{"id":75375,"date":"2026-02-23T17:52:02","date_gmt":"2026-02-23T20:52:02","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fala-a-reporter-das-lutas-do-sul-global\/"},"modified":"2026-02-23T17:52:02","modified_gmt":"2026-02-23T20:52:02","slug":"fala-a-reporter-das-lutas-do-sul-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fala-a-reporter-das-lutas-do-sul-global\/","title":{"rendered":"Fala a rep\u00f3rter das lutas do Sul Global"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"432\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/beatriz-bissio-ibase.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/beatriz-bissio-ibase.jpg 640w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/23175103\/beatriz-bissio-ibase-300x203.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\"><figcaption>Foto: N\u00facleo Piratininga<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Beatriz Bissio, doutora em Hist\u00f3ria pela UFF e Professora Associada do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Comparada da UFRJ, revela-se nesta entrevista uma intelectual de rara s\u00edntese, cuja atua\u00e7\u00e3o rompe os limites da \u201ctorre de marfim\u201d acad\u00eamica.\u00a0<\/p>\n<p>Sua trajet\u00f3ria \u00e9 marcada por uma densa e diversa experi\u00eancia, tendo servido como coordenadora do Comit\u00ea de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais do estado do Maranh\u00e3o durante a administra\u00e7\u00e3o de Jackson Lago (2007\u20132009) e, mais recentemente, exercido a vice-dire\u00e7\u00e3o do prestigioso Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Sociais (IFCS) da UFRJ, no bi\u00eanio de setembro de 2022 a agosto de 2024.<\/p>\n<p>Este percurso de rigor e servi\u00e7o ao Brasil foi selado com a Medalha da Vit\u00f3ria, concedida em 2013 pelo ent\u00e3o ministro da Defesa, o embaixador Celso Amorim, reconhecendo uma vida dedicada \u00e0 compreens\u00e3o das din\u00e2micas globais. Como ensinou Marc Bloch, o historiador busca onde fareja a carne humana; Bissio, contudo, alia a essa busca a sensibilidade de Claude L\u00e9vi-Strauss para decifrar as estruturas que moldam a alteridade. Fundadora da revista <em>Cadernos do Terceiro Mundo<\/em>, ela dialogou com os arquitetos do s\u00e9culo XX, de Nelson Mandela a Yasser Arafat, trazendo nesta conversa a \u201cverdade\u201d apreendida no olhar de Fidel Castro e a humanidade resiliente de Leonel Brizola no ex\u00edlio.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/14-1-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/14-1-8.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180114\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Leia a entrevista de Thiago Gama, historiador e doutorando da UFRJ, para o\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Sua trajet\u00f3ria intelectual e jornal\u00edstica constituiu uma verdadeira cartografia da subjetividade do Sul Global, tendo a senhora habitado o epicentro das grandes muta\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX ao dialogar com figuras que n\u00e3o apenas testemunharam a hist\u00f3ria, mas a esculpiram. Gostaria de focar na figura de Fidel Castro que, para a minha gera\u00e7\u00e3o, simboliza a resist\u00eancia contra o imperialismo. A senhora foi uma das poucas jornalistas brasileiras\/uruguaias a entrevistar esse l\u00edder revolucion\u00e1rio, que sobreviveu a centenas de tentativas de assassinato da CIA. Gostaria de saber qual foi a sua sensa\u00e7\u00e3o de estar diante da pr\u00f3pria Hist\u00f3ria. O que a senhora viu naqueles olhos e qual foi a \u201cverdade\u201d que aquele homem lhe transmitiu?<\/strong><\/p>\n<p>Foi, antes de tudo, um sentimento de privil\u00e9gio e de fasc\u00ednio. Tive a honra de ser recebida por um homem da estatura de Fidel, sentada em uma pequena mesa onde est\u00e1vamos apenas eu, ele e uma secret\u00e1ria jovem que tomava notas. Interpretei esse privil\u00e9gio como um reconhecimento ao trabalho jornal\u00edstico desenvolvido pela equipe da revista Cadernos do Terceiro Mundo, em representa\u00e7\u00e3o da qual, como membro do n\u00facleo que a fundara e dirigia, eu estava l\u00e1, sentada ao lado de Fidel Castro.<\/p>\n<p>Foi uma conversa de mais de duas horas, em um dia de muitos compromissos dele, em fun\u00e7\u00e3o dos quais vestia o seu uniforme. O que mais me impressionou foi v\u00ea-lo falar com paix\u00e3o e arrebatamento, especialmente sobre Cuba \u2014 um amor pela sua p\u00e1tria e pela p\u00e1tria latino-americana que transbordava pelos poros e nos impregnava. Al\u00e9m disso, Fidel era um homem de uma erudi\u00e7\u00e3o e um conhecimento sem limites; leitor voraz, ele manejava os dados como se tivesse um computador na cabe\u00e7a. Est\u00e1vamos em um momento dif\u00edcil, anterior ao colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mas j\u00e1 com sintomas claros do que viria. Fidel ainda mantinha a expectativa de que o desfecho n\u00e3o ocorresse, mas j\u00e1 antevia as dificuldades que viveria Cuba sem o apoio sovi\u00e9tico. Nesse contexto, ele me disse uma frase que acabou sendo o t\u00edtulo daquela entrevista: <strong>\u201cO socialismo n\u00e3o se esgota com uma experi\u00eancia hist\u00f3rica. O socialismo \u00e9 mais profundo e transbordar\u00e1 essa experi\u00eancia\u201d<\/strong>. Se fosse resumir o sentimento que ficou em mim depois dessa conversa, diria que foi o de um sentido respeito por um homem com um profundo senso de responsabilidade perante seu povo e perante a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>A senhora considera que o experimento socialista cubano foi o mais bem-sucedido no mundo, chegando mais perto do ideal de pensar o ser humano em sua totalidade e igualdade?<\/strong><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o gostaria de fazer compara\u00e7\u00f5es. Mas posso falar do que mais admiro no processo cubano: a capacidade de transformar o ser humano, de extrair dele o que h\u00e1 de melhor. Isso \u00e9 fundamental em qualquer processo de transforma\u00e7\u00e3o social \u2014 elevar a humanidade a um patamar superior onde possamos nos perceber todos iguais. Cuba demonstrou que um processo transformador \u00e9 capaz de dar dignidade ao ser humano. E constatei isso atrav\u00e9s de in\u00fameras experi\u00eancias hist\u00f3ricas, algumas das quais como testemunha, inclusive na \u00c1frica. O internacionalismo do povo cubano mostrou a estatura desse ser humano surgido da experi\u00eancia revolucion\u00e1ria. Vi a entrega de cubanos an\u00f4nimos \u2014 m\u00e9dicos, professores, bi\u00f3logos, engenheiros, e at\u00e9 mesmo lutadores de boxe \u2014 que partiram em miss\u00f5es internacionalistas para partilhar o conhecimento e a experi\u00eancia que receberam atrav\u00e9s da Revolu\u00e7\u00e3o. Essa solidariedade, que muitas vezes significou a entrega da pr\u00f3pria vida, como ocorreu na participa\u00e7\u00e3o cubana na independ\u00eancia de Angola, \u00e9 para mim a demonstra\u00e7\u00e3o irrefut\u00e1vel de uma proposta revolucion\u00e1ria vitoriosa.<\/p>\n<p><strong>Gostaria de tratar agora de Leonel de Moura Brizola. Cresci em uma fam\u00edlia profundamente brizolista; minha av\u00f3 era uma de suas grandes entusiastas do projeto educacional que ele representava, falava com paix\u00e3o sobre os CIEPs e o projeto de educa\u00e7\u00e3o dele e de Darcy Ribeiro. Para o povo fluminense, o termo \u201cBrizol\u00e3o\u201d tinha uma conota\u00e7\u00e3o carinhosa, embora a direita tentasse us\u00e1-lo para estigmatizar o projeto. A senhora conheceu Leonel Brizola no Uruguai, no ex\u00edlio. Quem foi esse homem fora dos holofotes? Ele mantinha no privado a mesma emo\u00e7\u00e3o e a paix\u00e3o que v\u00edamos em seus discursos?<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/HUCITEC-basaglia5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/HUCITEC-basaglia5.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/08\/31182109\/HUCITEC-basaglia5-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Brizola era uma pessoa admir\u00e1vel; continuo a ter por ele um profundo carinho e respeito. Eu o conheci no Uruguai (meu pa\u00eds de origem), no ex\u00edlio, num momento de grandes incertezas em rela\u00e7\u00e3o ao futuro do Brasil e \u00e0 possibilidade do retorno. O ex\u00edlio para Brizola, assim como para outros brasileiros que conheci naquela altura, representava um desgarramento doloroso. Eu mesma vivi essa experi\u00eancia uns anos mais tarde. Brizola expressava o sofrimento pela dist\u00e2ncia da p\u00e1tria e pela impossibilidade de intervir na pol\u00edtica nacional. Mas nunca \u2014 nem ele nem os demais exilados \u2014 deixaram de buscar formas de contribuir para o processo de retorno \u00e0 democracia. A ditadura sabia disso e pressionou o governo uruguaio a confin\u00e1-lo, junto com toda a fam\u00edlia, em pris\u00e3o domiciliar, em Atl\u00e2ntida, um balne\u00e1rio a 80 km de Montevid\u00e9u. Essa foi uma etapa muito dif\u00edcil do ex\u00edlio, porque levou Brizola e Dona Neusa a optar por enviar os filhos para o Rio Grande do Sul, onde ficaram a cargo da fam\u00edlia dela.<\/p>\n<p>Lembro-me vividamente do dia em que o conheci. Imaginei que o encontro seria em um restaurante formal em Montevid\u00e9u, mas paramos na estrada, em um local simples. E como fiquei um pouco surpresa do local escolhido para a parada no meio da estrada, Brizola me disse, de forma muito afetuosa: \u201cBeatriz, eu quis te receber aqui porque este \u00e9 o restaurante preferido dos caminhoneiros, e os caminhoneiros s\u00e3o os que melhor sabem escolher restaurantes\u201d. Brizola era essa figura avassaladora, que irradiava confian\u00e7a no futuro, amor pelo Brasil e orgulho de seu povo. No privado, era extremamente afetuoso e mantinha uma devo\u00e7\u00e3o profunda por Dona Neusa, uma mulher extraordin\u00e1ria. Tendo sido filha de uma fam\u00edlia privilegiada do Rio Grande do Sul (ela era irm\u00e3 do presidente Jo\u00e3o Goulart), no ex\u00edlio ela pessoalmente organizava um sop\u00e3o destinado a alimentar os exiliados que n\u00e3o tinham fam\u00edlia nem dinheiro para se sustentar. Lembro-me de ter conversado muito com ela sobre as dores do ex\u00edlio e a separa\u00e7\u00e3o dos filhos.<\/p>\n<p>Posso afirmar sem duvidar um instante que Brizola foi um homem de uma coer\u00eancia e de uma sensibilidade humana admir\u00e1veis, al\u00e9m de suas qualidades de estadista.<\/p>\n<p><strong>Diante da necropol\u00edtica desenfreada que hoje converte Gaza em um laborat\u00f3rio de exterm\u00ednio t\u00e9cnico, como voc\u00ea interpreta a persist\u00eancia do espectro de Yasser Arafat na gram\u00e1tica da resist\u00eancia atual da Palestina? Como foi entrevist\u00e1-lo para <\/strong><em><strong>Cadernos do Terceiro Mundo?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Entrevistei Yasser Arafat tr\u00eas vezes, sempre cobrindo a quest\u00e3o palestina para <em>Cadernos do Terceiro Mundo<\/em>, junto com Neiva Moreira. A primeira e mais marcante das entrevistas foi em Beirute, em 1979, em plena guerra civil do L\u00edbano. A segunda foi em Tunes, depois que a OLP foi obrigada a mudar-se para a Tun\u00edsia, em 1982, como consequ\u00eancia da invas\u00e3o israelense ao L\u00edbano. E a terceira foi durante a reuni\u00e3o, em novembro de 1988, em Argel, do Conselho Nacional Palestino (CNP), o Parlamento palestino no ex\u00edlio. Nessa ocasi\u00e3o hist\u00f3rica, Yasser Arafat leu a Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia da Palestina, escrita pelo poeta Mahmoud Darwish, que acabara de ser aprovada pelo CNP. Vou me deter na entrevista feita no L\u00edbano, porque foi a do primeiro impacto com a figura desse l\u00edder cuja trajet\u00f3ria eu j\u00e1 acompanhava e continuaria a acompanhar at\u00e9 a sua morte.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos sido avisados de que a entrevista poderia acontecer, mas n\u00e3o havia certeza nem data. S\u00f3 um conselho: <strong>\u201cfiquem atentos de noite, pois \u00e9 o hor\u00e1rio em que nosso l\u00edder, quando poss\u00edvel, recebe os visitantes\u201d<\/strong>. E assim ocorreu.<\/p>\n<p>J\u00e1 entrada a madrugada, nos acordou um militante com a miss\u00e3o de nos levar at\u00e9 Abu Amar, como tamb\u00e9m era conhecido Arafat, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o \u00e1rabe de chamar a pessoa, carinhosamente, como \u201cpai\u201d ou \u201cm\u00e3e de\u201d \u2026 Depois de muitas voltas em uma Beirute Ocidental em sil\u00eancio \u2014 essa era a parte mu\u00e7ulmana da capital libanesa, separada da parte crist\u00e3, durante a guerra civil pela Linha Verde \u2014 chegamos ao local do encontro. Nos recebeu um Yasser Arafat visivelmente cansado, olhos vermelhos de horas sem dormir, mas profundamente afetuoso. Em ingl\u00eas, idioma que usou durante toda a entrevista, pede desculpas pelo hor\u00e1rio e explica que acaba de chegar de Teer\u00e3, de um importante encontro com o <strong>aiatol\u00e1 Khomeini<\/strong> e que, ao tomar conhecimento da nossa presen\u00e7a e do fato de que h\u00e1 dias aguard\u00e1vamos sermos recebidos por ele, tinha decidido n\u00e3o nos fazer esperar mais. Na verdade, n\u00e3o sabia se poderia nos receber outro dia, em fun\u00e7\u00e3o dos compromissos que lhe aguardavam como consequ\u00eancia daquele encontro no Ir\u00e3. No momento, n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos ideia da import\u00e2ncia dessa revela\u00e7\u00e3o. Mas esse encontro de Arafat com Khomeini, s\u00f3 seis dias ap\u00f3s a vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica, em 18 de fevereiro de 1979, dava in\u00edcio a uma virada diplom\u00e1tica da maior import\u00e2ncia para os palestinos e para toda a regi\u00e3o: o Ir\u00e3, antes fiel aliado de Israel e dos Estados Unidos, assumia a causa palestina como o centro de seu compromisso revolucion\u00e1rio, um compromisso que perdura at\u00e9 hoje. E, como s\u00edmbolo dessa mudan\u00e7a, quando ainda Arafat estava em solo iraniano, foi colocada uma placa com a inscri\u00e7\u00e3o \u201cEmbaixada da Palestina\u201d no topo da porta da frente do edif\u00edcio que at\u00e9 poucos dias antes era a Embaixada de Israel.<\/p>\n<p>A conversa com Arafat fluiu como se j\u00e1 nos conhec\u00eassemos, sem formalidades, \u00e0 vontade, livre. Ele explicou a longa caminhada desde a funda\u00e7\u00e3o da <strong>Organiza\u00e7\u00e3o da Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina<\/strong> at\u00e9 aquele momento, as dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o com as popula\u00e7\u00f5es dos territ\u00f3rios ocupados, as car\u00eancias nos campos de refugiados. Tamb\u00e9m exaltou a solidariedade dos libaneses e dos povos do mundo que se solidarizavam com sua causa. A frase que ficou gravada em mim foi esta: <strong>\u201cA nossa luta \u00e9 complexa. N\u00e3o estamos enfrentando s\u00f3 a Israel; enfrentamos tamb\u00e9m os Estados Unidos\u201d<\/strong>. A despedida foi um longo abra\u00e7o. Esse gesto t\u00e3o carinhoso e a defer\u00eancia de priorizar a nossa entrevista mesmo naquelas circunst\u00e2ncias me cativaram; s\u00f3 fizeram aumentar o meu respeito e admira\u00e7\u00e3o por ele. Sei que Arafat n\u00e3o \u00e9 unanimidade entre os palestinos. Que grande l\u00edder o \u00e9? Talvez ele tenha confiado demais na corre\u00e7\u00e3o dos advers\u00e1rios com os quais, anos mais tarde, se reuniu e que o tra\u00edram e acabaram assassinando-o. <strong>Hoje est\u00e1 demonstrado que ele foi envenenado<\/strong>. Mas ningu\u00e9m pode negar que a sua entrega \u00e0 causa palestina foi o eixo de sua vida e que assim ele se tornou um s\u00edmbolo para o mundo. <strong>O genoc\u00eddio de que \u00e9 v\u00edtima hoje o povo palestino nos conclama a n\u00e3o nos omitir e a denunciar, com todas as nossas for\u00e7as, os seus perpetradores e os seus aliados!<\/strong> Al\u00e9m de ser um dever, tamb\u00e9m \u00e9 um tributo \u00e0 mem\u00f3ria de Yasser Arafat.<\/p>\n<p><strong>Em seu trabalho sobre a continuidade e ruptura na diplomacia do Sul, a senhora identifica os BRICS como herdeiros do \u201cEsp\u00edrito de Bandung\u201d e da busca por novas regras na economia internacional. Diante da recente expans\u00e3o para o BRICS+, como manter a coes\u00e3o desse legado de soberania e n\u00e3o-alinhamento em um bloco com interesses geopol\u00edticos e regimes t\u00e3o heterog\u00eaneos?<\/strong><\/p>\n<p>A Confer\u00eancia realizada em Bandung, Indon\u00e9sia, de 18 a 24 de abril de 1955, reuniu l\u00edderes de 30 estados asi\u00e1ticos e africanos, rec\u00e9m-independentes, e de representantes de movimentos de liberta\u00e7\u00e3o. Em conjunto, representavam um bilh\u00e3o e 350 milh\u00f5es de seres humanos! Uma confer\u00eancia in\u00e9dita, s\u00f3 superada em n\u00famero e representatividade dos participantes pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Simbolicamente, ela anunciava o momento em que uma significativa parcela da Humanidade tomava consci\u00eancia de seu papel e fazia ouvir sua voz. Em plena Guerra Fria, o \u201cesp\u00edrito de Bandung\u201d marcou o processo de liberta\u00e7\u00e3o do mundo colonial e definiu o caminho para a inser\u00e7\u00e3o internacional dos pa\u00edses que, dando seguimento a esse legado, fundaram em 1961 o Movimento N\u00e3o Alinhado, com uma condena\u00e7\u00e3o expl\u00edcita ao racismo, ao colonialismo e ao imperialismo.<\/p>\n<p>O processo de tomada de consci\u00eancia dos desafios e das potencialidades dos pa\u00edses rec\u00e9m-independentes levou, nos anos 1970, no auge de sua atua\u00e7\u00e3o, o Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados a adotar duas importantes reivindica\u00e7\u00f5es: a implementa\u00e7\u00e3o de uma Nova Ordem Econ\u00f4mica Mundial (NOEM) e de uma Nova Ordem Mundial da Informa\u00e7\u00e3o e da Comunica\u00e7\u00e3o (NOMIC). A primeira era uma cr\u00edtica \u00e0s regras de jogo da economia e das finan\u00e7as internacionais herdadas da Segunda Guerra Mundial, com propostas visando a valoriza\u00e7\u00e3o e industrializa\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias-primas (os recursos naturais, extra\u00eddos pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es das antigas metr\u00f3poles coloniais, mantendo as rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia com as ex-col\u00f4nias). A segunda proposta visava equilibrar a produ\u00e7\u00e3o e o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses desenvolvidos e o ent\u00e3o chamado Terceiro Mundo (conceito parcialmente incorporado hoje na ideia de Sul ou Sul Global), com uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos grandes monop\u00f3lios informativos internacionais.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico do Movimento N\u00e3o Alinhado era correto, tanto em rela\u00e7\u00e3o ao tema das necess\u00e1rias mudan\u00e7as na arquitetura da economia mundial quanto \u00e0s nefastas consequ\u00eancias da concentra\u00e7\u00e3o informativa em poucas ag\u00eancias e ve\u00edculos do Norte. Mas a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as naquele momento hist\u00f3rico n\u00e3o permitiu a implementa\u00e7\u00e3o dessas alternativas, nem no plano econ\u00f4mico, nem no terreno das comunica\u00e7\u00f5es. O pr\u00f3prio movimento foi se enfraquecendo, diante dos impasses pol\u00edticos e econ\u00f4micos, e pouco a pouco perdeu protagonismo no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>No entanto, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, o mundo j\u00e1 era bem diferente daquele das d\u00e9cadas de 1950 a 1990 do s\u00e9culo passado. Pa\u00edses do Sul Global, em fun\u00e7\u00e3o de avan\u00e7os relativos conquistados nesse per\u00edodo, transformaram-se em pot\u00eancias de m\u00e9dio porte e passaram a ser identificados como l\u00edderes de suas respectivas regi\u00f5es. De forma concomitante, as suas respectivas lideran\u00e7as passaram a identificar interesses comuns no cen\u00e1rio internacional\u2026 E da\u00ed surge o processo, j\u00e1 conhecido, da formaliza\u00e7\u00e3o do bloco dos BRICS.<\/p>\n<p>E o sucesso dos BRICS, como \u00e9 natural, atraiu novos parceiros. Foi assim tamb\u00e9m com o Movimento N\u00e3o Alinhado. N\u00e3o tinham todos os membros do movimento as mesmas defini\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, nem os mesmos sistemas de governo, nem a mesma religi\u00e3o, mas havia interesses comuns e tinham em comum a rejei\u00e7\u00e3o ao colonialismo, ao imperialismo e ao racismo. Em particular, estavam unidos pela necessidade de enfrentar o tr\u00e1gico legado colonial e o presente, desafiado pela explora\u00e7\u00e3o neocolonial.<\/p>\n<p>Em 2025, setenta anos depois da Confer\u00eancia de Bandung, muitos dos problemas que foram objeto de an\u00e1lise e debate naquele encontro pioneiro continuam desafiando a maior parte da Humanidade. Mas hoje a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 diferente. Os BRICS t\u00eam a capacidade que nunca teve o Movimento N\u00e3o Alinhado de, por exemplo, financiar grandes projetos de desenvolvimento, seja com bancos estatais dos seus membros, em particular da China, seja atrav\u00e9s do Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como banco dos BRICS.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 o crescimento dos BRICS e a sua diversifica\u00e7\u00e3o um empecilho para o seu sucesso? \u00c9 uma quest\u00e3o em aberto. Mas a experi\u00eancia hist\u00f3rica nos mostra que n\u00e3o foi a diversidade dos pa\u00edses membros do Movimento N\u00e3o Alinhado o fator que lhe fez perder o seu dinamismo e a sua relev\u00e2ncia: foram os fracassos nas suas tentativas de mudar as regras do jogo nas rela\u00e7\u00f5es com o mundo desenvolvido, nos dois terrenos vitais para o desenvolvimento equitativo, a economia junto com as finan\u00e7as e a comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por enquanto, os BRICS t\u00eam conseguido avan\u00e7os significativos no terreno econ\u00f4mico e financeiro, impulsionando o com\u00e9rcio com o uso de moedas pr\u00f3prias, financiando projetos de infraestrutura e buscando um sistema alternativo ao SWIFT utilizado pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras capitalistas globais. Se eles continuarem avan\u00e7ando nessa dire\u00e7\u00e3o, com capacidade real de criar alternativas nesses terrenos, dificilmente diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas ou pol\u00edticas falar\u00e3o mais alto.<\/p>\n<p><strong>No cap\u00edtulo <\/strong><em><strong>The Concept of Sovereignty and the Experience of the South<\/strong><\/em><strong> (2025), a senhora prop\u00f5e ampliar o conceito de soberania para incluir o direito expl\u00edcito dos Estados sobre seus recursos naturais para o desenvolvimento. De que forma essa reformula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica pode fortalecer juridicamente os pa\u00edses do Sul contra interven\u00e7\u00f5es estrangeiras que se legitimam sob justificativas humanit\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p>Em teoria, o sistema internacional moderno est\u00e1 formado por Estados soberanos com autoridade exclusiva sobre seus territ\u00f3rios, a partir de fronteiras definidas e reconhecidas. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia hist\u00f3rica da maior parte dos pa\u00edses do Sul, ou do Terceiro Mundo, como eram chamados nos anos 60\u201390 do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Com poucas exce\u00e7\u00f5es, pelo menos desde a segunda metade do s\u00e9culo XX, as viola\u00e7\u00f5es da soberania sofridas por Estados independentes ocorreram em pa\u00edses do Sul. Essas interven\u00e7\u00f5es, sejam elas propiciadas por antigas pot\u00eancias coloniais, pelos novos <em>hegemons<\/em> ou por alian\u00e7as militares de v\u00e1rias pot\u00eancias, geralmente t\u00eam como objetivo neutralizar uma decis\u00e3o soberana do pa\u00eds atacado relativa aos seus recursos naturais. E sabemos bem que, na maioria dos casos, as interven\u00e7\u00f5es estrangeiras s\u00e3o disfar\u00e7adas com justificativas humanit\u00e1rias. Na realidade, o princ\u00edpio da igualdade entre os Estados-membros da ONU nunca foi respeitado pelos mais poderosos.<\/p>\n<p>Isso me lembra os ensinamentos de Conf\u00facio, o s\u00e1bio chin\u00eas nascido em 551 a.C., cuja influ\u00eancia ainda \u00e9 muito significativa n\u00e3o s\u00f3 na China, mas em toda \u00c1sia. Ele defendia a sinceridade como a base dos procedimentos corretos nas rela\u00e7\u00f5es sociais. A \u201cnecessidade de dizer as coisas por seu nome\u201d \u00e9 um dos pilares da filosofia confucionista, conhecida como a doutrina da Retifica\u00e7\u00e3o dos Nomes (<em>Zhengming<\/em>). Para Conf\u00facio, a desordem social, pol\u00edtica e moral resulta da falta de correspond\u00eancia entre a realidade e as palavras utilizadas para descrev\u00ea-la: chamar as coisas pelo seu nome \u00e9 uma quest\u00e3o de integridade. Quando as palavras perdem o significado ou s\u00e3o usadas para esconder a realidade, em especial as injusti\u00e7as, o caos se instala.<\/p>\n<p>Que s\u00e1bio e singelo conceito! Se aplicarmos os ensinamentos de Conf\u00facio, seria necess\u00e1rio reconhecer que, se o interesse das pot\u00eancias imperialistas est\u00e1 em jogo, o conceito de soberania perde validade. Temos o recente caso da agress\u00e3o \u00e0 Venezuela por parte dos Estados Unidos e do sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, C\u00edlia Flores. Seguindo as li\u00e7\u00f5es de Conf\u00facio, nos perguntamos: qual o motivo? Petr\u00f3leo!<\/p>\n<p>Em resposta anterior, mencionei a import\u00e2ncia do legado da Confer\u00eancia de Bandung e dos N\u00e3o Alinhados. A experi\u00eancia de participar do conv\u00edvio mundial como pa\u00edses independentes e supostamente soberanos mostrou aos pa\u00edses do Terceiro Mundo que a soberania n\u00e3o ficaria completa at\u00e9 que eles pudessem assumir o controle de seus recursos naturais e de sua economia \u2014 o que significava romper definitivamente a depend\u00eancia das antigas metr\u00f3poles.<\/p>\n<p>Hoje torna-se claro que a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, assinada em junho de 1945 e ratificada pelos 51 pa\u00edses que existiam na \u00e9poca, j\u00e1 n\u00e3o reflete a nova configura\u00e7\u00e3o do mundo. Como resultado, a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o ficou sem instrumentos para responder a situa\u00e7\u00f5es cada vez mais conflituosas, perdendo gradualmente a sua efici\u00eancia e credibilidade. Com uma ONU composta atualmente por 193 membros plenos, al\u00e9m de observadores, a revis\u00e3o da Carta e da estrutura da organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 na agenda mundial h\u00e1 tempos. Num momento em que assistimos ao desmantelamento dos alicerces do direito internacional, onde nem mesmo a question\u00e1vel \u201cordem internacional baseada em regras\u201d definida pelos Estados Unidos vigora, faz-se evidente que n\u00e3o s\u00f3 o conceito de soberania deve ser revisado. Mas, quando houver condi\u00e7\u00f5es para promover uma iniciativa internacional destinada a atualizar a Carta e a estrutura das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2014 uma meta que hoje faz parte, por exemplo, da plataforma dos BRICS \u2014 o conceito de soberania, central do conv\u00edvio internacional, sem d\u00favida dever\u00e1 ser definido com clareza e com a amplid\u00e3o necess\u00e1ria. Tradicionalmente, afirma-se que\u00a0\u201csoberania \u00e9 o poder supremo, absoluto e independente de um Estado para governar seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio\u201d, etc. A nova reda\u00e7\u00e3o deveria incluir de forma expl\u00edcita o direito de cada Estado de dispor dos seus recursos naturais para promover o seu desenvolvimento.<\/p>\n<p><strong>Analisando seu artigo sobre como a parceria estrat\u00e9gica entre China e R\u00fassia pode mudar o futuro da Eur\u00e1sia, qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre o risco de o Sul Global migrar de uma depend\u00eancia ocidental para uma nova centralidade asi\u00e1tica, sem necessariamente atingir uma autonomia sist\u00eamica real?<\/strong><\/p>\n<p>Estudos recentes mostram a profundidade das mudan\u00e7as no cen\u00e1rio internacional. Podemos citar os que afirmam, com base em proje\u00e7\u00f5es do FMI, que pela primeira vez em s\u00e9culos o Produto Interno Bruto dos pa\u00edses do Sul Global ultrapassou o dos pa\u00edses do Norte Global. Uma express\u00e3o muito instigante dessas mudan\u00e7as \u00e9 a reivindica\u00e7\u00e3o do ex-diplomata de Singapura, atualmente professor em\u00e9rito no seu pa\u00eds, Kishore Mahbubani, de que o assento permanente do Reino Unido no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU passe a ser ocupado pela \u00cdndia, como parte das reformas necess\u00e1rias na estrutura das Na\u00e7\u00f5es Unidas. \u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida alguma de que a \u00cdndia \u00e9 hoje a terceira economia mais poderosa do mundo\u201d, afirma Mahbubani. Para o ex-diplomata, o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU precisa de reformas urgentes e a \u00cdndia deve obter o seu lugar de direito como membro permanente do \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo da organiza\u00e7\u00e3o. \u201cA economia da \u00cdndia j\u00e1 ultrapassou a do Reino Unido e, at\u00e9 2050, espera-se que seja quatro vezes maior do que a brit\u00e2nica\u201d, afirma o ex-diplomata. Em 1945, as maiores pot\u00eancias se reservaram o direito de ter assentos permanentes e poder de veto no Conselho de Seguran\u00e7a. \u00c9 hora de adotar os mesmos crit\u00e9rios hoje, reconhecendo o lugar que corresponde \u00e0s pot\u00eancias do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>Optei por come\u00e7ar a minha resposta com estes exemplos porque a alian\u00e7a estrat\u00e9gica entre a China e a R\u00fassia \u00e9 consequ\u00eancia e, ao mesmo tempo, express\u00e3o das profundas mudan\u00e7as em curso na geopol\u00edtica mundial. Por primeira vez em s\u00e9culos \u2014 pensemos na ic\u00f4nica data de 1492! \u2014 o predom\u00ednio ocidental no mundo parece estar chegando a um fim. E essa mudan\u00e7a n\u00e3o ter\u00e1 somente um significado geopol\u00edtico, tamb\u00e9m poder\u00e1 levar \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do mito da \u201csupremacia da ra\u00e7a branca\u201d, alicerce da justificativa da domina\u00e7\u00e3o colonial e neocolonial. Se o historiador Eric Hobsbawn chamou o s\u00e9culo 19 de \u201co s\u00e9culo da Europa\u201d e o s\u00e9culo 20 foi por ele definido como o \u201cs\u00e9culo americano\u201d (dos Estados Unidos), no futuro o s\u00e9culo 21 ser\u00e1 visto como \u201co s\u00e9culo da \u00c1sia\u201d?<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que deve ser analisada a crescente coopera\u00e7\u00e3o entre R\u00fassia e China, definida pelos respectivos chefes de Estado como uma \u201calian\u00e7a estrat\u00e9gica\u201d. Por que vincular essa alian\u00e7a a um novo cen\u00e1rio geopol\u00edtico? Porque o Ocidente demonstra n\u00e3o estar preparado (nem resignado) \u00e0 perda de hegemonia diante do maior peso do continente asi\u00e1tico na economia mundial e das consequ\u00eancias dessa mudan\u00e7a. O exemplo mais evidente \u00e9 a cont\u00ednua expans\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN; em ingl\u00eas, NATO \u2014\u00a0<em>North Atlantic Treaty Organization<\/em>), que deveria ter se dissolvido, como aconteceu com o Tratado de Vars\u00f3via, depois do fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mas, ao contr\u00e1rio de desaparecer, a OTAN avan\u00e7ou ano ap\u00f3s ano na dire\u00e7\u00e3o do Oriente.<\/p>\n<p>A partir dos primeiros anos do s\u00e9culo 21, a China e a R\u00fassia, superadas as quest\u00f5es fronteiri\u00e7as e algumas diverg\u00eancias menores em outras esferas, optaram por se fortalecer mutuamente assinando acordos de envergadura em \u00e1reas estrat\u00e9gicas \u2014 energia e seguran\u00e7a, em particular. O processo avan\u00e7ou para o n\u00edvel de alian\u00e7a estrat\u00e9gica com a chegada ao poder de Xi Jinping e sua sintonia com o presidente Vladimir Putin.<\/p>\n<p>Ambos os pa\u00edses tamb\u00e9m s\u00e3o membros de acordos regionais como a Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai (<em>Shanghai Cooperation Organization<\/em>, SCO), fundada em 2001, chamada em meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidental de \u201ca OTAN do Oriente\u201d. Ela \u00e9, de fato, uma inst\u00e2ncia chave de articula\u00e7\u00e3o euroasi\u00e1tica, mas n\u00e3o tem poder militar, nem objetivos, nem \u201cmodus operandi\u201d compar\u00e1veis aos da alian\u00e7a militar do Ocidente.<\/p>\n<p>A China \u00e9 hoje a principal parceira comercial da R\u00fassia e detalhe importante: os projetos de coopera\u00e7\u00e3o s\u00e3o efetivados atrav\u00e9s de pagamentos rec\u00edprocos utilizando as moedas nacionais, pois um dos objetivos da R\u00fassia e da China \u00e9 diminuir a influ\u00eancia do d\u00f3lar no com\u00e9rcio internacional e, ao mesmo tempo, evitar riscos cambiais. O fundamento dessa decis\u00e3o torna-se evidente diante das san\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 R\u00fassia pelos Estados Unidos e seus aliados e das retalia\u00e7\u00f5es comerciais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China. A R\u00fassia e a China tamb\u00e9m s\u00e3o membros fundadores dos BRICS e, nesse contexto, reafirmam constantemente o seu compromisso com os princ\u00edpios fundamentais do direito internacional e com o papel central das Na\u00e7\u00f5es Unidas, acrescentando que os pa\u00edses do bloco rejeitam \u201ca pol\u00edtica de press\u00f5es coercitivas e de cerceamento da soberania de terceiros Estados\u201d.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 pertinente perguntar o que significar\u00e1 para a Humanidade como um todo a emerg\u00eancia da \u00c1sia e, particularmente, a alian\u00e7a estrat\u00e9gica R\u00fassia-China, pot\u00eancias de primeira grandeza. Ser\u00e1 a repeti\u00e7\u00e3o de um ciclo de domina\u00e7\u00e3o com novos amos? Pessoalmente, me somo aos estudiosos que se apoiam na hist\u00f3ria e na atua\u00e7\u00e3o no presente para afirmar que nem a China nem a R\u00fassia t\u00eam atua\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0s pot\u00eancias ocidentais na rela\u00e7\u00e3o com o resto do mundo, nem manifestam voca\u00e7\u00e3o de conquista colonial ou explora\u00e7\u00e3o neocolonial. (N\u00e3o \u00e9 diretamente o tema que estamos tratando, mas j\u00e1 deixo claro que n\u00e3o interpreto a guerra na Ucr\u00e2nia como uma express\u00e3o da ambi\u00e7\u00e3o de conquista territorial por parte da R\u00fassia, mas como fruto de um contexto originado por diversas vari\u00e1veis, entre elas a expans\u00e3o da OTAN).<\/p>\n<p>Praticamente at\u00e9 o fim do s\u00e9culo 18, a China foi uma das na\u00e7\u00f5es mais poderosas do mundo. Mas n\u00e3o h\u00e1 registros de coloniza\u00e7\u00e3o ou agress\u00e3o contra outros pa\u00edses. A diplomacia da China hoje \u00e9 fruto do legado cultural milenar de uma na\u00e7\u00e3o que sofreu a explora\u00e7\u00e3o do Ocidente e se reergueu apelando \u00e0 sua hist\u00f3ria e suas tradi\u00e7\u00f5es. Em particular, a proposta do presidente Xi Jinping de uma \u201cComunidade Global de Futuro Compartilhado\u201d, conceito central da diplomacia chinesa, deixa claro o quanto a proposta \u00e9 alicer\u00e7ada no anseio de reformular a governan\u00e7a global atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o m\u00fatua, do respeito \u00e0 soberania e do desenvolvimento sustent\u00e1vel, promovendo um mundo multipolar como alternativa ao confronto de blocos e ao protecionismo. Todas as manifesta\u00e7\u00f5es e documentos oficiais chineses trabalham com a ideia da coopera\u00e7\u00e3o para a procura de um futuro de justi\u00e7a para todos. E a mesma proposta est\u00e1 presente nos documentos assinados de forma conjunta com a R\u00fassia.<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo sustenta\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria, nos fatos do presente nem nos documentos emitidos pelos respectivos governos, elementos que justifiquem o temor de uma repeti\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de Ocidente, de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, com vari\u00e1vel oriental. Pelo contr\u00e1rio, a an\u00e1lise indica uma consci\u00eancia de que os limites do nosso planeta exigem pensar num futuro comum para toda a Humanidade. E admitir que a resposta aos desafios atuais n\u00e3o vir\u00e1 do confronto, mas da coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Um dos seus projetos investiga como as teorias de pensadores do Sul Global contribuem para criar \u201cgram\u00e1ticas de transforma\u00e7\u00e3o social\u201d. Como essas ferramentas decoloniais podem ser traduzidas em estrat\u00e9gias diplom\u00e1ticas concretas para que pa\u00edses latino-americanos e africanos superem a condi\u00e7\u00e3o de subalternidade acad\u00eamica e pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, necessito registrar que me resulta dif\u00edcil concordar com a afirma\u00e7\u00e3o de que os pa\u00edses latino-americanos e africanos apresentam a condi\u00e7\u00e3o de subalternidade acad\u00eamica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Lembremos que o termo foi utilizado inicialmente por Ant\u00f4nio Gramsci, na obra \u201cCartas do C\u00e1rcere\u201d (1947). Como fil\u00f3sofo marxista, Gramsci utilizou o termo subalterno para se referir a uma categoria cuja voz n\u00e3o era ouvida e n\u00e3o participava do poder. No contexto de sua obra, entende-se como uma refer\u00eancia ao proletariado. A utiliza\u00e7\u00e3o posterior do termo, principalmente por estudiosos indianos, entre os quais particularmente Gayatri Spivak, com o seu livro \u201cPode o subalterno falar?\u201d, ampliou o conceito e, em certa medida, o popularizou. Mas tamb\u00e9m colocou maior peso na condi\u00e7\u00e3o de inferioridade, subordina\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia do subalterno em rela\u00e7\u00e3o a um grupo dominante.<\/p>\n<p>Da\u00ed a necessidade de questionar se a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos pa\u00edses latino-americanos e africanos podem ser qualificadas de subalternas. Penso que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Tanto no terreno das ci\u00eancias humanas quanto das ci\u00eancias puras ou fundamentais e das ci\u00eancias aplicadas, a Am\u00e9rica Latina e a \u00c1frica t\u00eam in\u00fameras e valiosas contribui\u00e7\u00f5es. As nossas universidades, assim como muitas das universidades africanas, est\u00e3o muito bem avaliadas no ranking global. Ali\u00e1s, eu fa\u00e7o quest\u00e3o, com os meus alunos, de registrar que houve universidades no continente africano antes de terem sido fundadas universidades no continente europeu.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o dessa suposta subalternidade origina-se, em boa medida, na pol\u00edtica dos centros de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento do Norte que criam muitas dificuldades para acolher e valorizar as contribui\u00e7\u00f5es vindas das nossas regi\u00f5es. Tamb\u00e9m contribui para essa dificuldade certa atitude de c\u00edrculos acad\u00eamicos mais tradicionais dos nossos pa\u00edses, abertos a acolher como v\u00e1lido o que \u00e9 oriundo do Norte e menos prop\u00edcios a reconhecer o valor e a import\u00e2ncia da produ\u00e7\u00e3o dos nossos pesquisadores, acad\u00eamicos e estudiosos. Afortunadamente, isso est\u00e1 mudando e mudando rapidamente.<\/p>\n<p>Mas, indo ao cerne da sua quest\u00e3o, as ferramentas decoloniais n\u00e3o est\u00e3o pensadas para ter impacto direto na diplomacia ou em outras \u00e1reas da pol\u00edtica. Mas, citando aquele ditado que diz \u201cos livros n\u00e3o mudam a sociedade, mas mudam a cabe\u00e7a dos que podem mudar a sociedade\u201d, eu diria que essa ideia se adapta perfeitamente ao impacto das obras dos pensadores do Sul Global conhecidas como teorias decoloniais. Uma frase que nos ajuda a entender o que essas obras representam \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o do soci\u00f3logo peruano Anibal Quijano que diz \u201ccontinuamos a ser o que n\u00e3o somos\u201d \u2026 Ou dito de outra forma: continuamos a nos ver atrav\u00e9s das lentes de quem nos definiu de fora. E quem falou por n\u00f3s? Quem nos tirou a voz? O poder colonial e o sistema de domina\u00e7\u00e3o neocolonial, que se perpetuou depois das nossas independ\u00eancias, n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s da espolia\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas utilizando um mecanismo mais perverso: a imposi\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es de mundo e de valores nos quais somos apresentados sempre como inferiores. Hoje, a m\u00eddia multiplica esse poder de submeter os nossos cora\u00e7\u00f5es e mentes.<\/p>\n<p>As teorias decoloniais dissecam esses mecanismos de perpetua\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o; nos fazem questionar aquilo que t\u00ednhamos como a \u00fanica forma de nos ver, de interpretar a nossa hist\u00f3ria. E, ao faz\u00ea-lo, criam as condi\u00e7\u00f5es para que cada um de n\u00f3s, com senso cr\u00edtico, conhecimento hist\u00f3rico e pensamento articulado, questione o presente para construir um novo futuro.<\/p>\n<p><strong>Com base nas pesquisas desenvolvidas no \u00e2mbito do N\u00facleo Interdisciplinar de Estudos sobre \u00c1frica, \u00c1sia e as Rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul (NIEAAS), que voc\u00ea coordena, onde \u00e9 estudada a atua\u00e7\u00e3o da m\u00eddia hegem\u00f4nica, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que a persist\u00eancia de narrativas baseadas no \u201cchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d ainda atua como uma barreira invis\u00edvel para uma integra\u00e7\u00e3o Sul-Sul mais profunda no s\u00e9culo XXI?<\/strong><\/p>\n<p>O \u201cchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d foi uma teoria proposta pelo cientista pol\u00edtico Samuel P. Huntington, segundo a qual as identidades culturais e religiosas dos povos seriam a principal fonte de conflito no mundo p\u00f3s-Guerra Fria. Essa formula\u00e7\u00e3o serviu perfeitamente a um projeto dos Estados Unidos e dos seus aliados que foi por eles chamado de \u201cguerra ao terror\u201d. Essa guerra tinha como inimigo preferencial o mundo mu\u00e7ulmano, ou melhor, o Isl\u00e3, assim, sem defini\u00e7\u00f5es nem delimita\u00e7\u00f5es claras. Ou seja, omitia-se dizer, dentro do conglomerado humano dos seguidores da religi\u00e3o mu\u00e7ulmana, que atualmente superam os 2 bilh\u00f5es de pessoas, ou 25% da popula\u00e7\u00e3o global, quem era efetivamente o inimigo a ser perseguido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ser uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que serviu a uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica cujas tr\u00e1gicas consequ\u00eancias foram milh\u00f5es de mortos e a destrui\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pa\u00edses (Afeganist\u00e3o, Iraque, L\u00edbia), o \u201cchoque de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d se fundamentava nas diferen\u00e7as culturais como principais fontes de conflitos. Mas, ao colocar a religi\u00e3o mu\u00e7ulmana como esse \u201coutro\u201d t\u00e3o diferente culturalmente que s\u00f3 o conflito poderia se esperar na rela\u00e7\u00e3o com o Ocidente, a teoria partia de um equ\u00edvoco: a suposta \u201calteridade absoluta\u201d entre o pensamento mu\u00e7ulmano e o pensamento crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Para mostrar o quanto essa suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 equivocada e ignora a hist\u00f3ria, \u00e9 importante lembrar que Arist\u00f3teles foi estudado, traduzido e comentado em Bagd\u00e1 (e no mundo isl\u00e2mico em geral) s\u00e9culos antes de suas obras serem reintroduzidas e estudadas na Europa Ocidental crist\u00e3. Durante a \u201cIdade de Ouro\u201d do Isl\u00e3, especialmente na Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma) fundada no s\u00e9culo IX pelos califas em Bagd\u00e1, eruditos \u00e1rabes traduziram a maioria das obras de Arist\u00f3teles do grego para o \u00e1rabe. Arist\u00f3teles era conhecido no mundo mu\u00e7ulmano como \u201cO Fil\u00f3sofo\u201d ou \u201cO Primeiro Mestre\u201d e teve profunda influ\u00eancia em pensadores como Al-Kindi, Al-Farabi, Ibn Sina (Avicena), Ibn Rushd (Averr\u00f3is) muito antes de a Cristandade redescobrir a sua obra. Na Alta Idade M\u00e9dia (ap\u00f3s a queda do Imp\u00e9rio Romano), na parte ocidental do continente europeu, se perdeu o conhecimento do grego e somente algumas obras de Arist\u00f3teles foram preservadas. A maior parte do corpus aristot\u00e9lico s\u00f3 chegou \u00e0 Europa nos s\u00e9culos XII e XIII, principalmente atrav\u00e9s de tradu\u00e7\u00f5es do \u00e1rabe para o latim realizadas em Al Andalus, a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica mu\u00e7ulmana. Foi esse processo que permitiu a obra de Arist\u00f3teles impactar a filosofia escol\u00e1stica europeia, particularmente pensadores como S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino.<\/p>\n<p>Ou seja, h\u00e1 na base do pensamento mu\u00e7ulmano e do pensamento crist\u00e3o influ\u00eancias gregas comuns, de Arist\u00f3teles em particular. Isso sem entrar no terreno religioso, estritamente, que n\u00e3o \u00e9 o meu campo de estudo, mas a respeito do qual posso comentar a importante devo\u00e7\u00e3o dos mu\u00e7ulmanos \u00e0 Virgem Maria, m\u00e3e de Jesus. Se a supera\u00e7\u00e3o dos estere\u00f3tipos e das deturpa\u00e7\u00f5es fosse um objetivo real da m\u00eddia e de outros atores \u2014 as redes sociais, por exemplo \u2014 avan\u00e7ar\u00edamos muito na correta compreens\u00e3o das diferentes tradi\u00e7\u00f5es culturais e religiosas e, em consequ\u00eancia, no respeito m\u00fatuo. Lamentavelmente, salvo exce\u00e7\u00f5es, nos defrontamos hoje com a atitude oposta, de exalta\u00e7\u00e3o das supostas diferen\u00e7as, porta de entrada para a discrimina\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas vejo com otimismo nas novas gera\u00e7\u00f5es uma atitude aberta ao conhecimento de outras culturas e tradi\u00e7\u00f5es. As universidades t\u00eam um importante papel a desempenhar nesse terreno, atrav\u00e9s do incentivo aos interc\u00e2mbios acad\u00eamicos e \u00e0 recep\u00e7\u00e3o de professores visitantes de diferentes experi\u00eancias e forma\u00e7\u00f5es. A amplia\u00e7\u00e3o desse interc\u00e2mbio \u00e9 fundamental, em particular com os pa\u00edses latino-americanos e africanos, com os quais o Brasil tem tanto em comum.<\/p>\n<hr>\n<p>Para maiores informa\u00e7\u00f5es, este historiador recomenda que todos os interessados e interessadas busquem no Reposit\u00f3rio de \u201cM\u00faltiplos Acervos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)\u201d o acervo completo digitalizado de <em>Cadernos do Terceiro Mundo<\/em>. <\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Fala a rep\u00f3rter das lutas do Sul Global appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/antissemitismo-e-antissionismo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/antissemitismo-e-antissionismo-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Antissemitismo e antissionismo<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pressionada-na-espanha-concorrente-do-ifood-e-uber-eats-contratara-seus-entregadores\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Pressionada na Espanha, concorrente do iFood e Ube...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/plano-do-filho-de-bolsonaro-preve-criacao-do-eduardismo-e-saida-do-pl-com-parte-da-legenda\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Plano do filho de Bolsonaro prev\u00ea cria\u00e7\u00e3o do \u201cedua...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/europa-em-guerra-aposta-insana\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/MilitaresB-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Europa em guerra: aposta insana<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela entrevistou, entre tantos, Fidel, Brizola e Arafat \u2013 e conta os bastidores. 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E aponta: hegemonia do Ocidente pode estar chegando ao fim \u2013 e, com ela, o da supremacia branca<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/fala-a-reporter-das-lutas-do-sul-global\/\">Fala a rep\u00f3rter das lutas do Sul Global<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":75376,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[36559,4453,36560,5599,1160,36561,3273,30252,1482],"tags":[],"class_list":["post-75375","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-beatriz-bissio","category-brizola","category-cadernos-do-terceiro-mundo","category-descolonizacoes","category-fidel-castro","category-hegemonia-do-ocidente","category-luta-palestina","category-movimento-dos-nao-alinhados","category-sul-global"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75375"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75375\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}