{"id":69730,"date":"2026-01-08T11:41:08","date_gmt":"2026-01-08T14:41:08","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-congresso-nacional-africano-cna-da-luta-contra-o-apartheid-a-implementacao-do-neoliberalismo\/"},"modified":"2026-01-08T11:41:08","modified_gmt":"2026-01-08T14:41:08","slug":"o-congresso-nacional-africano-cna-da-luta-contra-o-apartheid-a-implementacao-do-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-congresso-nacional-africano-cna-da-luta-contra-o-apartheid-a-implementacao-do-neoliberalismo\/","title":{"rendered":"O Congresso Nacional Africano (CNA): da luta contra o apartheid \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"472\" height=\"332\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/CNA-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/CNA-2.jpg 472w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/CNA-2-300x211.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 472px) 100vw, 472px\"><\/figure>\n<p><em>Por Marcelo Buzetto*<br \/>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>Em 08 de janeiro de 1912 foi criado o <strong>Congresso Nacional Africano (CNA),<\/strong> uma organiza\u00e7\u00e3o que se tornaria muito conhecida pelas lutas por justi\u00e7a, democracia, contra o imperialismo e contra o racismo na \u00c1frica do Sul. O CNA surge como um movimento social e pol\u00edtico popular, democr\u00e1tico e de massas, que ganha imensa proje\u00e7\u00e3o na luta de classes em todo o continente africano. <\/p>\n<p>Na sua funda\u00e7\u00e3o chamava-se <em><strong>Congresso Nacional dos Nativos Sul-Africanos<\/strong><\/em>. Sua mobiliza\u00e7\u00e3o era, especificamente, a defesa da popula\u00e7\u00e3o nativa contra as leis injustas e racistas dos colonizadores. Em 1923 muda o nome para CNA, incorporando v\u00e1rios sindicatos e, tamb\u00e9m, tendo a ades\u00e3o do <strong>Partido Comunista Sul-Africano (SACP)<\/strong>, que havia sido criado em 1921. Essa alian\u00e7a entre sindicatos, partido comunista e movimento social contribuiu para que o CNA se transformasse num partido pol\u00edtico com um programa de transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas, sociais e culturais, que representasse a ampla maioria da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, com destaque para a classe trabalhadora e para as etnias nativas, e juntando-se \u00e0s lutas por liberta\u00e7\u00e3o nacional e por socialismo em todo o continente africano. O CNA tornou-se um s\u00edmbolo internacional da luta contra o racismo e contra o capitalismo, especialmente entre as d\u00e9cadas de 60 e 80 do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A \u00c1frica do Sul, seja pela sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, seja pelos seus recursos naturais, sempre teve um papel estrat\u00e9gico para os interesses do imperialismo europeu-ocidental e estadunidense. O colonialismo europeu se expandiu no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Com a descoberta de ouro e diamante ampliou-se a disputa por esse territ\u00f3rio, que sempre foi habitado por uma popula\u00e7\u00e3o de maioria nativa, de diferentes etnias e povos origin\u00e1rios, que viviam ali desde a origem da humanidade, desenvolvendo um modo de vida que entrava, constantemente, em conflito direto com os valores, ideias e princ\u00edpios propagandeados e defendidos pelo desenvolvimento capitalista industrial. <\/p>\n<p>O desenvolvimento capitalista sul-africano fez nascer uma classe oper\u00e1ria, majoritariamente negra, e a luta do proletariado contra o capitalismo sempre esteve associada \u00e0 luta contra o racismo. O proletariado sul-africano se formou como resultado da expans\u00e3o econ\u00f4mica urbano-industrial-capitalista dos anos 40, 50, 60, e esse processo foi acompanhado de intensas lutas oper\u00e1rias e populares, em plena sintonia com as lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional e pelo socialismo nos demais pa\u00edses do continente africano.<\/p>\n<p>O racismo sempre esteve presente na forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do que hoje conhecemos como \u00c1frica do Sul e \u00e9 produto do colonialismo e do capitalismo. Mas a partir de 1948, ele \u00e9 institucionalizado atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de leis de <em>apartheid<\/em>, que v\u00e3o impor o segregacionismo e a separa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o por ra\u00e7a, estabelecidas pelo governo federal, que estava sob o comando do Partido Nacional, organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica neofascista. O nacionalismo branco sul-africano se identifica muito com o sionismo, ideologia racista que organizou a coloniza\u00e7\u00e3o da Palestina por imigrantes judeus europeu, tanto que a \u00c1frica do Sul dos tempos do regime do <em>apartheid<\/em> (1948-1994) foi o principal parceiro econ\u00f4mico do chamado \u201cEstado de Israel\u201d.<\/p>\n<p>O CNA foi profundamente influenciado pelas rebeli\u00f5es populares e revolu\u00e7\u00f5es sociais que ocupavam um crescente espa\u00e7o na vida pol\u00edtica africana nos anos 60 e 70 do s\u00e9culo XX. A alian\u00e7a estrat\u00e9gica entre CNA, <strong>PCSA<\/strong> e <strong>Congresso dos Sindicatos da \u00c1frica do Sul (COSATU)<\/strong> apoiava o avan\u00e7o \u2013 e recebia apoio \u2013 dos processos revolucion\u00e1rios em curso, seja no Egito, na L\u00edbia, na Arg\u00e9lia, na Tanz\u00e2nia, em Gana, Burkina Faso, Angola, Mo\u00e7ambique, Cabo Verde, Guin\u00e9 Bissau, etc. O CNA tamb\u00e9m enviava delega\u00e7\u00f5es aos pa\u00edses socialistas do Leste Europeu, \u00e0 URSS e \u00e0 China, aos encontros do Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o-Alinhados e da Organiza\u00e7\u00e3o da Unidade Africana (OUA), e mantinha esses contatos para denunciar ao mundo as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos praticadas pelo regime racista do apartheid.<\/p>\n<h2>Repress\u00e3o e luta armada<\/h2>\n<figure>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"424\" data-id=\"204371\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/CNA-4.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/CNA-4.jpg 640w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/CNA-4-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\"><\/figure>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"612\" height=\"501\" data-id=\"204370\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/CNA-5.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/CNA-5.jpg 612w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/CNA-5-300x246.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 612px) 100vw, 612px\"><\/figure><figcaption><em>Massacre de Shaperville, em 21 de mar\u00e7o de 1960. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ap\u00f3s o Massacre de Shaperville, em 21 de mar\u00e7o de 1960, o CNA vai iniciar a luta armada contra alvos do governo. Neste triste epis\u00f3dio a pol\u00edcia do <em>apartheid<\/em> assassinou 69 manifestantes e feriu 186, durante uma marcha popular com 7 mil pessoas, contra a Lei do Passe, que obrigava todo cidad\u00e3o negro a carregar uma caderneta para que fosse anotada pela autoridade policial de onde vinha e para onde pretendia ir. <\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"389\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/CNA-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/CNA-3.jpg 450w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/CNA-3-300x259.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\"><figcaption><em>Nelson Mandela. Foto: Creative Comons\/Wikipedia. <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O protesto, organizado pelo <strong>Congresso Pan-Africanista (CPA)<\/strong>, uma dissid\u00eancia do CNA sob a lideran\u00e7a de Robert Sobukwea, revelou o grau intenso de viol\u00eancia a que estava submetida a popula\u00e7\u00e3o negra da \u00c1frica do Sul. A partir da\u00ed o CNA e o <strong>PCSA<\/strong> v\u00e3o coordenar a\u00e7\u00f5es de \u201cviol\u00eancia revolucion\u00e1ria\u201d contra o regime do <em>apartheid<\/em>. Criam o <em><strong>Umkhonto We Sizwe<\/strong><\/em>, que significa, na l\u00edngua Zulu, <em><strong>Lan\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em>, bra\u00e7o do CNA. Nessa \u00e9poca Nelson Mandela j\u00e1 circulava por pa\u00edses africanos e europeus buscando apoio e recursos para a luta armada e para a guerrilha sul-africana. <\/p>\n<p>Essa primeira fase da luta armada tinha como centro de suas atividades a sabotagem e ataques \u00e0 instala\u00e7\u00f5es industriais e do governo. Cerca de 200 atos foram realizados entre 1961 e 1964. Joe Slovo dizia que nesse momento era necess\u00e1rio a combina\u00e7\u00e3o de diferentes formas de luta e de organiza\u00e7\u00e3o, legais, semi-clandestinas e clandestinas, pois <\/p>\n<blockquote>\n<p>a luta j\u00e1 n\u00e3o pode centrar-se em apelos aos direitos civis e reformas no \u00e2mbito do dom\u00ednio branco; \u00e9 uma luta pelo Poder do povo, e nela a agita\u00e7\u00e3o de massas e a import\u00e2ncia crescente do fator armado caminham lado a lado\u201d<\/p>\n<p><em><sub> (\u201c\u00c1frica do Sul: um s\u00f3 caminho\u201d, Joe Slovo, Editorial Caminho, p. 124).<\/sub><\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>No Programa do CNA a luta pela terra e pela Reforma Agr\u00e1ria<\/h2>\n<p>O CNA afirmava que \u201c<strong>a terra ser\u00e1 repartida pelos que nela trabalham<\/strong>\u201c. E enfatiza: \u201cO povo ind\u00edgena da \u00c1frica do Sul foi roubado da sua terra depois de centenas de anos de resist\u00eancia. Hoje toda a terra \u00e9 controlada e monopolizada pela minoria branca. \u00c9 frequente ouvir dizer que 87% das terras \u00e9 propriedade dos brancos (\u2026)\u201d <em>(\u201cAn\u00e1lise da Carta da Liberdade\u201d, Confer\u00eancia Consultiva CNA, em \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Africana \u2013 Documentos Fundamentais do Congresso Nacional Africano\u201d, Editorial Caminho, p. 31). <\/em><\/p>\n<p>Infelizmente os governos do <strong>CNA<\/strong> e seus aliados n\u00e3o realizaram nenhuma reforma popular estrutural no campo da agricultura ou da quest\u00e3o agr\u00e1ria. Desde de Nelson Mandela at\u00e9 hoje, n\u00e3o foi feita uma efetiva reforma agr\u00e1ria na \u00c1frica do Sul. <\/p>\n<p>Cerca de 85% das terras est\u00e3o concentradas nas m\u00e3os da minoria branca descendente dos colonizadores europeus. Quando se trata da economia como um todo esse n\u00famero \u00e9 de 80%. Ou seja, durante os governos do CNA (1995-2021) houve uma pequena ascens\u00e3o de uma burguesia negra sul-africana, parte dela formada por membros de uma burocracia que se corrompeu e se associou ao capital privado dominado pela minoria branca. Oliver Tambo, hist\u00f3rico l\u00edder do CNA, defendia que \u201clutamos por uma \u00c1frica do Sul cuja riqueza seja repartida equitativamente pelo seu povo. Lutamos pela aboli\u00e7\u00e3o de um sistema que, hoje, no nosso pa\u00eds, concentra toda a riqueza nas m\u00e3os de alguns (\u2026)<em>\u201d (Oliver Tambo, \u201cApelo ao mundo: a vit\u00f3ria de nossa causa \u00e9 certa\u201d, em \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Africana \u2013 Documentos Fundamentais do Congresso Nacional Africano\u201d, Editorial Caminho, p. 108).<\/em><\/p>\n<h2>Neoliberalismo e novas lutas em defesa da Revolu\u00e7\u00e3o Sul-Africana<\/h2>\n<p>Diante da aplica\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal e sem realizar reformas populares estruturais, contrariando inclusive o programa do pr\u00f3prio partido, os governos do <strong>CNA<\/strong> decepcionaram muitos militantes da esquerda popular e sindical, e novas organiza\u00e7\u00f5es foram constru\u00eddas, numa tentativa de resgatar as origens e os princ\u00edpios daqueles e daquelas que perderam sua liberdade ou sua vida para defender a Revolu\u00e7\u00e3o Sul-Africana. Entre elas se destacam o <strong>Sindicato Nacional dos Metal\u00fargicos da \u00c1frica do Sul (NUMSA),<\/strong> que sempre lutou contra as privatiza\u00e7\u00f5es e a pol\u00edtica neoliberal dos governos do CNA. <strong>NUMSA<\/strong> acabou sendo expulso, em 2014, do <strong>Congresso de Sindicatos da \u00c1frica do Sul (COSATU)<\/strong>. Com outros sindicatos criam a <strong>Federa\u00e7\u00e3o Sindical Sul-African<\/strong>a e tem um papel importante na constru\u00e7\u00e3o do <strong>Partido Socialista Revolucion\u00e1rio dos Trabalhadores (SRWP)<\/strong>, criado entre 2018 e 2019, organiza\u00e7\u00e3o que participa da Assembleia Mundial dos Povos.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora sul-africana continua perseguindo, por diferentes caminhos, o sonho de uma na\u00e7\u00e3o justa, com independ\u00eancia nacional, solidariedade aos povos que lutam e tendo como perspectiva o pan-africanismo e o socialismo.<\/p>\n<p><em>*Marcelo Buzetto \u2013 Coletivo de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do MST\/SP<\/em><\/p>\n<p><em>**Republica\u00e7\u00e3o de artigo de 2021.<\/em><\/p>\n<p><em>***Editado por Fernanda Alc\u00e2ntara<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2026\/01\/08\/o-congresso-nacional-africano-cna-da-luta-contra-o-apartheid-a-implementacao-do-neoliberalismo\/\">O Congresso Nacional Africano (CNA): da luta contra o apartheid \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/virada-no-rj-tera-acoes-de-combate-a-violencia-contra-a-mulher\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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