{"id":72786,"date":"2026-02-02T17:55:32","date_gmt":"2026-02-02T20:55:32","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-a-voz-comunista-do-chao-de-fabrica-ecoa-na-constituicao\/"},"modified":"2026-02-02T17:55:32","modified_gmt":"2026-02-02T20:55:32","slug":"quando-a-voz-comunista-do-chao-de-fabrica-ecoa-na-constituicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-a-voz-comunista-do-chao-de-fabrica-ecoa-na-constituicao\/","title":{"rendered":"Quando a voz comunista do ch\u00e3o de f\u00e1brica ecoa na Constitui\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" width=\"1024\" height=\"576\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/01-14.jpg\" alt=\"\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/01-14-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/01-14-300x169.jpg 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/01-14-768x432.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/01-14.jpg 1366w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, o Brasil vivia dias turbulentos. A Velha Rep\u00fablica, vigente desde 1889, mantinha o poder concentrado nas m\u00e3os das oligarquias rurais de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. O povo, especialmente os trabalhadores e trabalhadoras, estava distante das decis\u00f5es pol\u00edticas. Greves eram reprimidas, lideran\u00e7as sindicais perseguidas, e a pobreza se confundia com destino.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 rompeu, ao menos em parte, com esse sistema fechado. Get\u00falio Vargas assumiu o poder e, pressionado por for\u00e7as populares e por uma nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas, convocou a elabora\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o. Foi nesse cen\u00e1rio que, pela primeira vez na hist\u00f3ria brasileira, os trabalhadores elegeram representantes diretos para a Assembleia Nacional Constituinte.<\/p>\n<p>Entre eles estava Waldemar Reikdal, comunista, curitibano, metal\u00fargico, sindicalista e orador apaixonado. Sua trajet\u00f3ria come\u00e7ou na Liga dos Fundidores do Paran\u00e1, entidade que mais tarde se transformaria no Sindicato dos Trabalhadores Metal\u00fargicos da Grande Curitiba. Reikdal n\u00e3o chegou \u00e0 pol\u00edtica por convite das elites, mas pela confian\u00e7a de oper\u00e1rios que viam nele algu\u00e9m capaz de levar as reivindica\u00e7\u00f5es do ch\u00e3o de f\u00e1brica ao mais alto espa\u00e7o legislativo do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de dirigente sindical, Waldemar Reikdal foi militante hist\u00f3rico, dirigente e o primeiro presidente estadual do Partido Comunista do Brasil no Paran\u00e1, assumindo essa responsabilidade j\u00e1 em 1930, no momento mais duro da repress\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds. Ser comunista, naquele per\u00edodo, significava viver sob vigil\u00e2ncia constante, enfrentar persegui\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, isolamento social e risco permanente \u00e0 pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Reikdal n\u00e3o ocupou esse lugar por formalidade ou circunst\u00e2ncia. Sua lideran\u00e7a foi forjada na confian\u00e7a do movimento oper\u00e1rio e na coer\u00eancia pol\u00edtica. Quando o Partido p\u00f4de ser novamente legalizado em 1945, Waldemar integrava a dire\u00e7\u00e3o estadual, atuando na Secretaria de Agita\u00e7\u00e3o e Massas, fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica respons\u00e1vel por articular base social, mobiliza\u00e7\u00e3o popular, comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e forma\u00e7\u00e3o militante. Era ali, no contato direto com o povo trabalhador, que sua lideran\u00e7a se expressava com mais for\u00e7a.<\/p>\n<p>Sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sempre combinou a luta institucional, no Parlamento e nos espa\u00e7os formais do Estado, com o compromisso org\u00e2nico com o movimento oper\u00e1rio, recusando acordos de conveni\u00eancia, concess\u00f5es oportunistas ou qualquer forma de acomoda\u00e7\u00e3o ao poder econ\u00f4mico e \u00e0s elites pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Esse conjunto de escolhas explica n\u00e3o apenas sua proje\u00e7\u00e3o como lideran\u00e7a comunista no Paran\u00e1, mas tamb\u00e9m o pre\u00e7o alto que pagou por n\u00e3o se deixar domesticar: persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, tentativas de isolamento e o esfor\u00e7o permanente do Estado e das elites para silenciar uma voz que n\u00e3o se vendia. Ainda assim, Waldemar Reikdal permaneceu fiel ao que acreditava e \u00e9 justamente essa fidelidade que o consagra como camarada, dirigente e refer\u00eancia hist\u00f3rica das lutas populares no Brasil.<\/p>\n<p>Reikdal compreendia que a luta pelos direitos trabalhistas n\u00e3o podia ser dissociada da cr\u00edtica ao poder econ\u00f4mico que capturava o Estado, favorecia monop\u00f3lios e oligop\u00f3lios, e cooptava pol\u00edticos com promessas, privil\u00e9gios e corrup\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica. Seus discursos denunciavam n\u00e3o apenas a repress\u00e3o policial e as falhas das leis sociais, mas tamb\u00e9m como setores dominantes, aliados a grandes interesses industriais e agr\u00edcolas que dominavam o pa\u00eds, pressionavam o Congresso para impedir reformas profundas e proteger seus privil\u00e9gios. Essa posi\u00e7\u00e3o ferreamente independente tornou-o uma pedra no sapato das elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas e constituiu um dos motivos centrais das persegui\u00e7\u00f5es que sofreu ao longo da d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, essa trajet\u00f3ria foi reconhecida publicamente em uma homenagem <em>in memoriam<\/em> realizada pelo Sindicato dos Trabalhadores Metal\u00fargicos da Grande Curitiba, n\u00e3o como gesto protocolar, mas como ato de mem\u00f3ria, respeito hist\u00f3rico e inspira\u00e7\u00e3o para novas lutas. A homenagem foi recebida por seu \u00fanico filho vivo, Waldemar Reikdal Filho, ent\u00e3o com 100 anos, em um momento carregado de emo\u00e7\u00e3o e significado pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ao recordar as pris\u00f5es, as persegui\u00e7\u00f5es e o isolamento imposto ao pai como forma de mant\u00ea-lo vivo, inclusive pela sua recusa em \u201cser vendido\u201d a interesses econ\u00f4micos que queriam domesticar sua voz, sua fala silenciou o p\u00fablico e marcou profundamente os presentes:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas n\u00e3o sabem o que a dignidade do meu pai custou \u00e0 nossa fam\u00edlia\u2026 mas valeu a pena.\u201d<\/p>\n<p><strong>A Constituinte de 1934: trabalho, dignidade e conflito<\/strong><\/p>\n<p>Na Assembleia, Waldemar Reikdal teve uma atua\u00e7\u00e3o parlamentar intensa, combativa e coerente com sua origem de classe. Foi um dos principais nomes da chamada <em>minoria prolet\u00e1ria<\/em>, grupo que se colocou em oposi\u00e7\u00e3o tanto \u00e0s oligarquias tradicionais quanto \u00e0s tentativas do governo Vargas de controlar o movimento oper\u00e1rio por meio de leis sociais incompletas e repress\u00e3o policial.<\/p>\n<p>Seus principais eixos de atua\u00e7\u00e3o foram claros e reiterados em discursos e interven\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ul>\n<li>Defesa intransigente dos direitos trabalhistas, como o sal\u00e1rio m\u00ednimo, a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, o repouso semanal e as f\u00e9rias remuneradas;<\/li>\n<li>Combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o salarial, denunciando diferen\u00e7as de remunera\u00e7\u00e3o por g\u00eanero, idade, nacionalidade ou estado civil;<\/li>\n<li>Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia trabalhadora, defendendo a proibi\u00e7\u00e3o do trabalho para menores de 14 anos;<\/li>\n<li>Previd\u00eancia Social, afirmando a aposentadoria como direito e n\u00e3o como favor;<\/li>\n<li>Indeniza\u00e7\u00e3o por demiss\u00e3o sem justa causa, reconhecendo a vulnerabilidade do trabalhador diante do poder patronal;<\/li>\n<li>Direito de greve, entendido n\u00e3o como concess\u00e3o do Estado, mas como instrumento hist\u00f3rico de resist\u00eancia do proletariado.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Essas posi\u00e7\u00f5es estavam longe de ser consensuais. Pelo contr\u00e1rio: a Assembleia Constituinte de 1933-1934 foi atravessada por <strong>embates duros e violentos<\/strong>, nos quais Waldemar Reikdal se destacou como uma das vozes mais firmes contra a repress\u00e3o estatal ao movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio mais emblem\u00e1tico foi a <strong>Chacina da Pra\u00e7a Tiradentes<\/strong><strong>,<\/strong> ocorrida em <strong>23 de agosto de 1934<\/strong>, no Rio de Janeiro. Naquele dia, trabalhadores e trabalhadoras de diversos sindicatos haviam participado de um congresso oper\u00e1rio no Teatro Jo\u00e3o Caetano. Ao deixarem o local, decidiram estender o protesto \u00e0s ruas, entoando palavras de ordem <strong>contra a guerra, o fascismo e o integralismo<\/strong>, express\u00f5es do clima internacional e nacional de avan\u00e7o autorit\u00e1rio que j\u00e1 amea\u00e7ava direitos e liberdades.<\/p>\n<p>A resposta do Estado foi brutal. A pol\u00edcia cercou os manifestantes de forma trai\u00e7oeira e abriu repress\u00e3o violenta contra um grupo <strong>desarmado<\/strong>, que se dispersava e retornava \u00e0s suas casas. O saldo foi de <strong>trabalhadores e trabalhadoras mortas e dezenas de feridos<\/strong><strong>,<\/strong> num epis\u00f3dio que o governo tentou minimizar como \u201cconflito\u201d, mas que a bancada prolet\u00e1ria denunciou como massacre.<\/p>\n<p>Na tribuna da Constituinte, Reikdal n\u00e3o aceitou a narrativa oficial. Chamou os mortos de <strong>m\u00e1rtires da viol\u00eancia policial<\/strong>, denunciou a a\u00e7\u00e3o como uma <strong>chacina praticada pelo<\/strong><strong> <\/strong><strong>Estado<\/strong> e acusou a C\u00e2mara de ser estruturalmente indiferente aos interesses da classe trabalhadora. Em um de seus discursos mais contundentes, afirmou que aquela Casa fora organizada para proteger as institui\u00e7\u00f5es burguesas e n\u00e3o para garantir a vida, a dignidade e os direitos do proletariado.<\/p>\n<p>Ao fazer isso, Reikdal rompeu com o pacto de sil\u00eancio que tentava naturalizar a repress\u00e3o. Sua fala exp\u00f4s uma verdade inc\u00f4moda: enquanto se discutiam direitos sociais no papel, o Estado seguia tratando a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores como caso de pol\u00edcia. A chacina da Pra\u00e7a Tiradentes tornou-se, assim, s\u00edmbolo do limite daquela Constituinte e da coragem de quem ousou dizer isso em voz alta, diante do poder. Contra a repress\u00e3o e o controle dos trabalhadores<\/p>\n<p>Waldemar Reikdal tamb\u00e9m se destacou como um dos mais duros cr\u00edticos do Minist\u00e9rio do Trabalho do governo Vargas. Para ele, o \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o cumpria as leis sociais que anunciava e funcionava, na pr\u00e1tica, como instrumento de conten\u00e7\u00e3o e disciplinamento do movimento sindical. Em discursos hist\u00f3ricos, afirmou que os trabalhadores que confiaram cegamente nas leis sociais foram \u201camargamente prejudicados\u201d, abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte diante da viol\u00eancia patronal e policial.<\/p>\n<p>Sua posi\u00e7\u00e3o sobre o direito de greve sintetiza sua vis\u00e3o pol\u00edtica. Quando a Constitui\u00e7\u00e3o de 1934 suprimiu esse direito do texto final, Reikdal fez um pronunciamento que atravessou o tempo:<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas acham que n\u00f3s vamos parar de lutar porque esse direito n\u00e3o est\u00e1 escrito na Constitui\u00e7\u00e3o? N\u00e3o se enganem. N\u00f3s vamos continuar lutando, independente da lei.\u201d<\/p>\n<p>Ali estava sua compreens\u00e3o profunda da pol\u00edtica: a lei pode reconhecer direitos, mas n\u00e3o os cria sozinha. Eles nascem da luta.<\/p>\n<p><strong>Persegui\u00e7\u00e3o, coer\u00eancia e legado<\/strong><\/p>\n<p>Essa atua\u00e7\u00e3o parlamentar teve custos altos. Reikdal foi preso diversas vezes, sofreu persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e recusou propostas para abandonar sua milit\u00e2ncia. A repress\u00e3o e o isolamento pol\u00edtico impediram sua reelei\u00e7\u00e3o, num contexto em que o governo buscava afastar da C\u00e2mara representantes genu\u00ednos do movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ainda assim, sua passagem pela Constituinte deixou marcas duradouras. Muitas das conquistas consolidadas em 1934 serviram de base para a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista posterior e moldaram o imagin\u00e1rio de direitos no Brasil urbano-industrial.<\/p>\n<p><strong>Li\u00e7\u00f5es para a cidadania e para o presente<\/strong><\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Waldemar Reikdal ensina que:<\/p>\n<ol start=\"1\">\n<li>A democracia se fortalece quando o povo trabalhador ocupa os espa\u00e7os de decis\u00e3o;<\/li>\n<li>Direitos sociais n\u00e3o s\u00e3o d\u00e1divas do Estado, mas conquistas arrancadas pela organiza\u00e7\u00e3o coletiva;<\/li>\n<li>\u00c9 poss\u00edvel exercer a pol\u00edtica com integridade, mesmo sob press\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o e amea\u00e7a;<\/li>\n<li>A representa\u00e7\u00e3o de classe transforma o Parlamento de espa\u00e7o de privil\u00e9gio em arena de disputa por justi\u00e7a social.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Lembrar de Waldemar Reikdal n\u00e3o \u00e9 apenas recordar um deputado. \u00c9 lembrar que, quando a voz do ch\u00e3o de f\u00e1brica entra na Constitui\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o pede licen\u00e7a, ela escreve hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/2026\/02\/02\/quando-a-voz-comunista-do-chao-de-fabrica-ecoa-na-constituicao\/\">Quando a voz comunista do ch\u00e3o de f\u00e1brica ecoa na Constitui\u00e7\u00e3o<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/\">Vermelho<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/aposta-na-cop30-biocombustiveis-tem-desafios-de-sustentabilidade-na-producao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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