{"id":71498,"date":"2026-01-22T17:52:54","date_gmt":"2026-01-22T20:52:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-conhecer-a-obra-bernard-stiegler\/"},"modified":"2026-01-22T17:52:54","modified_gmt":"2026-01-22T20:52:54","slug":"para-conhecer-a-obra-bernard-stiegler","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-conhecer-a-obra-bernard-stiegler\/","title":{"rendered":"Para conhecer a obra Bernard Stiegler"},"content":{"rendered":"<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5159101788563639242_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5159101788563639242_x.jpg 600w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5159101788563639242_x-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5159101788563639242_x-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\"><figcaption><em><strong>Bernard Stiegler<\/strong>. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h3><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O novo livro de Anne Alombert, <em>Penser avec Bernard Stiegler<\/em> (Pensar com Bernard Stiegler), tem como objetivo apresentar ao leitor a obra deste fil\u00f3sofo franc\u00eas que renunciou \u00e0 ideia de criar uma filosofia pr\u00f3pria. Embora ainda n\u00e3o publicado no Brasil ou em l\u00edngua portuguesa, esta obra representa uma importante contribui\u00e7\u00e3o para pensarmos criticamente o desenvolvimento da t\u00e9cnica, bem como os seus poss\u00edveis destinos face \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o das ecologias. Bernard Stiegler, ainda pouco conhecido no Brasil, pode aportar uma contribui\u00e7\u00e3o efetiva a uma cr\u00edtica \u00e0 economia pol\u00edtica que se apropria da t\u00e9cnica para a expans\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de oferecer aos leitores n\u00e3o familiarizados com o pensamento de Stiegler ferramentas conceituais para explorar seu pensamento de forma contextualizada, Alombert apresenta uma resposta poss\u00edvel aos problemas do meio tecnol\u00f3gico em evolu\u00e7\u00e3o. Esta fase da evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica est\u00e1 impregnada de sonhos coletivos de uma sociedade emancipada pela for\u00e7a dos androides e da \u201cintelig\u00eancia\u201d artificial. Um dos m\u00e9ritos do livro consiste no esfor\u00e7o de libertar a t\u00e9cnica das vis\u00f5es tecn\u00f3fobas ou tecn\u00f3filas, ao mesmo tempo que busca \u201ctratar\u201d (<em>panser<\/em>) esses imagin\u00e1rios de seu potencial desorganizador. Trata-se de um esfor\u00e7o para situar o desenvolvimento das ind\u00fastrias tecnol\u00f3gicas em um quadro hist\u00f3rico e econ\u00f4mico, o que evidencia as escolhas que subjazem aos usos das t\u00e9cnicas como meio de proletariza\u00e7\u00e3o das mentes.<\/p>\n<p>A obra est\u00e1 dividida em cinco partes tem\u00e1ticas, cujos cap\u00edtulos abrangem uma vasta gama de temas, desde aspectos biogr\u00e1ficos da vida de Stiegler at\u00e9 quest\u00f5es relativas ao papel da tecnologia no esgotamento das mentes e dos corpos. As cr\u00edticas e propostas do autor nos campos da economia, do trabalho e da ecologia s\u00e3o desenvolvidas ao longo de todo o livro.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/6Semana-12-18-Parcerias-OP_-Armazem-do-Campo-9.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/6Semana-12-18-Parcerias-OP_-Armazem-do-Campo-9.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/6.Semana-12-18-Parcerias-OP_-Armazem-do-Campo-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>Vida e obra, dimens\u00f5es de uma pr\u00e1xis<\/strong><\/h3>\n<p>A primeira parte da obra fundamenta-se nos trabalhos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos de Stiegler. Alombert apresenta nela as premissas do pensamento do fil\u00f3sofo, ao mesmo tempo que reconstitui as etapas de sua vida que o levaram ao desenvolvimento de uma pr\u00e1tica filos\u00f3fica. Os quatro cap\u00edtulos que comp\u00f5em esta primeira parte s\u00e3o estruturados cronologicamente, come\u00e7ando por sua forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica durante seu encarceramento e concluindo com os momentos que se seguiram \u00e0 sua morte em 2020.<\/p>\n<p>Bernard Stiegler foi preso por um assalto a banco, que ele descreveu como uma passagem ao ato \u2014 em refer\u00eancia ao conceito psicanal\u00edtico em que o sujeito age sem elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u2014, o que lhe permitiu passar ao ato filos\u00f3fico. Em sua tese de doutorado, Stiegler (2018) abordou a quest\u00e3o da tecnologia e seu papel de suporte da mem\u00f3ria, o que modifica a percep\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do tempo no indiv\u00edduo humano. Embora a tecnologia seja um tema recorrente em sua obra, Stiegler n\u00e3o se definia como um fil\u00f3sofo da t\u00e9cnica. Na realidade, como destaca Alombert, Stiegler concentrou-se nos aspectos impensados da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que exigiam uma tomada de \u201ccuidado\u201d (Alombert, 2025, p. 23) por parte do pensamento filos\u00f3fico em nossos tempos.<\/p>\n<p>Stiegler defende que as muta\u00e7\u00f5es das tecnologias digitais abalam nossa percep\u00e7\u00e3o do tempo. Esta transforma\u00e7\u00e3o temporal est\u00e1 circunscrita ao decl\u00ednio das democracias industriais, que ele diagnostica como o resultado de uma tr\u00edplice crise. No plano econ\u00f4mico, h\u00e1 a crise do consumismo degradante; no plano pol\u00edtico, a crise do psicopoder televisivo; e no plano existencial, a crise provocada pela morte do desejo e pela desafei\u00e7\u00e3o do sujeito. Essa \u00faltima tese decorre de sua reinterpreta\u00e7\u00e3o do marxismo a partir da teoria freudiana da libido, a fim de conceber modelos de interven\u00e7\u00e3o concreta para uma nova economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A centralidade dos artefatos t\u00e9cnicos na cr\u00edtica de Stiegler n\u00e3o deslegitima, no entanto, a sua exist\u00eancia. O autor considera que a tecnologia n\u00e3o \u00e9, na realidade, mais do que um bode expiat\u00f3rio para a falta de elabora\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, a qual est\u00e1 inscrita na aliena\u00e7\u00e3o gerada pela decad\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o e da transmiss\u00e3o dos saberes. A solu\u00e7\u00e3o mais apropriada para o problema n\u00e3o reside em nenhum dos polos que guiam o debate sobre a tecnologia \u2014 a tecnofobia e a tecnofilia \u2014, pois ela constitui um <em>Pharmakon<\/em>, termo usado por Derrida (1985) em <em>A farm\u00e1cia de Plat\u00e3o<\/em> para designar, ao mesmo tempo, veneno e rem\u00e9dio, problema e solu\u00e7\u00e3o. O problema das redes sociais, da governamentalidade algor\u00edtmica e do psicopoder n\u00e3o reside nessas tecnologias \u2014 que n\u00e3o s\u00e3o desmaterializadas, como se faz crer \u2014, mas na maneira como s\u00e3o utilizadas em uma din\u00e2mica de entropia das mentes. Nesse sentido, as novas t\u00e9cnicas digitais n\u00e3o diferem qualitativamente das antigas, como a escrita, o cinema, a r\u00e1dio e a televis\u00e3o. Elas diferem quantitativamente na medida em que captam mais intensamente o potencial de reflex\u00e3o e de cr\u00edtica do sujeito.<\/p>\n<p>Na segunda parte do livro, Alombert continua a explorar o pensamento de Stiegler sobre o papel constitutivo da tecnologia na mem\u00f3ria e na forma\u00e7\u00e3o humanas. O autor defende que, primitivamente, os objetos t\u00e9cnicos n\u00e3o s\u00e3o fruto de um racioc\u00ednio humano. A inven\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica responde, antes, a uma necessidade de exteriorizar fun\u00e7\u00f5es corporais. O ser humano pode integrar os elementos do seu meio hist\u00f3rico-geogr\u00e1fico e simb\u00f3lico gra\u00e7as ao processo de \u201cexosomatiza\u00e7\u00e3o\u201d (p. 318). Em outras palavras, a tecnologia \u00e9 aquilo atrav\u00e9s do qual os indiv\u00edduos humanos operam uma \u201cgramatiza\u00e7\u00e3o\u201d (p. 126) de suas viv\u00eancias, ou seja, uma materializa\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel a apropria\u00e7\u00e3o e a reinterpreta\u00e7\u00e3o de elementos de uma realidade n\u00e3o experimentada. Os artefatos t\u00e9cnicos guardam, assim, gestos e experi\u00eancias que podem ser vividos a posteriori.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que Stiegler chega \u00e0 sua tese do paradoxo da exterioriza\u00e7\u00e3o, segundo a qual n\u00e3o h\u00e1 interioridade anterior \u00e0 exterioriza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica; o indiv\u00edduo cria-se a si mesmo no momento da inven\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.<\/p>\n<h3><strong>A farmacologia dos objetos t\u00e9cnicos<\/strong><\/h3>\n<p>Alombert prossegue na reconstitui\u00e7\u00e3o de uma tese central presente no pensamento de Stiegler: a dimens\u00e3o farmacol\u00f3gica dos dispositivos de reten\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. Em outras palavras, o que determina as qualidades positivas ou negativas de uma tecnologia n\u00e3o \u00e9 sua ess\u00eancia t\u00e9cnica em si. Para melhor delimitar essa tese, Alombert apresenta seus argumentos dividindo as tecnologias em grupos que correspondem aos tipos de suportes mn\u00e9sicos.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/4Semana-5-1110-Autores-OP_-DowborFinancismo-1-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/4Semana-5-1110-Autores-OP_-DowborFinancismo-1-3.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/4.Semana-5-11.10-Autores-OP_-DowborFinancismo-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A escrita, enquanto tecnologia, j\u00e1 era percebida pelos Antigos com expectativas e temores \u2014 sentimentos que parecem acompanhar o surgimento de cada nova tecnologia. A escrita amplia a capacidade de reten\u00e7\u00e3o mnem\u00f4nica humana por meios hipomn\u00e9sicos (ou seja, enquanto mem\u00f3ria artificial). No entanto, essa \u201cmelhoria\u201d da mem\u00f3ria traz consigo o risco de perda da capacidade de memoriza\u00e7\u00e3o e, mais importante ainda para os Antigos, o de ver a escrita se transformar em um instrumento de charlatanismo sofista.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica deu origem \u00e0s tecnologias anal\u00f3gicas, das quais a fotografia \u00e9 um representante not\u00e1vel, amplamente estudada por autores como Benjamin e Barthes. Enquanto tecnologia farmacol\u00f3gica, a fotografia representa igualmente um suporte de individua\u00e7\u00e3o e, pelo acesso ao passado a posteriori, apresenta, contudo, o risco de suplantar a capacidade de reten\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria humana. Da mesma forma, a fonografia \u00e9 outra tecnologia de reten\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica que, ao suprimir a exclusividade dos m\u00fasicos na produ\u00e7\u00e3o fonogr\u00e1fica, aporta consigo potencial democr\u00e1tico. Esse avan\u00e7o tecnol\u00f3gico acarretou a abertura de uma nova divis\u00e3o do trabalho e o estabelecimento de uma ind\u00fastria cultural de massa.<\/p>\n<p>Esse novo mercado cultural inclui a filmografia, tecnologia anal\u00f3gica estudada por Adorno e Horkheimer, que diagnosticaram a sujei\u00e7\u00e3o passiva do indiv\u00edduo cujas faculdades imaginativas s\u00e3o capturadas pelas telas. Apoiando-se no paradoxo da exterioriza\u00e7\u00e3o, Stiegler sustenta que as capacidades imaginativas, todavia, n\u00e3o podem ser apartadas dos indiv\u00edduos, pois j\u00e1 s\u00e3o originariamente alienadas, na medida em que n\u00e3o existem independentemente da materialidade tecnol\u00f3gica. O fator mais determinante para ele, em concord\u00e2ncia com os fil\u00f3sofos cr\u00edticos, \u00e9 a industrializa\u00e7\u00e3o das mentes pela produ\u00e7\u00e3o cultural para fins comerciais. \u00c9 tamb\u00e9m o caso da televis\u00e3o que, ao sincronizar a consci\u00eancia e os eventos mundiais pela simultaneidade do \u201cao vivo\u201d, organiza um encontro das massas e estabelece a primeira forma significativa de psicopoder.<\/p>\n<p>Segundo a an\u00e1lise de Alombert, uma das consequ\u00eancias mais not\u00e1veis do pensamento de Stiegler reside em sua tese de que a mem\u00f3ria depende sempre dos dispositivos que ela inventa. O risco que acompanha o advento das tecnologias n\u00e3o corresponde \u00e0 exist\u00eancia delas, mas \u00e0 aus\u00eancia de saberes que deveriam acompanhar sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>A fun\u00e7\u00e3o humana do trabalho\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>Alombert explora a cr\u00edtica \u00e0 economia pol\u00edtica marxiana realizada por Stiegler, que parte do princ\u00edpio de que o trabalho e a riqueza devem ser repensados. Para o fil\u00f3sofo, a an\u00e1lise econ\u00f4mica marxiana dos processos de industrializa\u00e7\u00e3o e de proletariza\u00e7\u00e3o deve ser atualizada em fun\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias atuais. Stiegler desenvolve o conceito de proletariado para al\u00e9m da posse dos meios de produ\u00e7\u00e3o, crit\u00e9rio que ele julga insuficiente para dar conta dos processos contempor\u00e2neos de proletariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Stiegler, para superar a proletariza\u00e7\u00e3o desta nova fase do capital, \u00e9 preciso criar e desenvolver saberes. O modo de organiza\u00e7\u00e3o social do trabalho, no entanto, entrava a realiza\u00e7\u00e3o deste objetivo. O emprego, enquanto modelo hegem\u00f4nico de produ\u00e7\u00e3o, baseia-se na remunera\u00e7\u00e3o e na cria\u00e7\u00e3o de automatismos no assalariado pela internaliza\u00e7\u00e3o de tarefas, o que contribui para o projeto de proletariza\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos.<\/p>\n<p>O trabalho, ao contr\u00e1rio, corresponde a uma atividade de individua\u00e7\u00e3o, ou seja, de atualiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo mediante a uma atividade viva. Um exemplo proposto por Simondon (2024) e teorizado por Stiegler refere-se \u00e0 atividade do artes\u00e3o, que \u00e9, na realidade, um agente efetivamente trabalhador. Ou seja, o artes\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que se tornou mestre de seu of\u00edcio, desautomatizando os automatismos desenvolvidos no exerc\u00edcio de sua fun\u00e7\u00e3o em proveito da cria\u00e7\u00e3o de saberes \u2014 seja o saber-fazer, o saber-pensar ou o saber-viver. \u00c9 a partir da ideia de trabalho que Stiegler cria suas propostas para uma economia contributiva, na qual os aut\u00f4matos seriam colocados a servi\u00e7o da cria\u00e7\u00e3o de valor social, abrindo a possibilidade da exist\u00eancia de \u00ab zonas de exce\u00e7\u00e3o \u00bb (Alombert, 2025 p. 270) \u00e0 proletariza\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>O pensamento de Bernard Stiegler demonstra sua originalidade pela fecundidade dos conceitos que criou a partir das lacunas identificadas na tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. No entanto, na \u00faltima parte da obra, Alombert demonstra que sua originalidade reside n\u00e3o apenas na cria\u00e7\u00e3o desses conceitos, mas tamb\u00e9m em sua tentativa de operacionaliz\u00e1-los em uma pr\u00e1xis emancipat\u00f3ria. Stiegler utilizou a entropia, uma grandeza termodin\u00e2mica, para pensar as \u201ctr\u00eas ecologias\u201d, em refer\u00eancia a Guattari (2024). Na f\u00edsica, a entropia designa o aumento da energia e o grau de desorganiza\u00e7\u00e3o de um sistema dado. Para Stiegler, contudo, a entropia n\u00e3o se define unicamente como a dissipa\u00e7\u00e3o de energia no dom\u00ednio f\u00edsico. A entropia \u00e9 tamb\u00e9m biol\u00f3gica, ao reduzir a biodiversidade, e psicossocial, ao decompor os saberes, o pensamento reflexivo e ao capturar a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, a luta contra a entropia pela conserva\u00e7\u00e3o da energia \u00e9 uma caracter\u00edstica dos seres vivos. A tend\u00eancia ao ac\u00famulo de energia corresponde \u00e0 negentropia, que tamb\u00e9m deve ser vislumbrada al\u00e9m do dom\u00ednio biof\u00edsico. \u00c9 em raz\u00e3o dessa compreens\u00e3o que Stiegler criticava a ideia de Antropoceno como uma nova era geol\u00f3gica para a Terra, pois essa proposta oculta os valores que motivam as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que corroboram a entropia. Ele projeta a negentropia \u00e0 luz da antropologia e da exterioriza\u00e7\u00e3o da tecnologia, o que o leva a criar o conceito de negentropologia, que consiste em uma transforma\u00e7\u00e3o dos saberes para pensar e \u201ctratar\u201d (panser) as tecnologias, constituindo o que ele chama de <em>peanser<\/em>.<\/p>\n<p>Consequentemente, a ideia do Entropoceno (resultado da entropia dos ambientes f\u00edsico, biol\u00f3gico e psicossocial) inscreve-se igualmente em uma l\u00f3gica farmacol\u00f3gica. Ela pode gerar desorganiza\u00e7\u00e3o e homogeneiza\u00e7\u00e3o, caracter\u00edsticas da entropia, ou diversifica\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e imprevisibilidade, caracter\u00edsticas da negentropia. \u00c9 a isso que Stiegler chama de bifurcar: cultivar os saberes para escapar do c\u00e1lculo preditivo, abrindo as portas para o imprevis\u00edvel.<\/p>\n<h3><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>A obra de Anne Alombert consegue apresentar de maneira sistem\u00e1tica a obra de toda uma vida. Ela conclui seu esfor\u00e7o de s\u00edntese e de rigor conceitual sublinhando os principais pilares do pensamento de Stiegler, que \u00e9 menos uma filosofia pr\u00f3pria do que uma resposta poss\u00edvel aos problemas postos pela economia pol\u00edtica. De fato, sua resposta concebe a mem\u00f3ria e a t\u00e9cnica fora de qualquer oposi\u00e7\u00e3o, \u00e0 semelhan\u00e7a da cultura t\u00e9cnica de Simondon, que buscava esmaecer as categorias entre artesanato e ind\u00fastria, objetos t\u00e9cnicos e indiv\u00edduos humanos, enfatizando a ideia de um meio associado. Alombert abst\u00e9m-se de qualquer contraponto aos conceitos de Stiegler para se dedicar a apresentar seu pensamento, ao mesmo tempo que apresenta um leque de tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas com as quais ele se confrontou. A obra de Stiegler testemunha o que ele chama de <em>peanser<\/em>: a pr\u00e1xis que compreende os desafios de nossos dias e pode, a partir da reflex\u00e3o cr\u00edtica, renovar nossos sistemas econ\u00f4micos e pol\u00edticos atrav\u00e9s do \u201ccurativo\u201d (pansement) de nossos meios ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>Alombert, A. <em>Penser avec Bernard Stiegler<\/em>. Presses universitaires de France.<\/p>\n<p>Guattari, F\u00e9lix. <em>Les trois \u00e9cologies<\/em>. Lignes.<\/p>\n<p>Simondon, Gilbert (2024). <em>Du mode d\u2019existence des objets technique<\/em>. Flammarion.<\/p>\n<p>Stiegler, G. (2018). <em>La technique et le temps<\/em>. Fayard.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Livro de Anne Alombert, ainda in\u00e9dito no Brasil, oferece pistas preciosas para compreend\u00ea-lo<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/para-conhecer-a-obra-bernard-stiegler\/\">Para conhecer a obra Bernard Stiegler<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":71499,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6803,33981,33982,20128,20699,13097,33983,33984,5488,33985,33986],"tags":[],"class_list":["post-71498","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alienacao","category-alombert","category-bernard-stiegler","category-derrida","category-economia-politica","category-filosofia","category-filosofia-da-tecnica","category-guattari","category-historia-e-memoria","category-simodon","category-tecnologias-da-informacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71498"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71498\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71499"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}