{"id":71901,"date":"2026-01-26T16:41:18","date_gmt":"2026-01-26T19:41:18","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-a-privatizacao-agravou-a-crise-hidrica-paulista\/"},"modified":"2026-01-26T16:41:18","modified_gmt":"2026-01-26T19:41:18","slug":"como-a-privatizacao-agravou-a-crise-hidrica-paulista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-a-privatizacao-agravou-a-crise-hidrica-paulista\/","title":{"rendered":"Como a privatiza\u00e7\u00e3o agravou a crise h\u00eddrica paulista"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1120\" height=\"742\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5168233851107609864_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5168233851107609864_y.jpg 1120w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5168233851107609864_y-300x199.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/photo_5168233851107609864_y-768x509.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1120px) 100vw, 1120px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em outubro do ano passado, uma entrevista coletiva realizada na sala do Conselho Estadual do Meio Ambiente, na Cetesb, em S\u00e3o Paulo, anunciava as medidas que seriam tomadas diante de um contexto de crise h\u00eddrica que amea\u00e7a o abastecimento de \u00e1gua no estado. \u00c0quela altura, o reservat\u00f3rio do Sistema Cantareira j\u00e1 apresentava o seu menor n\u00edvel em dez anos e o que se propunha basicamente para enfrentar o problema era a redu\u00e7\u00e3o na press\u00e3o de \u00e1gua, um plano de sete faixas prevendo at\u00e9 16 horas com a restri\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o antes da necessidade de um eventual rod\u00edzio ou racionamento feito de forma oficial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da insufici\u00eancia da iniciativa, quando se compara, por exemplo, com o que foi realizado durante outro per\u00edodo cr\u00edtico, em 2014\/2015, outro fato chamava a aten\u00e7\u00e3o naquela coletiva. Ali estavam presentes o diretor-presidente da Ag\u00eancia Reguladora de Servi\u00e7os P\u00fablicos do Estado de S\u00e3o Paulo (Arsesp), Thiago Nunes, que falou sobre o plano, a diretora-presidenta da SP \u00c1guas, Camila Viana, e a secret\u00e1ria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Log\u00edstica do governo paulista, Nat\u00e1lia Resende. N\u00e3o havia, portanto, representantes da Sabesp, companhia de abastecimento privatizada em 2024 pelo atual governador Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos) e hoje comandada pela Equatorial Energia, que adquiriu 15% das a\u00e7\u00f5es por R$ 6,9 bilh\u00f5es. O epis\u00f3dio evidenciou que, sem o controle da empresa, atuante em mais de 370 munic\u00edpios e respons\u00e1vel pelo atendimento a 67% da popula\u00e7\u00e3o paulista, a administra\u00e7\u00e3o estadual n\u00e3o vai dispor dos mesmos instrumentos que tinha para enfrentar a crise h\u00eddrica de pouco mais de dez anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u201cNo fundo, h\u00e1 uma quest\u00e3o central nesse debate: a Sabesp \u00e9 uma empresa que vende \u00e1gua. Sob uma gest\u00e3o privatizada, quanto mais \u00e1gua vende, mais arrecada, mais lucra e mais dividendos distribui aos acionistas. Essa l\u00f3gica ajuda a explicar por que medidas que desestimulam o consumo, como b\u00f4nus para quem economiza ou multas para quem consome mais, adotadas, por exemplo, na crise de 2014 e 2015, n\u00e3o aparecem hoje como pol\u00edtica central\u201d, aponta o mestre em Planejamento e Gest\u00e3o do Territ\u00f3rio, secret\u00e1rio-executivo do Observat\u00f3rio Nacional do Direito \u00e0 \u00c1gua e ao Saneamento (Ondas) e assessor de Saneamento da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Urbanit\u00e1rios (FNU) Edson Aparecido Silva, ao <strong>Outras Palavras<\/strong>.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/3Semana-5-1110-Autores-OP-DowborFinancismo-1-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/3Semana-5-1110-Autores-OP-DowborFinancismo-1-4.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/3.Semana-5-11.10-Autores-OP-DowborFinancismo-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Quando foi anunciado o plano com faixas de redu\u00e7\u00e3o da press\u00e3o de \u00e1gua, relacionadas ao n\u00edvel dos reservat\u00f3rios, o diretor-presidente da Arsesp pontuou que a redu\u00e7\u00e3o de press\u00e3o poderia ser sentida durante o dia, mas, segundo ele, n\u00e3o haveria falta de \u00e1gua na torneira. A realidade para quem vive em locais mais distantes dos reservat\u00f3rios e nas periferias urbanas, no entanto, \u00e9 outra. \u201cO problema \u00e9 que esse tipo de solu\u00e7\u00e3o operacional afeta de forma desproporcional a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, especialmente quem vive nas periferias e nas \u00e1reas mais distantes da rede, aprofundando desigualdades no acesso \u00e0 \u00e1gua\u201d, explica Aparecido.<\/p>\n<p>O objetivo da medida, que causou pouca rea\u00e7\u00e3o na m\u00eddia tradicional, tamb\u00e9m pode ser outro. \u201cA Sabesp privatizada parece entrar em um processo de normaliza\u00e7\u00e3o da falta d\u2019\u00e1gua, como se a popula\u00e7\u00e3o tivesse que moldar sua vida \u00e0 disponibilidade cada vez mais limitada do servi\u00e7o. As pessoas est\u00e3o sendo obrigadas a conviver constantemente com a escassez e a adequar sua rotina a isso\u201d, pontua.<\/p>\n<h3><strong>A conta chega na periferia<\/strong><\/h3>\n<p>O ex-servidor da extinta Secretaria de Saneamento e Recursos H\u00eddricos e conselheiro do Observat\u00f3rio Nacional dos Direitos \u00e0 \u00c1gua e Saneamento (Ondas) Amauri Pollachi detalha ao <strong>Outras Palavras<\/strong> como a pretensa solu\u00e7\u00e3o adotada para combater os efeitos da crise h\u00eddrica, al\u00e9m de insuficiente, \u00e9 perversa.<\/p>\n<p>\u201cA regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo tem mais de 50 mil quil\u00f4metros de tubula\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o h\u00e1 como garantir que a press\u00e3o esteja equilibrada em toda essa rede. O resultado \u00e9 que bairros inteiros acabam desabastecidos ou recebem apenas um \u2018fiozinho\u2019 de \u00e1gua, especialmente nas periferias e em \u00e1reas que inclusive aparecem nos notici\u00e1rios, como Guarulhos, Osasco, Brasil\u00e2ndia, Graja\u00fa e o Extremo Leste da capital. Quando a gente trabalhava na Sabesp, dizia que a \u00e1gua percorre um caminho t\u00e3o longo entre o reservat\u00f3rio at\u00e9 chegar na moradia que est\u00e1 l\u00e1 distante, na periferia, que ela chega \u2018cansada\u2019\u201d, resume Pollachi.<\/p>\n<p>Ele lembra ainda que a norma brasileira indica que a press\u00e3o m\u00ednima de fornecimento no hidr\u00f4metro do cliente deve ser de 10 metros de coluna d\u2019\u00e1gua (10 mca), considerada suficiente para garantir o abastecimento b\u00e1sico dos im\u00f3veis localizados ao n\u00edvel da via p\u00fablica. \u201cIsso para que ali, na sua entrada de \u00e1gua, ela possa chegar em uma caixa d\u2019\u00e1gua que est\u00e1 em um sobrado. N\u00e3o \u00e9 um n\u00famero aleat\u00f3rio. A Sabesp tem que cumprir isso e n\u00e3o est\u00e1 cumprindo. E a ag\u00eancia reguladora est\u00e1 fazendo vistas grossas nesse sentido\u201d, diz.<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o de uma medida que na pr\u00e1tica restringe o abastecimento de \u00e1gua para boa parte da popula\u00e7\u00e3o, em geral perif\u00e9rica, garante, contudo, que a Sabesp n\u00e3o tenha redu\u00e7\u00e3o de receita. Isso, em parte, pelo fato de os consumidores afetados serem beneficiados pela tarifa social de \u00e1gua, que garante uma redu\u00e7\u00e3o dos valores cobrados, algo que ganhou impulso com a aprova\u00e7\u00e3o da Lei Nacional de Tarifa Social (LNTS) em junho de 2024. \u201cTemos um estudo que demonstra que a implanta\u00e7\u00e3o da tarifa social, que foi feita a partir de uma lei federal, no caso da Sabesp, tinha um impacto na receita em torno de 0,8%\u201d, aponta Pollachi. \u201cPor qu\u00ea? Porque s\u00e3o pessoas de baixa renda, que consomem pouco em rela\u00e7\u00e3o a outros segmentos da popula\u00e7\u00e3o, e com isso o impacto na receita da empresa \u00e9 marginal, muito baixo. Em compensa\u00e7\u00e3o, fica garantido o abastecimento em \u00e1reas de alto poder aquisitivo, que est\u00e3o verticalizadas.\u201d<\/p>\n<p>Assim, passa a se adotar em um contexto cr\u00edtico uma l\u00f3gica que se assemelha mais a um m\u00e9todo de \u201cRobin Hood \u00e0s avessas\u201d.\u201cO que hoje se chama de \u2018gest\u00e3o de demanda noturna\u2019, na pr\u00e1tica, \u00e9 falta d\u2019\u00e1gua direcionada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais pobre e a quem vive em \u00e1reas mais desfavor\u00e1veis. N\u00e3o se trata de gest\u00e3o da demanda, mas de restri\u00e7\u00e3o de oferta: a empresa est\u00e1 entregando menos \u00e1gua do que deveria. A demanda existe, as pessoas precisam de \u00e1gua 24 horas por dia. Quem trabalha o dia inteiro e chega em casa \u00e0 noite muitas vezes n\u00e3o consegue sequer tomar banho porque a \u00e1gua simplesmente n\u00e3o chega\u201d, resume.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/VENETA-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/VENETA-2.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/VENETA-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>A pol\u00edtica por tr\u00e1s das torneiras<\/strong><\/h3>\n<p>Tomando emprestada a analogia feita por Tarc\u00edsio de Freitas buscando se credenciar como \u201cCEO do Brasil\u201d, sempre \u00e9 importante lembrar que estes executivos vivem sob uma press\u00e3o real por resultados imediatos, especialmente nas empresas de capital aberto, onde sua fun\u00e7\u00e3o envolve equilibrar a sustentabilidade financeira atual com uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica de futuro que, muitas vezes, acaba ficando escanteada por conta do \u201ccurtoprazismo\u201d. E um exemplo disso \u00e9 o uso e manejo dos mananciais por parte da Sabesp.<\/p>\n<p>Segundo dados do Instituto \u00c1gua e Saneamento (IAS), entre 2017 e 2022, per\u00edodo considerado \u201cp\u00f3s-crise h\u00eddrica\u201d, a companhia manteve um padr\u00e3o de retirada de \u00e1gua mais baixo do que o observado atualmente. J\u00e1 no in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o seca de 2023, em abril, o Sistema Cantareira atingiu 85% de sua capacidade, o maior n\u00edvel registrado desde 2011 e isso fez com que a Sabesp \u201caproveitasse o momento\u201d. Entre janeiro e setembro de 2025, a retirada de \u00e1gua do Cantareira ficou 30% acima da m\u00e9dia registrada no per\u00edodo p\u00f3s-crise.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o cen\u00e1rio clim\u00e1tico entre 2024 e 2025 mudou, as chuvas passaram a ficar abaixo da m\u00e9dia e a esta\u00e7\u00e3o seca no ano passado come\u00e7ou com o Cantareira em torno de 60%. Mas a Sabesp continuou retirando no ano passado, pelos dados coletados at\u00e9 agosto, uma m\u00e9dia de 72 m3\/s de \u00e1gua. Para efeito de compara\u00e7\u00e3o, a m\u00e9dia de retirada no per\u00edodo que vai de 2017 a 2022 foi de 62,3 m3\/s. \u201cA Sabesp n\u00e3o est\u00e1 conseguindo cumprir a outorga do [sistema] Cantareira. Desde 2023, ela est\u00e1 aumentando a retirada de \u00e1gua e, em 2025, intensificou esse processo\u201d, apontava, em mat\u00e9ria do jornal <em>Folha de S. Paulo<\/em>, a diretora-executiva do IAS, Marussia Whately.<\/p>\n<p>Na mesma reportagem, a Sabesp argumentava que \u201co volume m\u00e9dio de retirada de \u00e1gua dos mananciais apresenta varia\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com o crescimento vegetativo da popula\u00e7\u00e3o atendida e com ajustes operacionais implementados ao longo dos \u00faltimos anos\u201d. Amauri Pollachi contesta a justificativa, atribuindo a explica\u00e7\u00e3o da companhia a uma esp\u00e9cie de \u201ccontabilidade criativa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA Sabesp aumentou muito a retirada de \u00e1gua nos reservat\u00f3rios. Houve um aumento da ordem de 15% na produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua entre 2022 e 2025 e a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o cresceu 15%\u201d, diz. \u201cA Sabesp alega que muito mais gente est\u00e1 sendo atendida, que fizeram milhares de liga\u00e7\u00f5es de \u00e1gua novas, mas, quando se observam os n\u00fameros com lupa, percebe-se o seguinte: em um edif\u00edcio com 100 apartamentos, \u00e9 uma liga\u00e7\u00e3o de \u00e1gua apenas. A verticaliza\u00e7\u00e3o intensa que tivemos em S\u00e3o Paulo produziu novas unidades habitacionais e quando a Sabesp diz \u2018atendemos mais 500 mil pessoas\u2019, n\u00e3o \u00e9 verdade. Essas pessoas estavam ou morando de aluguel e compraram seu apartamento, ou estavam morando em outro lugar, j\u00e1 tinham abastecimento de \u00e1gua regular. \u00c9 o tipo da contabilidade criativa que ilustra a forma como se faz hoje a verifica\u00e7\u00e3o de indicadores.\u201d<\/p>\n<p>Esse aumento da retirada se torna ainda mais grave quando se observa a atual situa\u00e7\u00e3o dos reservat\u00f3rios. De acordo com o Pollachi, o panorama \u00e9 pior atualmente do que o da crise h\u00eddrica de 2014-2015. \u201cTodos os sistemas \u2013 \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do pequeno Cotia \u2013 est\u00e3o em pior situa\u00e7\u00e3o de reserva\u00e7\u00e3o quando comparados a 2014. Em 21 de janeiro daquele ano, a reserva\u00e7\u00e3o do Cantareira estava em 24,2%, hoje est\u00e1 em 21%, apesar da transfer\u00eancia de \u00e1guas da Bacia do Para\u00edba do Sul, por meio da interliga\u00e7\u00e3o do Reservat\u00f3rio da UHE Jaguari para o Reservat\u00f3rio Atibainha (Cantareira), obra executada integralmente pela Sabesp p\u00fablica e conclu\u00edda em 2018. Tamb\u00e9m n\u00e3o estava dispon\u00edvel o Sistema Produtor S\u00e3o Louren\u00e7o, que capta \u00e1guas do Rio Juqui\u00e1, da Bacia do Ribeira de Iguape, no Reservat\u00f3rio Cachoeira do Fran\u00e7a, com capacidade de produzir at\u00e9 6.400 litros por segundo na ETA Vargem Grande. As perspectivas s\u00e3o nada animadoras\u201d, conclui.<\/p>\n<h3><strong>A amea\u00e7a dos grandes consumidores<\/strong><\/h3>\n<p>Embora pare\u00e7a que parte do futuro n\u00e3o esteja contemplado no planejamento da Sabesp ou de autoridades p\u00fablicas do estado de S\u00e3o Paulo que ainda s\u00e3o respons\u00e1veis pela fiscaliza\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o do abastecimento, ele bate \u00e0 porta com perspectivas alarmantes. Nota t\u00e9cnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) alerta que os reservat\u00f3rios e os len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos do Sudeste chegaram a n\u00edveis t\u00e3o cr\u00edticos que mesmo chovendo acima da m\u00e9dia, a recupera\u00e7\u00e3o ficaria abaixo de 60%.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outros fatores que podem agravar o quadro. Uma reportagem da <em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em>, de dezembro do ano passado, apontava que quase um ter\u00e7o dos 195 <em>data centers<\/em> instalados ou em funcionamento do Brasil est\u00e3o no estado de S\u00e3o Paulo, a maior parte deles em \u00e1reas de alta densidade populacional. Vinhedo, citada na mat\u00e9ria, uma cidade que fica a cerca de 75 km da capital paulista, declarou emerg\u00eancia h\u00eddrica em maio de 2025 e \u00e9 sede da empresa Ascenty, que opera dois <em>data centers<\/em> que usam \u00e1gua para seu resfriamento.<\/p>\n<p>Contando com a possibilidade de driblar regras de licenciamento ambiental e com pouca transpar\u00eancia quanto ao uso de recursos naturais, os <em>data centers<\/em> podem representar uma nova amea\u00e7a. \u201cEm um cen\u00e1rio de intensifica\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, com maior frequ\u00eancia de secas severas e eventos clim\u00e1ticos extremos, a presen\u00e7a de consumidores intensivos de \u00e1gua pode agravar press\u00f5es j\u00e1 existentes sobre os recursos h\u00eddricos\u201d, adverte o professor Daniel Caixeta Andrade, do Instituto de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU), ao portal de not\u00edcias da universidade.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 necess\u00e1rio um controle rigoroso sobre o consumo dos grandes usu\u00e1rios e enfrentar a l\u00f3gica de que a receita da empresa deve estar acima da gest\u00e3o adequada dos recursos h\u00eddricos. Enquanto a \u00e1gua for tratada como mercadoria, e n\u00e3o como um direito humano fundamental, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel garantir o abastecimento de forma justa. Priorizar a perenidade da receita e a satisfa\u00e7\u00e3o dos acionistas \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o diante da crise h\u00eddrica\u201d, sugere Edson Aparecido. \u201cTamb\u00e9m \u00e9 preciso investir em sistemas de aproveitamento de \u00e1gua da chuva em grandes propriedades p\u00fablicas e privadas, como estacionamentos de shopping centers, escolas e hospitais, al\u00e9m do uso de \u00e1gua subterr\u00e2nea para fins que n\u00e3o sejam o consumo humano.\u201d<\/p>\n<p>Aparecido destaca que \u00e9 preciso retomar as campanhas permanentes de consumo consciente de \u00e1gua e adotar pol\u00edticas de incentivo econ\u00f4mico como as tarifas que ofereciam descontos a quem reduzisse o consumo de \u00e1gua, essenciais para reduzir os impactos da crise h\u00eddrica de dez anos atr\u00e1s. \u201cOutro ponto essencial \u00e9 a exist\u00eancia de um plano de conting\u00eancia que defina prioridades em momentos de crise, incluindo a possibilidade de utilizar a \u00e1gua de grandes consumidores que mant\u00eam reservat\u00f3rios pr\u00f3prios para a produ\u00e7\u00e3o e que poderiam, em situa\u00e7\u00f5es emergenciais, contribuir para o abastecimento p\u00fablico\u201d, observa, lembrando ainda de outra iniciativa. \u201cA distribui\u00e7\u00e3o de caixas-d\u2019\u00e1gua, como ocorreu em 2014, \u00e9 uma medida importante, mas n\u00e3o pode ser adotada de forma autom\u00e1tica: muitas moradias em \u00e1reas vulner\u00e1veis n\u00e3o comportam essas caixas, e as fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam recursos para instal\u00e1-las. Esse processo precisa ser discutido com as lideran\u00e7as comunit\u00e1rias, avaliando alternativas como reservat\u00f3rios coletivos.\u201d<\/p>\n<p>Nesse contexto, Amauri Pollachi destaca algo essencial, ainda mais considerando que 2026 \u00e9 em um ano eleitoral: a cobran\u00e7a que deve ser feita em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe pol\u00edtica em decorr\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o atual. \u201cParticipei diretamente de todo o processo de enfrentamento \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o. Estive em todas as audi\u00eancias p\u00fablicas, na C\u00e2mara de Vereadores de S\u00e3o Paulo e na Assembleia Legislativa. Estava presente no dia em que a Pol\u00edcia Militar invadiu o plen\u00e1rio e usou g\u00e1s de pimenta e g\u00e1s lacrimog\u00eaneo contra a popula\u00e7\u00e3o. Em todo esse processo, os alertas foram feitos, mas os deputados aprovaram a privatiza\u00e7\u00e3o\u201d, lembra. \u201cNa semana passada, por exemplo, a Baixada Santista enfrentou uma falta d\u2019\u00e1gua sem precedentes. Todo ano milh\u00f5es de pessoas v\u00e3o para a regi\u00e3o, isso sempre aconteceu. A diferen\u00e7a agora \u00e9 que n\u00e3o existe mais capacidade de rea\u00e7\u00e3o. Antes, a empresa deslocava caminh\u00f5es-pipa de v\u00e1rias regi\u00f5es do estado e mantinha o atendimento 24 horas por dia. Hoje, isso n\u00e3o acontece mais.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO que se viu foram cenas dantescas: filas quilom\u00e9tricas de pessoas buscando \u00e1gua na beira da praia, algo que nunca tinha acontecido. E, ao mesmo tempo, deputados que votaram a favor da privatiza\u00e7\u00e3o passaram a criticar a situa\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 contradit\u00f3rio. Quem aprovou a privatiza\u00e7\u00e3o precisa ser cobrado\u201d, aponta. \u201cDos deputados da regi\u00e3o, praticamente todos votaram a favor, com exce\u00e7\u00e3o de um, Caio Fran\u00e7a (PSB). N\u00e3o adianta agora dizer que est\u00e1 errado. A pergunta que precisa ser feita \u00e9: voc\u00eas mant\u00eam hoje a posi\u00e7\u00e3o que defenderam naquele momento? Acham que melhorou? Porque quem tomou essa decis\u00e3o precisa responder por ela.\u201d<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Mas ao privatizar a Sabesp, Estado perdeu instrumentos essenciais para mitigar a crise. Resultado \u00e9 um racionamento desigual, n\u00e3o declarado e invisibilizado pela m\u00eddia<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/como-a-privatizacao-agravou-a-crise-hidrica-paulista\/\">Como a privatiza\u00e7\u00e3o agravou a crise h\u00eddrica paulista<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":71902,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[4503,6188,34249,7045,34250,501,6164,650,254],"tags":[],"class_list":["post-71901","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agua","category-alem-da-mercadoria","category-cetesb","category-direito-a-agua","category-observatorio-nacional-do-direito-a-agua-e-ao-saneamento","category-privatizacao","category-sabesp","category-saneamento","category-tarcisio-de-freitas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71901"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71901\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71902"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}