{"id":70492,"date":"2026-01-14T14:56:02","date_gmt":"2026-01-14T17:56:02","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/venezuela-e-groenlandia-o-plano-maior-dos-eua\/"},"modified":"2026-01-14T14:56:02","modified_gmt":"2026-01-14T17:56:02","slug":"venezuela-e-groenlandia-o-plano-maior-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/venezuela-e-groenlandia-o-plano-maior-dos-eua\/","title":{"rendered":"Venezuela e Groenl\u00e2ndia: o plano maior dos EUA"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5134639295523130269_w.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5134639295523130269_w-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5134639295523130269_w-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5134639295523130269_w-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5134639295523130269_w-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5134639295523130269_w-272x182.jpg 272w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5134639295523130269_w.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption><em>Fuzileiros navais dos EUA durante um exerc\u00edcio de treinamento em Arroyo, Porto Rico<\/em>. Ricardo Arduengo\/Reuters<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Nas an\u00e1lises recorrentemente veiculadas sobre os fatores que influenciam as a\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as sobre outros pa\u00edses empreendidas pelo governo Donald Trump, a busca por acesso a recursos naturais estrat\u00e9gicos vem sendo frequentemente abordada como elemento central. Mesmo quest\u00f5es pol\u00edticas internas v\u00eam sendo pouco mencionadas como fator motivador. Para al\u00e9m destes fatores e sem desprezar suas contribui\u00e7\u00f5es, esta Nota chama aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de reposicionamento na disputa de poder global e para a relev\u00e2ncia da posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de determinados territ\u00f3rios na estrat\u00e9gia dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A centralidade atribu\u00edda ao petr\u00f3leo nas a\u00e7\u00f5es dos EUA sobre a Venezuela tem produzido uma prolifera\u00e7\u00e3o de an\u00e1lises de vi\u00e9s predominantemente economicista, inclusive no campo da geopol\u00edtica e da economia pol\u00edtica internacional. Em particular, interpreta\u00e7\u00f5es derivadas de certas leituras da teoria do imperialismo tendem a reduzir os conflitos interestatais \u00e0 disputa por territ\u00f3rios econ\u00f4micos, recursos e mercados. De forma complementar e sin\u00e9rgica, este texto aponta para a import\u00e2ncia da disputa entre Grandes Pot\u00eancias pelo ac\u00famulo e vantagem relativa de poder no \u00e2mbito global, bem como o papel estruturante dos fatores geogr\u00e1ficos \u2014 espa\u00e7o e localiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de territ\u00f3rios ou \u00e1reas \u2014 na formula\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias estatais, inclusive para a seguran\u00e7a e sobreviv\u00eancia dos Estados. Essa abordagem dialoga com o programa de pesquisa do Poder Global, inaugurado por Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori, que enfatiza a din\u00e2mica competitiva e expansiva pelo poder nas rela\u00e7\u00f5es interestatais e na geopol\u00edtica do capitalismo, especialmente olhando para os Estados em posi\u00e7\u00e3o superior. Ao mesmo tempo, dialoga e recupera elementos do pensamento geopol\u00edtico cl\u00e1ssico, em especial do pr\u00f3prio pensamento geoestrat\u00e9gico estadunidense, no qual o valor estrat\u00e9gico de territ\u00f3rios e regi\u00f5es n\u00e3o se limita \u00e0 presen\u00e7a de recursos naturais, mas envolve considera\u00e7\u00f5es fundamentais de seguran\u00e7a e balan\u00e7a de poder.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, o argumento desenvolvido para o caso venezuelano \u00e9 ampliado para o chamado \u201cGrande Caribe\u201d ou \u201cAm\u00e9rica Mediterr\u00e2nea\u201d \u2014 que abrange Venezuela, Col\u00f4mbia, pa\u00edses da Am\u00e9rica Central e Caribe, at\u00e9 o M\u00e9xico \u2014 e para as ilhas transoce\u00e2nicas do Atl\u00e2ntico Norte e do Pac\u00edfico Norte, entre as quais se destaca a Groenl\u00e2ndia. A maior parte das an\u00e1lises aqui apresentadas est\u00e3o presentes em textos como \u201cO pensamento geoestrat\u00e9gico e os documentos estrat\u00e9gicos dos Estados Unidos no p\u00f3s Guerra Fria\u201d e \u201cTrump e a Am\u00e9rica Latina no in\u00edcio de seu mandato\u201d, publicados pelo autor em 2018 e 2025, respectivamente *.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Prancheta-4-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Prancheta-4-1.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>A posi\u00e7\u00e3o ou localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica estrat\u00e9gica<\/strong><\/h3>\n<p>Conforme apontado em Padula (2025), no atual governo Trump, o foco no hemisf\u00e9rico ocidental da pol\u00edtica externa dos EUA teria especial aten\u00e7\u00e3o voltada ao \u201cGrande Caribe\u201d (incluindo Col\u00f4mbia e Venezuela), combinando-se ao estabelecimento de linhas de defesa avan\u00e7adas transatl\u00e2nticas e transpac\u00edficas. Esta pol\u00edtica seria instrumentalizada por meio da guerra comercial-tarif\u00e1ria e do uso da percep\u00e7\u00e3o de \u201cnovas amea\u00e7as\u201d do p\u00f3s Guerra Fria, que seriam o narcotr\u00e1fico, a imigra\u00e7\u00e3o, o crime transnacional, associados ao \u201cterrorismo\u201d e \u00e0 criminalidade no territ\u00f3rio dos EUA, podendo ser associados a grupos ou Estados hostis externos ou dentro do hemisf\u00e9rio.<\/p>\n<p>Uma motiva\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica fundamental para a a\u00e7\u00e3o dos EUA se encontra na localiza\u00e7\u00e3o ou posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica estrat\u00e9gica dos territ\u00f3rios da Venezuela e da Groel\u00e2ndia, do ponto de vista da seguran\u00e7a do territ\u00f3rio estadunidense. Conforme sistematizado em Padula (2018), na vis\u00e3o geoestrat\u00e9gica do EUA, o \u201cGrande Caribe\u201d \u00e9 composto pelo Mar do Caribe e Golfo do M\u00e9xico, incluindo o M\u00e9xico, estados da Am\u00e9rica Central e Caribe (como Cuba), indo at\u00e9 a Col\u00f4mbia e Venezuela, no norte da Am\u00e9rica do Sul. O Grande Caribe \u00e9 um ponto de passagem mar\u00edtimo fundamental (<em>choque-point<\/em>) n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista comercial, mas tamb\u00e9m militar, visto que o controle da regi\u00e3o permite \u00e0 Marinha estadunidense se articular para reunir em um \u00fanico ponto ou costa a defesa de seu territ\u00f3rio, e tamb\u00e9m negar passagem a rivais ou auferir influ\u00eancia sobre potencias aliados que desejem utilizar esta rota. Ainda, a posi\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio da Venezuela \u00e9 relevante na articula\u00e7\u00e3o do escudo guianense com a \u00e1rea amaz\u00f4nica e o restante da Am\u00e9rica do Sul, e, juntamente com a Col\u00f4mbia, na articula\u00e7\u00e3o Atl\u00e2ntico-Pac\u00edfico do Grande Caribe e na \u00e1rea amaz\u00f4nica, sendo esta uma \u00e1rea dotada de recursos naturais estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>No caso das ilhas transoce\u00e2nicas do Atl\u00e2ntico Norte, como a Groel\u00e2ndia, estas s\u00e3o observadas como conex\u00f5es e bases avan\u00e7adas para defesa do territ\u00f3rio estadunidense diante da possibilidade de proje\u00e7\u00f5es de poder de rivais provenientes da extremidade ocidental da Eur\u00e1sia. Com o degelo e possibilidade de acesso a rotas mar\u00edtimas comerciais e militares, al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o de recursos estrat\u00e9gicos no \u00c1rtico, sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica ganha ainda maior valor estrat\u00e9gico. Vamos aos fundamentos no pensamento geoestrat\u00e9gico estadunidense.<\/p>\n<p>Mesmo antes da forma\u00e7\u00e3o de um pensamento especificamente geopol\u00edtico, um dos pais-fundadores dos EUA, Alexander Hamilton, apontou a uni\u00e3o das treze col\u00f4nias deveria formar um Estado capaz de equilibrar as rela\u00e7\u00f5es de poder no Atl\u00e2ntico Norte e ditar os termos das rela\u00e7\u00f5es entre o Velho e o Novo Mundo. A Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente estadunidense em 1823, explicitou a preocupa\u00e7\u00e3o com a proje\u00e7\u00e3o de pot\u00eancias externas no hemisf\u00e9rio ocidental, e assim o per\u00edmetro de seguran\u00e7a dos EUA.<\/p>\n<p>No debate da geopol\u00edtica cl\u00e1ssica, no fim do s\u00e9culo XIX, o almirante estadunidense Alfred Mahan (1890) destacou a import\u00e2ncia do dom\u00ednio de ilhas transoce\u00e2nicas, de passagens estrat\u00e9gicas e portos continentais para o controle de rotas mar\u00edtimas estrat\u00e9gicas. Este seria o pilar da supremacia brit\u00e2nica, que deveria ser perseguido pelos EUA na sua proje\u00e7\u00e3o global. Mahan destacou a import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o e controle de um canal no istmo do Panam\u00e1 para que os EUA assegurassem capacidade de articula\u00e7\u00e3o comercial e principalmente militar (de seguran\u00e7a) entre os oceanos Atl\u00e2ntico e Pac\u00edfico. Ainda, ressaltou que tal passagem despertaria o interesse e proje\u00e7\u00e3o de outras pot\u00eancias, e que os EUA deveriam se preparar para assegurar seu controle. Assim, Mahan destacou o Grande Caribe (Mar do Caribe e Golfo do M\u00e9xico) como uma \u00e1rea estrat\u00e9gica para a seguran\u00e7a dos EUA. De forma complementar, o autor destacou a import\u00e2ncia do dom\u00ednio do triangulo Panam\u00e1-Hava\u00ed-Alasca, para a defesa dos EUA no Pac\u00edfico. Nesta linha de a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, com o presidente\u00a0William McKinley (1897-1901), t\u00e3o citado como inspira\u00e7\u00e3o por Trump, e no \u00e2mbito da Guerra Hispano-Americana (1898), os EUA emergiram como uma pot\u00eancia global e adquiriram v\u00e1rios territ\u00f3rios no Pac\u00edfico e no Caribe, incluindo Hava\u00ed, Guam, Porto Rico e Filipinas. Mais adiante, com o Corol\u00e1rio Roosevelt da Doutrina Monroe, os EUA promoveram a secess\u00e3o do Panam\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Col\u00f4mbia, seguida da constru\u00e7\u00e3o e arrendamento do Canal do Panam\u00e1, e estabeleceram Cuba como um protetorado e garantiram o arrendamento permanente da Ba\u00eda de Guant\u00e1namo em 1903.\u00a0<\/p>\n<p>Mas foi Nicholas Spykman (em <em>America\u2019s Strategy in World Politics<\/em>, 1942) que sintetizou a geoestrat\u00e9gia estadunidense, partindo de sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, justificando a combina\u00e7\u00e3o entre o intervencionismo na Eur\u00e1sia e a supremacia no hemisf\u00e9rio ocidental. Para ele, os EUA seriam uma ilha bioce\u00e2nica cercada pela Eur\u00e1sia. Assim, deveriam atuar permanentemente para que nenhuma pot\u00eancia ou alian\u00e7a dominasse a Eur\u00e1sia, al\u00e9m avan\u00e7ar seu controle para as ilhas transatl\u00e2nticas \u2013 Groel\u00e2ndia e Isl\u00e2ndia \u2013 e transpac\u00edficas \u2013 Hava\u00ed, Alasca e Ilhas Aleutas, \u2013 devido a sua posi\u00e7\u00e3o de interconex\u00e3o e proximidade com as extremidades eurasi\u00e1ticas. No hemisf\u00e9rio ocidental, a supremacia estadunidense n\u00e3o poderia ser amea\u00e7ada. De forma similar o Grande Caribe de Mahan, Spykman denomina \u201cAm\u00e9rica Mediterr\u00e2nea\u201d como a \u00e1rea geopol\u00edtica formada pelo Mar do Caribe e Golfo do M\u00e9xico, incluindo Venezuela e Col\u00f4mbia. Nesta vis\u00e3o, Venezuela e Col\u00f4mbia possuem uma din\u00e2mica econ\u00f4mica, demogr\u00e1fica, cultural e pol\u00edtica voltada para o Norte, e est\u00e3o apartadas geograficamente da Am\u00e9rica do Sul pelos obst\u00e1culos da Amaz\u00f4nia e das cordilheiras andinas. Reafirmando Mahan, Spykman aponta que esta \u00e9 uma \u00e1rea onde seus Estados devem ser sempre fracos e dependentes dos EUA, por raz\u00f5es estrat\u00e9gicas, e o controle do Grande Caribe deve ser resguardado a sete chaves. Enquanto a \u201czona equidistante meridional\u201d (ou Am\u00e9rica do Sul) seria uma regi\u00e3o geopol\u00edtica ao sul do Amazonas, que merecia aten\u00e7\u00e3o permanente dos EUA. \u00a0<\/p>\n<p>Portanto, do ponto de vista geoestrat\u00e9gico estadunidense, tanto o \u201cGrande Caribe\u201d quanto as ilhas transatl\u00e2nticas do Atl\u00e2ntico Norte (incluindo a Groel\u00e2ndia) devem ser objeto de controle, influ\u00eancia e interven\u00e7\u00e3o permanente dos EUA.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/circuito3anos-banner_outraspalavras-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/circuito3anos-banner_outraspalavras-1.jpg 729w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>A disputa de poder global<\/strong><\/h3>\n<p>Do ponto de vista sist\u00eamico, a conjuntura atual de intensifica\u00e7\u00e3o da competi\u00e7\u00e3o pelo poder interestatal e de tend\u00eancia \u00e0 multipolaridade imp\u00f5e aos EUA como quest\u00e3o central a necessidade de buscar seu reposicionamento estrat\u00e9gico diante das pot\u00eancias rivais. No seu retorno ao poder, Trump anunciou o deslocamento do foco da pol\u00edtica externa e de seguran\u00e7a dos EUA para a reafirma\u00e7\u00e3o de sua supremacia no Hemisf\u00e9rio Ocidental, articulada ao seu posicionamento global. Essa estrat\u00e9gia combina o esfor\u00e7o de conten\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia de pot\u00eancias externas no hemisf\u00e9rio \u2014 com destaque para a China \u2014 com a redu\u00e7\u00e3o seletiva do engajamento direto dos EUA na Eur\u00e1sia, preservando a\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es pontuais consideradas estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a China se afirmou como principal desafiante \u00e0 supremacia global dos EUA no s\u00e9culo XXI, utilizando instrumentos econ\u00f4micos com claros efeitos geopol\u00edticos, como a Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota. A crescente presen\u00e7a chinesa na Am\u00e9rica do Sul e no Grande Caribe, particularmente em \u00e1reas sens\u00edveis como a regi\u00e3o do Canal do Panam\u00e1 e na Venezuela, refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a estrat\u00e9gica por parte de Washington. Paralelamente, o desfecho da guerra na Ucr\u00e2nia, interpretado como uma vit\u00f3ria da R\u00fassia e uma derrota estrat\u00e9gica dos EUA e da Europa, intensificou a necessidade, do ponto de vista estadunidense, de redefinir prioridades, concentrando esfor\u00e7os no fortalecimento de seu per\u00edmetro imediato de seguran\u00e7a, expandindo-se para uma zona tamp\u00e3o de seguran\u00e7a nas ilhas transoce\u00e2nicas do Pac\u00edfico e Atl\u00e2ntico Norte.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica do Sul passou a ocupar um lugar de maior relev\u00e2ncia nesse cen\u00e1rio em raz\u00e3o da combina\u00e7\u00e3o entre a perda de protagonismo regional do Brasil na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI e a expans\u00e3o da presen\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica da China. A regi\u00e3o tornou-se, assim, um espa\u00e7o de proje\u00e7\u00e3o de poder e de disputa entre pot\u00eancias externas. A Venezuela emerge como caso emblem\u00e1tico, ao articular e intensificar rela\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas com China e R\u00fassia em uma \u00e1rea de elevada import\u00e2ncia geogr\u00e1fica, situada no Grande Caribe e na interface com a Amaz\u00f4nia, al\u00e9m de concentrar vastos recursos naturais. A intensifica\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas pelos EUA, sobretudo a partir do primeiro governo Trump, aprofundou esse movimento, levando Caracas a buscar e aprofundar alternativas financeiras e comerciais fora do circuito dominado pelo d\u00f3lar, em especial nas exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo para a China. Ainda que essas iniciativas tenham car\u00e1ter defensivo, elas se inserem em um contexto mais amplo de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 supremacia monet\u00e1rio-financeira dos EUA. Historicamente, a exclus\u00e3o da influ\u00eancia dos EUA na Venezuela e no seu petr\u00f3leo, combinada \u00e0 crescente presen\u00e7a sino-russa, a atua\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia da Exxon e dos EUA na Guiana a partir de 2015, al\u00e9m da presen\u00e7a de petroleiras americanas na Col\u00f4mbia e Suriname, faziam da Venezuela um enclave estrat\u00e9gico no norte da Am\u00e9rica do Sul. A recente revers\u00e3o na pol\u00edtica externa colombiana, tradicionalmente alinhada aos EUA, colocaram tamb\u00e9m o pa\u00eds em foco, para que os EUA possam completar o dom\u00ednio do arco norte da Am\u00e9rica do Sul. Cabe lembrar que, embora a redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo decorrente das san\u00e7\u00f5es tenha impossibilitado a Venezuela de utilizar seu petr\u00f3leo como instrumento de proje\u00e7\u00e3o externa, e mesmo a levou a anunciar o fim das exporta\u00e7\u00f5es para pa\u00edses da Petrocaribe, o abastecimento de Cuba foi mantido.<\/p>\n<p>No caso da Groel\u00e2ndia, deve-se considerar a conjuntura atual de fraqueza pol\u00edtica e militar da Europa e de sua depend\u00eancia militar da OTAN, organiza\u00e7\u00e3o cujo controle permite aos EUA manter sua influ\u00eancia na regi\u00e3o (chegando ao Leste), em um contexto de vit\u00f3ria russa na Ucr\u00e2nia. Diante desse quadro, a anexa\u00e7\u00e3o da Groenl\u00e2ndia pode ser avaliada pelos estrategistas estadunidenses a partir de um c\u00e1lculo custo-benef\u00edcio favor\u00e1vel, por ser tanto uma demonstra\u00e7\u00e3o de capacidade expansionista quanto como afirma\u00e7\u00e3o de poder em uma \u00e1rea de elevado valor geoestrat\u00e9gico. O degelo progressivo do \u00c1rtico, ao ampliar o acesso a novas rotas mar\u00edtimas e a recursos estrat\u00e9gicos, tende a refor\u00e7ar esse c\u00e1lculo. Al\u00e9m disso, na prioridade atribu\u00edda ao hemisf\u00e9rio ocidental, a consolida\u00e7\u00e3o de uma base estrat\u00e9gica avan\u00e7ada pode representar uma op\u00e7\u00e3o racional do ponto de vista geopol\u00edtico, em favor do fortalecimento da posi\u00e7\u00e3o dos EUA na disputa pelo poder global.<\/p>\n<p>Recorrendo ao debate geoestrat\u00e9gico estadunidense, as vis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es engendradas por Donald Trump podem ser interpretadas \u00e0 luz do realismo de John Mearsheimer e Stephen Walt, bem como das formula\u00e7\u00f5es de Robert Kaplan, este autor fortemente influenciado por Samuel Huntington. Mearsheimer e Walt, ao desenvolverem a no\u00e7\u00e3o de <em>offshore balancing<\/em>, argumentam que os EUA deveriam concentrar seus recursos militares, pol\u00edticos e econ\u00f4micos na consolida\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio hemisf\u00e9rico, reduzindo seu envolvimento direto em conflitos na Eur\u00e1sia. Essa estrat\u00e9gia permitiria poupar recursos e vidas, ao mesmo tempo em que fortaleceria a posi\u00e7\u00e3o dos EUA para a disputa de poder global. Nesse enquadramento, insere-se a defesa da redu\u00e7\u00e3o dos gastos com a seguran\u00e7a europeia e a revis\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o na OTAN. A atua\u00e7\u00e3o estadunidense no balan\u00e7o de poder eurasi\u00e1tico deveria ocorrer prioritariamente por meio de aliados, com interven\u00e7\u00f5es diretas apenas em situa\u00e7\u00f5es pontuais consideradas estrat\u00e9gicas, especialmente na \u00e1rea da \u00c1sia-Pac\u00edfico, onde a ascens\u00e3o da China inevitavelmente colidiria de forma direta com os interesses dos EUA. J\u00e1 Robert Kaplan sustenta a necessidade de os EUA concentrarem esfor\u00e7os no hemisf\u00e9rio ocidental, buscando integr\u00e1-lo sob sua esfera de influ\u00eancia e priorizando temas como migra\u00e7\u00e3o e narcotr\u00e1fico. Em sua interpreta\u00e7\u00e3o, a estabilidade do espa\u00e7o hemisf\u00e9rico \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial para a preserva\u00e7\u00e3o da identidade hist\u00f3rica e da coes\u00e3o interna dos EUA, o que tornaria invi\u00e1vel a conviv\u00eancia com Estados falidos ou narcoestados em sua vizinhan\u00e7a. Ademais, a pol\u00edtica de Trump tamb\u00e9m pode ser interpretada \u00e0 luz da vis\u00e3o estrat\u00e9gica de Henry Kissinger, fundamentada na l\u00f3gica da geopol\u00edtica triangular. Nessa abordagem, Kissinger defende que, na conjuntura atual, os EUA deveriam buscar uma negocia\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica com a R\u00fassia, reconhecendo seu status de grande pot\u00eancia nuclear, com o objetivo de afast\u00e1-la da China (explorando rivalidades hist\u00f3ricas) e, assim, isolar o terceiro v\u00e9rtice do tri\u00e2ngulo. Tal movimento teria ainda como efeito colateral desejado o enfraquecimento do BRICS. Para Kissinger, profundas diferen\u00e7as pol\u00edticas, estrat\u00e9gicas e culturais entre Washington e Pequim limitariam a possibilidade de uma negocia\u00e7\u00e3o mutuamente vantajosa, e, assim, tornariam improv\u00e1vel a possibilidade de concilia\u00e7\u00e3o de interesses no \u00e2mbito da disputa pelo poder global.<\/p>\n<p>Fazendo men\u00e7\u00e3o aos recursos estrat\u00e9gicos, mas de forma associada \u00e0 disputa de poder global, faz-se importante lembrar a Doutrina Carter, anunciada em 1979, focada no Oriente Pr\u00f3ximo, como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 invas\u00e3o sovi\u00e9tica ao Afeganist\u00e3o e \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica no Ir\u00e3, ambos pa\u00edses localizados em \u00e1reas energ\u00e9ticas estrat\u00e9gicas na disputa bipolar e especialmente pela Eur\u00e1sia. A doutrina formulada por Zbigniew Brzezinski pode ser interpretada de forma mais ampla, n\u00e3o s\u00f3 como a busca pelo controle de recursos estrat\u00e9gicos (vitais) para aproveitamento dos EUA, mas tamb\u00e9m pela busca por negar acesso a rivais e, ao mesmo tempo, pela manuten\u00e7\u00e3o do poder de barganha dos EUA sobre outros pa\u00edses, atuando como garantidor do acesso ou funcionamento do \u201cmercado\u201d destes recursos. Para o cientista pol\u00edtico Michael Klare, os EUA praticam a Doutrina Carter desde 1943 e esta n\u00e3o se resume a recursos energ\u00e9ticos, mas envolve qualquer recurso considerado estrat\u00e9gico. A Declara\u00e7\u00e3o de Emerg\u00eancia de Energia Nacional dos EUA, firmada pelo Presidente Trump no seu primeiro dia de governo, menciona a explora\u00e7\u00e3o e uso de bens energ\u00e9ticos como um instrumento de pol\u00edtica externa, argumentando a necessidade de aproveit\u00e1-los em pa\u00edses parceiros e antagonizar a atua\u00e7\u00e3o de Estados rivais no tema. Assim, a quest\u00e3o do petr\u00f3leo na Venezuela deve ser observada do ponto de vista da disputa de poder global, e n\u00e3o somente como um neg\u00f3cio lucrativo para empresas e a economia estadunidenses.<\/p>\n<p>Diante deste cen\u00e1rio, a busca por autonomia, seguran\u00e7a e desenvolvimento nos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul passa inevitavelmente por arranjos de integra\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses da regi\u00e3o e pela articula\u00e7\u00e3o Sul-Sul frente \u00e0 estrat\u00e9gia hemisf\u00e9rica dos EUA, mas reconhecendo o Grande Caribe como uma \u00e1rea de sensibilidade estrat\u00e9gica. A articula\u00e7\u00e3o de um bloco de integra\u00e7\u00e3o passa inevitavelmente pela atua\u00e7\u00e3o do Brasil e de sua diplomacia, e sua capacidade para atrair os demais pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>PADULA, R. \u201cO pensamento geoestrat\u00e9gico e os documentos estrat\u00e9gicos dos Estados Unidos no p\u00f3s Guerra Fria\u201d. Revista Carta Internacional, Belo Horizonte, v. 13, n. 2, 2018, p. 31-55.<\/p>\n<p>PADULA, R. \u201cTrump e a Am\u00e9rica Latina\u2026\u201d. Observat\u00f3rio Internacional do S\u00e9culo XXI. Mar\u00e7o de 2025.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Como o reposicionamento estrat\u00e9gico estadunidense resgata doutrina de controle do \u201cGrande Caribe\u201d e a Eur\u00e1sia como linha de defesa \u00e0 expans\u00e3o comercial e geopol\u00edtica da China<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/venezuela-e-groenlandia-o-plano-maior-dos-eua\/\">Venezuela e Groenl\u00e2ndia: o plano maior dos EUA<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":70493,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[33403,32781,3366,292,1787,33404,9,18856,5700,33405,4094,33406,726,32815,1049],"tags":[],"class_list":["post-70492","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-mediterranea","category-ataque-a-venezuela","category-caribe","category-china","category-colombia","category-doandl-trump","category-eua","category-eurasia","category-geopolitica-guerra","category-grande-caribe","category-groenlandia","category-inavasao-a-venezuela","category-mexico","category-sequestro-de-maduro","category-venezuela"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70492","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70492"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70492\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70492"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70492"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70492"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}