{"id":74681,"date":"2026-02-17T19:13:00","date_gmt":"2026-02-17T22:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/breves-leituras-carnavalescas\/"},"modified":"2026-02-17T19:13:00","modified_gmt":"2026-02-17T22:13:00","slug":"breves-leituras-carnavalescas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/breves-leituras-carnavalescas\/","title":{"rendered":"Breves leituras carnavalescas"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/160217-Baiana.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/160217-Baiana.jpeg 1200w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/17190947\/160217-Baiana-300x200.jpeg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/17190947\/160217-Baiana-768x512.jpeg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/17190947\/160217-Baiana-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Jo\u00e3o Carlos Salles<\/strong><\/p>\n<p>1.<\/p>\n<p>Carnaval costuma ser transe. L\u00ednguas molhadas e, quem sabe, viperinas. Cr\u00edtica ou seda\u00e7\u00e3o, purga\u00e7\u00e3o de virtudes e v\u00edcios corp\u00f3reos ou espirituais. Nada \u00e9 de todo simples nesses (des)encontros de almas e corpos, nos quais temos deslocamento e representa\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/OQ_banner_680x250_V1-1-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/OQ_banner_680x250_V1-1-4.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31175341\/OQ_banner_680x250_V1-1-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Carnaval re\u00fane opostos, encobrindo as diferen\u00e7as que teima em conservar. \u00c9 Mudan\u00e7a do Garcia, BaianaSystem, Mascarados, blocos afro, mas tamb\u00e9m camarotes luxuosos e reservados. Prazer e viol\u00eancia, carnaval \u00e9 pipoca e corda ao mesmo tempo, como um voo audaz e interrompido.<\/p>\n<p>2.<\/p>\n<p>Escolhi recolher-me este ano, mas no carnaval at\u00e9 o recolhimento exige poesia. Sendo na Bahia, s\u00e1tira tamb\u00e9m. Sem que tivesse planejado, este carnaval me fez reencontrar de cara o protesto ainda aberto de Greg\u00f3rio de Matos. Caiu-me \u00e0 m\u00e3o, quase ao acaso, o poema \u201c\u00c0 Cidade da Bahia\u201d<sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>Triste Bahia! \u00f3 qu\u00e3o dessemelhante<br \/>Est\u00e1s e estou do nosso antigo estado,<br \/>Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,<br \/>Rica te vi eu j\u00e1, tu a mim abundante.<br \/>A ti trocou-te a m\u00e1quina mercante,<br \/>Que em tua larga barra tem entrado,<br \/>A mim foi-me trocando e tem trocado<br \/>Tanto neg\u00f3cio e tanto negociante.<br \/>Deste em dar tanto a\u00e7\u00facar excelente<br \/>Pelas drogas in\u00fateis, que abelhuda<br \/>Simples aceitas do sagaz Brichote.<br \/>Oh, se quisera Deus que, de repente,<br \/>Um dia amanheceras t\u00e3o sisuda<br \/>Que fora de algod\u00e3o o teu capote!<\/p>\n<p>O soneto tem uma estrutura, uma arma\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica cl\u00e1ssica, como se, com independ\u00eancia dos contextos, sua fei\u00e7\u00e3o fosse atemporal: espanto &gt; estranheza &gt; explica\u00e7\u00e3o &gt; rea\u00e7\u00e3o. Essa estrutura \u00e9 t\u00e3o forte que nos permite encenar um roteiro, os v\u00e1rios passos de uma tradi\u00e7\u00e3o da nossa cultura, na qual, por transposi\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio de Greg\u00f3rio de Matos, podemos ver nossa realidade desigual culminar n\u00e3o na sisudez desejada pelo poeta, mas em festa, uma festa necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>3.<\/p>\n<p>O poema con\ufb01gura uma forma, uma estrutura discursiva e ret\u00f3rica, que, sem muito esfor\u00e7o, bem poder\u00edamos aplicar a outras realidades ou institui\u00e7\u00f5es. Eis que, dou-me conta agora, o poema come\u00e7a com um espanto \ufb01los\u00f3\ufb01co radical, pois nos separa de n\u00f3s mesmos, desvelando-nos dessemelhantes de nosso antigo e natural estado, ao tempo que estabelece uma identi\ufb01ca\u00e7\u00e3o entre o pr\u00f3prio poeta e a cidade de Salvador, como se um espanto rec\u00edproco os jungisse no mesmo gesto que os afasta de si mesmos<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/14-1-6.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/14-1-6.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180114\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Triste Bahia! \u00f3 qu\u00e3o dessemelhante<br \/>Est\u00e1s e estou do nosso antigo estado,<\/p>\n<p>Esse espanto, ademais, n\u00e3o \u00e9 raro. Empatia e estranhamento s\u00e3o fortes recursos liter\u00e1rios. Temos ami\u00fade alguma nostalgia de algum passado que, contudo, nunca se realiza por completo, porquanto, caso estivesse realizado e fosse completo, n\u00e3o teria degenerado. O espanto se traduz, pois, em uma dupla estranheza, o sentimento de que algo pode, sim, ter mudado. Mas, nesse caso concreto, exatamente o qu\u00ea? A resposta de Greg\u00f3rio \u00e9 direta:<\/p>\n<p>Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,<br \/>Rica te vi eu j\u00e1, tu a mim abundante.<\/p>\n<p>Pobres agora, ricos outrora? Endividado (empenhado) se diz o poeta, cuja pen\u00faria contrastaria com tempos idos, priscas eras, mas n\u00e3o sem causa ou raz\u00e3o. O poeta parece, ent\u00e3o, lamentar uma a\u00e7\u00e3o disruptiva, a quebra de um estado \u2014 quebra que s\u00f3 pode ter tido motiva\u00e7\u00e3o externa, a saber:<\/p>\n<p>A ti trocou-te a m\u00e1quina mercante,<br \/>Que em tua larga barra tem entrado,<\/p>\n<p>A m\u00e1quina invadiu, tirou do lugar, alterou, modi\ufb01cou um estado. A essa m\u00e1quina que, por conseguinte, assusta e atrai, como aderir ou reagir? Como deixar de ver que ela tudo perturba, n\u00e3o deixa nada intocado, atingindo a todos e mesmo talvez o mais reticente cr\u00edtico? Como impedir que a m\u00e1quina tudo reduza, en\ufb01m, a um trocado? Admite, a\ufb01nal, o poeta:<\/p>\n<p>A mim foi-me trocando e tem trocado<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi alterado o poeta, impondo-se, portanto, uma lei, a dessa m\u00e1quina mercante, por meio da qual um novo registro se imp\u00f5e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es (o neg\u00f3cio) e outra personagem se nos oferece (o negociante). A\ufb01nal, isso parece ser o que h\u00e1, e agora em grande quantidade:<\/p>\n<p>Tanto neg\u00f3cio e tanto negociante.<\/p>\n<p>Esse reino da troca, do neg\u00f3cio, \u00e9 tamb\u00e9m o lugar do engodo. \u00c9 a entrega do bem raro pelo ouro de besouro. A avidez seria a fraqueza local mais bem distribu\u00edda, que faria aceitar drogas in\u00fateis do deplor\u00e1vel brichote, o nefando estrangeiro. Entrega-se assim o a\u00e7\u00facar precioso (palavra de um antigo senhor de engenho e de escravizados, representante da aristocracia a\u00e7ucareira local) pelo irrelevante, o excelente pelo in\u00fatil.<\/p>\n<p>Deste em dar tanto a\u00e7\u00facar excelente<br \/>Pelas drogas in\u00fateis, que abelhuda<br \/>Simples aceitas do sagaz Brichote.<\/p>\n<p>4.<\/p>\n<p>Est\u00e1 ent\u00e3o tudo dominado? N\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a? Pode essa Cidade da Bahia reencontrar sua for\u00e7a? Pode ela retomar suas medidas e, um tanto sisuda, impor-se pelo algod\u00e3o s\u00f3brio que antes a cobria e lhe dava altivez e seguran\u00e7a?<\/p>\n<p>Sabemos que nada havia de inocente, nem riqueza branda na economia anterior \u00e0 m\u00e1quina mercante. Como sua nostalgia aponta para um passado nada id\u00edlico e o que o poeta lamenta \u00e9 a perda de um modo de vida tamb\u00e9m cruel, a empatia poss\u00edvel com Greg\u00f3rio s\u00f3 pode derivar de uma vaga analogia. Para o poeta apenas (e n\u00e3o para n\u00f3s), vale tal contexto anterior como par\u00e2metro e contraponto.<\/p>\n<p>Ao \ufb01m e ao cabo, \u00e9 a estrutura do poema o que aqui apreciamos; sua forma e n\u00e3o seu conte\u00fado. \u00c9 nesse sentido que, em meio \u00e0 cr\u00edtica, a estrutura do poema obriga-se a um desfecho. Para quem abriu os olhos, espantou-se e soube criticar, a narrativa precisa esbo\u00e7ar um gesto \ufb01nal. O soneto insinua, ent\u00e3o, uma r\u00e9stia de esperan\u00e7a, mas na conten\u00e7\u00e3o; um sopro de otimismo, mas no retraimento; uma sisudez contida, com vestes agora s\u00f3brias.<\/p>\n<p>Oh, se quisera Deus que, de repente,<br \/>Um dia amanheceras t\u00e3o sisuda<br \/>Que fora de algod\u00e3o o teu capote!<\/p>\n<p>Eis que a cr\u00edtica vem como uma esp\u00e9cie de restaura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o precisamos, todavia, aceitar a resposta de Greg\u00f3rio. Nossa resposta n\u00e3o h\u00e1 de brotar de alguma d\u00e1diva divina, nem vir\u00e1 assim t\u00e3o de repente.<\/p>\n<p>De todo modo, a cr\u00edtica (como toda cr\u00edtica) brota no poema como uma li\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a, que sempre nos d\u00e1 alento e agrada: a de que, por analogia, sejamos capazes de substituir as paix\u00f5es tristes do medo, da inveja, da cobi\u00e7a, do ressentimento, por paix\u00f5es deveras alegres \u2014 aquelas que, mesmo sisudas, nos revigoram, como a amizade e o amor.<\/p>\n<p>Aqui, ao desenharmos nossa analogia sobre sua estrutura discursiva, n\u00f3s nos afastamos de Greg\u00f3rio de Matos. A\ufb01nal, suas contradi\u00e7\u00f5es tamanhas e concretas fazem seu lamento decorrer da perda de privil\u00e9gios, do empobrecimento resultante do \ufb01m das restri\u00e7\u00f5es antes impostas \u00e0 entrada de navios estrangeiros, concomitante \u00e0 crise do com\u00e9rcio a\u00e7ucareiro.<\/p>\n<p>O talento de Greg\u00f3rio n\u00e3o h\u00e1 de apagar o inc\u00f4modo da realidade cruel que seus versos tragam e traduzem. Por outro lado, uma obra n\u00e3o se reduz ao seu contexto, assim como o pensamento n\u00e3o \u00e9 um mero cativo do seu tempo, se acaso nela o talento \u00e9 abundante. Desse modo, o soneto, com sua forma e sua for\u00e7a, nos oferece uma estrutura a ser revisitada e superada, declamada e negada, como um est\u00edmulo \u00e0 nossa a\u00e7\u00e3o. Em suma, um acicate a\u00e7ucarado.<\/p>\n<p>5.<\/p>\n<p>Carnaval \u00e9 barulho e sil\u00eancio, mescla rimas pobres e ricas, atrai energias criativas (embotadas muita vez pela repeti\u00e7\u00e3o). Entretanto, sendo mistura, pode entrever tamb\u00e9m a possibilidade de dissolu\u00e7\u00e3o de preconceitos e nos libertar de quanto pretenda impor-se como um valor e um destino, mas que n\u00f3s, de olhos abertos, vemos logo ser um mero e pobre neg\u00f3cio. Que nos permitamos, pois, na rua ou nos livros, essa condena\u00e7\u00e3o que liberta: a da alegria \u2014 inclusive nessa forma barroca, doce amarga, t\u00e3o pr\u00f3pria aos \ufb01lhos do Rec\u00f4ncavo.<\/p>\n<p>A\ufb01nal de contas, como bem nos diz Greg\u00f3rio, no soneto em que \u201cdescreve a confus\u00e3o do festejo do Entrudo\u201d, o carnaval sempre d\u00e1 vaz\u00e3o a essa vontade pantagruelesca e tamb\u00e9m autof\u00e1gica: a de \u201cquerer em um s\u00f3 dia comer tudo\u201d. Ao contr\u00e1rio de sua nostalgia marcada pelo passado, o Entrudo (essa antecipa\u00e7\u00e3o do carnaval) \u00e9 descrito por Greg\u00f3rio (n\u00e3o sem tra\u00e7os de preconceitos) como se concentrasse em um momento e com voracidade a utopia de um lugar m\u00e1gico de fartura, simplesmente sem fome, reeditando talvez o m\u00edtico Pa\u00eds da Cocanha, terra de pregui\u00e7a e de prazeres, sem az\u00e1fama ou mis\u00e9ria:<\/p>\n<p>Filh\u00f3s, fatias, sonhos, mal-assadas,<br \/>Galinhas, porco, vaca, e mais carneiro,<br \/>Os perus em poder do pasteleiro,<br \/>Esguichar, deitar pulhas, laranjadas;<br \/>Enfarinhar, p\u00f4r rabos, dar risadas,<br \/>Gastar para comer muito dinheiro,<br \/>N\u00e3o ter m\u00e3os a medir o taverneiro,<br \/>Com r\u00e9stias de cebolas dar pancadas;<\/p>\n<p>Forte a s\u00e1tira, duro o contexto, cabe re\ufb01nar as an\u00e1lises, inclusive da heran\u00e7a nefasta da escravid\u00e3o, e laborar em nossas pol\u00edticas a esperan\u00e7a, amiga das paix\u00f5es alegres. Vale assim a leitura carnavalesca das desigualdades e do sofrimento, ou seja, podermos ler a realidade conservando a promessa mais forte do carnaval \u2014 que faz sentido, sim, como festa, como horizonte de um poema ou a\ufb01rma\u00e7\u00e3o da cultura, sobretudo para quem se disp\u00f5e a lutar, n\u00e3o por uns poucos privil\u00e9gios, mas sim para que sempre possamos comer de tudo e que, bem abertos camarotes e janelas, todos os nossos dias sejam de festa, nos quais haveremos de<\/p>\n<p>N\u00e3o perdoar arroz, nem cuscuz quente,<br \/>Despejar pratos, e alimpar tigelas.<\/p>\n<p>6.<\/p>\n<p>O carnaval nos toca e transforma. \u00c9 gesto de re\ufb02ex\u00e3o coletiva, como se fora uma encena\u00e7\u00e3o p\u00fablica de nossos pensamentos e desejos mais \u00edntimos. Por isso mesmo, disrup\u00e7\u00e3o contida, suspens\u00e3o continuada, mas com prazo preciso. Eis que, um tanto inadvertidamente, meu texto tamb\u00e9m encena a seu modo essa pot\u00eancia cr\u00edtica, tanto na vontade de an\u00e1lise quanto no horizonte ut\u00f3pico acima desenhado, como se navegasse entre as agruras da explora\u00e7\u00e3o e o reino da liberdade.<\/p>\n<p>Como juntar essas pontas? Como unir no discurso os extremos da m\u00e1quina mercante e de uma sociedade de iguais? A resposta insinuada apontou para a pot\u00eancia mesma da alegria, das paix\u00f5es alegres, subversivas, pr\u00f3prias do nosso povo (ou seja, de quem pode ser protagonista de uma nova ordem) \u2014 paix\u00f5es que, de resto, podem ser obstru\u00eddas ou favorecidas por pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Carnaval \u00e9 inven\u00e7\u00e3o, a\ufb01rma\u00e7\u00e3o do talento de um povo, cuja for\u00e7a cr\u00edtica se atualiza, qui\u00e7\u00e1 momentaneamente, mas com a promessa de um samba duradouro. N\u00e3o deixou de ser ent\u00e3o emblem\u00e1tica dessa alegria poderosa um momento \u00fanico do carnaval, um desses encontros quase sobrenaturais.<\/p>\n<p>Como disse, estou recolhido, embora tentado pela Mudan\u00e7a do Garcia, mas ainda em casa. Eis que, pelos olhos de amigos e pelas redes, pude testemunhar um encontro que nossas for\u00e7as mais progressistas t\u00eam possibilitado na forma de pol\u00edticas p\u00fablicas de inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos n\u00e3o v\u00e3o gostar e \u00e9 bom que detestem, mas o encontro do BaianaSystem com Lula, em pleno Campo Grande, puxando os gritos de \u201cSem anistia\u201d e \u201cFascistas n\u00e3o passar\u00e3o\u201d, \u00e9 um gesto que sinaliza o tipo de aposta contida na for\u00e7a mais cr\u00edtica do carnaval. Uma for\u00e7a e uma emo\u00e7\u00e3o maiores que a soma de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>En\ufb01m, o m\u00fasico do trio de Thiago Aquino tocando \u201cLula-l\u00e1\u201d para agradecer por seu primeiro violino, outrora adquirido por meio de pol\u00edticas p\u00fablicas de incentivo \u00e0s artes e \u00e0 cultura em comunidades carentes: esse gesto \u00e9 puro carnaval ou bem mais que um mero carnaval. \u00c9 de arrepiar o corpo e de lavar a alma.<\/p>\n<p>1 Que se tome a refer\u00eancia a Greg\u00f3rio de Matos neste texto pelo que ela de fato \u00e9: apenas uma leitura carnavalesca e descompromissada de um soneto cl\u00e1ssico. Registro de uma impress\u00e3o pessoal e um tanto err\u00e1tica, n\u00e3o pretende competir com trabalhos can\u00f4nicos como os de Cleise Mendes, Fernando da Rocha Peres e Alfredo Bosi.<\/p>\n<p>2Que se trate de um passo narrativo cl\u00e1ssico, isso \ufb01ca bem claro o fato (para o qual Nancy Vieira me chamou a aten\u00e7\u00e3o) de esse espanto inicial ter sido inspirado por um poema l\u00edrico do portugu\u00eas Francisco Rodrigues Lobo: \u201cFormoso Tejo meu, qu\u00e3o diferente \/ Te vejo e vi, me v\u00eas agora e viste, \/ Turvo te vejo a ti, tu a mim triste, \/ Claro te vi eu j\u00e1, tu a mim contente\u201d.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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e passa da\u00ed a desejar dias de comunh\u00e3o, janelas e camarotes e abertos, para o final apontar uma cena no Campo Grande que o comoveu<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/breves-leituras-carnavalescas\/\">Breves leituras carnavalescas<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":74682,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[35997,35998,1605,2858,35999,6007,309,2195,632,98,35305,36000,36001,5499,670],"tags":[],"class_list":["post-74681","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-baianasystem","category-baianasystem-no-campo-grandde","category-campo-grande","category-carnaval","category-contradicoes-do-carnaval","category-crise-brasileira","category-cultura","category-cultura-brasileira","category-cultura-popular","category-desigualdades","category-desigualdades-brasileiras","category-gregorio-de-matos","category-joao-carlos-salles","category-poeticas","category-salvador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74681","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=74681"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/74681\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/74682"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=74681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=74681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=74681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}