEPE) pela resolu\u00e7\u00e3o SESEG n\u00ba 1.213, publicada no Di\u00e1rio Oficial. Essa transi\u00e7\u00e3o ocorreu sem aumento de efetivo ou custos, sendo resultado de um processo de aprimoramento cont\u00ednuo desenvolvido ao longo dos anos sob diferentes comandos.<\/p>\n<p>Diversas medidas ineficazes foram adotadas pelas autoridades na tentativa de combater a viol\u00eancia no futebol. Entre elas est\u00e3o a proibi\u00e7\u00e3o de bandeiras com mastros, a suspens\u00e3o de torcidas organizadas, a imposi\u00e7\u00e3o de torcida \u00fanica em cl\u00e1ssicos e a perda de mando de campo. Embora essas pr\u00e1ticas visem reduzir os conflitos, elas geralmente n\u00e3o atingem os torcedores que de fato causam os problemas, penalizando de forma ampla clubes e torcedores que apenas desejam aproveitar o evento esportivo.\u00a0 Hoje os clubes de maior investimento contam com uma moderna aparelhagem de monitoramento e reconhecimento facial para entrada nos est\u00e1dios, t\u00e1ticas implementadas com a justificativa de auxiliar os \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis a manterem a seguran\u00e7a nesses espa\u00e7os, coibindo situa\u00e7\u00f5es de brigas. Contudo, nos clubes de menor investimento, seguimos com ingressos de papel e um baixo efetivo para coibir poss\u00edveis situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia em qualquer magnitude.<\/p>\n<p>Essa assimetria na infraestrutura de seguran\u00e7a produz consequ\u00eancias que v\u00e3o al\u00e9m da mera discrep\u00e2ncia administrativa entre clubes. Ela aprofunda desigualdades j\u00e1 existentes no modo como diferentes torcidas s\u00e3o tratadas pelo poder p\u00fablico e pelas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es esportivas, sobretudo porque os est\u00e1dios com menos recursos geralmente atendem p\u00fablicos mais populares, onde a presen\u00e7a de torcedores das periferias e favelas \u00e9 mais expressiva. A implementa\u00e7\u00e3o de tecnologias avan\u00e7adas em uns e a precariedade estrutural em outros criam regimes distintos de vigil\u00e2ncia e responsabiliza\u00e7\u00e3o, nos quais determinados grupos s\u00e3o mais suscet\u00edveis a abordagens seletivas e erros de identifica\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, ao transformar o monitoramento em pr\u00e9-requisito para o acesso ao espet\u00e1culo, corre-se o risco de deslocar o foco da preven\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica e comunit\u00e1ria de conflitos para uma l\u00f3gica de controle que intensifica o distanciamento entre institui\u00e7\u00f5es e torcedores, e que tende a refor\u00e7ar estigmas hist\u00f3ricos sobre quem representa perigo.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o de dispositivos de vigil\u00e2ncia como circuitos fechados de TV integrados a sistemas de reconhecimento facial, catracas biom\u00e9tricas e bases de dados conjuntas entre clubes, empresas privadas e \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica intensifica quest\u00f5es t\u00e9cnicas e normativas que merecem escrut\u00ednio. O CESeC e pesquisas etnogr\u00e1ficas recentes mostram que o reconhecimento facial n\u00e3o \u00e9 neutro tecnologicamente nem socialmente: algoritmos podem reproduzir vieses, apresentar taxas de erro diferenciadas segundo ra\u00e7a e idade, e operar sem consentimento claro ou garantias adequadas de minimiza\u00e7\u00e3o de dados. Al\u00e9m disso, a imposi\u00e7\u00e3o legal de certas tecnologias \u2014 mediada por normas recentes relacionadas ao setor esportivo e por protocolos de \u00f3rg\u00e3os reguladores, cria obriga\u00e7\u00f5es operacionais que poucas vezes v\u00eam acompanhadas de estudos de impacto de privacidade, de cl\u00e1usulas robustas de governan\u00e7a de dados ou de mecanismos independentes de auditoria. Assim, as tecnologias que prometem \u201cseguran\u00e7a\u201d frequentemente implicam transfer\u00eancia de responsabilidade para solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, deslocando do debate p\u00fablico as alternativas n\u00e3o tecnol\u00f3gicas de preven\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias desse arranjo s\u00e3o m\u00faltiplas e demandam respostas que articulem direitos, responsabilidade estatal e participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Relatos e investiga\u00e7\u00f5es apontam riscos concretos: usos indevidos de imagens (incluindo crian\u00e7as), reten\u00e7\u00e3o prolongada de dados, compartilhamento com atores n\u00e3o transparentes e criminaliza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de torcedores de periferia, efeitos que aprofundam estigmas j\u00e1 existentes e fragilizam a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por outro lado, estudos comparativos e an\u00e1lises cr\u00edticas recomendam que qualquer estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a seja acompanhada de avalia\u00e7\u00f5es de impacto de direitos humanos, regras claras sobre minimiza\u00e7\u00e3o e reten\u00e7\u00e3o de dados, transpar\u00eancia dos algoritmos e canais efetivos de recurso para pessoas identificadas erroneamente, bem como da prioriza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que atuem sobre as causas estruturais da viol\u00eancia, como desigualdade, exclus\u00e3o e viol\u00eancia institucional. Nesse sentido, as recomenda\u00e7\u00f5es consolidadas por organiza\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e de direitos digitais sublinham que a seguran\u00e7a leg\u00edtima em eventos esportivos deve conciliar prote\u00e7\u00e3o f\u00edsica com garantias jur\u00eddicas e democr\u00e1ticas, evitando que a busca por controle tecnol\u00f3gico venha a produzir novas formas de vulnerabilidade para as popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos est\u00e1dios, entretanto, o futebol constitui um campo fundamental de sociabilidade, especialmente nas favelas, onde sua pr\u00e1tica ultrapassa a dimens\u00e3o esportiva e assume valores comunit\u00e1rios, culturais e afetivos que nenhuma tecnologia de vigil\u00e2ncia \u00e9 capaz de captar. \u00c9 nas quadras das favelas, nos campinhos de terra, nos becos improvisados com \u201cgolzinho\u201d e nas escolinhas comunit\u00e1rias que o futebol opera como mediador de conviv\u00eancia, como dispositivo de encontro e como linguagem social compartilhada. Ali, ele estrutura rotinas, cria refer\u00eancias de pertencimento, fortalece redes de solidariedade e oferece horizontes de possibilidade para crian\u00e7as e jovens que enxergam no jogo n\u00e3o apenas lazer, mas um espa\u00e7o de reconhecimento e circula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Essa sociabilidade, forjada fora das grandes arenas e distante do elitismo que se imp\u00f5em aos est\u00e1dios, revela que o futebol continua sendo, sobretudo nas favelas, uma pr\u00e1tica que organiza a vida coletiva, produz v\u00ednculos e reinventa formas de exist\u00eancia que resistem \u00e0s tentativas de reduzir o esporte a um problema de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>Um evento que marca a representatividade do futebol em territ\u00f3rio de favelas \u00e9 a Ta\u00e7a das Favelas, um torneio organizado pela CUFA e produzido pela InFavela, empresa pertencente \u00e0 Favela Holding. \u00c9 o maior campeonato de futebol entre favelas do mundo, com apoio da TV Globo e outros grandes patrocinadores. No Rio, mais de 240 favelas est\u00e3o vinculadas ao projeto. Apesar do cunho esportivo, a Ta\u00e7a das Favelas n\u00e3o se limita apenas ao futebol, mas se configura como um importante fator de integra\u00e7\u00e3o social para os jovens das periferias, uma vez que oferece, antes do in\u00edcio dos jogos, workshops sociais para jogadores e t\u00e9cnicos, com tem\u00e1ticas como cuidados com a alimenta\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p><strong>O <\/strong><strong>FEN\u00d4MENO DAS TORCIDAS ORGANIZADAS EM CLUBES DE MENOR INVESTIMENTO<\/strong><\/p>\n<p>Um fato que chama aten\u00e7\u00e3o, especificamente no Rio de Janeiro, \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o de torcedores organizados de times grandes para as torcidas de clubes de menor investimento. Alguns motivos passam a ser compreendidos, como a quest\u00e3o do bairro e das amizades. Um grupo de amigos de inf\u00e2ncia que gostam de futebol e residem em Bonsucesso, por exemplo, se re\u00fane para assistir aos jogos desse clube de bairro que por vezes disputa divis\u00f5es inferiores com ingressos bem mais baratos. Nesse caminho se cria uma torcida ou se integra uma torcida j\u00e1 existente.\u00a0<\/p>\n<p>Se, entre os clubes de maior investimento, as torcidas organizadas envolvidas em epis\u00f3dios de viol\u00eancia remontam \u00e0s d\u00e9cadas de 1970 e 1980, no caso das equipes de menor investimento suas funda\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem mais recentes. A mais antiga \u00e9 a Torcida Jovem do Olaria, criada em 1998. Na sequ\u00eancia, surgem: a Torcida Super Bangu (2002), a Garra Jovem do S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o (2006), a Torcida Organizada Garra Alvinegra do Americano (2006), a Infernizada Tricolor do Duque de Caxias (2007), a Super Galo do Campo Grande (2008), a Torcida Rubro-Anil do Bonsucesso (2009), a Torcida Jovem Goyta (2009) e a Torcida Jovem do Madureira (2010).<\/p>\n<p>Cabe destacar ainda a Torcida Inferno Rubro, do Am\u00e9rica, fundada em 1971 \u2014 portanto, contempor\u00e2nea das grandes torcidas dos clubes de maior apelo popular, j\u00e1 que \u00e0 \u00e9poca o Am\u00e9rica disputava as primeiras divis\u00f5es e rivalizava com os principais clubes do estado. Contudo, atualmente, essa torcida segue a l\u00f3gica das demais vinculadas a clubes de menor investimento e \u00e9 composta majoritariamente por jovens oriundos de torcidas organizadas de times de maior express\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante dos estudos apresentados, \u00e9 poss\u00edvel notar que a dimens\u00e3o financeira desempenha um papel importante na migra\u00e7\u00e3o de torcedores para clubes de menor investimento. Nas grandes torcidas, o caminho at\u00e9 posi\u00e7\u00f5es de diretoria costuma ser mais longo e competitivo, ao contr\u00e1rio do que ocorre nas torcidas menores, onde o reduzido n\u00famero de integrantes facilita a ascens\u00e3o interna. Jovens mais violentos, que conquistam espa\u00e7o inicialmente pela for\u00e7a f\u00edsica, muitas vezes encontram barreiras para ocupar cargos de maior prest\u00edgio nas torcidas tradicionais, j\u00e1 preenchidos por membros experientes e com longa trajet\u00f3ria no movimento. Nas torcidas pequenas, ao contr\u00e1rio, esses jovens tornam-se praticamente fundadores, o que lhes garante acesso privilegiado ao caixa, aos materiais e aos ingressos distribu\u00eddos pelas diretorias.<\/p>\n<p>Contudo, observa-se que o fator mais decisivo para o crescimento das torcidas de menor investimento \u00e9 a viol\u00eancia praticada \u201cpor prazer\u201d. Trata-se do h\u00e1bito de brigar independentemente do local, movido pela adrenalina e pela repeti\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica. Esse impulso, associado ao menor efetivo policial nos jogos de clubes perif\u00e9ricos, transforma esses espa\u00e7os em uma nova arena de confrontos. Muitas dessas torcidas, que por vezes sequer entram nos est\u00e1dios, deslocam-se at\u00e9 as partidas com o objetivo expl\u00edcito de provocar tumultos. Nessa l\u00f3gica, a motiva\u00e7\u00e3o central deixa de ser o futebol: o que se torna priorit\u00e1rio \u00e9 a pr\u00e1tica da viol\u00eancia em si, pela excita\u00e7\u00e3o que ela produz, qualquer que seja o cen\u00e1rio. Alguns casos s\u00e3o simb\u00f3licos nesse tema, como o do torcedor do Olaria que perdeu a m\u00e3o direita ao acender uma bomba caseira que seria arremessada em dire\u00e7\u00e3o aos torcedores rivais durante a briga. O ocorrido foi no ano de 2015, onde as tens\u00f5es atingiram seu \u00e1pice principalmente pela rivalidade ali imposta que j\u00e1 havia se desdobrado em confus\u00f5es nos anos anteriores.<\/p>\n<p><strong>O REFLEXO DA SOCIEDADE COMO UM TODO<\/strong><\/p>\n<p>A compreens\u00e3o do cen\u00e1rio esportivo demanda uma perspectiva ampliada que considere a complexidade das din\u00e2micas sociais que o atravessam e moldam seus contornos. A viol\u00eancia, embora multifacetada em suas origens, \u00e9 reconhecida como um fen\u00f4meno profundamente enraizado nas rela\u00e7\u00f5es sociais, resultado de processos hist\u00f3ricos, culturais e institucionais que se entrela\u00e7am no cotidiano. Por isso, qualquer an\u00e1lise que busque explicar sua incid\u00eancia no esporte precisa ultrapassar os limites f\u00edsicos dos est\u00e1dios e das competi\u00e7\u00f5es, alcan\u00e7ando camadas mais profundas da vida social. Ao ampliar esse campo de investiga\u00e7\u00e3o, torna-se evidente que valores, normas e padr\u00f5es de socializa\u00e7\u00e3o influenciam diretamente a forma como indiv\u00edduos e coletividades lidam com conflitos, expressam tens\u00f5es e constroem sentidos em torno da pr\u00e1tica esportiva, o que refor\u00e7a a necessidade de interpretar o fen\u00f4meno de maneira articulada e n\u00e3o isolada.<\/p>\n<p>Quando direcionamos esse olhar para a rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica entre viol\u00eancia e eventos esportivos, sobretudo no contexto do futebol, emerge uma constata\u00e7\u00e3o relevante: ainda s\u00e3o escassos, no Brasil, os estudos que se dedicam a compreender de modo sistem\u00e1tico quem s\u00e3o os torcedores envolvidos em epis\u00f3dios de confronto, quais trajet\u00f3rias sociais os atravessam e como determinadas condi\u00e7\u00f5es de vida favorecem ou inibem comportamentos violentos. Essa lacuna contrasta com o ac\u00famulo de pesquisas internacionais, como descreve Bernardo B. B. de Hollanda (2021) em seus estudos sobre os hooligans na Inglaterra, evidenciam como a viol\u00eancia ligada ao futebol n\u00e3o ocorre de maneira espont\u00e2nea, mas se conecta de forma profunda \u00e0s maneiras como diferentes grupos sociais se inserem na sociedade, \u00e0s desigualdades que estruturam suas experi\u00eancias e aos modos de socializa\u00e7\u00e3o que moldam sua rela\u00e7\u00e3o com o esporte. Tais estudos indicam que agressividade, rivalidade e disputa simb\u00f3lica s\u00e3o atravessadas por elementos culturais e institucionais que variam conforme o contexto, o que torna indispens\u00e1vel considerar essas nuances para compreender o fen\u00f4meno em toda a sua complexidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, existem investiga\u00e7\u00f5es de forma comparativa que discursam como identidades coletivas e rituais de torcida influenciam comportamentos violentos e n\u00e3o-violentos, como Giulianotti, R., Bonney, N., e Hepworth, M. (1994) apontam, o que\u00a0 mostra que as din\u00e2micas internas das comunidades de torcedores e as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre seus membros e as identidades sociais constru\u00eddas nesses espa\u00e7os desempenham papel central na produ\u00e7\u00e3o ou mitiga\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios de viol\u00eancia. Esses elementos ajudam a explicar por que determinados grupos desenvolvem padr\u00f5es de comportamento mais propensos ao conflito, enquanto outros manifestam formas de pertencimento baseadas no apoio m\u00fatuo, na celebra\u00e7\u00e3o coletiva e no compartilhamento de valores menos associados \u00e0 agressividade. Compreender essas intera\u00e7\u00f5es \u00e9 fundamental para avan\u00e7ar na an\u00e1lise das tens\u00f5es que emergem no ambiente esportivo e, sobretudo, para fundamentar pol\u00edticas p\u00fablicas e a\u00e7\u00f5es educativas que reconhe\u00e7am a complexidade do tema, propondo caminhos que dialoguem com a realidade das torcidas, as condi\u00e7\u00f5es sociais que as formam e os significados simb\u00f3licos que conferem ao esporte.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>BUTLER, Judith. Problemas de g\u00eanero: feminismo e subvers\u00e3o da identidade. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003.\u00a0<\/p>\n<p>CECCHETTO, F\u00e1tima Regina. Viol\u00eancia e estilos de masculinidade. Rio de Janeiro: FGV, 2004.\u00a0<\/p>\n<p>DA MATTA, Roberto. As ra\u00edzes da viol\u00eancia no Brasil: reflex\u00f5es de um antrop\u00f3logo social. In: Viol\u00eancia brasileira. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, p. 11-44, 1982.\u00a0<\/p>\n<p>DOWDNEY, Luke. Nem guerra, nem paz. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004.\u00a0<\/p>\n<p>GALEANO, Eduardo. Futebol ao Sol e \u00e0 Sombra. Trad. Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. Porto Alegre: L&amp;PM Pocket, 2010.<\/p>\n<p>GIULIANOTTI, Richard; BONNEY, Norman;\u00a0 HEPWORTH, Mike. (Eds.). Football, Violence and Social Identity. Routledge. 1994.<\/p>\n<p>HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. A forma\u00e7\u00e3o das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro: uma leitura de sua din\u00e2mica hist\u00f3rica a partir das fontes impressas do Jornal dos Sports (1940-1980). BRASILIANA \u2013 Journal for Brazilian Studies, v. 5, n. 1, p. 383, 2016.\u00a0<\/p>\n<p>HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Os estudos do futebol na Inglaterra: um balan\u00e7o bibliogr\u00e1fico da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica sobre hooliganismo. Hist\u00f3ria da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, v. 14, n. 35, 2021.<\/p>\n<p>LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2004.\u00a0<\/p>\n<p>MEYER, Dagmar E. Estermann. G\u00eanero e educa\u00e7\u00e3o: teoria e pol\u00edtica. In: LOURO, Guacira Lopes; NECKEL, Jane Felipe; GOELLNER, Silvana Vilodre (orgs.). Corpo, g\u00eanero e sexualidade: um debate contempor\u00e2neo. Petr\u00f3polis: Vozes, 2003. p. 9-27.\u00a0<\/p>\n<p>NETTO, Alfredo; JUNIOR, Constantino; BARROS, Solange. A viol\u00eancia no futebol \u00e0 luz da teoria eliasiana. Revista Digital, ano 14, n. 132, 2009.\u00a0<\/p>\n<p>PIMENTA, CAM. Viol\u00eancia entre torcidas organizadas de futebol. S\u00e3o Paulo em Perspectiva, S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o SEADE, p. 125, 2000.\u00a0<\/p>\n<p>SOUSA, Raquel; LEITE, Gabriel; LIMA, Thallita; CRUZ, Tha\u00eds; NUNES, Pablo. et al. ESPORTE, DADOS E DIREITOS: O USO DE RECONHECIMENTO FACIAL NOS EST\u00c1DIOS BRASILEIROS. Rio de Janeiro: CESeC, 2024.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Wikifavelas: Uma antropologia das torcidas no futebol appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-cop30-fara-o-mundo-olhar-de-uma-forma-diferente-para-a-amazonia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula: COP30 far\u00e1 o mundo olhar de uma forma difere...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/calor-extremo-quais-os-cuidados-devem-ser-tomados\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Calor extremo: quais os cuidados devem ser tomados...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dom-helder-camara-entra-para-o-livro-dos-herois-e-heroinas-da-patria\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/imagem_materia-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Dom H\u00e9lder C\u00e2mara entra para o Livro dos Her\u00f3is e ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eua-chicago-substituira-estatua-de-colombo-por-monumento-a-madre-cabrini-simbolo-dos-imigrantes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">EUA: Chicago substituir\u00e1 est\u00e1tua de Colombo por mo...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O esporte articula pertencimento, tradi\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e une diferentes gera\u00e7\u00f5es. Mas tamb\u00e9m tens\u00f5es cotidianas. Dicion\u00e1rio Marielle Franco investiga as rela\u00e7\u00f5es entre viol\u00eancia nos est\u00e1dios, sociabilidade, hierarquias e os aparatos punitivos contra o pobre<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/wikifavelas-uma-antropologia-das-torcidas-no-futebol\/\">Wikifavelas: Uma antropologia das torcidas no futebol<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":66736,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[31167,5599,7155,26404,9468,31703,12820,4316,6519,31704,7158],"tags":[],"class_list":["post-66735","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-botafogo","category-descolonizacoes","category-dicionario-marielle-franco","category-flamengo","category-fluminense","category-futebol-carioca","category-pertencimento","category-torcidas-organizadas","category-vasco","category-violencia-nos-estadios","category-wikifavelas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66735","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66735"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66735\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66736"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66735"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66735"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66735"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}