{"id":67749,"date":"2025-12-02T18:30:10","date_gmt":"2025-12-02T21:30:10","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cop-30-entre-a-vitrine-do-capital-verde-e-a-urgencia-de-um-projeto-popular-de-transicao-ecologica\/"},"modified":"2025-12-02T18:30:10","modified_gmt":"2025-12-02T21:30:10","slug":"cop-30-entre-a-vitrine-do-capital-verde-e-a-urgencia-de-um-projeto-popular-de-transicao-ecologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cop-30-entre-a-vitrine-do-capital-verde-e-a-urgencia-de-um-projeto-popular-de-transicao-ecologica\/","title":{"rendered":"COP 30: Entre a vitrine do \u2018capital verde\u2019 e a urg\u00eancia de um projeto popular de transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/17Foto_Eduardo-Moura-MST-MA.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/17Foto_Eduardo-Moura-MST-MA-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/17Foto_Eduardo-Moura-MST-MA-300x200.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/17Foto_Eduardo-Moura-MST-MA-768x512.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/17Foto_Eduardo-Moura-MST-MA-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/17Foto_Eduardo-Moura-MST-MA.jpeg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Eduardo Moura\/MST no MA<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por B\u00e1rbara Loureiro*<br \/>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>A COP 30, realizada na Amaz\u00f4nia, entre os dias 10 a 21 de novembro, em Bel\u00e9m (Par\u00e1), colocou na centralidade o debate sobre a crise clim\u00e1tica. Mas, ao mesmo tempo, revelou com nitidez o quanto a pol\u00edtica ambiental segue capturada pelos interesses corporativos, pelo capital financeiro e pela racionalidade colonial que transforma florestas, rios, sol, vento e povos em objetos de gest\u00e3o para benef\u00edcio dos pa\u00edses ricos e das elites econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Mais do que um encontro diplom\u00e1tico, a COP 30 funcionou como um espelho: de um lado, a celebra\u00e7\u00e3o das chamadas \u201csolu\u00e7\u00f5es de mercado\u201d e da descarboniza\u00e7\u00e3o financeira; de outro, e de forma paralela e aut\u00f4noma, a for\u00e7a crescente do campo popular, que fez de Bel\u00e9m um territ\u00f3rio de den\u00fancia, solidariedade internacionalista e constru\u00e7\u00e3o de alternativas reais. Essa tens\u00e3o atravessou todos os debates, decis\u00f5es e disputas que marcaram o evento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m explicitou o fracasso estrutural e esgotamento do modelo das decis\u00f5es por consenso da UNFCCC (Conven\u00e7\u00e3o-Quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima) e das COPs (Confer\u00eancias das Partes). Al\u00e9m de neutralizar conflitos estruturais \u2014 como o enfrentamento aos combust\u00edveis f\u00f3sseis, a responsabiliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Norte Global e o poder corporativo \u2014 convertendo-os em debates t\u00e9cnicos sobre m\u00e9tricas, cen\u00e1rios e modelagens clim\u00e1ticas, as reais negocia\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas \u201cde fora\u201d, com um documento final vazio e insuficiente, como de tantas outras COPs.<\/p>\n<h3>L\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o e racionalidade colonial moldam a pol\u00edtica ambiental<\/h3>\n<p>A pol\u00edtica clim\u00e1tica dominante parte da premissa de que \u00e9 poss\u00edvel responder \u00e0 crise ecol\u00f3gica sem tocar nos seus motores estruturais, sustentando ainda que a \u00fanica sa\u00edda seria alinh\u00e1-la aos princ\u00edpios do mercado: a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, a explora\u00e7\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o colonial dos territ\u00f3rios, e o poder das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/7Foto_Lais-Alana-MST.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/7Foto_Lais-Alana-MST-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/7Foto_Lais-Alana-MST-300x200.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/7Foto_Lais-Alana-MST-768x512.jpeg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/7Foto_Lais-Alana-MST.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Lais Alana\/MST<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em Bel\u00e9m, essa contradi\u00e7\u00e3o ficou ainda mais evidente no contexto da celebra\u00e7\u00e3o dos dez anos do Acordo de Paris. Apesar de amplamente saudado como um marco hist\u00f3rico, o Acordo n\u00e3o conseguiu colocar o mundo em uma rota vi\u00e1vel de enfrentamento ao aquecimento global \u2014 e, na pr\u00e1tica, serviu sobretudo, para aprofundar a regulamenta\u00e7\u00e3o e a dissemina\u00e7\u00e3o de mecanismos de financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza, sem enfrentar as causas estruturais da crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>As pr\u00f3prias proje\u00e7\u00f5es oficiais indicam um aquecimento de 2,9\u00baC at\u00e9 o final do s\u00e9culo, enquanto cortes profundos necess\u00e1rios para manter 1,5\u00baC continuam distantes \u2014 e politicamente bloqueados.<\/p>\n<p>A COP 30 deixou ainda mais evidente que a pol\u00edtica ambiental contempor\u00e2nea est\u00e1 profundamente subordinada ao capital e estruturada por uma racionalidade colonial que persiste no s\u00e9culo XXI. As decis\u00f5es clim\u00e1ticas de \u00e2mbito internacional que, supostamente, devem enfrentar a crise ecol\u00f3gica, n\u00e3o partem da conserva\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, mas da necessidade de garantir a continuidade da acumula\u00e7\u00e3o, transformando florestas, rios, sol, vento e territ\u00f3rios em ativos financeiros estrat\u00e9gicos.\u00a0<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica se articula em dois pilares centrais: a primazia absoluta da acumula\u00e7\u00e3o \u2014 que coloca as solu\u00e7\u00f5es de mercado acima da integridade ecol\u00f3gica \u2014 e a vis\u00e3o colonial que trata o Sul Global como zonas de sacrif\u00edcio, destinadas a prestar \u201cservi\u00e7os ambientais\u201d para manter o padr\u00e3o de vida e de consumo das pot\u00eancias do Norte. Assim, enquanto a Amaz\u00f4nia e os biomas s\u00e3o fatiados em m\u00e9tricas de carbono, \u201cplanos de manejo\u201d e energias ditas renov\u00e1veis, n\u00e3o h\u00e1 qualquer disposi\u00e7\u00e3o internacional para enfrentar o <strong>n\u00facleo do problema: o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista<\/strong>, que continua definindo padr\u00f5es tecnol\u00f3gicos, regulat\u00f3rios e financeiros que <strong>aprisionam o Sul Global a um papel subalterno<\/strong>.<\/p>\n<h3>Financiamento clim\u00e1tico: promessas trilion\u00e1rias e entregas simb\u00f3licas<\/h3>\n<p>O chamado Roteiro Baku\u2013Bel\u00e9m, plano constru\u00eddo pelas presid\u00eancias das COPs 29 e 30, prometeu mobilizar US$ 1,3 trilh\u00e3o para mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o, por ano em financiamento clim\u00e1tico at\u00e9 2035. Mas \u00e9 um gigante de papel: mistura recursos internacionais com fundos nacionais que muitos pa\u00edses sequer possuem, carece de mecanismos de monitoramento e segue a l\u00f3gica do capital financeiro, que privilegia projetos de baixo risco e alto retorno \u2014 exatamente o oposto das necessidades de adapta\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Governos, cientistas e especialistas criticaram a falta de mecanismos vinculantes, a aus\u00eancia de clareza sobre fontes reais dos recursos e a imprecis\u00e3o das metas. O documento final da COP 30 foi amplamente interpretado como insuficiente e desconectado da urg\u00eancia clim\u00e1tica. <strong>A cr\u00edtica principal: n\u00e3o h\u00e1 garantias de implementa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o h\u00e1 instrumentos de responsabiliza\u00e7\u00e3o<\/strong>. Na pr\u00e1tica, <strong>os pa\u00edses s\u00f3 concordaram em \u201cse esfor\u00e7ar\u201d para triplicar o financiamento<\/strong>, mas sem dizer quem paga, quanto e de onde vem o recurso financeiro.<\/p>\n<p>Sem um financiamento clim\u00e1tico robusto e redistributivo, as NDCs \u2014 os planos nacionais de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es \u2014 permanecem fr\u00e1geis e insuficientes. No caso brasileiro, embora o pa\u00eds apresente metas de reduzir entre 59% e 67% das emiss\u00f5es at\u00e9 2035 (em rela\u00e7\u00e3o a 2005), al\u00e9m de zerar o desmatamento ilegal at\u00e9 2030 e eliminar todo o desmatamento at\u00e9 2035, n\u00e3o h\u00e1 nenhum indicativo de que<strong> a origem do desmatamento ser\u00e1 enfrentado: o modelo de produ\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio<\/strong>. Este \u00e9 um modelo que, apesar do seu discurso, segue se expandindo, especialmente sobre o bioma amaz\u00f4nico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o governo segue rendido pelo agroneg\u00f3cio, que captura as estruturas p\u00fablicas (empresas p\u00fablicas, universidades, centros de pesquisa\u2026) em busca de um \u201cesverdeamento\u201d. Uma das consequ\u00eancias desta captura \u00e9 que o governo recusa-se a impor metas espec\u00edficas e restritivas ao setor \u2014 justamente o maior emissor de gases de efeito estufa (GEE) do pa\u00eds. Assim, as promessas clim\u00e1ticas convivem com a manuten\u00e7\u00e3o de um modelo agr\u00edcola que bloqueia avan\u00e7os reais e impede a transforma\u00e7\u00e3o estrutural necess\u00e1ria.<\/p>\n<h3>TFFF: a principal vitrine brasileira \u2014 e uma armadilha para os povos<\/h3>\n<p>O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), anunciado como uma grande inova\u00e7\u00e3o para proteger florestas, sintetiza a l\u00f3gica colonial da financeiriza\u00e7\u00e3o. \u00c9 concebido a partir da ideia de que a floresta s\u00f3 ser\u00e1 preservada se esta preserva\u00e7\u00e3o tiver uma valora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Ou seja, a floresta n\u00e3o tem um valor em si, mas s\u00f3 ser\u00e1 preservada se for aferida a ela um pre\u00e7o. Bilh\u00f5es captados por bancos multilaterais compram t\u00edtulos p\u00fablicos e privados do Sul Global, e estes pa\u00edses terminam pagando juros aos mesmos agentes que \u201cfinanciam\u201d sua preserva\u00e7\u00e3o. \u00c9 um mecanismo que transfere riqueza do Sul para o Norte enquanto transforma florestas em ativos, territ\u00f3rios e modos de vida em m\u00e9tricas de risco.<\/p>\n<p>Com pagamentos de, no m\u00e1ximo, quatro d\u00f3lares por hectare e crit\u00e9rios que criminalizam pr\u00e1ticas tradicionais, o <strong>TFFF n\u00e3o reduz desmatamento<\/strong> nem enfrenta suas causas \u2014 mas <strong>refor\u00e7a o controle financeiro sobre a Amaz\u00f4nia<\/strong>. N\u00e3o por acaso, pa\u00edses europeus recuaram diante do \u201calto risco\u201d. As expectativas iniciais de U$ 125 bilh\u00f5es se revelaram uma fantasia; nem a meta reduzida de U$ 10 bilh\u00f5es foi atingida at\u00e9 o final da COP, que chegou a U$ 6,7 bi.<\/p>\n<p>O mais preocupante \u00e9 que esta iniciativa foi aceita por alguns segmentos populares. Ainda que represente um aprofundamento da financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza (com o TFFF n\u00e3o somente o carbono ser\u00e1 precificado, mas v\u00e1rios outros \u201cservi\u00e7os ambientais\u201d), foi defendida por estes setores como um avan\u00e7o. Tal defesa vem na esteira de uma suposta defesa do protagonismo internacional do governo Lula, frente ao tema ambiental. No entanto, este ser\u00e1 um protagonismo esvaziado de sentido para as camadas populares se o seu conte\u00fado n\u00e3o apontar para as sa\u00eddas concretas constru\u00eddas pelos povos para a crise ambiental.\u00a0<\/p>\n<h3>As corpora\u00e7\u00f5es como protagonistas da COP<\/h3>\n<p>A COP 30 consolidou a captura corporativa da crise clim\u00e1tica. Bancos e grandes transnacionais transformaram pavilh\u00f5es, eventos e casas tem\u00e1ticas em centros de <em>lobby<\/em> e oportunidade de neg\u00f3cios. A m\u00eddia corporativa recebeu patroc\u00ednios ambientais de empresas com extensos passivos socioambientais, afetando a independ\u00eancia da cobertura.<\/p>\n<p>E, numa cena reveladora, 1.602 lobistas dos combust\u00edveis f\u00f3sseis circularam livremente pelas negocia\u00e7\u00f5es \u2014 uma presen\u00e7a maior que a de quase todos os pa\u00edses, exceto a da pr\u00f3pria delega\u00e7\u00e3o brasileira. Muitas dessas empresas, al\u00e9m de serem grandes poluidoras, s\u00e3o aquelas que financiam, sustentam e lucram com guerras, conflitos e genoc\u00eddios, como aqueles que atingem o povo palestino, haitiano, saharauis e outros.\u00a0<\/p>\n<p>Embora o Brasil tenha defendido a constru\u00e7\u00e3o de um \u201cMapa do caminho para a elimina\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis\u201d, o texto final n\u00e3o incluiu qualquer compromisso concreto de elimina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estabeleceu datas para o fim da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, g\u00e1s e carv\u00e3o e ignorou recomenda\u00e7\u00f5es cient\u00edficas para um abandono r\u00e1pido das fontes f\u00f3sseis. A aus\u00eancia desse compromisso foi considerada por especialistas internacionais um \u201cfracasso estrutural\u201d da COP 30 e se deve \u00e0 press\u00e3o direta do <em>lobby<\/em> dos pa\u00edses produtores e das empresas do setor.<\/p>\n<p>A <strong>exce\u00e7\u00e3o mais significativa nesse cen\u00e1rio veio da Col\u00f4mbia<\/strong>, que lan\u00e7ou uma <strong>declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica<\/strong> pedindo que a COP adote um verdadeiro <em>mapa do caminho para a transi\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis<\/em> e anunciou que sediar\u00e1 uma nova confer\u00eancia internacional focada exclusivamente nesse tema. O governo colombiano, liderado por Gustavo Petro e pela Ministra do Meio Ambiente Irene V\u00e9lez-Torres, buscou <strong>tensionar o processo oficial<\/strong> ao defender que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda clim\u00e1tica poss\u00edvel sem uma decis\u00e3o multilateral clara sobre <strong>o fim da explora\u00e7\u00e3o f\u00f3ssil<\/strong>.<\/p>\n<h3>Agroneg\u00f3cio: o sujeito intoc\u00e1vel da COP<\/h3>\n<p>O agroneg\u00f3cio atuou como um dos blocos mais organizados e influentes da COP 30. Seus objetivos foram n\u00edtidos: apresentar-se como protagonista da solu\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica por meio de solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, ampliar seu acesso a financiamentos p\u00fablicos e privados, bloquear regula\u00e7\u00f5es ambientais mais r\u00edgidas e direcionar o debate clim\u00e1tico global conforme seus interesses.\u00a0<\/p>\n<p>A COP 30 tamb\u00e9m deixou evidente que o agroneg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 apenas um ator nacional, mas global: ele aparece como parte da coaliz\u00e3o que defende a chamada \u201ctransi\u00e7\u00e3o ordenada\u201d, uma transi\u00e7\u00e3o sem confrontos, sem regula\u00e7\u00e3o e sem responsabiliza\u00e7\u00e3o. A vers\u00e3o final do documento da COP reflete essa influ\u00eancia: o setor n\u00e3o foi mencionado como respons\u00e1vel pelo desmatamento, n\u00e3o recebeu nenhuma obriga\u00e7\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o, e sua expans\u00e3o territorial foi completamente ignorada.<\/p>\n<p>Para isso, utilizou de forma massiva termos como \u201cagricultura regenerativa\u201d, \u201cagricultura tropical\u201d e \u201cbioeconomia\u201d, discursos que procuram \u201cpintar de verde\u201d pr\u00e1ticas baseadas em monoculturas, uso intensivo de agrot\u00f3xicos e expans\u00e3o territorial. Essa estrat\u00e9gia se apoia na narrativa de que o agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 altamente tecnol\u00f3gico \u2014 e, portanto, automaticamente sustent\u00e1vel \u2014 mesmo quando seus impactos ambientais indicam o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A Agrizone, espa\u00e7o liderado pela Embrapa \u2013 Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria \u2013 com forte patroc\u00ednio de corpora\u00e7\u00f5es como Bayer e Nestl\u00e9, al\u00e9m de abrigar estruturas do pr\u00f3prio governo federal, funcionou como vitrine privilegiada desse projeto: um ambiente de neg\u00f3cios,<em> lobby<\/em> e engenharia de reputa\u00e7\u00e3o que refor\u00e7a a captura corporativa da pol\u00edtica clim\u00e1tica. E os ruralistas j\u00e1 planejam replicar esse modelo na COP 31, na Turquia.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que mais tem assassinatos de ambientalistas junto \u00e0 outros pa\u00edses latino-americanos, como Col\u00f4mbia, Guatemala e M\u00e9xico. Soma-se a estat\u00edstica as dezenas de vidas ceifadas de povos ind\u00edgenas, ribeirinhos, camponeses sem-terra, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais, s\u00e3o a linha de frente antes da derrubada das florestas.\u00a0<\/p>\n<p>Os dados da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) revelam um quadro alarmante: 2024 apresentou o segundo maior n\u00famero de conflitos no campo desde 1985, com altos \u00edndices de amea\u00e7as de morte, tentativas de assassinato \u2014 estas com crescimento expressivo e atingindo majoritariamente ind\u00edgenas \u2014, al\u00e9m de casos de contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos e processos de criminaliza\u00e7\u00e3o. A Amaz\u00f4nia permanece como a regi\u00e3o mais vulner\u00e1vel, com o Par\u00e1 liderando registros de assassinatos e tentativas de assassinato. Esse cen\u00e1rio de viol\u00eancia estrutural est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio e ao seu modelo de moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, que aprofunda contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas sobre uso, posse e propriedade da terra no Brasil, mas tamb\u00e9m sobre diferentes formas de compreender a rela\u00e7\u00e3o entre humanidade e natureza.<\/p>\n<p>O cantor e compositor Z\u00e9 Pinto, militante do MST, lan\u00e7ava em 1998 a m\u00fasica <em>Devo\u00e7\u00e3o \u00e0 Amaz\u00f4nia<\/em> que ecoa como alerta ainda hoje: \u201c<em>O Amazonas, cuidado com o p\u00e9 do boi; Chico j\u00e1 disse e ningu\u00e9m mais se esqueceu: o latif\u00fandio traz mis\u00e9ria, acaba a mata, incendeia, desacata milenares filhos teus<\/em>\u201d. Ela sintetiza a verdade central: n\u00e3o h\u00e1 horizonte ecol\u00f3gico poss\u00edvel enquanto o modelo do agroneg\u00f3cio \u2014 baseado em concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, viol\u00eancia e destrui\u00e7\u00e3o \u2014 continuar estruturando o pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>Toda vez que esse modelo \u00e9 confrontado, a resposta \u00e9 viol\u00eancia: <strong>a floresta e os povos trazem a mem\u00f3ria viva de lutadoras e lutadores tombados<\/strong> nesta trincheira como Dorothy Stang e Chico Mendes, de Vicente Fernandes Vilhalva, do povo Guarani Kaiow\u00e1, assassinado, decorrente de um conflito prolongado com latifundi\u00e1rios por retomada de terras ind\u00edgenas no Mato Grosso do Sul, de Ant\u00f4nia Ferreira dos Santos e Marly Viana Barroso, quebradeiras de coco assassinadas no munic\u00edpio de Novo Repartimento, sudeste do Par\u00e1, diante de um contexto de aprofundamento das viol\u00eancias causados pela expans\u00e3o do capital sob seus territ\u00f3rios. <\/p>\n<p><strong>O agroneg\u00f3cio, o latif\u00fandio e os empreendimentos capitalistas, s\u00e3o inimigos dos povos, da vida, das florestas e de toda a natureza.<\/strong><\/p>\n<h3>O contraponto popular: a C\u00fapula dos Povos<\/h3>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/8Foto_Priscila-Ramos-MST-1-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/8Foto_Priscila-Ramos-MST-1-1-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/8Foto_Priscila-Ramos-MST-1-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/8Foto_Priscila-Ramos-MST-1-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/8Foto_Priscila-Ramos-MST-1-1-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/8Foto_Priscila-Ramos-MST-1-1.jpeg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Priscila Ramos<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Se a COP expressou o avan\u00e7o das cercas financeiras sobre a natureza, a C\u00fapula dos Povos, realizada entre 12 e 16 de novembro, em paralelo \u00e0 Confer\u00eancia oficial, expressou a for\u00e7a da resist\u00eancia. Foram 70 mil pessoas na marcha global, 25 mil inscritos, mais de 1.200 organiza\u00e7\u00f5es articuladas e uma barqueata internacionalista com mais de 200 embarca\u00e7\u00f5es. Delega\u00e7\u00f5es de 60 pa\u00edses constru\u00edram um documento que <strong>denuncia o capitalismo como motor da crise clim\u00e1tica, o racismo ambiental, o poder das corpora\u00e7\u00f5es e as falsas solu\u00e7\u00f5es do \u2018capitalismo verde<\/strong>\u2018.<\/p>\n<p>A C\u00fapula reafirmou que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda clim\u00e1tica dentro do sistema que criou a crise \u2014 e que <strong>s\u00f3 a organiza\u00e7\u00e3o popular<\/strong> pode enfrentar o inimigo comum: <strong>o capitalismo em suas express\u00f5es imperialistas, racistas e patriarcais.<\/strong><\/p>\n<p>A quantidade de manifesta\u00e7\u00f5es em diversos espa\u00e7os da COP 30 e da Agrizone tamb\u00e9m expressou um descontentamento com a incapacidade destes espa\u00e7os de governan\u00e7a global, liderados pela ONU em sua grande maioria, que n\u00e3o tem conseguido apresentar solu\u00e7\u00f5es efetivas desde o genoc\u00eddio na Palestina.<\/p>\n<h3>Passada a COP, o que fazer?<\/h3>\n<p>A COP 30 deixou evidente que o debate clim\u00e1tico \u00e9 tamb\u00e9m um debate sobre um modelo de sociedade. Para os movimentos populares, tr\u00eas tarefas se imp\u00f5em:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Politizar a disputa ambiental<\/strong>:<\/li>\n<\/ol>\n<p>\u00a0N\u00e3o existe pol\u00edtica clim\u00e1tica s\u00e9ria que mantenha minera\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, uso intensivo de agrot\u00f3xicos, expans\u00e3o da pecu\u00e1ria industrial, avan\u00e7o sistem\u00e1tico do desmatamento, uma pol\u00edtica energ\u00e9tica baseada na apropria\u00e7\u00e3o dos bens comuns como o sol e o vento, e sem reduzir a explora\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Por isso, \u00e9 fundamental seguir construindo <strong>a luta ambiental a partir do enfrentamento direto ao agroneg\u00f3cio e \u00e0 minera\u00e7\u00e3o<\/strong>, setores que seguem intocados no centro das emiss\u00f5es e da destrui\u00e7\u00e3o territorial. Politizar a disputa significa tamb\u00e9m <strong>denunciar as falsas solu\u00e7\u00f5es<\/strong> que v\u00eam ganhando for\u00e7a, baseadas na <strong>financeiriza\u00e7\u00e3o da natureza, nos mercados de carbono e nos fundos \u201cverdes\u201d<\/strong>, que aprofundam as depend\u00eancias e invisibilizam as causas estruturais da crise.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>Ampliar a mobiliza\u00e7\u00e3o popular<\/strong>:<\/li>\n<\/ol>\n<p>A crise ambiental tem <strong>impactos desiguais e recai com maior for\u00e7a sobre as periferias urbanas, os povos ind\u00edgenas e quilombolas, os camponeses e a classe trabalhadora<\/strong>. Para que a agenda clim\u00e1tica se torne for\u00e7a social transformadora, \u00e9 urgente ampliar a capacidade de <strong>mobiliza\u00e7\u00e3o popular<\/strong> \u2014 fortalecendo organiza\u00e7\u00f5es de base, territorializando o debate ambiental e conectando pautas como moradia, saneamento, alimenta\u00e7\u00e3o, transporte, energia e acesso \u00e0 terra com a luta clim\u00e1tica.\u00a0<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>Construir um programa pr\u00f3prio de transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica justa e popular<\/strong>:<\/li>\n<\/ol>\n<p>Os movimentos populares precisam projetar um programa de transi\u00e7\u00e3o que enfrente o poder corporativo, recupere a centralidade dos bens comuns e reorganize a economia a partir das necessidades dos povos. Isso implica <strong>massificar a produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis, fortalecer a agroecologia, garantir soberania energ\u00e9tica<\/strong> e colocar \u00e1gua, solo, floresta e energia fora dos mercados financeiros. Uma transi\u00e7\u00e3o justa e popular s\u00f3 se concretiza quando o <strong>territ\u00f3rio deixa de ser mercadoria e se torna a base da vida<\/strong> \u2014 e quando o futuro n\u00e3o \u00e9 planejado pelas corpora\u00e7\u00f5es, mas pelas pr\u00f3prias comunidades que defendem e cuidam da terra.<\/p>\n<p><em>*Faz parte da coordena\u00e7\u00e3o nacional do MST e integra o setor de Produ\u00e7\u00e3o do Movimento<\/em>.<\/p>\n<p>**<em>Editado por Solange Engelmann<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/12\/02\/cop-30-entre-a-vitrine-do-capital-verde-e-a-urgencia-de-um-projeto-popular-de-transicao-ecologica\/\">COP 30: Entre a vitrine do \u2018capital verde\u2019 e a urg\u00eancia de um projeto popular de transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/feriado-de-9-de-julho-do-levante-de-oposicao-a-vargas-a-data-civica\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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