{"id":67037,"date":"2025-11-28T13:00:00","date_gmt":"2025-11-28T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/episodio-final-reparacao\/"},"modified":"2025-11-28T13:00:00","modified_gmt":"2025-11-28T16:00:00","slug":"episodio-final-reparacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/episodio-final-reparacao\/","title":{"rendered":"Epis\u00f3dio final: Repara\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Giles Corey \u00e9 um dentre dezenas de homens que foi acusado de bruxaria durante a ca\u00e7a \u00e0s bruxas de Sal\u00e9m. Sua hist\u00f3ria comprova que as acusa\u00e7\u00f5es n\u00e3o se limitavam \u00e0s mulheres, mas que elas eram a grande maioria das v\u00edtimas. Dentre os 19 que foram enforcados em pra\u00e7a p\u00fablica, 5 eram homens. Mas Giles Corey foi um dos poucos que deixou uma marca para a posteridade \u2013 o seu desconcertante sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Neste epis\u00f3dio, Natalia Viana relata quem foi Giles e descreve como a histeria de Sal\u00e9m chegou ao seu fim.<\/p>\n<figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6929c721ced1f\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6929c721cf018\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure><figcaption>Cemit\u00e9rio de Sal\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<p>O final da ca\u00e7a \u00e0s bruxas n\u00e3o significou o final dessa hist\u00f3ria, contudo. Descendentes daqueles que foram acusados de bruxarias, em especial a fam\u00edlia de Rebecca Nurse, passaram d\u00e9cadas e at\u00e9 s\u00e9culos buscando restabelecer a inoc\u00eancia das suas antepassadas. Trezentos anos depois, a cidade de Sal\u00e9m erigiu um memorial para honrar o nome das v\u00edtimas \u2013 e \u00e9 neste memorial que o guia Sean O\u2019Brien termina o seu tour, que acompanhamos desde o primeiro epis\u00f3dio.<\/p>\n<div data-effect=\"slide\">\n<div>\n<ul>\n<li>\n<figure><figcaption>Associa\u00e7\u00e3o da Fam\u00edlia Nurse, dedica\u00e7\u00e3o do Memorial de Rebecca Nurse, erguido em julho de 1885. O alto memorial de granito fica no cemit\u00e9rio da propriedade de Rebecca Nurse, em Danvers, Massachusetts.<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Memorial de Rebecca Nurse, erguido em 1885. Localizado no cemit\u00e9rio da propriedade de Rebecca Nurse, em Danvers, Massachusetts. A inscri\u00e7\u00e3o no monumento diz: Rebecca Nurse, Yarmouth, Inglaterra, 1621. Salem, Massachusetts, 1692. \u201c\u00d3 m\u00e1rtir crist\u00e3 que p\u00f4de morrer pela verdade quando todos ao teu redor sustentavam a mentira horrenda! O mundo, liberto do dom\u00ednio da supersti\u00e7\u00e3o, respira mais livre por tua causa hoje.\u201d Trecho do poema \u201cChristian Martyr\u201d, de John Greenleaf Whittier.<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Propriedade de Rebecca Nurse, Danvers, Massachusetts.<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<\/ul>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<blockquote>\n<p><strong>Consulte aqui<\/strong>:<\/p>\n<ul>\n<li>Acusa\u00e7\u00e3o de bruxaria contra Tituba<\/li>\n<li>Divisa\u0303o do memorial para o cemite\u0301rio<\/li>\n<li>P\u00e1gina do livro de \u201cMais Maravilhas\u201d de Calef<\/li>\n<li>Livro \u201cMais Maravilhas do Mundo Invis\u00edvel\u201d<\/li>\n<\/ul>\n<\/blockquote>\n<p>Ou\u00e7a agora o epis\u00f3dio final de \u201cCa\u00e7a \u00e0s Bruxas \u2013 uma hist\u00f3ria de terror real\u201d.<\/p>\n<h2><strong>Leia abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra:<\/strong><\/h2>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pessoal, estamos quase na \u00faltima parada. Esta n\u00e3o \u00e9 realmente a \u00faltima parada do passeio. Eu sou simplesmente incapaz de ir direto ao ponto, certo? Vejam, no s\u00e9cculos seguintes, aqui em Sal\u00e9m, temos outras coisas com que nos preocupar do que os erros cometidos pelos nossos av\u00f3s.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>No s\u00e9culo XIX, temos a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e, com ela, chega a imigra\u00e7\u00e3o em massa. E, \u00e0 medida que as pessoas se mudam para Sal\u00e9m de lugares como It\u00e1lia, Pol\u00f4nia, Canad\u00e1 franc\u00eas, elas come\u00e7am a escrever novos cap\u00edtulos na hist\u00f3ria de Sal\u00e9m, que n\u00e3o tem absolutamente nada a ver com bruxas ou bruxaria.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>No s\u00e9culo XX, todo mundo sabe vagamente que algo chamado \u201cJulgamentos das Bruxas de Salem\u201d aconteceu aqui. Mas ningu\u00e9m aqui em Sal\u00e9m realmente pensa nos Julgamentos das Bruxas como parte da identidade da nossa cidade. Isso s\u00f3 vai mudar nos anos de 1960 e 1970, quando, gra\u00e7as \u00e0 s\u00e9rie Samanta, a Feiticeira, gra\u00e7as ao espiritualismo e \u00e0 onda New Wave, vemos um aumento do turismo, e Sal\u00e9m decide abra\u00e7ar sua reputa\u00e7\u00e3o como a \u201cCidade das Bruxas\u201d. E \u00e9 assim que somos conhecidos hoje. Mas sempre houve uma quest\u00e3o sobre como devemos conciliar nossa reputa\u00e7\u00e3o moderna, divertida e bo\u00eamia com o fato de que essa reputa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundada sobre a morte de mais de 20 pessoas inocentes.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Estamos chegando ao final do tour do Sean O \u2018Brien no Dia das Bruxas, 31 de outubro de 2023 e tamb\u00e9m da nossa s\u00e9rie Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas. Eu sou Natalia Viana. Epis\u00f3dio 5: Repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A cidade de Sal\u00e9m, onde acontece o maior Halloween dos Estados Unidos, \u00e9 uma cidade fabricada sobre um per\u00edodo de horror que foi a Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas de 1692. As casas foram reformadas, transformadas para parecerem aquelas do s\u00e9culo XVII. As pessoas se vestem com roupas da \u00e9poca. Tudo aqui \u00e9 falsificado. Na nossa entrevista, eu perguntei ao Sean se ele reflete sobre esse contraste e sobre o fato de que Sal\u00e9m lucra muito com o Halloween, que \u00e9 basicamente um festival celebrando o feminic\u00eddio por enforcamento de mulheres que eram vistas pela sociedade como problem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>Com certeza. \u00c9 um dos elementos mais s\u00e9rios da hist\u00f3ria e um que eu, pessoalmente, e muitos dos nossos colegas guias aqui na nossa empresa tentamos tratar com dignidade e respeito. \u00c9 uma trag\u00e9dia. Sabe, a reputa\u00e7\u00e3o de Sal\u00e9m hoje \u00e9 constru\u00edda sobre uma trag\u00e9dia e eu \u00e0s vezes me pego pensando no que os esp\u00edritos daqueles que foram mortos aqui pensariam se pudessem ver no que esta cidade se transformou. Eu n\u00e3o sei se eles aprovariam. Mas, de certa forma, essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais eu acho que \u00e9 t\u00e3o importante contar a hist\u00f3ria da maneira mais precisa e tamb\u00e9m o mais respeitosa poss\u00edvel. Foi um tempo terr\u00edvel e tr\u00e1gico e a misoginia da \u00e9poca \u00e9 algo que absolutamente merece ser reconhecido.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Assim como o Sean, nesse epis\u00f3dio n\u00f3s tamb\u00e9m vamos atravessar alguns s\u00e9culos para entender como uma cidade com a hist\u00f3ria de Sal\u00e9m reflete e tenta se conciliar com seu passado.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas antes, ainda temos alguns eventos para navegar naquele fat\u00eddico ano de 1692. Isso porque, eu n\u00e3o sei se voc\u00ea percebeu ao longo do \u00faltimo epis\u00f3dio, em especial, o que aconteceu em Sal\u00e9m \u00e9 um dos mais claros exemplos do que algu\u00e9m quer dizer quando fala em \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Segundo o dicion\u00e1rio Mariam Webster, uma ca\u00e7a \u00e0s bruxas \u00e9 a \u201cbusca e o ass\u00e9dio deliberado de pessoas, como oponentes pol\u00edticos, com opini\u00f5es impopulares\u201d. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Hoje a gente fala ca\u00e7a \u00e0s bruxas quando h\u00e1 uma persegui\u00e7\u00e3o sem justificativa contra um grupo. Algo que beira a histeria. Foi o que aconteceu na ca\u00e7a \u00e0s bruxas de Sal\u00e9m, epis\u00f3dio conhecido hoje como uma crise de histeria coletiva ou de doen\u00e7a psicog\u00eanica em massa.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u00c9 um fen\u00f4meno da psicologia social na qual um sintoma ou surto \u00e9 replicado por outras pessoas e torna-se contagioso mesmo sem ter uma causa real. Isso pode explicar, segundo um dos pesquisadores, o que houve com as jovens meninas afligidas. Mas n\u00e3o explica um outro fen\u00f4meno, que \u00e9 pol\u00edtico e social: o dedo-durismo.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em todo o per\u00edodo em que h\u00e1 uma persegui\u00e7\u00e3o opressora sem muita l\u00f3gica, nem necessidade de apresentar provas por parte de um poder que n\u00e3o responde a ningu\u00e9m, como nas ditaduras, cria-se um enorme incentivo para que as pessoas se acusem entre si. Vizinho acusa vizinho, ex-amantes acusam desafetos, muita gente aproveita para se livrar de inimigos inc\u00f4modos ou acusa os outros apenas para salvar a si mesmos. Foi o que aconteceu em Sal\u00e9m.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Entre o final de agosto e come\u00e7o de setembro de 1692, onze pessoas j\u00e1 haviam sido enforcadas, centenas estavam nas pris\u00f5es e dezenas haviam confessado. Todo mundo estava apavorado. Ou tinham medo das bruxas ou de ser acusado de ser uma.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E aquelas acusa\u00e7\u00f5es, de fato, n\u00e3o focaram apenas nas mulheres. Dentre as dezenove pessoas que foram enforcadas em pra\u00e7a p\u00fablica, cinco eram homens.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Al\u00e9m dos executados, pelo menos mais cinco pessoas morreram na pris\u00e3o. E vamos conhecer agora um desses homens que foi v\u00edtima fatal da histeria. Mas n\u00e3o por enforcamento. Embora, por mais estranho que possa parecer, ele tenha morrido no meio de um procedimento que fazia parte do processo legal da \u00e9poca. Ele se chamava Giles Corey.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Giles Corey era um homem rico que tinha uma grande propriedade de mais de 60 hectares na beira de Sal\u00e9m, serventes e empregados. Era membro da igreja de Sal\u00e9m e casado j\u00e1 com sua segunda esposa. Mas Corey era um vizinho problem\u00e1tico. Ele era frequentemente acusado de brigar com os outros moradores, praguejar e chegou a admitir perante a justi\u00e7a ter cometido pequenos delitos, como roubo de lenha para o fogo ou de algumas ferramentas de trabalho.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ele era um homem, em resumo, detest\u00e1vel. E era tamb\u00e9m um homem violento. Em 1675, ele chegou a ser julgado criminalmente pelo assassinato de um servo na sua fazenda. Pois \u00e9, a hist\u00f3ria \u00e9 ainda mais escabrosa do que parece.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>O rapaz se chamava Jacob Gooddale. Acho importante lembrarmos o seu nome. Ele tinha uma defici\u00eancia intelectual. E embora fosse a m\u00e3o direita de Giles Corey em todo o trabalho da fazenda, era tratado com viol\u00eancia. E foi assim que esse jovem morreu: uma tarde, Giles Corey o surrou tanto, mas tanto, que ele n\u00e3o aguentou. O motivo? Ele teria roubado algumas ma\u00e7\u00e3s da macieira. Mas o pior n\u00e3o foi isso. Durante a investiga\u00e7\u00e3o e julgamento, a justi\u00e7a da col\u00f4nia brit\u00e2nica reconheceu que o seu senhor o tinha matado. Mas, segundo a lei brit\u00e2nica, castigos corporais em um servo n\u00e3o eram proibidos. Assim, Corey foi condenado por ter dado um castigo exagerado e teve que pagar apenas uma multa.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ent\u00e3o, talvez o maior crime de Giles Corey, aos olhos da Vila de Sal\u00e9m, n\u00e3o tenha sido esse assassinato. Seu pecado foi ter se casado com uma mulher que tinha tido um filho com um escravizado, Martha Corey. Martha, quando era jovem, antes de se casar com o primeiro marido, teve esse filho n\u00e3o branco, de nome Benoni, filho de um escravizado ind\u00edgena ou africano.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Isso era um esc\u00e2ndalo na comunidade, ent\u00e3o Benoni foi criado em um internato. Giles n\u00e3o ligava para isso. Na verdade, existem historiadores que dizem que Benoni morava com Martha e com Giles. E quando as mesmas meninas, a Annie Putnam Jr. e Mercy Lewis, come\u00e7aram a acus\u00e1-la de ser bruxa, o Giles chegou at\u00e9 a selar o seu cavalo para ir para o centro da cidade confrontar as acusadoras. Mas Martha o dissuadiu.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Giles Corey foi preso em 18 de abril de 1692, aos 81 anos, quando sua esposa j\u00e1 estava encarcerada na pris\u00e3o de Boston. Mas quando finalmente chegou o dia do seu julgamento pela Corte de Ouvir e Determinar, ele resolveu fazer um gesto de rebeldia que ficaria marcado na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Assim como todos os acusados, o julgamento era aberto pelo oficial de justi\u00e7a, Stephen Sewall, que perguntava: \u201ccomo voc\u00ea ser\u00e1 julgado?\u201d A resposta a seguir deveria ser igual \u00e0 de Rebecca Nurse:<\/p>\n<p>[Rebecca Nurse]<br \/>Por Deus e pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas Giles Corey permaneceu em sil\u00eancio. Simplesmente n\u00e3o disse uma palavra. Isso trazia um desafio extra aos ju\u00edzes. Significava que o r\u00e9u n\u00e3o reconhecia o poder da corte sobre o seu destino. Ent\u00e3o era preciso buscar uma solu\u00e7\u00e3o dentro da jurisprud\u00eancia da \u00e9poca. O velho rebelde foi enviado grandde volta para a cela da pris\u00e3o de Sal\u00e9m enquanto outros julgamentos prosseguiam.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Havia um caso anterior na corte de Nova York, onde o r\u00e9u simplesmente foi julgado \u00e0 revelia. Mas os ju\u00edzes da Corte de Ouvir e Determinar decidiram ir por outro caminho. Um procedimento que era conhecido como \u201cpeine forte et dure\u201d, ou pena forte e dura. Era uma maneira de for\u00e7ar um r\u00e9u a confessar.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ent\u00e3o, no dia 17 de setembro, Corey foi arrastado para fora da sua cela e levado at\u00e9 um descampado, onde foi amarrado ao ch\u00e3o de terra. Sobre seu corpo foi colocada uma t\u00e1bua pesada de madeira. E sobre essa t\u00e1bua, o xerife George Corwin foi empilhando grandes pedras maci\u00e7as uma sobre a outra, at\u00e9 o peso se tornar opressivo, imposs\u00edvel de aguentar. Nas horas que se seguiram, tanto o xerife quanto conhecidos de Giles pediram ao velho que ele aceitasse ser julgado ou confessasse seus crimes. Mas ele permaneceu em sil\u00eancio durante toda a tortura.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Diversos relatos sobrevivem at\u00e9 hoje e contam que o esmagamento se seguiu por dois dias. O mercador e escritor Robert Calef escreveu um livro detalhado e interessant\u00edssimo sobre os julgamentos com um nome bem cumprido,\u00a0 \u201cMais Maravilhas do Mundo Invis\u00edvel: Um Relato dos Julgamentos de V\u00e1rias Bruxas, Recentemente Executadas na Nova Inglaterra\u201d. Ele apurava as informa\u00e7\u00f5es, era quase um jornalista mesmo, e relatou assim aquela cena de tortura a c\u00e9u aberto:<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u201cDurante o esmagamento, a l\u00edngua de Giles Corey foi empurrada para fora da sua boca; o xerife, com sua bengala, empurrou-a de volta.\u201d<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Durante todas as horas de esmagamento, as \u00fanicas palavras que se ouviram da boca do velho Corey, segundo diversos relatos, foram: \u201cmais peso\u201d. Ele desafiava, assim, os homens de bem que queriam acus\u00e1-lo e acusar a sua esposa de serem servos do diabo.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Giles morreu esmagado sob o peso de mil pedras inclementes em 19 de setembro de 1692. Martha Corey, sua esposa, foi enforcada tr\u00eas dias depois, junto com outros sete acusados. Os Corey s\u00e3o o \u00fanico casal que foi morto na ca\u00e7a \u00e0s bruxas de Sal\u00e9m.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>No meio de cenas de terror como essa, houve quem se levantasse contra os procedimentos cada vez mais absurdos da Corte de Ouvir e Determinar. A essa altura, j\u00e1 havia diversos ministros puritanos que questionavam o uso de provas espectrais em reuni\u00f5es e discursos p\u00fablicos. E tamb\u00e9m surgiam cartas que circulavam atacando as condena\u00e7\u00f5es do tribunal. Algumas vezes, as cr\u00edticas vinham dos lugares mais insuspeitos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Depois da primeira sess\u00e3o da Corte, em junho, um dos ju\u00edzes respons\u00e1veis, o Nathaniel Saltonstall, renunciou desgostoso com o uso de provas espectrais. Ele depois se recusou a questionar quaisquer outros casos de pessoas acusadas e criticou tanto seus ex-colegas da corte que, adivinhe, chegou a ser chamado de bruxo por uma das meninas. Mas saiu ileso.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu quis falar do juiz Nathaniel Saltonstall porque nunca podemos esquecer que mesmo nos momentos mais tenebrosos em que as for\u00e7as parecem todas se unir para levar a sociedade a uma crueldade coletiva, sempre h\u00e1 pessoas que agem com consci\u00eancia, retid\u00e3o e coragem. Lembre-se disso.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ali, pelo final de setembro, j\u00e1 tinha ficado claro para o governador William Phipps que a continua\u00e7\u00e3o da Corte de Ouvir e Determinar era insustent\u00e1vel. De um lado, as cr\u00edticas cresciam a cada dia e as imagens de horror assistidas por toda a comunidade em tr\u00eas levas de execu\u00e7\u00e3o aumentaram em vez de reduzir o clima de terror. Por outro, o governador havia sido encarregado de implantar um novo regime legal na col\u00f4nia, com uma nova carta r\u00e9gia do rei William III. E, com isso, teria que estabelecer um novo sistema de justi\u00e7a, com cortes oficiais e procedimentos mais organizados.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>No final das contas, a Corte de Ouvir e Determinar, criada por ele mesmo em maio, era uma gambiarra jur\u00eddica. Segundo o novo estatuto legal, crimes como aqueles de bruxaria deveriam ser julgados por uma Corte-Suprema.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Agora, havia outra raz\u00e3o para que o governador sentisse que era hora de dar um basta. Durante os meses anteriores, quando ele estava em viagem, nas ruas de Boston, rumores come\u00e7aram a se espalhar sobre uma mulher da alta sociedade que havia forjado assinatura para livrar uma amiga da acusa\u00e7\u00e3o de bruxaria. E essa mulher s\u00f3 podia ser, ela mesma, uma serva do diabo. O nome dela era Lady Mary Phipps, esposa do governador. Era hora de dar um basta nisso.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Agora, dependia da decis\u00e3o de William Phipps o que ia acontecer em um processo, que tava, literalmente, pela metade. Dezenove pessoas tinham sido enforcadas em pra\u00e7a p\u00fablica e havia mais dezenas esperando o julgamento. Sentindo que precisava atuar em defesa dos procedimentos legais j\u00e1 realizados, que na sua vis\u00e3o eram estritamente legais, o juiz William Stoughton, aquele mais severo e mais determinado, resolveu viajar de Sal\u00e9m at\u00e9 Boston para ter com o governador.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Segundo os registros do encontro, o juiz foi direto: \u201ctemos permiss\u00e3o para seguir com os julgamentos?\u201d Se a resposta fosse positiva, as novas sess\u00f5es j\u00e1 tinham at\u00e9 data marcada. Seriam em novembro. Mas, numa cena que repetia, talvez de maneira inconsciente, a tenacidade do velho Giles Corey, diante da pergunta do juiz, o governador permaneceu no mais abismante sil\u00eancio. Surpreendido, William repetiu a pergunta e, mais uma vez, o que ouviu foi sil\u00eancio.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>O conselho de governo reuniu-se no dia seguinte, j\u00e1 sem a presen\u00e7a e as perguntas impertinentes do juiz William Stoughton. Um dos conselheiros, ent\u00e3o, perguntou: \u201ce a Corte de Ouvir e Determinar, governador, ela deve permanecer ou deve cair?\u201d \u201cEla deve cair\u201d, respondeu Phipps. Era o come\u00e7o do fim. Ou, talvez, apenas o fim do come\u00e7o. Porque se hoje as pessoas dan\u00e7am vestidas de bruxas e diabos nas ruas de Sal\u00e9m\u2026<\/p>\n<p>[Giulia Afiune]<br \/>Mais algumas bruxas\u2026<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Para isso que a cidade vive, n\u00e9?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u00c9 porque o que ficou daqueles dias tenebrosos foi, talvez, um j\u00fabilo coletivo em conseguir colocar as mulheres inc\u00f4modas nos seus devidos lugares. No final, eles venceram.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A Corte de Ouvir e Determinar foi extinta. Mas em 3 de janeiro de 1693, ainda havia mais de 50 pessoas na cadeia e elas foram julgadas pela corte suprema. De mais de 50 casos, apenas 3 mulheres foram condenadas. E mesmo nesses 3 casos, o governador William Phipps proibiu a execu\u00e7\u00e3o e as libertou.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Foi ent\u00e3o que come\u00e7ou uma movimenta\u00e7\u00e3o a princ\u00edpio silenciosa, mas que com os anos foi ganhando corpo. Os filhos e esposos daquelas que haviam sido martirizadas na ca\u00e7a \u00e0s bruxas come\u00e7aram a exigir Justi\u00e7a. Essa sim, com J mai\u00fasculo.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E uma das fam\u00edlias que mais lutou para limpar o nome da sua matriarca foi a de Rebecca Nurse, aquela senhora pia e um pouco surda que tentou se defender usando todos os recursos da justi\u00e7a da col\u00f4nia. E a sua briga come\u00e7ou logo depois, encabe\u00e7ada pelo vi\u00favo Francis Nurse, junto com o genro John Tarbell e o marido da irm\u00e3 de Nurse, Peter Cloyce. Lembremos que a irm\u00e3 de Nurse, Sarah Cloyce, tamb\u00e9m morreu na forca.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eles come\u00e7aram uma verdadeira guerra contra o pastor Samuel Parris. Se negaram a seguir participando da igreja e come\u00e7aram a fazer peti\u00e7\u00f5es pela expuls\u00e3o do religioso. .As reuni\u00f5es se seguiram ao longo dos anos seguintes sem nenhuma tr\u00e9gua. Em algumas ocasi\u00f5es, confrontaram o pr\u00f3prio Parris.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Assim foi em novembro de 1694.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A fam\u00edlia de Nurse conclamou uma reuni\u00e3o com todos os membros da igreja e acusaram o ministro de: acreditar na validade de provas espectrais, embora outros ministros superiores da pr\u00f3pria igreja questionassem isso; dar testemunho na corte sob juramento contra dez acusadas, incluindo Rebecca Nurse; fazer anota\u00e7\u00f5es parciais e err\u00f4neas quando agiu como escriba da corte em pelo menos quinze casos; e, finalmente, a sua obstina\u00e7\u00e3o em n\u00e3o admitir os erros e seguir propagando que a bruxaria era real.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em resposta, ele disse, abre aspas: \u201ceu fiz o que percebi ser o meu dever, entretanto por fraqueza e ignor\u00e2ncia, eu possa ter estado enganado\u201d. \u201c\u00c9 poss\u00edvel\u201d, ele disse, \u201cque o diabo possa aparecer na forma de pessoas inocentes. Pe\u00e7o todo o seu perd\u00e3o a todas as ofensas neste caso ou em outros, nos quais os senhores possam conceber que eu tenha errado ou que eu os tenha ofendido\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Foi um pedido de desculpas meia boca e n\u00e3o satisfez a fam\u00edlia de Nurse. A briga seguiu nos anos seguintes com diversas peti\u00e7\u00f5es ao governador para se livrarem do pastor Parris. Finalmente, em 1697, um comit\u00ea de moradores de Sal\u00e9m processou o pastor e pediu que ele devolvesse a casa onde morava. Nesse comit\u00ea tavam o filho de Nurse, Samuel Nurse, o genro John Tarbell e outros amigos da fam\u00edlia. O comit\u00ea fez uma \u00faltima peti\u00e7\u00e3o, dessa vez \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eles criticavam Parris por causa da sua, abre aspas, \u201csua cren\u00e7a nas acusa\u00e7\u00f5es do diabo, seu abandono r\u00e1pido de toda caridade \u00e0s pessoas, mesmo aquelas sem m\u00e1cula e de vida santa, diante dessas sugest\u00f5es do diabo\u201d,\u00a0 fecha aspas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>O comit\u00ea pedia, entre aspas, \u201cque o nosso nome e o dos muitos outros que pensam como n\u00f3s, alguns de n\u00f3s tendo nossos parentes roubados por essas pr\u00e1ticas, por uma morte repentina, outros tendo sido aprisionados e sofrendo as nossas pessoas, reputa\u00e7\u00f5es e bens, clamamos ao senhor juiz que determine se ainda devemos algo a honrar e a pagar para esse ser que \u00e9 o instrumento da nossa mis\u00e9ria\u201d\u2018.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A justi\u00e7a determinou um pagamento devido ao pastor e mandou-o devolver a propriedade ao vilarejo. Finalmente, em 24 de setembro de 1697, Samuel Parris foi embora para nunca mais voltar.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Bom, o pleito dos Nurse n\u00e3o terminou por a\u00ed. Depois de uma peti\u00e7\u00e3o junto a outras fam\u00edlias de v\u00edtimas, os nomes dos condenados finalmente foram limpos perante o Estado. Treze deles foram inocentados pelo governo de Massachusetts em uma lei de 1711. Suas fam\u00edlias ainda receberam indeniza\u00e7\u00f5es pela injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas em pelo menos um caso, o rem\u00e9dio s\u00f3 agravou a inj\u00faria. O marido de Sarah Good, aquele que acusou de ser amiga de todo o mal, ele tamb\u00e9m recebeu uma bonifica\u00e7\u00e3o financeira pela morte da esposa.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Com o passar dos anos e dos s\u00e9culos, os Nurse foram se espalhando pelos Estados Unidos e se multiplicando. Mas jamais deixaram de honrar o nome da ancestral assassinada por um feminic\u00eddio patrocinado pelo Estado.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em 1875, um grupo dos seus descendentes criou uma associa\u00e7\u00e3o para lembrar sua mem\u00f3ria. Em 1883, mais de 200 pessoas se reuniram na propriedade da fam\u00edlia para um piquenique, cujo objetivo era reunir fundos para erguer um memorial, lembrando sua vida e seu triste destino.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Hoje, a propriedade se tornou um museu de mem\u00f3ria a ela, a Rebecca Nurse Homestead, com a constru\u00e7\u00e3o inicial de 1678, ainda de p\u00e9 e aberta aos visitantes. Ela pode ser visitada na cidade de Danvers, Massachusetts, que \u00e9 como a antiga Vila de Sal\u00e9m \u00e9 hoje conhecida. Aquele vilarejo cresceu, decidiu mudar de nome e romper com o seu passado.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>No museu Rebecca Nurse Homestead, ningu\u00e9m se veste de bruxa para brincar com o feminic\u00eddio dos s\u00e9culos XVI e XVII.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Outras v\u00edtimas n\u00e3o tiveram quem lutasse por elas e seguiram sendo condenadas perante Deus e o pa\u00eds. Os descendentes de uma mulher chamada Ann Pudeaton s\u00f3 conseguiram sua absolvi\u00e7\u00e3o em 1957. E os \u00faltimos oito condenados nos julgamentos de Sal\u00e9m foram oficialmente inocentados pela Justi\u00e7a do Estado de Massachusetts em 2001.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E as acusadoras? Tamb\u00e9m sabe-se pouco sobre o seu destino. Mas uma em especial, a menina Annie Putnam Jr., respons\u00e1vel pela acusa\u00e7\u00e3o de nada menos que 62 pessoas, se tornaria a \u00fanica a publicamente professar seu arrependimento. Isso aconteceu em 25 de agosto de 1706, quando Annie, j\u00e1 com 27 anos, pediu para se tornar membro pleno da Igreja de Sal\u00e9m. Como mandava a Igreja puritana, ela teria que confessar todos os seus pecados diante de todos os membros. Ent\u00e3o, ela ofereceu o \u00fanico arrependimento real que chegaria aos ouvidos dos moradores de Sal\u00e9m:<\/p>\n<p>[Annie Putnam Jr.]<br \/>Eu desejo humilhar-me perante Deus por aquela triste e humilhante provid\u00eancia que atingiu a fam\u00edlia do meu pai, por volta do ano de 1692. Que eu, ainda na minha inf\u00e2ncia, tenha sido, por des\u00edgnio de Deus, um instrumento para acusar v\u00e1rias pessoas de crimes graves, resultando em que suas vidas fossem ceifadas. Pessoas que agora t\u00eam motivos justos e boas raz\u00f5es para acreditar que eram inocentes.<\/p>\n<p>[Annie Putnam Jr.]<br \/>E creio que foi uma grande artimanha do diabo que me iludiu naqueles tempos tristes, fazendo com que eu tenha sido instrumental junto a outras, ainda que de forma ignorante e inconsciente, para trazer sobre mim e sobre esta terra a culpa do sangue inocente derramado.<\/p>\n<p>[Annie Putnam Jr.]<br \/>No entanto, quanto ao que foi dito ou feito por mim contra qualquer pessoa, posso afirmar com verdade e retid\u00e3o diante de Deus e dos homens, que n\u00e3o agi por raiva, mal\u00edcia ou m\u00e1 vontade contra ningu\u00e9m, pois n\u00e3o tinha tal sentimento contra nenhum deles.<\/p>\n<p>[Annie Putnam Jr.]<br \/>Mas o que fiz foi por ignor\u00e2ncia, enganada por Satan\u00e1s. E, em particular, como fui um dos principais instrumentos na acusa\u00e7\u00e3o da boa senhora Nurse e de suas duas irm\u00e3s, desejo prostrar-me no p\u00f3 e humilhar-me por isso, por ter sido a causa junto a outras de t\u00e3o triste calamidade que recaiu sobre elas e sobre suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>[Annie Putnam Jr.]<br \/>Por essa raz\u00e3o, desejo deitar-me no p\u00f3 e suplicar fervorosamente o perd\u00e3o de Deus, bem como daqueles a quem dei justa causa de tristeza e ofensa, cujos parentes foram mortos ou acusados.<\/p>\n<p>[Annie Putnam Jr.]<br \/>Annie Putnam Junior, Vila de Sal\u00e9m, 25 de agosto de 1706.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Annie foi aceita como membro da igreja, tomando o lugar cobi\u00e7ado que um dia foi de Rebecca Nurse. Mas n\u00e3o teve uma vida feliz. Um parente descreveu que a sua sa\u00fade foi quebrantada pelos excitamentos de 1692 e ela afundou em uma morte prematura. A Annie Putnam faleceu aos 36 anos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Houve outros gestos de piedade, mem\u00f3ria, repara\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 retribui\u00e7\u00e3o. Em 1992, 300 anos depois do ocorrido, a cidade de Sal\u00e9m decidiu erigir um memorial \u00e0s v\u00edtimas, aquelas pedras cinzentas que ficam bem no centro da cidade e que j\u00e1 visitamos no epis\u00f3dio 3.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Bridget Bishop, enforcada 10 de junho de 1692; Sarah Good, enforcada 19 de julho de 1692; Elizabeth Howe, enforcada 19 de julho de 1692; Susannah Martin, enforcada 19 de julho de 1692\u2026<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Pois \u00e9 nesse local que chegamos ao fim do tour de Sean.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>Se voc\u00ea observar, notar\u00e1 que s\u00e3o literalmente apenas 20 nomes e 20 blocos de pedra, estendidos em frente ao Cemit\u00e9rio da Charter Street, o segundo cemit\u00e9rio mais antigo de Massachusetts. Mas h\u00e1 um detalhe neste lugar que eu considero incrivelmente poderoso. \u00c9 extremamente comovente e ironicamente, se eu n\u00e3o contar, h\u00e1 uma grande chance de que voc\u00ea passe por aqui sem perceber.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>O memorial \u00e9 aberto naquele lado, n\u00e3o tem o terceiro muro separando daquele terreno de tr\u00e1s. Na verdade, h\u00e1 apenas uma grade de ferro que nos separa aqui do cemit\u00e9rio da Charter Street. E acredite ou n\u00e3o, isso foi feito deliberadamente. Porque no cemit\u00e9rio da Charter Street, a poucos metros do final deste monumento, est\u00e3o enterrados dois dos ju\u00edzes que fizeram parte do tribunal de Ouvir e Determinar. Dois dos homens que enviaram essas pessoas \u00e0 morte. E a ideia de deix\u00e1-lo aberto daquele lado \u00e9 realmente muito simples. Aqueles dois ju\u00edzes sempre ter\u00e3o de assistir todos os anos enquanto centenas de milhares de pessoas v\u00eam a este local para prestar homenagem \u00e0s v\u00edtimas e n\u00e3o a eles.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>Mas pessoal, apesar das multid\u00f5es, do frio congelante que voc\u00eas enfrentaram t\u00e3o bem, al\u00e9m das sirenes\u2026 bem, esta \u00e9 a conclus\u00e3o do nosso tour. Muito obrigado. Obrigado. Muito obrigado.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tem uma pessoa cujo nome n\u00e3o est\u00e1 nas pedras do memorial no centro de Sal\u00e9m. Seu nome n\u00e3o constava naquela decis\u00e3o de 1711, quando a col\u00f4nia de Massachusetts inocentou as v\u00edtimas e ofereceu compensa\u00e7\u00e3o financeira \u00e0s fam\u00edlias. E nem foi citado nos processos judiciais que se seguiram. Nem em 1957, nem em 2001. Sim, o nome \u00e9 Tituba.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba, a ind\u00edgena Arawak que era escravizada do pastor Samuel Parris, seguiu na pris\u00e3o de Boston sem ter sido formalmente julgada at\u00e9 muito depois dos demais acusados.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em 9 de maio de 1693, a Corte Geral de Massachusetts determinou a respeito das acusa\u00e7\u00f5es contra ela de ter \u201ccomungado com o diabo\u201d, ter assinado o seu livro e \u201cter se tornado uma bruxa detest\u00e1vel contra a paz dos senhores soberanos, o rei e a rainha dessa Coroa e a dignidade e as leis\u201d. Bom, perante o seu indiciamento, o j\u00fari proclamou: \u201cignoramos\u201d. Em latim: \u201cn\u00f3s ignoramos\u201d. O j\u00fari n\u00e3o sabe. A acusa\u00e7\u00e3o foi rejeitada.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas a Tituba n\u00e3o saiu livre depois da decis\u00e3o. Voc\u00ea se lembra que todos os prisioneiros tinham que pagar pelos pr\u00f3prios gastos durante a pris\u00e3o, n\u00e9? A Tituba ficou mais de um ano encarcerada e o seu escravizador, o pastor Samuel Parris, se negou a pagar a multa por ela. Ele n\u00e3o queria t\u00ea-la de volta em casa. Ent\u00e3o, a ind\u00edgena permaneceu presa at\u00e9 que dela se fez um leil\u00e3o. Ela foi vendida a outro mestre, um ingl\u00eas que vivia em Boston, e que pagou pela sua multa. A sua pessoa, ent\u00e3o, passou de pertencer ao Estado para pertencer a um novo senhor.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba jamais recebeu a liberdade. Mas foi a \u00fanica mulher que conseguiu dizer a verdade sobre aqueles dias.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ainda no ano de 1693, quando ela j\u00e1 estava trabalhando para um novo senhor, um dia o mercador e, por que n\u00e3o, jornalista Robert Calef bateu a sua porta. Tituba deu a ele uma contundente entrevista, embora registrada de forma breve no livro de nome intermin\u00e1vel, \u201cMais Maravilhas do Mundo Invis\u00edvel: Um Relato dos Julgamentos de V\u00e1rias Bruxas, Recentemente Executadas na Nova Inglaterra\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Os historiadores n\u00e3o t\u00eam nenhum registro de que aconteceu com ela depois de 1693. A \u00fanica coisa que restou foi o que ela disse. No tribunal, nas audi\u00eancias, no livro de Calef. Assim, para Tituba, o que resta, o que fica dela at\u00e9 hoje, \u00e9 apenas a sua voz. E escut\u00e1-la, como voc\u00eas sabem, \u00e9 o trabalho de uma jornalista.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Posso sentar?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba, \u00e9 um grande prazer te conhecer.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>\u00c9? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u00c9 por causa da sua parte na Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas, n\u00e9? Hoje as pessoas falam de \u201chisteria de Sal\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>N\u00e3o fiz nada.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu queria te fazer umas perguntas, tudo bem? Eu queria saber, pra come\u00e7ar, como \u00e9 que foi a sua chegada aqui na Nova Inglaterra?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Normal.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Na casa do Samuel Parris, o pastor.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Hum\u2026 ah.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Voc\u00ea morou muito tempo, n\u00e9, com ele, com a fam\u00edlia?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Ele era um homem bruto.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ele te batia?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Batia. Muitas vezes.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u00c9 assim\u2026 assim, desculpa perguntar, ele te batia com frequ\u00eancia?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Me batia quando eu fazia alguma coisa errada.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Por exemplo, o que era uma coisa errada?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Quando o leite talhava, quando a farinha mofava, quando um animal fugia, quando ele queria que eu pegasse lenha, mas n\u00e3o tinha lenha.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Voc\u00ea trabalhava muito?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Normal. Fazia o da casa.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba, por que voc\u00ea confessou que tinha visto o diabo, um homem vestido de preto, que vinha de Boston?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Voc\u00ea \u00e9 igualzinha a eles.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>N\u00e3o. Olha, eu li isso nos documentos, ent\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Tituba]<br \/>Eu n\u00e3o sei ler.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba, por que voc\u00ea falou isso? Por que voc\u00ea falou que tinha conhecido o diabo?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Eu falei o que eles queriam ouvir.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eles quem?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Meu amo, o senhor Parris.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Como assim? Como assim?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>O bolo de bruxa, voc\u00ea sabe, n\u00e3o sabe?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Sei, s\u00f3 um segundo. \u00c9, voc\u00ea e o John Indian foram instru\u00eddos por uma vizinha, a Mary Sibley, a cozinhar um bolo de bruxa pra dar pro cachorro.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Isso mesmo. E o Sr. Parris ficou muito bravo. Muito bravo. Parecia quando\u2026 quando eles negaram a lenha.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ah, desculpa. Voc\u00ea t\u00e1 falando que ele ficou bravo que nem quando os chefes da vila deixaram de dar lenha, n\u00e9? Era um inverno muito forte.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Bravo. Ele tava muito bravo. Da\u00ed foi a\u00ed que ele me arrastou pelos cabelos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E o que aconteceu? Como assim?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Ele me arrastou pro est\u00e1bulo. Falou pra a mulheres e as meninas ficarem atr\u00e1s. Elas at\u00e9 choravam. Foi s\u00f3 eu e ele. A\u00ed ele me jogou no ch\u00e3o, pegou uma t\u00e1bua de madeira e me disse que eu tava com o diabo e que ia tirar de mim. Eu disse que n\u00e3o, que n\u00e3o tinha diabo. Eu pedi pra ele parar. Da\u00ed ele me bateu, todinha. Ele batia nas pernas, batia nas costas e dizia pra eu contar. Eu disse que n\u00e3o tinha, n\u00e3o diabo, mas ele batia. Ent\u00e3o ele me bateu na barriga, me bateu na cabe\u00e7a e eu comecei a sangrar. A\u00ed eu falei que eu vi. Que eu vi sim. A\u00ed ele me disse. Era homem? Era alto? Era vestido de negro? Era de Boston?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E voc\u00ea descreveu tamb\u00e9m uns animais. Um p\u00e1ssaro vermelho, um outro verde\u2026<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Ele perguntava. Ele pedia p\u00e1ssaros coloridos. Ele pedia. Ele foi pedindo um monte de coisa. E teve tamb\u00e9m um animal. Um animal tamb\u00e9m que ele pediu.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Teve.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Teve sim.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Uma criatura\u2026 \u201cuma outra criatura, peluda. O rosto peludo e o nariz longo. Voc\u00ea disse, eu n\u00e3o sei descrever como \u00e9 a cara dele, mas tinha duas pernas. Ficava de p\u00e9 como homem. E voc\u00ea disse que ontem \u00e0 noite ele tava de p\u00e9 ao lado da lareira na casa do senhor Parris\u201d.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Mestre Parris queria saber do livro. O tal do livro.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas voc\u00ea n\u00e3o sabe ler nem escrever.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E voc\u00ea falou que p\u00f4s uma marca.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Uhum.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E que viu outras nove marcas.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Nove.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E por que nove?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Porque ele pediu nove e eu falei o que ele tinha me pedido.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ele pediu?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Meu mestre falou que n\u00e3o ia pagar minha multa e pra ele pagar eu tinha que falar o que ele quisesse, o que ele mandasse.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba, voc\u00ea j\u00e1 pensou que depois da sua confiss\u00e3o as pessoas ficaram assustadas?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Assustadas\u2026 Elas s\u00e3o assustadas. Posso falar uma coisa? Mas voc\u00ea n\u00e3o escreve?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>N\u00e3o escrevo.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Eu tenho pena dessas pessoas. S\u00e3o umas infelizes.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Somos infelizes.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>V\u00e3o ser infelizes pra sempre. Aqui nessa terra.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Seremos. Tituba, voc\u00ea ficou presa numa cadeia em condi\u00e7\u00f5es horr\u00edveis durante um ano.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Foi o pior ano da minha vida.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E como foi esse per\u00edodo?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>L\u00e1 tinha muita gente que precisava de mim. A\u00ed eu cuidava. A menina, a Sarah, a Sarah ganhou nen\u00e9m l\u00e1.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Voc\u00ea ajudou?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Ajudei, mas o nen\u00e9m morreu.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Voc\u00ea ficou doente?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>N\u00e3o, eu s\u00f3 emagreci. Segurei, cantava. Tinha muita gente. Tinha homem tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Voc\u00ea pensou que voc\u00ea podia morrer ou que voc\u00ea podia ser enforcada?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Nunca.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Porque n\u00e3o era pra ser.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba, voc\u00ea agora t\u00e1 como serva aqui, n\u00e9? Do senhor\u00a0 Longfellow?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Estou.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E como est\u00e1 sua vida agora?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>\u00c9 vida. Ele \u00e9 bom. Eu folgo todo domingo. J\u00e1 t\u00f4 velha. Ele disse que vai me dar meu quarto pra eu morrer em paz.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u00c9, mas voc\u00ea segue escravizada, n\u00e9?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Ele n\u00e3o reza todo dia, ent\u00e3o ele me deixa em paz. Est\u00e3o me chamando, eu tenho que ir.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Oi.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Foi um prazer te conhecer.<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Tchau.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tchau, obrigada.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Essa foi a s\u00e9rie Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas. Antes de terminar, eu vou ler aqui um trecho do livro \u201cMais Maravilhas\u201d que conta o que a Tituba falou pro Robert Calef.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u201cO relato que ela d\u00e1 desde ent\u00e3o \u00e9 que o seu mestre bateu nela e de outras maneiras abusou dela pra faz\u00ea-la confessar e acusar, como ele dizia, suas irm\u00e3s bruxas. E que qualquer coisa que ela tenha dito na sua confiss\u00e3o ou acusa\u00e7\u00e3o a outras foi efeito desses abusos. Seu mestre se recusou a pagar as suas multas a menos que ela dissesse o que ela disse.\u201d<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Este e outros documentos voc\u00ea encontra no site da Ag\u00eancia P\u00fablica. Vai l\u00e1: apublica.org.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E se voc\u00ea gostou desse podcast e quer que a gente produza outros, apoie. Vire aliado da <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong> em apoie.apublica.org<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E at\u00e9 a pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o original da <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo<\/strong>.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Esse podcast foi dirigido por mim, Natalia Viana. Eu fiz a pesquisa hist\u00f3rica e a reportagem em colabora\u00e7\u00e3o com a Giulia Afiune, que tamb\u00e9m captou os \u00e1udios em Sal\u00e9m. Eu tamb\u00e9m escrevi os roteiros dos epis\u00f3dios com a colabora\u00e7\u00e3o da Sofia Amaral. A Sofia Amaral tamb\u00e9m coordenou a produ\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie, com apoio da Stela Diogo e da Rafaela de Oliveira.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tanto a narra\u00e7\u00e3o quanto as cenas de dramaturgia foram gravadas no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica, com trabalhos t\u00e9cnicos de Stela Diogo e Ricardo Terto. A Mika Lins fez a dire\u00e7\u00e3o de narra\u00e7\u00e3o e de dramaturgia. O desenho de som foi feito por Ricardo Terto, que tamb\u00e9m fez a edi\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios. A trilha sonora original \u00e9 de Paulo Sartori, com trilhas adicionais de Epidemic Sound. A identidade visual \u00e9 do Matheus Pigozzi.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Nesse epis\u00f3dio, tivemos em ordem de apari\u00e7\u00e3o: Gabriela Westphal, como Annie Putnam Jr. e Mica Lins como Tituba.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Registro aqui os nossos agradecimentos \u00e0 Lucretia Slaughter, \u00e0 Witch City Walking Tours, que liberou o tour com o Sean em Sal\u00e9m para a gente usar nesse podcast, ao Peabody Essex Museum e \u00e0 Phillips Library, al\u00e9m do Noah Friedman-rudovsky, meu grande amigo que sempre me acolhe quando eu vou para os Estados Unidos, e aos aliados. Gra\u00e7as a voc\u00eas, esse podcast e outros podem acontecer.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Homenageamos tamb\u00e9m todas as mulheres que morreram como bruxas e as suas filhas, netas e descendentes. A sua mem\u00f3ria n\u00e3o ser\u00e1 esquecida.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/familias-organizadas-pelo-mlb-ocupam-grandes-redes-de-supermercado-para-lutar-pela-ceia-do-natal-e-denunciam-a-fome-no-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/IMG_4646-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fam\u00edlias organizadas pelo MLB ocupam grandes redes...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/stf-define-pena-para-condenados-do-nucleo-de-desinformacao-do-golpe\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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