{"id":73329,"date":"2026-02-05T16:13:20","date_gmt":"2026-02-05T19:13:20","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/democracia-participativa-um-possivel-drible-nas-big-techs\/"},"modified":"2026-02-05T16:13:20","modified_gmt":"2026-02-05T19:13:20","slug":"democracia-participativa-um-possivel-drible-nas-big-techs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/democracia-participativa-um-possivel-drible-nas-big-techs\/","title":{"rendered":"Democracia participativa: Um poss\u00edvel drible nas big techs"},"content":{"rendered":"<figure><figcaption>Arte: Yi Lu\/ iStock<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Democracia em xeque<\/strong><\/p>\n<p>Desde o fim da ditadura militar (1964-1985), o Estado brasileiro estabeleceu pol\u00edticas para comunidades ind\u00edgenas, de aten\u00e7\u00e3o ao idoso e de reconhecimento e prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+, envolvendo atores desses pr\u00f3prios grupos em sua formula\u00e7\u00e3o. Entre 2003 e 2016, muitas confer\u00eancias municipais, estaduais e nacionais foram realizadas, chegando a milhares. Quatro mil pontos de cultura foram ainda implantados no per\u00edodo. Alguns conselhos est\u00e3o presentes em 98% dos munic\u00edpios brasileiros. At\u00e9 recentemente, t\u00ednhamos entre 60 e 65 mil conselhos no Brasil: h\u00e1 mais conselheiros da sociedade civil do que vereadores. Essa diversidade e pot\u00eancia de mecanismos de controle social s\u00e3o indicativos da qualidade da democracia brasileira<sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>O per\u00edodo que se sucedeu, de 2016-2022, foi conhecido como o per\u00edodo da \u201ccrise da democracia\u201d aqui \u2014 e no mundo. Testemunhamos o golpe contra Dilma Rousseff no Brasil, a vit\u00f3ria de 2016 de Donald Trump nos Estados Unidos e o Brexit \u2014 sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia \u2014 no Velho Continente e a ascens\u00e3o das democracias iliberais na Hungria e na Turquia, assim como a consolida\u00e7\u00e3o deste mesmo sistema de regime na R\u00fassia<sup>2<\/sup>. Nesse per\u00edodo, observamos, portanto, um novo modelo de conex\u00e3o entre poder pol\u00edtico e apelo popular por meio da instrumentaliza\u00e7\u00e3o das m\u00eddias sociais e o cultivo de comunidades circunscritas a \u201cbolhas de informa\u00e7\u00e3o\u201d. Vimos surgir tamb\u00e9m, no interior destas bolhas, o cultivo da p\u00f3s-verdade \u2014 ou, em linguagem mais direta, as fake news<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/3Semana-5-1110-Autores-OP-DowborFinancismo-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/3Semana-5-1110-Autores-OP-DowborFinancismo-1.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181010\/3.Semana-5-11.10-Autores-OP-DowborFinancismo-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Isso foi um movimento planejado: desde 2012, o Facebook tem realizado experimentos de manipula\u00e7\u00e3o de comportamento de massa em larga escala<sup>4<\/sup>, e a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia (Brexit) e o esc\u00e2ndalo da Cambridge Anal\u00edtica s\u00e3o somente dois casos exemplares, dentre muitos, de emprego de redes sociais para manipular setores da opini\u00e3o p\u00fablica em per\u00edodos eleitorais<sup>5<\/sup> e cotidianamente.<\/p>\n<p>Em que pese o ocorrido, esses expedientes se mant\u00eam at\u00e9 hoje e a dificuldade de legislar sobre a p\u00f3s-verdade (fake news) ainda permanece, amea\u00e7ando as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas<sup>6<\/sup>. Dentro desse novo ambiente, encontramos uma nova ind\u00fastria cultural, laborat\u00f3rios sociais que gestam tecnologias de controle de comportamento coletivo e de incid\u00eancia ideol\u00f3gica massiva<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>A pandemia aprofundou a media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nas rela\u00e7\u00f5es sociais e escancarou essas contradi\u00e7\u00f5es. Hoje, a participa\u00e7\u00e3o social est\u00e1 imersa neste contexto: reuni\u00f5es colegiadas ocorrem em um ambiente de intenso fluxo informacional, e o processo pol\u00edtico, de modo geral, sofre forte influ\u00eancia dos processos de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A democracia participativa sempre foi \u2014 e, hoje, mais do que nunca \u2014 a comunica\u00e7\u00e3o entre pessoas. Na atualidade, os formatos tradicionais de reuni\u00e3o \u2014 como as colegiadas e as plen\u00e1rias, com origens nos s\u00e9culos XIX e XX \u2014 precisam coexistir com novas formas de mobiliza\u00e7\u00e3o de massa, instrumentalizadas pela tecnologia e pela intelig\u00eancia artificial. O quarto poder sofreu um traslado: migrou das reda\u00e7\u00f5es da imprensa para os subterr\u00e2neos das redes sociais dos games e da IA. De l\u00e1, procuram incidir, e orquestrar, o processo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o cumpre um papel importante na tessitura dessa nova realidade, ao operar como um vetor organizador em ambientes sociais complexos, conferindo dire\u00e7\u00e3o a coletivos dispersos. Mas como funciona a constru\u00e7\u00e3o dessa polariza\u00e7\u00e3o? Qual \u00e9 a sua mec\u00e2nica?<\/p>\n<p><strong>O papel da polariza\u00e7\u00e3o no desmonte da democracia<\/strong><\/p>\n<p>Um dos primeiros experimentos de que se tem not\u00edcia de promo\u00e7\u00e3o de polariza\u00e7\u00e3o foi a transmiss\u00e3o ao vivo de uma decapita\u00e7\u00e3o promovida pelo ISIS em 2015. Frances Larson, em mat\u00e9ria para a CNN<sup>8<\/sup> relembra que decapita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas sempre foram, historicamente, tanto um recurso de espet\u00e1culo quanto de dissemina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Nesse contexto, o ato do Estado Isl\u00e2mico mirou diretamente nos milh\u00f5es de espectadores online, expostos \u00e0s imagens chocantes antes que qualquer mecanismo de controle pudesse conter sua dissemina\u00e7\u00e3o viral. Como diz a autora, est\u00e1vamos \u201chorrorizados demais para assistir, mas fascinados demais para desviar o olhar\u201d. A exposi\u00e7\u00e3o a esse conte\u00fado extremo teve um efeito contra-pedag\u00f3gico na sociedade: o apagamento de nuances pol\u00edticas do debate p\u00fablico e sua substitui\u00e7\u00e3o por uma avalia\u00e7\u00e3o moral de curto prazo. Aquelas pessoas mereciam ou n\u00e3o ser decapitadas? Quais s\u00e3o os crit\u00e9rios de merecimento? O que gerou aquela situa\u00e7\u00e3o? Quais s\u00e3o os lados envolvidos?<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg 729w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/06\/01180420\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Certamente esse debate foi objeto de uma reflex\u00e3o aprofundada fora das redes sociais, mas, dentro delas, aconteceu no ritmo ditado pelas estrat\u00e9gias de forma\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o caracter\u00edstico das disputas internas dos regimes de economia da aten\u00e7\u00e3o<sup>9<\/sup>. Quando esses debates aconteceram, j\u00e1 era tarde. Um julgamento p\u00fablico em larga escala j\u00e1 havia sido institu\u00eddo. Desse julgamento ausente de debate, emerge a seguinte pergunta: afinal, voc\u00ea \u00e9 a favor ou contra isso? Isto acaba desenhando um retrato de <em>percep\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria<\/em>. E, por sua vez, a r\u00e1pida substitui\u00e7\u00e3o dessa \u201cpauta de choque\u201d por outra, e depois por outra e mais outra\u2026 O resultado: a minora\u00e7\u00e3o da possibilidade de um debate p\u00fablico nuan\u00e7ado, sedimentado pelo tempo, ao mesmo tempo que canalizou a discuss\u00e3o para uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica utilizada para isso chama-se <em>refor\u00e7o de aprendizado por compara\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria <\/em>(pair-wise), popularizada pelo app tinder e a plataforma appgree<sup>10<\/sup>. Uma t\u00e9cnica que permite voc\u00ea n\u00e3o s\u00f3 perceber a vontade majorit\u00e1ria, mas tamb\u00e9m induzi-la por meio de oferta seletiva de op\u00e7\u00f5es de escolha \u2014 um controle de agenda. \u00c9 sabido desde o s\u00e9culo XVIII que a vontade majorit\u00e1ria e os valores coletivos s\u00e3o distintos. Uma escolha pontual, ou mesmo uma s\u00e9rie delas, \u00e9 incapaz de revelar um regime complexo de valores<sup>11<\/sup> <sup>12<\/sup>.<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia tem sido utilizada no intento de suplantar o espa\u00e7o da participa\u00e7\u00e3o social no Estado democr\u00e1tico de direito. A participa\u00e7\u00e3o social, dita formal, disputa hoje com uma participa\u00e7\u00e3o constru\u00edda por meio da manipula\u00e7\u00e3o de redes de intelig\u00eancia coletiva<sup>13<\/sup>. A primeira forma busca um consenso constru\u00eddo e legitimado socialmente. O segundo objetivo, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 formar um consenso, mas sim construir e orientar uma opini\u00e3o majorit\u00e1ria. Ambos, portanto, s\u00e3o intentos de legitimar a a\u00e7\u00e3o p\u00fablica ao dar voz ao substrato social por meio do engajamento do \u201ccidad\u00e3o comum\u201d. No entanto, partem de premissas e utilizam m\u00e9todos diametralmente opostos para alcan\u00e7ar esse fim.<\/p>\n<p>Sob essa \u00f3tica, a a\u00e7\u00e3o de Claudio Castro de invadir o Morro do Alem\u00e3o e promover uma chacina pode ser compreendida como um ato de espetaculariza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie, em nada diferente das decapita\u00e7\u00f5es e enforcamentos em pra\u00e7a p\u00fablica de outrora. Desta forma, a participa\u00e7\u00e3o social contempor\u00e2nea parece se restringir a esse clima de rea\u00e7\u00e3o a fatos extremos, produzidos em s\u00e9rie. Ao menos, \u00e9 essa a narrativa que conv\u00e9m \u00e0queles que promovem e se beneficiam dessa estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o social ocorre hoje, portanto, de maneira dual. H\u00e1 uma participa\u00e7\u00e3o formal, que acontece no \u00e2mbito normativo do Estado, e uma participa\u00e7\u00e3o informal, que acontece no \u00e2mbito do mercado e das redes sociais, que disputa cora\u00e7\u00f5es e mentes ao despertar a aten\u00e7\u00e3o do campo pol\u00edtico \u2014 a despeito de seu vi\u00e9s de incid\u00eancia e desatino democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Fl\u00e1vio da Cunha Rezende, cientista pol\u00edtico, doutor por Cornell e professor do departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade Federal de Pernambuco, em seu texto <em>Por que as reformas administrativas falham<\/em>, aponta: h\u00e1 uma tens\u00e3o entre controle e execu\u00e7\u00e3o em pr\u00e1ticas de gest\u00e3o, e nas pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o \u00e9 diferente. Grosso modo, o controle da a\u00e7\u00e3o p\u00fablica tornaria a pol\u00edtica burocr\u00e1tica e ineficiente, e quanto mais complexa a pol\u00edtica, maior essa tens\u00e3o<sup>14<\/sup>. Devemos, ent\u00e3o, simplificar a a\u00e7\u00e3o p\u00fablica, diminuindo o seu controle externo para aumentar sua efici\u00eancia, e assim responder aos anseios da sociedade? A resposta para esse questionamento \u00e9 um categ\u00f3rico \u201cn\u00e3o\u201d. A solu\u00e7\u00e3o, face a este desafio, reside na moderniza\u00e7\u00e3o radical do controle social. Mas o que significa isso?<\/p>\n<p><strong>E se a participa\u00e7\u00e3o fosse um jogo?<\/strong><\/p>\n<p>Modernizar o controle social significa resgatar nossa hist\u00f3ria democr\u00e1tica e dar nova for\u00e7a a ela: podemos implantar uma tecnologia que permita que conselheiros proponham a\u00e7\u00f5es, as compartilhem, as priorizem por meio de vota\u00e7\u00f5es sucessivas e, depois, as consolidem em propostas. Desse modo, os atores envolvidos passam a se conhecer mutuamente, forjando uma imagem viva dos anseios da sociedade \u2014 organizados de forma democr\u00e1tica, aberta, transparente e eficiente. Esse processo permite que demandas hist\u00f3ricas dos conselhos, acumuladas ao longo de confer\u00eancias municipais, ganhem relev\u00e2ncia local e se consolidem como uma mem\u00f3ria tang\u00edvel da participa\u00e7\u00e3o. Uma mem\u00f3ria que pode n\u00e3o s\u00f3 ser apresentada a toda a popula\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m ser continuamente enriquecida por ela, por meio de canais democr\u00e1ticos de participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E se, de maneira ass\u00edncrona, voc\u00ea pudesse participar na elabora\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o de pol\u00edticas priorit\u00e1rias para o seu bairro e cidade? E se, tanto idosos quanto jovens, tivessem o mesmo peso que adultos economicamente ativos no desenho dessas pol\u00edticas? Estamos falando, portanto, de participa\u00e7\u00e3o social em escala, condi\u00e7\u00e3o em que aqueles que participam t\u00eam consci\u00eancia do seu papel no <em>teatro de opera\u00e7\u00f5es apresentado<\/em>. Essa tecnologia j\u00e1 existe, pasme! E est\u00e1 sendo oferecida em forma de tecnologia piloto (vers\u00e3o beta) \u00e0 Escola do Tribunal de Contas do Munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo<sup>15<\/sup>.<\/p>\n<p>Ao usar o aplicativo teste, os conselheiros, depois o cidad\u00e3o, ir\u00e3o participar de um movimento coletivo, como uma onda ou um enxame, s\u00f3 que de gente. O que orienta a forma e a dire\u00e7\u00e3o dessa onda s\u00e3o os likes dos usu\u00e1rios nas postagens l\u00e1 presentes. \u00c9 um jogo, portanto, uma competi\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o de vontade coletiva cujo objetivo \u00e9 reunir for\u00e7as para que propostas espec\u00edficas prevale\u00e7am sobre as demais, e que as vencedoras sejam acatadas pela autoridade do jogo e pelos participantes.<\/p>\n<p>O aplicativo apresenta semelhan\u00e7as com uma rede social, portanto, com a diferen\u00e7a de que o conte\u00fado apresentado ao conjunto de jogadores n\u00e3o \u00e9 filtrado por um algoritmo. Todos tomam posi\u00e7\u00e3o frente a um mesmo objeto, a vontade coletiva, apresentada em um painel onde \u00e9 poss\u00edvel observar as prefer\u00eancias coletivas subindo e descendo, como em uma bolsa de valores. Essa estrat\u00e9gia equaliza a possibilidade de participa\u00e7\u00e3o e de valora\u00e7\u00e3o das diferentes proposi\u00e7\u00f5es, permitindo compara\u00e7\u00f5es estatisticamente rigorosas entre categorias diferentes e assignificantes de proposi\u00e7\u00e3o. Grupos de trabalho colegiados, em um segundo momento, consolidam essas propostas, dando sentido narrativo ao conjunto de proposi\u00e7\u00f5es levantadas e priorizadas.<\/p>\n<p>Existir um espa\u00e7o como esse n\u00e3o eliminaria a manipula\u00e7\u00e3o de ambientes de intelig\u00eancia coletiva, como as redes sociais, de certo, e tampouco evitaria a consolida\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es majorit\u00e1rias, eventualmente contradit\u00f3rias. Mas, experimentos apontam que, mesmo nessas condi\u00e7\u00f5es, ambientes de intelig\u00eancia coletiva alternativos, democraticamente constru\u00eddos, podem dar luz a vis\u00f5es plurais n\u00e3o polarizadas, localmente circunstanciadas, e com horizonte tang\u00edvel para uma express\u00e3o democr\u00e1tica popular e cidad\u00e3 em larga escala<sup>16<\/sup>. Isso j\u00e1 foi testado e os resultados s\u00e3o promissores. Expediente semelhante foi testado junto aos atingidos pelo Rio Doce, com sucesso, e os resultados desse experimento foram estatisticamente validados. No caso, esse experimento poder\u00e1 oferecer um contraponto ao cen\u00e1rio apresentado pelas redes sociais, no que toca ao anseio da popula\u00e7\u00e3o sobre o or\u00e7amento p\u00fablico, e tudo isso sob a guarda legal de um \u00f3rg\u00e3o de controle, o TCM, e de uma rede de institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Isso mostra que, para al\u00e9m de digitalizar expedientes burocr\u00e1ticos de controle, algo que pode ser feito por IA, a tecnologia pode mudar as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas e as institui\u00e7\u00f5es, alterando o desenho do controle social. O Brasil \u00e9 um celeiro de v\u00e1rias metodologias inovadoras de participa\u00e7\u00e3o social. Juntas, podem renovar e fortalecer o curso da democracia. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sem tempo.<\/p>\n<p><em>[Texto baseado em fala realizada no 4\u00ba Semin\u00e1rio Internacional da Academia Paulista de Direito, em 30\/10\/2025, S\u00e3o Paulo, Faculdade de Direito do Largo S\u00e3o Francisco].<\/em><\/p>\n<hr>\n<p><strong>Bibliografia:<\/strong><\/p>\n<p>BEZERRA, Carla De Paiva <em>et al.<\/em> Entre a Desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o e a Resili\u00eancia: Participa\u00e7\u00e3o Institucional no Governo Bolsonaro. <strong>Dados<\/strong>, v. 67, n. 4, p. e20220118, 2024.<\/p>\n<p>CENTOLA, Damon. The Spread of Behavior in an Online Social Network Experiment. <strong>Science<\/strong>, v. 329, n. 5996, p. 1194\u20131197, 3 set. 2010.<\/p>\n<p>CENTOLA, Damon <em>et al.<\/em> Experimental evidence for tipping points in social convention. <strong>Science<\/strong>, v. 360, n. 6393, p. 1116\u20131119, 8 jun. 2018.<\/p>\n<p>CENTOLA, Damon. The network science of collective intelligence. <strong>Trends in Cognitive Sciences<\/strong>, v. 26, n. 11, p. 923\u2013941, nov. 2022.<\/p>\n<p>EPSTEIN, Isaac. O paradoxo de Condorcet e a crise da democracia representativa. <strong>Estudos Avan\u00e7ados<\/strong>, v. 11, n. 30, p. 273\u2013291, ago. 1997.<\/p>\n<p>FARKAS, Johan; JANNIK, Schoui. <strong>Post-truth, fake news and democracy: Mapping the politics of falsehood<\/strong>. <em>[S.l.]<\/em>: Routledge, 2023.<\/p>\n<p>LARSON, F. ISIS Beheadings: Why We\u2019re Too Horrified to Watch, Too Fascinated to Turn Away. <strong>CNN iReport<\/strong>, 2015.<\/p>\n<p>LAVALLE, Adrian G. <em>et al.<\/em> A voz das comunidades: constru\u00e7\u00e3o de problemas e propostas nos territ\u00f3rios ao longo do tempo. <em>In<\/em>: <strong>Desastre e Desgoverno no Rio Doce Atores e institui\u00e7\u00f5es na governan\u00e7a do desastre.<\/strong> Rio De janeiro: Garamond, 2021.<\/p>\n<p>LAVALLE, Adrian Gurza; VOIGT, Jessica; SERAFIM, Lizandra. O que Fazem os Conselhos e Quando o Fazem? Padr\u00f5es Decis\u00f3rios e o Debate dos Efeitos das Institui\u00e7\u00f5es Participativas. <strong>Dados<\/strong>, v. 59, n. 3, p. 609\u2013650, set. 2016.<\/p>\n<p>LOEWENSTEIN, George; WOJTOWICZ, Zachary. The Economics of Attention. <strong>CESifo Working Paper no. 10712<\/strong>, 2024.<\/p>\n<p>REZENDE, Flavio da Cunha. Por que as reformas administrativas falham. <strong>Revista Brasileira de Ci\u00eancias Sociais<\/strong>, p. 123\u2013142, 2002.<\/p>\n<p>REZENDE, Flavio da Cunha. The Implementation Problem of New Public Management Reforms. <strong>The International Public Management Review<\/strong>, p. 40\u201365, 2008.<\/p>\n<p>ROJAS BUVINICH, Danitza Passamai. O mapeamento da institucionaliza\u00e7\u00e3o dos conselhos gestores de pol\u00edticas p\u00fablicas nos munic\u00edpios brasileiros. <strong>Revista de Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica<\/strong>, v. 48, n. 1, p. 55\u201382, fev. 2014.<\/p>\n<p>SEN, Amartya. The possibility of social choice. <em>In<\/em>: <strong>Shaping Entrepreneurship Research<\/strong>. <em>[S.l.]<\/em>: Routledge, 2020. p. 298\u2013339.<\/p>\n<p>ZAKARIA, Fareed. The Rise of Illiberal Democracy. <strong>Foreign Affairs<\/strong>, v. 76, n. 6, p. 22, 1997.<\/p>\n<p>ZHU, Banghua; JORDAN, Michael I.; JIAO, Jiantao. Principled Reinforcement Learning with Human Feedback from Pairwise or K-wise Comparisons. <strong>Proceedings of the 40th International Conference on Machine Learning<\/strong>, 2023.<\/p>\n<p>ZUBBOF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. <strong>The fight for a human future at the new frontier of power<\/strong>, 2019.<\/p>\n<p>ZUBOFF, Shoshana. Surveillance Capitalism or Democracy? The Death Match of Institutional Orders and the Politics of Knowledge in Our Information Civilization. <strong>Organization Theory<\/strong>, v. 3, n. 3, p. 26317877221129290, jul. 2022.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1 Rojas Buvinich, 2014; Lavalle; Voigt; Serafim, 2016; Bezerra et al., 2024<\/p>\n<p>2 Zakaria, 1997<\/p>\n<p>3 Zubbof, 2019; Zuboff, 2022; Farkas; Jannik, 2023<\/p>\n<p>4 https:\/\/spectrum.ieee.org\/facebooks-secret-experiment-a-sign-that-the-era-of-manipulation-has-begun<\/p>\n<p>5 https:\/\/motherboard.vice.com\/en_us\/article\/big-data-cambridge-analytica-brexit-trump<\/p>\n<p>6 https:\/\/www.gov.br\/agu\/pt-br\/comunicacao\/revista-farol\/2a_edicao_revista_agu_2024.pdf<\/p>\n<p>7 Zubbof, 2019; Centola et al., 2018; Centola, 2010<\/p>\n<p>8 Larson, 2015<\/p>\n<p>9 Loewenstein; Wojtowicz, 2024<\/p>\n<p>10 Zhu; Jordan; Jiao, 2023<\/p>\n<p>11 Epstein, 1997; Sen, 2020<\/p>\n<p>12 Basicamente, isso se d\u00e1 porque a vontade, individual ou coletiva \u00e9 intransitiva. Grosso modo, se uma pessoa gosta mais de morango que de cereja, e gosta mais de lichia do que de morango, nada garante que ela goste mais de lichia do que cereja. O mesmo se aplica a coletivos.<\/p>\n<p>13 Centola, 2022<\/p>\n<p>14 Rezende, 2002, 2008<\/p>\n<p>15 <u>https:\/\/escoladecontas.tcm.sp.gov.br\/noticias\/detalhe\/78933<\/u><\/p>\n<p>16 LaValle et al., 2021<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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