{"id":73487,"date":"2026-02-06T17:41:54","date_gmt":"2026-02-06T20:41:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/universidade-provocacao-para-uma-agenda-desutopica\/"},"modified":"2026-02-06T17:41:54","modified_gmt":"2026-02-06T20:41:54","slug":"universidade-provocacao-para-uma-agenda-desutopica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/universidade-provocacao-para-uma-agenda-desutopica\/","title":{"rendered":"Universidade: Provoca\u00e7\u00e3o para uma agenda desut\u00f3pica"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"720\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/photo_4916040479657364337_y2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/photo_4916040479657364337_y2.jpg 1200w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/06174005\/photo_4916040479657364337_y2-300x180.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/06174005\/photo_4916040479657364337_y2-768x461.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Naomar de Almeida Filho<\/strong><\/p>\n<p>MAIS:<br \/>Texto em tr\u00eas partes. Leia tamb\u00e9m:<br \/><strong>Parte I \u2013 Gloss\u00e1rio utopiano para entender a tecno-utopia do capitalismo<\/strong><br \/><strong>Parte II \u2013 Utopia, atopia, distopia, protopia<\/strong><\/p>\n<p><strong>Parte III \u2013 Para uma tecno-protopia<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/2Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/2Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-2.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181013\/2.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-2-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em sociedades marcadas pela colonialidade iluminista euroc\u00eantrica, a milenar institui\u00e7\u00e3o chamada Universidade tem cumprido uma miss\u00e3o hist\u00f3rica como produtora de utopias alimentadoras da cosmovis\u00e3o hegem\u00f4nica. Ao analisar modelos de institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria estabelecidos no hemisf\u00e9rio Norte nos s\u00e9culos 19 e 20, o hermeneuta franc\u00eas Paul Ricoeur (2005, p.324) afirma que a Universidade prov\u00eam da utopia liberal humanista que \u201cdenega, por vezes at\u00e9 ingenuamente, as verdadeiras fontes do poder que s\u00e3o a propriedade, o dinheiro, a viol\u00eancia, todas as for\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o as da intelig\u00eancia\u201d. Para Ricoeur (2005, p.324), o cerne dessa forma ut\u00f3pica \u201cestava presente no Iluminismo franc\u00eas (talvez de um modo mais pol\u00edtico e mais imediato), assim como no Iluminismo alem\u00e3o (mais como teoria da cultura)\u201d. A utopia universit\u00e1ria, no primeiro caso, encontra-se na alegoria das Luzes (<em>Lumi\u00e8res<\/em>), no segundo caso, na ideia de forma\u00e7\u00e3o geral (<em>Bildung<\/em>).<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante celebra\u00e7\u00f5es e autoemula\u00e7\u00f5es, o modelo de universidade atribu\u00eddo a Humboldt, baseado na <em>Bildung<\/em>, representava uma utopia de autonomia e liberdade acad\u00eamica nunca realizada na pr\u00e1tica. Apesar de amea\u00e7as, crises e retrocessos, esse modelo institucional e pol\u00edtico-pedag\u00f3gico resiste em todo o mundo, de modo residual e anacr\u00f4nico, como elemento gerador de tens\u00f5es internas na educa\u00e7\u00e3o superior, mesmo na universidade brasileira contempor\u00e2nea (Chau\u00ed, 2001). No Brasil, o ensino superior se estruturou inspirado no iluminismo franc\u00eas das <em>Lumi\u00e8res<\/em>, modelado pela organiza\u00e7\u00e3o curricular em c\u00e1tedras e disciplinas e pela fragmenta\u00e7\u00e3o institucional em faculdades, priorizando a qualifica\u00e7\u00e3o profissional restrita em lugar de uma forma\u00e7\u00e3o geral na cultura (Almeida-Filho, 2025).<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, a aplica\u00e7\u00e3o ampla do conhecimento cient\u00edfico na produ\u00e7\u00e3o industrial, sob a forma de t\u00e9cnicas e saberes tecnol\u00f3gicos, com o avan\u00e7o do capitalismo neoliberal em escala globalizada (Kotz, 2015). Como efeito dessa suposta quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial, modelos de produ\u00e7\u00e3o baseados em controle e automa\u00e7\u00e3o foram viabilizados por tecnologias eletroeletr\u00f4nicas e dispositivos digitais, gerando mudan\u00e7as profundas nas forma\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais do que Boutang (2011) prop\u00f4s designar como capitalismo cognitivo. Nesse contexto, batizado como Era Digital (Floridi, 2014), profundas transforma\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e culturais constituem a \u201csociedade da informa\u00e7\u00e3o\u201d,terreno f\u00e9rtil para datafica\u00e7\u00e3o da vida cotidiana na era do capitalismo de vigil\u00e2ncia (Zuboff, 2019). Nesse \u00e2mbito, cabe destacar os recentes <em>hypes<\/em> do metaverso e da Intelig\u00eancia Artificial (IA), cujo impacto na cibercultura, nos sistemas formativos e na educa\u00e7\u00e3o superior foi objeto de recente artigo publicado em <em>Outras Palavras<\/em> (Mascarenhas &amp; Burdman, 2025).<\/p>\n<p>Num registro introdut\u00f3rio e ainda esquem\u00e1tico, proponho refletir sobre o papel da universidade nos diversos planos e dimens\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o de sujeitos epist\u00eamicos e de reprodu\u00e7\u00e3o das utopias da modernidade e suas deriva\u00e7\u00f5es, no contexto atual de globaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo cognitivo. Na parte I desse artigo, inicialmente apresentei um pequeno gloss\u00e1rio de termos derivados do conceito de utopia, como distopia, retrotopia, desutopia, heterotopia, focalizando sua utilidade para compreens\u00e3o dos contextos e impactos do digital no mundo contempor\u00e2neo. Com base nessa fundamenta\u00e7\u00e3o, buscando avaliar formas vi\u00e1veis de supera\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter ut\u00f3pico da educa\u00e7\u00e3o superior, analisei na parte II o forma protopia como princ\u00edpio gerador de projetos realistas e vi\u00e1veis visando \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as contingentes e estrat\u00e9gicas de uma dada realidade social em geral e no interior de institui\u00e7\u00f5es sociais, como a universidade.<\/p>\n<p>Nesta parte III, compartilho uma reflex\u00e3o sobre pertin\u00eancia e possibilidades de uma tecno-protopia como estrat\u00e9gia capaz de articular for\u00e7as pol\u00edticas e movimentos sociais em torno de um projeto de universidade p\u00fablica de fato aut\u00f4noma, comprometida com compet\u00eancia sociot\u00e9cnica, soberania tecnol\u00f3gica, emancipa\u00e7\u00e3o de sujeitos epist\u00eamicos e sensibilidade eco-etno-social.<\/p>\n<h3><strong>O que fazer? Uma tecno-protopia?<\/strong><\/h3>\n<p>O que fazer dessa universidade, que sofre tantas amea\u00e7as e agress\u00f5es? O que fazer pela universidade, acuada na armadilha da distopia? Continuar na atopia da torre de marfim, alienada e omissa? Tomar a ideia de liberdade acad\u00eamica como ut\u00f3pica e superada, frente ao neoliberalismo, como h\u00e1 tempos o fez Edward Shils (1993), tentando responder \u00e0 quest\u00e3o: <em>do we still need academic freedom<\/em>?<\/p>\n<p>Podemos come\u00e7ar mudando as perguntas: Como aproveitar o momento de crise para mudar a universidade? O qu\u00ea fazer nessa universidade para transform\u00e1-la radical e profundamente? Na atual conjuntura, preocupante e problem\u00e1tica, mas rica em desafios (e, bem sabemos, em oportunidades \u2013 sim, sejamos esperan\u00e7osos), a autonomia universit\u00e1ria serve para qu\u00ea? Para justificar uma alian\u00e7a do imobilismo institucional e do ran\u00e7o acad\u00eamico com o conservadorismo social?<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/banner.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/banner.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2024\/03\/31202800\/banner-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Por todas as raz\u00f5es aqui apontadas, parece urgente recriar o conceito de autonomia universit\u00e1ria, n\u00e3o mais como utopia (pangerm\u00e2nica, depois brit\u00e2nica, logo ianque e finalmente euroglobalizada), nem como atopia (franc\u00f3fila, depois mediterr\u00e2nea, logo lusitana e finalmente brasileira), mas como protopia. Mantendo-se at\u00f3pica, conformada na in\u00e9rcia acad\u00eamica, a universidade p\u00fablica revelar\u00e1 reduzida capacidade de dar respostas \u00e0s necessidades e demandas sociais da popula\u00e7\u00e3o, particularmente aqueles segmentos da sociedade que dela precisam para sua emancipa\u00e7\u00e3o como sujeitos pol\u00edticos, num contexto social e humano t\u00e3o adverso. Se ut\u00f3pica, conformista em sua natureza meritocr\u00e1tica e elitista, alienada da sociedade real e distanciada dos vetores de mudan\u00e7a profunda da conjuntura contempor\u00e2nea, com grandes dificuldades de conter os efeitos perversos de crises sociais, a universidade p\u00fablica ser\u00e1 incapaz de reagir \u00e0 onda conservadora e totalit\u00e1ria que cada vez mais nos assombra e desafia.<\/p>\n<p>Quando se omite ou se acautela na luta para transformar a sociedade que a abriga, sustenta e legitima, a universidade se escuda atr\u00e1s de sua ilus\u00f3ria liberdade acad\u00eamica e usa a suposta autonomia institucional como \u00e1libi para continuar como sempre foi, um \u00f3rg\u00e3o de Estado a servi\u00e7o da reprodu\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica do <em>status-quo<\/em>. Resta-lhe a protopia, ou melhor, avan\u00e7ar para al\u00e9m da protopia.<\/p>\n<p>A abertura da velha universidade at\u00f3pica \u00e0 inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica politicamente situada se revela cada vez mais necess\u00e1ria e urgente, sobretudo numa institui\u00e7\u00e3o formadora que, ainda inadvertida, segue se debatendo contra a ado\u00e7\u00e3o de modelos\u00a0 \u2013 a exemplo da chamada Educa\u00e7\u00e3o \u00e0 Dist\u00e2ncia (EAD), recentemente regulamentada numa esdr\u00faxula classifica\u00e7\u00e3o (presencial-semipresencial-\u201causencial\u201d) que ignora o valor da presen\u00e7a virtual \u2013 que sequer fazem mais qualquer sentido no est\u00e1gio atual das tecnologias educacionais massivas, em-linha, imersivas, modulares, micropontuadas, interativas, autogeridas. Pelo menos para aproveitar a sigla EAD, junto com aqueles\/as interessados na protopia, tenho sugerido avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o do conceito de Educa\u00e7\u00e3o Aberta Digital (Almeida-Filho, 2024), sem muita repercuss\u00e3o todavia.<\/p>\n<p>Apesar de toda a incerteza pol\u00edtica do momento atual em todo o mundo, \u00e9 preciso levantar a quest\u00e3o cr\u00edtica de como, em sociedades com forte heran\u00e7a do colonialismo e com a emerg\u00eancia de novas formas de colonialidade digital, a educa\u00e7\u00e3o superior pode ser um elemento de emancipa\u00e7\u00e3o e solidariedade, em vez de elitiza\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o. Penso que precisamos atualizar essa quest\u00e3o frente \u00e0s heterotopias da era digital, relendo o conceito de protopia \u00e0 luz das profundas e generalizadas transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas contempor\u00e2neas (Shermer, 2018), sobretudo com o advento da IA (Mascarenhas &amp; Burdman, 2025), para avaliar sua viabilidade do ponto de vista l\u00f3gico, sem\u00e2ntico e praxiol\u00f3gico, como uma \u2018tecno-protopia\u2019. Proponho chamar de tecno-protopia toda e qualquer proposta de sonhar, imaginar e refletir fazendo, realizando, produzindo heterotopias, nas conjunturas mutantes e incertas do mundo dataficado, sempre atentos aos riscos e desafios do capitalismo cognitivo plataformizado.<\/p>\n<h3><strong>Diderot teria entendido\u2026<\/strong><\/h3>\n<p>Silvio Meira, um dos mais pol\u00eamicos ciber-intelectuais brasileiros, escreveu recentemente um artigo intitulado <em>Diderot, IA e os novos reis: insurg\u00eancia epist\u00eamica no s\u00e9culo 21<\/em> (2026) que considero um eloquente manifesto sobre os desafios da tecno-protopia na universidade contempor\u00e2nea.\u00a0 Seu argumento compreende uma met\u00e1fora hist\u00f3rica criativa e inusitada: toma a a\u00e7\u00e3o subversiva do iluminista Denis Diderot no s\u00e9culo XVIII como modelo para enfrentamento dos desafios epist\u00eamicos impostos pelas tecnologias de IA, no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Diderot, coeditor da <em>Encyclop\u00e9die<\/em> junto com D\u2019Alembert, n\u00e3o enfrentou a realeza francesa por meio de confrontos armados (Lilti, 2024), mas astuciosamente reorganizou a estrutura do saber dominante com o aux\u00edlio de seus colaboradores da <em>Encyclop\u00e9die<\/em>. O ambicioso projeto havia sido autorizado e apoiado pela corte real como um comp\u00eandio enciclop\u00e9dico neutro. N\u00e3o obstante, ao <em>contradizer<\/em><em>, confrontar <\/em>e<em> entranhar m\u00faltiplas perspectivas no pr\u00f3prio saber,<\/em> de modo camuflado, funcionava como uma insurrei\u00e7\u00e3o cognitiva, desestabilizando o sistema de autoridade e a ordem de discursos do Antigo Regime (Meira, 2026).<\/p>\n<p>Transpondo essa estrat\u00e9gia revolucion\u00e1ria insidiosa para os nossos dias, Meira (2026) defende que a IA potencialmente representa uma nova forma de insurg\u00eancia epist\u00eamica, pois desafia os pilares tradicionais da autoridade do conhecimento. Historicamente, a produ\u00e7\u00e3o, guarda e valida\u00e7\u00e3o dos saberes socialmente legitimados estavam concentradas em institui\u00e7\u00f5es como universidades, que geriam<em> sistemas aut\u00f4nomos de acredita\u00e7\u00e3o institucional<\/em>. A IA subverte esse sistema de valida\u00e7\u00e3o, oferecendo enfoques personalizados e acesso facilitado ao conhecimento a qualquer pessoa com uma conex\u00e3o \u00e0 internet. Isso representa um deslocamento profundo da forma como se aprende, se ensina e se valida o conhecimento.<\/p>\n<p>Contudo, h\u00e1 um risco nesse novo contexto, adverte-nos Meira (2026): o imenso cabedal de conhecimentos e o marco de credibilidade epist\u00eamica que historicamente pertenciam \u00e0s institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas podem ser transferidos \u00e0s plataformas dessas empresas tecnol\u00f3gicas. Ao licenciar solu\u00e7\u00f5es de IA sem questionamento cr\u00edtico, as universidades podem estar cedendo sua fun\u00e7\u00e3o formativa e normativa em favor de corpora\u00e7\u00f5es privadas, mitigando sua miss\u00e3o de promover pensamento cr\u00edtico e autoridade intelectual aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>Essa tecno-distopia gera o que Meira (2026) chama de \u201csequestro epist\u00eamico\u201d, em que estudantes, pesquisadores\/as e docentes acabam por depender da fluidez algor\u00edtmica como substituto da compreens\u00e3o profunda. Nesse cen\u00e1rio, a IA representa um novo \u201coutro\u201d, mais fluente, mais sedutor e aparentemente neutro, que dilui a ag\u00eancia cognitiva dos indiv\u00edduos e das institui\u00e7\u00f5es. Isso se agrava quando universidades terceirizam tarefas centrais de pedagogia e avalia\u00e7\u00e3o (Mascarenhas &amp; Burdman, 2025), produzindo um ciclo auto refor\u00e7ador de depend\u00eancia em que a ado\u00e7\u00e3o de uma tecnologia cria um problema, a big-tech propriet\u00e1ria da tecnologia vende a solu\u00e7\u00e3o e o lucro induzido s\u00f3 faz crescer (Meira, 2026, s.n).<\/p>\n<p>Como estrat\u00e9gia pol\u00edtica, \u00e0 la Diderot, Meira (2026) prop\u00f5e que a resposta da institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria a esse sequestro n\u00e3o deve ser simplesmente rejeitar as tecnologias digitais, o que seria f\u00fatil, nem as adotar passivamente e submeter-se ao colonialismo digital. Em vez disso, por meio de a\u00e7\u00f5es criativas e complementares, o que pode implicar desenvolver modelos pr\u00f3prios de IA ou exigir transpar\u00eancia radical daqueles que controlam os modelos propriet\u00e1rios, as universidades devem exercer sua insurg\u00eancia em quatro eixos: ag\u00eancia epist\u00eamica<strong>; avalia\u00e7\u00e3o acad\u00eamica; fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica e cr\u00edtica; democratiza\u00e7\u00e3o radical.\u200b A conclus\u00e3o de Silvio Meira (2026, s.n) \u00e9 para mim antol\u00f3gica: \u201cDiderot aprendeu que a verdadeira insurg\u00eancia n\u00e3o era grito: era reorganiza\u00e7\u00e3o silenciosa da pr\u00f3pria estrutura do conhecimento. Ele n\u00e3o derrotou os reis. Mas criou as condi\u00e7\u00f5es para que outros, d\u00e9cadas depois, pudessem faz\u00ea-lo. [\u2026] Os reis de hoje n\u00e3o t\u00eam tronos. T\u00eam data centers. E a luta por liberdade epist\u00eamica, pelo direito \u00e0 ag\u00eancia de pensar, questionar, errar, \u00e9 talvez a mais urgente que enfrentamos e enfrentaremos. Diderot teria entendido perfeitamente.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Alinhada a outros aportes cr\u00edticos da cibercultura na universidade, essa linha de an\u00e1lise destaca os poss\u00edveis efeitos da intelig\u00eancia artificial e tecnologias relacionadas sobre valores \u00e9tico-pol\u00edticos fundamentais \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior, como o ideal de autonomia acad\u00eamica (Mascarenhas &amp; Burdman, 2025). No entanto, como bem sabemos, o papel das tecnologias digitais na educa\u00e7\u00e3o superior emancipadora \u00e9 muito mais amplo, abrangendo conectividade, metapresencialidade, imersividade, interatividade e sensibilidade eco-etno-social \u2013 elementos essenciais para uma universidade p\u00fablica que \u201crequer educa\u00e7\u00e3o de qualidade em larga escala, tutores humanos, comunidades de pesquisa e inova\u00e7\u00e3o\u201d (Meira, 2026, s\/n).<\/p>\n<h3><strong>Coment\u00e1rios finais<\/strong><\/h3>\n<p>Pensei em delinear neste ensaio uma agenda desut\u00f3pica, capaz de rejeitar o objetivismo utilitarista da maioria das propostas de transforma\u00e7\u00e3o digital da universidade, trazendo uma proposta provocadora como elemento mobilizador. Essa provoca\u00e7\u00e3o nos leva \u00e0 protopia como alternativa, como esquema-vetor para come\u00e7ar a refletir sobre temas de grande complexidade como os que enfrentamos neste momento t\u00e3o cr\u00edtico, segue necess\u00e1ria e urgente.<\/p>\n<p>Considero que a revis\u00e3o hist\u00f3rica do iluminismo radical, a cr\u00edtica aos riscos da colonialidade digital, as an\u00e1lises aprofundadas e, principalmente, o horizonte de a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica descortinado por Meira oferecem fundamentos s\u00f3lidos para uma tecno-protopia na universidade, crucial para aqueles que constroem sua hist\u00f3ria e para os sujeitos epist\u00eamicos aos quais ela se destina.<\/p>\n<p>O momento \u00e9 de confrontar a distopia com utopias realistas, construindo sa\u00eddas, experimentando pr\u00e1ticas institucionais efetivamente transformadoras, evitando assumir uma atitude cautelosa, meramente contemplativa. Enquanto estivermos engajados nessa cuidadosa tessitura trans-formadora, com a necess\u00e1ria paci\u00eancia hist\u00f3rica e o devido rigor acad\u00eamico, cultivemos uma utopia esperan\u00e7osa: uma tecno-protopia.<\/p>\n<p>Certamente que resgatar a ideia de universidade numa protopia fundada no digital constitui imenso desafio, especialmente diante do negacionismo e obscurantismo do fascismo social e da mercantiliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior. Proponho aqui faz\u00ea-lo mediante a constru\u00e7\u00e3o coletiva de uma tecno-protopia capaz de superar a utopia-retrotopia-distopia-atopia na universidade, valorizando sobretudo os saberes e pr\u00e1ticas heterot\u00f3picos da cultura digital emergente.<\/p>\n<p>Inevit\u00e1veis (e esperadas) resist\u00eancias e rea\u00e7\u00f5es podem inviabilizar esfor\u00e7os para uma trans-forma\u00e7\u00e3o profunda da universidade p\u00fablica. Sabemos dos obst\u00e1culos que estrat\u00e9gias de avan\u00e7o criativo enfrentar\u00e3o, por serem alternativas n\u00e3o apenas ao projeto de destrui\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m contr\u00e1rias \u00e0 in\u00e9rcia e paralisia pol\u00edtica frente \u00e0 permanente situa\u00e7\u00e3o de crise, local e global.<\/p>\n<p>Por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 mais tempo, nem espa\u00e7o para utopias escapistas, n\u00e3o temos \u00e1libis a recorrer nem torres de marfim a nos proteger, escondidos. O exerc\u00edcio da liberdade implica reais responsabilidades, por isso n\u00e3o podemos ignorar percal\u00e7os, problemas e dilemas. \u00c9 hora de resistir, tempo de repensar para reconstruir, para, quando a mar\u00e9 virar, agir\u2026 Diderot teria entendido perfeitamente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de conceitualmente consistente, uma mobiliza\u00e7\u00e3o tecno-prot\u00f3pica ser\u00e1 capaz de aglutinar, em um rico debate, saberes e pr\u00e1ticas de um amplo leque de for\u00e7as democr\u00e1ticas e populares que se apresentam, amadurecidas pelas experi\u00eancias do passado recente, tornando-a politicamente vi\u00e1vel e concretamente realiz\u00e1vel. Com olhar atento e esp\u00edrito cr\u00edtico, poderemos enfrentar o desafio de construir biopol\u00edticas do bem-comum que realmente reflitam valores e necessidades da diversidade humana, para que a protopia \u2013 e n\u00e3o a distopia, nem a desutopia \u2013 oriente nossa trajet\u00f3ria. Uma outra autonomia universit\u00e1ria ser\u00e1 assim poss\u00edvel, necess\u00e1ria e urgente, imprescind\u00edvel contribui\u00e7\u00e3o para nosso pa\u00eds alcan\u00e7ar plena e vi\u00e1vel independ\u00eancia tecnol\u00f3gica e soberania pol\u00edtica.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>Almeida Filho N. Metapresencialidade, Sa\u00fade Digital e Sa\u00fade Coletiva. Interface (Botucatu); 28: e230473, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1590\/interface.230473<\/p>\n<p>Almeida-Filho, Naomar. <em>A Revolu\u00e7\u00e3o de Georges Cabanis: Uma Reforma Educacional Esquecida na Fran\u00e7a P\u00f3s-Iluminista<\/em>. Belo Horizonte: Editora Quixote, 2025.<\/p>\n<p>Boutang, Yann. <em>Cognitive Capitalism<\/em>. London: Polity Press, 2011.<\/p>\n<p>Chau\u00ed, Marilena. <em>Escritos sobre a Universidade<\/em>. S\u00e3o Paulo: EdUNESP, 2001.<\/p>\n<p>Floridi, Luciano. <em>The Fourth Revolution: How the Infosphere is Reshaping Human Reality<\/em>. Oxford: Oxford University Press, 2014.<\/p>\n<p>Jameson, Fredric. <em>Archaeologies of the Future: the desire called Utopia and other science fictions<\/em>. London: Verso, 2005.<\/p>\n<p>Kotz, David. <em>The Rise and Fall of Neoliberal Capitalism<\/em>. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2015.<\/p>\n<p>Lilti, Antoine. <em>A heran\u00e7a das luzes: ambival\u00eancias da modernidade<\/em>. Rio de Janeiro: EdUFF, 2024.<\/p>\n<p>Mascarenhas, Tom\u00e1s Bril; Burdman, Javier. IA e Universidade: Modos de (n\u00e3o) usar. <em>Outras Palavras<\/em>, 3\/10, 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/ia-e-universidade-modos-de-nao-usar\/<\/p>\n<p>Meira, Silvio. Diderot, IA e os novos reis: insurg\u00eancia epist\u00eamica no s\u00e9culo 21. <em>Poder 360<\/em>, 14.jan.2026. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.poder360.com.br\/opiniao\/diderot-ia-e-os-novos-reis-insurgencia-epistemica-no-seculo-21\/<\/p>\n<p>Ric\u0153ur, Paul. <em>A ideologia e a utopia<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2015 [1986]. Dispon\u00edvel no original: https:\/\/archive.org\/details\/pdfy-oRPzWEh3nXrYxehT\/page\/n1\/mode\/2up<\/p>\n<p>Shermer, Michael. Utopia is a dangerous ideal: we should aim for \u2018protopia\u2019. <em>Politics &amp; Current Affairs<\/em>, June 28, 2018. Dispon\u00edvel em: \u00a0https:\/\/bigthink.com\/politics-current-affairs\/utopia-is-a-dangerous-ideal-we-should-aim-for-protopia\/<\/p>\n<p>Shils, Edward. Do We Still Need Academic Freedom? <em>The American Scholar<\/em> 62: 187\u2013209, 1993. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.jstor.org\/stable\/41212089<\/p>\n<p>Zuboff S. <em>A Era do Capitalismo de Vigil\u00e2ncia: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder<\/em>. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2019.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Universidade: Provoca\u00e7\u00e3o para uma agenda desut\u00f3pica appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/comunicacao-politica-em-cidades-acima-de-500-mil-habitantes\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/pexels-photo-1092644-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em cidades acima de 500 mil h...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/teatro-musica-cinema-e-luzes-saiba-por-que-a-russia-comemora-o-natal-em-janeiro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Teatro, m\u00fasica, cinema e luzes: Saiba por que a R\u00fa...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/financas-sustentaveis-radiografia-de-uma-farsa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/investigadores-privados-investigaciones-telefonicas-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Finan\u00e7as sustent\u00e1veis: Radiografia de uma farsa<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-exigiu-bloqueio-aos-chineses-e-tarifa-zero-para-produtos-dos-eua\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Trump exigiu bloqueio aos chineses e tarifa zero p...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 hora de utopias realistas. 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