{"id":74399,"date":"2026-02-13T17:18:34","date_gmt":"2026-02-13T20:18:34","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-brasil-no-labirinto-da-maconha-medicinal\/"},"modified":"2026-02-13T17:18:34","modified_gmt":"2026-02-13T20:18:34","slug":"o-brasil-no-labirinto-da-maconha-medicinal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-brasil-no-labirinto-da-maconha-medicinal\/","title":{"rendered":"O Brasil no labirinto da maconha medicinal"},"content":{"rendered":"<figure><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em 2018, Angela Aboin teve que receber em sua casa policiais da Delegacia de Investiga\u00e7\u00f5es sobre Entorpecentes de Campinas, cidade do interior de S\u00e3o Paulo. A abordagem era fruto de uma den\u00fancia de que ela estaria envolvida com o tr\u00e1fico de drogas. M\u00e3e at\u00edpica \u2013 termo usado para mulheres que vivenciam a maternidade de forma distinta \u2013 cultivava cannabis em casa para uso medicinal.<\/p>\n<p>A filha de Angela, Maria Luiza, foi diagnosticada ainda na primeira inf\u00e2ncia com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e at\u00e9 os 4 anos convivia com convuls\u00f5es di\u00e1rias e quase n\u00e3o falava, quadro que come\u00e7ou a mudar com o medicamento. \u201cEu j\u00e1 estava sendo acompanhada pela Defensoria P\u00fablica h\u00e1 um ano, com uma dificuldade enorme para entrar com a a\u00e7\u00e3o\u201d, lembra, em entrevista ao <em>Outras Palavras<\/em>. \u201cVim de uma vida acad\u00eamica, de letramento cient\u00edfico. N\u00e3o fiz algo da minha cabe\u00e7a; fui buscando conhecimento pr\u00e1tico e cient\u00edfico. Quando a pol\u00edcia veio \u00e0 minha casa, foi muito dif\u00edcil. No primeiro momento, achei que minha a\u00e7\u00e3o tinha andado, mas me explicaram que era uma den\u00fancia de tr\u00e1fico\u201d, recorda.<\/p>\n<p>\u201cComo eu j\u00e1 tinha embasamento, mostrei todos os documentos, relat\u00f3rios m\u00e9dicos e de cultivo. Eu estava gritando no Judici\u00e1rio que queria ser ouvida e entendi ali que a pol\u00edcia seria meu porta-voz. O juiz nunca me receberia, mas ouviria o delegado. As provas contra mim seriam a minha defesa\u201d, conta ela, destacando que a situa\u00e7\u00e3o foi um choque para os pr\u00f3prios agentes. \u201cA abordagem foi constrangedora para todos. Eles vieram para resolver uma quest\u00e3o de tr\u00e1fico envolvendo crian\u00e7a em vulnerabilidade, vieram para ser her\u00f3is. Quando apresentei a realidade, foi uma saia justa.\u201d<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/17-1-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/17-1-3.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31175636\/17-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em 2019, ela conquistou seu primeiro Habeas Corpus (HC) para cultivar cannabis e produzir o rem\u00e9dio para Maria Luiza. \u201cEntendo que isso foi o in\u00edcio de uma constru\u00e7\u00e3o de direito ao acesso ao cultivo dom\u00e9stico\u201d, pontua. Mas a falta de legisla\u00e7\u00e3o e regramento espec\u00edfico fizeram com que todos os anos o HC tivesse que ser renovado, somando seis para que seu direito ao cultivo fosse assegurado.<\/p>\n<p>Somente em 2024 o Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo (TJSP) concedeu o salvo-conduto definitivo. Um dos fundamentos da decis\u00e3o foi um relat\u00f3rio produzido pelo Centro de Atendimento Multidisciplinar (CAM) da Defensoria P\u00fablica em Campinas descrevendo a evolu\u00e7\u00e3o da filha de Angela a partir do tratamento com \u00f3leo de cannabis, iniciado em 2017 mediante prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Antes, a crian\u00e7a apresentava atraso na verbaliza\u00e7\u00e3o de ideias, com altera\u00e7\u00f5es de humor e momentos de crises graves que chegavam a ocorrer tr\u00eas vezes em um mesmo dia, envolvendo comportamentos agressivos. Atualmente, as crises s\u00e3o raras, duram menos e n\u00e3o escalam para o mesmo tipo de comportamento.<\/p>\n<p>\u201cO medo da genitora decorre da incerteza quanto \u00e0 continuidade do cultivo e os riscos de uma eventual interrup\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o do \u00f3leo e seus efeitos negativos no desenvolvimento de sua filha nessa etapa importante de desenvolvimento e puberdade. A exig\u00eancia de renova\u00e7\u00f5es anuais para o cultivo exp\u00f5e a fam\u00edlia a burocracias e incertezas que somam aos desafios usuais da cria\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e9-adolescente at\u00edpica\u201d, dizia o pedido de autoria das coordenadoras do N\u00facleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos (NCDH) da Defensoria P\u00fablica, Fernanda Balera, Cecilia Ferreira e Surrailly Youssef.<\/p>\n<h3><strong>Novo marco regulat\u00f3rio<\/strong><\/h3>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de incerteza jur\u00eddica de Angela era e ainda \u00e9 a mesma de diversas m\u00e3es e fam\u00edlias que precisam de tratamentos baseados na maconha medicinal. Um quadro que contou com uma mudan\u00e7a positiva no fim de janeiro, com a divulga\u00e7\u00e3o e posterior publica\u00e7\u00e3o das Resolu\u00e7\u00f5es da Diretoria Colegiada (RDCs) da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa), que regulamentam a produ\u00e7\u00e3o de cannabis com fins medicinais no Brasil, estabelecendo ainda um novo marco regulat\u00f3rio para a fabrica\u00e7\u00e3o e importa\u00e7\u00e3o de produtos derivados da planta.<\/p>\n<p>A regulamenta\u00e7\u00e3o atende a uma decis\u00e3o do Superior Tribunal de Justi\u00e7a de novembro de 2024. Na ocasi\u00e3o, a Primeira Se\u00e7\u00e3o da Corte considerou juridicamente poss\u00edvel a concess\u00e3o de autoriza\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria para plantio, cultivo e comercializa\u00e7\u00e3o do chamado c\u00e2nhamo industrial \u2013 uma varia\u00e7\u00e3o da <em>Cannabis sativa <\/em>com teor de tetrahidrocanabinol (THC) inferior a 0,3% \u2013 por pessoas jur\u00eddicas, para fins exclusivamente medicinais e farmac\u00eauticos.<\/p>\n<p>No debate regulat\u00f3rio, c\u00e2nhamo (hemp) e maconha s\u00e3o categorias definidas principalmente pelo teor de tetrahidrocanabinol e pela finalidade do cultivo. As duas t\u00eam THC \u2013 componente respons\u00e1vel pelos estados alterados de percep\u00e7\u00e3o \u2013 e canabidiol (CBD) \u2013 com propriedades terap\u00eauticas, mas em concentra\u00e7\u00f5es diferentes. Como apontou a ministra relatora do recurso especial, Regina Helena Costa, o c\u00e2nhamo industrial tem alto teor de CBD e geralmente a concentra\u00e7\u00e3o de THC n\u00e3o passa de 0,3%, sendo incapaz de causar efeitos psicotr\u00f3picos. A maconha, por exemplo, cont\u00e9m teores entre 10% e 30% do THC e \u00e9 classificada como droga psicotr\u00f3pica.<\/p>\n<p>As normas, que entram em vigor em seis meses, autorizam o plantio restrito e supervisionado exclusivamente para fins medicinais, farmac\u00eauticos e cient\u00edficos, com exig\u00eancias rigorosas de seguran\u00e7a, monitoramento e rastreabilidade. No caso do c\u00e2nhamo industrial, o cultivo ser\u00e1 permitido apenas a estabelecimentos com Autoriza\u00e7\u00e3o Especial da ag\u00eancia, incluindo a importa\u00e7\u00e3o de sementes, enquanto lotes que ultrapassem o limite legal dever\u00e3o ser imediatamente isolados e destru\u00eddos.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/banner-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/banner-2.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2024\/03\/31202800\/banner-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O novo regramento tamb\u00e9m amplia o acesso terap\u00eautico ao permitir medicamentos com teor de THC acima de 0,2% para doen\u00e7as graves e debilitantes, autoriza a prescri\u00e7\u00e3o por m\u00e9dicos veterin\u00e1rios e cria um \u201csandbox regulat\u00f3rio\u201d (um ambiente experimental supervisionado) para acompanhar, por at\u00e9 cinco anos, experi\u00eancias de pequena escala, como as de associa\u00e7\u00f5es de pacientes.<\/p>\n<p>\u201cPessoa jur\u00eddica pode cultivar c\u00e2nhamo (at\u00e9 0,3% de THC) para insumo farmac\u00eautico por meio de Autoriza\u00e7\u00e3o Especial da Anvisa e importa\u00e7\u00e3o regulada pelo MAPA [Minist\u00e9rio da Agricultura e Pecu\u00e1ria]. Foi o regramento que deu para fazer dentro da moldura cient\u00edfico-medicinal para empresas e estabelecimentos de ensino, que podem pesquisar todas as variedades de cannabis independentemente do teor de canabinoides\u201d, explica o advogado e membro da Sociedade Brasileira de Estudo da Cannabis (SBEC), Konstantin Gerber.<\/p>\n<p>Embora todos os impactos estejam sendo avaliados, um dos efeitos pode ser uma maior possibilidade de acesso para aqueles que procuram medicamentos. \u201cQuando a Anvisa faz o trabalho com esse trip\u00e9 de seguran\u00e7a, efic\u00e1cia e qualidade, ela tem um papel muito importante para o acesso a essas terapias pela popula\u00e7\u00e3o brasileira. E quando h\u00e1 um processo todo feito no pa\u00eds, existe uma redu\u00e7\u00e3o de custos substancial. H\u00e1 estudos indicando que se pode ter uma redu\u00e7\u00e3o de custos de at\u00e9 60%\u201d, aponta, em entrevista \u00e0 Globo News, o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle.<\/p>\n<h3><strong>O trabalho das associa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>Como integrante da associa\u00e7\u00e3o M\u00e3esconha e coordenadora da Federa\u00e7\u00e3o das Associa\u00e7\u00f5es de Cannabis Terap\u00eautica (FACT), Angela Aboin foi uma das respons\u00e1veis por enviar \u00e0 Anvisa um relat\u00f3rio descrevendo o funcionamento desses coletivos como forma de contribuir para a proposta de regulamenta\u00e7\u00e3o do cultivo. Como atesta o documento, s\u00e3o associa\u00e7\u00f5es que \u201cvieram de fam\u00edlias pioneiras \u2014 em sua maioria, m\u00e3es \u2014 que buscaram na ci\u00eancia e no cultivo uma resposta para o sofrimento extremo: crises epil\u00e9pticas, convuls\u00f5es di\u00e1rias, dores cr\u00f4nicas, colapsos neurol\u00f3gicos, transtornos mentais graves, limita\u00e7\u00f5es legais absurdas, pris\u00f5es injustas, criminaliza\u00e7\u00e3o de pacientes e, acima de tudo, a urg\u00eancia em manter seus filhos e familiares vivos.\u201d<\/p>\n<p>Existe uma diversidade de modelos de associa\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 cannabis no Brasil, reunindo saberes etnofarmacol\u00f3gicos, tecnologias sociais de cuidado e formas pr\u00f3prias de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, observa o levantamento. \u201cN\u00e3o se restringem ao acesso ao \u00f3leo ou ao cultivo. H\u00e1 associa\u00e7\u00f5es com finalidades culturais, educativas, de promo\u00e7\u00e3o de direitos, de apoio a fam\u00edlias que cultivam em casa, de suporte a profissionais da sa\u00fade, e tamb\u00e9m aquelas dedicadas ao uso ancestral e religioso, trazendo para o debate temas como repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, autonomia e justi\u00e7a social.\u201d<\/p>\n<p>Os coletivos surgem e trabalham em um contexto no qual existem lacunas no cuidado em sa\u00fade humana e animal, aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas e o desejo de promover pr\u00e1ticas de cuidado integradas ao territ\u00f3rio, \u00e0 comunidade e ao meio ambiente. \u201cElas [associa\u00e7\u00f5es] assumem um papel essencial de acolhimento, educa\u00e7\u00e3o e \u2014 em muitos casos \u2014 de produ\u00e7\u00e3o artesanal de produtos associativistas derivados da cannabis. S\u00e3o produtos que sustentam vidas, reduzem sofrimentos e ampliam a autonomia de cuidado integral com boas pr\u00e1ticas\u201d, diz ainda a Fact.<\/p>\n<p>Segundo o levantamento, h\u00e1 hoje uma predomin\u00e2ncia de associa\u00e7\u00f5es pequenas, com 46% atendendo at\u00e9 50 pacientes por m\u00eas, oferecendo principalmente produtos associativos derivados de cannabis. Contudo, os coletivos possuem um corpo associativo muito mais amplo, composto por pessoas que j\u00e1 passaram por tratamento ou mant\u00eam outros v\u00ednculos com a organiza\u00e7\u00e3o. No perfil de cadastros, 5% das associa\u00e7\u00f5es contam com mais de 10 mil cadastros.<\/p>\n<p>Ainda que tenham uma import\u00e2ncia fundamental no acesso a medicamentos baseados na cannabis, estes coletivos ainda n\u00e3o foram contemplados de forma mais ampla pela regulamenta\u00e7\u00e3o, exce\u00e7\u00e3o feita \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o como ambiente de pesquisa. \u201cAs associa\u00e7\u00f5es de pacientes n\u00e3o contam com um procedimento administrativo de autoriza\u00e7\u00e3o previsto em regulamento. Isso significa que, na falta de respaldo judicial, podem se sujeitar a interven\u00e7\u00f5es policiais ou apreens\u00f5es com multas administrativas da Anvisa\u201d, explica Konstantin Gerber.<\/p>\n<p>Para a pesquisa cient\u00edfica, contudo, as regras s\u00e3o mais flex\u00edveis, inclusive para variedades com maior concentra\u00e7\u00e3o de THC, desde que cumpridos protocolos estritos de seguran\u00e7a. Nesse aspecto, Angela v\u00ea possibilidades de avan\u00e7os maiores. \u201cAcho que o Brasil vai se tornar o maior produtor acad\u00eamico de ci\u00eancia sobre a maconha nos pr\u00f3ximos anos. N\u00e3o tenho d\u00favida, com a abertura que a Anvisa deixou, o nosso bote de salva\u00e7\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u00c9 a justificativa do desenvolvimento acad\u00eamico\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Ela cita como exemplo o trabalho do m\u00e9dico e pesquisador brasileiro Elisaldo Carlini. Professor em\u00e9rito da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), fundou o Departamento de Psicobiologia da Unifesp e o Centro Brasileiro de Informa\u00e7\u00f5es sobre Drogas Psicotr\u00f3picas (Cebrid), defendendo o uso terap\u00eautico de subst\u00e2ncias muitas vezes estigmatizadas, desde que houvesse comprova\u00e7\u00e3o de efic\u00e1cia e seguran\u00e7a. Foi um dos primeiros a investigar os efeitos terap\u00eauticos da cannabis em uma \u00e9poca em que o proibicionismo impedia a maioria das pesquisas no mundo e, no Brasil, durante boa parte deste per\u00edodo se vivia sob uma ditadura. Ainda assim, liderou um estudo, em parceria com pesquisadores israelenses, demonstrando que o canabidiol tinha efeitos anticonvulsivantes eficazes em pacientes com epilepsia refrat\u00e1ria, sem causar os efeitos psicoativos do THC.<\/p>\n<p>\u201cSempre tive esse exemplo, pra mim, do professor Carlini, que com rigor cient\u00edfico, n\u00e3o rigor moral, com pensamento objetivo em rela\u00e7\u00e3o ao que se quer fazer ou o que se quer alcan\u00e7ar com um tratamento, voc\u00ea consegue ter argumentos pra conversar com todo tipo de p\u00fablico\u201d, diz Angela.<\/p>\n<h3><strong>Gen\u00e9tica tropical e o risco de exclus<\/strong><strong>\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Ainda assim, entre a evid\u00eancia cient\u00edfica e o acesso efetivo, h\u00e1 um caminho feito de regras t\u00e9cnicas, custos e condi\u00e7\u00f5es de cultivo que podem restringir quem consegue se beneficiar do avan\u00e7o regulat\u00f3rio, j\u00e1 que a imposi\u00e7\u00e3o de limites r\u00edgidos de THC esbarra em um desafio natural: o clima brasileiro. Para o colaborador da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Apoio Cannabis Esperan\u00e7a (Abrace) e guia do Museu Brasileiro da Cannabis, <em>Wanderson Carlos Firmino da Silva,<\/em> as regras parecem ter sido desenhadas para realidades de clima temperado, ignorando a pot\u00eancia da \u201cgen\u00e9tica tropical\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPara o Brasil \u00e9 dif\u00edcil cumprir essa determina\u00e7\u00e3o da Anvisa de at\u00e9 0,3% de THC em condi\u00e7\u00f5es normais. O THC se apresenta naturalmente, \u00e9 uma planta livre com o nosso clima\u201d, explica Wanderson. Ele detalha que, para manter os n\u00edveis de canabinoides artificialmente baixos em condi\u00e7\u00f5es tropicais, o cultivo exige um controle tecnol\u00f3gico rigoroso e caro. \u201cEstamos falando de cultivo\u00a0<em>indoor<\/em>, com temperatura e umidade controladas. Isso n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 excludente para a popula\u00e7\u00e3o, como at\u00e9 mesmo para as associa\u00e7\u00f5es. A gente sabe que praticar isso \u00e9 dif\u00edcil\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Essa barreira tecnol\u00f3gica cria o temor de que o mercado se feche em torno de quem det\u00e9m capital financeiro e jur\u00eddico, reproduzindo a l\u00f3gica da ind\u00fastria farmac\u00eautica tradicional e afastando o cultivo da agricultura familiar e de pr\u00e1ticas associadas \u00e0 economia solid\u00e1ria. Wanderson critica o que chama de \u201ceugenia\u201d no processo de sele\u00e7\u00e3o da planta, onde se prioriza a importa\u00e7\u00e3o de gen\u00e9ticas estrangeiras em detrimento das variedades ancestrais j\u00e1 adaptadas ao solo nacional.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto olhamos para a ind\u00fastria internacional, estamos na importa\u00e7\u00e3o de gen\u00e9tica. Nossa gen\u00e9tica, nossos ancestrais, inclusive coloniais, est\u00e3o perdidos\u201d, lamenta. Para ele, o Brasil desperdi\u00e7a a oportunidade de integrar a <em>cannabis<\/em> em uma economia verde e inclusiva, que poderia gerar empregos e aproveitar o conhecimento tradicional. \u201cO sucesso da cannabis no Brasil sempre foi a conflu\u00eancia entre as culturas africanas, as culturas nativas e outras. A gente pode pensar em todos os tipos de parceria, mover n\u00e3o s\u00f3 de maneira econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m no sentido da conscientiza\u00e7\u00e3o\u201d, defende.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Mas regras r\u00edgidas e alto custo, sem aporte p\u00fablico, mant\u00eam entraves que excluem quem mais precisa. Ignoram \u201cgen\u00e9tica tropical\u201d. E ainda privilegiam as grandes farmac\u00eauticas\u2026 <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direitosouprivilegios\/o-brasil-no-labirinto-da-maconha-medicinal\/\">O Brasil no labirinto da maconha medicinal<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":74400,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[581,2069,1644,8698,365,35742,35743,18123],"tags":[],"class_list":["post-74399","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anvisa","category-canhamo-industrial","category-cannabis-medicinal","category-direitos-ou-privilegios","category-maconha","category-maconha-medicinal","category-politica-de-drogas","category-proibicionismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74399","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=74399"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74399\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/74400"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=74399"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=74399"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=74399"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}