{"id":74408,"date":"2026-02-13T18:57:40","date_gmt":"2026-02-13T21:57:40","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/esquerda-gelida-o-feminismo-tem-algo-a-dizer\/"},"modified":"2026-02-13T18:57:40","modified_gmt":"2026-02-13T21:57:40","slug":"esquerda-gelida-o-feminismo-tem-algo-a-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/esquerda-gelida-o-feminismo-tem-algo-a-dizer\/","title":{"rendered":"Esquerda g\u00e9lida: o feminismo tem algo a dizer?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1023\" height=\"604\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela-de-2026-02-13-18-45-50.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela-de-2026-02-13-18-45-50.png 1023w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/13184636\/Captura-de-tela-de-2026-02-13-18-45-50-300x177.png 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/13184636\/Captura-de-tela-de-2026-02-13-18-45-50-768x453.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1023px) 100vw, 1023px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Alessandra Affortunati<\/strong>, entrevistada por <strong>Marcel D. C. Souza<\/p>\n<p><\/strong><em>O balan\u00e7o sobre as heran\u00e7as e d\u00edvidas do s\u00e9culo XX \u00e9 uma constante nos estudos das Ci\u00eancias Humanas, em especial, nos que se desenvolveram a partir de cr\u00edticas e avalia\u00e7\u00f5es sobre a hist\u00f3ria e a historiografia das correntes te\u00f3ricas, das experi\u00eancias pol\u00edticas, revolu\u00e7\u00f5es, guerras e genoc\u00eddios deste s\u00e9culo.<\/em><\/p>\n<p><em>Nos \u00faltimos dez anos, com a ascens\u00e3o internacional de programas fascistas, a fase atual de exterm\u00ednio na coloniza\u00e7\u00e3o isralense em Gaza, o sequestro do presidente latinoamericano Nicol\u00e1s Maduro, bem como a intensifica\u00e7\u00e3o e avan\u00e7o, p\u00f3s-Bolsonaro, da viol\u00eancia policial e privatiza\u00e7\u00f5es no Brasil, em meio a uma premente incapacidade pol\u00edtica das esquerdas de realizar alguma contraposi\u00e7\u00e3o efetiva a esses avan\u00e7os, essa constela\u00e7\u00e3o de fatores atualiza a import\u00e2ncia de um balan\u00e7o cr\u00edtico.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o apenas devido a preju\u00edzos produzidos por de ataques da extrema-direita \u2013 mas talvez por uma desorienta\u00e7\u00e3o dos que, em princ\u00edpio, desejariam superar o capitalismo \u2014 vemos aparecer no centro dos debates express\u00f5es como \u201co futuro da esquerda\u201d e quest\u00f5es sobre o diagn\u00f3stico de nosso tempo.<\/em><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-1.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180616\/1.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p><em>Livros como o \u201cJunho de 2013: a rebeli\u00e3o fantasma\u201d, publicado pela Boitempo em 2023, ou \u201cA esquerda que n\u00e3o teme dizer o seu nome\u201d, de Vladimir Safatle, republicado em 2025, s\u00e3o seguidos por entrevistas ou podcasts onde, vira e mexe, uma militante ou um influenciador faz um balan\u00e7o sobre a sua hist\u00f3ria de vida e sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos \u00faltimos 20 anos. As ruas e os rolezinhos de 2013, as ocupa\u00e7\u00f5es nas escolas em 2014, o golpe sobre Dilma em 2016, Bolsonaro, militares no poder e Lula. Mais recentemente, uma entrevista com a professora Marilena Chaui, na Folha de S\u00e3o Paulo, pareceu ser mais um desses balan\u00e7os.<\/p>\n<p>A escritora, fil\u00f3sofa e psicanalista Alessandra Affortunati Martins tem algo a dizer neste debate. Fala a partir de uma perspectiva feminista. Estuda, h\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada, o papel que a psican\u00e1lise (ou sua aus\u00eancia) podem jogar no enfrentamento da ultradireita. Mais recentemente tem se debru\u00e7ado ao ocultamento das mulheres na produ\u00e7\u00e3o intelectual e pol\u00edtica ao longo da Hist\u00f3ria \u2013 praticado inclusive no \u00e2mbito da esquerda. Acaba de publicar <\/em><em><u>\u201cA palavra das mulheres como pharmakon: uma leitura arqueol\u00f3gica\u201d<\/u><\/em><em>, artigo em que examina o sufocamento, a partir do advento da l\u00f3gica aristot\u00e9lica, de outras modalidades de conhecimento \u2013 em especial as ligadas aos saberes das mulheres. Lan\u00e7ar\u00e1 em julho pela editora Cult, o livro Discursos da Vulva, em que se choca com a ideia freudiana da falta do p\u00eanis ou do falo e busca dar voz a outras cadeias de formas e linguagens associadas ao feminino. Na entrevista a seguir, ela debate tanto os impasses da esquerda quanto os pap\u00e9is que podem caber \u00e0s mulheres na reconstru\u00e7\u00e3o de horizontes pol\u00edticos p\u00f3s-capitalistas.<\/em><\/p>\n<p><em>Alessandra tem 5 livros publicados: Sublima\u00e7\u00e3o e Unheimliche (Pearson, 2017), Freud e o patriarcado (Hedra\/FAPESP, 2020), O sens\u00edvel e a abstra\u00e7\u00e3o (e-galaxia, 2021), Breve Hist\u00f3ria da Carne (Iluminuras, 2023) e Limiares: desafios contempor\u00e2neos da psican\u00e1lise (Blucher, 2024).<\/em><\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"797\" height=\"511\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela-de-2026-02-13-18-36-23.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Captura-de-tela-de-2026-02-13-18-36-23.png 797w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/13183707\/Captura-de-tela-de-2026-02-13-18-36-23-300x192.png 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/13183707\/Captura-de-tela-de-2026-02-13-18-36-23-768x492.png 768w\" sizes=\"(max-width: 797px) 100vw, 797px\"><\/figure>\n<p><strong>Gostaria de recuperar, primeiro, seu balan\u00e7o sobre as mudan\u00e7as que identifica em suas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas. Em 2019, quando tive contato com sua obra, eu via os intelectuais como capazes de compreender a realidade da ascens\u00e3o do fascismo no Brasil. Mas talvez o entendimento de intelectuais n\u00e3o tenha produzido os efeitos esperados. O que mudou depois do governo Bolsonaro e da pandemia de Covid-19 ?<\/strong><\/p>\n<p>Estudo o nazifascismo de maneira intensa h\u00e1 d\u00e9cadas. O interesse pela obra de Walter Benjamin, que se iniciou nos anos 2000, tamb\u00e9m me conduziu para esse contexto de an\u00e1lise cr\u00edtica entre as d\u00e9cadas de 1920-1945 na Europa. Antes de 2015, por\u00e9m, esses estudos tinham uma vers\u00e3o talvez menos program\u00e1tica e s\u00f3 naquele ano assumiram protagonismo nas pesquisas que realizei em um p\u00f3s-doutorado sobre O homem Mois\u00e9s e a religi\u00e3o monote\u00edsta. O ensaio foi escrito por Freud logo ap\u00f3s a ascens\u00e3o de Hitler ao poder e do ex\u00edlio de Freud na Inglaterra.<\/p>\n<p>Quando a extrema-direita se consolida como for\u00e7a pol\u00edtica no Brasil de hoje, esse repert\u00f3rio anterior situa o fen\u00f4meno em minhas reflex\u00f5es sobre o presente, mas ele ainda deixa v\u00e1rias lacunas para pens\u00e1-lo. O ano de 2018, por conseguinte, trouxe a mim a tarefa ingl\u00f3ria de tentar entender algo sobre o bolsonarismo.<\/p>\n<p>Comecei pelo Olavo de Carvalho que se nomeava fil\u00f3sofo. Li uma s\u00e9rie de escritos olavistas quando quase ningu\u00e9m da esquerda considerava isso importante e simplesmente subestimava a extrema-direita. Em um debate com Vladimir Safatle, publiquei pelo site da N-1 edi\u00e7\u00f5es o ensaio \u201cDa melancolia \u00e0 mania suicida: o c\u00edrculo demon\u00edaco brasileiro\u201d, que tra\u00e7a o panorama do que pude esmiu\u00e7ar \u00e0 \u00e9poca dessas investiga\u00e7\u00f5es. Depois publiquei outros textos em que mostro como, sem d\u00favida, a cr\u00edtica ainda \u00e9 importante, mas s\u00f3 ela n\u00e3o d\u00e1 mais conta de operar como resist\u00eancia \u00e0 for\u00e7a da direita. Constatando tal limite da cr\u00edtica, assumi que os problemas atuais s\u00e3o sintomas modernos em amplo sentido e que todos n\u00f3s somos respons\u00e1veis por eles.<\/p>\n<p>Com isso, rompe-se o elemento judicativo moralista inerente a muitas an\u00e1lises cr\u00edticas para permitir a entrada de um lugar importante da psican\u00e1lise. Toma-se, por meio dela, as m\u00faltiplas solu\u00e7\u00f5es de compromisso sintom\u00e1ticas, isto \u00e9, as suas v\u00e1rias camadas \u2013 sociais, ps\u00edquicas, hist\u00f3ricas, pol\u00edticas \u2013 para decomp\u00f4-las e analis\u00e1-las at\u00e9 dissolv\u00ea-las. O car\u00e1ter antit\u00e9tico da cr\u00edtica tem mostrado cada vez mais fortemente seus limites em uma era digital que opera por 0 ou 1, da\u00ed a import\u00e2ncia de dar \u00eanfase \u00e0s media\u00e7\u00f5es que se alocam nos limiares entre as diferentes posi\u00e7\u00f5es que sempre s\u00e3o identidades \u2013 n\u00e3o s\u00f3 no que se chama \u201clutas identit\u00e1rias\u201d. Qualquer predicado atribu\u00eddo a um nome \u00e9 uma identidade, inclusive fil\u00f3sofo ou psicanalista, lacaniano ou freudiano, por exemplo.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/2Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/2Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-5.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180615\/2.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A mudan\u00e7a, ainda anterior \u00e0 Covid-19, mas que se acirrou a partir dela, se refere \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 heroiciza\u00e7\u00e3o do fascismo hoje e, de outro lado, uma esp\u00e9cie de impot\u00eancia da mem\u00f3ria e da hist\u00f3ria como formas de resist\u00eancia \u00e0 viol\u00eancia. Estou escrevendo um texto agora sobre os meandros dessa mudan\u00e7a a partir de Donald Trump, Eichmann, O. J. Simpson e o abismo de Gaza. A conex\u00e3o entre tais figuras e elementos hist\u00f3ricos, aparentemente disparatada, parte de escritos de duas feministas estudiosas de psican\u00e1lise e teoria cr\u00edtica: Jacqueline Rose e Shoshana Felman. Esse fracasso importante da mem\u00f3ria deve ocupar psicanalistas e fil\u00f3sofos \u2013 repetir, recordar e elaborar parecem insuficientes como alternativa ao mal e podem inclusive servir aos seus fins, eis o que me parece estar em jogo agora.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma trajet\u00f3ria de investiga\u00e7\u00e3o pouco comum. De que maneira ela se relaciona \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o intelectual e pessoal?<\/strong><\/p>\n<p>Minha posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e0 esquerda foi uma constru\u00e7\u00e3o vagarosa, que se deu durante os primeiros anos de gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia na PUC-SP e se consolidou tamb\u00e9m teoricamente com os estudos que realizei pouco depois na Filosofia da FFLCH-USP. Minha fam\u00edlia \u00e9 composta por pessoas de direita \u2013 n\u00e3o extrema-direita, mas claramente de direita. Essa origem sempre concedeu um ar estrangeiro ao meu lugar como intelectual de esquerda. Ou seja, ser de esquerda n\u00e3o havia sido uma quest\u00e3o de ber\u00e7o, como ocorre com muitos intelectuais. Esse tra\u00e7o estrangeiro de minha origem demarca uma posi\u00e7\u00e3o nem sempre confort\u00e1vel de sustentar; a vantagem talvez tenha sido o fato de que minha ades\u00e3o \u00e0s posi\u00e7\u00f5es predominantes tenha sempre ocorrido de maneira dificultosa, e, desistindo de ser o que jamais poderia ser, tive muita liberdade intelectual.<\/p>\n<p>Essa origem distante exigiu de meus afetos o esfor\u00e7o de tentar entender a linha de racioc\u00ednio que dali se desdobrava. Isso \u00e9 muito dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel. Mas fa\u00e7o esse exerc\u00edcio em nome do amor que sinto pela minha m\u00e3e, que \u00e9 conservadora. Quando minha raiva cresce, busco entender o lado da outra pessoa, o que n\u00e3o significa justificar posi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o considero \u00e9ticas.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea hoje as rela\u00e7\u00f5es entre marxismo e psican\u00e1lise? Ou ainda, como voc\u00ea localiza o seu trabalho intelectual na tradi\u00e7\u00e3o marxista? Estranho falar em revolu\u00e7\u00e3o hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Responder a esta pergunta complexa implicaria o resgate de toda uma tradi\u00e7\u00e3o, especialmente a da teoria cr\u00edtica frankfurtiana que articula de diferentes formas psican\u00e1lise e marxismo. Seja como for, talvez fosse importante trazer a raz\u00e3o pela qual a primeira gera\u00e7\u00e3o da Escola de Frankfurt resolveu se dedicar \u00e0 psican\u00e1lise. Tanto Theodor Adorno quanto Max Horkheimer voltaram sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Freud e outros psicanalistas porque tinham uma pergunta sobre o fracasso da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Era evidente que a precariza\u00e7\u00e3o extrema da classe trabalhadora j\u00e1 tinha ocorrido em grande parte da Europa antes e, sobretudo, depois da Primeira Guerra Mundial ou ainda mais ap\u00f3s a queda da bolsa em 1929, por exemplo. Isso redundou, paradoxalmente, no fortalecimento da extrema-direita e trouxe ainda a ascens\u00e3o de Hitler. Como entender esse fracasso da revolu\u00e7\u00e3o, que seria esperada quando a classe trabalhadora n\u00e3o tivesse mais nada a perder e se desse conta da sua for\u00e7a de trabalho como valor e, por conseguinte, como forma de luta? O que se viu n\u00e3o foi exatamente o que se esperava.<\/p>\n<p>Por outro lado, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa trouxe uma s\u00e9rie de aberturas importantes para o vi\u00e9s revolucion\u00e1rio da esquerda e entrou em disputa com o capitalismo, mas no longo prazo o enredo stalinista apresentou um horror que n\u00e3o se pode negar: em muitas dimens\u00f5es foi algo an\u00e1logo ao que houve de pior na extrema-direita. Como ficamos, ent\u00e3o? Brinco que atualmente retornei ao cartesianismo e sou a ess\u00eancia da d\u00favida. Retomo um procedimento marxista de an\u00e1lise das media\u00e7\u00f5es em cada uma das situa\u00e7\u00f5es materiais e hist\u00f3ricas que se apresentam. Mas a dial\u00e9tica, embora ainda necess\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 mais suficiente. Talvez, por isso, para al\u00e9m das quest\u00f5es de mercado, a psican\u00e1lise tenha se tornado uma ferramenta essencial.<\/p>\n<p><strong>Lendo a entrevista de Marilena Chaui, principalmente nos momentos de cr\u00edtica ao que ela chama de \u201cmovimentos identit\u00e1rios\u201d, lembrei do seu artigo \u201cPol\u00edtica: entre fraldas sujas e amor\u201d em di\u00e1logo cr\u00edtico com Maria Rita Kehl. Como voc\u00ea avalia esse impasse de alguns intelectuais e suas cr\u00edticas aos movimentos e pautas identit\u00e1rias, no nosso tempo hist\u00f3rico?<\/strong><\/p>\n<p>As pautas tidas como identit\u00e1rias est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o desde as d\u00e9cadas de 1960-70. De fato, como aponta Nancy Fraser, desde a era Clinton algumas lutas e discursos serviram como formas tanto de escamotear quanto de dar livre curso ao car\u00e1ter predat\u00f3rio de um novo modelo de capitalismo, o neoliberal globalizado. Contudo, o fato de, como sempre, o capitalismo se apropriar do que conv\u00e9m aos seus interesses mais nefastos n\u00e3o invalida o que \u00e9 debatido e reivindicado nas lutas por direitos e justi\u00e7a. Por isso, minha pergunta: por que a esquerda tradicional tem invalidado, na mesma onda da extrema-direita, as pautas ligadas a marcadores sociais?<\/p>\n<p>Um dos argumentos usados pela esquerda tradicional \u00e9 o modismo e o outro seria o enfraquecimento da luta de classes que se veria subdividida. N\u00e3o considero nenhum desses dois argumentos fortes. Gostaria de lembrar, s\u00f3 para citar um exemplo contradit\u00f3rio sobre o argumento da moda, como o pr\u00f3prio Roberto Schwarz, um dos principais \u00edcones da esquerda que tenho denominado tradicional, reconhecia que o marxismo, \u00e0 \u00e9poca da ditadura, estava situado entre a intelectualidade brasileira de forma n\u00e3o s\u00f3 livre, como \u00faltima tend\u00eancia da moda nos diferentes circuitos simb\u00f3licos das artes e do pensamento:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Em 1964 instalou-se no Brasil o regime militar, a fim de garantir o capital e o continente contra o socialismo. O governo populista de Goulart, apesar da vasta mobiliza\u00e7\u00e3o esquerdizante a que procedera, temia a luta de classes e recuou diante da poss\u00edvel guerra civil. Em consequ\u00eancia, a vit\u00f3ria da direita p\u00f4de tomar a costumeira forma de acerto entre generais. O povo, na ocasi\u00e3o, mobilizado mas sem armas e organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, assistiu passivamente \u00e0 troca de governos. Em seguida sofreu as consequ\u00eancias: interven\u00e7\u00e3o e terror nos sindicatos, terror na zona rural, rebaixamento geral de sal\u00e1rios, expurgo especialmente nos escal\u00f5es baixos das For\u00e7as Armadas, inqu\u00e9rito militar na Universidade, invas\u00e3o de igrejas, dissolu\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es estudantis, censura, suspens\u00e3o de habeas corpus etc. Entretanto, para surpresa de todos, a presen\u00e7a cultural da esquerda n\u00e3o foi liquidada naquela data, e mais, de l\u00e1 para c\u00e1 n\u00e3o parou de crescer. A sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 de qualidade not\u00e1vel nalguns campos, e \u00e9 dominante. Apesar da ditadura da direita, h\u00e1 relativa hegemonia cultural da esquerda no pa\u00eds. Pode ser vista nas livrarias de S\u00e3o Paulo e Rio, cheias de marxismo, nas estr\u00e9ias teatrais, incrivelmente festivas e febris, \u00e0s vezes amea\u00e7adas de invas\u00e3o policial, na movimenta\u00e7\u00e3o estudantil ou nas proclama\u00e7\u00f5es do clero avan\u00e7ado. Em suma, nos santu\u00e1rios da cultura burguesa a esquerda d\u00e1 o tom. Esta anomalia \u2013 que agora periclita, quando a ditadura decretou penas pesad\u00edssimas para a propaganda do socialismo \u2013 \u00e9 o tra\u00e7o mais vis\u00edvel do panorama cultural brasileiro entre 1964 e 1969. Assinala, al\u00e9m de luta, um compromisso.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Pois bem, essa passagem de Cultura e Pol\u00edtica, 1964-1969 (Schwarz, 1970) ilustra precisamente um paralelo entre aquilo que hoje a esquerda tem dito sobre as denominadas lutas identit\u00e1rias e o que a esquerda marxista brasileira vivia nos primeiros anos da ditadura. Naquela \u00e9poca, o marxismo tamb\u00e9m se tornou um modismo. Nenhum intelectual da esquerda considerou que as pautas e reivindica\u00e7\u00f5es da esquerda deveriam se dissolver em fun\u00e7\u00e3o de tal modismo simb\u00f3lico; ao contr\u00e1rio, o modismo inclusive foi aproveitado para servir como uma maneira v\u00e1lida, ainda que parcial, de resistir \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da classe dominante.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro vemos agora intelectuais da esquerda desqualificarem feminismos (mesmo os feminismos marxistas), as an\u00e1lises decoloniais, p\u00f3s-colonialistas ou queer, alegando tal modismo e a suposta abertura de espa\u00e7o ao neoliberalismo. De outro lado, n\u00e3o renunciam a se colocarem como mercadorias nas plataformas digitais ou outras inst\u00e2ncias de poder que d\u00e3o visibilidade e difundem seus trabalhos, mesmo quando estas obedecem \u00e0 l\u00f3gica mais predat\u00f3ria do capitalismo. \u00c9 imposs\u00edvel renunciar totalmente a elas no sistema em que vivemos. Ent\u00e3o de onde vem tal condena\u00e7\u00e3o? Bem, o capitalismo pode ter absorvido em parte as pautas denominadas identit\u00e1rias para revestir-se de humanit\u00e1rio, mas reduzir e culpabilizar os feminismos, as pautas decoloniais ou queer pelo neoliberalismo \u00e9 um salto capcioso.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 a cr\u00edtica do que as redes sociais vinham fazendo at\u00e9 pouco tempo com os diferentes nichos de mercados \u2013 e isso j\u00e1 mudou com o anti-wokismo, infelizmente \u2013 e o que empresas tamb\u00e9m utilizaram para cooptar certas lutas. Outra coisa, bem diferente, \u00e9 desqualificar as pr\u00f3prias lutas e os discursos pelo fato de eles terem sido parcialmente absorvidos em algumas esferas de interesse do mercado e do poder institucional. Muitos intelectuais \u201ccr\u00edticos\u201d nem se d\u00e3o ao trabalho de estudar ou mergulhar no que tem sido arduamente constru\u00eddo por muitos\/as te\u00f3ricos\/as e intelectuais que utilizam marcadores sociais em suas an\u00e1lises. Alguns poucos intelectuais da esquerda tradicional leem o suficiente para desqualificar rapidamente e voltar ao mesmo lugar. S\u00f3 consigo concluir que est\u00e3o mais preocupados em n\u00e3o perder poder e espa\u00e7os antigos de privil\u00e9gio e prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Na minha vis\u00e3o, o avesso da cr\u00edtica \u00e9 a desqualifica\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 a sombra do trabalho intelectual. O trabalho intelectual, se ele mant\u00e9m-se alinhado \u00e0 dial\u00e9tica, implica um mergulho nos discursos para separar o joio do trigo e contribuir para uma esp\u00e9cie de movimento da cr\u00edtica pelas media\u00e7\u00f5es, pelos detalhes, pelas contradi\u00e7\u00f5es e impasses. Pegar tudo em bloco \u2013 feminismo, decolonial, queer, lutas identit\u00e1rias \u2013 e jogar no lixo \u00e9 um movimento, a meu ver, anti-intelectual. Agora a esquerda quer culpabilizar feministas pela divis\u00e3o da pauta de classe \u2013 me parece um absurdo. Desde Engels e Marx sabe-se que a primeira divis\u00e3o de classes se deu pela divis\u00e3o sexual do trabalho\u2026 S\u00f3 posso desconfiar de tal narrativa e, como disse, a atribuo a uma atual disputa de poder entre a pr\u00f3pria classe intelectual, o que \u00e9 lament\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>No di\u00e1logo cr\u00edtico com Maria Rita Khel, a certa altura voc\u00ea escreve \u201cvelhas f\u00f3rmulas psicanal\u00edticas ou marxistas usadas de maneira judicativa desqualificante n\u00e3o cabem mais\u201d. Esse problema n\u00e3o poderia ser elaborado de outra maneira, que n\u00e3o o conduza \u00e0 chave entre velho e novo? Sinto que essa dicotomia pode reduzir a discuss\u00e3o a uma esp\u00e9cie de busca por atualizar o antigo, como se a quest\u00e3o fosse que os antigos n\u00e3o se atualizaram e ficaram obsoletos. Contra isso, eu diria que acho extremamente atual n\u00e3o querer entrar no s\u00e9culo XXI<\/strong><\/p>\n<p>Eu diria que, sim, o mundo digital reconfigurou o mundo a tal ponto que o universo da sensibilidade se contraiu e essa \u00e9 uma perda desastrosa. Mas lembro sempre da frase pronunciada por minha amiga L\u00edvia Santiago Moreira que cita Adam Phillips em sua pesquisa sobre as patologias da fic\u00e7\u00e3o, na qual mostra os limites das fic\u00e7\u00f5es que sustentaram a modernidade e o patriarcado: \u201cse a \u00fanica resposta poss\u00edvel \u00e9 a cat\u00e1strofe, est\u00e1 faltando uma teoria, uma outra fic\u00e7\u00e3o\u201d. Acho que n\u00e3o querer entrar no s\u00e9culo XXI tamb\u00e9m indica uma ren\u00fancia de inventar uma outra fic\u00e7\u00e3o. Para a Marilena Chaui que fez um arco monumental de an\u00e1lises cr\u00edticas como fil\u00f3sofa brasileira esta resist\u00eancia a entrar no novo s\u00e9culo certamente \u00e9 perdo\u00e1vel, mas para n\u00f3s n\u00e3o acho um bom caminho\u2026 Ainda h\u00e1 muito trabalho inventivo pela frente e talvez seja melhor salvaguardar a alegria de inventar novas fic\u00e7\u00f5es do que a melancolia da cr\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea poderia explicar melhor este \u00faltimo ponto?<\/strong><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea menciona a entrevista dada pela Profa. Marilena Chaui, temos que considerar que ela ocorreu ap\u00f3s o artigo Contra cal\u00fania, no qual ela defendia Boaventura. Recorrer \u00e0 erudi\u00e7\u00e3o na defesa de um amigo, cuja posi\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, em muitos aspectos, corresponde \u00e0 dela, sem que tenha havido um mergulho efetivo nas narrativas sobre o que aconteceu e nos meandros das situa\u00e7\u00f5es, nos artigos escritos pelas mulheres em quest\u00e3o, nas ideias e nos argumentos delas em contraste com os dele, indica uma identifica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma an\u00e1lise cr\u00edtica. Quando, na cr\u00edtica, n\u00e3o h\u00e1 dedica\u00e7\u00e3o \u00e0s media\u00e7\u00f5es e aos processos, concluo que houve desqualifica\u00e7\u00e3o por mera identifica\u00e7\u00e3o de classe e de lugar de poder com colegas e pares, v\u00e1lido para o \u00e2mbito privado \u00edntimo. Na esfera p\u00fablica, me entristece que o trabalho intelectual sirva a esse fim. Vira apenas uma canetada.<\/p>\n<p>Ademais, \u00e9 preciso considerar igualmente que um capitalismo de guerra, ideologicamente nacionalista, volta-se \u00e0s pautas ditas identit\u00e1rias e as coloca como alvo central de ataque. Recentemente, o anti-wokismo estadunidense, por mais paradoxal que seja, deu aval ao conservadorismo existente na esquerda, que tamb\u00e9m aparece muitas vezes alinhado ao patriarcado e a processos colonialistas.<\/p>\n<p>O que considero extremamente complicado \u00e9 essa desqualifica\u00e7\u00e3o das pautas ditas identit\u00e1rias por parte de intelectuais e militantes de uma esquerda tradicional, pois grande parte das feministas e popula\u00e7\u00f5es dissidentes se alinhavam \u00e0 esquerda, mas v\u00eaem-se atacadas por apresentarem outras camadas que estremecem lugares de poder na esquerda tradicional. Ent\u00e3o, sim, fiz aquela divis\u00e3o entre \u201clutas ditas identit\u00e1rias e esquerda tradicional\u201d em meu artigo em di\u00e1logo com a Maria Rita Kehl, mas acho uma tristeza assistir a essa subdivis\u00e3o, que, insisto, n\u00e3o \u00e9 causada pelas feministas.<\/p>\n<p>Um \u00faltimo ponto que queria acrescentar a essa problem\u00e1tica \u00e9 um tipo de discurso da intelectualidade da esquerda tradicional que n\u00e3o cola mais em raz\u00e3o de uma cr\u00edtica \u2013 ou ataque \u2013 que a extrema-direita tem feito em rela\u00e7\u00e3o a uma certa hipocrisia que circunda lugares de privil\u00e9gio da classe intelectual acad\u00eamica. Como vimos acima, a partir do exemplo de Roberto Schwarz, no passado a classe intelectual e art\u00edstica seguiu livre \u00e0 esquerda mesmo com o poder nas m\u00e3os da extrema-direita. Por que a direita atual j\u00e1 mirou as universidades e a classe intelectual? Porque h\u00e1 lugares de poder, privil\u00e9gios e prest\u00edgio entre acad\u00eamicos que a extrema-direita, infelizmente, n\u00e3o quer mais deixar de lado. \u00c9 verdade que houve uma precariza\u00e7\u00e3o do trabalho acad\u00eamico, mas ainda \u2013 e felizmente \u00e9 assim \u2013 \u00e9 um lugar com privil\u00e9gios, prest\u00edgio e poder simb\u00f3lico relevantes. Nessa conta de poderes e privil\u00e9gios acad\u00eamicos, que j\u00e1 se perdeu bastante em fun\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e n\u00e3o das lutas tidas como identit\u00e1rias, o discurso tradicional de esquerda, elaborado por intelectuais, n\u00e3o admite ou n\u00e3o enxerga seu pr\u00f3prio poder e se interpreta quase como uma esp\u00e9cie de proletariado ou como uma parcela neutra ao lado da classe oprimida. Isso claramente n\u00e3o se sustenta\u2026<\/p>\n<p>Recentemente li \u201cBreve hist\u00f3ria do conflito Israel-Palestina\u201d, de Ilan Pappe. Ali fica claro como a cria\u00e7\u00e3o das universidades em Israel respaldou a ideologia sionista colonizadora por meio de argumentos sobre justi\u00e7a. Alegar que a academia tem professores destitu\u00eddos de poder e que s\u00f3 fazem pesquisa, escrevem e ministram aulas em um lugar quase an\u00e1logo ao da classe trabalhadora ou apenas ao lado desta \u00e9 uma fal\u00e1cia. Subestimar ou esconder o poder da posi\u00e7\u00e3o do intelectual, que tem respaldo institucional acad\u00eamico, \u00e9 apenas uma forma de manter intacto tal poder sem dar bandeira para n\u00e3o perd\u00ea-lo. Pautas identit\u00e1rias entraram na academia e um grupo de intelectuais viu seu lugar de poder estremecido. Ao inv\u00e9s de abrir um campo comum, come\u00e7aram a desqualificar lutas e discursos que tamb\u00e9m t\u00eam no horizonte a igualdade, a justi\u00e7a, a resist\u00eancia contra a opress\u00e3o\u2026 Acho isso muito triste.<\/p>\n<p><strong>Entendo que iniciativas como a cria\u00e7\u00e3o do GEPEF se inserem nesse campo de reflex\u00e3o sobre a implica\u00e7\u00e3o e a consequ\u00eancia do trabalho intelectual na luta pol\u00edtica. Sempre interpretei suas reflex\u00f5es sobre o problema das formas pelas quais se d\u00e3o o trabalho intelectual na luta de classes, como sendo um \u201ccuidado benjaminiano\u201d. E, para n\u00e3o cair na ideia de \u201cperguntar ao intelectual sobre os futuros da pol\u00edtica das esquerdas\u201d, queria poder perguntar sobre suas experi\u00eancias pol\u00edticas e o seu balan\u00e7o sobre a situa\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores intelectuais nos \u00faltimos anos.<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho intelectual de feministas, que ajudei a organizar por meio do Grupo de Estudos, Pesquisas e Escritas Feministas, \u00e9 uma forma de resist\u00eancia tanto ao patriarcado ostensivo da extrema-direita quanto ao patriarcado subterr\u00e2neo da esquerda \u2013 e aqui n\u00e3o serve recorrer \u00e0 categoria mulher para falar de feminismo, pois h\u00e1 muitas mulheres que ocupam posi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0s de esquerdomachos. A resist\u00eancia pol\u00edtica por meio da abertura de espa\u00e7os de pensamentos, escritas, estudos e difus\u00e3o \u00e9 uma resist\u00eancia vagarosa porque n\u00e3o pode e nem quer ser panflet\u00e1ria. Ela opera no plano simb\u00f3lico, criando espa\u00e7os discursivos que sustentam posi\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0s injusti\u00e7as de g\u00eanero, sem renunciar \u00e0 interseccionalidade, ou seja, sem desconsiderar as viol\u00eancias de classe e ra\u00e7a que se alinhavam \u00e0s de g\u00eanero. \u00c9 um trabalho pol\u00edtico de bastidores e \u00e0s vezes abre caminhos institucionais para mostrar sua voz, mas n\u00e3o se adequa aos interesses estruturais das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Lendo o seu \u00faltimo artigo publicado, \u201cA palavra das mulheres como ph\u00e1rmakon: uma leitura arqueol\u00f3gica\u201d, n\u00e3o pude deixar de pensar nos seus trabalhos sobre a vulva, principalmente sobre o \u201csufocamento da l\u00f3gica da vulva\u201d, amplamente discutido em dossi\u00ea organizado para a revista Cult em 2024. Me parece que esta sua investiga\u00e7\u00e3o percorre suas reflex\u00f5es e configura uma esp\u00e9cie de projeto pol\u00edtico-epistemol\u00f3gico de apontar essas supress\u00f5es e conceder a consist\u00eancia real dessas modalidades de linguagem e saber soterradas pelo discurso dominante. H\u00e1 um livro novo seu em que voc\u00ea sistematiza esses seus \u00faltimos trabalhos mais recentes sobre a vulva em caminho de lan\u00e7amento. Voc\u00ea pode falar um pouco sobre ele e da hist\u00f3ria da sua rela\u00e7\u00e3o com esses estudos?<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta exigiria uma quantidade imensa de desdobramentos, mas prefiro convidar o leitor da entrevista a ler o artigo citado por voc\u00ea que saiu na Revista Kriterion no ano passado e o livro <em>Discursos da Vulva, <\/em>que sair\u00e1 em breve pela Editora Cult.<\/p>\n<p>De qualquer modo, posso dar algumas indica\u00e7\u00f5es desses estudos aqui. Em primeiro lugar, a misoginia \u00e9 algo ser\u00edssimo e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel diminuir ou desqualificar o que mulheres elaboraram nas tr\u00eas principais ondas feministas e em suas mais amplas vertentes de pesquisas e lutas. Quando um intelectual resiste a esse ramo de pensamento, n\u00e3o o considero como algu\u00e9m relevante na atualidade. \u00c9 grave. \u00c9 como se um intelectual fizesse de conta que o estruturalismo ou o materialismo-hist\u00f3rico-dial\u00e9tico \u00e9 irrelevante; por isso, talvez, essa minha esp\u00e9cie de decep\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a alguns intelectuais que antes admirava. Muitos deles n\u00e3o se deram ao trabalho de fazer uma revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica m\u00ednima e emitem seus ju\u00edzos sem nenhum constrangimento por terem poder de fala j\u00e1 conquistado. \u00c9 um desservi\u00e7o para uma posi\u00e7\u00e3o que se diz comprometida com a igualdade e a emancipa\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 disse. Tal atitude revela muito mais uma defesa ps\u00edquica, ela mesma parte de processos de apagamentos detectados pelos diferentes feminismos e pelos estudos antirracistas, decoloniais e\/ou p\u00f3s\u2013colonialistas. Hoje, por\u00e9m, uma defesa ps\u00edquica de recusa n\u00e3o \u00e9 justific\u00e1vel. O trabalho ps\u00edquico tamb\u00e9m tornou-se uma exig\u00eancia importante para uma boa produ\u00e7\u00e3o intelectual, pois a subjetividade deve igualmente estar \u00e0 altura de nosso tempo. Ou seja, se est\u00e1 psiquicamente defendido, atacando uma pluralidade gigantesca de estudos, reflex\u00f5es e lutas atuais, tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio cuidar disso em an\u00e1lise\u2026 N\u00e3o que n\u00e3o possa haver cr\u00edtica, mas a cr\u00edtica deve ser devidamente trabalhada, o que lamentavelmente n\u00e3o \u00e9 o que tem ocorrido \u2013 mas acho que j\u00e1 falei sobre esse ponto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de psicanalista, tenho uma heran\u00e7a benjaminiana muito forte na minha forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. A partir dela considero importante destacar a origem dos conceitos na hist\u00f3ria. Origem n\u00e3o \u00e9 o encontro de uma data ou de um ponto espec\u00edfico da g\u00eanese de algo, mas uma <em>dynamis<\/em> a partir da qual o conceito hoje reescrito \u00e9 capaz de encontrar sua universalidade nas tramas da hist\u00f3ria. Como mulher feminista refleti sobre um modo espec\u00edfico de desqualifica\u00e7\u00e3o da mulher: acus\u00e1-la de sedutora e colocar o lugar da beleza como um elemento superficial e f\u00fatil. Claro que a beleza e a sedu\u00e7\u00e3o podem recair em algo narc\u00edsico, ligado ao feminino que se presta a ser mero objeto ao olhar do Outro \u2013 n\u00e3o sei se isso tamb\u00e9m \u00e9 t\u00e3o simples assim, mas enfim. Entretanto, a beleza e a sedu\u00e7\u00e3o t\u00eam uma import\u00e2ncia hist\u00f3rica, social, filos\u00f3fica e subjetiva indiscut\u00edvel. Por que esses dois aspectos recebem ju\u00edzos t\u00e3o pejorativos quando atrelados \u00e0 mulher, sendo que constatamos de maneira indiscut\u00edvel o poder da beleza e da sedu\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es e na vida humana?<\/p>\n<p>Lendo <em>Os usos do er\u00f3tico<\/em>, de Audre Lorde, comecei a refletir sobre os campos er\u00f3ticos e vivos das mulheres que s\u00e3o minados pelos discursos mis\u00f3ginos. Rastreando a origem desse problema, observei que foi a condena\u00e7\u00e3o da sof\u00edstica pelos fil\u00f3sofos que primeiro condenou o lugar da sedu\u00e7\u00e3o e depois desqualificou por completo o lugar das mulheres, o que pude detectar por meio de uma recupera\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica da mulher mais bonita do universo cl\u00e1ssico, Helena, e de Asp\u00e1sia, uma intelectual sedutora e inteligent\u00edssima desqualificada por homens em diferentes pe\u00e7as teatrais e discursos.<\/p>\n<p>Com a vulva obt\u00e9m-se outro aspecto fundamental para a psican\u00e1lise hoje: a vulva n\u00e3o \u00e9 a falta do p\u00eanis ou do falo, como sempre se indicou pela ideia da amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o. A vulva \u00e9 apenas uma outra cadeia de linguagem. \u00c9 a essa outra cadeia de formas e linguagens que busco dar voz em meu novo livro por meio da psican\u00e1lise, da est\u00e9tica e do feminismo. Estou ansiosa para ter essa nova obra em circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. 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