{"id":71466,"date":"2026-01-22T17:52:57","date_gmt":"2026-01-22T20:52:57","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/grok-tire-a-roupa-dela-ecossistema-de-violencia-dos-deepfakes\/"},"modified":"2026-01-22T17:52:57","modified_gmt":"2026-01-22T20:52:57","slug":"grok-tire-a-roupa-dela-ecossistema-de-violencia-dos-deepfakes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/grok-tire-a-roupa-dela-ecossistema-de-violencia-dos-deepfakes\/","title":{"rendered":"Grok, \u2018Tire a roupa dela\u2019: ecossistema de viol\u00eancia dos deepfakes"},"content":{"rendered":"<p>Basta um comando: \u201cTire a roupa dela\u201d. Em menos de 5 segundos, a intelig\u00eancia artificial Grok \u2014 integrada ao X desde 2024, a rede social de Elon Musk, antes conhecida como Twitter \u2014 transforma uma foto comum em conte\u00fado \u00edntimo que nunca existiu.<\/p>\n<p>N\u00f3s testamos a ferramenta dispon\u00edvel para usu\u00e1rios da plataforma, e o resultado \u00e9 assustador. A partir da imagem de uma pessoa vestida, o sistema gerou vers\u00f5es ultrarrealistas que mostram a mesma pessoa de suti\u00e3, nua, ou com apar\u00eancia mais jovem.<\/p>\n<p>O processo de manipula\u00e7\u00e3o acontece sem aviso. Sem restri\u00e7\u00e3o. Sem modera\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia da reportagem se deu ap\u00f3s mulheres denunciarem a cria\u00e7\u00e3o facilitada de deepfakes \u2014 conte\u00fados de m\u00eddia manipulados por IA \u2014 pornogr\u00e1ficos, ou deepnudes, na rede social.<\/p>\n<p>Em apenas um dia de monitoramento (5 a 6 de janeiro), o Grok gerou cerca de 6.700 posts por hora com imagens sexualizadas no X \u2014 85 vezes mais do que o registrado no mesmo per\u00edodo em outras cinco plataformas de IA generativa, que somadas produziram 79 publica\u00e7\u00f5es por hora, segundo a consultora Genevieve Oh.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a repercuss\u00e3o negativa, Musk anunciou na quarta-feira (14) que restringiu a capacidade do Grok de \u201cgerar imagens de pessoa de biqu\u00edni, roupas \u00edntimas ou semelhantes\u201d em pa\u00edses onde isso \u00e9 considerado ilegal.<\/p>\n<p>Um dia depois, na quinta (15), o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) protocolou uma den\u00fancia na Autoridade Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (ANPD), apontando poss\u00edveis infra\u00e7\u00f5es \u00e0 Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (LGPD) relacionadas ao uso indevido de dados pessoais na cria\u00e7\u00e3o de deepfakes e de imagens sexualizadas sem o consentimento dos titulares.<\/p>\n<p>Nesta ter\u00e7a, 20.jan, MPF, ANPD e Senacon recomendaram ao X a ado\u00e7\u00e3o de medidas imediatas para impedir o uso do Grok na cria\u00e7\u00e3o de deepfakes com imagens de pessoas reais, especialmente mulheres, crian\u00e7as e adolescentes. As institui\u00e7\u00f5es pedem bloqueio de novas gera\u00e7\u00f5es, remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fados j\u00e1 publicados, suspens\u00e3o de contas envolvidas e cria\u00e7\u00e3o de mecanismos eficazes de den\u00fancia. O descumprimento pode levar a medidas administrativas e judiciais.<\/p>\n<p>O caso repercutiu e gerou investiga\u00e7\u00f5es em diversos pa\u00edses. Mas especialistas e v\u00edtimas ouvidas pela reportagem s\u00e3o un\u00e2nimes: o Grok exp\u00f4s um problema muito mais antigo e sistem\u00e1tico.<\/p>\n<h2><strong>Tributes, deepfakes e um ecossistema de terror<\/strong><\/h2>\n<p>O terror de Clarice (nome fict\u00edcio), de 26 anos, come\u00e7ou enquanto fazia as compras de Natal, em dezembro de 2023. No mercado, seu celular vibrou com uma notifica\u00e7\u00e3o de mensagem do Facebook. Ao abrir, um v\u00eddeo de um homem se masturbando enquanto olhava para uma foto comum que ela havia postado nas redes sociais.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica tem nome nos f\u00f3runs masculinistas: tribute (tributo, em tradu\u00e7\u00e3o livre). \u201cPegam uma foto normal e fazem um v\u00eddeo se masturbando. A minha foto estava no notebook dele. Ele filmou isso e me mandou\u201d, relembra Clarice. Semanas depois, recebeu outra mensagem similar.<\/p>\n<p>Meses se passaram sem novos incidentes. At\u00e9 que, em maio de 2024, come\u00e7ou a receber pelo WhatsApp mensagens de n\u00fameros estrangeiros \u2014 sempre de madrugada. Desta vez, n\u00e3o eram apenas tributes. Eram v\u00eddeos dela, em contextos sexualizados, criados com intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>A facilidade em criar os deepfakes era tamanha que \u201ceu postava uma foto no Instagram e [em instantes] ele [o agressor] me mandava a foto que eu tinha postado. Eu ficava: \u2018Meu Deus do c\u00e9u, essa pessoa t\u00e1 me perseguindo&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>A inseguran\u00e7a digital teve contornos f\u00edsicos: \u201cmeu marido sa\u00eda para trabalhar \u00e0s 6 horas da manh\u00e3, eu voltava para o nosso quarto e ficava l\u00e1 trancada o m\u00e1ximo de tempo que conseguia. S\u00f3 sa\u00eda para usar o banheiro e para comer.\u201d<\/p>\n<h2><strong>Como a IA tornou tudo mais f\u00e1cil<\/strong><\/h2>\n<p>Para Alice Lana, advogada, pesquisadora e autora dos livros \u201cNudez na Internet: corpo, g\u00eanero e direito\u201d e \u201cMulheres Expostas: revenge porn, G\u00eanero e o Marco Civil da Internet\u201d, \u201cdesde que come\u00e7aram a existir ferramentas de edi\u00e7\u00e3o de imagem como o Photoshop, esse tipo de pr\u00e1tica j\u00e1 existe\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que a IA fez foi facilitar \u2014 diminuir os degraus, a fric\u00e7\u00e3o. E parece que \u00e9 pouco, s\u00f3 facilitar, mas n\u00e3o \u00e9\u201d, alerta. O que antes exigia conhecimento t\u00e9cnico e horas de trabalho, hoje leva segundos e est\u00e1 ao alcance de qualquer pessoa disposta a pagar uma assinatura mensal.<\/p>\n<p>No caso de Clarice, a demonstra\u00e7\u00e3o de poder foi literal. Ela descobriria mais tarde que os deepfakes faziam parte de um ecossistema organizado que envolvia Twitter (atual X), Telegram e at\u00e9 sites pornogr\u00e1ficos especializados em hospedar conte\u00fado manipulado.<\/p>\n<p>\u201cNo Twitter existem muitos perfis dedicados a isso. O perfil que usavam para compartilhar minhas fotos se chamava \u2018C_Tribute&#8217;\u201d, conta Clarice, referindo-se \u00e0 inicial de seu nome verdadeiro seguida da palavra tribute. \u201cEra espec\u00edfico para mim.\u201d<\/p>\n<p>Esses perfis funcionam como vitrines que redirecionam para grupos no Telegram onde h\u00e1, tamb\u00e9m, um esquema de distribui\u00e7\u00e3o paga. No caso de Clarice, \u201cele criava as fotos, pagava para que os caras fizessem [o tribute] e me mandassem\u201d, explica.<\/p>\n<p>A cada mensagem recebida, Clarice abria um boletim de ocorr\u00eancia. No total, foram mais de 15 registros e mais de 40 n\u00fameros bloqueados. \u201cEu me senti muito invadida. Senti como se algu\u00e9m tivesse me vendido\u201d, resume.<\/p>\n<p>Ao N\u00facleo, a assessoria do Telegram disse que \u201ca distribui\u00e7\u00e3o de pornografia n\u00e3o consensual \u00e9 expressamente proibida pelos termos de servi\u00e7o do Telegram e esse tipo de conte\u00fado \u00e9 rotineiramente removido sempre que detectado\u201d.<\/p>\n<div data-initially-open=\"false\" data-click-to-close=\"true\" data-auto-close=\"true\" data-scroll=\"false\" data-scroll-offset=\"0\">\n<h2 role=\"button\">Veja a resposta na \u00edntegra do Telegram<\/h2>\n<div>\n<p>Se voc\u00ea tiver conhecimento de algum chat que distribua pornografia n\u00e3o consensual, agradeceria muito se voc\u00ea pudesse compartilhar os links para que os moderadores possam investigar.<\/p>\n<p>Por favor, sinta-se \u00e0 vontade para usar tamb\u00e9m este posicionamento:<\/p>\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o de pornografia n\u00e3o consensual \u00e9 expressamente proibida pelos termos de servi\u00e7o do Telegram e esse tipo de conte\u00fado \u00e9 rotineiramente removido sempre que detectado. Moderadores, com o aux\u00edlio de ferramentas de IA personalizadas, monitoram proativamente as \u00e1reas p\u00fablicas da plataforma e aceitam den\u00fancias para remover milh\u00f5es de conte\u00fados diariamente que violam nossos termos de servi\u00e7o, incluindo pornografia n\u00e3o consensual.<\/p>\n<p>Desde 2018, o Telegram tem sido capaz de divulgar os endere\u00e7os IP e n\u00fameros de telefone de criminosos em resposta a solicita\u00e7\u00f5es legais v\u00e1lidas, o que auxilia as investiga\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n<p>Estat\u00edsticas di\u00e1rias e mais informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o dispon\u00edveis aqui.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A reportagem tamb\u00e9m tentou contato com o X, mas a empresa n\u00e3o tem mais assessoria de imprensa. Elon Musk tem se manifestado sobre o tema pelo pr\u00f3prio perfil na rede.<\/p>\n<h2><strong>Meu rosto em outro corpo<\/strong><\/h2>\n<p>Em outubro de 2024, J\u00falia (nome fict\u00edcio) percebeu um movimento at\u00edpico na sua conta do Instagram: uma enxurrada de novos seguidores homens. N\u00e3o havia raz\u00e3o aparente para aquilo, j\u00e1 que utiliza as redes para divulgar o pr\u00f3prio trabalho como corretora de im\u00f3veis, falar sobre viagens e produtos de beleza.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um deles \u201cvirou para mim e falou: \u2018olha, est\u00e3o divulgando essas imagens aqui e associando a voc\u00ea no Telegram\u2019, s\u00f3 que \u00e9 n\u00edtido que n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea&#8217;\u201d, relembra J\u00falia.<\/p>\n<p>O que viu foi assustador: fotos com seu rosto, mas em contextos que ela nunca viveu. Com um corpo que n\u00e3o era o seu, em poses que tamb\u00e9m n\u00e3o eram as suas. Eram \u201cimagens de uma viagem que fiz e, com IA, atribu\u00eda a cenas pornogr\u00e1ficas em v\u00eddeo, al\u00e9m de pegar v\u00eddeos de outras mulheres cacheadas e associar a mim\u201d. Junto do conte\u00fado, inseriam o TikTok e Instagram de J\u00falia.<\/p>\n<p>Os ataques seguiram dia ap\u00f3s dia e quando \u201ca pessoa viu que eu n\u00e3o fechei as redes sociais, que eu n\u00e3o fingi que nada estava acontecendo, come\u00e7ou a divulgar o meu n\u00famero de telefone. E a\u00ed eu descobri que fez uma conta no Tinder com o meu n\u00famero e tava l\u00e1 tamb\u00e9m divulgando essas fotos\u201d.<\/p>\n<p>J\u00falia tentou buscar ajuda na Delegacia de Repress\u00e3o a Crimes de Inform\u00e1tica (DRCI) do Rio de Janeiro, acompanhada de um advogado, mas \u201celes me falaram que n\u00e3o poderiam fazer nada, que era s\u00f3 mais um caso, que do jeito que eu levei os prints, n\u00e3o dava para rastrear e que eles n\u00e3o faziam o boletim de ocorr\u00eancia l\u00e1\u201d, lembra.<\/p>\n<p>\u201cE a\u00ed \u00e9 onde entra o questionamento, n\u00e9. Se a delegacia que \u00e9 especializada em crime digital n\u00e3o pode ajudar uma mulher que est\u00e1 passando por uma situa\u00e7\u00e3o dessa, o que eu fa\u00e7o?\u201d, questiona.<\/p>\n<div>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69728fac953fb\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69728fac953fb\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<\/div>\n<h2><strong>O direito rasteja, a tecnologia corre<\/strong><\/h2>\n<p>Na legisla\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o h\u00e1 uma lei destinada, literalmente, \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o de imagens com uso de intelig\u00eancia artificial, explica Alice Lana. \u201cMas n\u00f3s temos dois artigos [no C\u00f3digo Penal]: o 216-B e o 218-C. O 216-B no par\u00e1grafo \u00fanico fala explicitamente de montagem e manipula\u00e7\u00e3o de imagem. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos, sim, no direito base legal suficiente para a pessoa atingida ir numa delegacia e fazer um boletim de ocorr\u00eancia\u201d, esclarece.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Al\u00e9m da delegacia, Alice recomenda que as v\u00edtimas abram den\u00fancia na Safernet, institui\u00e7\u00e3o que trabalha com esses casos, processem pela viola\u00e7\u00e3o do direito de imagem pelo C\u00f3digo Civil e usem a Lei de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (LGPD) a seu favor.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u201c\u00c9 tenebroso, porque a gente tem prote\u00e7\u00f5es no direito brasileiro, n\u00e3o s\u00f3 no direito penal, mas na pr\u00f3pria LGPD, no pr\u00f3prio C\u00f3digo Civil. Teoricamente, as pessoas n\u00e3o deveriam poder fazer isso com a nossa imagem. Mas o direito rasteja e a tecnologia corre\u201d, lamenta. \u201cE nas quest\u00f5es de viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 ainda pior\u201d.<\/p>\n<p>As deepfakes atribu\u00eddas \u00e0 J\u00falia foram, al\u00e9m de uma viol\u00eancia digital, uma agress\u00e3o psicol\u00f3gica. \u201cFoi muito delicado porque fui v\u00edtima de um estupro quando eu tinha 14 anos de idade. Isso come\u00e7ou a me gerar um pavor muito grande, um medo muito grande\u201d, conta. \u201cA minha vida simplesmente parou. Simplesmente parou. Eu fiquei numa situa\u00e7\u00e3o de choque\u201d, relembra J\u00falia.<\/p>\n<p>\u201cA minha grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que um homem que tenha visto esses v\u00eddeos me reconhe\u00e7a na rua e ache que tem direito de fazer qualquer coisa comigo. Como se as imagens fossem um convite para viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<h2><strong>\u201cSer\u00e1 que a culpa \u00e9 minha?\u201d<\/strong><\/h2>\n<p>A primeira vez que a influenciadora conhecida como Duda Irmazinha tentou contato com a Pol\u00edcia Civil para denunciar crimes online foi em 2023, aos 17 anos. Na \u00e9poca, ela postava v\u00eddeos na internet sobre anime, lifestyle e sua rotina na Espanha, pa\u00eds para o qual tinha acabado de se mudar. Seu sonho era trabalhar com a internet.<\/p>\n<p>O conte\u00fado era leve, cotidiano. At\u00e9 que um seguidor a alertou: imagens manipuladas por intelig\u00eancia artificial, que a mostravam nua, estavam sendo divulgadas em grupos do Telegram e perfis no Twitter.<\/p>\n<p>Primeiro, buscou a Pol\u00edcia da Espanha, que a orientou a registrar a viol\u00eancia no Brasil, j\u00e1 que os usu\u00e1rios do grupo eram brasileiros. Ent\u00e3o, procurou o Departamento Estadual de Repress\u00e3o aos Crimes Cibern\u00e9ticos (DERCC) de Curitiba, onde morava.<\/p>\n<p>\u201cFalei o que estava acontecendo, que pegaram as fotos das minhas redes sociais, que colocaram intelig\u00eancia artificial nessas fotos. E isso foi o que mais me abalou. A senhora falou: \u2018Mas por que voc\u00ea postou essas fotos?&#8217;\u201d.<\/p>\n<p>A conversa entre Duda e a policial se encerrou de forma condenat\u00f3ria: \u201ca mo\u00e7a falou que n\u00e3o podia fazer nada e que era para eu falar com a pessoa que eu tinha mandado as fotos e que eu devia apagar as redes sociais, porque s\u00f3 assim para me sentir segura\u201d. Na foto original, Lisa vestia moletom.<\/p>\n<p>\u201cEu me senti suja. Como [as imagens] eram muito realistas, eu fiquei me perguntando: como algu\u00e9m pode me ver assim na internet? Eu sofri muito, fiquei muito abalada\u201d. A falta de rede de apoio gerou a pergunta mais \u00f3bvia e cruel experimentada pelas v\u00edtimas de viol\u00eancia: \u201cEu pensava: ser\u00e1 que a culpa \u00e9 minha de ter acontecido isso?\u201d.<\/p>\n<h2><strong>Viol\u00eancia de g\u00eanero, n\u00e3o um bug tecnol\u00f3gico<\/strong><\/h2>\n<p>Para Marcelle Chagas, pesquisadora da Mozilla Foundation \u00e0 frente da Rede de Prote\u00e7\u00e3o Digital para Comunicadoras Negras na Am\u00e9rica Latina (REPCONE), o que Clarice, J\u00falia e Duda viveram \u00e9 viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Ela refor\u00e7a que \u201cessa viol\u00eancia permaneceu invisibilizada porque por muito tempo foi tratada como algo \u2018menor\u2019, restrito ao ambiente digital, e n\u00e3o como uma forma concreta de viol\u00eancia de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>Para Alice Lana, a ferramenta em si n\u00e3o \u00e9 inerentemente violenta \u2014 a viol\u00eancia emerge numa sociedade que coloca mulheres, sua sexualidade e seus corpos em posi\u00e7\u00e3o subalterna. Trata-se de mais uma manifesta\u00e7\u00e3o de uma trajet\u00f3ria longa de formas de controle do corpo feminino.<\/p>\n<p>\u201cAssim como em guerra as mulheres s\u00e3o estupradas, talvez na internet mulheres sejam despidas por um sistema de IA. O racioc\u00ednio por tr\u00e1s \u00e9 o mesmo. E por isso eu bato muito na tecla da import\u00e2ncia da gente chamar isso de viol\u00eancia de g\u00eanero\u201d, afirma.<\/p>\n<p>As motiva\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s desses ataques, segundo Alice, raramente s\u00e3o sexuais. \u201cCom frequ\u00eancia \u00e9 pela humilha\u00e7\u00e3o, pela piada, pela demonstra\u00e7\u00e3o de poder\u201d, explica.<\/p>\n<p>Na tentativa de reunir mais provas e se fazer acreditar, Duda acessou os grupos do Telegram em que suas imagens foram divulgadas. L\u00e1, encontrou o rosto de v\u00e1rias amigas tamb\u00e9m atribu\u00eddos a fotos e v\u00eddeos com conte\u00fados sexuais.<\/p>\n<p>\u201cEntrei em contato com todas essas influenciadoras e tamb\u00e9m me chocou que elas falaram: \u2018Isso j\u00e1 aconteceu antes, eu j\u00e1 abri BO, j\u00e1 processei e n\u00e3o aconteceu nada, porque n\u00e3o tem nenhuma lei exatamente para isso&#8217;\u201d, conta.<\/p>\n<p>Duda entendeu o que diziam as amigas. Nos anos seguintes, perdeu a conta de quantas vezes foi v\u00edtima de deepfake. Viveu tudo sabendo que \u201cn\u00e3o ia acontecer nada, a pol\u00edcia n\u00e3o ia fazer nada e isso ia seguir assim. E para eu chamar a pol\u00edcia cibern\u00e9tica e falar que a culpa \u00e9 minha de novo, eu preferi n\u00e3o chamar\u201d.<\/p>\n<p>Embora suas amigas virtuais acumulem den\u00fancias de deepfake, Duda nunca viu isso acontecer com um amigo homem. \u201cO que eu j\u00e1 vi no Twitter \u00e9 foto do Neymar de sunga, coisas assim que s\u00e3o para ser engra\u00e7ado, n\u00e3o como um objeto sexual. Para mulheres \u00e9 viol\u00eancia sexual. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa\u201d, observa.<\/p>\n<h2><strong>A descoberta e a impunidade<\/strong><\/h2>\n<p>O caso de Clarice ilustra de forma devastadora como essa viol\u00eancia opera \u2014 e como o sistema falha em proteger as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s anos de terror e investiga\u00e7\u00e3o, Clarice finalmente descobriu quem estava por tr\u00e1s de tudo: um irm\u00e3o de considera\u00e7\u00e3o que ela conhecia h\u00e1 mais de 10 anos. Algu\u00e9m que cresceu com ela, que tinha livre acesso \u00e0 sua casa, que participava das festas de fam\u00edlia, que foi padrinho no seu casamento.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia levou dois meses entre a den\u00fancia formal, feita em setembro de 2024, e a apreens\u00e3o dos aparelhos eletr\u00f4nicos dele, em novembro. Quando foi at\u00e9 a delegacia prestar depoimento, negou tudo. O processo segue na Justi\u00e7a e ele continua livre.<\/p>\n<p>\u201cSei que n\u00e3o vou estar segura nunca mais. Enquanto ele n\u00e3o for preso \u2014 se \u00e9 que vai ser preso \u2014 n\u00e3o consigo ter a menor seguran\u00e7a\u201d, diz Clarice. \u201cMinhas fotos j\u00e1 foram compartilhadas, tem muita foto baixada. Os caras imprimiam as fotos. Ele simplesmente n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica pessoa que tem isso. Qual garantia eu tenho que nunca mais vou receber isso?\u201d<\/p>\n<h2><strong>Grok: visibilidade for\u00e7ada de um problema antigo<\/strong><\/h2>\n<p>Para Marcelle Chagas, \u201co caso do Grok deu visibilidade global, mas n\u00e3o inaugurou o problema. Mulheres \u2014 especialmente comunicadoras, jornalistas, pesquisadoras e ativistas \u2014 j\u00e1 enfrentam h\u00e1 anos a produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de imagens sexualizadas n\u00e3o consensuais, montagens e deepfakes como forma de silenciamento, intimida\u00e7\u00e3o e deslegitima\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisadora cita dados da ONU Mulheres que mostram que a viol\u00eancia digital \u00e9 uma extens\u00e3o direta da viol\u00eancia de g\u00eanero: segundo a organiza\u00e7\u00e3o, mais de 70% das mulheres que atuam publicamente (jornalistas, pol\u00edticas, defensoras de direitos humanos) j\u00e1 sofreram algum tipo de viol\u00eancia online, e a sexualiza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e a manipula\u00e7\u00e3o de imagens est\u00e3o entre as formas mais comuns e mais danosas.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rios da ONU indicam ainda que mulheres s\u00e3o 27 vezes mais propensas que homens a serem atacadas com conte\u00fados sexualizados e campanhas de humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cOu seja, a tecnologia de IA n\u00e3o criou essa viol\u00eancia \u2014 ela a tornou mais barata, mais r\u00e1pida, mais realista e mais escal\u00e1vel. O que antes exigia edi\u00e7\u00e3o manual agora pode ser feito em segundos, ampliando o alcance e o impacto de forma mais sofisticada\u201d, observa Marcelle.<\/p>\n<p>O que torna o caso do Grok particularmente grave \u00e9 sua integra\u00e7\u00e3o a uma rede social massiva como o X. \u201cOutros aplicativos tamb\u00e9m permitem, mas quando est\u00e1 dentro de uma rede social, a dissemina\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 ali. \u00c9 ainda mais grave que a ferramenta que \u2018s\u00f3\u2019 permite a cria\u00e7\u00e3o das imagens, que j\u00e1 deveria ser algo horr\u00edvel. Mas quando est\u00e1 dentro de uma rede social, o quadro fica ainda pior\u201d, analisa Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um aplicativo isolado, o usu\u00e1rio precisa criar a imagem, depois encontrar meios para divulg\u00e1-la. Em uma rede social, ambas as a\u00e7\u00f5es acontecem no mesmo espa\u00e7o, com apenas alguns cliques de dist\u00e2ncia. A facilita\u00e7\u00e3o \u00e9 exponencial.<\/p>\n<h2><strong>O X, Elon Musk e a marcha r\u00e9 dos direitos humanos<\/strong><\/h2>\n<p>A postura do X sob o comando de Elon Musk agrava o cen\u00e1rio. Alice defende que \u00e9 necess\u00e1rio existir uma rela\u00e7\u00e3o entre setor privado e governo, para que este possa dizer \u00e0 empresa \u201cisso aqui est\u00e1 violando, retire isso\u201d e a empresa possa responder em tempo h\u00e1bil.<\/p>\n<p>\u201cAo mesmo tempo, \u00e9 importante proteger os dados dos usu\u00e1rios, principalmente quando a gente pensa em casos de governos autorit\u00e1rios em outros pa\u00edses, e garantir que nem tudo que est\u00e1 ali na plataforma pertence ao poder p\u00fablico\u201d, pondera.<\/p>\n<p>A advogada observa, contudo, que h\u00e1 empresas que s\u00e3o assumidamente e orgulhosamente contra um bom relacionamento com o poder judici\u00e1rio e o governo de v\u00e1rios pa\u00edses. O X \u00e9 um exemplo enorme disso.<\/p>\n<p>\u201cQuando foi comprado pelo Elon Musk, ele se vangloriou de tirar v\u00e1rios controles, demitiu quase toda equipe do Twitter do Brasil e de v\u00e1rios outros pa\u00edses, deixou muito enxuto. Justamente no movimento de colocar para fora todas essas quest\u00f5es que para n\u00f3s s\u00e3o muito caras, de cuidados de direitos humanos. A gente v\u00ea o mundo da tecnologia dando marcha r\u00e9 nesse sentido em algumas empresas, o que \u00e9 muito assustador, muito preocupante e d\u00e1 resultados como os que a gente est\u00e1 vendo hoje\u201d, afirma.<\/p>\n<p>No Brasil, o arcabou\u00e7o jur\u00eddico para responsabilizar plataformas est\u00e1 se formando. Com a decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal sobre o Marco Civil da Internet \u2014 que ainda n\u00e3o est\u00e1 em vigor devido a embargos de declara\u00e7\u00e3o \u2014, mudou a regra geral de responsabiliza\u00e7\u00e3o: as empresas t\u00eam, sim, a responsabilidade de tirar conte\u00fado violador assim que forem notificadas \u2014 e, a depender do conte\u00fado, mesmo antes de notifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Arthur Igreja, a gravidade do caso do Grok \u00e9 incontest\u00e1vel, e \u201cn\u00e3o d\u00e1 para encontrar alguma argumenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de que a empresa n\u00e3o tem responsabilidade ou n\u00e3o deveria ter\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Sobre a autorregula\u00e7\u00e3o adotada pelas big techs como modelo de governan\u00e7a, Arthur \u00e9 categ\u00f3rico: \u201cA autorregula\u00e7\u00e3o nunca funcionou em nenhum segmento e n\u00e3o vai funcionar nesse caso, n\u00e3o tem a menor chance. \u00c9 acreditar que a moral e a \u00e9tica v\u00e3o ser definidas por uma empresa que tem todos os interesses\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o problema persiste \u2014 e para mulheres como Clarice, J\u00falia e Lisa, o dano j\u00e1 est\u00e1 feito.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/reservistas-israelenses-evitam-cada-vez-mais-o-servico-militar-em-meio-a-fadiga-da-guerra-diz-midia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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