{"id":67788,"date":"2025-12-19T11:49:56","date_gmt":"2025-12-19T14:49:56","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/participacao-do-mst-no-seminario-internacional-sobre-abolicionismo-na-cidade-do-cabo-africa-do-sul\/"},"modified":"2025-12-19T11:49:56","modified_gmt":"2025-12-19T14:49:56","slug":"participacao-do-mst-no-seminario-internacional-sobre-abolicionismo-na-cidade-do-cabo-africa-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/participacao-do-mst-no-seminario-internacional-sobre-abolicionismo-na-cidade-do-cabo-africa-do-sul\/","title":{"rendered":"Participa\u00e7\u00e3o do MST no Semin\u00e1rio Internacional sobre Abolicionismo na Cidade do Cabo, \u00c1frica do Sul"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02-2-2.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02-2-2-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02-2-2-300x225.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02-2-2-768x576.jpeg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02-2-2.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Rosa Negra*<br \/>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p><em>A liberdade n\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio abstrato,<br \/>mas um lugar.<br \/>Um territ\u00f3rio a ser disputado\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Ruth Gilmore<\/em><\/p>\n<p>Entre os dias 11 e 16 de dezembro, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) participou do Semin\u00e1rio sobre Aboli\u00e7\u00e3o Internacionalista, realizado na Cidade do Cabo, na \u00c1frica do Sul. A presen\u00e7a do MST \u00e9 fruto de um processo cont\u00ednuo de colabora\u00e7\u00e3o com Movimentos Populares, militantes brasileiros e a renomada ge\u00f3grafa marxista e abolicionista Ruth Wilson Gilmore. Esta parceria foi fortalecida pelo lan\u00e7amento do livro <em>Calif\u00f3rnia Gullag<\/em> na livraria da Editora Express\u00e3o Popular e pela visita de Gilmore \u00e0 Escola Nacional Florestan Fernandes, consolidando um di\u00e1logo entre a luta pela terra e o pensamento abolicionista.<\/p>\n<p>O principal objetivo do encontro foi o estabelecimento de di\u00e1logos transnacionais, a articula\u00e7\u00e3o de resist\u00eancias e a constru\u00e7\u00e3o de uma potente rede internacionalista abolicionista, capaz de enfrentar as m\u00faltiplas facetas do capitalismo racial e do encarceramento em massa.<\/p>\n<figure>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" data-id=\"289992\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/01-1-2.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/01-1-2-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/01-1-2-300x225.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/01-1-2-768x576.jpeg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/01-1-2.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" data-id=\"289989\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03-2.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03-2-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03-2-300x225.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03-2-768x576.jpeg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03-2.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure><figcaption><em>Fotos: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O encontro foi estrategicamente dividido em dois espa\u00e7os que simbolizam a conex\u00e3o entre a academia e a luta popular. Nos tr\u00eas primeiros dias, os debates ocorreram na Universidade do Cabo, e nos dias restantes, na Ocupa\u00e7\u00e3o <em>Cisse Gool House<\/em>, uma ocupa\u00e7\u00e3o urbana que representa a resist\u00eancia concreta na cidade. Al\u00e9m disso, houve uma manh\u00e3 voltada para conhecer a cultura de resist\u00eancia, atrav\u00e9s dos murais em Salt River.<\/p>\n<p>Na programa\u00e7\u00e3o de estudos, foram feitos debates em torno de tem\u00e1ticas como Puni\u00e7\u00e3o nas Periferias Globais, trazendo uma an\u00e1lise de como os sistemas punitivos afetam desproporcionalmente comunidades marginalizadas; Aboli\u00e7\u00e3o e Viol\u00eancia Organizada: Debatendo a rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre o encarceramento e as estruturas de viol\u00eancia estatal; e \u201cOnde est\u00e1 o internacionalismo de esquerda agora?\u201d, refletindo sobre os desafios e as possibilidades da solidariedade internacional, entre outras tem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O encontro reuniu um grupo not\u00e1vel de intelectuais org\u00e2nicos e org\u00e2nicas, militantes de diversas partes do mundo, e os debates foram organizados em mesas tem\u00e1ticas que conectam diferentes realidades de luta contra o sistema punitivo e o capitalismo racial. A seguir, uma s\u00edntese das principais discuss\u00f5es.<\/p>\n<h2>Fronteiras, Crises e a Gest\u00e3o Punitiva das Popula\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/04-2.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/04-2-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/04-2-225x300.jpeg 225w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/04-2.jpeg 960w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dos eixos centrais do debate foi a an\u00e1lise dos regimes de fronteira como ferramentas para o controle de popula\u00e7\u00f5es tornadas m\u00f3veis e descart\u00e1veis pelas crises do capitalismo. Discutiu-se como imigrantes e estudantes (especialmente em solidariedade \u00e0 Palestina) se tornaram alvos preferenciais de pol\u00edticas de criminaliza\u00e7\u00e3o, deten\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia. O racismo foi identificado como a l\u00f3gica que atravessa e legitima essas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Os\/as participantes denunciaram o uso de acordos de imigra\u00e7\u00e3o como uma forma de \u201cdiplomacia coercitiva\u201d, onde a vida humana se torna moeda de troca em negocia\u00e7\u00f5es comerciais e geopol\u00edticas, como as disputas por minerais raros. A crise imigrat\u00f3ria foi definida n\u00e3o como um acidente, mas como uma gest\u00e3o deliberada da mobilidade do trabalho no contexto do capitalismo racial, que racializa e precariza trabalhadores e trabalhadoras da periferia global. A expans\u00e3o do complexo industrial-prisional e militar foi diretamente associada a essa \u201cgest\u00e3o de crises\u201d, consolidando um verdadeiro regime de guerra contra a popula\u00e7\u00e3o considerada excedente.<\/p>\n<h2>Encarceramento em Massa e a Realidade Brasileira<\/h2>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o do Brasil recebeu destaque, sendo apresentada como um caso emblem\u00e1tico de encarceramento em massa e viol\u00eancia estatal. Com mais de 700 mil pessoas presas e o dobro sob vigil\u00e2ncia, o sistema de justi\u00e7a foi descrito como explicitamente seletivo, tendo como alvo principal a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre. Dados alarmantes foram compartilhados: em 2024, a pol\u00edcia brasileira matou quase cinco mil pessoas, sendo 86% delas negras, e em 2025, essa taxa subiu para 90%.<\/p>\n<p>O debate exp\u00f4s a \u201cret\u00f3rica da impunidade\u201d que legitima a viol\u00eancia estatal, mesmo quando o Estado age ilegalmente. Foi proposto um enfrentamento direto \u00e0 legitimidade da puni\u00e7\u00e3o estatal atrav\u00e9s de duas vias principais: a linguagem, desconstruindo a epistemologia punitiva do cotidiano, e a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento contra hegem\u00f4nico, que desmistifique a ideia de que o crime est\u00e1 fora do Estado e evidencie como o pr\u00f3prio Estado comete crimes rotineiramente contra as popula\u00e7\u00f5es marginalizadas.<\/p>\n<h2>Abolicionismo, Organiza\u00e7\u00e3o de Base e a Luta pela Democratiza\u00e7\u00e3o da Terra<\/h2>\n<p>A mesa \u201cAboli\u00e7\u00e3o e Terra\u201d conectou diretamente a luta abolicionista com as disputas por territ\u00f3rio e vida. S\u2019bu Zikode, da \u00c1frica do Sul, enfatizou que o poder \u00e9 constru\u00eddo na solidariedade (\u201combro a ombro\u201d) e que as favelas s\u00e3o espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e de luta. Fl\u00e1vio Almada, de Cabo Verde, trouxe a mem\u00f3ria do colonialismo portugu\u00eas e da fome como um campo de concentra\u00e7\u00e3o, defendendo que a aboli\u00e7\u00e3o \u00e9 a busca por respostas coletivas para que se possa \u201cchegar \u00e0 idade madura sem cair no complexo industrial penal\u201d**.<\/p>\n<p>Ruth Wilson Gilmore sintetizou o esp\u00edrito do encontro ao afirmar que \u201caboli\u00e7\u00e3o requer que a gente mude uma \u00fanica coisa: tudo\u201d. Ela definiu o abolicionismo como um processo pr\u00e1tico que emerge das necessidades concretas das lutas, um \u201censaio\u201d para um futuro emancipado. Para Gilmore, a aboli\u00e7\u00e3o \u00e9 o trabalho de combinar energias, popularizar o debate e reinterpretar o mundo para construir um futuro que, embora inevit\u00e1vel, n\u00e3o est\u00e1 garantido.<\/p>\n<h2>A Converg\u00eancia entre a luta do MST e o Abolicionismo<\/h2>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o do MST no encontro revela uma converg\u00eancia entre a luta pela Reforma Agr\u00e1ria Popular e o pensamento abolicionista. Ambos os movimentos partem de um diagn\u00f3stico comum: o Estado capitalista atua como um gerenciador da viol\u00eancia e do abandono organizado. O latif\u00fandio e o agroneg\u00f3cio, ao expulsarem camponeses e concentrarem terras, produzem as \u201cpopula\u00e7\u00f5es excedentes\u201d que o sistema penal depois reprime nas periferias urbanas.<\/p>\n<p>A luta pela terra \u00e9, portanto, uma luta contra o abandono organizado no campo. O internacionalismo do MST nasce da compreens\u00e3o de que o inimigo, o capital global, opera de forma transnacional. Da mesma forma, o abolicionismo penal entende que o complexo industrial-prisional \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o local de um sistema global de controle.<\/p>\n<p>Ambos os movimentos veem a utopia n\u00e3o como um destino, mas como um m\u00e9todo constru\u00eddo no presente. Assim como os abolicionistas criam redes de cuidado para substituir a pol\u00edcia, o MST constr\u00f3i assentamentos e cooperativas que prefiguram uma nova sociedade. A luta antirracista e anticolonial \u00e9 o eixo que une as duas perspectivas, pois tanto a falta de acesso \u00e0 terra quanto o encarceramento em massa s\u00e3o legados diretos da escravid\u00e3o e do colonialismo.<\/p>\n<p>O encontro na Cidade do Cabo reafirmou que a luta contra a pris\u00e3o \u00e9 insepar\u00e1vel da luta contra o Estado capitalista, racista e colonial. Da mesma forma, a luta pela Reforma Agr\u00e1ria Popular tamb\u00e9m o \u00e9. O MST, ao se somar a este debate, refor\u00e7a seu compromisso com a repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e a luta contra todas as formas de opress\u00e3o, reafirmando a ideia de que n\u00e3o se pode produzir alimentos saud\u00e1veis em meio a rela\u00e7\u00f5es sociais adoecidas.<\/p>\n<p><strong>A solidariedade internacional e a constru\u00e7\u00e3o de alternativas concretas emergem como o caminho para a aboli\u00e7\u00e3o de todas as estruturas que mercantilizam e aniquilam a vida.<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOnde a vida \u00e9 preciosa, a vida \u00e9 preciosa. Em lugares onde o estado, o governo, os munic\u00edpios, as organiza\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a social, as comunidades religiosas e os sindicatos trabalham juntos para elevar a vida humana, os incidentes de crime e puni\u00e7\u00e3o, incluindo os incidentes de danos interpessoais, s\u00e3o menos propensos a ocorrer.\u201d<br \/>Ruth Wilson Gilmore<\/p>\n<p><em>*Rosa Negra \u00e9 militante do MST, m\u00e3e, poeta e doutoranda no PPGH\/USP<\/em><\/p>\n<p><em>*Editado por Fernanda Alc\u00e2ntara<\/em><\/p>\n<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/12\/19\/participacao-do-mst-no-seminario-internacional-sobre-abolicionismo-na-cidade-do-cabo-africa-do-sul\/\">Participa\u00e7\u00e3o do MST no Semin\u00e1rio Internacional sobre Abolicionismo na Cidade do Cabo, \u00c1frica do Sul<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/stf-derruba-marco-temporal-e-reafirma-direito-originario-indigena\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image_processing20220514-29358-o9ny1r-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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