{"id":75588,"date":"2026-02-24T18:04:18","date_gmt":"2026-02-24T21:04:18","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasilnomia-um-outro-projeto-de-desenvolvimento\/"},"modified":"2026-02-24T18:04:18","modified_gmt":"2026-02-24T21:04:18","slug":"brasilnomia-um-outro-projeto-de-desenvolvimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasilnomia-um-outro-projeto-de-desenvolvimento\/","title":{"rendered":"Brasilnomia \u2013 um outro projeto de desenvolvimento"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"748\" height=\"529\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/photo_4967795350970239904_x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/photo_4967795350970239904_x.jpg 748w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/24180220\/photo_4967795350970239904_x-300x212.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 748px) 100vw, 748px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>MAIS:<br \/>Texto em tr\u00eas partes. Em breve, ser\u00e1 publicada a continua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Presidente Lula entende que o avan\u00e7o global da extrema direita se explica por d\u00e9ficits do lado da democracia e da esquerda, aparentemente pensando, como sempre, em mais pol\u00edticas compensat\u00f3rias, como significando distribui\u00e7\u00e3o de renda e mesmo, \u201ckeynesianamente\u201d, crescimento. Jos\u00e9 Dirceu proclama que \u00e9 hora de passar de um reformismo fraco a um reformismo forte, sem dar ideia do que \u00e9 isso, para al\u00e9m de mais capital estrangeiro (que, afinal, \u201cpara onde mais iria?\u201d). E Andr\u00e9 Singer admite que nossa esquerda tem dificuldades ideol\u00f3gicas para encampar aspira\u00e7\u00f5es populares fora do seu script. Isso enquanto vemos, pela en\u00e9sima vez, que passar de Campos Neto a Gal\u00edpolo, quanto \u00e0 altura dos juros, pode ser quase o mesmo que o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-2-9.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-2-9.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181013\/1.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-2-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto, apenas uma contribui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, quer ser pre\u00e2mbulo, para uma audi\u00eancia de esquerda, a uma sugest\u00e3o de\u00a0desenvolvimento para o Pa\u00eds. Tem gente que n\u00e3o precisa de tanto para se abrir, sem muita especula\u00e7\u00e3o, \u00e0 sugest\u00e3o de uma virada nacional includente, dentro da atual virada do mundo. Esta outra, global, uma virada que tem a ver com o surgimento de um pa\u00eds, a China, que amea\u00e7a deslocar os EUA, hoje t\u00e3o supremacista quanto sempre, e com ela o chamando Ocidente Global, de sua posi\u00e7\u00e3o dominante tradicional. O que tem a ver com a insolv\u00eancia americana, que n\u00e3o se resolve mais pela emiss\u00e3o de papel verde e, tamb\u00e9m, com um particular desafio geopol\u00edtico profundo, n\u00e3o tanto com uma conformada triparti\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Trata-se de uma virada planet\u00e1ria, ao mesmo tempo contraditoriamente imperial, nacionalizante e multilateralista, que, embora envolva uma amea\u00e7a existencial ao Brasil, pode tamb\u00e9m lhe abrir espa\u00e7o para transforma\u00e7\u00f5es de sentido nacional, at\u00e9 mesmo finalmente imp\u00f4-las. Isso em meio \u00e0 desarranjada financeiriza\u00e7\u00e3o do capitalismo, a uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica capturada por um novo feudalismo, e a megamecanismos de interven\u00e7\u00e3o imperial h\u00edbrida. \u00c9 nesse contexto que o Brasil pode fazer uma diferen\u00e7a, se se dispuser a enfrentar, de modo novo, seus pr\u00f3prios problemas.<\/p>\n<p>O texto trata de uma ideia de desenvolvimento pr\u00f3prio para o Pa\u00eds, de florescimento para seu povo, e de um tipo de pensamento, pr\u00e1tico e mobilizador, que lhe d\u00ea suporte. Enquanto trata de acenar a um reformismo tamb\u00e9m material, de sentido democr\u00e1tico e republicano, de baixo para cima e de cima para baixo. Pois a tarefa do pensamento, mesmo pol\u00eamico, \u00e9 essencialmente propor algo que tenha mais a ver com o mundo e suas demandas. Uma\u00a0 segunda parte, posterior, tomar\u00e1, como contraponto para esclarecer o mesmo assunto, a heresia chinesa, do \u201cgato de Deng\u201d, de enorme sucesso, que entendo interpela o marxismo e a esquerda bem mais do que o pr\u00f3prio colapso da URSS.<\/p>\n<h3><strong>I \u2013 Brasilnomia:\u00a0 Filosofia, Economia Pol\u00edtica, Formas Materiais de Vida<\/strong><\/h3>\n<p>Comecemos por Chinomia, termo j\u00e1 estabelecido, pois \u00e9 por analogia a ele que introduzo a ideia de Brasilnomia, como via de desenvolvimento e florescimento nacionais. <em>Chinomia<\/em> \u00e9 um neologismo para a via da China, que, com enorme trabalho, conduziu o pa\u00eds, em algumas d\u00e9cadas, de uma posi\u00e7\u00e3o de sujei\u00e7\u00e3o e atraso, muito atr\u00e1s do Brasil, \u00e0 de rival dos EUA. O termo combina <em>economia <\/em>com <em>China<\/em>, e sugere uma via pr\u00f3pria, em contraste, em primeiro lugar mas n\u00e3o s\u00f3, com o \u201c<em>Consenso de Washington<\/em>\u201d, da mesma \u00e9poca, anos 80, que foi a via neoliberal, empurrada pela Metr\u00f3pole para cima de pa\u00edses perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>A Chinomia, tamb\u00e9m dita \u201csocialismo de fei\u00e7\u00f5es chinesas\u201d ou \u201cde mercado\u201d, o que \u00e9 dizer muito pouco, aparece como uma via pragm\u00e1tica e experimentalista, a um s\u00f3 tempo planejada e descentralizada. Via que alguns marxistas diriam, desaprovadoramente,\u00a0 <em>multiclassista<\/em>, que come\u00e7ou por incluir um \u201cfundir-se\u201d com os EUA, num arranjo apelidado de <em>Chim\u00e9rica<\/em> (outro neologismo, outra heresia), sem o qual essa China n\u00e3o teria sido. Uma via que contrasta ainda com outra ortodoxia, a \u201csovi\u00e9tica\u201d, a que se manteve presa a URSS, ao final exaurida e colapsada. Por um estrondoso colapso que, entretanto, acho, desafia o marxismo e o socialismo menos do que o retumbante sucesso da China.<\/p>\n<p>Mais do que uma pol\u00edtica econ\u00f4mica diferente, Chinomia \u00e9 algo grande e estruturante; para come\u00e7ar, \u00e9 uma economia pol\u00edtica inteira, como uma constru\u00e7\u00e3o material e institucional pr\u00f3pria. \u00c9 economia pol\u00edtica como um saber mais amplo, referido a uma realidade nacional particular: econ\u00f4mica e pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m hist\u00f3rica e cultural. Na Alemanha, o termo para economia pol\u00edtica costumava significar, literalmente, economia nacional, compreendendo a vida material da sociedade, enquanto associada a estado e na\u00e7\u00e3o e inserida no conjunto de uma <em>forma de vida<\/em>. O termo alem\u00e3o atual, <em>Volkswirtschaftslehre<\/em>, \u201cdoutrina da economia do povo\u201d, n\u00e3o lhe fica atr\u00e1s, os dois carregando uma clara resson\u00e2ncia \u201cchinesa\u201d.<\/p>\n<p>Por a\u00ed, a economia pol\u00edtica \u00e9 um conhecimento que integra mais ci\u00eancias, tamb\u00e9m a <em>filosofia<\/em>, orientado para a constru\u00e7\u00e3o material do pa\u00eds. Inclui destacadamente a filosofia que, no pensamento de Marx, abarca as ci\u00eancias sociais todas, <em>\u00e0 la<\/em> Hegel convertido em materialismo hist\u00f3rico ou\u00a0 filosofia da pr\u00e1xis como poi\u00e9sis (produ\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o). Por uma virada filos\u00f3fica bem melhor do que a linguoc\u00eantrica, p\u00f3s-moderna, imaterialista, que, no Brasil, domina hoje o campo das ci\u00eancias humanas e, da\u00ed, o pensamento da esquerda universit\u00e1ria, em geral identitarista segment\u00e1ria, anti-estatista, em \u00faltima an\u00e1lise neoliberal.[1]<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/banner-outras-palavras_-02257-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/banner-outras-palavras_-02257-3.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/02\/31190927\/banner-outras-palavras_-02257-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Essa economia pol\u00edtica pr\u00f3pria e ampliada, ou \u201cx-nomia\u201d (x significando determinado pa\u00eds), pode ser constru\u00edda como um saber compreensivo que, pelo escopo, evoca justamente Marx, fil\u00f3sofo e economista, junto com historiador, soci\u00f3logo, pol\u00edtico etc. Enquanto evoca tamb\u00e9m mais te\u00f3ricos cl\u00e1ssicos da economia, de perfil semelhante, como Adam Smith, Keynes, Kalecki, Schumpeter e Polanyi, que, a prop\u00f3sito, t\u00eam encontrado lugar na experi\u00eancia chinesa. Ainda que esses sejam menos fil\u00f3sofos do que Marx e n\u00e3o tenham sua ambi\u00e7\u00e3o de oferecer uma <em>compreens\u00e3o \u00faltima das coisas<\/em>, com Ideal e tudo. Trata-se de uma economia pol\u00edtica que evoca o materialismo hist\u00f3rico de Marx como uma teoria-m\u00e9todo capaz de promover uma extensa pr\u00e1tica, pol\u00edtica e mais, como um saber <em>prospectivo<\/em>, politicamente <em>mobilizador<\/em> e materialmente <em>transformador<\/em>. Embora, no fim das contas, Marx n\u00e3o represente propriamente uma economia pol\u00edtica mas sua cr\u00edtica dial\u00e9tica, o que, na hora de construir um pa\u00eds, pode fazer muita diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que esse materialismo social e hist\u00f3rico, como m\u00e9todo e principalmente como compreens\u00e3o pr\u00e1tica da din\u00e2mica social, \u00e9 bem mais do que apenas economia pol\u00edtica. Como um paradigma abrangente inteiro, compreende uma <em>ontologia do social<\/em>, junto com uma orienta\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade pela altera\u00e7\u00e3o de suas rela\u00e7\u00f5es materiais e institucionais estruturantes, internas e dela com o mundo. Como x-nomia, pode tomar por objeto uma forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social-cultural, na sua singularidade, como uma forma de vida produtiva, mas tamb\u00e9m, de outro lado, confrontar o conjunto do mundo humano, como uma Civiliza\u00e7\u00e3o inteira.<\/p>\n<p>Mesmo a no\u00e7\u00e3o de modo de produ\u00e7\u00e3o, que no <em>O Capital<\/em> se refere antes a um modelo abstrato da economia capitalista cl\u00e1ssica, \u00e9 sin\u00f4nimo de\u00a0 modo de reprodu\u00e7\u00e3o de uma sociedade, \u00e9 \u201cmodo de vida\u201d. Na verdade, devendo compreender institui\u00e7\u00f5es e mais, que isso tamb\u00e9m \u00e9 material, at\u00e9 artefatual, junto com (re)produtivo. \u00c9 tal no\u00e7\u00e3o que vai se estender na de \u201cforma\u00e7\u00e3o social\u201d ou \u201cforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social\u201d, \u201chistoricamente determinada\u201d, n\u00e3o por acaso invocada pelo autor do<em> Que Fazer<\/em> para realidades mais concretas, comp\u00f3sitas, justamente do ponto de vista de sua efetiva transforma\u00e7\u00e3o. E isso junto com a no\u00e7\u00e3o, transnacional, de \u201cImperialismo\u201d, que carrega atributos semelhantes de concretude e particularidade, em compara\u00e7\u00e3o com simplesmente Capitalismo em geral, como uma ess\u00eancia.<\/p>\n<p>A mim interessa que tal economia pol\u00edtica, x-nomia ou materialismo pr\u00e1tico-hist\u00f3rico melhorado, implique em tanto ou mais do que isso. Afinal, estamos falando de desenvolvimento nacional, coisa que n\u00e3o pode ser deixada apenas a economistas. Coisa que queremos compreenda uma ontologia <em>ad hoc<\/em>, desessencializada e dessubstancializada por uma no\u00e7\u00e3o, materialista, de intencionalidade sens\u00edvel. Algo para al\u00e9m de dualismos esquem\u00e1ticos como infraestrutura-superestrutura, e da esquem\u00e1tica dial\u00e9tica \u201c(grandes) for\u00e7as produtivas x (poucas) rela\u00e7\u00f5es sociais (essencializadas) de produ\u00e7\u00e3o\u201d, em geral circunscrita a algumas poucas forma\u00e7\u00f5es sociais paradigm\u00e1ticas. Interessa uma dial\u00e9tica ampliada, de rela\u00e7\u00f5es e meios, que em Marx envolve apenas as poucas rela\u00e7\u00f5es e tipos de objetos\/artefatos (bens de produ\u00e7\u00e3o x de consumo) de seu tempo.<\/p>\n<p>Obviamente tamb\u00e9m me\u00a0 interessa que tal x-nomia v\u00e1 al\u00e9m do <em>atomismo liberal<\/em>, anist\u00f3rico, de v\u00e1rios modos ainda mais abstrato. Me interessa que v\u00e1 al\u00e9m de uma ontologia\/antropologia individualista abstrata, segmentada, com desastrosos efeitos para uma verdadeira forma de vida. Me refiro \u00e0quele atomismo a que Marx se op\u00f5e radicalmente, em todos os n\u00edveis, no seu caso por contraste t\u00e1cito \u00e0 ideia de um comunalismo integral, o comunismo, que preside os ajuizamentos cr\u00edticos pr\u00f3prios da mais cl\u00e1ssica posi\u00e7\u00e3o de esquerda \u2013 a sua.[2]<\/p>\n<p>De nosso lado, vale ainda registrar que a raiz eco-, de economia, que aparece tamb\u00e9m em palavras como ecologia e ecossistema, vem de grego <em>oikos<\/em>, que quer dizer \u201ccasa\u201d, habitat, como arranjo humano b\u00e1sico, privado, que, na Gr\u00e9cia antiga, inclu\u00eda escravos, bens, terra, artefatos. Dando em <em>oikos<\/em>\u2013<em>nomia<\/em>, onde nomia significa <em>lei<\/em> ou <em>regime<\/em>. Enquanto o adjetivo pol\u00edtica, j\u00e1 se sabe, vem de <em>Polis<\/em> e aponta para o p\u00fablico, a partir do termo grego para Cidade-Estado. Da\u00ed economia pol\u00edtica como <em>Polis-nomia<\/em>, \u201cnomia da Cidade\u201d como comunidade organizada em certo arranjo institucional, insepar\u00e1vel de suas condi\u00e7\u00f5es materiais, t\u00e9cnicas, simb\u00f3licas etc. de reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que, finalmente, aponta para o que vou desenvolver depois como Brasilnomia, compreendendo elementos como cidadania material e republicanismo real. A partir de um novo materialismo como ponto de vista filos\u00f3fico, que sugere um holismo social (de <em>holos<\/em>, todo): interacionista, artefatual, tridimensional.[3] Sem deixar de incluir conflito e contradi\u00e7\u00e3o, e sem envolver qualquer misticismo comunalista, como um comunista \u201cfim da pr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d do \u201chomem\u201d, o \u201cC\u00e9u tomado de assalto\u201d, essas coisas escatol\u00f3gicas.<\/p>\n<h3><strong>II \u2013 Nacionalismo sem Etapismo <em>vs<\/em> Anti-Capitalismo sem Reformismo<\/strong><\/h3>\n<p>Vamos ao Brasil, que tem um rico percurso de <em>constru\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds<\/em> e do saber que lhe corresponde (n\u00e3o s\u00f3 de esquerda, claro), de onde se trata de partir. Percurso de uma realidade constitu\u00edda por sucessivos passos transformadores: materiais, sociais, pol\u00edticos, culturais. Com resultados obviamente parciais e contradit\u00f3rios, consolidados e amea\u00e7ados, pois assim \u00e9 o mundo. Resultados como identidade, unidade, territ\u00f3rio, independ\u00eancia, aboli\u00e7\u00e3o, rep\u00fablica, democracia, industrializa\u00e7\u00e3o, integra\u00e7\u00e3o social. Tamb\u00e9m infinitos pequenos passos, de todo tipo, n\u00e3o t\u00e3o vis\u00edveis ou lembrados, mas relevantes, alguns at\u00e9, de hoje, em que a\/o leitor\/a pode estar envolvido. A esse respeito, do lado positivo, podemos lembrar, simb\u00f3lica e emblematicamente, de figuras como Ararib\u00f3ia, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, Zumbi, Manuel Querino, N\u00edsia Floresta, Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, Rio Branco, entre tantos.<\/p>\n<p>Todos os pa\u00edses, em especial os que fizeram revolu\u00e7\u00f5es, China ou Cuba p. ex., tratam de celebrar seus vultos hist\u00f3ricos realizadores desse tipo. Entre n\u00f3s, em termos de movimentos de pensamento, \u00e0 esquerda, devemos lembrar,\u00a0 menos remotamente, \u00e0 esquerda, a experi\u00eancia, dos anos 1950 e 1960, de uma verdadeira escola de pensamento nacional. Um movimento plural, n\u00e3o doutrin\u00e1rio, inteiramente voltado para a quest\u00e3o do desenvolvimento nacional, n\u00e3o por acaso imediata e literalmente destru\u00eddo pelo Golpe de 64. Falo do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, no qual a influ\u00eancia de Marx, como de Hegel, teve lugar destacado mas n\u00e3o excludente. Uma realiza\u00e7\u00e3o que alguns fundem e confundem com modos de pensamento e a\u00e7\u00e3o mais restritos, como o da CEPAL, Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e Caribe, e, do lado marxista, o do PCB, o hist\u00f3rico Partido Comunista do Brasil, \u201cpr\u00f3-sovi\u00e9tico\u201d, do tempo em que a China ainda representava pouca coisa.<\/p>\n<p>Trata-se, o ISEB, de uma relevante teoriza\u00e7\u00e3o de Brasil, de sentido pr\u00e1tico e mobilizador, que teve ao centro, junto com as no\u00e7\u00f5es de desenvolvimento e subdesenvolvimento, uma no\u00e7\u00e3o anticolonial de <em>aliena\u00e7\u00e3o<\/em>. Como conceito de alcance hist\u00f3rico, pol\u00edtico, cultural, tamb\u00e9m filos\u00f3fico, entretanto desprovido de compromissos essencialistas e\u00a0 substancialistas. De uma teoriza\u00e7\u00e3o sem determinismo ou teleologia, voltada a um reformismo radical, nacional, democr\u00e1tico. Em associa\u00e7\u00e3o com o forte movimento reformista do Pa\u00eds e de governos nacionais do per\u00edodo, o ISEB elaborou exaustivamente sobre o <em>subdesenvolvimento<\/em> justamente como um fen\u00f4meno abrangente, da perspectiva de sua supera\u00e7\u00e3o. Tratando de tomar o assunto de modo brasileiro, multi-referenciado, transdisciplinar, atrav\u00e9s de uma constela\u00e7\u00e3o de distintos perfis. De gente como In\u00e1cio Rangel, H\u00e9lio Jaguaribe, Guerreiro Ramos, Vieira Pinto, Roland Corbisier, por extens\u00e3o Celso Furtado, Darcy Ribeiro, An\u00edsio Teixeira.<\/p>\n<p>O ISEB foi uma\u00a0 realiza\u00e7\u00e3o marcada, \u00e9 verdade, por certa vers\u00e3o datada, limitada, de <em>nacional-desenvolvimentismo<\/em>, embora tamb\u00e9m por uma disposi\u00e7\u00e3o filosofante mais aberta e atualizada, para al\u00e9m de Marx. Com influ\u00eancias adicionais de Sartre e de sua fenomenologia, que introduz a\u00ed ag\u00eancia e projeto, e de outros, como Karl Mannheim e mais influ\u00eancias historicistas e hermen\u00eauticas, contextualistas e pragmatistas. Todas elas tomadas de modo apropriador, n\u00e3o-academicista, ainda que com limita\u00e7\u00f5es de aprofundamento. Nos nossos dias, Roberto Mangabeira, fil\u00f3sofo e te\u00f3rico social de amplo horizonte, pode ser considerado um not\u00e1vel desenvolvimento dessa heran\u00e7a, junto com contribui\u00e7\u00f5es mais circunscritas de alguns de nossos economistas pol\u00edticos mais competentemente heterodoxos, como Lu\u00eds Carlos Bresser-Pereira.[4]<\/p>\n<p>Depois do Golpe de 64, o contraponto, tamb\u00e9m \u00e0 esquerda, sucessor, negador, do ISEB, veio a ser o marxismo acad\u00eamico da USP. Pode-se dizer que tendo como precursor Caio Prado Jr., marxista hist\u00f3rico, filosoficamente prim\u00e1rio mas com relevantes estudos da forma\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds. E, como sofisticados expoentes acad\u00eamicos: Giannotti, Ruy Fausto, Chau\u00ed, Florestan, FHC, Chico de Oliveira, Ianni, Weffort e mais. Enquanto a contribui\u00e7\u00e3o do ISEB passava a ser ignorada pela universidade brasileira, escanteada por esse novo marxismo, sua sociologia, sua teoria da depend\u00eancia associada etc.Uma contribui\u00e7\u00e3o escanteada tamb\u00e9m pela nova esquerda pol\u00edtico-partid\u00e1ria, em parte da\u00ed resultante, o Partido dos Trabalhadores, constitu\u00eddo durante a transi\u00e7\u00e3o golberyana para a nova democracia, a da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>Em termos de concep\u00e7\u00e3o de fundo, essa nova brasilnomia estava marcada por uma perspectiva dita classista, sustentando um <em>diagn\u00f3stico<\/em> \u201canti-etapista\u201d para o Pa\u00eds. Tomado agora como plenamente capitalista, donde destinado a uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, sem etapa nacional-democr\u00e1tica. Neste n\u00edvel pol\u00edtico, o novo movimento esteve sob a influ\u00eancia de correntes marxistas organizadas, tanto trotskistas quanto provindas da radicaliza\u00e7\u00e3o do catolicismo do Conc\u00edlio Vaticano II, de sua \u201cop\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres\u201d. Correntes que, pode-se dizer, tomaram a\u00ed lugar an\u00e1logo ao do PCB, no movimento anterior. Isso enquanto, no mundo real, se desenvolviam, correlatamente, um novo operariado, fruto do milagre industrializante da Ditadura, e\u00a0 um novo sindicalismo. Junto com, Brasil afora, as \u201ccomunidades eclesiais de base\u201d, cat\u00f3licas, inspiradas pela teologia da liberta\u00e7\u00e3o, largamente presentes na base de constitui\u00e7\u00e3o do PT. Elementos que hoje, por sua vez, vale registrar, tamb\u00e9m passaram.<\/p>\n<p>Retrospectivamente pode-se entender que, embora opostos, aqueles dois n\u00facleos marxistas, esquerda hist\u00f3rica e esquerda p\u00f3s-64, na verdade exibiam o mesmo etapismo, odo materialismo hist\u00f3rico de Marx, implicando basicamente o mesmo <em>determinismo<\/em> e a mesma <em>teleologia<\/em>. Quer dizer, sustentando, para a pol\u00edtica, o mesmo compromisso com uma <em>determina\u00e7\u00e3o estrutural<\/em>, sem muito lugar para inven\u00e7\u00e3o, experimentalismo, pragmatismo. Para o marxismo anterior, uma etapa, por vir, ainda n\u00e3o propriamente anticapitalista; para a nova esquerda, o socialismo, estruturalmente pr\u00f3ximo, na ordem do dia. Para o movimento anterior, um Brasil dualista, para o novo movimento um Brasil n\u00e3o-dualista, mesmo que com cara de \u201cornitorrinco\u201d. Tal era o debate, de uma brasilnomia r\u00edgida, simplista, de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda marxista da \u00e9poca, sobre o \u201ccar\u00e1ter da sociedade brasileira\u201d, como diagn\u00f3stico maior, politicamente determinante.<\/p>\n<p>Como se todo mundo, e, sobretudo, o pr\u00f3prio mundo, tivessem que rezar pela mesma cartilha, numa vers\u00e3o ou na outra: a do velho PCB reformista (\u201cquietista\u201d), ou a da nova esquerda anticapitalista (\u201crevolucion\u00e1ria\u201d). Ficando um Celso Furtado, p. ex., como algu\u00e9m que simplesmente n\u00e3o leu Marx, ou se leu n\u00e3o entendeu. Enquanto esta nova esquerda dava o DNA da esquerda brasileira hoje dominante, quer dizer, o DNA de uma esquerda sem muito nacionalismo, anti-imperialismo ou verdeamarelismo populares. Sem muita quest\u00e3o nacional. Na verdade, de origem, uma esquerda bastante avessa \u00e0 no\u00e7\u00e3o de\u00a0 povo, a hist\u00f3rias de burguesia nacional, ao alegado <em>populismo<\/em> anterior. Mas, no fim das contas, chegada \u00e0 pr\u00e1tica, politicamente, at\u00e9 mais dualista.<\/p>\n<p>No meio disso, o referido marxismo, da USP, com <em>O Capital<\/em> mas sem muita economia pol\u00edtica, contribuiu para criar espa\u00e7o para uma abordagem mais sofisticada e aut\u00f4noma do pensamento de Marx, e para o\u00a0 desenvolvimento de uma nova ci\u00eancia social universit\u00e1ria brasileira. Politicamente, entretanto, a nova doutrina fomentaria, na pr\u00e1tica, como pol\u00edtica institucional dita de esquerda, um \u201canticapitalismo\u201d pouco efetivo, na verdade com\u00a0 menos, n\u00e3o mais, reformismo digno do nome. Que, ao fim e ao cabo daria principalmente em <em>assistencialismo compensat\u00f3rio<\/em>, de Estado, para os \u201cexclu\u00eddos\u201d. Um assistencialismo mal-nomeado de social-democracia, que o neoliberalismo cl\u00e1ssico, <em>mutatis mutandis<\/em>, tamb\u00e9m sustenta (v.g. Milton Friedman). Isso com adicionais penduricalhos, sempre \u201canticapitalistas\u201d, de identitarismo <em>woke<\/em>, segment\u00e1rio, na sua forma importada, no fim, de horizonte\u00a0 neoliberal. Penduricalhos que, por\u00e9m, vieram a adquirir um peso pol\u00edtico consider\u00e1vel nessa brasilnomia materialmente depauperada.<\/p>\n<p>Por a\u00ed a esquerda dominante, de hoje, enquanto se associa sem muitos problemas a partidos de direita, paga desnecess\u00e1ria e injustamente, esterilmente, mico de radical, at\u00e9 de vermelho-comunista, tascando ideologicamente a classe m\u00e9dia, o pobre de direita, os evang\u00e9licos, os costumes em geral. Enquanto flerta com aquela referida apar\u00eancia anticapitalista, para efeitos de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de question\u00e1vel conveni\u00eancia eleitoral e pouco resultado program\u00e1tico. O que amea\u00e7a virar, a\u00ed sim, um lament\u00e1vel populismo, com o suposto classismo basicamente tornado \u201cpobrismo\u201d, humanit\u00e1rio e tutelar. Ideologicamente combinado com tra\u00e7os do socialismo moral que Marx desancou em partes a <em>Ideologia Alem\u00e3<\/em> e do <em>Manifesto<\/em>, como idealista, in\u00f3cuo, at\u00e9 reacion\u00e1rio: o auto-nomeado \u201csocialismo verdadeiro\u201d de ent\u00e3o. O que aparentemente nos p\u00f5e um grande desafio, como tacitamente admitem os ju\u00edzos que citei na abertura do texto. Para mim, como uma quest\u00e3o de paradigma, um desafio que a essa altura, e particularmente na atual conjuntura global, n\u00e3o d\u00e1 para responder apenas com mais do mesmo. A isso voltaremos, tomando a via da China \u2013 her\u00e9tica e heterodoxa \u2013 por contraponto desafiador.<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>[1] Cf. Cris\u00f3stomo. <em>Para Al\u00e9m de Marx, Foucault, Frankfurt<\/em>. R. J.: Ateli\u00ea de Humanidades, 2026.<\/p>\n<p>[2] Cf. Cris\u00f3stomo. <em>O Avesso de Marx<\/em>. R.J.: Ateli\u00ea de Humanidades, 2024<\/p>\n<p>[3] Cf. Cris\u00f3stomo. O Mundo Bem Nosso. <em>Cognitio<\/em>, S.P., v. 16, n. 2, 2015.<\/p>\n<p>[4] Cf. Crisostomo, Reflex\u00f5es sobre a filosofia brasileira. <em>A Terra \u00e9 Redonda<\/em>. 08\/01\/2024<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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