{"id":75725,"date":"2026-02-25T18:58:04","date_gmt":"2026-02-25T21:58:04","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/licao-para-a-sociedade-diz-lider-indigena-apos-derrubada-de-decreto-sobre-rio-tapajos\/"},"modified":"2026-02-25T18:58:04","modified_gmt":"2026-02-25T21:58:04","slug":"licao-para-a-sociedade-diz-lider-indigena-apos-derrubada-de-decreto-sobre-rio-tapajos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/licao-para-a-sociedade-diz-lider-indigena-apos-derrubada-de-decreto-sobre-rio-tapajos\/","title":{"rendered":"\u201cLi\u00e7\u00e3o para a sociedade\u201d, diz l\u00edder ind\u00edgena ap\u00f3s derrubada de decreto sobre rio Tapaj\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>Reunidas em uma grande roda, dezenas de pessoas faziam um ritual de prepara\u00e7\u00e3o no final de tarde da \u00faltima segunda-feira, 23 de fevereiro. Com os enormes silos de soja e milho ao fundo e o rel\u00f3gio correndo contra o prazo dado pela Justi\u00e7a para que elas desocupassem o entorno de um terminal portu\u00e1rio da Cargill, elas se preparavam para um poss\u00edvel confronto com for\u00e7as policiais. Na multid\u00e3o, algu\u00e9m gritou para que olhassem o WhatsApp. Em poucos segundos, toda a tens\u00e3o se dissipou \u2013 e se transformou em uma grande comemora\u00e7\u00e3o, como mostra o v\u00eddeo abaixo.<\/p>\n<figure><video height=\"464\" width=\"832\" controls src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Video1_Licao-para-a-sociedade-diz-lider-indigena-apos-derrubada-de-decreto-sobre-rio-Tapajos.mp4\" preload=\"none\"><\/video><\/figure>\n<p>Depois de 33 dias de uma mobiliza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o Tapaj\u00f3s que ocupou a \u00e1rea da multinacional agr\u00edcola americana, obstruiu rodovias e interceptou uma embarca\u00e7\u00e3o que transportava gr\u00e3os no rio Tapaj\u00f3s, eles conseguiram o que queriam: a revoga\u00e7\u00e3o pelo governo federal do decreto 12.600 que abria caminho para a concess\u00e3o \u00e0 iniciativa privada de hidrovias em tr\u00eas rios amaz\u00f4nicos: Tapaj\u00f3s, Madeira e Tocantins.<\/p>\n<p>\u201cFica uma li\u00e7\u00e3o para toda a sociedade: somente a luta popular, somente a nossa resist\u00eancia e o nosso enfrentamento \u00e9 capaz de mudar a realidade\u201d, afirmou em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica <\/strong>Auricelia Fonseca Arapiun, uma das principais lideran\u00e7as do movimento dos povos ind\u00edgenas do Baixo Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<figure><figcaption>Ind\u00edgenas comemoram revoga\u00e7\u00e3o do decreto 12.600.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Auricelia estava entre as cerca de 60 pessoas dos 14 povos do Baixo Tapaj\u00f3s que, no dia 22 de janeiro, iniciaram a ocupa\u00e7\u00e3o do terminal da Cargill, \u00e0s margens do Tapaj\u00f3s, em Santar\u00e9m (PA), para protestar contra o decreto do governo Lula e contra um edital, publicado semanas antes, que previa uma licita\u00e7\u00e3o para fazer uma dragagem de manuten\u00e7\u00e3o no leito do rio, para facilitar a navega\u00e7\u00e3o de grandes embarca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o foi uma constru\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, porque at\u00e9 para muitos parentes [termo usado por ind\u00edgenas para se referir a outros ind\u00edgenas] era coisa de doido ocupar a gigante do agroneg\u00f3cio\u201d, disse Auricelia \u00e0 <strong>P\u00fablica <\/strong>na entrevista <em>(leia na \u00edntegra mais abaixo)<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cA pr\u00f3pria Cargill n\u00e3o entrou com a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse no come\u00e7o, porque achavam que a gente n\u00e3o ia durar muito\u201d, disse ela.<\/p>\n<p>Mas eles duraram. Em dez dias, j\u00e1 eram 700 ind\u00edgenas, que se organizaram para estabelecer cozinha, instalar banheiros e tendas, realizar assembleias de discuss\u00e3o e espalhar sua mensagem.<\/p>\n<p>Na \u00faltima sexta-feira, dia 20 de fevereiro, a tens\u00e3o aumentou com uma ordem de reintegra\u00e7\u00e3o de posse expedida pela Justi\u00e7a que deu um prazo de 48 horas para a desocupa\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. A decis\u00e3o se deu ap\u00f3s uma a\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o dos Terminais Portu\u00e1rios e Esta\u00e7\u00f5es de Transbordo de Cargas da Bacia Amaz\u00f4nica (Amport), que, assim como a Cargill, alegou na Justi\u00e7a preju\u00edzos financeiros provocados pelo bloqueio com a paralisa\u00e7\u00e3o do escoamento de gr\u00e3os.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dia seguinte, os manifestantes optaram por mais um movimento de press\u00e3o e ocuparam uma \u00e1rea interna do escrit\u00f3rio da Cargill. \u201cNossa decis\u00e3o n\u00e3o foi impulsiva e nem violenta. Foi constru\u00edda coletivamente, a partir da escuta dos mais velhos, de an\u00e1lises jur\u00eddicas e pol\u00edticas e da indigna\u00e7\u00e3o diante do Decreto 12.600. Estamos aqui porque defendemos o direito de existir\u201d, dizia uma carta aberta publicada pelo Conselho Ind\u00edgena Tapaj\u00f3s e Arapiuns (Cita), que representa os povos do Baixo Tapaj\u00f3s. Em notas \u00e0 imprensa, a Cargill afirmou que suas opera\u00e7\u00f5es foram interrompidas e que havia \u201cfortes evid\u00eancias de vandalismo\u201d \u2013 acusa\u00e7\u00e3o negada pela organiza\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A press\u00e3o surtiu efeito, e dois dias depois, Auricelia e outras lideran\u00e7as viajaram \u00e0 Bras\u00edlia para se reunir com os ministros da Secretaria-Geral da Presid\u00eancia, Guilherme Boulos, e dos Povos Ind\u00edgenas, Sonia Guajajara.<\/p>\n<p>Nesta segunda-feira, 23 de fevereiro, quando Boulos anunciou a decis\u00e3o do presidente Lula de revogar o decreto, cerca de 1.500 pessoas participavam da manifesta\u00e7\u00e3o, segundo as lideran\u00e7as locais. Al\u00e9m dos povos do Baixo Tapaj\u00f3s, outros se juntaram \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o, como os Munduruku, Kayap\u00f3 e Paran\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s somos movidos pelo rio, pela floresta, pela f\u00e9 e pela coragem. Parecemos um povo t\u00e3o pequeno, mas\u00a0 somos gigantes quando a gente enfrenta o inimigo\u201d, afirmou, em l\u00e1grimas, Alessandra Korap, uma das principais lideran\u00e7as do povo Munduruku, em um v\u00eddeo gravado pouco depois do an\u00fancio da revoga\u00e7\u00e3o, publicado pelo Tapaj\u00f3s de Fato.<\/p>\n<p>Segundo Auricelia, os povos da regi\u00e3o n\u00e3o v\u00e3o descansar e se sentem fortalecidos para enfrentar amea\u00e7as que ainda pairam sobre eles, como o projeto da Ferrogr\u00e3o, uma ferrovia que visa ligar o Mato Grosso e o Par\u00e1 para escoar a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os. Na \u00faltima semana, um relat\u00f3rio t\u00e9cnico do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) recomendou a suspens\u00e3o do andamento do processo da ferrovia at\u00e9 que sejam realizadas audi\u00eancias p\u00fablicas, conforme informa\u00e7\u00f5es do Jornal O Globo.<\/p>\n<p>Outro desafio ser\u00e1 a elei\u00e7\u00e3o. Em outubro, os brasileiros v\u00e3o \u00e0s urnas eleger n\u00e3o apenas o presidente da Rep\u00fablica, mas tamb\u00e9m governadores, deputados federais e estaduais e renovar dois ter\u00e7os do Senado Federal.<\/p>\n<p>\u00c0 <strong>P\u00fablica<\/strong>, Auricelia disse que, at\u00e9 o momento, \u00e9 pr\u00e9-candidata \u00e0 deputada estadual, mas que essa decis\u00e3o ainda est\u00e1 sendo constru\u00edda. \u201cMeu maior medo \u00e9 que esse espa\u00e7o [de poder] eventualmente me mude\u201d, disse ela. Leia a entrevista completa abaixo.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia P\u00fablica: Mais de um m\u00eas de ocupa\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o para o governo revogar o decreto. Qual o significado dessa vit\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>Auric\u00e9lia: Eu fico at\u00e9 sem palavras pra dizer o quanto isso significa. Acho que fica uma li\u00e7\u00e3o para toda a sociedade e para toda a popula\u00e7\u00e3o: somente o povo, somente a luta popular, somente a nossa resist\u00eancia e o nosso enfrentamento \u00e9 capaz de fazer mudar a realidade que temos vivido hoje no nosso pa\u00eds. S\u00e3o muitas amea\u00e7as. Acho que n\u00f3s, os povos ind\u00edgenas da regi\u00e3o do Tapaj\u00f3s, mostramos para a sociedade que os nossos direitos s\u00e3o inegoci\u00e1veis, o nosso territ\u00f3rio \u00e9 inegoci\u00e1vel. \u00c9 uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica, n\u00e3o s\u00f3 para os povos ind\u00edgenas. E \u00e9 uma vit\u00f3ria para o pr\u00f3prio governo.<\/p>\n<p><strong>Em que sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro porque eu acho que eles n\u00e3o reconheceram o erro, o decreto s\u00f3 foi revogado por muita press\u00e3o. Mas [foi uma vit\u00f3ria] para a ala do governo que a gente acredita, que n\u00f3s votamos, que foi a esperan\u00e7a para tirarmos o autoritarismo do poder. Foi importante para que o governo tamb\u00e9m voltasse a enxergar a sua ess\u00eancia e os graves erros que tem cometido contra os nossos territ\u00f3rios e os nossos direitos. E para mostrar para o governo que, independentemente do governo que for, n\u00f3s n\u00e3o iremos nos calar.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou que foi uma vit\u00f3ria para toda a sociedade. Em rela\u00e7\u00e3o ao rio Tapaj\u00f3s, quais os impactos atuais da navega\u00e7\u00e3o e de que maneira eles seriam agravados com a poss\u00edvel concess\u00e3o da hidrovia para a iniciativa privada?<\/strong><\/p>\n<p>O rio Tapaj\u00f3s j\u00e1 sofre muitas amea\u00e7as. A hidrovia abriria ainda mais caminhos, que inclusive, j\u00e1 est\u00e3o abertos, para a morte total do rio. O governo falava que ia fazer a dragagem de manuten\u00e7\u00e3o por conta das embarca\u00e7\u00f5es, mas n\u00f3s nunca pedimos e nem tivemos necessidade de dragar o rio para navegar. A hidrovia tinha o \u00fanico objetivo de atender ao agroneg\u00f3cio, que \u00e9 o nosso principal inimigo, que tem muitos projetos de morte de v\u00e1rios corpos. \u00c9 o mesmo agroneg\u00f3cio da Ferrogr\u00e3o que ainda \u00e9 uma amea\u00e7a aos povos ind\u00edgenas. Nossa resposta para o governo \u00e9 que ele n\u00e3o pode negociar as nossas vidas, nem com os nossos direitos. Os nossos rios, nossos territ\u00f3rios n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 venda. Os danos seriam irrevers\u00edveis e irrepar\u00e1veis. Esse decreto era uma trag\u00e9dia anunciada para a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>L\u00e1 na COP30 (Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas de 2025) <\/strong><strong>voc\u00eas j\u00e1 estavam pedindo a revoga\u00e7\u00e3o do decreto<\/strong><strong>. Foi uma luta de v\u00e1rios meses. Como voc\u00ea interpreta a demora do governo em dar uma resposta?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, realmente n\u00e3o foram s\u00f3 30 dias. \u00c9 muito tempo de luta pela prote\u00e7\u00e3o do rio Tapaj\u00f3s. Antes mesmo de qualquer decreto, a gente j\u00e1 lutava, inclusive pelo arquivamento da hidrel\u00e9trica S\u00e3o Luiz do Tapaj\u00f3s, que foi uma vit\u00f3ria do movimento ind\u00edgena. Desde agosto, quando o governo assinou o decreto, a gente j\u00e1 vinha fazendo esse enfrentamento. Fomos para a COP com essa como principal pauta, porque como \u00e9 que temos uma COP na Amaz\u00f4nia e o governo com projetos de privatiza\u00e7\u00e3o de rios, de minera\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios projetos que nos impactam? Essa luta \u00e9 pol\u00edtica, mas ela \u00e9 espiritual tamb\u00e9m. Durante a COP, os encantados falaram que era para n\u00f3s voltarmos para o territ\u00f3rio, que a nossa for\u00e7a estava no territ\u00f3rio. Hoje faz muito sentido o que eles falaram para a gente. Esse esp\u00edrito da ancestralidade guiou a gente o tempo todo. Porque l\u00e1 na COP foram feitas promessas falsas, era o governo querendo dar respostas pra sociedade, porque n\u00e3o foi s\u00f3 para n\u00f3s. Mas, foi um discurso que n\u00e3o nos convenceu, porque pela lei a consulta [aos povos ind\u00edgenas] n\u00e3o \u00e9 p\u00f3stuma. \u00c9 pr\u00e9via. N\u00f3s falamos desde o come\u00e7o que n\u00e3o aceit\u00e1vamos a consulta sem revoga\u00e7\u00e3o do decreto.<\/p>\n<p><strong>Sobre a ancestralidade. Voc\u00eas j\u00e1 falaram que aquele espa\u00e7o da Cargill \u00e9 sagrado. Por que? Qual \u00e9 a hist\u00f3ria daquele lugar?<\/strong><\/p>\n<p>Santar\u00e9m \u00e9 a cidade mais antiga da Amaz\u00f4nia, [era] uma das mais populosas. E cidade no sentido do que \u00e9 pensado como cidade hoje. N\u00f3s \u00e9ramos muitos. Muitos mais do que somos hoje, muitos povos foram dizimados. Ali, onde est\u00e1 a Cargill, \u00e9 um cemit\u00e9rio dos nossos antepassados. Inclusive, a Cargill j\u00e1 deveria ter pagado pelos danos \u00e0 nossa ancestralidade. Foi um lugar muito significativo para a gente rememorar e guardar a mem\u00f3ria dos nossos antepassados, acho que eles est\u00e3o muito orgulhosos disso. Inclusive, n\u00f3s fal\u00e1vamos que era uma retomada de territ\u00f3rio, n\u00e3o uma ocupa\u00e7\u00e3o: quem invadiu foi a Cargill, n\u00e3o fomos n\u00f3s. Ali antes era tamb\u00e9m uma praia, uma praia linda, eu ainda me lembro quando era crian\u00e7a e ia na cidade por algum motivo, de ver aquela praia com muita gente. Hoje, \u00e9 um lugar impr\u00f3prio para banho.<\/p>\n<p><strong>E como foi a constru\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o e a estrat\u00e9gia de mobiliza\u00e7\u00e3o, que envolveu muita gente, mulheres, crian\u00e7as, jovens, anci\u00e3os. Pode contar?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, porque at\u00e9 para muitos parentes, inclusive, era coisa de doido ocupar a gigante do agroneg\u00f3cio, ainda mais sendo uma multinacional americana. N\u00e3o foi f\u00e1cil para a gente que estava na linha de frente, a gente n\u00e3o tinha recurso nenhum, a gente s\u00f3 tinha coragem.<\/p>\n<p>\u00c9ramos em torno de 60 pessoas quando ocupamos no dia 22 de janeiro, sem alimenta\u00e7\u00e3o, sem \u00e1gua. Fomos chamando a parentada, chamando os movimentos sociais, fazendo plen\u00e1ria e construindo e cativando a sociedade, chamando aten\u00e7\u00e3o do porqu\u00ea est\u00e1vamos l\u00e1 e a sociedade toda foi aderindo \u00e0 luta. Nas primeiras semanas, a popula\u00e7\u00e3o local n\u00e3o sabia que o rio Tapaj\u00f3s estava sendo privatizado, n\u00e3o sabia da gravidade do que estava acontecendo, a gente foi conscientizando. E o apoio que recebemos foi muito importante, porque agora, no final, t\u00ednhamos que alimentar 1.500 pessoas por dia. Teve muita gente falando que eram as ONGs que estavam por tr\u00e1s, sempre subestimando a nossa capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria Cargill n\u00e3o entrou com a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o no come\u00e7o, porque achavam que a gente n\u00e3o ia durar muito.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s fomos construindo, constru\u00edmos cozinha, colocamos banheiro, dormit\u00f3rio, espa\u00e7o para os parentinhos [termo para se referir \u00e0s crian\u00e7as], para a sa\u00fade. E da\u00ed quando eles viram que n\u00e3o \u00edamos sair, entraram com as a\u00e7\u00f5es judiciais.<\/p>\n<p>Todo o apoio recebido, n\u00e3o s\u00f3 da popula\u00e7\u00e3o de Santar\u00e9m, dos povos do [rio] Madeira e do [rio] Tocantins, mas tamb\u00e9m da sociedade e a uni\u00e3o dos movimentos sociais foi o que fez com que esse decreto fosse revogado.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou sobre como cativaram a sociedade. \u00c0 dist\u00e2ncia, eu mesma pude acompanhar muito da ocupa\u00e7\u00e3o pelas redes sociais. As p\u00e1ginas do movimento, mas tamb\u00e9m v\u00e1rias outras, produziram v\u00eddeos, conte\u00fados explicativos, v\u00e1rios posts. Em que medida a comunica\u00e7\u00e3o foi importante para o resultado que voc\u00eas tiveram?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s temos uma juventude muito boa, mod\u00e9stia \u00e0 parte. Uma juventude formada de base com muita consci\u00eancia pol\u00edtica, e a gente trabalha nessas forma\u00e7\u00f5es, os nossos encontros e assembleias s\u00e3o espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para mim, o espa\u00e7o mais importante dessa ocupa\u00e7\u00e3o era o dos parentinhos. Tenho certeza que estamos formando uma base muito forte do movimento indigena com a juventude e as crian\u00e7as. Todos os dias, eles nos faziam chorar. A carta que eles escreveram, elas mesmas, com as pr\u00f3prias m\u00e3os, para o\u00a0 presidente Lula foi muito significativa. Toda vez que chegavam na plen\u00e1ria (e n\u00f3s tivemos plen\u00e1ria todos os dias), eles sempre surpreendiam a n\u00f3s, as lideran\u00e7as ali da linha frente.<\/p>\n<p><strong>Surpreendiam como?<\/strong><\/p>\n<p>Com a consci\u00eancia deles, da import\u00e2ncia que o rio tem na vida deles. A forma com que eles falavam. Eles fizeram poemas, m\u00fasicas, gritos de guerra. Tudo isso foi muito forte. Voltar para o territ\u00f3rio com essa consci\u00eancia d\u00e1 muita for\u00e7a para a gente acreditar na luta em um momento em que o movimento ind\u00edgena nacional tem muito recuo. No Tapaj\u00f3s, a gente se colocou em risco com essa mobiliza\u00e7\u00e3o, [mas] a gente sai muito fortalecido.<\/p>\n<p>E a gente n\u00e3o vai descansar, porque n\u00e3o dar\u00e3o descanso para a gente. Revogou o decreto, mas n\u00e3o foi f\u00e1cil revogar. E n\u00e3o sabemos quais foram os acordos com o agroneg\u00f3cio para que isso acontecesse. A batalha n\u00e3o \u00e9, e n\u00e3o vai ser, f\u00e1cil. Mas estamos prontos para os pr\u00f3ximos desafios.<\/p>\n<p><strong>Falando de pr\u00f3ximos desafios. Durante a ocupa\u00e7\u00e3o, um vereador chegou a avan\u00e7ar com o carro para cima dos manifestantes. Este \u00e9 um ano eleitoral e sabemos do tamanho da bancada ruralista e anti-ind\u00edgena no Congresso. Como os povos do Tapaj\u00f3s v\u00e3o se preparar para a elei\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Havia muita gente que falava que a ocupa\u00e7\u00e3o era uma campanha pol\u00edtica. Houve essa fala do pr\u00f3prio governo. Bom, e se fosse? E se fosse, qual o problema? Mas sim, a gente precisa se preparar para enfrentar as elei\u00e7\u00f5es, principalmente dentro desse Congresso, o Congresso inimigo do povo, dos povos ind\u00edgenas. Precisamos preparar o nosso povo para nos representar para que a gente consiga aumentar a bancada ind\u00edgena que est\u00e1 hoje no Congresso. \u00c9 uma elei\u00e7\u00e3o muito desafiadora. Mas, [durante a mobiliza\u00e7\u00e3o] n\u00e3o chegamos a comentar sobre isso, alguns deputados [que estiveram na ocupa\u00e7\u00e3o] falaram sobre isso, sobre nos prepararmos. Mas, enquanto movimento, a gente at\u00e9 evitava falar sobre elei\u00e7\u00f5es por conta do que podia ser interpretado, para n\u00e3o parecer que era algo partid\u00e1rio.<\/p>\n<p>A nossa comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 muito preparada, todo mundo trabalhou volunt\u00e1rio, cada contribui\u00e7\u00e3o foi muito importante. Organizamos a nossa aldeia ali, infraestrutura, alimenta\u00e7\u00e3o, os guardi\u00f5es, tudo foi muito bem organizado, mas a gente sabe que tem um desafio das campanhas.<\/p>\n<p><strong>Mas voc\u00ea j\u00e1 pensou em sair candidata? Ou ainda n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu tenho uma forma\u00e7\u00e3o de base muito consolidada no movimento ind\u00edgena. Sou do movimento desde a minha adolesc\u00eancia, sempre estive no Tapaj\u00f3s. Ultimamente tenho estado em v\u00e1rios espa\u00e7os do movimento ind\u00edgena nacional. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, cheguei a ser pr\u00e9-candidata a vereadora de Santar\u00e9m, mas desisti, porque achei que n\u00e3o era o meu momento. Tamb\u00e9m porque tenho muito medo disso e porque acho que as coisas acontecem na hora certa.<\/p>\n<p>Mas, naquele momento, ficou muito evidente essa cobran\u00e7a dos parentes, de quem n\u00e3o \u00e9 parente, de simpatizantes: \u201cacho que voc\u00ea tem que vir, tem que vir\u201d. Mas estamos nesse processo de constru\u00e7\u00e3o da minha pr\u00e9-candidatura, at\u00e9 agora, estou pr\u00e9-candidata \u00e0 deputada estadual. Ainda estou muito na d\u00favida se \u00e9 isso que eu quero, pelas minhas avalia\u00e7\u00f5es como lideran\u00e7a. E eu sou muito ligada \u00e0 espiritualidade, tudo que eu fa\u00e7o \u00e9 guiado por isso. A \u00faltima resposta quem vai dar \u00e9 a espiritualidade.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 uma pessoa politicamente exposta, ainda que n\u00e3o seja pol\u00edtica. Tem preocupa\u00e7\u00e3o com a seguran\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Eu nunca tive preocupa\u00e7\u00e3o, apesar de que eu j\u00e1 tive amea\u00e7as, tenho trauma, tive que sair da minha casa algumas vezes, nunca entrei em programa de prote\u00e7\u00e3o, porque acho que eles s\u00e3o falhos e n\u00e3o atendem a minha necessidade. Mas \u00e9 uma das miss\u00f5es mais dif\u00edceis que eu posso vir a encarar, porque a exposi\u00e7\u00e3o, as amea\u00e7as, os inimigos, que s\u00e3o inimigos declarados mesmo, vai ter muita persegui\u00e7\u00e3o. Mas eu n\u00e3o estou com medo n\u00e3o.<\/p>\n<p>Se eu for mesmo [sair candidata], meu \u00fanico medo \u00e9 que esse espa\u00e7o me mude e que eu seja uma outra pessoa, que eu n\u00e3o atenda \u00e0s expectativas \u2013 minhas e dos parentes. Meu medo \u00e9 que esse espa\u00e7o possa vir a me transformar, tenho muita inseguran\u00e7a com isso, mas tenho pedido muito aos encantados que andam comigo que me guiem no caminho certo. E que se for a vontade deles eu ser candidata e eleita, que eu nunca perca minha ess\u00eancia, porque j\u00e1 vi muito isso acontecer quando as pessoas chegam em espa\u00e7os de poder.<\/p>\n<p><strong>E, para terminar, queria te ouvir sobre demarca\u00e7\u00e3o, porque v\u00e1rias Terras Ind\u00edgenas no Baixo Tapaj\u00f3s ainda precisam ser demarcadas. Como est\u00e3o esses processos e quais as expectativas?<\/strong><\/p>\n<p>Vamos ter reuni\u00e3o hoje [quarta-feira, 25 de fevereiro] com a Funai para ter retorno sobre algumas demandas que apresentamos na semana passada. Uma delas, a Munduruku e Apiak\u00e1 do Planalto Santareno, teve uma audi\u00eancia [p\u00fablica] na semana passada, [em Santar\u00e9m], que foi meio tensa. Duas Terras Ind\u00edgenas est\u00e3o no momento da demarca\u00e7\u00e3o f\u00edsica, que \u00e9 o ato antes da homologa\u00e7\u00e3o [etapa final]. Estou na expectativa de que eles terminem esse servi\u00e7o e que a gente receba a homologa\u00e7\u00e3o ainda no governo Lula. Outras est\u00e3o com os processos parados, outras para sair os RCIDs (Relat\u00f3rios Circunstanciados de Identifica\u00e7\u00e3o e Delimita\u00e7\u00e3o). A demarca\u00e7\u00e3o \u00e9 a nossa pauta sempre.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-federal-congela-r-313-bi-do-orcamento-de-2025\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Governo Federal congela R$ 31,3 bi do Or\u00e7amento de...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/reuniao-bilderberg-reune-elites-do-atlantico-norte-em-meio-a-fissuras-na-otan-e-agressao-ao-ira\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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