{"id":73800,"date":"2026-02-09T19:54:02","date_gmt":"2026-02-09T22:54:02","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ia-e-a-crise-do-que-chamamos-de-humano\/"},"modified":"2026-02-09T19:54:02","modified_gmt":"2026-02-09T22:54:02","slug":"ia-e-a-crise-do-que-chamamos-de-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ia-e-a-crise-do-que-chamamos-de-humano\/","title":{"rendered":"IA e a crise do que chamamos de \u201chumano\u201d"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"853\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/SZJTYJNVRFMTBEK5HRSJA7H2U4.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/SZJTYJNVRFMTBEK5HRSJA7H2U4.jpg 1280w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/09195314\/SZJTYJNVRFMTBEK5HRSJA7H2U4-300x200.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/09195314\/SZJTYJNVRFMTBEK5HRSJA7H2U4-768x512.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/09195314\/SZJTYJNVRFMTBEK5HRSJA7H2U4-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Arte: G7<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<figure><figcaption><em>A crise do humano<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A humanidade come\u00e7a quando nos separamos artificialmente da natureza a partir da cria\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas coletivas. Mas isso n\u00e3o se d\u00e1 de maneira linear. Impulsionada pelos interesses de mercado, a velocidade das aplica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas n\u00e3o condiz com o tempo necess\u00e1rio para processarmos suas mudan\u00e7as. Desde a recente populariza\u00e7\u00e3o das intelig\u00eancias artificiais generativas (IAGen), a promessa de facilidade veio acompanhada de um ganho de escala, no qual as novas ferramentas passaram a funcionar como ambiente, organizando aten\u00e7\u00e3o, linguagem, imagem, trabalho e at\u00e9 a conviv\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O e-book <em>A crise do humano<\/em>, lan\u00e7ado pelo grupo de Pesquisa Comunidata\/CNPq, parte desse deslocamento para recentralizar uma quest\u00e3o social e pol\u00edtica urgente: a prote\u00e7\u00e3o de nossa soberania cognitiva \u2014 isto \u00e9, a capacidade de perceber, interpretar, julgar e decidir. As plataformas digitais passaram a mediar nossa percep\u00e7\u00e3o, e estamos transferindo para os algoritmos a faculdade de projetar, logo aquilo que nos torna humanos.<\/p>\n<p>Com organiza\u00e7\u00e3o de Pollyana Ferrari, Livre-Docente em Comunica\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o pela PUC-SP, e participa\u00e7\u00e3o de 22 pesquisadores do Brasil e do M\u00e9xico especializados nas \u00e1reas de comunica\u00e7\u00e3o, tecnologia e educa\u00e7\u00e3o, o livro se desdobra em torno de tr\u00eas perguntas principais:<\/p>\n<p><strong>1) O que acontece com a aten\u00e7\u00e3o e o tempo quando a vida \u00e9 \u201cotimizada\u201d por plataformas?<\/strong><br \/>A economia do engajamento disputa minutos de disponibilidade mental. A IAGen, acelerando esse circuito, automatiza escolhas e sugere narrativas baseada no gosto m\u00e9dio, por probabilidade estat\u00edstica. Em troca da otimiza\u00e7\u00e3o, o processo de pensamento se empobrece. Grandes ideias, catarses, momentos <em>Eureka!<\/em> n\u00e3o costumam surgir de atalhos\u2026 Diferentes autores do livro discutem a captura do tempo, <em>trends <\/em>e vigil\u00e2ncia de dados, mostrando como a experi\u00eancia cotidiana vai sendo ajustada ao rel\u00f3gio das plataformas e o impacto na autonomia humana.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/2Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/2Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-1.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180615\/2.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>2) O que sobra da \u201cverdade\u201d quando a realidade pode ser sint\u00e9tica e escal\u00e1vel?<\/strong><br \/><em>Deepfakes<\/em> e conte\u00fado sint\u00e9tico reconfiguram a confian\u00e7a p\u00fablica. A mentira espetacularizada choca e se espalha mais r\u00e1pido, ao passo que o pr\u00f3prio crit\u00e9rio de autenticidade se torna inst\u00e1vel. Nesse eixo entram as discuss\u00f5es sobre desinforma\u00e7\u00e3o, guerra e plataformiza\u00e7\u00e3o de conflitos, al\u00e9m das mudan\u00e7as no regime de imagem, refletindo sobre a transforma\u00e7\u00e3o da fotografia e do audiovisual j\u00e1 que agora o registro pode ser gerado, n\u00e3o capturado como reflexo do real.<\/p>\n<p><strong>3) Quem paga a conta material e social dessa infraestrutura?<\/strong><br \/>A IAGen n\u00e3o paira abstrata na nuvem. Por isso, o livro se finca no ch\u00e3o para tratar de quest\u00f5es estruturais como trabalho, natureza, extrativismo e desigualdade social. A digitaliza\u00e7\u00e3o de setores como a agricultura, as assimetrias inscritas em dados e a historicidade da desumaniza\u00e7\u00e3o, especialmente nos corpos negros, conformam o mesmo sistema que promete inova\u00e7\u00e3o enquanto reorganiza poderes imperialistas. Os cap\u00edtulos sobre religiosidade digital, cultura gamer e inf\u00e2ncia ampliam o quadro, pois a crise atravessa disputas simb\u00f3licas e direitos sociais.<\/p>\n<p><em>A crise do humano adota ent\u00e3o a forma de uma crise da cidadania: somos ainda sujeitos de direito ou nos tornamos objetos de c\u00e1lculo?<br \/>(Jorge Alberto Hidalgo Toledo)<\/em><\/p>\n<p>A obra prop\u00f5e um debate cr\u00edtico que se esquiva do fetiche da tecnologia, seja para o bem ou para o mal, sem trat\u00e1-la como bala de prata ou trombeta do apocalipse. O futuro poss\u00edvel depende de escolhas coletivas sobre o presente e sobre presen\u00e7a, de forma consciente, sem atalhos.<\/p>\n<p><strong>Baixe o e-book gratuito<\/strong> ou leia, a seguir, um dos textos que comp\u00f5em a obra:<\/p>\n<hr>\n<p><strong>O REL\u00d3GIO DAS PLATAFORMAS: INTELIG\u00caNCIA ARTIFICIAL, CONTROLE E A CAPTURA DO TEMPO<\/strong><\/p>\n<p>Por <strong>Juliano Maur\u00edcio de Carvalho<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Vivemos um tempo em que a sensa\u00e7\u00e3o de acelera\u00e7\u00e3o permanente deixou de ser met\u00e1fora para se tornar experi\u00eancia cotidiana. Not\u00edcias, mensagens, recomenda\u00e7\u00f5es algor\u00edtmicas e tarefas de trabalho se empilham na tela enquanto nos adaptamos, quase sem perceber, ao ritmo imposto pelas plataformas: responder r\u00e1pido, produzir mais, deslocar-se entre abas e notifica\u00e7\u00f5es como se o mundo inteiro coubesse no intervalo de alguns segundos. Nesse cen\u00e1rio, a intelig\u00eancia artificial aparece simultaneamente como solu\u00e7\u00e3o para \u201cganhar tempo\u201d e como for\u00e7a que reconfigura o pr\u00f3prio modo como o tempo humano \u00e9 vivido. \u00c9 a partir desse paradoxo, ganhar tempo perdendo o tempo de si, que se organiza o argumento que desenvolvo ao longo deste cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o cair no \u201ccat\u00e1logo infinito\u201d de exemplos, eu prefiro come\u00e7ar com uma pergunta simples, quase did\u00e1tica: o que estamos fazendo com o nosso ritmo de vida e com a nossa capacidade de aten\u00e7\u00e3o? N\u00e3o se trata de nostalgia pelo mundo anal\u00f3gico. \u00c9 a partir dessa chave que organizo a reflex\u00e3o a seguir: como pensar a intelig\u00eancia artificial e o capitalismo de plataformas a partir de uma quest\u00e3o simples, mas insistente, que tempo sobra para o humano?<\/p>\n<p>Quando falo de IA aqui, n\u00e3o estou pensando numa moda passageira ou numa ferramenta opcional, que cada pessoa escolhe se adota ou n\u00e3o no seu cotidiano. Trata-se de uma camada de infraestrutura que atravessa dimens\u00f5es t\u00e9cnicas, econ\u00f4micas, culturais e pol\u00edticas, operando por redes de dados, mercados e aten\u00e7\u00e3o que n\u00e3o respeitam fronteiras nacionais. Nessa arquitetura, normas p\u00fablicas e regras privadas se combinam e, muitas vezes, se confundem. N\u00e3o \u00e9, portanto, uma oposi\u00e7\u00e3o simplista entre \u201ctecnologia\u201d e \u201csociedade\u201d, uma tentativa de abra\u00e7ar o ludismo.<\/p>\n<p>O que vemos \u00e9 um conjunto de media\u00e7\u00f5es transacionais que reorganizou a visibilidade, remunera\u00e7\u00e3o e acesso \u00e0 palavra de maneira profundamente desigual entre regi\u00f5es, classes e grupos sociais. Em termos diretos: quem aparece, quem ganha, quem fala e quem \u00e9 silenciado nesse ecossistema de plataformas e intelig\u00eancias artificiais? Como argumentam van Dijck et al., as grandes plataformas deixaram de atuar apenas como intermedi\u00e1rias para se tornarem infraestruturas centrais da vida conectada, nas quais disputas por conectividade e por valores p\u00fablicos s\u00e3o travadas na pr\u00f3pria arquitetura da rede (van Dijck et al., 2018). Para tornar essa discuss\u00e3o mais concreta, proponho tr\u00eas perguntas que servir\u00e3o de fio condutor ao longo do cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9: estamos dispostos a submeter a esfera p\u00fablica a regras invis\u00edveis definidas por plataformas? Em outras palavras, vamos aceitar que decis\u00f5es sobre o que vemos, com quem falamos e sobre o que debatemos sejam tomadas por algoritmos que n\u00e3o conhecemos, alimentados por dados que n\u00e3o controlamos, comandadas por grupos de interesse minorit\u00e1rios? A segunda pergunta: o que acontece com a delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica quando crit\u00e9rios algor\u00edtmicos definem quem aparece, quem desaparece, que voz ganha amplifica\u00e7\u00e3o e que voz \u00e9 empurrada para um canto do feed? E a terceira: como proteger e expandir o trabalho digno, a cultura plurinacional e a diversidade quando o fluxo de aten\u00e7\u00e3o e de renda \u00e9 mediado por sistemas privados que organizam o mundo segundo interesses comerciais, e n\u00e3o segundo um projeto p\u00fablico de sociedade?<\/p>\n<p>Um primeiro passo \u00e9 olhar para a fotografia do momento, porque ela d\u00e1 escala ao processo. Segundo o AI Index 2025, a ado\u00e7\u00e3o corporativa de IA passou de 55%, em 2023, para 78%, em 2024. No mesmo movimento, o investimento privado em IA nos Estados Unidos chegou a cerca de 109 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2024, cerca de quatro vezes o volume somado de China e Europa, com aproximadamente 34 bilh\u00f5es direcionados \u00e0 IA generativa (Maslej et al., 2025). Mesmo com dezenas de iniciativas regulat\u00f3rias em curso, a corrida segue concentrada em poucos centros de infraestrutura, capital e modelos.<\/p>\n<p>Os governos n\u00e3o est\u00e3o parados. Hoje, j\u00e1 se contam dezenas de iniciativas regulat\u00f3rias relacionadas \u00e0 IA em diferentes pa\u00edses. H\u00e1 aportes importantes no Canad\u00e1, na Fran\u00e7a e na \u00cdndia, processos em curso em blocos como Uni\u00e3o Europeia e Mercosul. Mas, mesmo com esse avan\u00e7o, duas economias, Estados Unidos e China, formam oligop\u00f3lios no que diz respeito ao investimento mundial em IA concentrando ambos mais da metade dos aportes. Se n\u00e3o partirmos desse dado estrutural, corremos o risco de discutir IA apenas como fen\u00f4meno cultural ou midi\u00e1tico, sem encarar os interesses econ\u00f4micos que organizam o jogo. A pergunta necess\u00e1ria \u00e9: regula\u00e7\u00e3o para qu\u00ea, para quem e com quais capacidades de implementa\u00e7\u00e3o, especialmente quando o gargalo \u00e9 auditoria, transpar\u00eancia e fiscaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>H\u00e1 no Brasil um conhecimento popular bastante eloquente: \u201cquando a esmola \u00e9 demais, o santo desconfia\u201d. Em econom\u00eas: n\u00e3o existe almo\u00e7o gr\u00e1tis. Quando pensamos em intelig\u00eancia artificial, devemos entender que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais cr\u00edtica. Ferramentas tais quais ChatGPT, Gemini, Perplexity e outras que voc\u00ea talvez j\u00e1 tenha usado para resumir textos, revisar um par\u00e1grafo ou testar uma ideia n\u00e3o entram no nosso cotidiano por pura generosidade. S\u00e3o solu\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em parte de um ecossistema de produ\u00e7\u00e3o e captura de informa\u00e7\u00e3o voltado a conhecer, prever e orientar o comportamento de pessoas e institui\u00e7\u00f5es numa escala sem precedentes.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio recente no Brasil ajuda a tornar isso mais concreto. Em 2025, uma reportagem de S\u00e9rgio de Sousa, no Intercept Brasil, narrou oficinas de intelig\u00eancia artificial oferecidas por executivos do Google e da Meta no semin\u00e1rio de comunica\u00e7\u00e3o do Partido Liberal, principal legenda do bolsonarismo. Nesses encontros, ferramentas de IA generativa eram apresentadas como armas para \u201cimpressionar seguidores\u201d, automatizar mensagens e segmentar p\u00fablicos no WhatsApp e em outras plataformas, sempre com a promessa expl\u00edcita de aumentar as chances de vit\u00f3ria eleitoral do grupo treinado. Ningu\u00e9m investe tempo e recursos em um \u201ctreinamento de guerra\u201d desse tipo por ser amigo da democracia. O epis\u00f3dio ilustra o ponto: o nosso direito de decidir coletivamente o rumo da sociedade est\u00e1 cada vez mais atravessado por sistemas que trabalham com dados sobre n\u00f3s, e n\u00e3o com n\u00f3s (de Sousa, 2025). O ponto n\u00e3o \u00e9 o epis\u00f3dio em si; \u00e9 perceber quando a media\u00e7\u00e3o vira m\u00e9todo de disputa, e n\u00e3o simples canal de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No que se convencionou chamar de capitalismo de vigil\u00e2ncia, vivemos num regime em que experi\u00eancias humanas s\u00e3o continuamente convertidas em excedentes comportamentais, extra\u00eddos e processados para prever e modular condutas, instaurando a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos permanentemente acompanhados por sistemas que observam, registram e calculam (Zuboff, 2021). N\u00e3o se trata apenas de \u201cusar\u201d dados para melhorar servi\u00e7os, mas de desenhar arquiteturas de captura capazes de tornar previs\u00edveis, e, quando poss\u00edvel, mold\u00e1veis, nossas atitudes pol\u00edticas, econ\u00f4micas e afetivas. Na pr\u00e1tica, isso significa que os mesmos sistemas que organizam buscas, recomenda\u00e7\u00f5es de v\u00eddeos, rotas de transporte ou ofertas comerciais tamb\u00e9m influenciam a forma como percebemos conflitos, injusti\u00e7as e promessas de futuro.<\/p>\n<p>A fronteira entre \u201cservi\u00e7o personalizado\u201d e \u201cgovernan\u00e7a algor\u00edtmica\u201d torna-se difusa, e a experi\u00eancia cotidiana de navega\u00e7\u00e3o se converte em mat\u00e9ria-prima para decis\u00f5es de grande escala, muitas vezes tomadas em esferas que escapam ao olhar p\u00fablico. Em plataformas, jurisdi\u00e7\u00e3o e responsabilidade carecem de nitidez, e o que cham\u00e1vamos de p\u00fablico passa a ser governado por incentivos que n\u00e3o elegemos. A figura dos \u201cengenheiros do caos\u201d ajuda a entender o uso pol\u00edtico dessa infraestrutura: estrategistas e consultores que transformam mal-estar latente e c\u00f3lera social em energia eleitoral, por meio de microdirecionamento emocional, automa\u00e7\u00e3o de mensagens e alimenta\u00e7\u00e3o constante de conte\u00fados quentes, que maximizam engajamento mesmo \u00e0 custa da veracidade. Nessa propaganda algor\u00edtmica, a verdade factual de cada afirma\u00e7\u00e3o importa menos do que a coer\u00eancia afetiva da mensagem como conjunto, o que a torna especialmente eficaz para reconfigurar o pr\u00f3prio jogo democr\u00e1tico (Da Empoli, 2019).<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 futurologia. N\u00e3o \u00e9 McLuhan anunciando um amanh\u00e3 distante. Educadores que est\u00e3o em sala de aula sabem que a IA j\u00e1 atravessa o cotidiano escolar, por exemplo. N\u00e3o se trata mais de perguntar se a IA vai impactar a educa\u00e7\u00e3o, e sim de reconhecer que ela j\u00e1 alterou, de fato, os modos de pesquisar, escrever, avaliar e aprender.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, quando olhamos para a conectividade global, o quadro \u00e9 paradoxal. Estimativas recentes de organismos como a Uni\u00e3o Internacional de Telecomunica\u00e7\u00f5es e a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho indicam que, em um mundo com mais de 8 bilh\u00f5es de pessoas, algo como 6 bilh\u00f5es est\u00e3o online e cerca de 2,2 bilh\u00f5es permanecem offline (International Telecommunication Union, 2025). Na pr\u00e1tica, falamos de aproximadamente um ter\u00e7o da humanidade ainda est\u00e1 \u00e0 margem das redes digitais, mesmo depois de um aumento expressivo de usu\u00e1rios nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no debate p\u00fablico e na universidade, tornou-se comum discutirmos sobre intelig\u00eancia artificial a partir de um contexto de plena universalidade de servi\u00e7os de conex\u00e3o, alfabetizados digitalmente, com banda larga de qualidade em casa e dispositivos atualizados. \u00c9 como se fal\u00e1ssemos de religi\u00e3o apenas para quem j\u00e1 \u00e9 da igreja: pregamos para os \u201cevangelizados\u201d, e esquecemos os que est\u00e3o do lado de fora da porta. A assimetria aqui n\u00e3o \u00e9 detalhe, \u00e9 o pr\u00f3prio sistema: infraestrutura, capital e dados n\u00e3o circulam como promessa universal.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, estudos indicam ampla exposi\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o do trabalho (26% a 38%, a depender do pa\u00eds) e sugerem que os ganhos potenciais de produtividade associados \u00e0 IA generativa s\u00e3o condicionados pela infraestrutura digital; a pergunta, aqui, \u00e9 sempre a mesma: produtividade para quem, com qual prote\u00e7\u00e3o social e com quais efeitos sobre mulheres e jovens (Gmyrek et al., 2024). Diante desses riscos, surgem respostas normativas importantes. A UNESCO, por sua vez, publicou recomenda\u00e7\u00f5es \u00e9ticas para o uso da IA e vem atualizando esse marco, com diretrizes sobre uso respons\u00e1vel, transpar\u00eancia, prote\u00e7\u00e3o de dados, avalia\u00e7\u00e3o de impacto, rotulagem de conte\u00fado automatizado (Unesco, 2022). Esses documentos s\u00e3o importantes como refer\u00eancia, mas n\u00e3o resolvem sozinhos a quest\u00e3o central: o que vamos fazer, concretamente, para que a IA n\u00e3o aprofunde ainda mais as desigualdades e n\u00e3o corroa a possibilidade de vida digna e participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica?<\/p>\n<p>Um caminho para responder a estas inquietudes passa por reconhecer uma mudan\u00e7a profunda na forma como estamos sendo educados para lidar com o conhecimento. Durante muito tempo, a escola trabalhou com um modelo conteudista, baseado na acumula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e na verifica\u00e7\u00e3o de memoriza\u00e7\u00e3o. A IA tensiona esse modelo num ponto sens\u00edvel: se um sistema automatizado pode produzir um resumo, uma resposta \u201ccorreta\u201d ou um texto formalmente aceit\u00e1vel, o que passa a fazer diferen\u00e7a \u00e9 menos a quantidade de informa\u00e7\u00e3o armazenada na mem\u00f3ria e mais a nossa capacidade de formular perguntas, interpretar contextos, e duvidar de respostas prontas.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse deslocamento, do ac\u00famulo de informa\u00e7\u00e3o para a convers\u00e3o em prompt, que se evidencia uma demanda nova na forma\u00e7\u00e3o: menos acumular respostas e mais saber situar um problema, formular uma pergunta, definir um recorte e explicitar uma inten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de aus\u00eancia de conhecimento, mas de reconhecer que, diante da media\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, o sistema passa a organizar, hierarquizar e sugerir caminhos; ao sujeito cabe dar dire\u00e7\u00e3o ao processo, com contexto e crit\u00e9rio, para n\u00e3o confundir acabamento ret\u00f3rico com compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a assertividade do comando, medido pela capacidade de perguntar bem, conectar pistas, testar hip\u00f3teses e interpretar sa\u00eddas, confere ao usu\u00e1rio um certo poder de tutela sobre a m\u00e1quina e seus vieses. Quanto melhor a pergunta, maior a chance de orientar o sistema, reduzir ru\u00eddo, explicitar pressupostos e evitar que respostas plaus\u00edveis, por\u00e9m fr\u00e1geis, se imponham como verdade apenas pelo seu acabamento ret\u00f3rico.<\/p>\n<p>Mas essa tutela \u00e9 inst\u00e1vel e tem um limite estrutural. Sem contexto, n\u00e3o sabemos o que perguntar e, sem sab\u00ea-lo, o processo de investiga\u00e7\u00e3o se interrompe antes de come\u00e7ar. Sem pergunta, n\u00e3o h\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o, apenas consumo de enunciados. E, sem interpreta\u00e7\u00e3o, ficamos \u00e0 merc\u00ea do que o sistema foi desenhado para oferecer: conte\u00fados \u00fateis, mas que carregam omiss\u00f5es, prioridades invis\u00edveis e uma l\u00f3gica de entrega que n\u00e3o coincide necessariamente com a l\u00f3gica do problema. \u00c9 aqui que aparece a tens\u00e3o central desse novo regime de aprendizagem. O prompt pode funcionar como instrumento de ag\u00eancia e criticidade, mas tamb\u00e9m exp\u00f5e uma depend\u00eancia: para pensar com a m\u00e1quina, \u00e9 preciso estar minimamente situado no problema, com repert\u00f3rio e crit\u00e9rios para recortar, testar e desconfiar. Caso contr\u00e1rio, a intelig\u00eancia aparente do sistema n\u00e3o amplia a compreens\u00e3o; ela encurta o percurso cognitivo e o substitui por uma resposta pronta, elegante e potencialmente desancorada.<\/p>\n<p>Alerto para o tratamento superficial de como o campo educacional, com frequ\u00eancia, tem tratado dessa mudan\u00e7a epist\u00eamica. Multiplicam-se oficinas, minicursos e tutoriais sobre \u201ccomo usar IA na sala de aula\u201d, \u201ccomo fazer prompts melhores\u201d, enquanto muito pouco se discute sobre o que significa, de fato, reorganizar uma disciplina, um curr\u00edculo, uma pr\u00e1tica docente a partir desse novo cen\u00e1rio. Imagine um professor ou uma professora com vinte ou trinta anos de carreira, que h\u00e1 uma d\u00e9cada ministra a mesma disciplina. De repente, algu\u00e9m diz: \u201ca partir de agora, voc\u00ea precisa mudar completamente a forma de planejar, avaliar e interagir com os alunos, porque existe IA\u201d. Em muitos casos, falta suporte consistente para essa reinven\u00e7\u00e3o: tempo, forma\u00e7\u00e3o continuada, condi\u00e7\u00f5es de trabalho, espa\u00e7os de troca. O resultado costuma ser um misto de medo, cansa\u00e7o e improviso.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, um obst\u00e1culo que n\u00e3o pode ser ignorado: as condi\u00e7\u00f5es materiais que tornam essa virada poss\u00edvel. Em muitos contextos, sobretudo na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e em regi\u00f5es mais pobres, falta rede est\u00e1vel, equipamentos adequados e suporte t\u00e9cnico de apoio. A exclus\u00e3o<\/p>\n<p>vira dupla: n\u00e3o apenas pelo acesso prec\u00e1rio, mas porque, sem esse ch\u00e3o, tamb\u00e9m se enfraquecem as condi\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e pedag\u00f3gicas para lidar com a tecnologia de modo cr\u00edtico. Por isso, diante da IA, a educa\u00e7\u00e3o precisa ocupar um outro lugar: n\u00e3o apenas ensinar a usar ferramentas, mas compreender como elas operam.<\/p>\n<p>Olhar para telas e aplicativos \u00e9 insuficiente; \u00e9 preciso observar modelos de neg\u00f3cio, fluxos de dados e escolhas de design que organizam o que circula e o que se aprende. \u00c9 aqui que os dilemas educacionais encontram a dimens\u00e3o estrat\u00e9gica mais importante deste debate: soberania de dados. Se dados e infraestruturas ficam fora do controle p\u00fablico, tamb\u00e9m ficam fora do alcance p\u00fablico as condi\u00e7\u00f5es de transpar\u00eancia, autonomia e responsabilidade que deveriam orientar a forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em escala global, essa disputa ocorre em um ambiente concentrado em poucos centros de capital e infraestrutura, com respostas distintas, enquanto pa\u00edses perif\u00e9ricos, como o Brasil, correm o risco de permanecer como consumidores de tecnologias e n\u00f3s subordinados da economia de dados se n\u00e3o constru\u00edrem capacidades pr\u00f3prias e coopera\u00e7\u00e3o regional (Bola\u00f1o et al., 2025). Se continuarmos tratando plataformas e algoritmos como \u201ccaixas pretas\u201d, sem transpar\u00eancia e sem supervis\u00e3o independente, os impactos da IA n\u00e3o ficar\u00e3o restritos \u00e0 disputa eleitoral: eles atravessam o trabalho, a cultura, a educa\u00e7\u00e3o, o acesso a servi\u00e7os p\u00fablicos e o reconhecimento de identidades.<\/p>\n<p>Por isso, soberania digital tamb\u00e9m \u00e9 capacidade p\u00fablica de auditoria: produzir m\u00e9tricas e indicadores que n\u00e3o dependam exclusivamente das pr\u00f3prias empresas, com observat\u00f3rios universit\u00e1rios, laborat\u00f3rios independentes, redes de pesquisa e sociedade civil ajudando a iluminar o que acontece \u201cpor tr\u00e1s\u201d e a desfazer a ilus\u00e3o de que a computa\u00e7\u00e3o \u201ccuida do c\u00f3digo\u201d enquanto a comunica\u00e7\u00e3o \u201ccuida dos conte\u00fados\u201d. No fim, a forma como dados s\u00e3o coletados, processados, classificados e monetizados define, cada vez mais, o que vemos na superf\u00edcie. Para n\u00e3o ficar em um diagn\u00f3stico paralisante, eu condensaria uma agenda m\u00ednima em tr\u00eas verbos, quase como um protocolo pedag\u00f3gico para a sociedade: definir, explicar e cuidar.<\/p>\n<p>Definir significa estabelecer, de forma transparente, o que \u00e9 aceit\u00e1vel no espa\u00e7o p\u00fablico mediado por intelig\u00eancias artificiais. Que pr\u00e1ticas consideramos toler\u00e1veis? O que identificamos como abuso, manipula\u00e7\u00e3o, viola\u00e7\u00e3o de direitos? Isso vale para publicidade pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m para decis\u00f5es automatizadas em cr\u00e9dito, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a p\u00fablica. Explicar \u00e9 o compromisso de tornar intelig\u00edveis as decis\u00f5es automatizadas, em linguagem que as pessoas compreendam. N\u00e3o basta publicar relat\u00f3rios t\u00e9cnicos ou \u201ctermos de uso\u201d indecifr\u00e1veis. \u00c9 preciso criar formas de explicabilidade que devolvam \u00e0s pessoas a possibilidade de compreender e contestar decis\u00f5es que as afetam.<\/p>\n<p>Cuidar \u00e9 talvez o verbo mais esquecido no debate tecnol\u00f3gico. Cuidar dos trabalhadores que ter\u00e3o suas fun\u00e7\u00f5es transformadas ou eliminadas; cuidar das comunidades cujos acervos culturais s\u00e3o utilizados para treinar modelos sem reconhecimento ou compensa\u00e7\u00e3o; cuidar das v\u00edtimas de viol\u00eancia que t\u00eam suas imagens, vozes e hist\u00f3rias manipuladas por sistemas de gera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado. Cuidar, aqui, \u00e9 uma categoria \u00e9tica e pol\u00edtica, n\u00e3o um gesto paternalista.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse horizonte que o tema da desacelera\u00e7\u00e3o ganha for\u00e7a. Quando falamos em desacelerar, estamos falando do direito ao tempo: tempo para revisar, para escutar, para fazer sil\u00eancio, para perceber. Num ecossistema em que plataformas operam \u00e0 m\u00e1xima velocidade, empilhando est\u00edmulos, notifica\u00e7\u00f5es e respostas imediatas, a escolha humana de ir mais devagar pode ser uma forma de resist\u00eancia. Lentid\u00e3o, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 pregui\u00e7a. \u00c9 t\u00e9cnica de precis\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a discuss\u00e3o se aproxima da intui\u00e7\u00e3o de Domenico De Masi sobre o \u201c\u00f3cio criativo\u201d: em sociedades em que o tempo de trabalho tende a diminuir e o tempo livre cresce, a qualidade desse tempo passa a ser t\u00e3o decisiva quanto a quantidade de horas dedicadas ao emprego. \u00d3cio criativo, para ele, \u00e9 justamente a coincid\u00eancia entre trabalho, estudo e jogo, em que o tempo liberado deixa de ser visto como culpa ou desperd\u00edcio e se converte em condi\u00e7\u00e3o para produzir ideias, conviv\u00eancia e bem-estar (De Masi, 2000). Essa chave da desacelera\u00e7\u00e3o encontra resson\u00e2ncia em reflex\u00f5es recentes sobre comunica\u00e7\u00e3o e tempo, como as que Pollyana Ferrari re\u00fane em Desacelerar: resist\u00eancia e combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o na era das intelig\u00eancias artificiais. Ao articular desinforma\u00e7\u00e3o, economia da aten\u00e7\u00e3o e sa\u00fade mental a processos de colonialidade de dados, a autora sugere a desacelera\u00e7\u00e3o como gesto politizado e cotidiano, menos um luxo individual, mais uma pr\u00e1tica de resist\u00eancia que devolve tempo \u00e0 leitura, \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o e ao cuidado com a linguagem (Ferrari, 2025).<\/p>\n<p>Em di\u00e1logo com essas ideias, a proposta aqui \u00e9 tratar a desacelera\u00e7\u00e3o n\u00e3o como fuga nost\u00e1lgica do mundo digital, mas como pr\u00e1tica ativa de reorganiza\u00e7\u00e3o do olhar, da escrita e da conviv\u00eancia. Parar, nesse contexto, n\u00e3o significa retirar-se definitivamente das redes ou recusar qualquer media\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Significa instaurar momentos em que suspendemos o automatismo do deslizar, do curtir, do responder em segundos, para recuperar perguntas b\u00e1sicas: por que estou vendo isto agora? Quem ganha quando eu clico aqui? Que outras vozes ficaram de fora desta tela?<\/p>\n<p>Refletir \u00e9 o segundo movimento desse gesto. \u00c9 tomar dist\u00e2ncia suficiente para reconhecer que as intelig\u00eancias artificiais n\u00e3o s\u00e3o or\u00e1culos neutros, mas artefatos inscritos em hist\u00f3rias de explora\u00e7\u00e3o, desigualdade e tamb\u00e9m de criatividade e disputa. Quando estudantes, jornalistas, professores e criadores se autorizam a fazer essa pausa, mesmo que por poucos minutos no meio da avalanche de notifica\u00e7\u00f5es abrem espa\u00e7o para escolhas mais conscientes sobre o que produzir, compartilhar, recusar.<\/p>\n<p>O que sustento, ent\u00e3o, \u00e9 que a desacelera\u00e7\u00e3o precisa virar m\u00e9todo, uma \u00e9tica pr\u00e1tica do tempo em ambientes mediados por plataformas. Isso aparece em microdecis\u00f5es de rotina: esperar antes de reagir; ouvir antes de comentar; checar antes de compartilhar; revisar antes de publicar; resistir ao clique imediato. Essas escolhas n\u00e3o derrubam, sozinhas, o capitalismo de plataformas, mas devolvem ao humano uma parte do tempo que os sistemas automatizados procuram capturar. Para enfrentar m\u00e1quinas que calculam em fra\u00e7\u00f5es de segundo, precisamos de tempo humano para processar, duvidar, dizer n\u00e3o.<\/p>\n<p>E isso toca diretamente a crise do humano: o risco de entregarmos o nosso tempo existencial, o tempo de viver, sentir, elaborar, a uma l\u00f3gica que transforma toda aten\u00e7\u00e3o em clique, toda emo\u00e7\u00e3o em dado, toda rela\u00e7\u00e3o em m\u00e9trica. Nessa pedagogia do tempo, h\u00e1 afinidade com a defesa que de Masi faz de educar n\u00e3o apenas para o trabalho, mas tamb\u00e9m para o \u00f3cio, entendendo o tempo livre como espa\u00e7o de aprendizagem, cria\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como falha moral ou vazio improdutivo (de Masi, 2000).<\/p>\n<p>Em muitos lugares, j\u00e1 vemos sinais de rea\u00e7\u00e3o. Jovens come\u00e7am a se afastar de algumas redes sociais, a reduzir o tempo de tela, a buscar formas de sociabilidade que recuperem o encontro presencial, o olhar, o riso, o sil\u00eancio compartilhado. H\u00e1 uma intui\u00e7\u00e3o forte por tr\u00e1s desses gestos: algo essencial na experi\u00eancia humana n\u00e3o cabe nos modelos de dados. Em situa\u00e7\u00f5es-limite, por\u00e9m, percebemos com nitidez o que se perde quando reduzimos a vida a m\u00e9trica.<\/p>\n<p>H\u00e1 dores, v\u00ednculos, sil\u00eancios e conflitos que resistem \u00e0 convers\u00e3o em dado e lembram que, por tr\u00e1s das interfaces, permanece um resto de realidade que n\u00e3o se deixa domesticar por modelos estat\u00edsticos. Essa fric\u00e7\u00e3o entre o que vivemos e o que as plataformas conseguem representar prepara o terreno para uma imagem cl\u00e1ssica do \u201cdeserto do real\u201d. Aqui vale lembrar uma imagem trabalhada por Slavoj \u017di\u017eek ao comentar o 11 de setembro: para um p\u00fablico treinado por d\u00e9cadas de cinema de cat\u00e1strofe, o ataque \u00e0s Torres G\u00eameas pareceu ao mesmo tempo absolutamente real e estranhamente familiar, como se o \u201cdeserto do real\u201d tivesse irrompido por tr\u00e1s da tela; ao retomar a ideia lacaniana de que \u201cuma carta sempre chega ao seu destino\u201d, ele sugere que o Real se manifesta nessas fissuras entre a cena vis\u00edvel e aquilo que insiste para al\u00e9m das imagens (\u017di\u017eek, 2015).<\/p>\n<p>No contexto da intelig\u00eancia artificial, tamb\u00e9m corremos o risco de transformar o impacto dessas tecnologias em mais um espet\u00e1culo, feito de promessas, medos e efeitos especiais, e de perder de vista o conflito concreto, o sofrimento e o antagonismo que seguem estruturando a vida social para al\u00e9m das interfaces. \u00c9 nesse resto irredut\u00edvel, nesse ponto em que a vida recusa virar apenas dado, que reside uma parte importante da resposta \u00e0 crise do humano.<\/p>\n<p>Desacelerar, portanto, n\u00e3o \u00e9 recusar a intelig\u00eancia artificial. \u00c9 recusar que ela dite sozinha o ritmo do nosso tempo, das nossas causas e esperan\u00e7as. As plataformas podem continuar correndo; n\u00f3s n\u00e3o precisamos autorizar que elas apaguem a nossa capacidade de decidir, em comum, o que queremos fazer com o tempo que nos cabe viver.<\/p>\n<p><strong>Box musical<\/strong><\/p>\n<p>Resposta Ao Tempo (Nana Caymmi)<\/p>\n<p>Ora\u00e7\u00e3o Ao Tempo \u2013 Ao Vivo (Caetano Veloso)<\/p>\n<p>Sobre o tempo (Pato Fu)<\/p>\n<p>Time (Pink Floyd)<\/p>\n<p>No Surprises \u2013 Remastered (Radiohead)<\/p>\n<p>Admir\u00e1vel Chip Novo (Pitty)<\/p>\n<hr>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<p>Bola\u00f1o, C. R. S., Barreto, H. M. do R., &amp; Rivero, E. A. (2025). Regula\u00e7\u00e3o de plataformas e soberania digital: A Uni\u00e3o Europeia e a China diante da hegemonia do modelo estadunidense. <em>Liinc em Revista, 21<\/em>(1), e7530. https:\/\/doi.org\/10.18617\/liinc.v21i1.7530<\/p>\n<p>Cazzaniga, M., Jaumotte, F., Li, L., Melina, G., Panton, A. J., Pizzinelli, C., Rockall, E., &amp; Tavares, M. M. (2024). <em>Gen-AI: Artificial intelligence and the future of work<\/em> (IMF Staff Discussion Note No. SDN\/2024\/001). International Monetary Fund. https:\/\/www.imf.org\/-\/media\/files\/publications\/sdn\/2024\/english\/sdnea2024001.pdf<\/p>\n<p>Da Empoli, G. (2019). <em>Os engenheiros do caos<\/em> (A. Bloch, Trad.). Vest\u00edgio.<\/p>\n<p>De Masi, D. (2000). <em>O \u00f3cio criativo<\/em> (3\u00aa ed.; L. Manzi, Trad.). Sextante.<\/p>\n<p>Ferrari, P. (2025). <em>Desacelerar: Resist\u00eancia e combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o na era das intelig\u00eancias artificiais<\/em>. Ria Editorial.<\/p>\n<p>Gmyrek, P., Winkler, H., &amp; Garganta, S. (2024). <em>Buffer or bottleneck? Employment exposure to generative AI and the digital divide in Latin America<\/em> (ILO Working Paper No. 121). International Labour Organization &amp; World Bank.<\/p>\n<p>International Telecommunication Union. (2025). <em>Measuring digital development: Facts and figures 2025<\/em>. https:\/\/www.itu.int\/ff2025<\/p>\n<p>Maslej, N., Fattorini, L., Perrault, R., Gil, Y., Parli, V., Kariuki, N., Capstick, E., Reuel, A., Brynjolfsson, E., Etchemendy, J., Ligett, K., Lyons, T., Manyika, J., Niebles, J. C., Shoham, Y., Wald, R., Walsh, T., Hamrah, A., Santarlasci, L., \u2026 Oak, S. (2025, April). <em>The AI Index 2025 Annual Report<\/em>. AI Index Steering Committee, Institute for Human-Centered Artificial Intelligence, Stanford University. https:\/\/hai.stanford.edu\/ai-index<\/p>\n<p>de Sousa, S. (2025, June 4). Fiz as oficinas do Google e da Meta no semin\u00e1rio do partido do Bolsonaro. Aqui est\u00e1 o que aprendi. <em>The Intercept Brasil<\/em>. https:\/\/www.intercept.com.br\/2025\/06\/04\/oficinas-google-meta-partido-bolsonaro<\/p>\n<p>United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2021). <em>Recomenda\u00e7\u00e3o sobre a \u00c9tica da Intelig\u00eancia Artificial<\/em>. https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000381137_por<\/p>\n<p>Van Dijck, J., Poell, T., &amp; de Waal, M. (2018). <em>The platform society: Public values in a connective world<\/em>. Oxford University Press. https:\/\/doi.org\/10.1093\/oso\/9780190889760.001.0001<\/p>\n<p>\u017di\u017eek, S. (2003). <em>Bem-vindo ao deserto do Real!: Cinco ensaios sobre o 11 de setembro e datas relacionadas<\/em> (P. Castanheira, Trad.). Boitempo.<\/p>\n<p>Zuboff, S. (2021). <em>A era do capitalismo de vigil\u00e2ncia: A luta por um futuro humano na nova fronteira do poder<\/em> (G. Schlesinger, Trad.). Intr\u00ednseca.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Em troca da otimiza\u00e7\u00e3o, o processo de pensamento estaria se empobrecendo? O crit\u00e9rio de autenticidade pode desmoronar? Quais os efeitos concretos na sociedade? Leia um cap\u00edtulo<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/ia-e-a-crise-do-que-chamamos-de-humano\/\">IA e a crise do que chamamos de \u201chumano\u201d<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":73801,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[35422,3653,35423,2345,12006,5493],"tags":[],"class_list":["post-73800","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-crise-do-humano","category-deepfake","category-iagen","category-plataformas-digitais","category-soberania-cognitiva","category-tecnologia-em-disputa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73800","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73800"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73800\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73801"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73800"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73800"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73800"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}