{"id":72578,"date":"2026-01-30T17:21:42","date_gmt":"2026-01-30T20:21:42","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/jesse-de-souza-e-a-vinganca-dos-desprezados\/"},"modified":"2026-01-30T17:21:42","modified_gmt":"2026-01-30T20:21:42","slug":"jesse-de-souza-e-a-vinganca-dos-desprezados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/jesse-de-souza-e-a-vinganca-dos-desprezados\/","title":{"rendered":"Jess\u00e9 de Souza e a vingan\u00e7a dos desprezados"},"content":{"rendered":"<figure><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Carlos Azevedo<\/strong><\/p>\n<p>No livro <em>O Pobre de Direita<\/em> <em>o<\/em> soci\u00f3logo Jess\u00e9 de Souza afirma que n\u00e3o \u00e9 a falta de racionalidade, nem a religi\u00e3o e costumes conservadores e nem mesmo a condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de pobreza (como afirmam \u201calguns marxistas\u201d) que explicam o motivo de consider\u00e1vel parcela das classes populares terem votado duas vezes em Bolsonaro, o mais radical representante das classes dominantes exploradoras do povo, com quem s\u00f3 t\u00eam a perder e nada a ganhar.<\/p>\n<p>Defende que as pessoas t\u00eam como raz\u00e3o \u00faltima de sua a\u00e7\u00e3o social a dimens\u00e3o moral, a luta por reconhecimento social que garante autoestima e auto confian\u00e7a.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Afirma: \u201cSomos seres fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis, constru\u00eddos pela vis\u00e3o positiva ou negativa que a sociedade possui de n\u00f3s. Essa necessidade \u00e9 mais prim\u00e1ria e importante que qualquer outra, \u00e9 a partir dela que devemos nos inquirir quando, muito especialmente, as pessoas \u2018aparentemente\u2019 agem sob a \u00e9tica de utilidade econ\u00f4mica contra seus melhores interesses\u201d.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 se viu de seus livros anteriores como \u201cA Elite do Atraso\u201d (ver resenha) Jess\u00e9 divide a sociedade brasileira em quatro grupos que ele chama \u201cclasses\u201d. A elite propriet\u00e1ria (1% da popula\u00e7\u00e3o); a classe m\u00e9dia \u201creal\u201d, que n\u00e3o vai al\u00e9m de 20%; a classe trabalhadora prec\u00e1ria, segundo ele, chamada equivocadamente de \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d, 40%; e, abaixo de todos, os pobres de tudo, desprezados e humilhados, que chama de ral\u00e9, que representam outros 40% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como s\u00e3o minorit\u00e1rias, a elite e a classe m\u00e9dia \u201creal\u201d n\u00e3o elegem ningu\u00e9m em elei\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias. Precisam dos votos dos 80% de explorados e oprimidos. Como conseguem, \u00e9 o que ele tenta explicar.<\/p>\n<p>Para isso, apresenta um outro corte da sociedade, que op\u00f5e os brancos do Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paran\u00e1) e S\u00e3o Paulo, aos negros e mesti\u00e7os do restante do pa\u00eds.<\/p>\n<p>80% da popula\u00e7\u00e3o do Sul se comp\u00f5em de brancos, de origem europeia, principalmente italianos e alem\u00e3es. 60 a 70% da popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo tamb\u00e9m s\u00e3o brancos. 80% da popula\u00e7\u00e3o do Nordeste e Norte s\u00e3o negros ou mesti\u00e7os.<\/p>\n<p>(Ver mapas do Brasil a partir da p\u00e1gina 93 com dados sobre a popula\u00e7\u00e3o, localizando a cor, a ra\u00e7a, a religi\u00e3o em cada estado. E em cada regi\u00e3o, como votou o eleitorado nas tr\u00eas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais).<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as alimentam o que o autor chama de \u201cracismo regional\u201d, muito voltado contra os nordestinos. Este \u00e9 um disfarce do racismo cultural que \u00e9 um tra\u00e7o indel\u00e9vel da sociedade resultante da escravid\u00e3o, por 350 anos o motor da produ\u00e7\u00e3o e a chaga do Brasil. Jess\u00e9, at\u00e9 porque \u00e9 potiguar e moreno, deve saber do que est\u00e1 falando.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Nessa sociedade, assim dividida pelo preconceito, os pobres, negros e mesti\u00e7os convivem cotidianamente com a humilha\u00e7\u00e3o. E o mais grave, n\u00e3o conhecem as causas profundas de seu sofrimento, cujo pano de fundo \u00e9 o capitalismo financeiro mundial, que enriquece meia d\u00fazia \u00e0s custas de bilh\u00f5es de empobrecidos.<\/p>\n<p>Vivendo numa sociedade em que o modo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 o capitalismo neoliberal, os explorados e oprimidos s\u00e3o induzidos a aceitar a propaganda do sistema que inventou equa\u00e7\u00f5es e n\u00fameros para criar a impress\u00e3o de que na economia h\u00e1 uma neutralidade t\u00e9cnica traduzida por n\u00fameros e ci\u00eancias exatas. Diz o autor: \u201cO que imaginamos ser econ\u00f4mico de modo moralmente neutro \u00e9 a presun\u00e7\u00e3o de que uma forma muito espec\u00edfica de produzir e distribuir lucros se torna algo \u201cnatural\u201d, aparentemente sem alternativa poss\u00edvel (\u2026) tudo foi montado para n\u00e3o se ver que toda forma de produ\u00e7\u00e3o e de circula\u00e7\u00e3o de bens j\u00e1 \u00e9 prenhe de determinada defini\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a que diz que alguns v\u00e3o ter tudo e os outros nada ou muito pouco. O que importa \u00e9 saber quem ganha e quem perde com essa defini\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Mas essa realidade n\u00e3o \u00e9 divulgada pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, comprados pelo capital, portanto n\u00e3o est\u00e1 presente aos olhos dos trabalhadores.<\/p>\n<p><strong>O Coringa \u00e9 o pobre de direita<\/strong><\/p>\n<p>A autoestima propiciada por uma ideia positiva sobre si \u00e9 sempre mediada pela percep\u00e7\u00e3o dos outros sobre n\u00f3s. Sem ela, j\u00e1 estamos derrotados na competi\u00e7\u00e3o social. As doen\u00e7as da \u00e9poca, depress\u00e3o e alcoolismo s\u00e3o causadas pela falta de autoestima e autoconfian\u00e7a \u2013 emprego mal pago, trabalho prec\u00e1rio, culto aos ricos, \u00f3dio aos pobres, corte de gastos sociais, desorienta\u00e7\u00e3o e falta cr\u00f4nica de esperan\u00e7a. O novo oprimido encontra-se sozinho e sem defesa. N\u00e3o tem mais os sindicatos ou associa\u00e7\u00f5es sociais que o apoiem. O insucesso n\u00e3o \u00e9 visto por ele como resultado do sistema, mas como fracasso pessoal. Ele se sente culpado pelo seu fracasso. Talvez esse seja o subproduto mais importante da guerra aos sindicatos promovida pelo capital financeiro desde 1980.<\/p>\n<p>Quando a realidade se torna insuport\u00e1vel, a sa\u00edda \u00e9 a fuga na fantasia e na imagina\u00e7\u00e3o. O autor sugere como exemplo desse desajuste a figura do Coringa, personagem do cinema conhecido pelo grande p\u00fablico. Humilhado e desprezado por todos, at\u00e9 pela sua m\u00e3e, em casa, na rua, no metr\u00f4, ele se refugia na fantasia e acaba numa revolta sem rumo, cheia de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A elite propriet\u00e1ria e a classe m\u00e9dia \u201creal\u201d n\u00e3o vivem essa experi\u00eancia. A primeira, 1% da sociedade brasileira, concentra a riqueza. A classe m\u00e9dia branca, 20% da popula\u00e7\u00e3o, de origem europeia, se apropria do capital cultural e comanda a sociedade, em nome dos propriet\u00e1rios, na economia, na pol\u00edtica e na esfera p\u00fablica. N\u00e3o h\u00e1 como competir. A grande maioria, os 80% restantes, exclu\u00eddos das benesses do sistema, se dividem entre classe trabalhadora precarizada e a ral\u00e9 de marginalizados.<\/p>\n<p>Os 40% representados pela classe trabalhadora precarizada pelo sistema financeiro apresentam contextos familiares mais est\u00e1veis, embora com dificuldades. H\u00e1 est\u00edmulo pela escola, mas em geral conseguem frequentar uma escola de baixa qualidade, que produz aptid\u00e3o social e profissional para empregos \u201cuberizados\u201d, cargos intermedi\u00e1rios no servi\u00e7o p\u00fablico, policiais e militares, pequenos empreendedores. Seus ganhos ficam entre 2 e 5 sal\u00e1rios m\u00ednimos. \u00c9 o pobre remediado, carente de tudo um pouco, mas sem fome e com apoio familiar b\u00e1sico.<\/p>\n<p>J\u00e1 os 40% marginalizados vivem o aqui e agora, o almo\u00e7o de hoje, aus\u00eancia de futuro. Empregos pesados como os dos antigos escravos. As mulheres s\u00e3o como escravas dom\u00e9sticas. \u00canfase no trabalho muscular. S\u00e3o desumanizados e animalizados, produzidos intencionalmente para serem explorados e humilhados numa continuidade da sociedade escravocrata. A pol\u00edcia foi criada para perseguir, humilhar e matar essa classe, quase toda preta e mesti\u00e7a, sob aplauso das classes privilegiadas. Diz Jess\u00e9: \u201cse for preto e pobre, \u00e9 bandido \u2013 simples assim\u201d. Em uma sociedade t\u00e3o desigual pode-se justificar todo o esquema injusto e conferir a culpa \u00e0 pr\u00f3pria v\u00edtima.<\/p>\n<p><strong>O pobre remediado<\/strong><\/p>\n<p>O autor chega ao objeto central do livro, o pobre remediado, a classe trabalhadora precarizada. Esse setor da sociedade vive uma fragilidade social. Aspira a ser como a classe m\u00e9dia, idolatra a elite, assume seus pontos de vista e preconceitos sem se dar conta de que essa falsa moralidade foi formulada contra ele. E se afirma juntando-se ao desprezo com rela\u00e7\u00e3o aos mais pobres, a ral\u00e9, vista como um abismo onde teme cair.<\/p>\n<p>Os brancos pobres remediados representam 70 a 80% do eleitorado do Sul e cerca de 60% do eleitorado de S\u00e3o Paulo. Pelo fato de n\u00e3o terem tido a mesma oportunidade de se formar culturalmente, e de terem suas aspira\u00e7\u00f5es profissionais frustradas, alimentam um ressentimento, sentem-se injusti\u00e7ados.<\/p>\n<p>Para o pobre \u201chonesto\u201d e \u201chomem de bem\u201d, a moralidade \u2013 falsa e fabricada contra ele pr\u00f3prio \u2013 passa a ser tudo. Como a maior vulnerabilidade \u00e9 a necessidade de autoestima e reconhecimento social, qualquer boia de salva\u00e7\u00e3o moralista chega em solo f\u00e9rtil. \u00c9 a raz\u00e3o mais importante do sucesso da prega\u00e7\u00e3o moralista e conservadora dos evang\u00e9licos. Vai dar a essas pessoas carentes de respeito social um fundamento para que possam se orgulhar de si mesmas, como \u201chomem de bem\u201d, \u201cpai de fam\u00edlia\u201d. Sentem-se acolhidos como participantes de uma comunidade, ouvidos e influenciados politicamente.<\/p>\n<p>Na hip\u00f3tese de trabalho do autor o fator decisivo para esse segmento social aderir \u00e0 direita \u00e9 o racismo \u201cracial\u201d disfar\u00e7ado de racismo regional. Da\u00ed a f\u00faria contra o Nordeste e os nordestinos, provocada pela derrota de Bolsonaro, disseminada por conservadores nas redes sociais.<\/p>\n<p>Pois, como mostram as entrevistas realizadas pelo autor no Sul e em S\u00e3o Paulo, em geral aspiraram profiss\u00f5es na classe m\u00e9dia, mas se frustraram, sendo obrigados a ocupar trabalhos secund\u00e1rios. Como o jovem ga\u00facho de porte atl\u00e9tico que vem da classe m\u00e9dia decadente e n\u00e3o conseguiu reproduzir a trajet\u00f3ria de seus ascendentes. Ele foi reprovado em in\u00fameros exames para ser policial federal. Apenas conseguiu ser guarda penitenci\u00e1rio, onde se ocupa em espancar e torturar prisioneiros.<\/p>\n<p>O exemplo mais significativo desse processo de aliena\u00e7\u00e3o da realidade vem de Conc\u00f3rdia, Santa Catarina. Um brasileiro, descendente de alem\u00e3es de terceira gera\u00e7\u00e3o, mas que ainda se considera alem\u00e3o, o que mostra desprezo pela condi\u00e7\u00e3o de brasileiro. Lembra com orgulho que seu av\u00f4 foi um ardoroso simpatizante do nazismo. Subgerente de uma loja de materiais de constru\u00e7\u00e3o, ganha cerca de 5 mil reais por m\u00eas, mas assume a postura de quem pertence \u00e0 elite econ\u00f4mica e cultural. Mora em um quarto e sala do pr\u00e9dio da loja, que pertence a seus tios. Queria ser administrador de empresas. Tentou v\u00e1rias universidades p\u00fablicas, mas n\u00e3o conseguiu aprova\u00e7\u00e3o. Racionaliza dizendo que a vida pr\u00e1tica no trabalho ajuda mais que os estudos na universidade. Na regi\u00e3o todos que n\u00e3o s\u00e3o de origem europeia s\u00e3o chamados \u201cbugres\u201d desde o tempo da guerra do Contestado (1912-1916). \u00c9 por esse apelido desdenhoso que ele trata quase \u201ccarinhosamente\u201d a funcion\u00e1ria que \u00e9 caixa da loja.<\/p>\n<p>Conc\u00f3rdia tem falta de m\u00e3o-de-obra e recebe trabalhadores de fora, haitianos, negros, nordestinos. O entrevistado tratava muito mal um funcion\u00e1rio haitiano at\u00e9 que este reuniu amigos e bateram nele. O rapaz foi demitido. Comentando esse fato, disse: \u201cn\u00e3o sou racista, tenho amigos e empregados negros. Agora, que os caras s\u00e3o lentos e sem disciplina, isso \u00e9 ineg\u00e1vel. Nossa cultura \u00e9 do trabalho e disciplina. A cultura negra \u00e9 a da festa, da dan\u00e7a, da pregui\u00e7a e do barulho, n\u00e3o do trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Mas os piores para ele s\u00e3o os nordestinos. O Sul e o Sudeste produzem as riquezas e os nordestinos se aproveitam de uma riqueza para a qual n\u00e3o contribu\u00edram. Diz: \u201cos nordestinos s\u00f3 fazem filho para poder receber do governo. Eu gostaria de poder entrar no Nordeste usando passaporte, entendeu? Como qualquer estrangeiro\u201d. Ele explica que quando fala de querer passaporte para poder ir ao Nordeste \u00e9 para poder aproveitar as coisas boas de l\u00e1, sem que seja o nordestino quem diga quem vai comandar o pa\u00eds. \u201c\u00c9 s\u00f3 dar alguma vantagem que eles passam a te seguir como um c\u00e3ozinho. Foi isso que o Lula fez\u201d. Conta que votou duas vezes em Bolsonaro. \u201cEu acho ele parecido com a gente. \u00c9 um dos nossos (\u2026) 90% da comunidade daqui \u00e9 Bolsonaro\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma s\u00e9rie de outras entrevistas, muito reveladoras. Todas t\u00eam em comum a frustra\u00e7\u00e3o, o sentimento de que foram injusti\u00e7ados e de que Bolsonaro \u00e9 igual a eles e os representa. Para o autor, \u201co ressentimento social \u00e9 a procura de um culpado externo para a sensa\u00e7\u00e3o do fracasso objetivo daqueles que n\u00e3o possuem nem capital econ\u00f4mico nem cultural leg\u00edtimo\u201d.<\/p>\n<p><strong>O negro evang\u00e9lico<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Jess\u00e9, tamb\u00e9m muitos negros, sobretudo evang\u00e9licos, votaram duas vezes em Bolsonaro, que \u201c\u00e9 um racista da velha escola, que faz piada com os negros\u201d. Por que um negro pobre votaria nele? A explica\u00e7\u00e3o: o pentecostalismo, vers\u00e3o popular do protestantismo, criada nos Estados Unidos, desenvolveu uma vers\u00e3o que valoriza a tradi\u00e7\u00e3o negra, a oralidade da liturgia, testemunhos orais, inclus\u00e3o do \u00eaxtase, sonhos e vis\u00f5es, xamanismo religioso, coreografia e muita m\u00fasica nos cultos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o religiosa que se dirige aos desterrados, humilhados e imigrados. S\u00e3o pessoas que n\u00e3o se sentem pertencentes \u00e0 realidade social, visto que ela os humilha e n\u00e3o reconhece. Nasceu assim uma religi\u00e3o para os abandonados e exclu\u00eddos. Essa vers\u00e3o religiosa se disseminou rapidamente no Brasil, em v\u00e1rias ondas.<\/p>\n<p>A terceira onda teve in\u00edcio nos anos 1970 e seu principal protagonista \u00e9 a Igreja Universal do Reino de Deus. A novidade de sua prega\u00e7\u00e3o est\u00e1 no exorcismo dos dem\u00f4nios. \u00c9 a luta direta entre Deus e o dem\u00f4nio. \u00c9 uma guerra. Particularmente voltada contra as religi\u00f5es de raiz africana, o umbandismo, candombl\u00e9 etc.<\/p>\n<p>Na verdade, trata-se de uma \u201cantropofagia\u201d da f\u00e9 inimiga. Opera da mesma forma com o transe religioso, com a incorpora\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos (no caso, dem\u00f4nios) ao corpo da pessoa em transe. Dem\u00f4nio que o pastor expulsa significando a vit\u00f3ria da \u201cl\u00edngua de fogo\u201d do Esp\u00edrito Santo. O enorme crescimento da IURD demonstra o sucesso de sua prega\u00e7\u00e3o entre os mais humildes, os desprezados, abandonados pela sociedade e pelo Estado.<\/p>\n<p>O neopentecostalismo se alimenta do racismo existente que criminaliza os negros e todas suas pr\u00e1ticas, inclusive as religiosas. Assim, opina o autor, o neopentecostalismo \u00e9 ideal para quem pretende \u201cembranquecer\u201d. Que implica estigmatizar o negro, seu vizinho, seu irm\u00e3o, e sua criminaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nas expressivas entrevistas que o livro apresenta com negros evang\u00e9licos est\u00e1 presente o moralismo evang\u00e9lico que se manifesta no apoio a Bolsonaro, \u201co mal menor\u201d, no rep\u00fadio a Lula e ao PT. \u201cQuerem destruir a sociedade, liberar a maconha\u201d. A cr\u00edtica aos LGBTmais, ao feminismo \u201cas mulheres querem ganhar o mesmo sal\u00e1rio que os homens\u201d etc.<\/p>\n<p>Nessas manifesta\u00e7\u00f5es transparece que o negro, desumanizado pelas classes melhor posicionadas na escala social, encontra acolhimento na igreja evang\u00e9lica, sente-se fazendo parte de uma comunidade, \u201chomem de bem\u201d, que \u201cembranquece\u201d um pouco. A r\u00edgida moralidade evang\u00e9lica lhe d\u00e1 a justificativa moral. A superioridade que sente em rela\u00e7\u00e3o aos outros negros lhe d\u00e1 o sentimento de pertencimento.<\/p>\n<p>Na conclus\u00e3o o autor afirma: \u201cpara cada negro que \u201cembranquece\u201d existe um negro que ser\u00e1 ainda mais hostilizado, agora tamb\u00e9m por seus irm\u00e3os de cor. Como as oposi\u00e7\u00f5es vis\u00edveis s\u00e3o sempre \u2018moralistas\u2019 \u2013 como a salvaguarda da fam\u00edlia \u2013 n\u00e3o chega \u00e0 consci\u00eancia do negro oprimido (que quer embranquecer) o conte\u00fado profundamente racial do preconceito original (antes da canaliza\u00e7\u00e3o e mascaramento pseudomoralista) em jogo aqui. Ele, como diria Cartola, cava sua trag\u00e9dia com os pr\u00f3prios p\u00e9s\u201d.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Porque revela, a partir de uma estratifica\u00e7\u00e3o original da sociedade brasileira, como parte expressiva dos explorados \u00e9 capturada por ressentimento e moralismo, quando a esquerda n\u00e3o oferece um horizonte de mudan\u00e7as<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/jesse-de-souza-e-a-vinganca-dos-desprezados\/\">Jess\u00e9 de Souza e a vingan\u00e7a dos desprezados<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6803,34711,6007,34712,34713,98,34714,34715,3108,34716,34717,34718,34719,34720,34721,34722,7173,34723],"tags":[],"class_list":["post-72578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-alienacao","category-capturas-sociais","category-crise-brasileira","category-desencanto-politico","category-desesperanca-politica","category-desigualdades","category-direita-e-desencanto-politio","category-dutoestima","category-esquerda","category-horizontes-politicos","category-jesse-souza","category-moralismo-politico","category-pobre-de-direita","category-reconhecimento-social","category-ressenteimento","category-ressentimento-politico","category-ultradireita","category-ultradireita-e-crise-da-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=72578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/72578\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=72578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=72578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=72578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}