{"id":68115,"date":"2025-12-19T17:10:30","date_gmt":"2025-12-19T20:10:30","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rubem-braga-o-humanista-que-fez-da-cronica-literatura\/"},"modified":"2025-12-19T17:10:30","modified_gmt":"2025-12-19T20:10:30","slug":"rubem-braga-o-humanista-que-fez-da-cronica-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rubem-braga-o-humanista-que-fez-da-cronica-literatura\/","title":{"rendered":"Rubem Braga, o humanista que fez da cr\u00f4nica literatura"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" width=\"1024\" height=\"615\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2014-705621080-2014-704763822-rb-em-frente-a-maquina-de-escrever-1984rb-.jpeg\" alt=\"\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2014-705621080-2014-704763822-rb-em-frente-a-maquina-de-escrever-1984rb--1024x615.jpeg 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2014-705621080-2014-704763822-rb-em-frente-a-maquina-de-escrever-1984rb--300x180.jpeg 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2014-705621080-2014-704763822-rb-em-frente-a-maquina-de-escrever-1984rb--768x461.jpeg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2014-705621080-2014-704763822-rb-em-frente-a-maquina-de-escrever-1984rb-.jpeg 1086w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/p>\n<p>Rubem Braga nunca precisou levantar a voz para ser ouvido. Preferia a conversa mansa, quase um sussurro, como quem chama o leitor para sentar \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore e observar o tempo passar. H\u00e1 35 anos, quando escolheu morrer do mesmo modo como escolheu viver \u2014 sem espet\u00e1culos, sem pressa e sem concess\u00f5es \u2014, deixou ao pa\u00eds n\u00e3o apenas mais de 15 mil cr\u00f4nicas, mas uma maneira de existir na literatura.<\/p>\n<p>Morreu sozinho, em seu apartamento em Ipanema, depois de se despedir de amigos e de aceitar a morte como quem aceita o vento que muda de dire\u00e7\u00e3o. Em seus \u00faltimos textos, escreveu sobre a insignific\u00e2ncia do eu diante do mundo \u2014 n\u00e3o como desespero, mas como liberta\u00e7\u00e3o. Era seu humanismo mais radical: retirar o ego do centro para devolver protagonismo \u00e0 vida.<\/p>\n<p><strong>A grandeza do pequeno<\/strong><\/p>\n<p>Antes de Braga, a cr\u00f4nica era vista como um g\u00eanero menor, um intervalo entre not\u00edcias mais \u201cimportantes\u201d. Depois dele, tornou-se morada definitiva da literatura brasileira. N\u00e3o por acaso, cr\u00edticos e escritores costumam dividir o g\u00eanero em \u201cantes e depois de Rubem Braga\u201d.<\/p>\n<p>Sua revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o veio pelo excesso, mas pela economia. Frases curtas, vocabul\u00e1rio l\u00edmpido, temas aparentemente banais: um passarinho, uma amendoeira, o Natal solit\u00e1rio, o mar visto da janela. Mas ali, no que parecia pequeno, morava o essencial. Braga ensinou que o cotidiano \u00e9 o grande palco da condi\u00e7\u00e3o humana \u2014 basta saber olhar.<\/p>\n<p><strong>Humanismo sem discurso<\/strong><\/p>\n<p>O humanismo de Rubem Braga n\u00e3o se manifesta em tratados, slogans ou discursos morais. Ele surge na empatia silenciosa com figuras an\u00f4nimas, na ternura pelos que passam despercebidos, na aten\u00e7\u00e3o quase reverente \u00e0 natureza. Seus textos n\u00e3o explicam o mundo; acolhem-no.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o na imprensa para isso. Em tempos de solu\u00e7os entre lulismo e bolsonarismo, trumpismo e genoc\u00eddio, haters do twitter e viraliza\u00e7\u00e3o no tiktok, parece desinteressar o debru\u00e7ar sobre passarinhos, a praia, a borboleta, o p\u00e3o quentinho de cada manh\u00e3, o sublime. Mas \u00e9 bom lembrar que Braga escreveu entre o levante armado contra Get\u00falio em 1932, chegando a ser preso; foi correspondente de guerra da FEB na It\u00e1lia, al\u00e9m de atravessar a censura da ditadura militar e a hiperinfla\u00e7\u00e3o da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, a poesia sempre esteve l\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cSou um homem sozinho, numa noite quieta\u201d, escreveu, e nessa solid\u00e3o n\u00e3o havia isolamento, mas escuta. Braga escrevia como quem presta homenagem ao outro \u2014 fosse gente, fosse bicho, fosse paisagem. Em tempos de opini\u00f5es estridentes, sua literatura permanece como um convite \u00e0 delicadeza.<\/p>\n<p><strong>O cronista que escolheu ser cronista<\/strong><\/p>\n<p>Formado em Direito, diplomata por circunst\u00e2ncia, correspondente de guerra por dever, Rubem Braga s\u00f3 quis ser, de fato, cronista. N\u00e3o ambicionou o romance total, nem o grande ensaio. Fez da cr\u00f4nica o g\u00eanero de sua vida e, ao faz\u00ea-lo, deu a ela estatura liter\u00e1ria definitiva.<\/p>\n<p>Influenciou poetas, prosadores, jornalistas. Bebeu do Modernismo, mas foi al\u00e9m: trouxe oralidade, lirismo e humanidade para as p\u00e1ginas dos jornais. Transformou o espa\u00e7o ef\u00eamero da imprensa em territ\u00f3rio duradouro da literatura.<\/p>\n<p><strong>O sabi\u00e1 continua cantando<\/strong><\/p>\n<p>Trinta e cinco anos depois de sua partida, Rubem Braga segue atual \u2014 talvez ainda mais necess\u00e1rio. Num mundo apressado, polarizado e barulhento, sua obra resiste como um gesto de calma. L\u00ea-lo \u00e9 reaprender a olhar, a sentir e a silenciar.<\/p>\n<p>Se a cr\u00f4nica brasileira mudou depois dele, como tantos afirmam, \u00e9 porque Braga provou que a literatura n\u00e3o precisa ser grandiosa para ser grande. Basta ser humana. E nisso, poucos foram t\u00e3o altos quanto ele. Em 12 de janeiro pr\u00f3ximo, o escritor capixaba completaria 113 anos, se n\u00e3o tivesse parado definitivamente de escrever em 19 de dezembro de 1990.<\/p>\n<p><em>Para entender um estilo t\u00e3o influente na literatura, fica aqui uma de suas cr\u00f4nicas mais marcantes, <strong>O padeiro, de 1956<\/strong>:<\/em><\/p>\n<p>Levanto cedo, fa\u00e7o minhas ablu\u00e7\u00f5es, ponho a chaleira no fogo para fazer caf\u00e9 e abro a porta do apartamento \u2014 mas n\u00e3o encontro o p\u00e3o costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da v\u00e9spera sobre a \u201cgreve do p\u00e3o dormido\u201d. De resto n\u00e3o \u00e9 bem uma greve, \u00e9 um lock-out, greve dos patr\u00f5es, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu caf\u00e9 da manh\u00e3 com p\u00e3o dormido conseguir\u00e3o n\u00e3o sei bem o que do governo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 bem. Tomo o meu caf\u00e9 com p\u00e3o dormido, que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim assim. E enquanto tomo caf\u00e9 vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o p\u00e3o \u00e0 porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para n\u00e3o incomodar os moradores, avisava gritando:<br \/>\u2014 N\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m, \u00e9 o padeiro!<\/p>\n<p>Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m?\u201d<\/p>\n<p>Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha l\u00e1 de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: \u201cn\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m, n\u00e3o, senhora, \u00e9 o padeiro\u201d. Assim ficara sabendo que n\u00e3o era ningu\u00e9m\u2026<\/p>\n<p>Ele me contou isso sem m\u00e1goa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu n\u00e3o quis det\u00ea-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu tamb\u00e9m, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a reda\u00e7\u00e3o de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina \u2014 e muitas vezes sa\u00eda j\u00e1 levando na m\u00e3o um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da m\u00e1quina, como p\u00e3o sa\u00eddo do forno.<\/p>\n<p>Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E \u00e0s vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, al\u00e9m de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma cr\u00f4nica ou artigo com o meu nome. O jornal e o p\u00e3o estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu cora\u00e7\u00e3o eu recebi a li\u00e7\u00e3o de humildade daquele homem entre todos \u00fatil e entre todos alegre; \u201cn\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m, \u00e9 o padeiro!\u201d<br \/>E assobiava pelas escadas.<\/p>\n<p>Rio, maio, 1956.<\/p>\n<p><em>\u2014\u00a0Rubem Braga, no livro \u201cAi de ti, Copacabana\u201d. Global, 2019<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2025\/12\/19\/rubem-braga-o-humanista-que-fez-da-cronica-literatura\/\">Rubem Braga, o humanista que fez da cr\u00f4nica literatura<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/\">Vermelho<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pacote-anti-imigracao-e-aprovado-em-portugal-medidas-atingem-brasileiros\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Pacote anti-imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 aprovado em Portugal; medi...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/jornada-em-defesa-da-natureza-e-seus-povos-do-mst\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Jornada em Defesa da Natureza e seus Povos do MST<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/27-dos-brasileiros-querem-seguranca-publica-como-prioridade-de-lula\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/10468fbc-f37f-4f9e-bce6-98e47c11fdaf-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">27% dos brasileiros querem seguran\u00e7a p\u00fablica como ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/geral\/2025\/08\/casos-de-feminicidio-por-arma-de-fogo-aumentam-em-2025-no-pais\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Casos de feminic\u00eddio por arma de fogo aumentam em ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubem Braga nunca precisou levantar a voz para ser ouvido. 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