{"id":74486,"date":"2026-02-14T11:00:47","date_gmt":"2026-02-14T14:00:47","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/de-origem-judia-casa-do-povo-defende-solidariedade-aos-palestinos-nunca-mais-e-nunca-mais-para-nenhum-povo\/"},"modified":"2026-02-14T11:00:47","modified_gmt":"2026-02-14T14:00:47","slug":"de-origem-judia-casa-do-povo-defende-solidariedade-aos-palestinos-nunca-mais-e-nunca-mais-para-nenhum-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/de-origem-judia-casa-do-povo-defende-solidariedade-aos-palestinos-nunca-mais-e-nunca-mais-para-nenhum-povo\/","title":{"rendered":"De origem judia, Casa do Povo defende solidariedade aos palestinos: \u2018nunca mais \u00e9 nunca mais para nenhum povo\u2019"},"content":{"rendered":"<p><span>Fundada por imigrantes judeus progressistas em 1946, a Casa do Povo, localizada no Bom Retiro, bairro tradicional do centro de S\u00e3o Paulo, carrega d\u00e9cadas de hist\u00f3ria de resist\u00eancia pol\u00edtica e de acolhimento \u00e0s mais diversas comunidades instaladas na cidade. A institui\u00e7\u00e3o abriu oficialmente as suas portas em 1953, ap\u00f3s uma campanha de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos, e definiu como dois de seus objetivos iniciais reunir as associa\u00e7\u00f5es judaicas antifascistas do Brasil e homenagear as v\u00edtimas do Holocausto.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>\u201c(A Casa) nasceu para ser monumento vivo: um lugar onde lembrar dos mortos \u00e9 cuidar dos vivos\u201d, declarou o diretos Benjamin Seroussi a<strong> Opera Mundi<\/strong>.\u00a0<\/span><span>Segundo ele, desde ent\u00e3o, a institui\u00e7\u00e3o promove atividades com base nesse princ\u00edpio.<\/span><\/p>\n<p>Seroussi aponta que o trabalho da entidade vai <span>\u201cda luta antifascista \u00e0 resist\u00eancia a ditadura, do apoio \u00e0s vanguardas art\u00edsticas \u00e0 solidariedade com movimentos sociais (secundaristas, MST, movimento passe livre, etc.) passando pela defesa da diversidade do bairro e outras tantas frentes de atua\u00e7\u00e3o que sempre t\u00eam a cultura como cerne\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>O diretor tamb\u00e9m comentou sobre um dos temas mais urgentes no \u00e2mbito global: o genoc\u00eddio promovido pelo Estado de Israel na Palestina.<\/span><\/p>\n<p><span>Segundo ele, a Casa do Povo surgiu de uma frente antifascista que pretendia unir diversas correntes, incluindo as antissionistas, n\u00e3o sionistas e at\u00e9 as chamadas \u201csionistas de esquerda\u201d. Entretanto, no decorrer dos anos, a organiza\u00e7\u00e3o se afastou do sionismo. \u201cA Guerra Fria embaralhou o jogo e ideologias mudaram de lado pol\u00edtico, revelando facetas at\u00e9 ent\u00e3o abafadas\u201d, explicou Seroussi, para logo citar, entre essas facetas, \u201ca dimens\u00e3o colonial do sionismo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>\u201cSabemos que as lutas e as formas de opress\u00e3o est\u00e3o articuladas em si: n\u00e3o podemos falar do roubo de terras ind\u00edgenas no Brasil sem falar da ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina; da viol\u00eancia policial nas quebradas sem falar da atua\u00e7\u00e3o dos colonos na Cisjord\u00e2nia com o apoio do ex\u00e9rcito; do extrema direita de l\u00e1, sem falar da de c\u00e1\u201d, disse.<\/span><\/p>\n<p><span>O posicionamento da Casa do Povo tornou-se mais evidente ap\u00f3s o dia 7 de outubro de 2023, com a intensifica\u00e7\u00e3o dos ataques israelenses \u00e0 Faixa de Gaza. Para Seroussi, foi mais um momento para \u201catualizar sua hist\u00f3ria\u201d e mostrar solidariedade \u00e0 luta palestina, sem ignorar as divis\u00f5es internas na comunidade judaica<\/span><\/p>\n<p><span>\u201cO que nos mobiliza hoje \u00e9 trabalhar para que a Casa do Povo seja uma ponte entre a comunidade judaica e movimentos palestinos\u201d, declarou, e logo enfatizou: \u201cnunca mais \u00e9 nunca mais para nenhum povo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>A institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem sua hist\u00f3ria marcada pela resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar, e ela se mant\u00e9m viva por meio de atividades promovidas no local, tais como treinos de boxe, pr\u00e1ticas de coral, atendimentos de psican\u00e1lise, entre muitas outras.<\/span><\/p>\n<p><span>Atualmente, a Casa do Povo conta com 134 associados \u2013 majoritariamente judeus \u2013, 19 grupos residentes e atrai um p\u00fablico diverso, incluindo imigrantes bolivianos, coreanos e ativistas de movimentos sociais.<\/span><\/p>\n<p><span>A principal contribui\u00e7\u00e3o da Casa do Povo hoje, segundo Seroussi, \u00e9 demonstrar que identidades espec\u00edficas, como a judaica, podem ser pontos de partida para alian\u00e7as amplas e usar a mem\u00f3ria n\u00e3o como culto ao passado, mas como alavanca para a solidariedade no presente.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-246502\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/captura-de-tela-2026-02-13-131821.png\" alt=\"\" width=\"903\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/captura-de-tela-2026-02-13-131821.png 903w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/captura-de-tela-2026-02-13-131821-300x200.png 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/captura-de-tela-2026-02-13-131821-768x511.png 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/captura-de-tela-2026-02-13-131821-150x100.png 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/captura-de-tela-2026-02-13-131821-750x499.png 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 903px) 100vw, 903px\"><figcaption>Entre coletivos art\u00edsticos, movimentos aut\u00f4nomos, iniciativas comunit\u00e1rias e associa\u00e7\u00f5es do Bom Retiro, a Casa do Povo re\u00fane projetos que fazem uso do espa\u00e7o e participam de seu funcionamento <br \/>Reprodu\u00e7\u00e3o\/Casa do Povo<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Leia a entrevista na \u00edntegra:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Opera Mundi: A Casa do Povo foi inaugurada em 1953 por uma comunidade judaica progressista. Quem fazia parte desse grupo e como essa origem espec\u00edfica \u2013 imigrante, judaica e de esquerda \u2013 moldou a miss\u00e3o inicial do lugar?<\/strong><\/p>\n<p><span><strong>Benjamin Seroussi:<\/strong> A Casa do Povo foi fundada em 1946, no fim da Segunda Guerra Mundial, pela comunidade judaica chamada de \u201cprogressista\u201d. Eram conhecidos como os \u201croite\u201d (em \u00eddiche, l\u00edngua falada por este grupo de migrante), o que significa \u201cos vermelhos\u201d, apontando para o fato que reuniam comunistas, anarquistas, socialistas e social-democratas.<\/span><\/p>\n<p><span>O objetivo inicial da Casa do Povo era duplo: por um lado, reunir as associa\u00e7\u00f5es judaicas antifascistas existentes; por outro, homenagear as v\u00edtimas do genoc\u00eddio nazista. A Casa do Povo foi criada para contemplar essas duas necessidades. Nasceu para ser monumento vivo: um lugar onde lembrar dos mortos \u00e9 cuidar dos vivos. O edif\u00edcio abriu em 1953 depois de uma grande campanha de arrecada\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Desde ent\u00e3o, a Casa do Povo tem atuado para manter viva e atualizar essa sua miss\u00e3o inicial, a n\u00edvel local, regional e internacional: da luta antifascista \u00e0 resist\u00eancia a ditadura, do apoio \u00e0s vanguardas art\u00edsticas \u00e0 solidariedade com movimentos sociais (secundaristas, MST, movimento passe livre, etc.) passando pela defesa da diversidade do bairro e outras tantas frentes de atua\u00e7\u00e3o que sempre tem a cultura como cerne.<\/span><\/p>\n<p><strong>Hoje, quem faz parte da Casa do Povo?<\/strong><\/p>\n<p><span>Depende do que significa \u201cfazer parte\u201d. Hoje a Casa do Povo \u00e9 uma comunidade relativamente ampla e diversa. S\u00e3o 134 associados e associadas, 300 amigos e amigas, 19 grupos residentes, dezenas de usos espont\u00e2neos por ano e 25 mil visitas anuais. Se as pessoas associadas s\u00e3o na sua maioria da comunidade judaica, as demais pessoas e os demais grupos, n\u00e3o. A Casa do Povo \u00e9 hoje habitada por pessoas do territ\u00f3rio (em particular, imigrantes ligados \u00e0s comunidades boliviana, peruana, coreana), iniciativas no campo das artes (dan\u00e7a, performance, design gr\u00e1fico) e grupos de ativistas (direito \u00e0 cidade, luta pela moradia, entre outras).<\/span><\/p>\n<p><strong>Durante a ditadura militar, a Casa do Povo foi um ponto de resist\u00eancia. Como essa hist\u00f3ria de luta \u00e9 preservada e manifestada nos dias de hoje?<\/strong><\/p>\n<p><span>A hist\u00f3ria da Casa do Povo durante a ditadura \u00e9 mais um momento em que a miss\u00e3o original da institui\u00e7\u00e3o foi ativada e atualizada com bastante coer\u00eancia \u00e9tica e pol\u00edtica. Portanto, esta \u00e9poca \u00e9 lembrada na Casa do Povo dentro de uma perspectiva maior. O que importa \u00e9 que as indaga\u00e7\u00f5es seguem as mesmas: como promover uma cultura emancipat\u00f3ria hoje? Como garantir que a arte seja um ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o social? Quais alian\u00e7as tecer para seguir adiante? Como manter viva a tradi\u00e7\u00e3o judaica revolucion\u00e1ria?<\/span><\/p>\n<p><span>De forma concreta, o relan\u00e7amento da revista<\/span><i><span> Nossa Voz<\/span><\/i><span>, em 2014 \u2013 publica\u00e7\u00e3o que funcionou pr\u00f3xima da Casa do Povo de 1947 a 1964, quando foi fechada pela ditadura \u2013 \u00e9 um bom exemplo de retomada dessa mem\u00f3ria. Da mesma forma, a reforma do teatro TAIB, que foi palco de muitas pe\u00e7as ligadas \u00e0 luta contra a ditadura, \u00e9 tamb\u00e9m um bom exemplo de como renovar esta hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span>De forma geral, acredito que o fato da atua\u00e7\u00e3o da Casa do Povo seguir em sintonia com seus valores seminais \u00e9 a melhor forma de honrar o seu passado e sonhar com outros mundos poss\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><strong>No site da Casa do Povo, se diz que a \u201cinstitui\u00e7\u00e3o sobreviveu aos anos de chumbo mas, a partir dos anos 80, enfrentou uma crise institucional que acompanhou o relativo decl\u00ednio da regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo\u201d. O que aconteceu?<\/strong><\/p>\n<p><span>Nos anos 80, a Casa do Povo perdeu o inimigo contra o qual ela se definia: a ditadura. Paralelamente, a rela\u00e7\u00e3o com o partido comunista e com as macro-ideologias da esquerda foram se esgar\u00e7ando, o que levou a um enfraquecimento da sua capacidade de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Por fim, muitas pessoas da comunidade judaica que estavam ligados \u00e0 Casa do Povo mudaram de bairro, o que isolou ainda mais a institui\u00e7\u00e3o, levando-a a uma crise institucional profunda.<\/span><\/p>\n<p><span>De forma geral, nos anos 80, 90 e 2000, poucas pessoas queriam saber de um espa\u00e7o que tinha se tornado um lugar de mem\u00f3ria da luta contra a ditadura. Mas isso muda nos anos 2010, com o memorial da resist\u00eancia, a Comiss\u00e3o da Verdade, as manifesta\u00e7\u00f5es de junho\u2026 As mesmas raz\u00f5es que tinham tornado a Casa do Povo anacr\u00f4nica, as tornam contempor\u00e2nea novamente.<\/span><\/p>\n<p><strong>Como foi o processo de reestrutura\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><span>Foi longo e ainda est\u00e1 em curso. Tivemos que reconstruir a base associativas, retomar o capital social e simb\u00f3lico da institui\u00e7\u00e3o, atualizar a sua miss\u00e3o, criar novos canais de capta\u00e7\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o, retomar rela\u00e7\u00f5es com a comunidade judaica, com movimentos sociais e com a cena cultural, profissionalizar a sua equipe, redefinir sua governan\u00e7a, atualizar sua infraestrutura.<\/span><\/p>\n<p><span>O que me parece mais interessante \u00e9 que este trabalho de reestrutura\u00e7\u00e3o aconteceu enquanto a Casa do Povo funcionava, garantindo a sua utilidade social. Portanto, foram anos em que conseguimos simultaneamente manter as portas abertas e reinventar o que isso significava. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos testando em escala real e de forma cont\u00ednua a Casa do Povo que quer\u00edamos ter. Neste sentido, somos um eterno prot\u00f3tipo. Acredito que a nossa hist\u00f3ria nos pede para ser isso: o que o arquiteto h\u00fangaro Yona Friedman chamava de \u201cutopia realiz\u00e1vel\u201d.<\/span><\/p>\n<p><strong>Como a Casa do Povo passou a se posicionar a partir de 7 de outubro de 2023, quando Israel intensificou seus ataques e genoc\u00eddio contra os palestinos? E como a comunidade judaica que ocupa esse espa\u00e7o recebeu ou lidou com esse posicionamento?<\/strong><\/p>\n<p><span>Para te responder, \u00e9 importante contar mais sobre a rela\u00e7\u00e3o da Casa do Povo com o sionismo. Como muitos dizem, isso n\u00e3o come\u00e7ou no dia 7 de outubro.<\/span><\/p>\n<p><span>A Casa do Povo nasceu de uma frente antifascista que pretendia unir correntes diversas. Na \u00e9poca, o sionismo n\u00e3o era uma linha de corte t\u00e3o relevante. Basta lembrar que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica apoiou a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. Era poss\u00edvel, ent\u00e3o, reunir correntes antissionistas, n\u00e3o sionistas e sionistas de esquerda. Os fundadores da Casa do Povo queriam justamente juntar pessoas. A linha de corte relevante era ser antifascista e de esquerda. Hoje, poucas pessoas sabem que havia um sionismo de esquerda muito forte na base de Israel. A Guerra Fria embaralhou o jogo e ideologias mudaram de lado pol\u00edtico, revelando facetas at\u00e9 ent\u00e3o abafadas, entre as quais a dimens\u00e3o colonial do sionismo.<\/span><\/p>\n<p><span>Neste sentido, com o passar dos anos, a Casa do Povo foi se afastando do sionismo \u2013 e nem estou falando da sua vers\u00e3o messi\u00e2ncia, que domina o cen\u00e1rio pol\u00edtico hoje em Israel. Mesmo assim, esta quest\u00e3o nunca esteve no centro de atua\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o. A Casa do Povo sempre focou nas lutas brasileiras locais: da luta contra a ditadura \u00e0s lutas contempor\u00e2neas. Por\u00e9m, sabemos que as lutas e as formas de opress\u00e3o est\u00e3o articuladas em si. N\u00e3o podemos falar do roubo de terras ind\u00edgenas no Brasil sem falar da ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina; da viol\u00eancia policial nas quebradas sem falar da atua\u00e7\u00e3o dos colonos na Cisjord\u00e2nia com o apoio do ex\u00e9rcito. N\u00e3o podemos falar da extrema direita de l\u00e1 sem falar da de c\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span>Posso dar um exemplo bem conhecido, mas existem muitos outros. Em 1982, realizamos um ato de den\u00fancia de Sabra e Chatila, o massacre realizado por mil\u00edcias crist\u00e3s libanesas com a cumplicidade ativa de Israel. Em 2023, foi mais uma ocasi\u00e3o de atualizar nossa hist\u00f3ria e mostrar nossa solidariedade \u00e0s lutas palestinas, sem abafar as divis\u00f5es que existem na nossa comunidade no que diz respeito ao que Israel representa.<\/span><\/p>\n<p><span>Queremos gerar transforma\u00e7\u00f5es reais na nossa comunidade. Para isso, \u00e9 importante saber que estamos lidando com pessoas de diversas gera\u00e7\u00f5es, com uma heran\u00e7a complexa, traum\u00e1tica e recente. \u00c9 complexo, mas n\u00e3o \u00e9 complicado: nunca mais \u00e9 nunca mais para nenhum povo! J\u00e1 fizemos atos p\u00fablicos neste sentido, participamos de diversas manifesta\u00e7\u00f5es, organizamos um semin\u00e1rio relacionado a essa quest\u00e3o, tivemos encontros com representantes do poder p\u00fablico e publicamos uma s\u00e9rie de artigos para adensar o pensamento cr\u00edtico no que diz respeito a isso. Mas tudo parece insuficiente perante a viol\u00eancia descomunal em Gaza.<\/span><\/p>\n<p><span>Em resumo, tem sido mais um momento de transforma\u00e7\u00e3o da Casa do Povo e da sua comunidade. O que nos mobiliza hoje \u00e9 trabalhar para que a Casa seja uma ponte entre a comunidade judaica e movimentos palestinos. Tem muito ainda para ser feito neste sentido.<\/span><\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos anos, o bairro do Bom Retiro passou por muitas transforma\u00e7\u00f5es. Como a Casa do Povo se relaciona com o bairro atual, que \u00e9 composto por novos moradores, com\u00e9rcios coreanos e bolivianos, entre outros detalhes, mantendo seu v\u00ednculo com a hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p><span>Entendemos que o que chamamos de \u201cPovo da Casa\u201d nunca foi apenas o \u201cpovo judaico\u201d. Ao contr\u00e1rio, se judeus e judias eram os outros na Europa nos s\u00e9culos passados, uma casa judaica tem que ser aberta \u00e0 alteridade radical. H\u00e1 um devir nordestino, coreano, andino da Casa do Povo, para citar alguns dos grupos migrat\u00f3rios que moram no bairro. De forma concreta, a Casa do Povo acolhe iniciativas desses grupos.<\/span><\/p>\n<p><span>Como tudo, isso n\u00e3o vem sem tens\u00f5es e conflitos. Vale citar, por exemplo, o projeto de transforma\u00e7\u00e3o do bairro em um k-town desenvolvido pelo Consulado da Rep\u00fablica da Coreia (do Sul). Este projeto foi lido pela Casa do Povo e por outras institui\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio como uma iniciativa que iria congelar o bairro e transform\u00e1-lo em um p\u00f3lo exclusivamente tur\u00edstico e comercial. Por isso, pensando na diversidade caracter\u00edstica do Bom Retiro, propusemos um projeto alternativo.<\/span><\/p>\n<p><span>Um outro exemplo \u00e9 a chegada da cidade administrativa, que tem levado \u00e0 expuls\u00e3o da favela do Moinho, ao fim das pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o de danos, ao fechamento do Teatro de Cont\u00eainer, entre outras a\u00e7\u00f5es que visam a gentrifica\u00e7\u00e3o do nosso territ\u00f3rio. N\u00e3o \u00e9 simples, nem ganho, mas \u00e9 fundamental. Estamos trabalhando hoje para tecer alian\u00e7as com movimentos parceiros em outros bairros que passam por situa\u00e7\u00f5es semelhantes: Bexiga, Liberdade, Barra Funda.<\/span><\/p>\n<p><span>Acho que a assembleia que organizamos para Maca\u00e9 Evaristo foi um bom exemplo disso tudo.<\/span><\/p>\n<p><strong>Quem \u00e9 o p\u00fablico da Casa hoje?<\/strong><\/p>\n<p><span>Costumamos falar que n\u00e3o temos p\u00fablico alvo, mas uma comunidade em constante constru\u00e7\u00e3o. Essa comunidade \u00e9 diversa no que diz respeito a quest\u00f5es de classe, de ra\u00e7a, de idade, de g\u00eanero e de origem. Quem circula pelo pr\u00e9dio sente isso na pele. Muitos alunos de boxe s\u00e3o jovens pretos. Os coralistas s\u00e3o principalmente mulheres de idade avan\u00e7ada \u2013 judias e coreanas. Muitos dos movimentos que usam a institui\u00e7\u00e3o est\u00e3o vinculados aos movimentos negros, LGBT, entre outros.<\/span><\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a principal contribui\u00e7\u00e3o da Casa do Povo para a cidade de S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p><span>A Casa do Povo traz tr\u00eas contribui\u00e7\u00f5es relevantes.<\/span><\/p>\n<p><span>Em primeiro lugar, ela que nasce de um grupo muito espec\u00edfico, mostra que essas especificidades n\u00e3o precisam ser barreiras. Ao contr\u00e1rio, a Casa do Povo mostra que as identidades podem ser pontos de partidas e n\u00e3o de chegadas. S\u00e3o pontos de partidas para tecer alian\u00e7as amplas.<\/span><\/p>\n<p><span>Em segundo lugar, a Casa do Povo defende a ideia que os espa\u00e7os de arte podem ser mais do que espa\u00e7os expositivos ou de apresenta\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos. Podem ser pequenas \u201cutopias realiz\u00e1veis\u201d para parafrasear o que o arquiteto h\u00fangaro Yona Friedman dizia.<\/span><\/p>\n<p><span>Em terceiro lugar, na Casa do Povo a mem\u00f3ria \u00e9 uma importante alavanca para agir no presente. A Casa do Povo n\u00e3o \u00e9 um lugar saudosista que olha para o passado como algo perdido, mas um espa\u00e7o que mant\u00e9m a mem\u00f3ria viva e a transforma em um exerc\u00edcio de solidariedade no presente. Todo ano, no dia 19 de abril, quando comemoramos o Levante do Gueto, nos perguntamos quais s\u00e3o os levantes hoje e como nos solidarizar a eles. Como falar de outros levantes e dos levantes dos outros? Como traduzir essa palavra em outras l\u00ednguas: \u201csoulevement\u201d em franc\u00eas, \u201cuprisings\u201d em ingl\u00eas, \u201cintifada\u201d em \u00e1rabe?<\/span><\/p>\n<p><span>A Casa do Povo n\u00e3o est\u00e1 sozinha nessas contribui\u00e7\u00f5es. A Ocupa\u00e7\u00e3o 9 de Julho, a Aparelha Luzia ou a Aldeia Kalipety s\u00e3o iniciativas muito distintas entre si, mas que nos parecem atuar de forma parecida no entendimento da identidade, do papel da cultura e do uso da mem\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span>Todas mostram que outros mundos s\u00e3o poss\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os desafios e aspira\u00e7\u00f5es para o futuro da institui\u00e7\u00e3o? H\u00e1 algum projeto concreto ou algum direcionamento que gostariam de tomar?<\/strong><\/p>\n<p><span>No Brasil, o futuro costuma ser uma ideia nunca realizada em nome da qual se apaga o passado para alguns poucos tirarem proveito no presente. Por isso, temos certo receio com essa ideia. Nosso objetivo \u00e9 ver no presente quais s\u00e3o as sementes para outros modos de viver. E s\u00e3o muitas! Fazemos isso \u00e0 luz da nossa hist\u00f3ria, claro.<\/span><\/p>\n<p><span>Neste sentido, hoje, nossos projetos s\u00e3o bastante pragm\u00e1ticos: melhorar as condi\u00e7\u00f5es de uso do espa\u00e7o para receber mais grupos, reformar o teatro para manter sua hist\u00f3ria viva, refor\u00e7ar nossa articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para garantir nossa relev\u00e2ncia. Tudo isso sem crescer demais. Achamos mais interessante proliferar do que crescer. \u00c9 melhor nos aliar com outras institui\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0 Casa do Povo do que ter uma Casa do Povo maior.<\/span><\/p>\n<p><span>O resto ter\u00e1 que ser inventado.<\/span><\/p>\n<p>O post De origem judia, Casa do Povo defende solidariedade aos palestinos: \u2018nunca mais \u00e9 nunca mais para nenhum povo\u2019 apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/carpetes-quentes-no-df-por-2a-pancada-da-policia-nos-esquemas-de-financiamento-da-politica-da-direita\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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A institui\u00e7\u00e3o abriu oficialmente as suas portas em 1953, ap\u00f3s uma campanha de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos, [\u2026]<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opera-entrevista\/de-origem-judia-casa-do-povo-defende-solidariedade-aos-palestinos-nunca-mais-e-nunca-mais-para-nenhum-povo\/\">De origem judia, Casa do Povo defende solidariedade aos palestinos: \u2018nunca mais \u00e9 nunca mais para nenhum povo\u2019<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":74487,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[22843,35827,35828,22125,1284,3108,12152,6226,6263,29690,626,29,2441],"tags":[],"class_list":["post-74486","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antifascista","category-benjamin-seroussi","category-casa-do-povo","category-comunidade","category-ditadura","category-esquerda","category-imigrante","category-judeus","category-opera-entrevista","category-progressistas","category-resistencia","category-sao-paulo","category-sionismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74486","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=74486"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74486\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/74487"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=74486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=74486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=74486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}