{"id":75748,"date":"2026-02-25T13:45:25","date_gmt":"2026-02-25T16:45:25","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/bad-bunny-hackeou-o-sistema-e-agora\/"},"modified":"2026-02-25T13:45:25","modified_gmt":"2026-02-25T16:45:25","slug":"bad-bunny-hackeou-o-sistema-e-agora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/bad-bunny-hackeou-o-sistema-e-agora\/","title":{"rendered":"Bad Bunny hackeou o sistema. E agora?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1001\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Apple-Music-Super-Bowl-LX-Halftime-Show-hero_bigjpglarge_2x.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/25133629\/Apple-Music-Super-Bowl-LX-Halftime-Show-hero_big.jpg.large_2x-1500x1001.jpg 1500w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/25133629\/Apple-Music-Super-Bowl-LX-Halftime-Show-hero_big.jpg.large_2x-300x200.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/25133629\/Apple-Music-Super-Bowl-LX-Halftime-Show-hero_big.jpg.large_2x-768x513.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/25133629\/Apple-Music-Super-Bowl-LX-Halftime-Show-hero_big.jpg.large_2x-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/25133629\/Apple-Music-Super-Bowl-LX-Halftime-Show-hero_big.jpg.large_2x-272x182.jpg 272w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Apple-Music-Super-Bowl-LX-Halftime-Show-hero_bigjpglarge_2x.jpg 1960w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Apple Music<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Um dos grandes desafios do exerc\u00edcio cr\u00edtico \u00e9 fazer com que a contradi\u00e7\u00e3o do objeto pelo conte\u00fado que ele mesmo expressa seja demonstrada em simult\u00e2neo ao movimento do pensamento. No \u00e2mbito da cr\u00edtica cultural, sem d\u00favidas, o cen\u00e1rio \u00e9 sutil e aprofundado, se consideramos a afirma\u00e7\u00e3o anterior. Atrelada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais de produ\u00e7\u00e3o e consumo (uma imbricada \u00e0 outra) os fen\u00f4menos de massa da cultura contempor\u00e2nea atravessam fronteiras que, em outros momentos, n\u00e3o eram sequer delimitadas. Um desses casos, atualmente, pode ser visto com o show-performance de Bad Bunny no intervalo do <em>Super<\/em> <em>Bowl<\/em>. Ali\u00e1s, nada mais sintom\u00e1tico que o entretenimento e o esporte sejam tamb\u00e9m dispositivos de uma cultura de massa f\u00e9rtil para que se impere o simulacro e a imagem de uma \u201cidentidade latina\u201d trazida pelo <em>rapper<\/em> portoriquenho num evento estadunidense.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata nesse texto de um coment\u00e1rio de sinopse de seu famoso \u00e1lbum (<em>DeB\u00cd\u00a0<\/em><em>TiRAR<\/em><em>\u00a0M\u00e1S\u00a0<\/em><em>FOToS<\/em>) ou de suas premia\u00e7\u00f5es nos <em>Grammy<\/em>. Isso, de certo modo, refor\u00e7a o aspecto mais fundamental do texto: o dispositivo anal\u00edtico que tende a ver uma suposta \u201cidentidade\u201d enquanto portadora de emancipa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis dentro de um regime est\u00e9tico e pol\u00edtico como se dependesse de uma legitimidade ideol\u00f3gica do mercado. \u00c9 a ideia de que o refor\u00e7o ou reconhecimento que a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica absorve, cria e imp\u00f5e n\u00e3o apenas os seus crit\u00e9rios, mas os seus gostos e ainda inventa seu p\u00fablico perempt\u00f3rio.<\/p>\n<p>No recente texto de Gabriela Evora, pelo site da Boitempo, ela sugere, por exemplo, que o disco opera como resist\u00eancia cultural, destacando que o \u00e1lbum \u00e9 um tipo de afirma\u00e7\u00e3o da cultura latina<sup>[1]<\/sup>. Trata-se de uma leitura plaus\u00edvel, mas h\u00e1 outros elementos que merecem ser destacados. \u00c9 sabido que Bad Bunny j\u00e1 \u00e9 um dos artistas mais dominantes do <em>streaming<\/em> mundial (suas premia\u00e7\u00f5es e seus shows-performances o atestam). Dentro do circuito da ind\u00fastria da cultura e da m\u00fasica popular, sua qualidade \u00e9 atestada por seus pares. Portanto, sua <em>latinidade<\/em> n\u00e3o atua desde a margem, mas atua na posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica emergente dentro da ind\u00fastria. Assim, Evora enfatiza um tipo de resist\u00eancia simb\u00f3lica, mas discute pouco o papel da ind\u00fastria musical. Talvez porque seja algo que ela considere ser evidente \u2013 e que de fato \u00e9 \u2013, mas ao mesmo tempo \u00e9 importante de ser ressaltado, tendo em vista algumas das rea\u00e7\u00f5es recentes ao fen\u00f4meno Bad Bunny. Na ind\u00fastria da m\u00fasica popular, o reconhecimento global da latinidade ocorre exatamente dentro das pr\u00f3prias plataformas corporativas, cuja l\u00f3gica algor\u00edtmica de estrat\u00e9gias de marketing global s\u00e3o centrais. Portanto, a valoriza\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 mercantilizada <em>in loco<\/em>, ao contr\u00e1rio daquela suposta emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-4-6.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-4-6.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180426\/1.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ao mesmo tempo, \u00e9 exportada e consumida nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina conforme a mesma l\u00f3gica que opera na cria\u00e7\u00e3o de uma hegemonia da cultura dos EUA. Mesmo que se valorize como a performance dentro do evento anual mais assistido nos Estados Unidos, por assim dizer, hackeia e adentra o sistema, \u00e9 necess\u00e1rio pontuar que de forma alguma ela se op\u00f5e ao sistema. No momento, ela no m\u00e1ximo traz outras identidades para esse horizonte ainda limitado. A ver as poss\u00edveis consequ\u00eancias da obten\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o a longo prazo e como (ou se) elas podem oferecer algo a partir do qual possa ser negada essa l\u00f3gica, mas no curto prazo elas pouco oferecem para al\u00e9m de um simbolismo, o qual \u00e9 conceitualmente marcado por uma certa arbitrariedade e uma n\u00e3o correspond\u00eancia entre forma e conte\u00fado.<\/p>\n<p>Manifesta\u00e7\u00f5es na m\u00fasica popular de teor pol\u00edtico muito mais radical (na medida em que buscavam expandir para al\u00e9m da quest\u00e3o da identidade) tamb\u00e9m padeceram da impossibilidade apontada pelo cr\u00edtico cultural Frederic Jameson de \u201ccolocar o ato cultural fora do ser massivo do capital e atac\u00e1-lo a partir da\u00ed\u201d<sup>[2]<\/sup>. Ele fala de uma \u201clinguagem cifrada da coopta\u00e7\u00e3o\u201d em que \u201cn\u00e3o apenas as formas contraculturais locais e pontuais de resist\u00eancia cultural e de guerrilha, mas tamb\u00e9m as interven\u00e7\u00f5es explicitamente pol\u00edticas como as de <em>The Clash<\/em>, s\u00e3o todas de algum modo secretamente desarmadas e reabsorvidas pelo sistema do qual podem ser consideradas parte integrante, uma vez que n\u00e3o conseguem se distanciar dele\u201d<sup>[3]<\/sup>. Trata-se de uma expans\u00e3o t\u00e3o grande desta esfera da vida objetiva que at\u00e9 mesmo a arte, que supostamente deveria estar acima enquanto pr\u00e1tica cultural, \u00e9 dominada por essa cultura do mercado.<\/p>\n<p>De modo justo, deve-se conceder a Bad Bunny que, por mais que ele n\u00e3o pretenda questionar essa l\u00f3gica mercadol\u00f3gica da cultura de modo mais incisivo ou direto, mesmo que ele o quisesse, seria limitado a entrar para o mainstream ou a fazer algo que o ataque mas com resultados \u00ednfimos, como toda uma gera\u00e7\u00e3o posterior ao The Clash, que conseguiu por meio da \u00e9tica <em>do it yourself<\/em> do punk rejeitar a ind\u00fastria, a pre\u00e7o de ter pouco reconhecimento por parte daqueles n\u00e3o inseridos em sua contracultura. H\u00e1 sempre um dilema: entrar no sistema e obter alcance maior ou permanecer \u00e0 margem e com um alcance menor? Mesmo a recente morte da monocultura, do r\u00e1dio e da televis\u00e3o com seus canais limitados ditando o consumo cultural, na l\u00f3gica algor\u00edtmica n\u00e3o se trata de uma verdadeira democratiza\u00e7\u00e3o, na medida em que n\u00e3o h\u00e1 neutralidade de fato na cria\u00e7\u00e3o dos algoritmos.<\/p>\n<p>Jameson, em outro texto, intitulado \u201cP\u00f3s-modernidade e sociedade do consumo\u201d, tamb\u00e9m coloca que uma das principais caracter\u00edsticas da vida cultural contempor\u00e2nea \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do tempo com a hist\u00f3ria. Segundo ele, trata-se do \u201cdesaparecimento do sentido da hist\u00f3ria, o modo pelo qual o sistema social contempor\u00e2neo como um todo demonstra que come\u00e7ou, pouco a pouco, a perder a sua capacidade de preservar o pr\u00f3prio passado e come\u00e7ou a viver em um presente perp\u00e9tuo, em uma perp\u00e9tua mudan\u00e7a que apaga aquelas tradi\u00e7\u00f5es que as forma\u00e7\u00f5es sociais anteriores, de uma maneira ou de outra, tiveram de preservar\u201d<sup>[4]<\/sup>.<\/p>\n<p>\u00c9 esse \u201cpresente perp\u00e9tuo\u201d que, para n\u00f3s aqui, \u00e9 fulcral para pensar o problema da cr\u00edtica cultural. De fundo, est\u00e1 implicada nesse presente\u00edsmo da l\u00f3gica do capitalismo tardio uma sensa\u00e7\u00e3o de que o novo \u00e9 feito como novidade e instant\u00e2nea dura\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o por simulacro, contraposto \u00e0s realiza\u00e7\u00f5es de signos mais ou menos consolidados. Pensemos, por exemplo, no quadro de Monalisa, que hoje \u00e9 tornado n\u00e3o apenas um bem de consumo, mas o simulacro de sua pr\u00f3pria imagem. Noutras palavras: o quadro de Monalisa pode ser bem \u201cdesistoricizado\u201d para que o simulacro se d\u00ea conta; o signo de uma express\u00e3o cultural, contraditoriamente, pode ser dissolvido pelo presente perp\u00e9tuo de que fala Jameson.<\/p>\n<p>O exemplo do quadro Monalisa n\u00e3o \u00e9 o argumento e nem o exemplo de Jameson, mas coaduna com o diagn\u00f3stico do autor, se estendido: temos contemporaneamente a \u201cobsolesc\u00eancia programada, um ritmo ainda mais r\u00e1pido de mudan\u00e7as na moda e no <em>styling, <\/em>a penetra\u00e7\u00e3o da propaganda, da televis\u00e3o e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o em grau at\u00e9 agora sem precedentes\u201d<sup>[5]<\/sup>, que al\u00e9m de cindir fronteiras da cultura, remodela a percep\u00e7\u00e3o de cultura <em>tout<\/em> <em>court<\/em>.<\/p>\n<p>O pequeno livro de Ricardo Fabbrini, intitulado \u201cArte contempor\u00e2nea em tr\u00eas tempos\u201d<sup>[6]<\/sup>, chama a aten\u00e7\u00e3o, entre outras coisas, para um aspecto fundamental referente \u00e0s artes de nosso tempo: \u00e9 poss\u00edvel repensar a maneira de produ\u00e7\u00e3o e de recep\u00e7\u00e3o das obras de arte, buscando estrat\u00e9gias que rompam com a superficialidade e a padroniza\u00e7\u00e3o das imagens, reavivando seu potencial cr\u00edtico? O excesso de imagens faz com que elas percam sua for\u00e7a expressiva, tornando-se clich\u00eas vazios e previs\u00edveis. Na verdade, \u00e9 a tend\u00eancia que se tornou regra no regime est\u00e9tico das artes.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/15-1-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/15-1-4.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180113\/15-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Avan\u00e7ando um pouco, o simulacro contempor\u00e2neo de que a imagem se faz imperar \u00e9 o constituinte do espelhamento figurado na l\u00f3gica da ind\u00fastria cultural, na qual a promessa de novidade e subvers\u00e3o se converte na cria\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmulas padronizadas que alimentam a cultura de massa. Em outros termos, resistir \u00e0 l\u00f3gica da hipervisibilidade e de uma percep\u00e7\u00e3o mais lenta e profunda no espectador seria, em v\u00e3o, enfrentar a ditadura da pr\u00f3pria imagem. A abund\u00e2ncia de imagens, impulsionada pelas tecnologias digitais e pela objetividade da cultura de massa, leva \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do olhar cr\u00edtico, mas da pr\u00f3pria ideia de \u201cimagem\u201d. Como afirma Ranci\u00e8re: \u201cFundar o edif\u00edcio da arte significa definir um certo regime de identifica\u00e7\u00e3o da arte, isto \u00e9, uma rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica entre pr\u00e1ticas, formas de visibilidade e modos de inteligibilidade que permitem identificar seus produtos como pertencentes \u00e0 arte ou a uma arte\u201d<sup>[7]<\/sup>.<\/p>\n<p>Nesse sentido, antes de uma assimila\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso de Bad Bunny e sua mete\u00f3rica ascens\u00e3o no mundo <em>pop<\/em>; ao contr\u00e1rio, se trata muito mais de ver que tal pot\u00eancia \u00e9 o sintoma preestabelecido pela \u201cimagem\u201d que \u00e9 produzida de antem\u00e3o: o simulacro. A performance no <em>Super Bowl<\/em>, bem com sua figura \u2013 criada pela pr\u00f3pria ind\u00fastria cultural \u2013 revela muito mais nossa depend\u00eancia cultural do que quaisquer tipos de subvers\u00e3o no centro do imp\u00e9rio. \u00c9 uma subordina\u00e7\u00e3o ao l\u00e9xico da mercadoria (disso que se trata a objetividade do fetichismo) ao conjunto de simulacros (oposto ao de signos). Simulacro que, na acep\u00e7\u00e3o adotada, \u00e9 mais a indica\u00e7\u00e3o da igualdade das formas sens\u00edveis. Portanto, qualquer objeto, imagem ou voz pode aparecer e ter o mesmo estatuto no campo do vis\u00edvel.<\/p>\n<p>Na pista de Ranci\u00e8re, a arte \u00e9 pol\u00edtica n\u00e3o pelo que diz, mas pelo modo como redistribui percep\u00e7\u00f5es e posi\u00e7\u00f5es sociais. \u201cArte e pol\u00edtica est\u00e3o, assim, ligadas aqu\u00e9m de si mesmas como formas de presen\u00e7a de corpos singulares em um espa\u00e7o e em um tempo espec\u00edficos\u201d<sup>[8]<\/sup>. \u00c9 exatamente por isso que a performance-show de Bad Bunny \u00e9 pol\u00edtica: seu reconhecimento se deu no evento mais estadunidense poss\u00edvel. Mas esse reconhecimento n\u00e3o \u00e9 sim\u00e9trico, pois trata-se de uma afirma\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o, de um regime est\u00e9tico onde a autonomia \u00e9 tamb\u00e9m heteronomia.<\/p>\n<p>Os EUA s\u00e3o o palco, Bad Bunny \u00e9 seu personagem. A performance revela a \u201cverdade\u201d da cultura latina como uma verdadeira ditadura da imagem, j\u00e1 que falseia seus sentidos, mas com fei\u00e7\u00f5es reminiscentes da Verdade plat\u00f4nica. \u00c9 t\u00e3o verdade que, nos EUA, parte da popula\u00e7\u00e3o fala o espanhol, diversas nacionalidades latinas comp\u00f5em o quadro \u00e9tnico-social do pa\u00eds etc. N\u00e3o por acaso as pol\u00edticas antimigrat\u00f3rias adotadas pelo governo do pa\u00eds visam justamente \u00e0 repress\u00e3o de latinos pobres, num contexto que, ao mesmo tempo, o show-performance aparece como imagem portadora do potencial latino no solo estadunidense.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa ilus\u00e3o que a ditadura da imagem se firma. Bad Bunny \u00e9 legitimado n\u00e3o como latino, mas como portador de uma identidade latina; ele \u00e9 uma voz que busca se afirmar nos marcos da cultura de massa. Seu caso \u00e9 exemplar: porque dela se pode deduzir que esse simulacro \u00e9 progressista e previs\u00edvel. Mant\u00e9m no conjunto de seus aspectos uma promessa que \u00e9 falsa. Nos termos de Ranci\u00e8re: \u201cA heterogeneidade sens\u00edvel da obra n\u00e3o \u00e9 mais a garantia da promessa de emancipa\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, ela vem invalidar qualquer promessa desse tipo atestando uma depend\u00eancia irremedi\u00e1vel do esp\u00edrito em rela\u00e7\u00e3o ao Outro que o habita\u201d<sup>[9]<\/sup>. Na vis\u00e3o do autor, a obra do regime est\u00e9tico das artes se trata de enigma que a inscreve na contradi\u00e7\u00e3o de um mundo se torna o puro testemunho da pot\u00eancia do vis\u00edvel. Assim, temos: \u201cn\u00e3o h\u00e1 arte sem uma forma espec\u00edfica de visibilidade e de discurso que a identifique como tal. Nada de arte sem uma certa partilha do sens\u00edvel que a vincule a uma certa forma de pol\u00edtica. A est\u00e9tica \u00e9 essa partilha\u201d<sup>[10]<\/sup>.<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p><sup>[1]<\/sup> EVORA, Gabriela. <strong>DeB\u00cd\u00a0TiRAR\u00a0M\u00e1S\u00a0FOToS:\u00a0a valoriza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da cultura latina no \u00e1lbum de\u00a0Bad\u00a0Bunny. <\/strong>Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2026\/02\/19\/debi-tirar-mas-fotos-a-valorizacao-contemporanea-da-cultura-latina-no-album-de-bad-bunny\/ &gt;. Acessado em: 20 de fevereiro de 2026.<\/p>\n<p><sup>[2]<\/sup> JAMESON, Frederic. <strong>P\u00f3s-modernismo<\/strong>: a l\u00f3gica cultural do capitalismo tardio. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2000, p. 74.<\/p>\n<p><sup>[3]<\/sup> JAMESON, Frederic. Ibid., p. 75.<\/p>\n<p><sup>[4]<\/sup> JAMESON, Frederic. P\u00f3s-modernidade e sociedade do consumo. <strong>Novos Estudos CEBRAP<\/strong>, S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>n. 12, p. 16-26, 1985, p. 26.<\/p>\n<p><sup>[5]<\/sup> JAMESON, Frederic. Ibid, p. 26.<\/p>\n<p><sup>[6]<\/sup> FABBRINI, R. <strong>Arte contempor\u00e2nea em tr\u00eas tempos<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2024.<\/p>\n<p><sup>[7]<\/sup> RANCI\u00c9RE, Jacques. A est\u00e9tica como pol\u00edtica. <strong>Devires<\/strong>, Belo Horizonte, v. 7, n. 2, p. 14-36, 2010, p. 24.<\/p>\n<p><sup>[8]<\/sup> RANCI\u00c8RE, ibid., p. 22.<\/p>\n<p><sup>[9]<\/sup> RANCI\u00c8RE, ibid., p. 35.<\/p>\n<p><sup>[10]<\/sup> RANCI\u00c8RE, ibid., p. 36.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Bad Bunny hackeou o sistema. E agora? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/alexandre-de-moraes-bloqueia-contas-e-bens-de-eduardo-bolsonaro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/eduardo-bolsonaro_Foto-Marcos-Oliveira_Agencia-Senado-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Alexandre de Moraes bloqueia contas e bens de Edua...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/miga-trump-sugere-derrubar-governo-no-ira-e-faz-alusao-a-sua-propria-campanha\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">MIGA? 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Pois, como mostrou Frederic Jameson, at\u00e9 as interven\u00e7\u00f5es explicitamente pol\u00edticas s\u00e3o desarmadas e reabsorvidas por uma ind\u00fastria cultural que opera por meio da superabund\u00e2ncia de imagens e do apagamento do sentido de Hist\u00f3ria<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/bad-bunny-hackeou-o-sistema-e-agora\/\">Bad Bunny hackeou o sistema. E agora?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":75749,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[347,28012,3371,36831,5599,36832,6616,6135,10543,35664,1618,36833,34266],"tags":[],"class_list":["post-75748","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-bad-bunny","category-crise-migratoria","category-debi-tirar-mas-fotos","category-descolonizacoes","category-frederic-jameson","category-governo-trump","category-industria-cultural","category-industria-fonografica","category-jacques-ranciere","category-porto-rico","category-spotify","category-super-bowl"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75748"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75748\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}