{"id":6917,"date":"2024-11-30T14:13:53","date_gmt":"2024-11-30T17:13:53","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/o-desafio-das-letras-negras-um-encontro-com-jose-falero-e-jeferson-tenorio\/"},"modified":"2024-11-30T14:13:53","modified_gmt":"2024-11-30T17:13:53","slug":"o-desafio-das-letras-negras-um-encontro-com-jose-falero-e-jeferson-tenorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-desafio-das-letras-negras-um-encontro-com-jose-falero-e-jeferson-tenorio\/","title":{"rendered":"O desafio das letras negras: um encontro com Jos\u00e9 Falero e Jeferson Ten\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p>Carioca radicado no Rio Grande do Sul, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/11\/14\/jeferson-tenorio-direito-ao-descanso-e-uma-revolucao-em-um-pais-de-heranca-escravocrata\">Jeferson Ten\u00f3rio<\/a> venceu o Pr\u00eamio Jabuti, em 2021, com seu romance <em>O Avesso da Pele<\/em>. Ga\u00facho de Porto Alegre, <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2021\/12\/21\/jose-falero-de-onde-eu-venho-nada-e-sozinho-tudo-e-sempre-coletivo\">Jos\u00e9 Falero<\/a> nasceu na Lomba do Pinheiro, na periferia da capital ga\u00facha. Sua estreia aconteceu com <em>Os Supridores<\/em>, em que conta a hist\u00f3ria de dois repositores de supermercado. <strong>Brasil de Fato RS<\/strong> aproveitou a <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/11\/19\/jeferson-tenorio-jose-falero-e-marcelino-freire-debatem-suas-obras-e-as-relacoes-de-genero-raca-e-classe\">Feira do Livro de Porto Alegre<\/a> para uma conversa fecunda com a dupla permeada por temas como leitura, racismo, pobreza, machismo e outros.<\/p>\n<p>Confira:<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato RS &#8211; Ent\u00e3o, Jos\u00e9 Falero, mais um livro chegando?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Falero &#8211; <\/strong>Menos um livro, se fala. Menos um. A gente vai se desfazendo dos livros que est\u00e3o dentro da gente. Um j\u00e1 foi, agora falta mais outro, mais outro. Menos um livro dentro de mim que consegui jogar para o mundo.<\/p>\n<p><strong>Os Supridores, teu livro, fala muito do mundo do trabalho a partir da vis\u00e3o de meninos da periferia, mas, para mim, tem profundidade maior do que muitos trabalhos te\u00f3ricos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Pois \u00e9, tenho a impress\u00e3o que as pessoas acham que estamos aptos a falar do nosso livro porque foi a gente que escreveu. N\u00e3o me sinto assim. Estou aprendendo a falar desse livro novo, mas sobre <em>Os Supridores<\/em> tenho falado h\u00e1 algum tempo. Ent\u00e3o, os leitores v\u00e3o me ajudando a entender o que eu mesmo fiz.<\/p>\n<p>Em nenhum momento pensei assim conscientemente \u00b4Nossa, vou fazer esse livro dialogar com as quest\u00f5es de trabalho, de precariza\u00e7\u00e3o do trabalho`. N\u00e3o pensei nisso. Mas quando fa\u00e7o a escolha de determinados personagens, a galera das camadas populares, das periferias, elas acontecem de maneira espont\u00e2nea, inclusive de modo a se entrela\u00e7arem com a pr\u00f3pria trama. N\u00e3o foi um plano consciente.<\/p>\n<p><strong>E sobre seu novo livro, Vera, com principalmente personagens mulheres?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Falero &#8211; <\/strong>Estou menos apto a falar sobre ele. Estou aprendendo ainda. O que percebi \u00e9 que, sim, tem mais personagens mulheres do que a maioria das coisas que escrevi. As mulheres ocupam uma posi\u00e7\u00e3o mais central. <em>Vera<\/em>, inclusive, que d\u00e1 nome ao livro, \u00e9 a personagem principal. Mas, se considerarmos outras coisas que n\u00e3o s\u00f3 as pessoas, diria que o livro gira mais em torno da mentalidade masculina, patriarcal e de como isso oprime as mulheres.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Ia escrevendo e me percebendo pior do que eu pensava. Tem cenas muito pesadas nesse livro<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>E como foi escrever o livro a partir, enfim, de um corpo masculino? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Falero &#8211; <\/strong>Dif\u00edcil. Espero que as pessoas entendam que n\u00e3o me considero uma exce\u00e7\u00e3o por ter escrito esse livro, sabe? Tentar olhar para a masculinidade t\u00f3xica de maneira cr\u00edtica a partir do meu lugar de homem h\u00e9tero n\u00e3o me faz diferente dos outros homens h\u00e9teros. Foi um desafio. Primeiro, um desafio est\u00e9tico porque pensar como construir algumas subjetividades femininas de maneira profunda \u00e9 dif\u00edcil porque n\u00e3o tenho experi\u00eancia social de mulher na sociedade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do desafio est\u00e9tico, foi tamb\u00e9m um desafio no sentido de que, na medida que escrevia, o livro ia me jogando em crise porque acho que todos os homens ou sua maioria tem no\u00e7\u00e3o, at\u00e9 certo ponto, de que \u00e9 opressor enquanto homem. Tamb\u00e9m tenho certa no\u00e7\u00e3o disso. Mas ia escrevendo e me percebendo pior do que eu pensava. Tem cenas muito pesadas nesse livro. \u00c0s vezes, pensei assim \u00b4Cara, mas eu j\u00e1 fiz isso, j\u00e1 pensei isso`. Foi um tro\u00e7o de autodescoberta tamb\u00e9m, de se perceber pior do que pensava.<\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio, teu novo livro De onde eles v\u00eam n\u00e3o traz um tema simples. Como foi escrever sobre algo que voc\u00ea viveu tamb\u00e9m, a quest\u00e3o das cotas? De ser um dos primeiros negros a ingressar na UFRGS? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Jeferson Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Concordo com o Falero quanto \u00e0 dificuldade de falar do livro novo. E mesmo quando vou falar do <em>Avesso da Pele<\/em>, ainda aprendo com os leitores, a cr\u00edtica, alunos, professores. E com <em>De onde eles v\u00eam<\/em>, tamb\u00e9m estou aprendendo a falar sobre ele, justamente porque o livro acaba se completando no leitor. A gente escreve e depois \u00e9 que o livro, de fato, come\u00e7a a ganhar vida.<\/p>\n<p>No mundo em que vivemos, as pessoas precisam que o livro tenha algum tema definido para que consigam entend\u00ea-lo at\u00e9 como mercadoria. No sentido em que o livro do Falero \u00e9 sobre masculinidade t\u00f3xica e o livro do Jefferson \u00e9 sobre cotas. Tem essa s\u00edntese para que ele chegue mais f\u00e1cil nas pessoas.<\/p>\n<p>Mas, tanto no livro do Falero quanto no meu, existem muitas chaves de entrada. <em>De onde eles v\u00eam <\/em>se passa no per\u00edodo de implanta\u00e7\u00e3o das cotas. S\u00e3o personagens negros que entraram pelo novo sistema. \u00c9 a jornada desses primeiros cotistas. Mas o livro aborda outras quest\u00f5es que t\u00eam a ver com a forma\u00e7\u00e3o de leitores, com a rela\u00e7\u00e3o familiar, com o que seria uma ancestralidade. Trata ainda das quest\u00f5es educacionais no ambiente acad\u00eamico. Ou seja, o mundo do trabalho tamb\u00e9m entra. O trabalho como impedimento para que as pessoas da periferia consigam estudar.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>S\u00e3o temas que incomodam uma sociedade acostumada a subalternizar pessoas negras<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Voc\u00eas dois trabalham na literatura com um mundo que a sociedade, digamos, burguesa n\u00e3o quer muito enxergar, mas que \u00e9 obrigada a enxergar. Trazem essa vis\u00e3o como homens negros e do lugar de onde voc\u00eas v\u00eam. E, ao mesmo tempo, os livros de voc\u00eas t\u00eam uma aceita\u00e7\u00e3o grande. Como se avalia isso? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Talvez o que voc\u00ea chama de burguesia possamos colocar como branquitude, no sentido mais amplo. E branquitude n\u00e3o s\u00e3o pessoas brancas somente, mas uma estrutura social que n\u00e3o quer abordar determinados assuntos por v\u00e1rios motivos. O primeiro \u00e9 o medo da perda do privil\u00e9gio, depois o medo de uma revolta. Agora, com a quest\u00e3o do trabalho, dessa jornada de 6 x 1 que est\u00e1 em debate, tamb\u00e9m h\u00e1 um pouco desse medo. Os livros que temos escrito, como <em>Os Supridores<\/em>, do Falero, tocam nesse ponto de modo muito incisivo. No mundo do trabalho para quem tem uma jornada exaustiva e um trabalho muitas vezes precarizado. S\u00e3o temas que incomodam uma sociedade acostumada a subalternizar pessoas negras, a subalternizar pessoas de determinada classe social. Nos \u00faltimos anos, temos visto uma demanda grande por outras narrativas que, por acaso, s\u00e3o as nossas.<\/p>\n<p>Quinze anos atr\u00e1s, seria impens\u00e1vel livros como o meu, o do Falero, o da Eliane Alves Cruz, o da pr\u00f3pria Concei\u00e7\u00e3o (Evaristo), fossem lidos como hoje. Alguma coisa mudou ou est\u00e1 mudando. E a mudan\u00e7a tamb\u00e9m tem efeitos colaterais, n\u00e3o \u00e9, Falero?<\/p>\n<blockquote>\n<h3>O contexto n\u00e3o dialoga com a sua vida, tipo o cara vai para Paris e conhece um novo amor. Poxa, quem \u00e9 que vive isso?<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Exatamente. Essa demanda por outras hist\u00f3rias \u00e9 gigantesca. E se manifesta de maneira diferente em diferentes momentos hist\u00f3ricos. Antes da literatura se tornar mais diversa, como tem se tornado, isso se manifestava com as pessoas simplesmente n\u00e3o lendo. N\u00e3o lendo, est\u00e1 ligado? Em um pa\u00eds de 200 milh\u00f5es de pessoas tem muita gente que n\u00e3o \u00e9 aproximada ao livro em nenhum momento da vida. Principalmente nas periferias. Mas muitos fizeram essa tentativa: \u00b4Poxa, dizem que \u00e9 legal, vou ver`. A\u00ed voc\u00ea abre o tro\u00e7o. Desde a capa n\u00e3o tem nenhum di\u00e1logo com a sua bagagem cultural. A linguagem n\u00e3o tem nada a ver. O contexto, as coisas, as circunst\u00e2ncias n\u00e3o dialogam com a sua vida. \u00c9 aquilo que a gente est\u00e1 cansado de dizer, tipo o cara que viaja para Paris, vai l\u00e1 e conhece um novo amor. Poxa, quem \u00e9 que vive isso?<\/p>\n<p>As pessoas sentiam falta de se enxergar tamb\u00e9m nessa perspectiva do conte\u00fado. Das tem\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m na forma, em como \u00e9 elaborada a proposta est\u00e9tica do livro, que \u00e9, a meu ver, a mudan\u00e7a que tem acontecido. Eu e o Jefferson temos uma galera, muita gente que est\u00e1 tornando a literatura mais diversa nos \u00faltimos tempos, tem feito esse movimento. E a\u00ed \u00e9 curioso porque o desconforto da galera hegem\u00f4nica se d\u00e1 em muitos n\u00edveis. Tem um que acho muito curioso, que \u00e9 sentir o outro quando entra em contato com um texto meu ou do Jefferson. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 se conhecia, a vida inteira. A gente pegar o livro e pensar \u00b4Vou acompanhar essa hist\u00f3ria`, mas isso aqui n\u00e3o sou eu, n\u00e3o \u00e9 a minha fam\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 a minha hist\u00f3ria. Eu sou o outro a partir do momento que entro aqui, sou o outro nessa parada aqui. E agora eles est\u00e3o experimentando isso.<\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Tamb\u00e9m tem outra coisa al\u00e9m da gente n\u00e3o se identificar: a viol\u00eancia de impor aquele modo de vida, aquele modo de linguagem, aquele modo de viver, como se fosse universal. Nossa literatura n\u00e3o \u00e9 taxada de universal porque n\u00e3o \u00e9 aceita como universal. \u00c9 que nem aquelas cenas de duas pessoas negras no cinema que t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o amorosa. Pessoas brancas n\u00e3o se identificam com aquele casal. Parece que tem que aparecer uma pessoa branca para que as pessoas brancas se sintam contempladas. O contr\u00e1rio n\u00e3o acontece. Ent\u00e3o, se voc\u00ea tem na tela, vamos pegar o (filme) Titanic, por exemplo, pessoas negras, brancas e todo mundo se identifica com aquele casal branco porque \u00e9 tido como universal.<\/p>\n<p><strong>Antes de ser escritor, voc\u00eas eram \u00e1vidos leitores. Hoje, por\u00e9m, al\u00e9m da falta de acesso aos livros na periferia, as pessoas, de modo geral, inclusive as que tem acesso, n\u00e3o est\u00e3o lendo porque o celular toma o nosso tempo e a nossa vida. Como despertar realmente, o gosto pela leitura? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Na verdade, n\u00f3s andamos lendo. Talvez tenhamos mudado o modo de ler. No celular, as pessoas est\u00e3o lendo e escrevendo. \u00c9 o que fazem nas redes. N\u00e3o seria, talvez, uma escrita ou uma leitura qualificada ou est\u00e9tica, no sentido liter\u00e1rio, mas elas fazem esse exerc\u00edcio. H\u00e1 uma disputa muito grande pela nossa aten\u00e7\u00e3o que a\u00ed j\u00e1 \u00e9 uma outra coisa. Por isso os podcasts fazem sucesso. Eles permitem que voc\u00ea ou\u00e7a algum programa e, ao mesmo tempo, fa\u00e7a outras coisas, tipo lavar a lou\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>O livro te pede um outro tempo, uma mobiliza\u00e7\u00e3o de praticamente todos os teus sentidos. Principalmente dos olhos, que \u00e9 diferente de quem est\u00e1 escutando quando se pode olhar para outro lugar. O livro n\u00e3o. Voc\u00ea tem que fixar os olhos, blindar os ouvidos, a respira\u00e7\u00e3o tem que estar tranquila. Ou seja, precisa entrar num modo de leitura que \u00e9 muito diferente de quando se est\u00e1 rolando l\u00e1 a barra das redes sociais.<\/p>\n<p>O que tem que se fazer \u00e9, primeiro, <a href=\"https:\/\/www.brasildefators.com.br\/2024\/11\/25\/livros-e-bibliotecas-sao-instrumentos-do-conhecimento-emancipatorio\">tornar o acesso ao livro mais f\u00e1cil<\/a>. Tem a ver com pre\u00e7o, com disponibilidade, com mediadores de leitura. Quem \u00e9 o mediador de leitura? Professores, bibliotec\u00e1rios, livreiros, feiras de livros. Tem que se criar um sistema para que o leitor consiga chegar ao livro. N\u00e3o que v\u00e1 deixar o celular de lado, mas poder\u00e1 mobilizar por mais tempo a aten\u00e7\u00e3o que o livro pede.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>O livro te pede a mobiliza\u00e7\u00e3o de todos os teus sentidos<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Essa mobiliza\u00e7\u00e3o dos sentidos do livro \u00e9 o que faz dele t\u00e3o especial. Uma preocupa\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 que quem n\u00e3o tem o h\u00e1bito da leitura geralmente pensa que \u00e9 s\u00f3 dar sem receber. Ent\u00e3o, \u00b4N\u00e3o vou poder olhar para todo lado, n\u00e3o vou poder ouvir n\u00e3o sei o qu\u00ea, vou ter que parar o que estou fazendo, vou ler, mas ser\u00e1 que vale a pena?` N\u00e3o. Mas acontece que esse movimento faz voc\u00ea entrar na parada de uma maneira que filme nenhum consegue, podcast nenhum consegue. Tem uma frui\u00e7\u00e3o que s\u00f3 o livro \u00e9 capaz de proporcionar.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil pensar essa problem\u00e1tica, ter uma no\u00e7\u00e3o dela como um todo e, muito menos, pensar em sa\u00eddas, sendo bem franco. Tenho feito um movimento que talvez seja meio ego\u00edsta que \u00e9 perceber que, talvez, eu nem tenha que me preocupar com isso. Tem muita gente qualificada se preocupando. Sou um escritor, sabe?\u00a0 Na real, o sistema do livro \u00e9 complexo. E, nessa complexidade toda, ocupo um lugar onde sei, mais ou menos, trabalhar. De resto, n\u00e3o consigo apresentar uma solu\u00e7\u00e3o, uma proposta.<\/p>\n<p><strong>Mas imagino que muita gente que n\u00e3o lia, leu Os Supridores. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Sim, pode ser. Embora n\u00e3o consiga apresentar uma solu\u00e7\u00e3o, tem coisas nas quais fico pensando. Tem muita gente lendo nos Kindle da vida. Tem uma rede social de livros, o Wattpad, que ningu\u00e9m conhece, mas tem milh\u00f5es de acessos. As pessoas est\u00e3o lendo ali e n\u00e3o \u00e9 simplesmente as mensagens das redes sociais. \u00c9, inclusive, trabalho est\u00e9tico mesmo, de elabora\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Quando chegou esse contexto tecnol\u00f3gico, tinha outros pa\u00edses onde a tradi\u00e7\u00e3o de ler livro j\u00e1 estava muito bem estabelecida. E a\u00ed, a internet tamb\u00e9m chegou. Ent\u00e3o, \u00e9 diferente o impacto que vai ter ali daquele que ter\u00e1 em um pa\u00eds como o Brasil. Modificar isso me parece dif\u00edcil. Percebo um ciclo, e assim, falando de maneira bem abstrata, se a gente conseguir quebrar esse ciclo de alguma maneira, \u00f3timo.<\/p>\n<p>Pegando a minha pr\u00f3pria experi\u00eancia social, o livro n\u00e3o era um tro\u00e7o presente. Meu pai n\u00e3o lia, minha m\u00e3e n\u00e3o lia, meus (irm\u00e3os) mais velhos n\u00e3o liam, meus contempor\u00e2neos n\u00e3o liam. N\u00e3o havia livros. Percebo alguns sintomas que n\u00e3o ajudam a resolver o problema. Tipo assim, n\u00e3o tem livraria na Lomba do Pinheiro (bairro populoso da periferia de Porto Alegre). Tem as bibliotecas comunit\u00e1rias, um esfor\u00e7o muito nobre que pessoas fazem para formar leitores, mas, cara, n\u00e3o \u00e9 um bom sintoma n\u00e3o haver uma livraria num espa\u00e7o de 100 mil habitantes. E tem muita gente que considera que o que tem valor mesmo voc\u00ea tem que pagar. A l\u00f3gica \u00e9 essa. N\u00e3o \u00e9 um lugar onde se retira o livro de gra\u00e7a. Tem que estar \u00e0 venda. \u00c9 um problema que faz parte de outro bem maior porque l\u00e1 n\u00e3o tem teatro tamb\u00e9m, n\u00e3o tem cinema, n\u00e3o tem parque, n\u00e3o tem lazer.<\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> A an\u00e1lise do Falero \u00e9 precisa. A Fran\u00e7a, por exemplo, \u00e9 um dos pa\u00edses com mais leitores, uma m\u00e9dia em torno de 20 livros\/ano que os franceses leem, enquanto no Brasil s\u00e3o cerca de dois por ano. S\u00f3 que a Fran\u00e7a \u00e9 a Fran\u00e7a h\u00e1 muito tempo. E o Brasil \u00e9 o Brasil h\u00e1 quanto tempo? Aqui s\u00f3 no s\u00e9culo 20 \u00e9 que foi come\u00e7ar a ter universidade. A entrada de pessoas negras&#8230;<\/p>\n<p><strong>Falero &#8211; <\/strong>E s\u00f3 podia branco fazendeiro&#8230;<\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Principalmente as cotas para os brancos fazendeiros. Os negros come\u00e7am a entrar a partir da d\u00e9cada de 1970\/80, numa educa\u00e7\u00e3o ainda b\u00e1sica. A entrada mesmo come\u00e7a a ter nos anos 2000 com as cotas raciais. \u00c9 muito tempo. \u00c9 \u00f3bvio que vai ser diferente de outros pa\u00edses porque o celular, num primeiro momento, parece ser muito mais atraente do que o livro. O celular pode trazer a sobreviv\u00eancia de modo muito mais r\u00e1pido do que o livro. Voc\u00ea posta l\u00e1 um neg\u00f3cio, daqui a pouco ganha curtida, come\u00e7a a ganhar dinheiro com isso. S\u00e3o realidades diferentes para pensarmos no livro. E estamos falando de tempo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>No debate sobre a jornada de 6&#215;1, voc\u00ea, Ten\u00f3rio, disse que lutar por um dia de descanso coloca em xeque essa sociedade escravocrata&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211; <\/strong>Uma heran\u00e7a escravocrata. O debate surgiu num momento importante porque pode ser a porta para avaliarmos a nossa rela\u00e7\u00e3o com o trabalho em si. Essa ideia do trabalho ser medido pelas horas que voc\u00ea trabalha e n\u00e3o pela entrega. Nos ambientes subalternizados, ficar parado \u00e9 como se fosse uma falta, uma advert\u00eancia. Voc\u00ea n\u00e3o tem o direito de ficar parado.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>\u00c9 o neg\u00f3cio de ser dono do tempo da pessoa e ela n\u00e3o pode ficar parada<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u201cO que voc\u00ea est\u00e1 vagabundeando a\u00ed?\u201d\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Exatamente. Um cara que trabalha no supermercado \u2013 eu j\u00e1 trabalhei em supermercado \u2013 o cara que fica parado n\u00e3o tem mais servi\u00e7o. Ele j\u00e1 fez o que tinha para fazer. Mas se o teu supervisor v\u00ea voc\u00ea parado&#8230; \u00c9 a coloniza\u00e7\u00e3o do seu tempo em tempo integral. E essa coloniza\u00e7\u00e3o come\u00e7a n\u00e3o quando ele bate o cart\u00e3o, mas quando se levanta da cama. Tudo o que ele tem que fazer, todo o trajeto que ele faz est\u00e1 mobilizado para que ele v\u00e1 para o trabalho. N\u00e3o pode fazer outra coisa. Deveria ser inclu\u00eddo tamb\u00e9m nessas horas que ele gasta nesse deslocamento que, \u00e0s vezes, \u00e9 de duas ou tr\u00eas horas. E as pessoas da periferia moram longe de onde trabalham. N\u00e3o me sai da cabe\u00e7a que todo milion\u00e1rio ou bilion\u00e1rio s\u00f3 ficou assim porque oprimiu muitas pessoas. Ningu\u00e9m fica milion\u00e1rio sem oprimir e explorar outras pessoas.<\/p>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Nenhuma riqueza \u00e9 inocente.<\/p>\n<p><strong>Exatamente. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Queria comentar um neg\u00f3cio que o Jeferson falou. Teve um dia em que postei que s\u00e3o uma bosta essas batatas fritas pr\u00e9-congeladas. E que as que se descasca e corta s\u00e3o melhores. Devia ser s\u00f3 assim. A\u00ed apareceram dizendo \u00b4Mas as pessoas iam trabalhar mais. Devia ser menos pr\u00e1tico l\u00e1 na cozinha`. Fiquei pensando assim: \u00b4Velho, s\u00f3 diz uma bobagem dessa quem nunca trabalhou numa cozinha`. Se algu\u00e9m est\u00e1 trabalhando numa cozinha descascando batata e, de repente, come\u00e7am a comprar o pr\u00e9-congelado, voc\u00ea acha que sobrou tempo? N\u00e3o, v\u00e3o te botar a limpar banheiro. Alguma coisa voc\u00ea vai ter que fazer. \u00c9 o neg\u00f3cio de ser dono do tempo da pessoa e ela n\u00e3o pode ficar parada.<\/p>\n<p><strong>O livro <em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em> (do fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han) traz esse debate. Nossa vida \u2013 e com o celular mais ainda \u2013 est\u00e1 sempre recebendo demandas. Nosso tempo est\u00e1 cada vez mais sendo sugado. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211; <\/strong>Na verdade, a fronteira j\u00e1 foi borrada entre o mundo privado e o mundo do trabalho. Ou seja, \u00e9 a capitaliza\u00e7\u00e3o da privacidade. O WhatsApp \u00e9 essa porta que permite que outras pessoas entrem em contato com voc\u00ea em qualquer momento. E voc\u00ea trabalha sem se dar conta que est\u00e1 trabalhando. Pior: quando chega o final do dia, voc\u00ea tem a impress\u00e3o de que n\u00e3o fez nada. \u00c9 quase uma naturaliza\u00e7\u00e3o dessa explora\u00e7\u00e3o do trabalho na vida privada. \u00c9 uma t\u00e1tica, uma sofistica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o. Que \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o de si mesmo, o que o Byung-Chul Han fala em <em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em>. Voc\u00ea se auto explora. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais seu chefe que est\u00e1 dizendo para fazer. \u00c9 voc\u00ea mesmo que te imp\u00f5e essas metas. Te p\u00f5e nesse lugar de produzir cada vez mais. E nunca \u00e9 suficiente.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Tudo aquilo que \u00e9 nebuloso, meio estranho, o capitalismo d\u00e1 um jeito de codificar para conseguir ter controle<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Ser\u00e1 que \u00e9 uma sofistica\u00e7\u00e3o? Tanto para a uberiza\u00e7\u00e3o como para essas pessoas que trabalham remotamente, que mexem muito com o WhatsApp. Sabe quando surge um tro\u00e7o novo e, por um tempo, \u00e9 meio terra sem lei? Mas d\u00e1 um jeito, d\u00e1 um tempo, pelo menos essa \u00e9 a minha esperan\u00e7a, que se regulamente as paradas. Lembro quando surgiram as redes sociais. Tinha uma galera bombando com as m\u00fasicas e os perfis de stand-up que faziam em casa. Naquele momento, era meio terra sem lei. Essas pessoas ficaram milion\u00e1rias fazendo m\u00fasica de maneira caseira, \u00e0s vezes. S\u00f3 que, rapidamente, a ind\u00fastria controlou essa parada. Hoje em dia, voc\u00ea n\u00e3o consegue mais. Foi uma janela de tempo. N\u00e3o tinha ningu\u00e9m controlando. Fico me perguntando se esse contexto n\u00e3o \u00e9 tempor\u00e1rio. Por enquanto, essas empresas est\u00e3o abusando dessa janela que se abriu. Ent\u00e3o, fazemos as pessoas trabalharem no WhatsApp, gravando um v\u00eddeo aqui, outro ali, a uberiza\u00e7\u00e3o, essas paradas todas, mas que, em algum momento, vai se regulamentar. Ou n\u00e3o? N\u00e3o tem essa perspectiva?<\/p>\n<p><strong>Com a intelig\u00eancia artificial vindo a\u00ed?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211; <\/strong>O capitalismo precisa das coisas bem decodificadas. Tudo aquilo que \u00e9 muito nebuloso, que \u00e9 meio estranho, o capitalismo d\u00e1 um jeito de codificar, colonizar, identificar, nomear, para que, a\u00ed sim, conseguir ter controle. Enfim, \u00e9 o que acontece com nossos livros. Como os nossos livros t\u00eam muitas camadas de subjetividade, como \u00e9 que vendo isso? Vendo como um livro de cotas e um livro de masculinidade t\u00f3xica. Tem uma codifica\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida para voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>Na quest\u00e3o dessa auto explora\u00e7\u00e3o, daqui para a frente, a tend\u00eancia \u00e9 que isso piore. N\u00e3o consigo ver melhora. Cada vez tem menos pessoas com carteira assinada. H\u00e1 uma ideia errada de empreendedor, aquele que vai empreender alguma coisa. Mas vai empreender desde que tenha condi\u00e7\u00f5es. Que trabalhador tem condi\u00e7\u00f5es de fazer isso? \u00b4Vou tentar isso aqui, mas se n\u00e3o der certo, eu volto`.<\/p>\n<p><strong>E a desigualdade est\u00e1 crescendo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Teve uma \u00e9poca em que eu queria ser um bom funcion\u00e1rio. Acreditava em algo que j\u00e1 era fal\u00e1cia desde aquela \u00e9poca, tipo eu vou e da\u00ed viro chefe, da\u00ed viro s\u00f3cio em algum momento, vou crescer aqui dentro. Ent\u00e3o, eu trabalhava &#8211; imagina, olha a ingenuidade \u2013 abastecendo os corredores de bebidas. Lembro de um dia em que me puxei muito, deixei tudo, poxa, muito cheio. Todo o meu trabalho tinha sido feito. E a\u00ed fiquei contemplando aquilo. Sabe qual foi o meu pr\u00eamio? Tinha um cara que era pregui\u00e7oso, no corredor do lado, e o dele estava com todo o trabalho por fazer. A\u00ed tive que ajudar ele. \u00b4Acabou o teu aqui, vai l\u00e1.`<\/p>\n<blockquote>\n<h3>Nada mais dialoga tanto com essa heran\u00e7a escravocrata quanto as trabalhadoras dom\u00e9sticas<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211; <\/strong>Ou seja, n\u00e3o tem escapat\u00f3ria. Teu tempo est\u00e1 para ser feito naquelas horas, tua m\u00e3o de obra. \u00c9 uma heran\u00e7a escravocrata. Esse sujeito est\u00e1 sendo pago para n\u00e3o ficar parado. N\u00e3o est\u00e1 sendo pago para produzir coisas. Mesmo se voc\u00ea n\u00e3o fosse ajudar, eles iam inventar alguma coisa. Conta quantas garrafas tem aqui, faz um relat\u00f3rio, n\u00e3o sei o que. \u00c9 por isso que gosto tanto daquele livro do Bartleby (personagem do livro Bartleby, o escriv\u00e3o, do escritor norte-americano Herman Melville), o <em>Prefiro N\u00e3o Fazer<\/em>. Quando ele prefere n\u00e3o mais acatar as ordens do patr\u00e3o. O mundo do trabalho seria esse <em>Prefiro N\u00e3o Fazer<\/em>. Bartleby n\u00e3o oferece nenhuma solu\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um protesto contra esse mundo opressor do trabalho.<\/p>\n<p><strong>Falero &#8211; <\/strong>Tem uma hist\u00f3ria real \u2013 est\u00e1 no meu livro de cr\u00f4nicas \u2013 que tem muito isso. A gente foi trabalhar em um lugar que tinha que destruir uma casa. E estava destruindo os tijolos com martelinho. A\u00ed o cara explicou: \u00b4Beleza, amanh\u00e3 vai vir a m\u00e1quina para terminar de demolir`. E eu: \u2018N\u00e3o, tu n\u00e3o fez a gente ficar aqui com o martelinho?\u2019 E ele: \u2018N\u00e3o, mas \u00e9 que n\u00e3o tinha o que fazer\u2019.<\/p>\n<p>Ele botou a gente o dia inteiro martelando a casa e, no outro dia, vinha uma m\u00e1quina para demolir. \u00c9 uma coisa absurda. Mas \u00e9 exatamente essa a mentalidade. Tamb\u00e9m tem as mulheres que&#8230; Nada mais dialoga tanto com essa heran\u00e7a escravocrata quanto as trabalhadoras dom\u00e9sticas. \u00c9 uma coisa que nem existe em outros lugares. Pa\u00edses de classe m\u00e9dia, tipo Portugal, voc\u00ea n\u00e3o encontra isso, as pessoas sabem limpar sua casa. Tem muito a ver com a nossa tradi\u00e7\u00e3o, com a nossa hist\u00f3ria, que \u00e9 racista. Lembro da minha m\u00e3e, dos trabalhos que ela passou. Tipo assim: \u00b4Vai vir limpar a minha casa amanh\u00e3`. Ent\u00e3o, eles deixavam o mais sujo de prop\u00f3sito. Ela vem limpar e vou deixar o m\u00e1ximo de lou\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Em De onde eles v\u00eam tem uma cena do Joaquim que vai trabalhar num call center. Depois de sofrer muito, porque n\u00e3o se adapta, decide que vai ser um funcion\u00e1rio exemplar. E come\u00e7a a atender, falar as frases aquelas, nos ger\u00fandios, vou estar atendendo. At\u00e9 que, escolhido Funcion\u00e1rio do M\u00eas, ganha duas raquetes de frescobol. E a\u00ed fica olhando. O que vou fazer com essas raquetes? Ele nem pode ir \u00e0 praia&#8230;<\/p>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Vou ter que contar uma outra hist\u00f3ria porque essa \u00e9 sensacional. Onde trabalhei, l\u00e1 no supermercado, era o contr\u00e1rio. Eu estava me esfor\u00e7ando, mas nunca ganhava. Quem ganhava eram os caras que j\u00e1 estavam naquelas&#8230; que eram os que me mandavam embora e faltavam, se atrasavam. Quando comecei a sacar isso, fiquei muito puto. A\u00ed, como sempre acontece comigo em todos os trabalhos, chegou o momento em que eu tamb\u00e9m estava avacalhando. Chegava atrasado. E eles faziam no dep\u00f3sito, no supermercado, tipo um adivinha, que nem de amigo secreto. Tipo, o funcion\u00e1rio do m\u00eas \u00e9 um cara assim, um cara assado. E eu j\u00e1 estava avacalhando. Fizeram essa parada e vi que era comigo. \u2018Um cara assim, assado.\u2019 Pensei \u00b4\u00c9 para mim que v\u00e3o dar esse bagulho.`\u00a0 E a\u00ed: \u00b4\u00c9 o Jos\u00e9 e tal.` Falei \u00b4N\u00e3o quero, obrigado.` Criei um clim\u00e3o. E a gerente: \u00b4Olha, que brincalh\u00e3o.` N\u00e3o, eu n\u00e3o quero. S\u00e9rio, pode ficar a\u00ed. \u00b4R$ 30,00 e uma estrelinha no quadro, ah para.` Para incentivar a gente a trabalhar mais.<\/p>\n<p>Era um absurdo. Quando me mandaram embora foi engra\u00e7ado. Sempre vinha o cara da matriz demitir as pessoas. S\u00f3 vinha para demitir. Teve um dia em que era para entrar a uma da tarde e cheguei \u00e0s tr\u00eas. Ele falou: \u00b4Bate o cart\u00e3o aqui.` Eu n\u00e3o bati e fui para o refeit\u00f3rio. \u2018Acho que v\u00e3o me demitir`, fiquei conversando com os caras l\u00e1. Fui bater o cart\u00e3o l\u00e1 pelas 18h, fiz ele esperar que j\u00e1 estava de gravata. Tinha vezes que eu passava e ele j\u00e1 tinha afrouxado o n\u00f3 da gravata, suando. A\u00ed bati o cart\u00e3o e ele falou \u2018O senhor \u00e9 o Jos\u00e9?\u2019 Sou eu mesmo.<\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Esses momentos de resist\u00eancia s\u00e3o muito bons. Voc\u00ea vai me demitir, mas vai ser quando eu quiser.<\/p>\n<p><strong>Neste ano tivemos uma curadoria de literatura negra na Feira do Livro de Porto Alegre, algo in\u00e9dito. Houve ainda um evento chamado Preto Sou. Foi uma festa bonita. Como voc\u00eas est\u00e3o vendo esse momento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> Se fizerem mais vezes isso, v\u00e3o mandar a Feira l\u00e1 para a zona Norte, como fizeram com o Carnaval. Antes disso, essa regi\u00e3o (central) toda branca de Porto Alegre empretecia. Era a coisa mais linda. Muito foda. Ent\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio ter bem claro: estamos em territ\u00f3rio inimigo no Brasil, mas no Rio Grande do Sul de maneira particular. A gente acha lindo, mas tem um movimento que \u00e9 capaz das piores coisas contra essas medidas. Outra coisa \u00e9 que a problem\u00e1tica do racismo e da falta de diversidade faz parte de um pacote maior.<\/p>\n<p>Um problema social gigante t\u00e3o complexo que tem que ser atacado em duas frentes. Uma a longo prazo e uma de maneira mais paliativa para melhorar as coisas agora. O que seria o ideal? O ideal \u00e9 voc\u00ea ter diversidade, pessoas negras, mulheres, pessoas trans, pessoas gays, nos espa\u00e7os de poder. Ent\u00e3o, os donos das editoras s\u00e3o essas pessoas, os curadores sempre, essa diversidade est\u00e1 presente o tempo todo. A\u00ed voc\u00ea vai ter livros mais diversos, p\u00fablico mais diverso, toda uma gama de diversidade. Mas isso \u00e9 uma coisa quase ut\u00f3pica de pensar hoje em dia. Ent\u00e3o, ter uma curadoria voltada para isso, como foi esse ano, \u00e9 um bom paliativo. Mas o que queremos, como sociedade diversa, \u00e9 um problema que se resolve s\u00f3 a longo prazo.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>De migalhas da branquitude estamos cansados. H\u00e1 muitos anos estamos pedindo espa\u00e7o<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211; <\/strong>N\u00e3o vi nada de inovador. Inclusive, acho que chegou com um delay. Na d\u00e9cada de 1990, Ronald Augusto, junto com Oliveira Silveira, fizeram artigos pedindo mais autores negros e negras na Feira. Pulamos para 2012\/2013 quando eu e o Ronald fizemos uma s\u00e9rie de artigos falando tamb\u00e9m da aus\u00eancia de pessoas negras na feira. Em 2020, me tornei o primeiro patrono negro da feira. E, em 2024, tivemos duas feiras. Uma feira de literatura e cultura negra e a feira. Acho essa divis\u00e3o bastante problem\u00e1tica. No mundo ideal, queremos uma naturaliza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a negra em todos os espa\u00e7os. Lilian Rocha (curadora de literatura negra) fez um trabalho incr\u00edvel. Chamou pessoas com grande reconhecimento. Acho que a Lilian tinha que ser, na verdade, a curadora da feira. Que a\u00ed \u00e9 outra coisa. Porque, assim, migalhas \u2013 n\u00e3o digo que a programa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma migalha \u2013 mas de migalhas da branquitude estamos cansados.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos estamos pedindo espa\u00e7o. Ent\u00e3o, assim, voc\u00ea colocar autores negros num gueto, que me parece que foi a programa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me parece a melhor sa\u00edda. Seria a melhor sa\u00edda 10 anos atr\u00e1s quando a quest\u00e3o estava come\u00e7ando. A\u00ed, seria inovador. Agora, em 2024, seria muito melhor que os autores negros e negras fizessem parte da programa\u00e7\u00e3o como modo geral. Para que as pessoas se acostumassem a ver essas pessoas em todos os lugares, em todas as discuss\u00f5es. Se um autor negro quiser falar sobre qualquer outra coisa que n\u00e3o seja de racismo, negritude, ou se quiser falar tamb\u00e9m sobre isso, n\u00e3o tem problema. Mas ele precisa ter o direito de escolher o que quer falar e onde quer estar. Fiquei bastante incomodado quando vi a feira e seus cards tamb\u00e9m. Pessoas brancas na feira e pessoas negras na feira de literatura negra. Olhem as outras feiras, o que est\u00e1 acontecendo. Qual \u00e9 o tipo de discuss\u00e3o que est\u00e1 sendo feita. Me parece que \u00e9 uma programa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sofrendo um delay e que n\u00e3o tem acompanhado as discuss\u00f5es que estamos fazendo no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p><strong>Falero &#8211; <\/strong>N\u00e3o tinha percebido que tinha essa segrega\u00e7\u00e3o, que \u00e9 terr\u00edvel. Mas eu tenho a impress\u00e3o que isso acontece pa\u00eds afora tamb\u00e9m. Aqui tiveram a capacidade de separar a programa\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 um absurdo.<\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Demos uma entrevista em que a gente, eu e voc\u00ea, reafirmou justamente isso: a ideia de simplesmente ser escritor. O que n\u00e3o significa que, na nossa fala, n\u00e3o v\u00e3o vir quest\u00f5es como racismo, preconceito, porque, enfim, faz parte da nossa viv\u00eancia e parte do que a gente escreve. Mas a obrigatoriedade de te colocarem nesse lugar e que a gente n\u00e3o tenha o direito a escolha, acho que \u00e9 uma nova forma de viol\u00eancia. A Feira do Livro deveria repensar, na verdade, a programa\u00e7\u00e3o para justamente naturalizar as pessoas negras. Por que n\u00e3o colocar pessoas negras e brancas para falar sobre negritude? As pessoas brancas tamb\u00e9m precisam falar sobre isso. Tamb\u00e9m precisam e sem se colocar naquele lugar, assim, \u00b4Ah, n\u00e3o estou no meu lugar de fala, ent\u00e3o n\u00e3o vou dizer nada`. Gente, n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed. N\u00e3o podemos silenciar.<\/p>\n<p><strong>Bom que voc\u00ea traz essa quest\u00e3o. Para fazer diferente na pr\u00f3xima vez. E, Falero, j\u00e1 teve algum homem que leu o seu livro e ficou incomodado? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Falero &#8211;<\/strong> N\u00e3o, ningu\u00e9m me deu feedback ainda. Poucas pessoas leram e todas mulheres. E eu estou ansioso dessa vez, de maneira especial, porque tenho muito medo de certas coisas que s\u00e3o medos particulares desse trabalho. Por exemplo, eu apresento umas paradas que gostaria muito que as pessoas percebessem, homens tamb\u00e9m, mas principalmente as mulheres, que eu estou criticando. Tenho medo que se fa\u00e7a uma interpreta\u00e7\u00e3o tipo \u00b4O mundo \u00e9 assim e paci\u00eancia`. N\u00e3o, \u00e9 uma cr\u00edtica.<\/p>\n<blockquote>\n<h3>A resposta que foi dada com O Avesso da Pele foi muito contundente<\/h3>\n<\/blockquote>\n<p><strong>E voc\u00ea, Ten\u00f3rio? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211; <\/strong>O livro acabou de sair, mas tenho sentido que as pessoas entenderam a proposta. Que n\u00e3o era para falar sobre o processo das cotas, mas justamente fazer uma an\u00e1lise mais complexa da jornada intelectual desses alunos que entram pelo sistema de cotas, a din\u00e2mica na universidade, como funcionam as estruturas de poder na universidade entre professor e aluno.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o falamos sobre a censura que voc\u00ea sofreu com <em>O Avesso da Pele<\/em>. Teme sofrer novamente com esse novo livro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ten\u00f3rio &#8211;<\/strong> Espero que n\u00e3o. E toda vez que acontece a censura acaba refor\u00e7ando essa ideia autorit\u00e1ria, uma ideia de impedir o acesso a determinados conte\u00fados. Espero que a gente j\u00e1 tenha amadurecido. A resposta que foi dada com <em>O Avesso da Pele<\/em> foi muito contundente.<\/p>\n<p><strong>Confira a \u00edntegra da entrevista:<\/strong><\/p><\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eleicoes-venezuelanas-consolidam-resistencia-do-sul-global-contra-imperialismo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Captura-de-Tela-2025-05-27-as-161750-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Elei\u00e7\u00f5es venezuelanas consolidam resist\u00eancia do Su...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cartilha-povo-marcado-para-viver-e-lancada-durante-6a-semana-das-ligas-camponesas-em-homenagem-a-elizabeth-teixeira\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/SnapInstato_520674866_18085606144773537_8783503508868554480_n-988x570-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Cartilha \u2018Povo Marcado para Viver\u2019 \u00e9 lan\u00e7ada duran...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/prato-cheio-de-fake-news-por-jaques-wagner\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Prato cheio de fake news, por Jaques Wagner<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-deve-apostar-em-confronto-com-congresso-para-avancar-em-isencao-de-ir-e-taxacao-dos-super-ricos-avalia-analista\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Governo deve apostar em confronto com Congresso pa...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carioca radicado no Rio Grande do Sul, Jeferson Ten\u00f3rio venceu o Pr\u00eamio Jabuti, em 2021, com seu romance O Avesso da Pele. 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Brasil [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-6917","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6917"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6917\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}