{"id":69969,"date":"2026-01-09T13:10:00","date_gmt":"2026-01-09T16:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-america-latina-ve-a-venezuela-no-espelho\/"},"modified":"2026-01-09T13:10:00","modified_gmt":"2026-01-09T16:10:00","slug":"a-america-latina-ve-a-venezuela-no-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-america-latina-ve-a-venezuela-no-espelho\/","title":{"rendered":"A Am\u00e9rica Latina v\u00ea a Venezuela no espelho"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/venezuela-militar20170826_0003.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/venezuela-militar20170826_0003.png 1280w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/venezuela-militar20170826_0003-300x169.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/venezuela-militar20170826_0003-768x432.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Foto: \u00a0Andres Martinez Casares\/Reuters<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Na coletiva em Mar-a-Lago, na Fl\u00f3rida, Donald Trump colheu os louros do ataque do Ex\u00e9rcito \u201cmais forte e feroz do planeta\u201d \u00e0 Venezuela \u2014 ataque que incluiu o sequestro do presidente Nicol\u00e1s Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, tratado por ele como sin\u00f4nimo da derrubada do governo bolivariano. Sem qualquer constrangimento, desmontou a pr\u00f3pria narrativa que ajudara a construir para justificar o crime internacional: o suposto \u201ccombate ao narcoterrorismo\u201d, expediente que lhe permitiu agredir arbitrariamente outro pa\u00eds sem aval do Congresso. O objetivo real, deixou claro, \u00e9 a pilhagem do petr\u00f3leo venezuelano \u2014 tanto que a\u00e7\u00f5es da ExxonMobil e da Chevron dispararam!<\/p>\n<p>\u201cVamos administrar o pa\u00eds at\u00e9 que possamos fazer uma transi\u00e7\u00e3o segura, adequada e criteriosa\u201d, afirmou, esquivando-se de explicar como isso ocorreria quando questionado pelos jornalistas \u2014 talvez j\u00e1 imaginando que, dali em diante, tudo n\u00e3o passaria de um cruzeiro tranquilo pelo Caribe. Mas, bem, n\u00e3o seria a primeira vez que Washington fala em <em>administra\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria<\/em>, tanto na Am\u00e9rica Latina quanto no Oriente M\u00e9dio\u2026<\/p>\n<p>Por\u00e9m, desta vez, a afirma\u00e7\u00e3o soava confusa, para dizer o m\u00ednimo: como uma na\u00e7\u00e3o pode \u201cadministrar\u201d outra sem derrubar suas institui\u00e7\u00f5es e sem ocupar militarmente o territ\u00f3rio estrangeiro \u2014 algo que, no caso venezuelano, segundo planejadores de guerra, exigiria o deslocamento de mais de 150 mil soldados estadunidenses para a Am\u00e9rica do Sul? Nos dias seguintes, Marco Rubio, secret\u00e1rio de Estado dos Estados Unidos e um dos principais arquitetos do acossamento \u00e0 Venezuela, tratou de relativizar a fala presidencial. Disse que Washington apostar\u00e1 no bloqueio do petr\u00f3leo para pressionar o pa\u00eds e que ainda seria \u201cprematuro\u201d falar em novas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/OQ_banner_680x250_V1-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/OQ_banner_680x250_V1-1.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/OQ_banner_680x250_V1-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Essa ret\u00f3rica virulenta e cronicamente inst\u00e1vel da Casa Branca \u2014 feita de investidas beligerantes, recuos deslavados, fala grossa e s\u00fabitas brechas para negocia\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 se viu na onda de san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e nas tratativas com Israel e R\u00fassia no ano passado \u2014 confunde analistas ao redor do mundo. O que \u00e9 blefe, o que \u00e9 tubo de ensaio e o que \u00e9 estrat\u00e9gia geopol\u00edtica, afinal, quando um presidente atropela o bom-senso, o direito internacional e at\u00e9 as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas do pr\u00f3prio pa\u00eds, lan\u00e7ando-se numa cruzada quase fratricida contra o multilateralismo?<\/p>\n<p>Os pr\u00f3ximos dias trar\u00e3o pistas mais claras. Por ora, o que se v\u00ea \u00e9 uma mistura de espet\u00e1culo de \u201cestreia\u201d da nova Doutrina de Seguran\u00e7a dos Estados Unidos com a vaidade megaloman\u00edaca de Trump, que devaneia tanto com o Nobel da Paz quanto com o posto de \u201cmaior presidente da Hist\u00f3ria\u201d. E a regi\u00e3o se pergunta: a Venezuela \u00e9 um caso isolado \u2014 ou o primeiro espelho de uma nova realidade?<\/p>\n<p>A Venezuela esteve no radar de Trump desde que ele pisou na Casa Branca. Parecia-lhe um alvo f\u00e1cil: agradaria petroleiras e o complexo industrial-militar e, de quebra, lembraria a todos quem manda na Am\u00e9rica Latina, enviando uma mensagem de intimida\u00e7\u00e3o \u2014 aos governos locais, atrevidos em reformas e soberania, e a pot\u00eancias como China e R\u00fassia, com investimentos pesados em infraestrutura na regi\u00e3o. E teria uma bem-vinda fun\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, pois demonstra\u00e7\u00f5es de for\u00e7a no exterior agitam sua base republicana e o eleitorado nacionalista\u2026\u00a0<\/p>\n<p><strong>Psicopatia americana<\/strong><\/p>\n<p>\u201cPor que n\u00e3o invadimos a Venezuela?\u201d, perguntou Donald Trump a seu Gabinete em 2017, como quem sugere um passeio de fim de semana na Am\u00e9rica do Sul. Estava em seu primeiro ano na Casa Branca. Invas\u00f5es, argumentou, haviam dado certo no Panam\u00e1 \u2014 em 1989, quando os Estados Unidos sequestraram o presidente Manuel Noriega e o levaram a julgamento em territ\u00f3rio estadunidense \u2014 e em Granada, em 1983, quando Ronald Reagan justificou a interven\u00e7\u00e3o alegando a necessidade de \u201cproteger 600 estudantes norte-americanos\u201d.<\/p>\n<p>Incr\u00e9dulos, assessores trataram de dissuadi-lo: uma a\u00e7\u00e3o militar poderia sair pela culatra e custar aos Estados Unidos o apoio, duramente conquistado, de l\u00edderes latino-americanos contr\u00e1rios ao governo de Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n<p>\u201cO presidente diz e pensa muitas coisas diferentes\u201d, justificou, em off e visivelmente constrangido, um assessor. Neste segundo mandato, Trump parece j\u00e1 n\u00e3o contar com vozes minimamente sensatas ao p\u00e9 do ouvido. Ao contr\u00e1rio: h\u00e1 duas que sopraram, sem pudor, os tambores da guerra contra a Venezuela.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/OQ_banner_680x250_V1-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/OQ_banner_680x250_V1-1.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/OQ_banner_680x250_V1-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A primeira \u00e9 a do secret\u00e1rio de Defesa, Pete Hegseth, ex-apresentador da Fox News \u2014 um sujeito que n\u00e3o acredita na exist\u00eancia de germes (e, por isso, nunca lava as m\u00e3os), conhecido por chocar funcion\u00e1rios do Pent\u00e1gono pelo amadorismo, acusado de agress\u00e3o sexual e fanfarr\u00e3o dedicado a encarnar o modelo de masculinidade vendido pelo MAGA. Quando vieram a p\u00fablico assassinatos extrajudiciais no Mar do Caribe, inclusive de n\u00e1ufragos, correu \u00e0 tev\u00ea para se gabar. Ap\u00f3s o sequestro de Maduro, excitou-se publicamente com a \u201cpura coragem e determina\u00e7\u00e3o, a galhardia e a gl\u00f3ria dos guerreiros norte-americanos\u201d.<\/p>\n<p>A outra voz \u00e9 a do secret\u00e1rio de Estado, Marco Rubio \u2014 o \u201csuper-homem\u201d da administra\u00e7\u00e3o Trump. Anticomunista feroz, filho de cubanos expatriados, sonha em ver a Cuba de seus pais novamente sob tutela de Washington e, por extens\u00e3o, sua na\u00e7\u00e3o-irm\u00e3 antiimperialista no continente: a Venezuela. Uma a\u00e7\u00e3o como a ocorrida no s\u00e1bado tamb\u00e9m funciona como palanque ideal para sua base eleitoral na Fl\u00f3rida, composta por cubanos e venezuelanos \u201cem fuga de ditaduras sanguin\u00e1rias\u201d. Rubio, apesar de ser porta-voz dos \u201crefugiados\u201d, tamb\u00e9m lidera o pesadelo imigrat\u00f3rio nos Estados Unidos: trabalhou para acelerar deporta\u00e7\u00f5es em massa e desmontar as prote\u00e7\u00f5es concedidas a imigrantes durante o governo Biden.<\/p>\n<p>Em dezembro do ano passado, menos de um m\u00eas antes do ataque em Caracas e sequestro de Maduro e sua esposa, esta trupe trumpista divulgou a nova Doutrina de Seguran\u00e7a dos Estados Unidos. Sua alma: a reafirma\u00e7\u00e3o \u2014 e radicaliza\u00e7\u00e3o \u2014 do lema \u201cAmerica First\u201d, com \u00eanfase renovada em tratar a Am\u00e9rica Latina como quintal do Tio Sam. O documento adota uma vis\u00e3o abertamente maquiav\u00e9lica: alian\u00e7as s\u00e3o instrumentos, e o poder econ\u00f4mico e militar, meios leg\u00edtimos para for\u00e7ar concess\u00f5es. A pol\u00edtica externa \u00e9 reorientada por meio de um \u201cCorol\u00e1rio Trump\u201d \u00e0 Doutrina Monroe de 1823, que recoloca o Hemisf\u00e9rio Ocidental como esfera de influ\u00eancia priorit\u00e1ria e legitima a\u00e7\u00f5es unilaterais. Trump j\u00e1 adotou nome pr\u00f3prio, com orgulho: a \u201cDoutrina Donroe\u201d. Afinal, imp\u00e9rios sempre recorrem \u00e0 viol\u00eancia bruta quando seus mecanismos sutis de controle, como diplomacia e coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, falham\u2026\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Antes mesmo disso vir a p\u00fablico na forma de documento, j\u00e1 v\u00edamos seus sinais. Na Argentina, hoje anarcocapitalistamente pr\u00f3-gringos, Trump condicionou financiamento externo ao sucesso pol\u00edtico de Javier Milei nas elei\u00e7\u00f5es legislativas do ano passado, como se dissesse: pibe, se voc\u00ea n\u00e3o merecer, n\u00e3o ganha a mesada do papai\u2026 Em Honduras, interferiu diretamente nas elei\u00e7\u00f5es, amea\u00e7ando cortar remessas de d\u00f3lares enviadas por imigrantes e dando indulto a um ex-presidente hondurenho condenado por narcotr\u00e1fico para influenciar o pleito. Sobre o Panam\u00e1, declarou publicamente a inten\u00e7\u00e3o de \u201crecuperar\u201d o controle do Canal, citando uma suposta influ\u00eancia chinesa como pretexto. Trump tamb\u00e9m afirmou que o Canad\u00e1 \u201cdeveria ser o 51\u00ba estado\u201d e referiu-se cinicamente ao primeiro-ministro de um pa\u00eds aliado hist\u00f3rico como \u201cGovernador Trudeau\u201d. Seu interesse em anexar a Groenl\u00e2ndia foi igualmente declarado sem rodeios, repetidas vezes, levando a Dinamarca, membro da Otan, a classificar os Estados Unidos como \u201camea\u00e7a potencial\u201d \u00e0 sua seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>O M\u00e9xico chegou a ser classificado como \u201cadvers\u00e1rio\u201d pelo Departamento de Justi\u00e7a estadunidense, abrindo espa\u00e7o para amea\u00e7as expl\u00edcitas de interven\u00e7\u00e3o militar. Em um gesto simb\u00f3lico de domina\u00e7\u00e3o, longo em sua posse, Trump prop\u00f4s rebatizar o Golfo do M\u00e9xico como \u201cGolfo da Am\u00e9rica\u201d. Recentemente, novas amea\u00e7as foram dirigidas a Cuba e \u00e0 Col\u00f4mbia; e refor\u00e7adas contra o M\u00e9xico e a Groenl\u00e2ndia. Forma-se, assim, um padr\u00e3o inequ\u00edvoco de escalada ret\u00f3rica \u2014 e pol\u00edtica \u2014 contra as na\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o: a nova Doutrina de Seguran\u00e7a dos Estados Unidos em implementa\u00e7\u00e3o a toque de caixa no continente.<\/p>\n<p>Se antes estas na\u00e7\u00f5es estavam somente \u201capreensivas\u201d, hoje cruzar os bra\u00e7os e confiar que o bom-senso e o direito internacional triunfar\u00e3o pelas vias diplom\u00e1ticas parece uma realidade distante\u2026 Afinal, a Venezuela fez investimentos robustos em esquadr\u00f5es a\u00e9reos e disp\u00f5e de um dos sistemas de defesa antia\u00e9rea mais sofisticados da Am\u00e9rica Latina, com baterias russas S-300VM, Buk-M2 e Pantsir-S1, capazes de criar camadas de prote\u00e7\u00e3o contra aeronaves, drones e m\u00edsseis de cruzeiro. Por\u00e9m, a primazia militar e tecnol\u00f3gica dos Estados Unidos \u2014 que gastaram aproximadamente US$ 997 bilh\u00f5es em defesa em 2024, sendo respons\u00e1veis por cerca de 37% de todo o gasto militar mundial. Esse or\u00e7amento \u00e9 maior que o total gasto pelos pr\u00f3ximos nove pa\u00edses somados (incluindo China, R\u00fassia, \u00cdndia, Reino Unido, Alemanha, Ar\u00e1bia Saudita, Jap\u00e3o, Fran\u00e7a e Coreia do Sul) \u2014 se imp\u00f4s na miss\u00e3o criminosa em solo latino-americano, que, pelo que se conta at\u00e9 agora, enfrentou pouca resist\u00eancia. Nenhum pa\u00eds da regi\u00e3o \u2014 e talvez poucos no mundo \u2014 teria condi\u00e7\u00f5es de neutralizar um ataque desse porte. Basta uma ordem de Washington para submeter quase qualquer governo, ainda que, em uma guerra terrestre prolongada, o balan\u00e7o de for\u00e7as pudesse se tornar menos assim\u00e9trico.<\/p>\n<p>A agress\u00e3o \u00e9 um recado cristalino \u00e0 Am\u00e9rica Latina: pode n\u00e3o haver invas\u00e3o por terra, mas haver\u00e1 coer\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e, se necess\u00e1rio, militar. O que cabe a pa\u00edses como o Brasil, que deveria exercer lideran\u00e7a regional? As alian\u00e7as do Sul Global, como o Brics, s\u00e3o banguelas quando se trata de defender seus pr\u00f3prios aliados?<\/p>\n<p>Devem os governos insistir em um pragmatismo defensivo, com ajustes t\u00e1ticos e discursivos para evitar confrontos diretos com os Estados Unidos, mantendo coopera\u00e7\u00e3o seletiva em \u00e1reas de interesse comum e adiando a resolu\u00e7\u00e3o de vulnerabilidades estruturais? Devem seguir o caminho europeu e ampliar significativamente os gastos militares? Ou apostar na autonomia estrat\u00e9gica por meio do fortalecimento da coopera\u00e7\u00e3o regional e sul-sul, do investimento na ind\u00fastria nacional de defesa e da diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias \u2014 um processo mais lento, custoso e inevitavelmente gerador de atritos com Washington?<\/p>\n<p><strong>\u201cO que voc\u00ea faria se um inimigo brutal viesse at\u00e9 voc\u00ea, armado at\u00e9 os dentes, disposto a mat\u00e1-lo?\u201d<\/strong><\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>Esta quest\u00e3o emerge num rap entoado pela juventude chavista. Quais seriam, ent\u00e3o, os desdobramentos calculados pela Casa Branca ap\u00f3s o espet\u00e1culo militar em Caracas? Num primeiro momento, Washington parece ter rifado o apoio a Mar\u00eda Corina Machado e a seu candidato, Edmundo Gonz\u00e1lez \u2014 autodeclarados vencedores das controversas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2024 \u2014 ao menos no curto prazo.<\/p>\n<p>Delcy Rodr\u00edguez foi empossada presidente interina da Venezuela, com o n\u00facleo duro chavista aparentemente s\u00f3lido e mantendo o tom estrat\u00e9gico adotado por Maduro nos \u00faltimos meses: defesa da paz, abertura \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o e respeito \u00e0 soberania, sem deixar de reafirmar o recado central \u2014 \u201cjamais seremos col\u00f4nia de qualquer imp\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>O movimento era previs\u00edvel. \u00c9 poss\u00edvel que Trump tenha apostado na agress\u00e3o militar para for\u00e7ar novas elei\u00e7\u00f5es em at\u00e9 noventa dias, por vac\u00e2ncia de poder, como prev\u00ea a Constitui\u00e7\u00e3o venezuelana. O plano, no entanto, esbarra em uma lacuna jur\u00eddica: a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o contempla pris\u00e3o internacional ou sequestro por for\u00e7as estrangeiras como causa autom\u00e1tica de falta absoluta. Trata-se de um precedente in\u00e9dito. Assim, a defesa de Maduro como presidente de fato \u2014 e, por consequ\u00eancia, da interinidade de Rodr\u00edguez \u2014 pode neutralizar essa estrat\u00e9gia dos Estados Unidos diante da Assembleia Nacional e do Judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Outra hip\u00f3tese \u00e9 que a sucess\u00e3o interna no chavismo n\u00e3o desagrade a Washington. Delcy acumulou a Vice-Presid\u00eancia com o comando do Minist\u00e9rio dos Hidrocarbonetos, onde demonstrou grande habilidade de negocia\u00e7\u00e3o no setor petroleiro, inclusive com corpora\u00e7\u00f5es estadunidenses. Na l\u00f3gica da Casa Branca, ao assumir o Executivo em meio a uma crise profunda \u2014 inclusive, migrat\u00f3ria: estimava-se que cerca de 20% da popula\u00e7\u00e3o venezuelana esteja vivendo no exterior \u2014 e sob coer\u00e7\u00e3o militar expl\u00edcita \u2014 com a amea\u00e7a de ter \u201cfim parecido ou pior\u201d, nas palavras de Trump \u2014, Delcy ficaria de m\u00e3os atadas diante das exig\u00eancias impostas por Washington.<\/p>\n<p>Se esse for o cen\u00e1rio, trata-se de mais um teste extremo de resili\u00eancia para o governo venezuelano: como negociar com uma pot\u00eancia inimiga, armada at\u00e9 os dentes no quintal de sua casa \u2014 talvez cedendo an\u00e9is para n\u00e3o perder os dedos \u2014 enquanto tenta ganhar tempo para mobilizar solidariedade internacional e articular novas alian\u00e7as geopol\u00edticas, econ\u00f4micas e militares capazes de furar o cerco de Washington?\u00a0<\/p>\n<p>Desde setembro do ano passado, quando Trump iniciou o envio de navios de guerra ao Caribe, ficou claro para o Pal\u00e1cio de Miraflores que n\u00e3o se tratava de blefe. Alguns cen\u00e1rios estavam no radar. O primeiro, uma guerra suja, com opera\u00e7\u00f5es que iam de ciberataques e sabotagem de infraestrutura a surtos de viol\u00eancia armada para desgastar o governo. O segundo, o sequestro ou assassinato de Maduro e do alto escal\u00e3o bolivariano, \u00e0 semelhan\u00e7a do que ocorreu com Qassem Soleimani no Ir\u00e3, em 2020. O terceiro, uma invas\u00e3o terrestre \u2014 do ponto de vista militar-estrat\u00e9gico, paradoxalmente, o cen\u00e1rio mais caro, arriscado e politicamente desgastante para uma pot\u00eancia como os Estados Unidos, mesmo quando h\u00e1 supremacia tecnol\u00f3gica absoluta.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de 23 anos, os Estados Unidos tentam derrubar o governo venezuelano. Primeiro, evocaram viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, corrup\u00e7\u00e3o e a suposta eros\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Depois, passaram a falar em amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a nacional e aos interesses estrat\u00e9gicos de Washington. Mais recentemente, juntaram-se acusa\u00e7\u00f5es de narcoterrorismo e combate aos cart\u00e9is de drogas. As justificativas mudam; o objetivo, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Muita coisa passou, ent\u00e3o, com este pa\u00eds que, al\u00e9m de deter a maior reserva comprovada de petr\u00f3leo do planeta, \u00e9 uma pot\u00eancia em recursos estrat\u00e9gicos: possui a oitava maior reserva mundial de g\u00e1s natural, as principais reservas globais de ouro, n\u00edquel e terras raras \u2014 minerais essenciais para a tecnologia de ponta. Golpes militares fracassados, viol\u00eancia p\u00f3s-eleitoral, tentativas de \u201cgoverno paralelo\u201d, san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, rapinagem de ativos no exterior e opera\u00e7\u00f5es de desestabiliza\u00e7\u00e3o \u2014 incluindo terrorismo e infiltra\u00e7\u00e3o de mercen\u00e1rios estadunidenses \u2014 n\u00e3o surtiram efeito. Faltava apenas a investida militar direta de Washington. E o chavismo vinha se preparando para esse cen\u00e1rio h\u00e1 anos: da organiza\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias bolivarianas \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o em defesa, ainda que limitada, com Ir\u00e3, R\u00fassia e China; das tentativas de diversificar parcerias econ\u00f4micas no Sul Global \u00e0 busca de ingresso nos Brics \u2014 vetada pelo Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ponto central frequentemente subestimado em Washington: um ataque estadunidense tende a produzir mais resist\u00eancia do que submiss\u00e3o popular, mesmo em um pa\u00eds atravessado por crises profundas. A agress\u00e3o est\u00e1 longe de ser um atestado de \u00f3bito. Diante de um invasor externo, o chavismo n\u00e3o necessariamente se fragiliza \u2014 pode, ao contr\u00e1rio, ganhar coes\u00e3o, inclusive frustrando a aposta de que a press\u00e3o b\u00e9lica provocaria fissuras na alta c\u00fapula das For\u00e7as Armadas. Nesses cen\u00e1rios, a ofensiva inicial costuma converter-se em guerra de desgaste, na qual a superioridade tecnol\u00f3gica perde efic\u00e1cia frente ao custo econ\u00f4mico e pol\u00edtico interno exigidos por uma opera\u00e7\u00e3o de coer\u00e7\u00e3o permanente \u2014 ou, no limite, por uma tentativa de ocupa\u00e7\u00e3o. Esta parece ser a f\u00e9 do governo bolivariano.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2019, em meio \u00e0 escalada de tens\u00e3o com os Estados Unidos, o ent\u00e3o dirigente chavista e hoje ministro do Interior, da Justi\u00e7a e da Paz, Diosdado Cabello, advertia: \u201cIrm\u00e3os, preciso ser franco com voc\u00eas. A \u00fanica coisa que resta \u00e9 a invas\u00e3o norte-americana. \u00c9 prov\u00e1vel que eles entrem na Venezuela. Mas o problema \u00e9 como eles v\u00e3o sair \u2014 porque nos tornaremos o Vietn\u00e3.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o se tratar\u00e1, portanto, de um desfecho virtuoso, imediato ou linear, mas de um processo marcado por ambival\u00eancias, no qual a resist\u00eancia tende a conviver com tens\u00f5es internas, amea\u00e7as permanentes, disputas pol\u00edticas e epis\u00f3dios de viol\u00eancia. No atual contexto geopol\u00edtico, Delcy Rodriguez ter\u00e1 que adaptar a cartilha cubana de antiimperialismo intransigente sob esta amea\u00e7a existencial da revolu\u00e7\u00e3o bolivariana? Incontestavelmente, \u00e9 o in\u00edcio de uma nova fase perigosa, mas tamb\u00e9m cheia de oportunidades hist\u00f3ricas para a luta pela soberania latino-americana.\u00a0<\/p>\n<p>Resta acompanhar de perto as cartas que a Venezuela colocar\u00e1 sobre a mesa. E, t\u00e3o importante quanto isso, saber se jogar\u00e1 sozinha diante da amea\u00e7a-Trump que ronda toda a Am\u00e9rica Latina. O drama venezuelano de hoje pode ser o drama que Col\u00f4mbia, Cuba e Groenl\u00e2ndia \u2014 j\u00e1 amea\u00e7adas \u2014 viver\u00e3o amanh\u00e3. E, depois de amanh\u00e3, o de M\u00e9xico, Brasil e de qualquer pa\u00eds que se coloque \u00e0 frente dos interesses imperialistas. S\u00f3 para somar \u00e0 playlist deste momento, outro rap da juventude venezuelana: \u201cNossa voz n\u00e3o se calar\u00e1. Somos esse bravo povo pelo qual Bol\u00edvar deu sua vida pela liberdade. E h\u00e1 muito nos livramos das correntes e juramos que elas n\u00e3o voltar\u00e3o.\u201d<\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Caracas ficar\u00e1 sozinha frente ao acosso dos EUA? Como enfrentar o projeto trumpista de recoloniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o? 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