{"id":69279,"date":"2026-01-04T19:04:02","date_gmt":"2026-01-04T22:04:02","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/venezuela-por-que-os-eua-podem-fracassar\/"},"modified":"2026-01-04T19:04:02","modified_gmt":"2026-01-04T22:04:02","slug":"venezuela-por-que-os-eua-podem-fracassar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/venezuela-por-que-os-eua-podem-fracassar\/","title":{"rendered":"Venezuela: por que os EUA podem fracassar"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"844\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/260104-Trump-2048x1152.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/260104-Trump-1500x844.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/260104-Trump-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/260104-Trump-768x432.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/260104-Trump-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/260104-Trump-2048x1152.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Pedro Paulo Zahluth Bastos<\/strong><\/p>\n<p>T\u00edtulo original:<br \/><strong>O sequestro de Maduro e a Doutrina Donroe<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. A cr\u00f4nica de um ataque anunciado<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/13.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/13.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/13-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando no sequestro de Nicol\u00e1s Maduro em 3 de janeiro de 2026, vem sendo preparada h\u00e1 muito tempo. Em artigo publicado na Carta Capital em fevereiro de 2019, intitulado \u201cDonald Trump, o fim do globalismo e a crise na Venezuela\u201d, argumentei que o ent\u00e3o presidente revelava com franqueza in\u00e9dita os verdadeiros objetivos do imperialismo estadunidense: n\u00e3o a defesa da democracia ou dos direitos humanos, nem o respeito (seletivo) de tratados internacionais pautados na ideologia liberal, mas o controle sobre recursos com valor estrat\u00e9gico e econ\u00f4mico. J\u00e1 naquele momento, Trump criticava abertamente seus antecessores por n\u00e3o terem \u201ctomado o petr\u00f3leo\u201d da Venezuela ou do Iraque, ou as terras raras do Afeganist\u00e3o, explicitando uma l\u00f3gica predat\u00f3ria que o discurso liberal tradicionalmente dissimulava.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2013, Trump twittou \u201cainda n\u00e3o posso acreditar que sa\u00edmos do Iraque sem o petr\u00f3leo\u201d. Em debate com Hillary Clinton em setembro de 2016, prop\u00f4s voltar ao s\u00e9culo XIX: \u201co costume era que ao vencedor pertenciam os esp\u00f3lios. Agora n\u00e3o h\u00e1 mais vencedor\u2026 Mas eu sempre disse: tome o petr\u00f3leo\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 presidente, Trump insistiu duas vezes com o presidente iraquiano para ceder mais petr\u00f3leo como repara\u00e7\u00e3o pelos custos da guerra. O ex-Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional H.R. McMaster o teria repreendido na segunda vez: \u201c\u00e9 ruim para a reputa\u00e7\u00e3o americana, vai assustar os aliados\u2026 e nos faz parecer como criminosos e ladr\u00f5es\u201d. Em janeiro de 2019, o vice-presidente Mike Pence afirmou Trump \u201cn\u00e3o \u00e9 um f\u00e3\u201d de interven\u00e7\u00f5es externas, exceto \u201cneste hemisf\u00e9rio\u201d (o chamado \u201cquintal\u201d).<\/p>\n<p>Era um press\u00e1gio da Doutrina Donroe. Tamb\u00e9m em janeiro de 2019, o ent\u00e3o Conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional, John Bolton, afirmou que \u201cestamos em conversa\u00e7\u00e3o com as grandes companhias (petrol\u00edferas) americanas\u2026 a Venezuela \u00e9 um dos tr\u00eas pa\u00edses que eu chamei de Troika da Tirania (al\u00e9m de Nicar\u00e1gua e Cuba). Faria uma grande diferen\u00e7a para os Estados Unidos economicamente se pud\u00e9ssemos fazer as corpora\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo americanas realmente produzirem e investirem nas capacita\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas da Venezuela\u201d.<\/p>\n<p>Em abril de 2025, na reuni\u00e3o \u201cIV Dilemmas of Humanity: Perspectives for Social Transformation\u201d, organizada pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, pelo Movimento Sem Terra e pela Assembleia Internacional dos Povos em S\u00e3o Paulo, defendi que Trump escolheria a Venezuela como seu primeiro alvo militar no chamado Hemisf\u00e9rio Ocidental, no que seria a primeira interven\u00e7\u00e3o militar direta na Am\u00e9rica do Sul na hist\u00f3ria. A argumenta\u00e7\u00e3o era simples: ataques ao Canad\u00e1 ou \u00e0 Groenl\u00e2ndia seriam incomparavelmente mais arriscados e diplomaticamente indefens\u00e1veis; a Venezuela, por outro lado, oferecia justificativas palat\u00e1veis \u00e0 base pol\u00edtica do movimento MAGA (as supostas amea\u00e7as da imigra\u00e7\u00e3o e do narcotr\u00e1fico venezuelano) enquanto oferecia vastas reservas de petr\u00f3leo e minerais cr\u00edticos para a disputa tecnol\u00f3gica com a China.<\/p>\n<p>A National Security Strategy (NSS), Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional, publicada pela administra\u00e7\u00e3o Trump em 04 de dezembro 2025 formalizou esta estrat\u00e9gia hemisf\u00e9rica, centrada em \u201cfortalecer cadeias de suprimento cr\u00edticas\u2026 reduzir depend\u00eancias e aumentar a resili\u00eancia econ\u00f4mica americana\u2026 enquanto dificulta que competidores n\u00e3o-hemisf\u00e9ricos aumentem sua influ\u00eancia na regi\u00e3o\u201d. Este documento consagra o que analistas t\u00eam chamado de \u201cTrump Corollary\u201d \u00e0 Doutrina Monroe ou, mais sarcasticamente, \u201cDonroe Doctrine\u201d: uma vers\u00e3o explicitamente transacional e coercitiva do pan-americanismo que subordina toda a Am\u00e9rica Latina aos imperativos de seguran\u00e7a e acumula\u00e7\u00e3o de capital dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Indo \u00e0s vias de fato, a interven\u00e7\u00e3o militar na Venezuela n\u00e3o representa uma defesa da democracia ou uma interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria: \u00e9 oficialmente o fim do \u201cglobalismo\u201d que atava o poder militar dos EUA \u00e0 ideologia liberal de soberania nacional da carta da ONU, como alertei ser o objetivo de Trump j\u00e1 em 2019. \u00c9 o fim do s\u00e9culo americano imaginado para o mundo por Woodrow Wilson durante a Primeira Guerra Mundial e ensaiado por Franklin Delano Roosevelt na Segunda Guerra. Representa a securitiza\u00e7\u00e3o de recursos estrat\u00e9gicos no contexto da rivalidade sino-americana e, eventualmente, da tentativa de reestruturar cadeias produtivas globais segundo linhas geopol\u00edticas. Trata-se de um precedente perigoso que coloca em risco a soberania em toda a regi\u00e3o, come\u00e7ando com a nova \u201cTroika\u201d, os novos domin\u00f3s a serem derrubados pelo imp\u00e9rio estadunidense: Cuba, Nicaragua e Col\u00f4mbia.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/14-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/14-1.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>2. A l\u00f3gica geoecon\u00f4mica da escolha venezuelana<\/strong><\/p>\n<p>A Venezuela foi escolhida como primeiro alvo militar n\u00e3o por acaso, mas por oferecer a converg\u00eancia ideal entre oportunidade geoecon\u00f4mica e viabilidade pol\u00edtica. O pa\u00eds det\u00e9m as maiores reservas comprovadas de petr\u00f3leo do mundo e vastos dep\u00f3sitos de minerais cr\u00edticos essenciais \u00e0s tecnologias de energia limpa e defesa. Trump declarou repetidamente a import\u00e2ncia desses recursos, inclusive na entrevista em que afirmou que, depois do sequestro de Maduro, \u201cgovernaria a Venezuela\u201d.<\/p>\n<p>Esta franqueza quanto aos objetivos materiais do imperialismo conecta-se diretamente \u00e0 estrat\u00e9gia mais ampla de\u00a0<em>friendshoring<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>nearshoring<\/em>\u00a0articulada na Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional de 2025. O documento n\u00e3o se limita a propor diversifica\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cadeias produtivas chinesas; pelo menos retoricamente, almeja a reestrutura\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de redes de valor global segundo crit\u00e9rios geopol\u00edticos. Assim, o objetivo dual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina \u00e9 expl\u00edcito: primeiro, garantir controle estadunidense sobre recursos minerais cr\u00edticos (l\u00edtio, cobre, terras raras) e infraestrutura estrat\u00e9gica (portos, redes de telecomunica\u00e7\u00f5es, sistemas energ\u00e9ticos); segundo, integrar economias latino-americanas em cadeias manufatureiras completamente insuladas da participa\u00e7\u00e3o ou influ\u00eancia chinesa.<\/p>\n<p>A oferta feita por Mar\u00eda Corina Machado em entrevista a Donald Trump Jr. ilustra perfeitamente a quest\u00e3o mineral: em troca do apoio \u00e0 mudan\u00e7a de regime que colocaria seu grupo no poder, ela ofereceu conceder US$ 1,7 trilh\u00e3o em ativos venezuelanos a corpora\u00e7\u00f5es estadunidenses. O arranjo proposto n\u00e3o difere substantivamente das concess\u00f5es petroleiras que caracterizaram o imperialismo cl\u00e1ssico no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX e que nos levariam a duas Guerras Mundiais.<\/p>\n<p>Na quest\u00e3o das cadeias de suprimento, vai-se al\u00e9m das preocupa\u00e7\u00f5es tradicionais com extra\u00e7\u00e3o de recursos para abarcar a reorganiza\u00e7\u00e3o de sistemas produtivos regionais. Nos ramos intensivos em trabalho, energia e insumos baratos em que a reindustrializa\u00e7\u00e3o por\u00a0<em>onshoring<\/em>\u00a0nos Estados Unidos n\u00e3o for vi\u00e1vel, Washington propor\u00e1 promover elos manufatureiros latino-americana em cadeias estrategicamente sens\u00edveis \u2013 semicondutores, baterias, produtos farmac\u00eauticos, materiais avan\u00e7ados \u2013 mas estritamente dentro de estruturas de governan\u00e7a que excluam investimento, tecnologia ou acesso a mercados chineses. Trata-se de uma tentativa de compartimentaliza\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica de redes produtivas, criando cadeias de suprimento paralelas organizadas por lealdade estrat\u00e9gica. S\u00f3 assim se pode entender a decis\u00e3o do governo mexicano de implementar em 01 de janeiro de 2026 tarifas importa\u00e7\u00f5es de diversos produtos origin\u00e1rios da China, do Brasil e de outros pa\u00edses que n\u00e3o possuem acordo comercial com o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o simb\u00f3lica da escolha por um ataque \u00e0 Venezuela tamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o. A narrativa MAGA requer inimigos que ameacem o \u201cmodo de vida tradicional americano\u201d. A Venezuela pode preencher este papel: pode ser apresentada simultaneamente como fonte de imigra\u00e7\u00e3o indesejada e de narcotr\u00e1fico, duas obsess\u00f5es centrais da base trumpista. Diferentemente do Canad\u00e1 ou da Groenl\u00e2ndia, cuja invas\u00e3o seria dif\u00edcil de justificar domesticamente e provocaria crise na alian\u00e7a ocidental, um ataque \u00e0 Venezuela mobiliza preconceitos arraigados e oferece bodes expiat\u00f3rios convenientes para problemas internos dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>3. Desmontando as justificativas oficiais<\/strong><\/p>\n<p>As tr\u00eas narrativas mobilizadas para legitimar a interven\u00e7\u00e3o militar \u2013 defesa da democracia, combate ao narcotr\u00e1fico e interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria \u2013 desmoronam sob escrut\u00ednio m\u00ednimo, revelando-se como pretextos para uma opera\u00e7\u00e3o motivada por interesses de dom\u00ednio econ\u00f4mico sustentado pelo poder pol\u00edtico e militar, e buscando refor\u00e7\u00e1-los a m\u00e9dio prazo.<\/p>\n<p>O argumento democr\u00e1tico \u00e9 particularmente insustent\u00e1vel vindo de Trump. Sem precisar lembrar de 6 de janeiro de 2021, o pr\u00f3prio Trump ridicularizou publicamente, em m\u00faltiplas ocasi\u00f5es, o uso da \u201cdefesa da democracia\u201d como justificativa para interven\u00e7\u00f5es imperiais, denunciando-o como hipocrisia liberal. Em dezembro de 2015, Trump defendeu Wladimir Putin afirmando \u201cque nosso pa\u00eds tamb\u00e9m faz muita matan\u00e7a\u2026 H\u00e1 muita estupidez no mundo agora, muita matan\u00e7a, muita estupidez\u201d. Em fevereiro de 2017, j\u00e1 presidente, Trump reagiu \u00e0 cr\u00edtica de Bill O\u2019Reilly de que \u201cele (Putin) \u00e9 um assassino\u201d, afirmando que \u201ch\u00e1 muitos assassinos. Voc\u00ea pensa que nosso pa\u00eds \u00e9 t\u00e3o inocente assim?\u201d Seu hist\u00f3rico confirma o cinismo da ret\u00f3rica democr\u00e1tica: Trump mant\u00e9m alian\u00e7as estreitas com ditaduras amigas, das monarquias absolutistas do Golfo P\u00e9rsico \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita, passando pelo apoio entusi\u00e1stico ao golpismo de Jair Bolsonaro e caterva no Brasil. O problema nunca \u00e9 a aus\u00eancia de democracia, mas a falta de alinhamento com Washington.<\/p>\n<p>O argumento antidrogas revela-se igualmente fraudulento. Poucos dias antes da invas\u00e3o da Venezuela, Trump concedeu perd\u00e3o presidencial a Juan Orlando Hern\u00e1ndez, ex-presidente de Honduras formalmente julgado e condenado nos Estados Unidos por conspira\u00e7\u00e3o para tr\u00e1fico de drogas em escala industrial. O narcotr\u00e1fico serve como narrativa conveniente quando \u00e9 necess\u00e1rio demonizar advers\u00e1rios; torna-se irrelevante quando o r\u00e9u \u00e9 aliado estrat\u00e9gico. A seletividade n\u00e3o poderia ser mais transparente.<\/p>\n<p>A justificativa humanit\u00e1ria \u00e9 talvez a mais obscena das tr\u00eas. Uma administra\u00e7\u00e3o que oferece apoio militar, diplom\u00e1tico e pol\u00edtico incondicional ao genoc\u00eddio israelense em Gaza \u2013 onde mais de 60.000 civis palestinos, incluindo mais de 18 mil crian\u00e7as, foram mortos em poucos meses \u2013 n\u00e3o possui qualquer credibilidade moral para invocar preocupa\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria. Ademais, as pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es militares dos Estados Unidos contra a Venezuela \u2013 bombardeios que atingiram infraestrutura civil, bloqueio naval que impediu importa\u00e7\u00e3o de alimentos e medicamentos por muitos anos \u2013 agravaram dramaticamente o sofrimento da popula\u00e7\u00e3o venezuelana que supostamente pretendiam aliviar.<\/p>\n<p><strong>4. A opera\u00e7\u00e3o militar e suas repercuss\u00f5es regionais<\/strong><\/p>\n<p>A sequ\u00eancia de eventos que levou ao sequestro de Maduro seguiu um roteiro previs\u00edvel de escalada coercitiva. Ap\u00f3s meses de intensifica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es unilaterais e amea\u00e7as cada vez mais expl\u00edcitas, a administra\u00e7\u00e3o Trump ordenou bloqueio naval. Ele n\u00e3o sabe, mas foram o bloqueio naval e a interven\u00e7\u00e3o militar de Gr\u00e3-Bretanha, Alemanha e It\u00e1lia \u00e0 Venezuela em 1902 que levou ao corol\u00e1rio Roosevelt \u00e0 Doutrina Monroe, como procurei mostrar em longo artigo acad\u00eamico que analisa o imperialismo dos EUA sobre a Am\u00e9rica Latina entre 1898 e 1933. Como Trump, Theodore Roosevelt arrogou aos EUA o direito exclusivo de tutelar o Hemisf\u00e9rio Ocidental, anunciando publicamente a inten\u00e7\u00e3o de expulsar outros imp\u00e9rios militares e financeiros da Am\u00e9rica Central e do Caribe. Trump imitou o padr\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o militar da chamada Diplomacia do D\u00f3lar do in\u00edcio do s\u00e9culo XX tamb\u00e9m ao coordenar suas for\u00e7as especiais e da CIA com setores da oposi\u00e7\u00e3o interna e militares desertores, culminando no sequestro ilegal do presidente venezuelano em 3 de janeiro de 2026.<\/p>\n<p>As declara\u00e7\u00f5es subsequentes de Trump foram sinceras: os Estados Unidos iriam \u201cadministrar o pa\u00eds\u201d e usar receitas petrol\u00edferas para \u201cpagar a opera\u00e7\u00e3o militar e reconstruir a Venezuela como deveria ser\u201d. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas quanto aos objetivos: controle direto sobre recursos estrat\u00e9gicos e reorganiza\u00e7\u00e3o do Estado venezuelano segundo interesses imperiais.<\/p>\n<p>As repercuss\u00f5es regionais desta a\u00e7\u00e3o s\u00e3o profundas e perigosas. Cuba, Nicar\u00e1gua e Col\u00f4mbia s\u00e3o os alvos mais prov\u00e1veis em seguida. Trump j\u00e1 os amea\u00e7ou, e o precedente venezuelano demonstra que tais amea\u00e7as n\u00e3o constituem mera ret\u00f3rica. O regime comunista cubano, isolado ap\u00f3s d\u00e9cadas de bloqueio e recentemente enfraquecido por crises energ\u00e9ticas severas, pode estar com os dias contados. E Gustavo Petro pode pagar por falar verdades em Nova Iorque e por representar pe\u00e7a importante no domin\u00f3 das esquerdas latino-americanas que Trump quer demolir.<\/p>\n<p>M\u00e9xico, Brasil e at\u00e9 pot\u00eancias ocidentais como Dinamarca (por conta da Groenl\u00e2ndia) e Canad\u00e1 encontram-se em alerta mediato. As amea\u00e7as de Trump contra a Groenl\u00e2ndia n\u00e3o podem mais ser descartadas como provoca\u00e7\u00f5es vazias.<\/p>\n<p>\u00c9 claro, a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o responde uniformemente \u00e0 coer\u00e7\u00e3o imperial. A Argentina de Javier Milei oferece contraexemplo instrutivo: o alinhamento ideol\u00f3gico e estrat\u00e9gico total com Washington foi recompensado com pacote de resgate de US$ 40 bilh\u00f5es. Este padr\u00e3o de recompensas e puni\u00e7\u00f5es diferenciadas confirma a natureza explicitamente transacional da nova estrat\u00e9gia hemisf\u00e9rica: pa\u00edses que aceitam subordina\u00e7\u00e3o recebem apoio financeiro; aqueles que resistem enfrentam coer\u00e7\u00e3o crescente.<\/p>\n<p>Contudo, a resist\u00eancia equatoriana a bases militares estrangeiras, confirmada em referendo popular em novembro de 2025, demonstra que a imposi\u00e7\u00e3o da vontade de Washington enfrenta obst\u00e1culos mesmo em pa\u00edses relativamente pequenos. A invas\u00e3o da Venezuela, contudo, eleva dramaticamente os custos potenciais da resist\u00eancia, estabelecendo que os Estados Unidos est\u00e3o dispostos a empregar for\u00e7a militar direta quando consideram seus interesses suficientemente amea\u00e7ados.<\/p>\n<p><strong>5. Brasil, China e os limites do unilateralismo coercitivo<\/strong><\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia trumpista de subordina\u00e7\u00e3o hemisf\u00e9rica atrav\u00e9s de chantagem tarif\u00e1ria e amea\u00e7a militar enfrenta, no entanto, limites estruturais significativos. O caso brasileiro ilustra estas contradi\u00e7\u00f5es de forma particularmente n\u00edtida.<\/p>\n<p>Europa, Jap\u00e3o e Coreia do Sul cederam rapidamente \u00e0s demandas comerciais de Trump devido \u00e0 depend\u00eancia militar em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos, ou seja, foram for\u00e7ados a \u201cpagar tributo para manter o imp\u00e9rio americano\u201d. J\u00e1 o Brasil manteve resist\u00eancia relativamente bem-sucedida. Esta resili\u00eancia deriva de vantagens estruturais espec\u00edficas: a China consolidou-se como principal parceiro comercial brasileiro h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, absorvendo parcela crescente das exporta\u00e7\u00f5es de commodities; por causa disso, o Brasil acumulou reservas internacionais substanciais que proporcionam margem de manobra em crises cambiais; a diplomacia brasileira cultivou relacionamentos alternativos atrav\u00e9s dos BRICS e outras plataformas multilaterais do Sul Global.<\/p>\n<p>A campanha de Lula pela desdolariza\u00e7\u00e3o, intensificada ap\u00f3s sua visita \u00e0 China em abril de 2023, representa desafio direto ao instrumento fundamental de poder estadunidense: o controle sobre o sistema monet\u00e1rio internacional. Propostas para liquida\u00e7\u00e3o bilateral de opera\u00e7\u00f5es comerciais e cambiais em moedas nacionais, discuss\u00f5es sobre moeda comum dos BRICS, e diversifica\u00e7\u00e3o de reservas internacionais retiram neg\u00f3cios de Nova Iorque e corroem gradualmente a capacidade de Washington de empregar san\u00e7\u00f5es financeiras como arma geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Esta autonomia relativa do Brasil provoca irrita\u00e7\u00e3o evidente em Washington. Assessores de Trump revelaram publicamente que os Estados Unidos est\u00e3o \u201cmuito preocupados\u201d com os BRICS e a desdolariza\u00e7\u00e3o, identificando o Brasil como problema particular. A tentativa de for\u00e7ar o Brasil ao alinhamento atrav\u00e9s de tarifas punitivas, contudo, enfrentou o problema de que o mercado estadunidense, embora importante, n\u00e3o \u00e9 mais indispens\u00e1vel para a economia brasileira como fora em d\u00e9cadas anteriores. O acesso a Wall Street ainda \u00e9 indispens\u00e1vel, mas bloquear o acesso brasileiro como forma de press\u00e3o aceleraria o que Trump quer evitar: empurraria o Brasil para fora do mundo do d\u00f3lar e em dire\u00e7\u00e3o aos BRICS.<\/p>\n<p>Os limites mais fundamentais da \u201cDonroe Doctrine\u201d, por\u00e9m, transcendem qualquer pa\u00eds espec\u00edfico. Ocupa\u00e7\u00f5es militares prolongadas s\u00e3o proibitivamente custosas, como demonstraram Iraque e Afeganist\u00e3o. Pesquisas de opini\u00e3o nos Estados Unidos indicavam que 55% da popula\u00e7\u00e3o se opunha \u00e0 invas\u00e3o da Venezuela, sugerindo que aventuras militares adicionais enfrentar\u00e3o resist\u00eancia dom\u00e9stica crescente, especialmente se produzirem baixas norte-americanas significativas ou custos fiscais elevados.<\/p>\n<p>Mais importante, os Estados Unidos s\u00e3o incapazes de apresentar propostas de desenvolvimento que rivalizem com as chinesas. Enquanto a estrat\u00e9gia de Washington se baseia em condicionar acesso ao mercado consumidor \u00e0 submiss\u00e3o pol\u00edtica e em brandir san\u00e7\u00f5es como ferramenta punitiva, Pequim disponibiliza obras de infraestrutura concreta, cr\u00e9dito paciente de longo prazo, compartilhamento de tecnologias e mercados em expans\u00e3o, tudo isso sem exig\u00eancias pol\u00edticas onerosas. Esta assimetria nas ofertas de desenvolvimento cria vantagem estrutural chinesa que tarifas punitivas e amea\u00e7as militares n\u00e3o conseguem neutralizar completamente.<\/p>\n<p>O risco de\u00a0<em>blowback<\/em>\u00a0geopol\u00edtico tamb\u00e9m n\u00e3o deve ser subestimado. Cada a\u00e7\u00e3o coercitiva dos Estados Unidos fortalece a narrativa chinesa de que Washington representa amea\u00e7a \u00e0 soberania do Sul Global, impulsionando pa\u00edses a buscar prote\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de alinhamento mais estreito com Beijing. A invas\u00e3o da Venezuela fornece evid\u00eancia dram\u00e1tica para este argumento, potencialmente acelerando a forma\u00e7\u00e3o de blocos e de alian\u00e7as com a China que a estrat\u00e9gia de Trump ostensivamente pretende prevenir.<\/p>\n<p><strong>6. Os dados est\u00e3o lan\u00e7ados: o precedente perigoso e a necessidade de resist\u00eancia coletiva<\/strong><\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos na Venezuela e a captura de Nicol\u00e1s Maduro constituem viola\u00e7\u00e3o flagrante do direito internacional e da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Independentemente de qualquer avalia\u00e7\u00e3o que se fa\u00e7a do governo venezuelano, o princ\u00edpio da n\u00e3o-interven\u00e7\u00e3o militar unilateral representa conquista civilizat\u00f3ria fundamental preparada pelo menos desde 1648 (Vestf\u00e1lia) que n\u00e3o pode ser descartada sem consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas para a ordem internacional.<\/p>\n<p>O precedente estabelecido \u00e9 ser\u00edssimo. Se os Estados Unidos podem invadir pa\u00eds soberano, depor seu governo e assumir controle direto sobre seus recursos naturais com base em justificativas t\u00e3o transparentemente fraudulentas, nenhum pa\u00eds est\u00e1 seguro se n\u00e3o tiver for\u00e7as armadas dissuas\u00f3rias ou alian\u00e7as militares fortes. A normaliza\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es militares unilaterais destr\u00f3i qualquer pretens\u00e3o de sistema internacional baseado em regras. O imperador fica nu. Por isso, talvez a escalada militar revele mais fraqueza que for\u00e7a. Um hegemon confiante em sua primazia econ\u00f4mica, tecnol\u00f3gica e cultural n\u00e3o precisa recorrer a invas\u00f5es militares para assegurar acesso a recursos ou mercados. A disposi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos de empregar for\u00e7a direta reflete a eros\u00e3o de formas mais sutis de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sequestro de Maduro enfraquece, mas n\u00e3o elimina o dom\u00ednio do chavismo na Venezuela. Tampouco resolve as contradi\u00e7\u00f5es estruturais do decl\u00ednio hegem\u00f4nico dos Estados Unidos. Os EUA n\u00e3o conseguem oferecer modelo de desenvolvimento atrativo que compita efetivamente com a alternativa chinesa; n\u00e3o possuem capacidade fiscal para financiar Marshall Plan hemisf\u00e9rico; n\u00e3o podem reverter d\u00e9cadas de desindustrializa\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica atrav\u00e9s de tarifas punitivas a aliados. A imposi\u00e7\u00e3o de controle militar direto sobre a Venezuela, se for poss\u00edvel, pode garantir acesso ao petr\u00f3leo venezuelano, mas n\u00e3o restaura a centralidade dos Estados Unidos nas cadeias produtivas globais.<\/p>\n<p>Alternativas \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o existem, mas exigem coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e coragem estrat\u00e9gica por parte dos governos do Sul Global. O fortalecimento de plataformas regionais como CELAC, UNASUL e BRICS oferece espa\u00e7os institucionais para resist\u00eancia coletiva. Aprofundamento da integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica Sul-Sul reduz vulnerabilidade \u00e0 coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica estadunidense. Diversifica\u00e7\u00e3o de reservas internacionais e desenvolvimento de sistemas de pagamento alternativos minam o poder das san\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o fundamental da invas\u00e3o da Venezuela \u00e9 que soberania isolada \u00e9 vulner\u00e1vel; apenas coordena\u00e7\u00e3o coletiva pode contrabalan\u00e7ar o poder imperial. O desafio para governos progressistas na Am\u00e9rica Latina e no Sul Global \u00e9 transformar indigna\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica em coopera\u00e7\u00e3o efetiva. O precedente foi estabelecido. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 decisivamente hist\u00f3rico: os novos lances determinar\u00e3o se o s\u00e9culo XXI ser\u00e1 marcado pelo ressurgimento do imperialismo militar predat\u00f3rio ou pela consolida\u00e7\u00e3o de ordem internacional genuinamente multipolar.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. 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