{"id":73339,"date":"2026-02-05T17:45:39","date_gmt":"2026-02-05T20:45:39","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-eclipse-do-direito-internacional\/"},"modified":"2026-02-05T17:45:39","modified_gmt":"2026-02-05T20:45:39","slug":"o-eclipse-do-direito-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-eclipse-do-direito-internacional\/","title":{"rendered":"O eclipse do direito internacional"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"746\" height=\"493\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/photo_4911431266784185206_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/photo_4911431266784185206_x.jpg 746w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/05174216\/photo_4911431266784185206_x-300x198.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 746px) 100vw, 746px\"><\/figure>\n<h3><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Na madrugada de s\u00e1bado, 3 de janeiro de 2026, o presidente Donald Trump, ordenou o in\u00edcio de uma interven\u00e7\u00e3o militar na Rep\u00fablica Bolivariana Venezuela. O objetivo declarado da opera\u00e7\u00e3o foi a captura e extradi\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do presidente Nicol\u00e1s Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Ambos foram detidos em um complexo residencial em Caracas e transferidos para os Estados Unidos, onde permanecem em um pres\u00eddio federal no Brooklyn, em Nova York, aguardando julgamento por acusa\u00e7\u00f5es de \u201cnarcoterrorismo\u201d.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o militar, batizada de \u201cOpera\u00e7\u00e3o Resolu\u00e7\u00e3o Absoluta\u201d foi precedida por um ataque cibern\u00e9tico que mergulhou o pa\u00eds na escurid\u00e3o, deixando vastas \u00e1reas do territ\u00f3rio venezuelano sem energia el\u00e9trica. A interrup\u00e7\u00e3o dos sistemas de comunica\u00e7\u00e3o e defesa permitiu que as tropas estadunidenses atuassem sob o silencio dos radares e o caos generalizado. A opera\u00e7\u00e3o foi acompanhada por bombardeios a\u00e9reos em Caracas, resultando na morte de cerca de 100 pessoas, entre civis e militares.<\/p>\n<p>Diante desses acontecimentos, a pergunta que ecoou no cen\u00e1rio internacional n\u00e3o foi apenas sobre a legalidade da a\u00e7\u00e3o, mas sobre como o sistema internacional permitiu que se chegasse a este ponto.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-4.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180426\/1.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A resposta a essa quest\u00e3o \u00e9 mais complexa do que parece. Ela n\u00e3o reside apenas nos escombros deixados em Caracas, mas na in\u00e9rcia concreta das institui\u00e7\u00f5es multilaterais diante um padr\u00e3o crescente de expansionismo e unilateralismo. As estruturas concebidas para conter a desordem global e limitar o uso arbitr\u00e1rio da for\u00e7a t\u00eam se mostrado incapazes de enfrentar as assimetrias de poder que caracterizam o sistema internacional contempor\u00e2neo. O que ocorreu na Venezuela n\u00e3o surge como um desvio excepcional, mas como a manifesta\u00e7\u00e3o mais recente de uma paralisia institucional constru\u00edda ao longo dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Essa paralisia se consolidou quando o mundo assistiu, de forma silenciosa ou retoricamente indignada, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da Faixa de Gaza, \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas incompat\u00edveis com o direito internacional humanit\u00e1rio e, posteriormente, \u00e0 valida\u00e7\u00e3o t\u00e1cita do ataque conduzido por Israel e pelos Estados Unidos contra o Ir\u00e3, na chamada Opera\u00e7\u00e3o Midnight Hammer, em junho de 2025. Esses epis\u00f3dios n\u00e3o apenas permanecem largamente impunes, como tamb\u00e9m reconfiguraram os limites do aceit\u00e1vel no uso da for\u00e7a.<\/p>\n<p>No dia seguinte \u00e0 invas\u00e3o da Venezuela, repetiu-se uma coreografia diplom\u00e1tica j\u00e1 conhecida: notas oficiais de condena\u00e7\u00e3o, reuni\u00f5es de emerg\u00eancia no Conselho de Seguran\u00e7a e apelos fervorosos \u00e0 Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas. O debate concentrou-se, em grande medida, na ideia de um governo norte-americano fora de controle. No entanto, tratar a invas\u00e3o de Caracas como um caso isolado constitui um erro de perspectiva. O que se observa n\u00e3o \u00e9 um surto moment\u00e2neo de unilateralismo, mas uma escalada de interven\u00e7\u00f5es amparadas por um regime de impunidade sist\u00eamica.<\/p>\n<p>A falha central, portanto, n\u00e3o reside na aus\u00eancia de normas, mas na incapacidade de faz\u00ea-las valer diante da estrutura desigual de poder no cen\u00e1rio internacional. De Gaza, onde o direito humanit\u00e1rio foi soterrado, ao Ir\u00e3, onde a soberania territorial foi bombardeada, chega-se \u00e0 Venezuela, onde a autodetermina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi anulada sob o discurso do combate ao narcoterrorismo. N\u00e3o se trata de epis\u00f3dios desconectados, mas de degraus sucessivos em um processo cont\u00ednuo de eros\u00e3o do direito internacional.<\/p>\n<p>Para compreender como essa paralisia institucional se consolidou e de que maneira a impunidade passou a operar como norma impl\u00edcita no sistema internacional, \u00e9 necess\u00e1rio retomar um caso emblem\u00e1tico ocorrido nos anos imediatamente anteriores \u00e0 interven\u00e7\u00e3o na Venezuela. A destrui\u00e7\u00e3o da Faixa de Gaza, entre 2023 e 2025, n\u00e3o apenas exp\u00f4s o colapso do direito internacional humanit\u00e1rio, como tamb\u00e9m revelou a incapacidade dos organismos multilaterais de impor limites efetivos ao uso da for\u00e7a por Estados aliados \u00e0s grandes pot\u00eancias. Gaza, nesse sentido, n\u00e3o deve ser lida como um epis\u00f3dio isolado, mas como um marco emp\u00edrico a partir do qual se tornou poss\u00edvel normalizar a\u00e7\u00f5es militares desproporcionais sem consequ\u00eancias pol\u00edticas reais.<\/p>\n<h3><strong>A fal\u00eancia humanit\u00e1ria em Gaza como alicerce da impunidade global<\/strong><\/h3>\n<p>Ap\u00f3s o ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, o Estado israelense iniciou uma s\u00e9rie de ofensivas militares na Faixa de Gaza, inicialmente justificadas sob a l\u00f3gica do direito \u00e0 autodefesa. No ent\u00e3o, \u00e0 medida que os ataques se prolongaram ao longo dos meses seguintes, essa justificativa passou a encobrir um padr\u00e3o sistem\u00e1tico de viol\u00eancia que extrapolou os limites do direito internacional humanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rios do Escrit\u00f3rio do Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) indicaram que, entre outubro de 2023 e meados de 2024, as opera\u00e7\u00f5es militares israelenses em Gaza foram marcadas por ataques desproporcionais e indiscriminados, com recorrentes ofensivas contra infraestruturas civis essenciais, especialmente instala\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. Hospitais, centros m\u00e9dicos e servi\u00e7os b\u00e1sicos foram alvos frequentes, agravando drasticamente as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o palestina em um territ\u00f3rio j\u00e1 submetido a bloqueios estruturais.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Com a continuidade do conflito naquele per\u00edodo, observou-se o colapso quase total do sistema b\u00e1sico de sa\u00fade em Gaza, consolidando um padr\u00e3o de guerra orientado pela destrui\u00e7\u00e3o em massa. O que inicialmente foi apresentado como uma resposta pontual ao ataque do Hamas transformou-se em uma ofensiva prolongada contra um territ\u00f3rio densamente povoado, afetando de forma direta e sistem\u00e1tica a popula\u00e7\u00e3o civil. Nesse contexto, diversos organismos internacionais alertaram para o risco de crimes de guerra e para a possibilidade de atos que se aproximavam da caracteriza\u00e7\u00e3o de genoc\u00eddio. O caso de Gaza n\u00e3o se apresenta como um epis\u00f3dio isolado, mas como parte de um padr\u00e3o crescente de toler\u00e2ncia internacional a a\u00e7\u00f5es militares desproporcionais justificadas por discursos de securitiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estimativas divulgadas por investiga\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, como as publicadas pelo <em>The Intercept<\/em>, apontaram para um n\u00famero extremamente elevado de v\u00edtimas palestinas, al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o generalizada de infraestruturas essenciais, incluindo sistemas de energia, abastecimento de \u00e1gua e servi\u00e7os de sa\u00fade, respectivamente. Edif\u00edcios resid\u00eancias, instala\u00e7\u00f5es civis, \u00e1reas de assentamento e estruturas de comunica\u00e7\u00e3o e transporte foram amplamente danificados ou destru\u00eddos, aprofundando a crise humanit\u00e1ria na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante esse per\u00edodo, as popula\u00e7\u00f5es civis foram submetidas a deslocamentos for\u00e7ados constantes, \u00e0 restri\u00e7\u00e3o severa de acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 aus\u00eancia de tratamento m\u00e9dico adequando. Ainda assim, grande parte dessas a\u00e7\u00f5es foi justificada pelo discurso da luta antiterrorista, frequentemente sem a apresenta\u00e7\u00e3o de provas p\u00fablicas que sustentassem a alega\u00e7\u00e3o de que alvos atingidos constitu\u00edam amea\u00e7as militares leg\u00edtimas. Esse uso recorrente da ret\u00f3rica da seguran\u00e7a contribuiu para a normaliza\u00e7\u00e3o da puni\u00e7\u00e3o coletiva como instrumento de guerra.<\/p>\n<p>A resposta da comunidade internacional, naquele contexto, foi marcada por contradi\u00e7\u00f5es. A Comiss\u00e3o Independente da ONU apontou para a exist\u00eancia de poss\u00edveis crimes de guerra, enquanto o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos cobrou investiga\u00e7\u00f5es independentes, transparentes e a responsabiliza\u00e7\u00e3o por todas as viola\u00e7\u00f5es do direito internacional humanit\u00e1rio. Paralelamente, diversos Estados, como o Brasil, manifestaram rep\u00fadio \u00e0 situa\u00e7\u00e3o vivida pelo povo palestino e defenderam solu\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas em f\u00f3runs multilaterais.<\/p>\n<p>No plano jur\u00eddico, alguns Estados deram um passo al\u00e9m. A \u00c1frica do Sul ingressou com uma a\u00e7\u00e3o contra Israel na Corte Internacional de Justi\u00e7a (CIJ), em Haia, acusando o Estado israelense de violar a Conven\u00e7\u00e3o para a Preven\u00e7\u00e3o e Puni\u00e7\u00e3o do Crime de Genoc\u00eddio em raz\u00e3o de suas opera\u00e7\u00f5es em Gaza e solicitando medidas cautelares de conten\u00e7\u00e3o. Contundo, o andamento do processo revelou os limites pr\u00e1ticos do sistema internacional de justi\u00e7a, pois os prazos para a apresenta\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias e contramem\u00f3rias est\u00e3o com previs\u00f5es para at\u00e9 2027, enquanto que, no terreno, as ofensivas prosseguiram sem interrup\u00e7\u00f5es substantivas. A lentid\u00e3o processual e a aus\u00eancia de mecanismos efetivos de cumprimento das decis\u00f5es da CIJ evidenciaram a fragilidade da aplica\u00e7\u00e3o do direito internacional, especialmente no campo dos direitos humanos e do direito humanit\u00e1rio. Na pr\u00e1tica, Israel continuou a agir como se suas condutas n\u00e3o fossem passiveis de san\u00e7\u00e3o, e a press\u00e3o diplom\u00e1tica, embora ruidosa, produziu efeitos pol\u00edticos e materiais limitados.<\/p>\n<p>Entretanto, mesmos ap\u00f3s os alertas emitidos por organismos internacionais, os pareces da CIJ sobre o risco de genoc\u00eddio e o posterior cessar-fogo, n\u00e3o foram implementados mecanismos efetivos de responsabiliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o houve san\u00e7\u00f5es significativas, interrup\u00e7\u00e3o do fluxo de armas ou puni\u00e7\u00f5es proporcionais \u00e0s viola\u00e7\u00f5es amplamente documentadas. A incapacidade dos organismos internacionais de impor limites efetivos \u00e0s ofensivas em Gaza produz um efeito normativo perigoso: transforma exce\u00e7\u00f5es em regra e legitima a\u00e7\u00f5es unilaterais futuras, sempre sob novos r\u00f3tulos securit\u00e1rios. Este descompasso entre den\u00fancias formais e aus\u00eancia de consequ\u00eancias concretas evidencia os limites do sistema multilateral contempor\u00e2neo e consolida um ambiente internacional no qual a viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de normas fundamentais tende a permanecer impune.<\/p>\n<h3><strong>O precedente de Teer\u00e3: A viola\u00e7\u00e3o da soberania territorial (Opera\u00e7\u00e3o Midnight Hammer)<\/strong><\/h3>\n<p>Se o caso de Gaza revelou a incapacidade do sistema em proteger a vida civil e o direito humanit\u00e1rio, a Opera\u00e7\u00e3o Midnight Hammer, conduzida pelos EUA contra bases militares iranianas, em junho de 2025, marcou o colapso definitivo do principio da soberania territorial e da integridade dos Estados. O cen\u00e1rio foi uma repeti\u00e7\u00e3o coreografada da securitiza\u00e7\u00e3o sem evid\u00eancias. Israel iniciou os ataques com uma s\u00e9rie de bombardeios contra instala\u00e7\u00f5es iranianas em Isfahan e Natanz, alegando agir em defesa da estabilidade regional contra uma suposta produ\u00e7\u00e3o eminente de ogivas nucleares.<\/p>\n<p>O que se viu, no entanto, foi uma das maiores controv\u00e9rsias jur\u00eddicas e diplom\u00e1ticas do s\u00e9culo. Pois enquanto o Ir\u00e3 era signat\u00e1rio do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear (TNP), submetendo suas instala\u00e7\u00f5es a inspe\u00e7\u00f5es internacionais, Israel que possui um arsenal nuclear n\u00e3o declarado e que n\u00e3o adere ao tratado, assumiu a posi\u00e7\u00e3o de \u201cxerife\u201d da regi\u00e3o atrav\u00e9s da for\u00e7a bruta. Sob a \u00f3tica do Direito Internacional, a tese de autodefesa era amplamente insustent\u00e1vel, dada a aus\u00eancia de provas concretas de uma amea\u00e7a eminente.<\/p>\n<p>Contudo, a gravidade do epis\u00f3dio atingiu outro patamar quando os Estados Unido entraram diretamente na ofensiva, utilizando os mesmos pretextos. At\u00e9 aquele momento, as transforma\u00e7\u00f5es da ordem global j\u00e1 eram eminentes, mas a situa\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o exp\u00f4s o caos sist\u00eamico. A escalada do conflito tornou-se evidente quando o governo iraniano acusou Washington de cruzar uma linha perigosa, enquanto Israel e EUA afirmavam, de forma contradit\u00f3ria, agir mediante a for\u00e7a para atingir a paz. Uma l\u00f3gica de exce\u00e7\u00e3o inclinada apenas aos interesses de poucos.<\/p>\n<p>As rea\u00e7\u00f5es posteriores demonstraram a paralisia do sistema. Para \u00f3rg\u00e3os como a ONU, existia apenas uma \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o\u201d gen\u00e9rica com a paz e a seguran\u00e7a. Pa\u00edses como R\u00fassia, China e Brasil emitiram notas enunciando, novamente, a viola\u00e7\u00e3o do Direito Internacional e a irresponsabilidade de atacar um territ\u00f3rio soberano, outros apelaram pela modera\u00e7\u00e3o e a desescalada do conflito. No entanto, o processo estancou apenas na ret\u00f3rica. N\u00e3o houve\u00a0 san\u00e7\u00f5es diretas ao governo americano, deixando assim o precedente de impunidade consolidado diante das institui\u00e7\u00f5es e dos demais atores no sistema internacional.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio pr\u00e1tico das instancias de poder em 2025 foi o sinal verde definitivo para Donald Trump. Pois a mensagem captada foi de que, se a \u201cseguran\u00e7a\u201d for invoca em apelo a defesa nacional, as fronteiras tornam-se meras linhas no mapa. Portanto, o sequestro de Maduro em 2026 n\u00e3o \u00e9 um surto isolado, mas um fruto direto de um mundo que aceitou que a for\u00e7a bruta \u00e9 o novo crit\u00e9rio de legalidade.<\/p>\n<h3><strong>Conclus\u00e3o<\/strong>: <strong>O Rei est\u00e1 nu e a lei da selva reinstalada<\/strong><\/h3>\n<p>A invas\u00e3o da Venezuela e a extra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de Nicol\u00e1s Maduro, n\u00e3o deveriam surpreender ningu\u00e9m que tenha acompanhado ao desgaste sist\u00eamico do Direito Internacional nos \u00faltimos tr\u00eas anos. O que assistimos em Caracas, em janeiro deste ano, n\u00e3o foi um erro de um percurso diplom\u00e1tico, \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o de que as institui\u00e7\u00f5es multilaterais, como a ONU, tornaram-se apenas estruturas com grandes inten\u00e7\u00f5es, mas desprovidas de qualquer poder real de coer\u00e7\u00e3o sobre as grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>O fio condutor que liga Gaza, o Ir\u00e3 e a Venezuela \u00e9 nada mais, na menos do que a impunidade. Pois quando o sistema permitiu que o Direito Humanit\u00e1rio fosse ignorado em Gaza sem san\u00e7\u00f5es concretas, ou quando aceitou os \u201cataques preventivos\u201d como justificativa para o bombardeio ao Ir\u00e3 em 2025, violando a soberania territorial do pa\u00eds, assumiu sua pr\u00f3pria instabilidade permanente. Donald Trump n\u00e3o s\u00f3 rompeu o Direito Internacional na Venezuela, ele caminhou por uma porta que o mundo j\u00e1 havia deixado aberta.<\/p>\n<p>A \u201cOpera\u00e7\u00e3o Resolu\u00e7\u00e3o Absoluta\u201d revela um novo niilismo jur\u00eddico e diplom\u00e1tico. Agora, o expansionismo e o controle de recursos estrat\u00e9gicos s\u00e3o mascarados por um discurso de securitiza\u00e7\u00e3o que pode n\u00e3o precisar mais de provas concretas, apenas for\u00e7a. De exemplo, foram os ataques \u00e0 diversas embarca\u00e7\u00f5es na costa venezuelana, sob alega\u00e7\u00f5es de serem do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>O precedente est\u00e1 consolidado e a soberania tornou-se um conceito vol\u00favel, um direito aplic\u00e1vel apenas para aqueles que n\u00e3o possuem poder de fogo para desafiar a hegemonia.<\/p>\n<p>Se as notas de repudio e as reuni\u00f5es de emerg\u00eancia continuarem a ser a \u00fanica resposta da comunidade internacional, ent\u00e3o teremos que admitir o obvio; a ordem baseada em regras acabou. O que resta \u00e9 apenas um cen\u00e1rio onde o caos reina, a paz \u00e9 ditada pelo canh\u00e3o e a justi\u00e7a \u00e9 determinada apenas pela vontade do mais forte. A Venezuela \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que em 2026, ningu\u00e9m est\u00e1 100% seguro enquanto a in\u00e9rcia das institui\u00e7\u00f5es se manter expostas e a Carta da ONU for vista apenas como um simples a ser ignorado.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O eclipse do direito internacional appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-mega-porto-de-chancay\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/chancay-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O mega porto de Chancay<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-amazonia-e-a-soberania-nacional-um-guia-de-leitura-critica\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/IMG_3677-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">A Amaz\u00f4nia e a Soberania Nacional: um guia de leit...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tarcisio-recua-em-planos-do-pedagio-free-flow-apos-pressao-popular\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Tarc\u00edsio recua em planos do ped\u00e1gio \u201cfree flow\u201d ap...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-diz-que-vai-telefonar-para-trump-caso-negociacoes-nao-avancem\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula diz que vai telefonar para Trump caso negocia...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tratar o assalto \u00e0 Venezuela como caso isolado \u00e9 erro de perspectiva. Em Gaza, Telaviv e Washington promoveram massacre zombando da diplomacia, enquanto o bombardeio do Ir\u00e3 expressou o colapso do princ\u00edpio de soberania territorial. A impunidade sist\u00eamica deu sinal verde a Trump<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/o-eclipse-do-direito-internacional\/\">O eclipse do direito internacional<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":73340,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[10446,4129,1026,1125,1023,9,2929,6120,5700,32898,41,25,1403,267,35198,35199],"tags":[],"class_list":["post-73339","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-corte-internacional-de-justica","category-crise-humanitaria","category-diplomacia","category-direito-internacional","category-donald-trump","category-eua","category-genocidio-em-gaza","category-genocidio-palestino","category-geopolitica-guerra","category-invasao-a-venezuela","category-ira","category-israel","category-multilateralismo","category-onu","category-operacao-resolucao-absoluta","category-soberania-territorial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73339","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73339"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73339\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73340"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73339"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73339"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73339"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}