{"id":71502,"date":"2026-01-22T18:08:28","date_gmt":"2026-01-22T21:08:28","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/hamnet-shakespeare-e-o-poder-do-luto\/"},"modified":"2026-01-22T18:08:28","modified_gmt":"2026-01-22T21:08:28","slug":"hamnet-shakespeare-e-o-poder-do-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/hamnet-shakespeare-e-o-poder-do-luto\/","title":{"rendered":"Hamnet: Shakespeare e o poder do luto"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"844\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Screenshot-2026-01-22-at-17-56-43-hamnet-foto1jpg-imagem-JPEG-1920-1080-pixels-Redimensionada-65.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Screenshot-2026-01-22-at-17-56-43-hamnet-foto1.jpg-imagem-JPEG-1920-\u00d7-1080-pixels-Redimensionada-65-1500x844.png 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Screenshot-2026-01-22-at-17-56-43-hamnet-foto1.jpg-imagem-JPEG-1920-\u00d7-1080-pixels-Redimensionada-65-300x169.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Screenshot-2026-01-22-at-17-56-43-hamnet-foto1.jpg-imagem-JPEG-1920-\u00d7-1080-pixels-Redimensionada-65-768x432.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Screenshot-2026-01-22-at-17-56-43-hamnet-foto1.jpg-imagem-JPEG-1920-\u00d7-1080-pixels-Redimensionada-65-1536x864.png 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Screenshot-2026-01-22-at-17-56-43-hamnet-foto1jpg-imagem-JPEG-1920-1080-pixels-Redimensionada-65.png 1555w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Jos\u00e9 Geraldo Couto<\/strong>, no <em>Blog do IMS<\/em><\/p>\n<p>Assim como a obra liter\u00e1ria e teatral de William Shakespeare \u00e9 inesgot\u00e1vel \u2013 em termos est\u00e9ticos, filos\u00f3ficos, humanos \u2013, s\u00e3o escassos os documentos e informa\u00e7\u00f5es sobre sua vida pessoal. Por conta disso, n\u00e3o foram poucos os escritores, dramaturgos e cineastas que procuraram preencher com a imagina\u00e7\u00e3o as in\u00fameras lacunas de sua biografia. Aquilo que desconhecemos \u00e9 uma porta aberta, um terreno f\u00e9rtil para a fantasia.<\/p>\n<p>Foi assim com\u00a0<em>Shakespeare apaixonado<\/em>\u00a0(John Madden, 1998) e \u00e9 assim agora com\u00a0<em>Hamnet \u2013 A vida antes de Hamlet<\/em>, de Chlo\u00e9 Zhao. Baseado no livro hom\u00f4nimo de Maggie O\u2019Farrell, o novo filme conta, em linhas gerais, a hist\u00f3ria do casamento de Shakespeare (Paul Mescal) com Agnes (Jessie Buckley), do trauma da morte do filho pequeno do casal, Hamnet, e, por fim, da suposta influ\u00eancia dessa desgra\u00e7a sobre a escrita da trag\u00e9dia\u00a0<em>Hamlet<\/em>.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Prancheta-4-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Prancheta-4-3.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>H\u00e1 nesse entrecho muitos fatos comprovados: de fato Shakespeare era filho de um pequeno fabricante de luvas e arreios em Stratford-upon-Avon; de fato se casou aos18 anos com a vizinha Agnes (ou Anne) Hathaway, oito anos mais velha; de fato, ela estava gr\u00e1vida; de fato, tiveram tr\u00eas filhos, Susanna (Bodhi Rae Breathnach) e os g\u00eameos ca\u00e7ulas Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe); de fato Hamnet morreu aos 11 anos, tudo indica que de peste.<\/p>\n<p>Todo o resto \u00e9 especula\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o \u00e9 problema nenhum, at\u00e9 pelo contr\u00e1rio, desde que o espectador n\u00e3o acredite piamente que \u201cfoi assim que aconteceu\u201d. A publicidade que atribui ao filme a revela\u00e7\u00e3o \u201cde um lado desconhecido de Shakespeare\u201d, ou o exalta por \u201cdar visibilidade\u201d a Anne Hathaway, \u00e9, evidentemente, enganosa. Cada um construir\u00e1 o \u201cseu\u201d Shakespeare, e toda leitura trar\u00e1 as marcas do seu tempo.<\/p>\n<h3><strong>Liga\u00e7\u00e3o com a natureza<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o temos informa\u00e7\u00f5es comprovadas sobre as atividades e interesses pessoais de Anne\/Agnes, portanto \u00e9 leg\u00edtimo que o livro de Maggie O\u2019Farrell e o filme de Chlo\u00e9 Zhao a retratem como uma mulher de personalidade forte, ligada profundamente \u00e0 natureza e com uma sensibilidade quase paranormal. Na \u00e9poca em que viveu, uma mulher assim talvez fosse considerada algo como uma bruxa.<\/p>\n<p>Alguns dos momentos mais interessantes de\u00a0<em>Hamnet<\/em>\u00a0s\u00e3o aqueles em que se investe justamente na fantasia, sem grande preocupa\u00e7\u00e3o com poss\u00edveis inverossimilhan\u00e7as e anacronismos. Por exemplo, na cena em que os filhos de Agnes e William se fantasiam de bruxas e reproduzem a interpela\u00e7\u00e3o das figuras sinistras ao guerreiro Macbeth, no in\u00edcio da pe\u00e7a que s\u00f3 seria escrita v\u00e1rios anos depois.<\/p>\n<p>Outra ideia po\u00e9tica de grande for\u00e7a \u00e9 a tentativa dos irm\u00e3os g\u00eameos de trocar de pap\u00e9is para enganar os outros. Quanto a isso, h\u00e1 duas cenas que se espelham: na primeira, c\u00f4mica, eles tentam iludir o pai. Na segunda, sombria, tentam \u2013 e aparentemente conseguem \u2013 enganar a morte.<\/p>\n<h3><strong>Do trauma familiar \u00e0 trag\u00e9dia<\/strong><\/h3>\n<p>Depois da morte precoce de Hamnet, o filme oscila, a meu ver, por dois terrenos perigosos. O primeiro \u00e9 a crise do casal Agnes\/William, retratada quase como uma DR dos dias atuais. A recrimina\u00e7\u00e3o de Agnes \u00e0s prolongadas aus\u00eancias de William, que tentava se estabelecer no teatro em Londres, parece ecoar um drama familiar contempor\u00e2neo: \u201cAh, o marido que s\u00f3 pensa na carreira e larga a bucha na m\u00e3o da mulher\u201d.<\/p>\n<p>A certa altura Agnes pergunta ao marido: \u201cO que voc\u00ea tanto vai fazer em Londres?\u201d D\u00e1 vontade de responder: \u201cNada n\u00e3o, s\u00f3 produzir a obra liter\u00e1ria mais grandiosa de toda a l\u00edngua inglesa, qui\u00e7\u00e1 de todo o Ocidente\u201d. Para que n\u00e3o nos esque\u00e7amos da estatura do personagem, a diretora nos lan\u00e7a na trag\u00e9dia\u00a0<em>Hamlet<\/em>, escrita quatro ou cinco anos depois da morte de Hamnet. A ideia (ou \u201ctese\u201d) \u00e9 de que o trauma familiar inspirou Shakespeare a produzir aquela que \u00e9 talvez sua obra-prima, embora na pe\u00e7a, inversamente ao que ocorreu na vida, haja um filho instado a vingar a morte do pai (ambos de nome Hamlet).<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Banner-fixo-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Banner-fixo-3.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Banner-fixo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Curiosamente, a quest\u00e3o da paternidade e das rela\u00e7\u00f5es familiares dif\u00edceis, sublimadas ou redimidas pela arte, aproxima dois dramas recentes, d\u00edspares em todo o resto: o noruegu\u00eas\u00a0<em>Valor sentimental<\/em>\u00a0e o anglo-americano\u00a0<em>Hamnet<\/em>. Nada contra: a porosidade entre a vida e a arte sempre foi um tema importante, ainda mais nesta nossa \u00e9poca de valoriza\u00e7\u00e3o da \u201cautofic\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 quando se tenta explicar a obra de arte pela psicologia ou pela biografia de seu autor, subvalorizando o papel da imagina\u00e7\u00e3o, da pesquisa hist\u00f3rica e est\u00e9tica, da capacidade criadora do sujeito. No caso de\u00a0<em>Hamnet<\/em>, fica uma sensa\u00e7\u00e3o de apequenamento, em que uma das grandes trag\u00e9dias filos\u00f3ficas j\u00e1 escritas se reduz praticamente \u00e0 catarse de um drama familiar.<\/p>\n<h3><strong>Reflex\u00e3o sobre a morte<\/strong><\/h3>\n<p><em>Hamlet<\/em>, escrita em 1600 ou 1601, \u00e9 uma profunda e dolorosa reflex\u00e3o sobre o luto, sobre o que fazer com o fantasma de quem nos deixou, e sobre o medo da morte, por mais que a vida possa ser um flagelo sem fim. Albert Camus disse famosamente que \u201cs\u00f3 existe um problema filos\u00f3fico realmente s\u00e9rio: o suic\u00eddio. Julgar se a vida vale ou n\u00e3o a pena ser vivida \u00e9 responder \u00e0 quest\u00e3o fundamental da filosofia\u201d. Shakespeare disse o mesmo h\u00e1 quatrocentos anos, no mais c\u00e9lebre solil\u00f3quio de Hamlet. Nesse sentido, claro que a morte do filho pequeno deve ter sido uma das inspira\u00e7\u00f5es para a abordagem dilacerante da pe\u00e7a. Mas o risco \u00e9 transform\u00e1-la numa esp\u00e9cie de psicodrama pessoal, de reflexo imediato de um fato biogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Tudo somado,\u00a0<em>Hamnet<\/em>\u00a0\u00e9 um drama bem constru\u00eddo, bem fotografado e agrad\u00e1vel de se ver, que cresce quando chegamos ao Globe Theatre em Londres, e conta com um elenco not\u00e1vel, em especial das crian\u00e7as. Em tempo: nomes como Hamlet\/Hamnet e Agnes\/Anne eram praticamente intercambi\u00e1veis, grafados e pronunciados de maneiras vari\u00e1veis numa \u00e9poca de pouca gente alfabetizada. N\u00e3o sou nenhum\u00a0<em>scholar<\/em>: tirei a maioria dessas informa\u00e7\u00f5es de um livrinho encantador de Bill Bryson,\u00a0<em>Shakespeare \u2013 O mundo \u00e9 um palco<\/em>\u00a0(Companhia das Letras, tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Rubens Siqueira).<\/p>\n<p>H\u00e1 que louvar, por fim, a ousadia e o destemor da diretora Chlo\u00e9 Zhao. Nascida na China e radicada nos Estados Unidos (depois de ter estudado tamb\u00e9m em Londres), ela abordou a Am\u00e9rica profunda em\u00a0<em>Nomadland<\/em>\u00a0(2020) e agora resolveu bulir com o maior nome da cultura brit\u00e2nica, ningu\u00e9m menos que William Shakespeare. Bendito atrevimento.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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