{"id":70503,"date":"2026-01-14T19:18:54","date_gmt":"2026-01-14T22:18:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-disputa-real-por-tras-dos-protestos-no-ira\/"},"modified":"2026-01-14T19:18:54","modified_gmt":"2026-01-14T22:18:54","slug":"a-disputa-real-por-tras-dos-protestos-no-ira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-disputa-real-por-tras-dos-protestos-no-ira\/","title":{"rendered":"A disputa real por tr\u00e1s dos protestos no Ir\u00e3"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"562\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/685b523ea310a04a967afdd5.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/685b523ea310a04a967afdd5.jpeg 1000w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/685b523ea310a04a967afdd5-300x169.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/685b523ea310a04a967afdd5-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Isabela Agostinelli<\/strong>\u00a0em entrevista a\u00a0<strong>Glauco Faria<\/strong><\/p>\n<p>Os protestos que voltaram a ocupar as ruas do Ir\u00e3 entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 t\u00eam sido frequentemente descritos, sobretudo fora do pa\u00eds, como um novo cap\u00edtulo de uma suposta revolta popular contra a Rep\u00fablica Isl\u00e2mica. Contudo, uma an\u00e1lise mais cuidadosa revela um cen\u00e1rio mais complexo e menos alinhado \u00e0s leituras que buscam celebrar, de forma apressada, a possibilidade de uma mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n<p>Diferentemente das grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de 2022, marcadas por reivindica\u00e7\u00f5es ligadas aos direitos das mulheres e \u00e0s liberdades civis, os protestos recentes t\u00eam origem na condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da maior parte da popula\u00e7\u00e3o iraniana. Os protestos surgiram de maneira espont\u00e2nea, impulsionados por comerciantes tradicionais dos <em>bazaares<\/em> e por trabalhadores diretamente afetados pelo colapso da moeda local, pela infla\u00e7\u00e3o elevada e pela deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade de vida.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/5Semana-12-18-Parcerias-OP-Armazem-do-Campo.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/5Semana-12-18-Parcerias-OP-Armazem-do-Campo.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/5.Semana-12-18-Parcerias-OP-Armazem-do-Campo-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Mesmo diante deste panorama, no plano interno, n\u00e3o h\u00e1 sinais claros de uma ruptura decisiva dentro do regime. A elite pol\u00edtica e militar iraniana permanece relativamente coesa, sem divis\u00f5es capazes de sustentar um processo de transi\u00e7\u00e3o de poder. N\u00e3o existe tampouco uma lideran\u00e7a unificada dos protestos nem um programa pol\u00edtico capaz de canalizar o descontentamento social para uma mudan\u00e7a institucional.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio, entretanto, pode mudar com o agravamento da crise. Nos \u00faltimos dias, a situa\u00e7\u00e3o se intensificou e segundo a organiza\u00e7\u00e3o Iran Human Rights (IHRNGO), pelo menos 734 manifestantes teriam morrido desde o in\u00edcio das manifesta\u00e7\u00f5es. Na segunda-feira (12), o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou \u00e0 emissora estatal IRIB que \u201cas mesmas pessoas que atacaram este pa\u00eds\u201d durante a guerra de 12 dias em Israel, em junho passado, estavam agora \u201ctentando intensificar esses dist\u00farbios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 discuss\u00e3o econ\u00f4mica\u201d, conforme mat\u00e9ria da <em>Al Jazeera.<\/em><\/p>\n<p>\u201cEles treinaram algumas pessoas dentro e fora do pa\u00eds; trouxeram alguns terroristas de fora\u201d, afirmou ele, alegando que eles \u200b\u200batacaram um bazaar na cidade de Rasht, no norte do pa\u00eds, e incendiaram mesquitas.<br \/>Israel n\u00e3o nega que opera em territ\u00f3rio iraniano. O ministro israelense do Patrim\u00f4nio, de extrema-direita, Amichai Eliyahu, disse \u00e0 R\u00e1dio do Ex\u00e9rcito na semana passada: \u201cQuando atacamos o Ir\u00e3 durante a Opera\u00e7\u00e3o Le\u00e3o Ascendente [em junho], est\u00e1vamos em territ\u00f3rio israelense e sab\u00edamos como preparar o terreno para um ataque. Posso garantir que temos alguns de nossos agentes operando l\u00e1 neste momento\u201d. <\/p>\n<p>O ex-secret\u00e1rio de Estado dos EUA e ex-diretor da CIA, Mike Pompeo, tamb\u00e9m reconheceu a presen\u00e7a de agentes israelenses atuando em solo iraniano. \u201cFeliz Ano Novo a todos os iranianos nas ruas. E tamb\u00e9m a todos os agentes do Mossad que caminham ao lado deles\u201d, disse ele em uma postagem no X (ex-Twitter). Na mesma toada, mas sempre de forma mais incisiva, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, incitou manifestantes a \u201cocuparem suas institui\u00e7\u00f5es\u201d e prometeu que \u201ca ajuda est\u00e1 a caminho\u201d, cancelando reuni\u00f5es com autoridades iranianas.<\/p>\n<p>S\u00e3o evid\u00eancias de que o quadro interno do Ir\u00e3 n\u00e3o pode ser dissociado do contexto geopol\u00edtico regional. Desde o genoc\u00eddio em Gaza e a escalada dos conflitos no Oriente M\u00e9dio, o pa\u00eds persa passou a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o ainda mais central na disputa entre projetos antag\u00f4nicos de ordem regional. Com o enfraquecimento de atores n\u00e3o estatais do chamado Eixo da Resist\u00eancia e a queda do regime s\u00edrio, Teer\u00e3 tornou-se o \u00fanico Estado que \u00e9 um obst\u00e1culo real \u00e0s pretens\u00f5es hegem\u00f4nicas de Estados Unidos e Israel na regi\u00e3o. Ao mesmo tempo, o pa\u00eds busca garantir sua sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica e estrat\u00e9gica aprofundando rela\u00e7\u00f5es com China, R\u00fassia e outros pa\u00edses do Sul Global, inclusive no \u00e2mbito do BRICS \u2014 uma aproxima\u00e7\u00e3o que, paradoxalmente, foi impulsionada pelas pr\u00f3prias san\u00e7\u00f5es ocidentais.<\/p>\n<p>A professora de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Fecap, pesquisadora do Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (GECI) da PUC-SP, <strong>Isabela Agostinelli<\/strong>, explora as m\u00faltiplas dimens\u00f5es da crise iraniana atual em entrevista concedida ao <em>Outras Palavras<\/em>. Desde o impacto das san\u00e7\u00f5es e a estrat\u00e9gia de \u201colhar para o Leste\u201d na pol\u00edtica externa do Ir\u00e3 at\u00e9 o papel desestabilizador de Israel na regi\u00e3o, a reconfigura\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as no Golfo P\u00e9rsico e as disputas em torno das narrativas sobre o cen\u00e1rio atual. Confira os principais trechos da conversa abaixo.<\/p>\n<h3><strong>Os protestos de agora s\u00e3o diferentes dos anteriores?<\/strong><\/h3>\n<p>Tenho visto duas narrativas em torno do que tem acontecido. Uma, que \u00e9 meio <em>wishful thinking<\/em>, celebrando o que poderia ser uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d, aos moldes do que foram as manifesta\u00e7\u00f5es nas revoltas \u00e1rabes de 2011, para a queda do regime iraniano. A outra parte tem narrado esses protestos em torno de uma ideia de que se trata de uma influ\u00eancia direta imperial dos Estados Unidos e de Israel, principalmente. As duas narrativas acabam apagando de fato o que os iranianos que est\u00e3o indo \u00e0s ruas est\u00e3o demandando, de forma multifacetada, que \u00e9 diferente em rela\u00e7\u00e3o aos protestos anteriores. No caso desses protestos recentes, as causas s\u00e3o fundamentalmente econ\u00f4micas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/13-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/13-1.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/13-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Esses protestos n\u00e3o come\u00e7aram em 2026, mas em dezembro de 2025, quase espontaneamente e fruto das movimenta\u00e7\u00f5es de alguns trabalhadores, principalmente os comerciantes que trabalham naqueles chamados <em>bazaar<\/em>, algo semelhante a mercados tradicionais do Oriente M\u00e9dio. Esses comerciantes t\u00eam sido muito leais ao regime desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 79 e forjaram uma alian\u00e7a que tem perdurado h\u00e1 um certo tempo. S\u00f3 que existe uma quest\u00e3o muito anterior, um pano de fundo importante, estrutural, e acho que \u00e9 isso que est\u00e1 faltando nas an\u00e1lises sobre o que est\u00e1 acontecendo: as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ao Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Esses comerciantes e a popula\u00e7\u00e3o iraniana como um todo tem sofrido com os efeitos das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dos Estados Unidos e dos pa\u00edses europeus h\u00e1 muito tempo, desde 1979, mas elas foram aumentando e se intensificando ao longo dos anos. Em 2006, san\u00e7\u00f5es foram aprovadas pelo pr\u00f3prio Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, que tamb\u00e9m foram implementadas pela Uni\u00e3o Europeia. Na ocasi\u00e3o, as san\u00e7\u00f5es foram aplicadas visando pressionar o Ir\u00e3 a interromper o programa de enriquecimento de ur\u00e2nio como parte do seu desenvolvimento nuclear. Cerca de dez anos depois, houve um momento de resfriamento quando [Barack] Obama estava no poder, por conta do acordo nuclear de 2015, mas quando o Trump assume seu primeiro mandato, retoma e aumenta as san\u00e7\u00f5es no que chama de campanha de press\u00e3o m\u00e1xima, pol\u00edtica que foi continuada no governo Biden. Desde ent\u00e3o, o Ir\u00e3 tem sofrido muito com as san\u00e7\u00f5es, mas ao mesmo tempo criou estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia ou resili\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Uma das estrat\u00e9gias \u00e9 justamente fortalecer a ind\u00fastria e agricultura internas, tentar produzir os seus pr\u00f3prios armamentos, e ao longo dos anos isso tem sido feito gradativamente. O que tenho visto de cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o a como o Ir\u00e3 tem reagido a essas san\u00e7\u00f5es do ponto de vista interno, \u00e9 que, nos \u00faltimos anos, o fortalecimento tem se voltado para a Guarda Revolucion\u00e1ria, e n\u00e3o necessariamente para a classe m\u00e9dia ou a classe mais baixa.<\/p>\n<p>As pessoas que participam desses protestos pac\u00edficos e leg\u00edtimos n\u00e3o t\u00eam demandado uma mudan\u00e7a de regime, mas solu\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Claro que, aqui e ali, houve gritos contra o Ali Khamenei e descontentamentos com algumas escolhas pol\u00edticas. Isso acontece em todos os pa\u00edses, mas isso n\u00e3o necessariamente significa que vai haver uma revolu\u00e7\u00e3o ou uma revolta como foi, por exemplo, aquilo que alguns chamam de Primavera \u00c1rabe, ou como aconteceu no Egito, na Tun\u00edsia e na L\u00edbia.<br \/>Mesmo assim, estamos num momento em que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel termos tantas certezas e prever qual vai ser o futuro, mas pot\u00eancias externas t\u00eam aproveitado a agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para tentar avan\u00e7ar a sua pr\u00f3pria agenda.<\/p>\n<h3><strong>Protestos espont\u00e2neos e agendas externas<\/strong><\/h3>\n<p>V\u00e1rios protestos em diferentes locais do mundo podem come\u00e7ar de demandas espont\u00e2neas e se transformar em comandos organizados. Isso n\u00e3o tem acontecido no Ir\u00e3, pelo menos n\u00e3o por agora.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe uma lideran\u00e7a em torno desses protestos. Vimos manifesta\u00e7\u00f5es nesta segunda (12), inclusive, n\u00e3o a favor do regime exatamente, mas em apoio \u00e0 perman\u00eancia do regime nas suas condi\u00e7\u00f5es estruturais. Essa oposi\u00e7\u00e3o seria, na verdade, ao que os Estados Unidos e Israel t\u00eam tentado avan\u00e7ar, que \u00e9 na queda de Khamenei e de outras lideran\u00e7as do governo iraniano, em especial a elite militar.<\/p>\n<p>Grande parte da popula\u00e7\u00e3o iraniana que tem ido \u00e0s ruas tamb\u00e9m tem essa no\u00e7\u00e3o de que a interfer\u00eancia externa n\u00e3o vai resolver o problema. O Ir\u00e3 tem um hist\u00f3rico de avers\u00e3o a essas interfer\u00eancias externas, desde o s\u00e9culo XX, pelo menos, quando o pa\u00eds sofreu perda de territ\u00f3rios e ocupa\u00e7\u00e3o por for\u00e7as estrangeiras, como Gr\u00e3 Bretanha e R\u00fassia no final dos anos 1910. Em 1953, o Ir\u00e3 sofreu um golpe apoiado diretamente por Gr\u00e3 Bretanha e Estados Unidos, que auxiliaram na instaura\u00e7\u00e3o da ditadura do Sha Reza Pahvali. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 79, que destronou Pahlavi, a grande estrat\u00e9gia iraniana, politicamente falando, bem como em termos militares e de defesa, \u00e9 justamente garantir algum tipo de estabilidade interna para que essas quest\u00f5es dom\u00e9sticas n\u00e3o sirvam de instrumento para fazer avan\u00e7ar interven\u00e7\u00f5es externas, como aconteceu em outros pa\u00edses da regi\u00e3o, a exemplo do Iraque e do Afeganist\u00e3o, dentro desse marco maior da chamada guerra global ao terror. O Estado iraniano, assim como todos os outros Estados do sistema internacional, busca a sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Ent\u00e3o, diferentemente do que an\u00e1lises imprecisas e sensacionalistas tentam ventilar, o Ir\u00e3 n\u00e3o age conforme uma \u201cteocracia isl\u00e2mica\u201d, mas buscando garantir sua pr\u00f3pria independ\u00eancia e seguran\u00e7a em uma regi\u00e3o que abriga diversas bases militares dos Estados Unidos e que buscam eliminar, direta ou indiretamente, o projeto pol\u00edtico anti-imperialista e contra-heg\u00eamonico que o Ir\u00e3 tem levado a cabo desde 79.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de grupos que t\u00eam sido qualificados como infiltrados, at\u00e9 mesmo como terroristas, n\u00e3o sabemos se isso \u00e9 verdade ou n\u00e3o, mas o fato de os pr\u00f3prios norte-americanos e israelenses utilizarem essa ret\u00f3rica tem como objetivo inflar esse esp\u00edrito contr\u00e1rio ao regime iraniano, que eu vejo muito mais presente na di\u00e1spora iraniana e no Ocidente do que internamente no Ir\u00e3. Muitos iranianos que moram nos Estados Unidos e na Europa t\u00eam clamado por essa queda do regime, alguns deles n\u00e3o pela via da interfer\u00eancia externa. Mas a\u00ed \u00e9 que est\u00e1 a quest\u00e3o: essas duas dimens\u00f5es est\u00e3o vinculadas, uma queda do regime vai significar interfer\u00eancia externa.<\/p>\n<p>S\u00e3o escolhas que n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis de serem feitas. Por um lado, h\u00e1 uma demanda leg\u00edtima por direitos humanos, direitos pol\u00edticos e liberdade, mas, ao mesmo tempo, o perigo est\u00e1 justamente na instrumentaliza\u00e7\u00e3o dessa narrativa por meio do Ocidente.<\/p>\n<p>No caso da Primavera \u00c1rabe, por exemplo, no caso do Egito, da Tun\u00edsia e de outros pa\u00edses, o in\u00edcio do processo de revoltas tamb\u00e9m foi com demandas em torno de reformas econ\u00f4micas para acabar com a desigualdade, abrir mais empregos, tudo isso influenciado pelas medidas de austeridade dos governos neoliberais daquela \u00e9poca, que acabaram impactando muito fortemente as classes mais baixas e a classe m\u00e9dia. A instrumentaliza\u00e7\u00e3o desse discurso de abertura pol\u00edtica e econ\u00f4mica acabou gerando, por exemplo, as interfer\u00eancias externas na L\u00edbia, uma interven\u00e7\u00e3o da OTAN no pa\u00eds, que hoje est\u00e1 completamente em frangalhos.<\/p>\n<p>O Egito teve ali um momento de transi\u00e7\u00e3o com a queda do governo do Hosni Mubarak, e depois entrou Mohamed Morsi. Mas, por ser vinculado \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana, e pela incapacidade do Ocidente de compreender que a democracia no Oriente M\u00e9dio n\u00e3o necessariamente precisa ser laica ou liberal, houve uma arquitetura de golpe, apoiado pelos EUA e Ar\u00e1bia Saudita, que dep\u00f4s Mubarak e instaurou a ditadura do Al Sisi.<\/p>\n<p>Se falarmos do ponto de vista mais estrutural e materialista, as for\u00e7as em disputa no Ir\u00e3 contrap\u00f5em o seu projeto revolucion\u00e1rio e contra-hegem\u00f4nico no Oriente M\u00e9dio, desde 1979, sendo abertamente anti Israel e anti Estados Unidos, e de outro lado, um projeto levado a cabo por Estados Unidos e Israel com pretens\u00f5es imperiais, que \u00e9 de construir uma ordem regional no Oriente M\u00e9dio baseada na desordem e instabilidade.<\/p>\n<p>Existe uma lucratividade em torno dessas guerras permanentes, ou <em>forever wars<\/em>, que o Trump, ironicamente, tem dito que vai acabar com elas, mas sua ret\u00f3rica n\u00e3o reflete a realidade. Essa instabilidade, do ponto de vista da acumula\u00e7\u00e3o de capital, por exemplo, vinculada \u00e0 ind\u00fastria armamentista e \u00e0 ind\u00fastria do petr\u00f3leo, \u00e9 importante e lucrativa. Embora Trump e Netanyahu tenham advogado por essa ordem regional e estabilidade, na verdade o que eles querem \u00e9 instabilidade.<\/p>\n<p>E o Ir\u00e3 tem sido, acredito, o \u00fanico pa\u00eds na regi\u00e3o que consegue hoje fazer frente a essas pretens\u00f5es imperiais em termos de Estado nacional, j\u00e1 que h\u00e1 outros atores ali, n\u00e3o estatais, que comp\u00f5em o chamado Eixo da Resist\u00eancia e tem, desde muito tempo, se colocado como anti Israel e anti Estados Unidos, mas foram enfraquecidos desde o genoc\u00eddio em Gaza e a expans\u00e3o dessa guerra para a S\u00edria, L\u00edbano e I\u00eamen. \u00c9 como se o Ir\u00e3 fosse o \u00faltimo basti\u00e3o para os interesses imperiais dos Estados Unidos e por isso tem sofrido tantas press\u00f5es. Ao mesmo tempo que tem resistido, em junho de 2025, com a Guerra dos Doze Dias, o pa\u00eds demonstrou alguma fragilidade com o assassinato dos cientistas nucleares, mas tamb\u00e9m mostrou capacidade de defesa, ainda que n\u00e3o no mesmo n\u00edvel de Israel, por exemplo.<\/p>\n<p>Trump disse que pode conduzir ataques militares, mas postou na sua rede social que vai aplicar tarifas de 25% a pa\u00edses que comercializam com o Ir\u00e3. Isso faz parte do que os Estados Unidos utilizam como san\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias, que \u00e9 sancionar pa\u00edses terceiros que t\u00eam rela\u00e7\u00f5es com o Estado iraniano. N\u00e3o \u00e9 novo, mas ele inova na intensidade. Quem seria mais atingido nesse sentido seriam a China e a R\u00fassia, mas os russos j\u00e1 est\u00e3o sancionados desde a Guerra da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<h3><strong>Unidade contra o caos<\/strong><\/h3>\n<p>Acredito que a elite pol\u00edtica iraniana n\u00e3o est\u00e1 fragmentada, nem a elite pol\u00edtica, nem a militar ou pol\u00edtico-militar. O Ir\u00e3 tem demonstrado uma unidade nesse sentido, as alternativas que v\u00eam a uma poss\u00edvel queda de Khamenei s\u00e3o alternativas externas. Ressurgiu a figura de Reza Pahlavi, que seria o herdeiro da monarquia, uma monarquia que n\u00e3o existe desde 1979, al\u00e9m de algumas outras lideran\u00e7as que est\u00e3o na di\u00e1spora mas n\u00e3o s\u00e3o vistas como leg\u00edtimas internamente no pa\u00eds. Pahlavi tem aparecido em algumas not\u00edcias e entrevistas, sempre no Ocidente, e tamb\u00e9m nas redes sociais. Mas sua figura representa uma monarquia, ele \u00e9 herdeiro dessa ditadura que existiu entre 1953 e 1979 e n\u00e3o tem qualquer possibilidade de se colocar e se tornar de fato a nova lideran\u00e7a do pa\u00eds. Se isso acontecesse, acredito que haveria uma resist\u00eancia interna muito forte por conta da falta de legitimidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>H\u00e1 cr\u00edticas leg\u00edtimas em torno das escolhas pol\u00edticas e econ\u00f4micas do Ir\u00e3, mas essas cr\u00edticas n\u00e3o t\u00eam se transformado em demandas para a queda do regime, para a queda do Khamenei ou de Masoud Pezeshkian, um presidente considerado da ala moderada, que tem sinalizado uma abertura para renegociar a quest\u00e3o nuclear com os Estados Unidos. Como disse, existe essa ideia muito bem consolidada de que a instabilidade dom\u00e9stica abre margem para essas interfer\u00eancias externas. Se voltarmos para a Guerra dos Doze Dias, que foi um ponto de inflex\u00e3o, a vontade dos Estados Unidos e de Israel era de que os protestos fossem inflados, mas aconteceu o contr\u00e1rio. Teve gente que foi \u00e0s ruas pedindo para o pa\u00eds, de fato, desenvolver sua bomba nuclear, porque existe a ideia de que o inimigo central \u00e9 externo. Por enquanto, a elite pol\u00edtica e militar iraniana parece bem consolidada. Pode haver algumas fraturas aqui e ali, como em todo e qualquer pa\u00eds, mas n\u00e3o o suficiente para acabar com o regime.<\/p>\n<h3><strong>Elemento desestabilizador<\/strong><\/h3>\n<p>Desde a guerra em Gaza, houve uma tentativa, uma vontade muito grande de Israel de aproveitar esse genoc\u00eddio, expandir as suas pretens\u00f5es regionais e enfraquecer o Eixo da Resist\u00eancia, com a ofensiva contra o Hezbollah; o ataque dos <em>pagers<\/em> e o assassinato de lideran\u00e7as como [Hassan] Nasrallah no L\u00edbano, uma lideran\u00e7a muito forte, hist\u00f3rica; os ataques aos Houthis no I\u00eamen; o assassinato de lideran\u00e7as do Hamas n\u00e3o apenas em Gaza, mas tamb\u00e9m no Ir\u00e3 e no Catar. No caso do Eixo da Resist\u00eancia, o Ir\u00e3 \u00e9 o ator mais forte militar e estrategicamente falando.<\/p>\n<p>Tudo isso s\u00e3o tentativas de diminuir a capacidade de resist\u00eancia desses grupos ou atores n\u00e3o estatais, que militarmente s\u00e3o menos fortes do que o Ir\u00e3. Em 2024, Israel j\u00e1 havia atacado a embaixada iraniana na S\u00edria. O ataque direto chegou ao pa\u00eds, de fato, em junho de 2025, com a justificativa de guerra preventiva para atingir o programa nuclear iraniano. N\u00e3o \u00e0 toa v\u00e1rios cientistas nucleares foram assassinados. Nessa \u00e9poca, houve uma preocupa\u00e7\u00e3o por parte do Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo, basicamente formado por monarquias \u00e1rabes, algumas delas pr\u00f3ximas a Israel, como os Emirados \u00c1rabes Unidos e o Bahrein. Emirados \u00c1rabes Unidos que protagonizam, desde 2020, a normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es desse grupo de pa\u00edses com o Estado israelense, aprofundando um processo anterior de aproxima\u00e7\u00e3o comercial e estabelecendo formalmente rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, de turismo e troca de tecnologia, inclusive armada. Foi o primeiro governo Trump que organizou e mediou esses acordos principalmente com seu genro e ent\u00e3o conselheiro s\u00eanior da Casa Branca, Jared Kushner.<\/p>\n<p>No governo Biden, havia uma tentativa de trazer a Ar\u00e1bia Saudita para esses acordos. Ela \u00e9 a grande joia da coroa dos Acordos de Abra\u00e3o. Mas o 7 de outubro mudou tudo, imediatamente a Ar\u00e1bia Saudita falou que ia paralisar e suspendeu de fato as negocia\u00e7\u00f5es para normalizar suas rela\u00e7\u00f5es com Israel porque isso significaria um abandono total da quest\u00e3o palestina. A Ar\u00e1bia Saudita imediatamente falou que n\u00e3o ia voltar \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es enquanto n\u00e3o houvesse uma solu\u00e7\u00e3o fact\u00edvel para o estabelecimento de um Estado palestino.<\/p>\n<p>Outro grande ponto-chave diz respeito aos ataques que Israel fez no Catar, em setembro de 2025. Como Israel ataca outro aliado dos Estados Unidos? O Catar sedia a maior base militar americana no Golfo. Ent\u00e3o \u00e9 nesse momento que alguns pa\u00edses do Golfo come\u00e7am a perceber que na verdade o centro da desestabiliza\u00e7\u00e3o regional n\u00e3o \u00e9 o Ir\u00e3. O Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo foi criado em 1981, no contexto da Guerra Ir\u00e3-Iraque (1980-1988), para ser um contraponto \u00e0s pretens\u00f5es de expans\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3, que as monarquias do Golfo viam como uma amea\u00e7a pol\u00edtica, de seguran\u00e7a e energ\u00e9tica. Essas preocupa\u00e7\u00f5es estavam alinhadas \u00e0 pol\u00edtica externa norte-americana da \u00e9poca, com a chamada Doutrina Carter. Mas esses ataques de junho e setembro de 2025 mostraram que o centro da desestabiliza\u00e7\u00e3o regional n\u00e3o \u00e9 o Ir\u00e3, \u00e9 Israel. E sempre foi, mas os palestinos n\u00e3o s\u00e3o levados em considera\u00e7\u00e3o. Desde 1948 h\u00e1 essa tentativa de desestabilizar a ordem regional e os palestinos que pagam esse pre\u00e7o h\u00e1 muito tempo. Em setembro de 2025, Israel atacou seis pa\u00edses em menos de 72 horas.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 muito cedo para pensarmos o que os pa\u00edses do Golfo v\u00e3o fazer nesse sentido, porque o pr\u00f3prio Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo tem algumas divis\u00f5es. O Catar se coloca como esse pa\u00eds mais mediador, a Ar\u00e1bia Saudita se afastando mais de Israel e os Emirados \u00c1rabes Unidos se aproximando cada vez mais do Estado israelense, inclusive abandonando totalmente a causa palestina. De qualquer maneira, h\u00e1 sim uma discuss\u00e3o em torno dos custos dessa alian\u00e7a com os Estados Unidos, pois o ataque ao Catar deixou claro que Israel pode fazer o que bem entender que os EUA n\u00e3o v\u00e3o impedir, inclusive contra seus pr\u00f3prios aliados regionais \u00e1rabes.<\/p>\n<h3><strong>O Ir\u00e3 e a busca pela sa\u00edda do isolamento<\/strong><\/h3>\n<p>Desde 2021, com o in\u00edcio da presid\u00eancia do Raisi (2021-2014), o Ir\u00e3 busca o que alguns autores chamam de pol\u00edtica externa de \u201colhar para o Leste\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma nova pol\u00edtica externa, ela vigora desde 2005 com Mahmoud Ahmadinejad (2005-2013), com a orienta\u00e7\u00e3o de se afastar um pouco dessa cren\u00e7a de que \u00e9 poss\u00edvel dialogar com o Ocidente. \u00c9 em 2006 que o pa\u00eds deixa evidente que est\u00e1 enriquecendo ur\u00e2nio e por conta disso vai receber as san\u00e7\u00f5es formais aprovadas pelo Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Entre 2013 e 2015, j\u00e1 na presid\u00eancia de Rouhani (2013-2021), houve uma mudan\u00e7a no \u201colhar para o Leste\u201d, com a ado\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica externa mais aberta \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo com os norte-americanos e com Barack Obama para se chegar a uma solu\u00e7\u00e3o e reduzir as san\u00e7\u00f5es. Isso de fato deu frutos, sobretudo a assinatura do JCPOA, o acordo nuclear, e a retirada de boa parte das san\u00e7\u00f5es. Mas tudo vai por \u00e1gua abaixo quando Trump chega ao poder e, em 2018, adota a pol\u00edtica de press\u00e3o m\u00e1xima ao Ir\u00e3. Desde 2021, pelo menos, o Ir\u00e3 renova essa pol\u00edtica de olhar para o Leste, buscando aumentar as parcerias comerciais, energ\u00e9ticas e estrat\u00e9gicas com China e R\u00fassia, o que representa um al\u00edvio econ\u00f4mico para o Ir\u00e3, uma forma de conseguir estabelecer alguns pontos de resili\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as grandes pot\u00eancias que est\u00e3o dentro do marco da pol\u00edtica externa de olhar para o Leste. H\u00e1 alguns estudos interessantes sobre as rela\u00e7\u00f5es que o pa\u00eds tem estabelecido com Cuba e Venezuela, por exemplo. No caso da Venezuela, no setor petrol\u00edfero, e no caso de Cuba, no setor farmac\u00eautico. O desenvolvimento e distribui\u00e7\u00e3o de vacinas contra a covid-19, por exemplo, durante a pandemia, foram bem importantes. Ent\u00e3o, s\u00e3o pequenas estrat\u00e9gias de investimento em desenvolvimento interno que os iranianos t\u00eam buscado desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 1979.<\/p>\n<p>Do ponto de vista das rela\u00e7\u00f5es externas, essas duas grandes pot\u00eancias, R\u00fassia e China, t\u00eam sido alternativas para o Ir\u00e3 se posicionar nessas mudan\u00e7as mais estruturais da ordem internacional, que tem caminhado para o que alguns chamam de multipolaridade, com outros polos de poder estrat\u00e9gico ao redor do mundo. As monarquias do Golfo tamb\u00e9m buscam essa diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias, n\u00e3o necessariamente se alinhando pol\u00edtica e militarmente. Isso vai explicar o porqu\u00ea de a China ter conseguido, por exemplo, mediar o acordo de normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre Ir\u00e3 e Ar\u00e1bia Saudita em 2023, que eram dois grandes inimigos regionais.<\/p>\n<p>O I\u00eamen se tornou um territ\u00f3rio de disputa muito importante, com o apoio do Ir\u00e3 aos Houthis e a interven\u00e7\u00e3o da Ar\u00e1bia Saudita na regi\u00e3o. Na \u00e9poca, alguns autores chamavam aquilo de Nova Guerra Fria no Oriente M\u00e9dio, que n\u00e3o era entre \u00e1rabes do bloco \u201cmoderado\u201d (as monarquias) e os \u00e1rabes do movimento nacionalista encabe\u00e7ado por Nasser do Egito. No contexto das revoltas \u00e1rabes, essa nova Guerra Fria se deu entre a Ar\u00e1bia Saudita e o Ir\u00e3, sobretudo na S\u00edria e no I\u00eamen. Isso deixou de ser uma realidade desde os anos 2020. Foi poss\u00edvel tamb\u00e9m a partir de uma vis\u00e3o da Ar\u00e1bia Saudita de que n\u00e3o era estrat\u00e9gico se vincular apenas aos Estados Unidos, porque agora a China \u00e9 o grande parceiro comercial de v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos e outros pa\u00edses do entorno t\u00eam tentado navegar nessa disputa entre as grandes pot\u00eancias e tirar benef\u00edcios pr\u00f3prios. A R\u00fassia tamb\u00e9m busca se beneficiar. O pa\u00eds est\u00e1 sofrendo san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia e houve uma press\u00e3o para que a Ar\u00e1bia Saudita e os pa\u00edses do Golfo aderissem a essa campanha de san\u00e7\u00f5es, mas eles n\u00e3o aderiram porque t\u00eam boas parcerias comerciais com os russos, inclusive no campo energ\u00e9tico. Foi por conta das san\u00e7\u00f5es que esses pa\u00edses conseguiram diversificar essas parcerias. Assim como o Ir\u00e3, que se aproximou da China n\u00e3o apesar das san\u00e7\u00f5es, mas por causa delas.<\/p>\n<h3><strong>Direitos e democracia<\/strong><\/h3>\n<p>Algumas narrativas em torno do que tem acontecido no Ir\u00e3 t\u00eam adotado a chave da democracia liberal, da democracia de mercado, o que aconteceu na Primavera \u00c1rabe tamb\u00e9m. N\u00e3o posso afirmar, com certeza, se tem algum elemento geracional ou n\u00e3o, mas as narrativas que vejo por parte do Ocidente, principalmente de algumas feministas liberais, t\u00eam trazido um pouco essa quest\u00e3o dos direitos das mulheres, que supostamente s\u00f3 seriam garantidos numa democracia.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a democracia que se pretende instalar no Ir\u00e3, por parte do Ocidente, n\u00e3o \u00e9 uma democracia verdadeira. Seriam solu\u00e7\u00f5es trazidas de fora, como no caso do Egito, que hoje \u00e9 uma ditadura. N\u00e3o tem ningu\u00e9m conversando com essas mulheres iranianas <em>in loco<\/em>, perguntando quais s\u00e3o as suas demandas. E h\u00e1 um sil\u00eancio em rela\u00e7\u00e3o aos direitos das mulheres palestinas, por exemplo, m\u00e3es palestinas que t\u00eam sido assassinadas constantemente, as que n\u00e3o conseguem ter filhos em meio \u00e0 guerra, os beb\u00eas que morrem de fome\u2026 Enfim, \u00e9 uma como\u00e7\u00e3o seletiva que de novo faz parte dessa mentalidade orientalista que temos muito aqui no Ocidente. As mulheres iranianas n\u00e3o precisam de uma salva\u00e7\u00e3o que venha do Ocidente, elas mesmas podem criar as suas organiza\u00e7\u00f5es e t\u00eam criado essas organiza\u00e7\u00f5es de direitos das mulheres, os protestos de 2022 s\u00e3o um pouco reflexo disso. Acho que \u00e9 nossa fun\u00e7\u00e3o ficar atenta ao que essas narrativas podem gerar, mesmo que essa n\u00e3o seja a inten\u00e7\u00e3o, mas o resultado pode ser outro.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, contribua com um PIX para <strong>outrosquinhentos@outraspalavras.net<\/strong> e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico.<\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post A disputa real por tr\u00e1s dos protestos no Ir\u00e3 appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2026\/10\/flavio-bolsonaro-reuniu-vorcaro-dia-governo-compra-banco-master-brb.html\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/flavio-bolsonaro-reuniu-vorcaro-dia-governo-compra-banco-master-brb.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fl\u00e1vio se reuniu com Vorcaro em dia decisivo para ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/marinheiros-tentam-pular-de-porta-avioes-dos-eua-apos-recorde-de-260-dias-no-mar\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Marinheiros tentam pular de porta-avi\u00f5es dos EUA a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/inteligencia-artificial-entenda-as-propostas-de-regulamentacao-no-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Intelig\u00eancia Artificial: entenda as propostas de r...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/politica\/2026\/07\/moraes-da-48-horas-para-bolsonaro-informar-se-autorizou-video-com-ia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Moraes d\u00e1 48 horas para Bolsonaro informar se auto...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alta do custo de vida foi o estopim das manifesta\u00e7\u00f5es. EUA e Israel tentam dirigi-las para a \u201cmudan\u00e7a de regime\u201d. Esta ousadia pode ser seu ponto fraco: popula\u00e7\u00e3o rejeita interfer\u00eancia externa. Regime age para enfrentar as san\u00e7\u00f5es, mas resultados ainda s\u00e3o limitados<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/a-disputa-real-por-tras-dos-protestos-no-ira\/\">A disputa real por tr\u00e1s dos protestos no Ir\u00e3<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":70504,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[8255,1023,394,5700,33412,41,25,8849,238,33413],"tags":[],"class_list":["post-70503","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ali-khamenei","category-donald-trump","category-estados-unidos","category-geopolitica-guerra","category-guerra-politica","category-ira","category-israel","category-masoud-pezeshkian","category-oriente-medio","category-reza-pahlavi"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=70503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/70503\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/70504"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=70503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=70503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=70503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}