{"id":67183,"date":"2025-11-28T19:14:24","date_gmt":"2025-11-28T22:14:24","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/calculo-capital-e-ciencia-os-nexos-reveladores\/"},"modified":"2025-11-28T19:14:24","modified_gmt":"2025-11-28T22:14:24","slug":"calculo-capital-e-ciencia-os-nexos-reveladores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/calculo-capital-e-ciencia-os-nexos-reveladores\/","title":{"rendered":"C\u00e1lculo, Capital e Ci\u00eancia: os nexos reveladores"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"898\" height=\"605\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-28-at-18-57-23-Quem-e-mais-inteligente-Einstein-ou-Newton-r_IntelligenceScaling-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-28-at-18-57-23-Quem-e-mais-inteligente-Einstein-ou-Newton-r_IntelligenceScaling-1.png 898w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-28-at-18-57-23-Quem-e-mais-inteligente-Einstein-ou-Newton-r_IntelligenceScaling-1-300x202.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-28-at-18-57-23-Quem-e-mais-inteligente-Einstein-ou-Newton-r_IntelligenceScaling-1-768x517.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-28-at-18-57-23-Quem-e-mais-inteligente-Einstein-ou-Newton-r_IntelligenceScaling-1-272x182.png 272w\" sizes=\"(max-width: 898px) 100vw, 898px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>T\u00edtulo original:<br \/><strong>Capitalismo e ci\u00eancia<\/strong> <strong>moderna: uma colagem de cita\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Este trabalho n\u00e3o constitui um artigo, mas sim uma colagem de cita\u00e7\u00f5es (sendo algumas autocita\u00e7\u00f5es), entremeadas com um texto cujo objetivo \u00e9 explicitar a linha de pensamento que as ordena.<\/p>\n<p>O tema central, no plano mais abstrato \u00e9 o par conceitual <em>qualidade\/quantidade<\/em>. No mais concreto, trata-se de um estudo hist\u00f3rico sobre o processo de <em>quantifica\u00e7\u00e3o<\/em>, presente tanto no capitalismo quanto na ci\u00eancia moderna, impulsionado em ambos pelo uso do dinheiro, enquanto uma entidade essencialmente quantitativa. O capitalismo e a ci\u00eancia moderna constituem, na modernidade, <em>for\u00e7as quantificadoras<\/em> das sociedades e do autoentendimento das sociedades.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/15--21.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/15--21.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/15-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A se\u00e7\u00e3o 1 \u00e9 um proleg\u00f4meno em que se definem os conceitos de <em>quantifica\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>mensura\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>matematiza\u00e7\u00e3o<\/em>, os quais desempenham pap\u00e9is centrais ao longo do\u00a0 trabalho. (Em vez de \u2018mensura\u00e7\u00e3o\u2019, usarei, ocasionalmente, \u2018medi\u00e7\u00e3o\u2019, como sin\u00f4nimo). As demais se\u00e7\u00f5es t\u00eam a forma de um recorte, uma sequ\u00eancia de per\u00edodos ou momentos hist\u00f3ricos, como fotogramas de um filme, a saber, <em>grosso modo<\/em>:<\/p>\n<ul>\n<li>S\u00e9c. XIV (com algumas refer\u00eancias a Arist\u00f3teles). Quantifica\u00e7\u00e3o do conhecimento pelos escol\u00e1sticos. A exposi\u00e7\u00e3o deste per\u00edodo \u00e9 de longe a mais extensa, vai da se\u00e7\u00e3o 2 \u00e0 10.<\/li>\n<li>S\u00e9c. XVI-XVII. Inven\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos de mensura\u00e7\u00e3o (que permitem a matematiza\u00e7\u00e3o do conhecimento da natureza), por Galileu. Se\u00e7\u00f5es 11 e 12.<\/li>\n<li>S\u00e9c. XVIII. O <em>utilitarismo<\/em> como for\u00e7a quantificadora: as ideias de Bentham. Se\u00e7\u00f5es 13 e 14.<\/li>\n<li>S\u00e9c. XIX. O triunfo da matematiza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia: o lema de Lord Kelvin. Se\u00e7\u00e3o 15.<\/li>\n<li>S\u00e9c. XX. A matematiza\u00e7\u00e3o da metaci\u00eancia: a <em>cientometria<\/em> de Solla Price. Se\u00e7\u00f5es 16 e 17.<\/li>\n<li>Sec. XX-XXI. Neoliberalismo e quantifica\u00e7\u00e3o Se\u00e7\u00e3o 18.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Sum\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>1. <\/strong>Quantifica\u00e7\u00e3o, mensura\u00e7\u00e3o e matematiza\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>2. A quantifica\u00e7\u00e3o da f\u00edsica pr\u00e9-moderna<\/li>\n<li>3. Internalismo e externalismo na hist\u00f3ria da quantifica\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>4. A monetiza\u00e7\u00e3o da sociedade europeia<\/li>\n<li>5. Entram em cena os escol\u00e1sticos<\/li>\n<li>6. O dinheiro como medida de todas as coisas<\/li>\n<li>7. O dinheiro mede qualidades<\/li>\n<li>8. As contribui\u00e7\u00f5es do Merton College e da Universidade de Paris<\/li>\n<li>9. Tom\u00e1s de Aquino e a troca justa<\/li>\n<li>10. A inexist\u00eancia de medi\u00e7\u00f5es<\/li>\n<li>11. As mensura\u00e7\u00f5es de Galileu<\/li>\n<li>12. A matem\u00e1tica de Galileu<\/li>\n<li>13. O utilitarismo como for\u00e7a quantificadora; as ideias de Bentham<\/li>\n<li>14. Marx contra Bentham<\/li>\n<li>15. O triunfo da matematiza\u00e7\u00e3o; o lema de Lord Kelvin<\/li>\n<li>16. A cientometria<\/li>\n<li>17. Crescimento exponencial da ci\u00eancia: evid\u00eancias e implica\u00e7\u00f5es<\/li>\n<li>18. Neoliberalismo e quantifica\u00e7\u00e3o<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>1. Quantifica\u00e7\u00e3o, mensura\u00e7\u00e3o e matematiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas conceitos se faz por meio de uma autocita\u00e7\u00e3o, proveniente do livro <em>A mercantiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia<\/em> (Oliveira, 2023; daqui por diante designado por MzC).<\/p>\n<blockquote>\n<p>Tomando a quantidade como um conceito primitivo, definimos a quantifica\u00e7\u00e3o como o processo de desenvolvimento da vis\u00e3o da realidade em termos de quantidade. A quantifica\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo cognitivo, situa-se na esfera das ideias, na mente dos seres humanos. A mensura\u00e7\u00e3o situa-se na esfera da pr\u00e1tica, \u00e9 uma forma de intera\u00e7\u00e3o com a realidade que torna mais definidos, mais precisos, aspectos da vis\u00e3o quantitativa. A quantifica\u00e7\u00e3o pode existir sem a mensura\u00e7\u00e3o. Um bom exemplo dessa possibilidade \u00e9 a Geometria Euclidiana. O teorema de Pit\u00e1goras refere-se, evidentemente, a quantidades: os tamanhos dos lados de um tri\u00e2ngulo ret\u00e2ngulo. Nada h\u00e1 de absurdo em pens\u00e1-lo enquanto uma lei emp\u00edrica, que pode ser testada pela medi\u00e7\u00e3o dos lados de tri\u00e2ngulos reais, isto \u00e9, entidades materiais pr\u00f3ximas da ideia do tri\u00e2ngulo ret\u00e2ngulo. Por\u00e9m tal opera\u00e7\u00e3o \u00e9 exterior ao universo conceitual da Geometria Euclidiana. A mensura\u00e7\u00e3o, por outro lado, pressup\u00f5e a quantifica\u00e7\u00e3o: para que algo seja medido, precisa primeiro ser quantificado. O termo matematiza\u00e7\u00e3o, por fim, designa as duas opera\u00e7\u00f5es em conjunto (matematiza\u00e7\u00e3o = quantifica\u00e7\u00e3o + mensura\u00e7\u00e3o). (MzC, p. 216)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>2. A quantifica\u00e7\u00e3o da f\u00edsica pr\u00e9-moderna<\/strong><\/p>\n<p>Isso posto, o ponto de partida \u00e9 a seguinte passagem de Marshall Clagett:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Com certeza, um dos mais significativos desenvolvimentos no surgimento da f\u00edsica pr\u00e9-moderna foi sua quantifica\u00e7\u00e3o. Com frequ\u00eancia tem sido sustentado que tal quantifica\u00e7\u00e3o ou matematiza\u00e7\u00e3o ocorreu nos s\u00e9culos XVI e XVII, sob a influ\u00eancia da introdu\u00e7\u00e3o da matem\u00e1tica de Arquimedes e seu uso e aplica\u00e7\u00e3o por Galileu Galilei. \u00c9 inquestion\u00e1vel que a divulga\u00e7\u00e3o das obras e do esp\u00edrito arquimediano muito fizeram no sentido de moldar a forma que assumiu a investiga\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica dos fen\u00f4menos naturais. Por\u00e9m tornou-se mais vis\u00edvel, na \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, que o interesse do s\u00e9culo XVI no tratamento matem\u00e1tico, quando n\u00e3o experimental, de quest\u00f5es naturais \u00e9 pelo menos parcialmente produto de investiga\u00e7\u00f5es seguindo a linha adotada nas universidades de Oxford e Paris no s\u00e9culo XIV. Tal interesse na quantifica\u00e7\u00e3o do f\u00edsico nessas universidades manifestou-se particularmente no estudo quantitativo do movimento local. Pela primeira vez na hist\u00f3ria, os fil\u00f3sofos da natureza estavam pensando seriamente na cinem\u00e1tica, o estudo do movimento em termos das dimens\u00f5es de espa\u00e7o e tempo. (Clagett, 1950, p. 131-2)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>3. Internalismo e externalismo na hist\u00f3ria da quantifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/HUCITEC-basaglia4-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/HUCITEC-basaglia4-5.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia4-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Como explicar esse impulso quantificador do s\u00e9culo XIV? Quais foram as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas que levaram a seu surgimento? A resposta defendida a seguir prov\u00e9m de dois escritos do medievalista Joel Kaye: o artigo \u201cThe impact of money on the development or fourteenth-century scientific thought\u201d (Kaye, 1988), e o livro <em>Economy and nature in the fourteenth century: money, market exchange and the emergence of scientific thought<\/em> (Kaye, 2004).<\/p>\n<p>Segundo o autor, nos estudos hist\u00f3ricos do movimento quantificador a que Clagett se refere, prevalece uma vis\u00e3o <em>internalista<\/em>, que busca explic\u00e1-lo situando-o na tradi\u00e7\u00e3o do pensamento filos\u00f3fico. Embora n\u00e3o excluindo esse aspecto como parte da explica\u00e7\u00e3o, Kaye trata do movimento tamb\u00e9m de uma perspectiva <em>externalista<\/em>, trazendo \u00e0 tona caracter\u00edsticas econ\u00f4micas e sociais da \u00e9poca enquanto fatores que favoreceram seu surgimento. Entre tais fatores, o mais significativo \u00e9 o que diz respeito ao dinheiro, e a\u00ed se encontra a conex\u00e3o do capitalismo com a ci\u00eancia moderna, em suas origens. Expondo o objetivo central da obra, diz o autor.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Neste livro sugiro uma explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mais ampla do que as que t\u00eam sido propostas, para as novas dire\u00e7\u00f5es tomadas na filosofia natural do s\u00e9culo XIV. Argumento que a transforma\u00e7\u00e3o do modelo conceitual do mundo natural, operada no interior de disciplinas t\u00e9cnicas das universidades de Oxford e Paris, aproximadamente de 1260 a 1380, foi fortemente influenciada pela r\u00e1pida <em>monetiza\u00e7\u00e3o<\/em> da sociedade europeia que ocorria nessa \u00e9poca, fora da Universidade e da cultura livresca. Analiso o impacto do mercado monetizado no mais not\u00e1vel e caracter\u00edstico interesse na filosofia natural do per\u00edodo: a preocupa\u00e7\u00e3o com a mensura\u00e7\u00e3o, grada\u00e7\u00e3o e quantifica\u00e7\u00e3o das qualidades. Investigo a transfer\u00eancia de <em>insights<\/em> provenientes do entendimento filos\u00f3fico do mercado monetizado para o entendimento filos\u00f3fico da natureza. E descrevo como as mudan\u00e7as essenciais para a emerg\u00eancia da ci\u00eancia moderna [\u2026] tinham suas ra\u00edzes na experi\u00eancia e compreens\u00e3o da sociedade monetizada. (Kaye, 2004, p. 2)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>4. A monetiza\u00e7\u00e3o da sociedade europeia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>O aumento do volume da moeda em circula\u00e7\u00e3o e a frequ\u00eancia de transa\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias s\u00e3o apenas dois dos muitos fatores em jogo. O processo de monetiza\u00e7\u00e3o era inextricavelmente ligado \u00e0 chamada \u201ca revolu\u00e7\u00e3o comercial do s\u00e9culo XIII\u201d: o r\u00e1pido crescimento do com\u00e9rcio, dos mercados e cidades; a acelera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e artesanal; a evolu\u00e7\u00e3o de empresas e t\u00e9cnicas comerciais especializadas; a penetra\u00e7\u00e3o de valores comerciais em todas as \u00e1reas da vida social. Neste sentido, o processo de monetiza\u00e7\u00e3o aparece primeiro nas cidades italianas em fins do s\u00e9culo XI e no s\u00e9culo XII. Quanto \u00e0 Inglaterra e \u00e0 Fran\u00e7a, os historiadores identificam o \u201clongo\u201d s\u00e9culo XIII \u2013 isto \u00e9, de aproximadamente 1180 a 1320 \u2013 como o per\u00edodo da monetiza\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida. (Kaye, 2004, p. 15-16)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>5. Entram em cena os escol\u00e1sticos<\/strong><\/p>\n<p>A grande e crescente presen\u00e7a do dinheiro na vida social despertou o interesse dos escol\u00e1sticos, tanto como elemento de seus estudos sobre a sociedade, quanto pelo envolvimento concreto em transa\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias. Descrevendo esse envolvimento, diz nosso autor:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Os estudantes e mestres em Oxford e Paris viviam em ambientes urbanos onde os efeitos da monetiza\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o podiam ser vistos e experimentados por toda parte. Caso o estudante passasse pela <em>High Street<\/em> em Oxford, ou a <em>Grand pont<\/em> em Paris, provavelmente se veria no meio de mercados cheios de gente, enquanto media o pre\u00e7o de uma desejada caneta, ou livro, ou caneca, comparando-o com as moedas em seus bolsos. Se fosse um estrangeiro na cidade, como era mais prov\u00e1vel, entraria em frequente contato com cambistas e com as complexas equa\u00e7\u00f5es para converter seu dinheiro na moeda aceita localmente. Ele teria que calcular e administrar seus recursos numa sociedade que fornecia numerosas oportunidades para gast\u00e1-los. \u00c9 pouco surpreendente que as mais antigas cartas de estudantes preservadas refletissem a preocupa\u00e7\u00e3o com a falta de dinheiro, registrando pedidos de ajuda financeira. (Kaye, 2004, p. 6)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 curioso como essa descri\u00e7\u00e3o, com os devidos ajustes, vale tamb\u00e9m para os estudantes universit\u00e1rios nos dias de hoje. O mesmo pode ser dito a respeito dos professores em suas atividades administrativas, como se l\u00ea nesta passagem:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nas universidades, cada exame prestado, cada etapa cumprida e cada t\u00edtulo conquistado tinha um pre\u00e7o. Os registros universit\u00e1rios preservados de Oxford e Paris testemunham a diversidade de taxas cobradas e a quantidade de esfor\u00e7o consciente exigido dos mestres escol\u00e1sticos na estipula\u00e7\u00e3o e coleta de seu valor \u2013 uma vez que os professores eram quase sempre tamb\u00e9m administradores. A minuciosa regula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria e gradua\u00e7\u00e3o da vida universit\u00e1ria era ainda mais complicada pelo h\u00e1bito de ajustar a taxa cobrada em propor\u00e7\u00e3o com a capacidade de pagar de cada estudante. [\u2026] A evid\u00eancia do permanente envolvimento burocr\u00e1tico contida nesses registros levou um estudioso moderno a concluir que os mestres do s\u00e9culo XIV gastavam tanto tempo com deveres administrativos quanto escrevendo ou dando aulas. (Kaye, 2004, p.7)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A experi\u00eancia da vida nessas sociedades monetizadas gerou o interesse dos escol\u00e1sticos pela vida econ\u00f4mica, particularmente o dinheiro, como se constata pelos escritos que deixaram sobre o tema. Como eles se dedicavam tamb\u00e9m \u00e0 Filosofia da Natureza, isso permitia que houvesse influ\u00eancias m\u00fatuas entre os dois dom\u00ednios do conhecimento. Tais escritos consistiam em coment\u00e1rios sobre as ideias econ\u00f4micas de Arist\u00f3teles que, por um lado as incorporavam, por outro desviavam-se delas, abrindo o caminho para a vis\u00e3o de mundo pr\u00f3pria da modernidade. Entre os coment\u00e1rios mais destacados, encontram-se os de Alberto Magno (1193-1280), Tom\u00e1s de Aquino (1225-1274) e Nicole Oresme (1323-1382). (MzC, p. 225)<\/p>\n<p><strong>6. O dinheiro como medida de todas as coisas<\/strong><\/p>\n<p>Uma concep\u00e7\u00e3o de Arist\u00f3teles n\u00e3o somente adotada, mas tamb\u00e9m desenvolvida pelos escol\u00e1sticos \u00e9 a que identifica tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es do dinheiro: ser <em>meio de troca<\/em>, <em>medida do valor<\/em> e <em>reserva de valor<\/em>. No presente contexto, a mais importante \u00e9 a da medida do valor, e especialmente a proposi\u00e7\u00e3o de que o dinheiro \u00e9 a medida de todas as coisas (ou, mais precisamente, de tudo o que pode ser objeto de troca). O desenvolvimento introduzido pelos escol\u00e1sticos foi a amplia\u00e7\u00e3o impl\u00edcita da categoria de coisas que podem ser trocadas.<\/p>\n<p><strong>7. O dinheiro mede qualidades<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o das ideias econ\u00f4micas em outros dom\u00ednios do pensamento pode ser interpretada como tendo sua origem na seguinte linha de racioc\u00ednio, cuja conclus\u00e3o consiste num aspecto em que os escol\u00e1sticos se desviaram dos ensinamentos de Arist\u00f3teles. Muito esquematicamente: 1) tudo o que \u00e9 troc\u00e1vel \u00e9 mensur\u00e1vel pelo dinheiro; 2) o conjunto de coisas troc\u00e1veis inclui uma variedade imensa de elementos, que se distinguem uns dos outros por suas qualidades; 3) sendo assim, o dinheiro mede qualidades \u2013 o que significa que s\u00e3o mensur\u00e1veis, contrariando o que afirma a teoria aristot\u00e9lica das categorias.<\/p>\n<p>A possibilidade de quantificar qualidades representou uma liberta\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o de mundo qualitativa do sistema aristot\u00e9lico, e deu origem ao que chamar\u00edamos hoje de um vasto programa de pesquisa tendo por objeto a <em>quantifica\u00e7\u00e3o das qualidades<\/em>. Kaye o caracteriza como uma tentativa fren\u00e9tica de estender a mensura\u00e7\u00e3o e a quantifica\u00e7\u00e3o \u00e0s mais variadas e subjetivas qualidades. (Kaye, 1988, p. 256) Os avan\u00e7os no programa estimularam os escol\u00e1sticos a introduzir a vis\u00e3o quantificadora na pr\u00f3pria Teologia. (MzC, p. 226).<\/p>\n<p>Logo, n\u00e3o apenas entidades que nunca haviam sido medidas antes, mas tamb\u00e9m as que nunca foram medidas desde ent\u00e3o, eram submetidas a algum tipo de an\u00e1lise quantitativa. Quest\u00f5es teol\u00f3gicas a respeito das qualidades mais subjetivas e aparentemente imensur\u00e1veis, como a for\u00e7a da caridade crist\u00e3, ou a compara\u00e7\u00e3o do amor humano com o amor de Cristo, ou os meios pelos quais a qualidade da gra\u00e7a aumenta na alma, eram rotineiramente tratadas como problemas de quantifica\u00e7\u00e3o, e sujeitas \u00e0 an\u00e1lise de acordo com os \u00faltimos desenvolvimentos na l\u00f3gica e na matem\u00e1tica da mensura\u00e7\u00e3o. (Kaye, 2004, p. 3)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>8. As contribui\u00e7\u00f5es do Merton College e da Universidade de Paris<\/strong><\/p>\n<p>No que se refere \u00e0 Filosofia Natural, os pensadores que contribu\u00edram mais decisivamente para o movimento de quantifica\u00e7\u00e3o foram os filiados ao Merton College, da Universidade de Oxford, e depois os da Universidade de Paris. Citando Kaye mais uma vez:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nos primeiros anos do s\u00e9culo XIV, fil\u00f3sofos da natureza associados ao Merton College, Oxford, iniciaram uma nova abordagem vital para o estudo do movimento e da mudan\u00e7a qualitativa. Tais estudiosos, agora conhecidos coletivamente como a \u201cEscola de Merton\u201d (<em>Merton School<\/em>), ou os \u201cCalculadores de Oxford\u201d constru\u00edram uma l\u00f3gica e uma matem\u00e1tica da mensura\u00e7\u00e3o altamente t\u00e9cnicas. Eles aplicaram regras matem\u00e1ticas e esquemas quantitativos a um amplo dom\u00ednio de quest\u00f5es filos\u00f3ficas referentes a qualidades e movimentos, incluindo a quest\u00e3o do movimento no espa\u00e7o. Com o processo de refinar sua an\u00e1lise l\u00f3gico-matem\u00e1tica da mudan\u00e7a qualitativa, os Calculadores estabeleceram os fundamentos de uma futura F\u00edsica matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Por volta do segundo quartel do s\u00e9culo XIV, mestres da Universidade de Paris come\u00e7aram a adotar os interesses e m\u00e9todos dos Calculadores ingleses. Ao fazer isso, a paix\u00e3o por medir e quantificar que caracterizava a protoci\u00eancia das <em>calculationes<\/em> rapidamente invadiu todos os setores do pensamento escol\u00e1stico. (Kaye, p. 3)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Entre os escol\u00e1sticos da Universidade de Paris, o mais destacado no que se refere \u00e0 matematiza\u00e7\u00e3o da F\u00edsica foi Nicole Oresme (c. 1323-1382). Do ponto de vista da hist\u00f3ria dessa tradi\u00e7\u00e3o no pensamento escol\u00e1stico, o pioneiro foi Pierre Duhem. Como diz Sylla em \u201cMedieval quantification of qualities: the \u201cMerton School\u201d \u201d,<\/p>\n<blockquote>\n<p>De acordo com a teoria aristot\u00e9lica, quantidades e qualidades pertencem a categorias separadas. Seria poss\u00edvel supor, portanto, que te\u00f3ricos aristot\u00e9licos n\u00e3o tentariam quantificar qualidades. Durante a Idade M\u00e9dia, entretanto, te\u00f3ricos basicamente aristot\u00e9licos em sua abordagem tentaram quantificar qualidades. A abordagem medieval da quantifica\u00e7\u00e3o de qualidades que at\u00e9 agora recebeu mais aten\u00e7\u00e3o de historiadores modernos \u00e9 a de Nicole Oresme, que distinguiu claramente entre intensidade e extens\u00e3o qualitativa e prop\u00f4s m\u00e9todos geom\u00e9tricos de representar as configura\u00e7\u00f5es de qualidades com base em tal distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No per\u00edodo desde quando Pierre Duhem pela primeira vez tornou famosas as configura\u00e7\u00f5es de qualidades de Nicole Oresme, outros historiadores descobriram que o trabalho dele foi precedido e n\u00e3o seguido pelo trabalho, um tanto semelhante, de autores do Merton College, Oxford.\u201d (Sylla, 1971, p. 9).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o desse movimento com o dinheiro \u00e9 bem explicada nesta outra passagem:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O que \u00e9 mais surpreendente nos Calculadores \u00e9 sua tentativa \u201cfren\u00e9tica\u201d (<em>frenzied<\/em>) de estender a mensura\u00e7\u00e3o e a quantifica\u00e7\u00e3o \u00e0s mais variadas e subjetivas qualidades. Isso entretanto \u00e9 precisamente o que estava ocorrendo em torno deles \u00e0 medida em que sua sociedade tornava-se monetizada. O pre\u00e7o em dinheiro de uma mercadoria representava a extens\u00e3o de um sistema de mensura\u00e7\u00e3o comum e objetivo a um dom\u00ednio de valoriza\u00e7\u00e3o subjetiva. O pre\u00e7o de um objeto \u00e9, simplesmente, a express\u00e3o de seu valor num\u00e9rico, a quantifica\u00e7\u00e3o de sua qualidade. Como disse Karl Polanyi, \u201cA caracter\u00edstica espec\u00edfica do uso do dinheiro em pagamentos \u00e9 a quantifica\u00e7\u00e3o\u201d (1968, p. 182). Na verdade, todo artigo no mercado \u00e9 medido quantitativamente, e cada venda demonstra a efic\u00e1cia dessa medida padronizada na supera\u00e7\u00e3o de problemas complexos de valoriza\u00e7\u00e3o. (Kaye, 1988, p. 256)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>9. Tom\u00e1s de Aquino e a troca justa<\/strong><\/p>\n<p>As reflex\u00f5es dos escol\u00e1sticos s\u00e3o extremamente abstratas, logicamente muito sofisticadas e intrincadas. Uma exposi\u00e7\u00e3o sobre seu desenvolvimento extrapola os limites deste trabalho. Vou apenas mencionar um conceito fundamental no debate, o de <em>latitude<\/em> <em>das qualidades <\/em>(<em>latitudo qualitatum<\/em>), ou das formas (<em>latitudo formarum<\/em>). A origem do conceito encontra-se nas ideias de Tom\u00e1s de Aquino a respeito do pre\u00e7o justo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Em sua discuss\u00e3o da troca justa, Tom\u00e1s de Aquino sustenta que o \u201cpre\u00e7o justo\u201d n\u00e3o poderia se limitar a um ponto \u00fanico de igualdade (<em>non est punctualiter determinatum<\/em>). Em vez disso, a igualdade justa ficaria satisfeita pelas estimativas necessariamente aproximadas feitas pelos permutadores em dire\u00e7\u00e3o a esse ponto de igualdade. Portanto, conclui, o pre\u00e7o justo e o requisito de equaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica est\u00e3o contemplados dentro de uma faixa de valores variando de um pouco acima a um pouco abaixo (<em>modica additio vel minutio<\/em>) do ponto m\u00e9dio ideal de igualdade. (Kaye, 2004, p. 183)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A partir dessa origem o conceito foi se transformando e:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Por volta do segundo quartel do s\u00e9culo XIV, nos escritos dos Calculadores e no trabalho de certos fil\u00f3sofos da natureza, a latitude passou de uma descri\u00e7\u00e3o de uma faixa abstrata de valores a algo tendo exist\u00eancia real enquanto um cont\u00ednuo de mensura\u00e7\u00e3o fisicamente identificado como a intensidade num dado ponto. Passou a ser imaginado (nas palavras de Edith Sylla), no modelo da \u201clinha geom\u00e9trica\u201d, como \u201cum cont\u00ednuo homog\u00eaneo\u201d composto de partes qualitativas. (Kaye, 2004, p. 187)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para substanciar suas teses referentes ao papel do dinheiro na matematiza\u00e7\u00e3o do conhecimento da natureza, al\u00e9m de proposi\u00e7\u00f5es gerais, Kaye exp\u00f5e e discute passagens de determinados autores. Como exemplos, vale a pena registrar duas delas.<\/p>\n<p>Referindo-se a um texto de Henry de Ghent [1217-1293], diz Kaye<\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma das primeiras quest\u00f5es econ\u00f4micas que provocaram esse reconhecimento de que o dinheiro mede e quantifica a <em>indigentia<\/em> [no sentido de \u2018car\u00eancia\u2019] diz respeito ao pre\u00e7o justo e \u00e0 permissibilidade do lucro do comerciante. Seria l\u00edcito revender alguma coisa por mais do que se havia pago por ela? Essa quest\u00e3o era cr\u00edtica. Se assim for, de onde viria essa <em>superabundantia<\/em> \u2013 o valor acrescentado? Tal quest\u00e3o era cr\u00edtica para a manuten\u00e7\u00e3o da ideia da igualdade na troca.<\/p>\n<p>A partir do s\u00e9culo XIII, a resposta em geral dada tem dois n\u00edveis: revender por mais \u00e9 violar a \u201cigualdade natural\u201d, a n\u00e3o ser que a mercadoria revendida tenha sido melhorada pelo trabalho. Embora consciente do car\u00e1ter tradicional de suas posi\u00e7\u00f5es a respeito da economia, Henry de Ghent pertencia ao grupo de pensadores que permitia aos comerciantes expandir a igualdade aritm\u00e9tica entre o pre\u00e7o de compra e o de venda pela cobran\u00e7a pelo trabalho de transporte, que ele considerava um melhoramento leg\u00edtimo. Al\u00e9m disso ele reconhecia que havia <em>qualidades mentais<\/em> que o comerciante de sucesso empenhava nessa tarefa, as quais incrementavam o valor de seu trabalho. Sabendo onde e como comprar e vender, a \u201c<em>expertise<\/em>\u201d e o \u201ccuidado\u201d tinham um valor em si mesmos \u2013 valor que podia ser medido, traduzido em termos monet\u00e1rios, e legitimamente acrescentados ao custo de mercadoria. At\u00e9 algo t\u00e3o ef\u00eamero como a boa reputa\u00e7\u00e3o do comerciante podia ser traduzido em termos monet\u00e1rios e legitimamente adicionados ao pre\u00e7o de revenda. (Kaye, 2004, p. 139-140):[1]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O segundo coment\u00e1rio refere-se a Jean Buridan (1300-1358), e impressiona pela sofistica\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise desenvolvida.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Buridan esquadrinhou mais profundamente a quest\u00e3o: como poderiam dois servi\u00e7os diferentes serem comparados e comensurados e, mais intrigantemente, como poderia uma quantidade monet\u00e1ria (o pre\u00e7o expresso em n\u00fameros) ser comensur\u00e1vel com uma entidade incorp\u00f3rea tal como um servi\u00e7o prestado? Ele inicia sua resposta observando que \u00e0 primeira vista a medi\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os parece imposs\u00edvel. A seguir, para ilustrar que tais medi\u00e7\u00f5es eram tanto poss\u00edveis quanto comuns, ele escolheu (o que nos parece) um exemplo extremo desse fen\u00f4meno, que entretanto fazia sentido no contexto de sua sociedade.<br \/>Buridan apresentou seu argumento a um questionador imagin\u00e1rio: Suponha que algu\u00e9m lhe deu dez libras e voc\u00ea em troca expressou o reconhecimento <em>grates Domine<\/em>. Voc\u00ea dir\u00e1, sem d\u00favida, que as dez libras que recebeu valiam mais que seu agradecimento e assim, que n\u00e3o houve igualdade na transa\u00e7\u00e3o. Considere por\u00e9m que todo valor no mercado \u00e9 relativo, e estimado de acordo com as necessidades humanas. Imagine que o doador das dez libras \u00e9 muito rico, e portanto tem pouca ou nenhuma necessidade do dinheiro, mas muita necessidade de honra. Imagine tamb\u00e9m que quem recebe o dinheiro \u00e9 um homem de grande honestidade e bondade. Em tal situa\u00e7\u00e3o, diz Buridan, o simples <em>grates Domine<\/em> do pobre constitui uma compensa\u00e7\u00e3o correta e proporcional para as dez libras do rico. Nesse exemplo elegante, n\u00e3o apenas se encontra um pre\u00e7o para um servi\u00e7o aparentemente imensur\u00e1vel, mas o pre\u00e7o \u00e9 \u201cjusto\u201d, isto \u00e9, representa uma equaliza\u00e7\u00e3o do valor entre o comprador e o vendedor. (Kaye, 2004, p. 143)[2]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>10. A inexist\u00eancia de medi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Um aspecto da maior import\u00e2ncia no trabalho dos Calculadores \u00e9 a aus\u00eancia de medi\u00e7\u00f5es. Como diz Anneliese Maier:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Vezes sem conta os fil\u00f3sofos do s\u00e9culo XIV contentavam-se com entender a maneira de conhecer sem buscar o pr\u00f3prio conhecimento.<br \/>Tal atitude produziu \u2013 ou talvez tenha derivado de \u2013 uma defici\u00eancia incomum na \u201cnova f\u00edsica\u201d do s\u00e9culo XIV: ningu\u00e9m media coisa alguma. Os fil\u00f3sofos n\u00e3o apenas se recusavam, mesmo nos casos mais simples, a procurar maneiras e meios de fazer medi\u00e7\u00f5es indiretas, mas tamb\u00e9m ignoravam a oportunidade de fazer medi\u00e7\u00f5es diretas, quando isso era claramente fact\u00edvel. Contentavam-se com valores quantitativos aproximados em seus experimentos e indu\u00e7\u00f5es, e em seus c\u00e1lculos utilizavam magnitudes arbitr\u00e1rias determinadas <em>a priori<\/em> ou ficavam no n\u00edvel abstrato de computa\u00e7\u00f5es usando apenas letras. (Maier, 1982, p. 168-9; MzC, p. 227-8)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Tendo em mente a distin\u00e7\u00e3o entre quantifica\u00e7\u00f5es e mensura\u00e7\u00f5es exposta na se\u00e7\u00e3o 1, pode-se dizer que os escol\u00e1sticos tudo quantificavam, mas nada mediam. A passagem de uma etapa \u00e0 outra s\u00f3 veio a se realizar quase dois s\u00e9culos depois, pelos fundadores da ci\u00eancia moderna, com destaque para Galileu, Kepler e Descartes. A tarefa de executar mensura\u00e7\u00f5es nada tem de simples, ou \u00f3bvio; pelo contr\u00e1rio, al\u00e9m de conhecimento te\u00f3rico exige do investigador grande dose de engenhosidade, de capacidade de inventar expedientes para resolver problema pr\u00e1ticos, atributos dos quais Galileu era notavelmente dotado (Mariconda &amp; Vasconcelos, 2020, p. 337). \u00c0 guisa de ilustra\u00e7\u00e3o, relaciono a seguir v\u00e1rios epis\u00f3dios das atividades de Galileu voltadas para a mensura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>11. As mensura\u00e7\u00f5es de Galileu<\/strong><\/p>\n<p>Em 1586 Galileu inventa uma balan\u00e7a hidrost\u00e1tica, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 medir o peso espec\u00edfico de corpos. Ele a denominou a \u201cbalancinha\u201d (<em>bilancetta<\/em>). Nos anos seguintes, projetou e produziu para a venda o \u201ccompasso geom\u00e9trico-militar\u201d, que n\u00e3o era propriamente um instrumento de medi\u00e7\u00e3o: n\u00e3o servia para medir, mas para facilitar os c\u00e1lculos baseados nos resultados de medi\u00e7\u00f5es, tendo em vista a solu\u00e7\u00e3o de problemas pr\u00e1ticos. O sucesso comercial do empreendimento atesta a efic\u00e1cia do aparelho. As contribui\u00e7\u00f5es mais not\u00e1veis de Galileu para a matematiza\u00e7\u00e3o da f\u00edsica foram fruto de suas investiga\u00e7\u00f5es sobre a queda dos corpos, o plano inclinado e o p\u00eandulo, nas quais a medi\u00e7\u00e3o de curtos per\u00edodos desempenha um papel essencial. O expediente inventado por ele envolvia um balde cheio de \u00e1gua, com um pequeno orif\u00edcio no fundo, e tinha como pressuposto a proporcionalidade entre a dura\u00e7\u00e3o dos per\u00edodos de tempo e a quantidade de \u00e1gua escoada nos respectivos per\u00edodos, medida por meio de uma balan\u00e7a. Al\u00e9m desses expedientes,<\/p>\n<blockquote>\n<p>Galileu investigou tamb\u00e9m os fen\u00f4menos t\u00e9rmicos, inventando um aparelho para a medida da temperatura. Contudo, n\u00e3o se pode dizer que tenha inventado o term\u00f4metro, pois seu aparelho apresentava muitos defeitos: o n\u00edvel do l\u00edquido no tubo em que devia ser feita a leitura da temperatura dependia, na verdade, n\u00e3o apenas da temperatura procurada, mas tamb\u00e9m da press\u00e3o atmosf\u00e9rica externa. Apesar disso, a tentativa de Galileu \u00e9 considerada como o embri\u00e3o a partir do qual Torricelli, um dos \u00faltimos disc\u00edpulos de Galileu, chegou \u00e0 inven\u00e7\u00e3o do bar\u00f4metro (cf. Dijksterhuis, 1986, p. 359-64). Mesmo no final de sua vida, Galileu procurou construir, sem \u00eaxito, um rel\u00f3gio de p\u00eandulo que fornecesse uma medida exata de pequenos intervalos temporais. Essas tentativas, apesar de malsucedidas, mostram claramente a consci\u00eancia que Galileu tinha da import\u00e2ncia, para a f\u00edsica cl\u00e1ssica, dos instrumentos de medida, isto \u00e9, de aparelhos t\u00e9cnicos, de artefatos que permitissem observa\u00e7\u00f5es e medi\u00e7\u00f5es cada vez mais precisas (Mariconda &amp; Vasconcelos, 2020, p. 337).[3]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>12. A matem\u00e1tica de Galileu<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>A filosofia est\u00e1 escrita neste grand\u00edssimo livro que continuamente nos est\u00e1 aberto diante dos olhos (eu digo o universo), mas n\u00e3o se pode entender se primeiro n\u00e3o se aprende a entender a l\u00edngua e conhecer os caracteres, com os quais est\u00e1 escrito. Ele est\u00e1 escrito em l\u00edngua matem\u00e1tica, e os caracteres s\u00e3o tri\u00e2ngulos, c\u00edrculos e outras figuras geom\u00e9tricas, meios sem os quais \u00e9 imposs\u00edvel entender humanamente qualquer palavra; sem estes vaga-se em v\u00e3o por um escuro labirinto. (Galileu, [1623] 1999, p. 46.[4]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nos dias de hoje, pode causar estranheza que Galileu relacione como caracteres do livro da natureza \u201ctri\u00e2ngulos, c\u00edrculos e outras figuras geom\u00e9tricas\u201d, e n\u00e3o n\u00fameros, associados mais essencialmente \u00e0 vis\u00e3o quantitativa da realidade. O que h\u00e1 de geom\u00e9trico, p. ex., na mensura\u00e7\u00e3o da temperatura? A explica\u00e7\u00e3o encontra-se em Mariconda &amp; Vasconcelos:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Para apreciar o uso que Galileu faz da matem\u00e1tica dispon\u00edvel em sua \u00e9poca, \u00e9 preciso separar dois aspectos da matematiza\u00e7\u00e3o da f\u00edsica: de um lado, considerar a matem\u00e1tica efetivamente empregada por Galileu em suas investiga\u00e7\u00f5es e na qual ele est\u00e1 obrigado a expressar os resultados; de outro, a matem\u00e1tica tomada como modelo de ci\u00eancia e de exposi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sistem\u00e1tica.<\/p>\n<p>No caso da matem\u00e1tica efetivamente empregada por Galileu, a an\u00e1lise das observa\u00e7\u00f5es e dos experimentos e, especialmente, as conceitua\u00e7\u00f5es e usos de grandezas f\u00edsicas, tais como as de espa\u00e7o, tempo, velocidade e acelera\u00e7\u00e3o, est\u00e3o formuladas na linguagem da teoria geom\u00e9trica da proporcionalidade e da semelhan\u00e7a de figuras, exposta nos Livros V e VI dos <em>Elementos de geometria <\/em>de Euclides. Essa base na proporcionalidade geom\u00e9trica ser\u00e1 respons\u00e1vel por limita\u00e7\u00f5es da express\u00e3o matem\u00e1tica de Galileu, pr\u00f3prias de quem est\u00e1 trabalhando no alvorecer da ado\u00e7\u00e3o da \u00e1lgebra, da geometria anal\u00edtica e do desenvolvimento do c\u00e1lculo. (Mariconda &amp; Vasconcelos, 2020, p. 292)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>13. O utilitarismo como for\u00e7a quantificadora; as ideias de Bentham<\/strong><\/p>\n<p>O programa matematizador de Galileu, Kepler e Descartes, como se sabe, foi extraordinariamente bem sucedido, particularmente na esteira da obra de Newton. A abordagem matem\u00e1tica foi gradativamente se estendendo, da F\u00edsica para a Qu\u00edmica, a Biologia, Geologia, etc., e depois, no campo das ci\u00eancias humanas, para a Sociologia e a Psicologia. Por outro lado, \u00e9 bom lembrar que a Astronomia j\u00e1 era matem\u00e1tica desde o in\u00edcio na Antiguidade. A Economia j\u00e1 nasce marcada pelo quantitativo, dada a centralidade do dinheiro, mas sua quantifica\u00e7\u00e3o recebe um significativo avan\u00e7o proveniente do Utilitarismo de J. Bentham, que merece uma men\u00e7\u00e3o, dada a influ\u00eancia que teve sobre a Economia Pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O cerne do utilitarismo benthamiano, tal como exposto em <em>Uma introdu\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios da moral e da legisla\u00e7\u00e3o<\/em> (Bentham [1789] 1979) pode ser analisado em tr\u00eas momentos l\u00f3gicos: <em>redu\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>quantifica\u00e7\u00e3o<\/em>, e <em>maximiza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Redu\u00e7\u00e3o:<\/strong> o utilitarismo reduz todos os sentimentos, emo\u00e7\u00f5es e valores humanos a uma \u00fanica dimens\u00e3o, a da polaridade felicidade\/infelicidade, ou prazer\/dor. Em suas palavras:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A natureza colocou o g\u00eanero humano sob o dom\u00ednio de dois senhores soberanos: a <em>dor<\/em> e o <em>prazer<\/em>. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na verdade faremos. (Bentham, ([1789] 1979, p. 17).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Quantifica\u00e7\u00e3o:<\/strong> O cap\u00edtulo IV do livro em pauta tem por t\u00edtulo \u201cM\u00e9todo para medir uma soma de prazer ou de dor\u201d. Cada prazer ou dor tem um valor, medido de acordo com um determinado m\u00e9todo. O n\u00facleo do m\u00e9todo \u00e9 descrito da seguinte maneira:<\/p>\n<p>Para uma pessoa considerada <em>em si mesma<\/em>, o valor de um prazer ou de uma dor, considerado <em>em si mesmo<\/em>, ser\u00e1 maior ou menor, segundo as quatro circunst\u00e2ncias que se seguem:<\/p>\n<ul>\n<li>A sua <em>intensidade<\/em>.<\/li>\n<li>A sua <em>dura\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/li>\n<li>A sua <em>certeza<\/em> ou <em>incerteza<\/em>.<\/li>\n<li>\u00a0A sua <em>proximidade<\/em> no tempo ou a sua <em>longinquidade<\/em>. (<em>Ibid<\/em>, p. 16).<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Maximiza\u00e7\u00e3o<\/strong>: O termo \u201cutilidade\u201d, do qual deriva o nome da doutrina, figura na express\u00e3o \u201cprinc\u00edpio da utilidade\u201d, sendo tal princ\u00edpio apresentado por Bentham como o fundamento da doutrina. Seu enunciado \u00e9 o seguinte:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Por princ\u00edpio da utilidade entende-se aquele princ\u00edpio que aprova ou desaprova qualquer a\u00e7\u00e3o, segundo a tend\u00eancia que tem a aumentar ou diminuir a felicidade da pessoa cujo interesse est\u00e1 em jogo, ou, o que \u00e9 a mesma coisa em outros termos, segundo a tend\u00eancia a promover ou comprometer a referida felicidade. (<em>Ibid<\/em>., p. 4)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Tempos depois da publica\u00e7\u00e3o do livro, Bentham passou a usar \u201cm\u00e1xima felicidade\u201d (\u201c<em>greatest happiness<\/em><em> or greatest felicity principle<\/em>\u201d) no lugar de \u201cutilidade\u201d \u2013 com isso deixando mais evidente o car\u00e1ter maximizador do princ\u00edpio. Este, por sua vez, reflete-se no nome dado por ele ao m\u00e9todo para se obter a maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade, a saber, <em>C\u00e1lculo Hedon\u00edstico<\/em> (<em>Felicific Calculus)<\/em> que \u2012 para usar um conceito muito em voga nos dias de hoje \u2012 constitui um <em>algoritmo<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma semelhan\u00e7a entre as concep\u00e7\u00f5es de Bentham e as ideias dos escol\u00e1sticos, de medir entes como a for\u00e7a da caridade crist\u00e3, o amor humano, o amor de Cristo etc. O empreendimento que realizaram foi o de uma quantifica\u00e7\u00e3o, formulada em termos t\u00e3o abstratos que n\u00e3o se v\u00ea como poderiam ser colocadas em pr\u00e1tica, chegando assim \u00e0 mensura\u00e7\u00e3o. No caso de Bentham, essa defici\u00eancia n\u00e3o impediu que tivesse uma enorme influ\u00eancia, enquanto pai do Utilitarismo.<\/p>\n<p><strong>14. Marx contra Bentham<\/strong><\/p>\n<p>Como se sabe, Marx foi um ferrenho cr\u00edtico de Bentham. No estilo agressivo-humor\u00edstico em que era mestre, diz ele: \u201cMas o preconceito s\u00f3 foi fixado em dogma pelo arquifilisteu Jeremy Bentham, o or\u00e1culo insipidamente pedante e fanfarr\u00e3o do senso comum burgu\u00eas do s\u00e9culo XIX.\u201d (Marx, Capital I, p. 684) e: \u201cE foi com todo esse lixo que nosso homem, cuja divisa \u00e9 <em>nulla dies sine linea<\/em>, encheu montanhas de livros. Tivesse eu a coragem de meu amigo H. Heine, chamaria o senhor Jeremy de g\u00eanio da arte da estupidez burguesa.\u201d (<em>Ibid<\/em>, p. 685, nota de rodap\u00e9 63) Essa diatribe \u00e9 muito citada ou mencionada, com admira\u00e7\u00e3o, pelos f\u00e3s de Marx. Vale a pena notar que, n\u2019<em>A ideologia alem\u00e3,<\/em> (p. 448 ss.), Marx e Engels exp\u00f5em uma cr\u00edtica bem educada, e pertinente, do utilitarismo de Bentham. Mas essa cr\u00edtica, a meu ver, n\u00e3o explica nem justifica os termos abusivos usados por Marx n\u2019<em>O Capital.<\/em> Digo isso porque Bentham, al\u00e9m de fil\u00f3sofo, era um ativista, um reformador social, empenhado na defesa de pol\u00edticas progressistas, avan\u00e7ad\u00edssimas para seu tempo, incluindo:<\/p>\n<ul>\n<li>\u00b7 \u00a0Estado de Bem-Estar Social<\/li>\n<li>\u00b7\u00a0 Liberdade individual e econ\u00f4mica<\/li>\n<li>\u00b7\u00a0 Anti-imperialismo<\/li>\n<li>\u00b7\u00a0 Estado laico<\/li>\n<li>\u00b7\u00a0 Liberdade de express\u00e3o<\/li>\n<li>\u00b7\u00a0 Direitos das mulheres<\/li>\n<li>\u00b7\u00a0 Direito ao div\u00f3rcio<\/li>\n<li>\u00b7\u00a0 Descriminaliza\u00e7\u00e3o do homossexualismo<\/li>\n<li>\u00b7\u00a0 Aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o; da pena de morte; da puni\u00e7\u00e3o f\u00edsica, inclusive das crian\u00e7as<\/li>\n<li>\u00b7 \u00a0Direitos dos animais[5]<\/li>\n<\/ul>\n<p>Fica a pergunta: como explicar a bronca contra Bentham que Marx expressa nessas passagens d\u2019<em>O Capital<\/em>? Como a diferen\u00e7a de posi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao utilitarismo por si s\u00f3 n\u00e3o a explica, que raz\u00f5es podem ter existido?<\/p>\n<p><strong>15. O triunfo da matematiza\u00e7\u00e3o: o lema de Lord Kelvin<\/strong><\/p>\n<p>Passando agora do fim do s\u00e9culo XVIII para o do s\u00e9culo XIX, na sumar\u00edssima hist\u00f3ria da quantifica\u00e7\u00e3o e mensura\u00e7\u00e3o que estou expondo, n\u00e3o pode ficar de fora a cita\u00e7\u00e3o a seguir. Ela demonstra o enorme sucesso do projeto de mensura\u00e7\u00e3o que marcou o nascimento da ci\u00eancia moderna.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando podemos medir aquilo de que falamos e express\u00e1-lo em n\u00fameros, sabe-se algo a seu respeito; quando n\u00e3o podemos express\u00e1-lo em n\u00fameros, nosso conhecimento \u00e9 pobre e insatisfat\u00f3rio; pode ser o come\u00e7o do conhecimento, mas em nosso pensamento, mal avan\u00e7amos em dire\u00e7\u00e3o ao est\u00e1gio da ci\u00eancia, seja qual for a quest\u00e3o\u201d (Thomson (Lord Kelvin), 1891, p. 73; MzC p. 228).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>16. A cientometria<\/strong><\/p>\n<p>Esta se\u00e7\u00e3o versa sobre o epis\u00f3dio em que a ci\u00eancia volta-se a si pr\u00f3pria, tomando-se como objeto de investiga\u00e7\u00e3o, a ser empreendida por uma disciplina. Sendo a ci\u00eancia moderna quantitativa, e sendo adotado o dogma de Lord Kelvin, segue-se que a nova disciplina deve ser quantitativa. O autor usualmente considerado seu fundador foi o f\u00edsico e historiador da ci\u00eancia e da tecnologia ingl\u00eas Derek de Solla Price (1922-1983). O termo <em>scientometrics<\/em>, entretanto, foi cunhado pelo pensador russo Vasily Nalimov (1910-1997), que chegou a ideias semelhantes \u00e0s de Price de forma independente. Foi introduzido como tradu\u00e7\u00e3o do russo <em>naukometriya<\/em>, t\u00edtulo da monografia Nalimov &amp; Mul\u2019chenko (1969). Durante o per\u00edodo inicial, usou-se tamb\u00e9m o termo s<em>cience of science<\/em> para designar a nova disciplina. Com o lan\u00e7amento da revista <em>Scientometrics<\/em>, em 1969, entretanto, esse termo passou a preponderar (contrariando Price, que preferia <em>science of science<\/em>). O t\u00edtulo do primeiro cap\u00edtulo de <em>Little science, big science<\/em> \u00e9 \u201cPrologue to a science of science\u201d. No pref\u00e1cio, o autor pergunta: \u201cPorque n\u00e3o aplicar as ferramentas da ci\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria ci\u00eancia? Porque n\u00e3o medir e generalizar, formular hip\u00f3teses, e derivar conclus\u00f5es?\u201d (Price,1963, p. v).<\/p>\n<p>Nesta se\u00e7\u00e3o trataremos apenas da contribui\u00e7\u00e3o de Price. A hist\u00f3ria de como ele chegou a suas ideias no campo da cientometria \u00e9 curiosa. Em suas palavras:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Em 1949, estava filiado ao Raffles College (agora Universidade de Singapura) quando a biblioteca, ainda n\u00e3o constru\u00edda, recebeu uma cole\u00e7\u00e3o completa (1662-1930) das <em>Philosophical Transactions of the Royal Society of London<\/em>. Ficando respons\u00e1vel pela guarda dos belos volumes encadernados em couro, arrumei-os em pilhas de dez anos nas estantes ao lado da cama. Durante um ano os li do princ\u00edpio ao fim, obtendo assim minha forma\u00e7\u00e3o inicial enquanto historiador da ci\u00eancia. Como um resultado colateral, observando que as pilhas formavam uma n\u00edtida curva exponencial contra a parede, contei todas as cole\u00e7\u00f5es de revistas que pude encontrar e descobri que o crescimento exponencial, num ritmo surpreendentemente r\u00e1pido, era aparentemente universal e notavelmente duradouro. (Price, 1986, p. xix)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>Si non \u00e8 vero, \u00e8 bene trovato<\/em>. Animado com sua descoberta, Price a apresentou no VI Congresso Internacional de Hist\u00f3ria da Ci\u00eancia, realizado em Amsterdam em 1950, mas a exposi\u00e7\u00e3o e o texto publicado (Price, 1951) ca\u00edram no vazio. Desmotivado pela falta de interesse dos historiadores da ci\u00eancia Price s\u00f3 retorna ao tema quase dez anos depois (j\u00e1 nos Estados Unidos, onde havia se radicado em 1957). Os frutos da retomada foram expostos na quinta e \u00faltima confer\u00eancia de um ciclo ministrado na Universidade de Yale em 1959. Dessa vez a repercuss\u00e3o foi bem animadora, sendo as confer\u00eancias publicadas como um livro, <em>Science since Babylon<\/em> (Price, 1961; 1975). Avan\u00e7ando na realiza\u00e7\u00e3o de estudos cientom\u00e9tricos, o passo seguinte foi a publica\u00e7\u00e3o de <em>Little science, big science<\/em>, que veio a ser considerado o marco do nascimento da cientometria (Price, 1963; 1986).<\/p>\n<p><strong>17. Crescimento exponencial da ci\u00eancia: evid\u00eancias e implica\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>No primeiro cap\u00edtulo do livro mencionado, encontra-se uma passagem que d\u00e1 uma boa ideia do desenvolvimento das investiga\u00e7\u00f5es do autor que vieram na esteira do <em>insight<\/em> com as <em>Philosophical Transactions<\/em>:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nosso ponto de partida ser\u00e1 a evid\u00eancia emp\u00edrica estat\u00edstica extra\u00edda de muitos indicadores num\u00e9ricos dos v\u00e1rios campos e aspectos da ci\u00eancia. Todos eles demonstram, com impressionantes consist\u00eancia e regularidade que, se qualquer segmento da ci\u00eancia suficientemente grande \u00e9 medido de qualquer maneira razo\u00e1vel, o modo normal de crescimento \u00e9 exponencial. Ou seja, a ci\u00eancia cresce como um juro composto, multiplicando sua dimens\u00e3o segundo um valor fixo em per\u00edodos iguais de tempo. Matematicamente, a lei do crescimento exponencial resulta da simples condi\u00e7\u00e3o de que em qualquer momento a taxa de crescimento \u00e9 proporcional ao tamanho da popula\u00e7\u00e3o ou \u00e0 magnitude total j\u00e1 alcan\u00e7ada \u2013 quanto maior \u00e9 uma coisa, mais rapidamente ela cresce. [\u2026]<\/p>\n<p>Pode parecer inicialmente que o estabelecimento de tal lei emp\u00edrica do crescimento da ci\u00eancia n\u00e3o seria inesperado, nem significativo. Ela tem, entretanto, v\u00e1rias caracter\u00edsticas not\u00e1veis, e dela podem ser extra\u00eddas algumas poderosas conclus\u00f5es. Na verdade, a lei \u00e9 de t\u00e3o longo alcance que n\u00e3o hesito em sugeri-la como a <em>lei fundamental de qualquer an\u00e1lise da ci\u00eancia.<\/em> (Price, 1986, p. 4, it\u00e1lico acrescentado)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A rapidez do crescimento exponencial de uma grandeza \u00e9 fun\u00e7\u00e3o de uma constante. A maneira mais intuitiva de express\u00e1-la \u00e9 a que especifica o per\u00edodo de tempo necess\u00e1rio para que a grandeza dobre de tamanho. Dependendo do aspecto considerado, a constante de duplica\u00e7\u00e3o estimada por Price para a ci\u00eancia variava entre 10 e 15 anos. Para ilustrar a rapidez avassaladora do crescimento da ci\u00eancia, sendo essa a dimens\u00e3o da constante, nosso autor vale-se de alguns exemplos. Um deles, muito citado, refere-se ao n\u00famero de cientistas. Segundo seus c\u00e1lculos aproximados, entre todos os cientistas que existem, e j\u00e1 existiram, de 80% a 90% est\u00e3o vivos a cada momento. \u201cPodemos sentir falta de Newton e Arist\u00f3teles, mas felizmente a maioria dos cientistas ainda est\u00e1 conosco!\u201d (Price, 1975, p. 176). Outro exemplo diz respeito ao n\u00famero de revistas:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A constante no caso \u00e9 na verdade cerca de 15 anos para a duplica\u00e7\u00e3o, que corresponde \u00e0 d\u00e9cima pot\u00eancia em 50 anos, e a um fator de 1.000 num s\u00e9culo e meio. Nos trezentos anos que nos separam de meados do s\u00e9culo XVII, isso representa um fator de um milh\u00e3o. (Price, 1975, p. 169)[6]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Entre as implica\u00e7\u00f5es da lei do crescimento exponencial da ci\u00eancia, a mais importante, a que tem consequ\u00eancias pr\u00e1ticas mais s\u00e9rias, \u00e9 o reconhecimento da impossibilidade de que tal ritmo de crescimento seja mantido indefinidamente. No que se refere ao n\u00famero de cientistas, p. ex., para manter o crescimento exponencial, num per\u00edodo de tempo n\u00e3o muito longo, todos os seres humanos precisariam tornar-se cientistas. A conclus\u00e3o \u00e9 a de que tal ritmo de crescimento deveria diminuir e, como se pode imaginar, tal redu\u00e7\u00e3o acarreta problemas s\u00e9rios para a comunidad e cient\u00edfica \u2013 como o desemprego dos rec\u00e9m-doutores, que n\u00e3o encontram mais vagas para ingresso na carreira acad\u00eamica. Desde o in\u00edcio, Price esteve ciente do car\u00e1ter insustent\u00e1vel do crescimento exponencial ilimitado, e n\u00e3o se furtou a prescrever medidas no campo das pol\u00edticas cient\u00edficas no sentido de administrar da melhor forma poss\u00edvel o ajuste que se fazia necess\u00e1rio.[7]<\/p>\n<p><strong>18. Neoliberalismo e quantifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na introdu\u00e7\u00e3o acima foi dito que esta colagem consiste num \u201cestudo hist\u00f3rico sobre o processo de <em>quantifica\u00e7\u00e3o<\/em>, presente tanto no capitalismo quanto na ci\u00eancia moderna, impulsionado em ambos pelo uso do dinheiro, enquanto uma entidade essencialmente quantitativa.\u201d O capitalismo e a ci\u00eancia moderna constituem, na modernidade, <em>for\u00e7as quantificadoras \u2013<\/em> mutuamente refor\u00e7adoras \u2013 <em>das sociedades e do autoentendimento das sociedades.<\/em><\/p>\n<p>O neoliberalismo pode ser caracterizado como a fase do capitalismo em que seus princ\u00edpios s\u00e3o radicalizados, exacerbando a tend\u00eancia em transformar tudo em mercadoria, com base no dogma da excel\u00eancia do mercado como princ\u00edpio regulador da vida econ\u00f4mica e social das sociedades. Nesse processo, intensifica-se tamb\u00e9m a for\u00e7a quantificadora do capitalismo.<\/p>\n<p>David Harvey \u00e9 um dos mais detacados analistas do neoliberalismo. Em <em>A brief history of neoliberalism<\/em>\u00a0 ele o caracteriza assim:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O neoliberalismo \u00e9 em primeiro lugar uma teoria das pr\u00e1ticas pol\u00edtico-econ\u00f4micas que prop\u00f5e que o bem-estar humano pode ser mais bem promovido por meio do fomento \u00e0s liberdades e capacidades empreendedoras individuais no \u00e2mbito de uma estrutura institucional caracterizada por s\u00f3lidos direitos de propriedade privada, livres mercados e livre com\u00e9rcio. O papel do Estado \u00e9 criar e preservar uma estrutura institucional apropriada a essas pr\u00e1ticas; o Estado tem de garantir, por exemplo, a qualidade e a integridade do dinheiro. Deve tamb\u00e9m estabelecer as estruturas e fun\u00e7\u00f5es militares, de defesa, policiais e legais requeridas para garantir direitos de propriedade privada e para assegurar, se necess\u00e1rio pela for\u00e7a, o funcionamento apropriado dos mercados. Al\u00e9m disso, se n\u00e3o existirem mercados (em dom\u00ednios como a terra, a \u00e1gua, a educa\u00e7\u00e3o, a assist\u00eancia m\u00e9dica, a seguran\u00e7a social ou a polui\u00e7\u00e3o ambiental), estes devem ser criados, se necess\u00e1rio pela a\u00e7\u00e3o do Estado. Mas o Estado n\u00e3o deve aventurar-se para al\u00e9m dessas tarefas. As interven\u00e7\u00f5es do Estado nos mercados (uma vez criados) devem ser mantidas num n\u00edvel m\u00ednimo, porque, de acordo com a teoria, o Estado possivelmente n\u00e3o possui informa\u00e7\u00f5es suficientes para prever os sinais do mercado (pre\u00e7os), e porque poderosos grupos de interesse v\u00e3o inevitavelmente distorcer e viciar as interven\u00e7\u00f5es do Estado (particularmente nas democracias) em seu pr\u00f3prio benef\u00edcio. (Harvey, 2005, p. 2)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Um bom quadro do impacto do neoliberalismo sobre os indiv\u00edduos \u00e9 esbo\u00e7ado \u00e9 esbo\u00e7ado por Dardot e Laval em <em>A nova raz\u00e3o do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal<\/em>.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O neoliberalismo n\u00e3o destr\u00f3i apenas regras, institui\u00e7\u00f5es, direitos. Ele tamb\u00e9m <em>produz<\/em> certos tipos de rela\u00e7\u00f5es sociais, certas maneiras de viver, certas subjetividades. Em outras palavras, com o neoliberalismo o que est\u00e1 em jogo \u00e9 nada mais nada menos que a <em>forma de nossa exist\u00eancia<\/em>, isto \u00e9, a forma como somos levados a nos comportar, a nos relacionar com os outros e com n\u00f3s mesmos. O neoliberalismo define certa norma de vida nas sociedades ocidentais e, para al\u00e9m dela, em todas as sociedades que as seguem no caminho da \u201cmodernidade\u201d. Essa norma imp\u00f5e a cada um de n\u00f3s que vivamos num universo de competi\u00e7\u00e3o generalizada, intima os assalariados e as popula\u00e7\u00f5es a entrar em luta econ\u00f4mica uns contra os outros, ordena as rela\u00e7\u00f5es sociais segundo o modelo do mercado, obriga a justificar desigualdades cada vez mais profundas, muda at\u00e9 o indiv\u00edduo, que \u00e9 instado a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa.[8] H\u00e1 quase um ter\u00e7o de s\u00e9culo, essa norma de vida rege as pol\u00edticas p\u00fablicas, comanda as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas mundiais, transforma a sociedade, remodela a subjetividade. (Dardot &amp; Laval, 2016, p. 16)<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>Bentham, Jeremy ([1789] 1979). <em>Uma introdu\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios da moral e da legisla\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril cultural.<\/p>\n<p>Clagett, Marshall (1950). Richard Swineshead and late medieval physics; I. the intension and remission of qualities. <em>Osiris<\/em> 9, p. 131-161.<\/p>\n<p>Dijksterhuis, Eduard J. (1986). <em>The mechanization of the world picture. <\/em>Princeton: Princeton University Press.<\/p>\n<p>Galilei, Galileu ([1623] 1999). <em>O ensaiador<\/em>. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural.<\/p>\n<p>Harvey, David (2005). A brief history of neoliberalism. Oxford: Oxford University Press.<\/p>\n<p>Kaye, Joel (1988). The impact of money on the development or fourteenth-century scientific thought. <em>Journal of Medieval History<\/em> 14, p. 251-270.<\/p>\n<p>Kaye, Joel (2004). <em>Economy and nature in the fourteenth century: money, market exchange and the emergence of scientific thought<\/em>. Cambridge: Cambridge U. P.<\/p>\n<p>Kleinert, Andreas (2009). Der messende Luchs: zwei verbreitete Fehler in der Galilei-Literatur<em>. NTM Zeitschrift f\u00fcr Geschichte der Wissenschaften, Technik und Medizin<\/em>, <strong>17(<\/strong>2), p. 199-206.<\/p>\n<p>Maier, Anneliese (1982). <em>On the threshold of exact science: selected writings of Anneliese Maier in late medieval natural philosophy<\/em>. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.<\/p>\n<p>Mariconda, Pablo R. &amp; Vasconcelos, J\u00falio (2020). Galileu e a nova f\u00edsica. S\u00e3o Paulo: Scientiae Studia.<\/p>\n<p>Marx Karl. ([1867] 2013). <em>O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, Livro I<\/em>. S\u00e3o Paulo, Boitempo.<\/p>\n<p>Meikle, Scott (1994). Aristotle on money. <em>Phronesis<\/em>, <strong>39<\/strong>(1), p. 26-44.<\/p>\n<p>Meikle, Scott (1995). <em>Aristotle\u2019s economic thought<\/em>. Oxford, Clarendon Press.<\/p>\n<p>Nalimov, Vasily V. &amp; Mul\u2019chenko, Z.M. (1969). <em>Naukometriya<\/em>. Moscou: Nauka.<\/p>\n<p>Oliveira, Marcos B. de (2023). (MzC) <em>A mercantiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia: fun\u00e7\u00f5es, disfun\u00e7\u00f5es e alternativas.<\/em> S\u00e3o Paulo: Scientiae Studia.<\/p>\n<p>Oliveira, Marcos B. de (2024). .Nota sobre o conceito marxista de Modo de Produ\u00e7\u00e3o.Outras Palavras<em>, <\/em>12\/04\/2024.<\/p>\n<p>Price, Derek de Solla (1951). Quantitative measures of the development of science<strong>. <\/strong><em>Archives Internationales d\u00b4histoire<\/em> <em>des sciences,<\/em> <strong>4<\/strong>(14) p.86-93.<\/p>\n<p>Price, Derek de Solla (1963). <em>Little science,big science<\/em>. Nova York: Columbia U.P.<\/p>\n<p>Price, Derek de Solla (1975). <em>Science since Babylon<\/em>. Edi\u00e7\u00e3o ampliada. New Haven, Yale U.P.<\/p>\n<p>Price, Derek de Solla (1986). <em>Little science, big science \u2026and beyond<\/em>. Nova York: Columbia U.P.<\/p>\n<p>Polanyi, Karl (1968). <em>Primitive, archaic, and modern economics: essays of Karl Polanyi<\/em>. Nova York: Garden city.<\/p>\n<p>Sylla, Edith (1971). Medieval quantifications of qualities: the \u201cMerton School\u201d. <em>Archive for History of Exact Sciences<\/em> vol. 8 , p. 9-39.<\/p>\n<p>Sylla, Edith (1973). Medieval concepts of the latitude of forms: the Oxford calculators. <em>Archives d\u2019histoire doctrinale et litt\u00e9raire du moyen \u00e2ge<\/em>, vol. 40, p. 223-283.<\/p>\n<p>Tawney, Richard H. (1948) <em>Religion and the rise of capitalism: a historical study<\/em>. Londres: John Murray.<\/p>\n<p>Thomson, William (Lord Kelvin) (1891). <em>Popular lectures and addresses<\/em>, vol 1. Londres: Macmillan.<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>[1] Em \u201cMarx disc\u00edpulo de Arist\u00f3teles\u201d (MzC, p. 225, nota 33), menciono o ep\u00edteto \u201co \u00faltimo dos escol\u00e1sticos\u201d, atribu\u00eddo a Marx pelo historiador da Economia Richard Tawney (1948, p. 36). O ep\u00edteto se justifica pelos elementos do pensamento de Arist\u00f3teles compartilhados por Marx e pelos escol\u00e1sticos.\u00a0 Mas tamb\u00e9m h\u00e1 diverg\u00eancias, uma vez que, distinguindo esfera da produ\u00e7\u00e3o e a da circula\u00e7\u00e3o ou seja, do com\u00e9rcio, Marx restringe a cria\u00e7\u00e3o de valor \u00e0 esfera da produ\u00e7\u00e3o. (Cf. \u201cNota sobre o conceito marxista de Modo de Produ\u00e7\u00e3o\u201d (Oliveira, 2024).<\/p>\n<p>[2] \u00c9 poss\u00edvel que Marx tenha se inspirado nessa passagem ao escrever: \u201cAssim, coisas que em si mesmas n\u00e3o s\u00e3o mercadorias, como a consci\u00eancia, a honra etc. podem ser compradas de seus possuidores com dinheiro e, mediante seu pre\u00e7o, assumir a forma-mercadoria\u201d. (Marx ([1867] 2013) (<em>O Capital, Livro I<\/em>) p. 177)<\/p>\n<p>[3]. O empenho de Galileu em realizar medi\u00e7\u00f5es deu origem a uma dessas cita\u00e7\u00f5es que muitos autores repetem, sem que nenhum indique a fonte. Ao que tudo indica, a atribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ver\u00eddica. A frase \u00e9 \u201cMe\u00e7a o que \u00e9 mensur\u00e1vel, e torne mensur\u00e1vel o que n\u00e3o o \u00e9\u201d (Kleinert, 2009).<\/p>\n<p>[4] A tradu\u00e7\u00e3o transcrita \u00e9 de Mariconda &amp; Vasconcelos (2020, p. 148).<\/p>\n<p>[5] O verbete \u201cJeremy Bentham\u201d, da Wikipedia, registra as fontes que abonam essa atribui\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es a Bentham. (Acesso em 8\/12\/2023)<\/p>\n<p>[6] Segundo estimativas recentes, (Larsen &amp; von Ins, 2010; Bornman &amp; Mutz, 2015) o per\u00edodo de duplica\u00e7\u00e3o do n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es nessa \u00e9poca foi cerca de 9 anos.<\/p>\n<p>[7] Em outros artigos, tratei de um outro aspecto da quantifica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, a saber, o que diz respeito \u00e0 administra\u00e7\u00e3o das atividades de pesquisa. Meus estudos me levaram \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o segundo a qual nas \u00faltimas d\u00e9cadas a administra\u00e7\u00e3o foi objeto de processos de <em>empresariamento<\/em>, entendidos como os que introduzem princ\u00edpios e m\u00e9todos pr\u00f3prios de empresas privadas na administra\u00e7\u00e3o da Academia. Uma das facetas desses processos \u00e9 a atribui\u00e7\u00e3o de um papel central \u00e0s <em>avalia\u00e7\u00f5es quantitativas<\/em>, tanto na Academia quanto em \u00f3rg\u00e3o p\u00fablicos e, pioneiramente, nas empresas privadas. (Cf. MzC, cap. 9)<\/p>\n<p>[8] Uma manifesta\u00e7\u00e3o formal desse empresariamento do indiv\u00edduo, aqui no Brasil, \u00e9 o processo de \u201cpejotiza\u00e7\u00e3o\u201d a que s\u00e3o for\u00e7adas muitas categorias de trabalhadores \u2012 entre os quais a daqueles que adotam o empreendedorismo como estrat\u00e9gia de vida.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Como moeda e mensura\u00e7\u00e3o, marcas da modernidade, repercutiram no pensamento e produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Por que o neoliberalismo \u00e9 o \u00e1pice desta rela\u00e7\u00e3o. O que vir\u00e1 a seguir?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/calculo-capital-e-ciencia-os-nexos-reveladores\/\">C\u00e1lculo, Capital e Ci\u00eancia: os nexos reveladores<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":67184,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6188,5511,795,31904,2956,35],"tags":[],"class_list":["post-67183","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alem-da-mercadoria","category-capa","category-ciencia","category-mercantilizacao-da-ciencia","category-neoliberalismo","category-tecnologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67183","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67183"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67183\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/67184"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}