{"id":76057,"date":"2026-02-27T17:56:53","date_gmt":"2026-02-27T20:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/hamnet-criadores-ou-criaturas\/"},"modified":"2026-02-27T17:56:53","modified_gmt":"2026-02-27T20:56:53","slug":"hamnet-criadores-ou-criaturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/hamnet-criadores-ou-criaturas\/","title":{"rendered":"Hamnet: Criadores ou criaturas?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1008\" height=\"567\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/photo_4976531125471742949_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/photo_4976531125471742949_y.jpg 1008w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/27175901\/photo_4976531125471742949_y-300x169.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/02\/27175901\/photo_4976531125471742949_y-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1008px) 100vw, 1008px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Para mim, o cinema \u00e9 uma forma de me tirar do controle. Quando um filme atende t\u00e3o bem a esse crit\u00e9rio, como foi assistir a <em>Hamnet<\/em>, de Chlo\u00e9 Zhao, faz bem entender um pouco do porqu\u00ea[1] demorei tanto a sair da sala de cinema, depois de n\u00e3o conseguir controlar a produ\u00e7\u00e3o aquosa que passa em outro filme, o \u201cfilme lacrimal\u201d[2]. Mas antes, chamo \u00e0 baila outras obras para montar a base das imagens que aqui desejo refletir.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Quando o cr\u00edtico liter\u00e1rio Harold Bloom escreveu uma obra de quase 900 p\u00e1ginas sobre Shakespeare, ele estava defendendo a ideia de que mais do que qualquer outro dramaturgo ou autor em geral, Shakespeare estaria criando uma nova forma de criar personagens. Personagens com um interior, um mundo interno. Isto \u00e9, o personagem se tornou um ser dotado de personalidade, como algu\u00e9m supostamente real. E esse \u201csupostamente\u201d aqui cabe bem, porque como j\u00e1 disse um psicanalista chamado Bion (ser\u00e1 que ele existe, ser\u00e1 que realmente existimos?), h\u00e1 personagens do mundo da fic\u00e7\u00e3o que s\u00e3o infinitamente mais reais do que seres de carne e osso[3]. Bloom deu o nome ao seu livro de \u201cShakespeare: A inven\u00e7\u00e3o do humano\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/14--13.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/14--13.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31180114\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Um outro livro, o romance hist\u00f3rico que inspirou o filme, \u201cHamnet\u201d, vencedor do\u00a0Women\u2019s Prize for Fiction\u00a0em 2020, da autora irlandesa Maggie O\u2019Farrell \u2013 que \u00e9 tamb\u00e9m roteirista do filme em colabora\u00e7\u00e3o com a diretora \u2013, \u201c\u00e9 um retrato delicado e comovente de um casamento, uma\u00a0fam\u00edlia devastada pelo luto\u00a0e a reconstru\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da mem\u00f3ria\u00a0de um menino esquecido pela hist\u00f3ria, mas eternizado no t\u00edtulo de uma das pe\u00e7as mais c\u00e9lebres de todos os tempos\u201d. O filme se baseou neste livro, e a hist\u00f3ria real de Hamnet \u2013 filho de Shakespeare \u2013, \u00a0parece ter influenciado ou inspirado a cria\u00e7\u00e3o da obra-prima \u201cHamlet\u201d, segundo estudiosos.<\/p>\n<p>Quando testemunhamos uma obra de arte de tal envergadura (falo aqui do filme e da trag\u00e9dia de Shakespeare), assistimos em tempo real o humano sendo reinventado em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>O filme <em>Hamnet<\/em>, objeto desse texto, al\u00e9m de lan\u00e7ar luz sobre a obra do dramaturgo \u2013 \u201cHamlet: <em>A Trag\u00e9dia de Hamlet, Pr\u00edncipe da Dinamarca<\/em>\u201d \u2013 faz jus a essa imensa obra da literatura universal, talvez a maior de todos os tempos. Para Bloom, certamente \u00e9.<\/p>\n<p>Hamnet, no filme, \u00e9 filho de uma \u201cbruxa da floresta\u201d \u2013 Agnes \u2013 com um intelectual que d\u00e1 aulas de latim para crian\u00e7as \u2013 William[4]. Will \u00e9 tratado como in\u00fatil por seu pai, dado que deve realizar esse trabalho para pagar as d\u00edvidas desse pai torpe e bruto, sendo continuamente humilhado e desdenhado por ele.<\/p>\n<p>Will, ent\u00e3o, \u00e9 um sujeito em d\u00edvida (do pai e com o pai, mas sobretudo com ele mesmo). Marcado por ela, mas n\u00e3o subjugado pela mesma. Segundo Denise Lachaud, em obra de sugestivo nome \u201cO inferno do dever: o discurso do obsessivo\u201d, diz que o obsessivo \u201cvive condenado a carregar nos ombros o peso de uma culpa que n\u00e3o \u00e9 sua e a pagar com trabalho uma d\u00edvida de ningu\u00e9m\u201d. Will n\u00e3o se subjuga, pois de alguma forma tenta dar algum outro destino a ela. Mas \u00e9 herdeiro de uma d\u00edvida simb\u00f3lica impag\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um mito ent\u00e3o \u00e9 contado; Will, na trama, se dirige \u00e0 Agnes \u2013 antes dos dois formarem o par que ir\u00e1 gerar o filho Hamnet e mais duas outras filhas \u2013 e narra o mito de Orfeu, m\u00fasico e artista sublime que, tal como \u00e9 na maioria dos mitos, sofre uma maldi\u00e7\u00e3o. E o resultado moral parece ser, ao meu ver, o da necessidade de aprender a confiar. Pois de nada adianta somente talento na m\u00fasica ou qualquer arte, ou outros quaisquer dons e atributos para enfrentar e vencer certos flagelos humanos, certos dardos atirados \u00e0 alma, e nem mesmo ser um \u201csuperstar\u201d ou super-her\u00f3i. \u00c9 necess\u00e1rio confiar. Eis o que o obsessivo Will n\u00e3o consegue fazer, confiar. Essa fabula\u00e7\u00e3o talvez explique um pouco tamb\u00e9m do medo que o habita. O abismo que ele v\u00ea na floresta j\u00e1 estava l\u00e1 antes de tudo acontecer. A floresta como o \u00fatero da natureza. Will tem medo do abismo criador. Porque sente que ele cobrar\u00e1 um pagamento, uma d\u00edvida pela capacidade criadora que tem em sua personalidade.<\/p>\n<p>As \u201cbruxas\u201d talvez tenham um pouco mais de poder quanto a isso. No filme, representada por Agnes, \u00e9 a \u00fanica capaz de derrotar os venenos das doen\u00e7as f\u00edsicas e do esp\u00edrito. Integrada que est\u00e1 \u00e0 natureza, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o vazio da incompletude experimentada por seu marido. Sabemos que as mulheres que estavam conectadas \u00e0 natureza, que sabiam a arte do parto, o trato com as ervas medicinais \u2013 entre tantas outras pr\u00e1ticas comuns a seres ainda ligados ao mundo natural \u2013, eram taxadas de bruxas, e assim, muitas vezes na hist\u00f3ria foram despojadas de seu mundo para manter e aumentar o poder dos homens sobre a Terra\/terra. A autora Silvia Federici descreve muito bem essa hist\u00f3ria esquecida da Hist\u00f3ria em sua aclamada obra \u201cCalib\u00e3 e a Bruxa: Mulheres, Corpos e Acumula\u00e7\u00e3o Primitiva\u201d. De como a \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d na Europa e na Am\u00e9rica foi utilizada como t\u00e9cnica de controle social e exterm\u00ednio, como \u201capropria\u00e7\u00e3o estatal da capacidade reprodutiva das mulheres\u201d, cumprindo uma fun\u00e7\u00e3o central no processo de acumula\u00e7\u00e3o primitiva do capital, no in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Sabemos tamb\u00e9m que a \u00fanica conex\u00e3o real com o cosmos \u00e9 a conex\u00e3o com <em>o perto<\/em> da natureza ao nosso redor (o \u201clonge\u201d \u00e9 imposs\u00edvel de se ver e principalmente sentir. \u2018Ver\u2019 somente ao alcance por aparelhos extremamente tecnol\u00f3gicos). Os povos origin\u00e1rios de diversas culturas e pa\u00edses sabem disso como ningu\u00e9m, as mulheres de muitas \u00e9pocas e lugares tamb\u00e9m. O poder da floresta. Para n\u00f3s, reles mortais despidos de todo verdadeiro poder, essa conversa parece bravata.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A \u201cbruxaria\u201d contra os venenos da alma est\u00e1 na ordem do dia na fam\u00edlia conquistada \u2013 Agnes teve que lutar para poder pertencer \u00e0 fam\u00edlia que criou com William. A verdadeira bruxaria sempre foi do bem.<\/p>\n<p>A umbanda, o candombl\u00e9, e toda sorte de religi\u00f5es de origem africana, ancestrais por natureza, s\u00e3o exemplos tamb\u00e9m dessa for\u00e7a.<\/p>\n<p>Bom, pare\u00e7o estar me desviando do assunto, mas s\u00e3o placas necess\u00e1rias para n\u00e3o nos perdermos pela estrada real. Volto ent\u00e3o ao Sir. Will e seus dramas. Os pais gostam de uma representa\u00e7\u00e3o; uma encena\u00e7\u00e3o. O tal do <em>superego <\/em>que herdamos, atrav\u00e9s deles (os pais), diria a Psican\u00e1lise. Ou o super-superego, cruel e vingativo. A amea\u00e7a real e constante vivendo junto ao esp\u00edrito humano. No filme, os pais de Agnes e de Will, como a maioria, s\u00e3o pais que desejam o poder. Manter o poder, como se mant\u00e9m a ira acesa[5] (o que parece n\u00e3o ter motivo aparente, apenas o desejo de sustentar o veneno da hierarquia e seus males). O veneno <em>solto no meio do redemoinho<\/em> da vida. Esse grande e perene desejo \u00e9 sempre o de manter a autoridade, a obedi\u00eancia dos subordinados. S\u00eaneca diz que a \u201cirac\u00fandia tem isto de mal: n\u00e3o quer que a governem\u201d.<\/p>\n<p>O feiti\u00e7o ent\u00e3o \u2013 negativo, no caso \u2013 \u00e9 o da ordem (ordem no sentido de um aprisionamento na norma, sendo ela na maioria das vezes arbitr\u00e1ria). Da autoridade e seu correlato autoritarismo. Agnes e Will lutam pra vencer esse<em> diabolus<strong>[6]<\/strong><\/em>. Will, em certo ponto, enfrenta seu pai e diz que nunca mais aceitar\u00e1 apanhar do mesmo. \u00c9 um come\u00e7o. \u201cMatar o pai\u201d, diria Freud. Simbolicamente, \u00e9 claro. Se \u201cDeus \u00e9 paci\u00eancia\u201d e \u201co contr\u00e1rio, \u00e9 o diabo\u201d, como j\u00e1 nos lembrou Guimar\u00e3es Rosa, se esse \u00e9 o caminho a seguir, n\u00e3o vai ser sem o sujeito se arrastar que ele vai conseguir realizar seu projeto de vida. Alguma puni\u00e7\u00e3o vir\u00e1 pelo seu \u201ccrime\u201d. O sentimento de culpa que Will sente por seus desejos hostis em rela\u00e7\u00e3o a esse pai caminham com ele dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A vida l\u00e1 por aquelas terras e tempos lembra-nos de nosso desamparo estrutural, uma vida de Orfeu (o do mito): a amea\u00e7a do abismo sempre \u00e0 espreita. A trag\u00e9dia em sua rela\u00e7\u00e3o com o sagrado. A vida muito pr\u00f3xima da morte.<\/p>\n<p>Ferenczi, em seu artigo \u201cA crian\u00e7a mal acolhida e sua puls\u00e3o de morte\u201d[7], diz da crian\u00e7a como muito mais pr\u00f3xima ao estado do \u201cn\u00e3o-ser\u201d do que do ser. Um filho parece sempre condenado a pagar uma d\u00edvida que o pai n\u00e3o soube saldar, sempre destinado a lidar com os traumas transgeracionais que o atravessam. Isto \u00e9, parece que algu\u00e9m ter\u00e1 que pagar \u201ccom a carne\u201d. \u201cUma libra de carne\u201d[8].<\/p>\n<p>Esmagado pelo medo, de n\u00e3o escrever mais, de n\u00e3o trabalhar segundo seus pr\u00f3prios par\u00e2metros, William se evade continuamente para Londres. Enquanto Agnes luta para educar e sustentar diariamente suas crias.<\/p>\n<p>Eis um homem atormentado. Perdido em seus rumores internos, sempre com medo de cada vez mais se perder, o homem vai se amesquinhando. P\u00e1lido para a fam\u00edlia, cheio de brio e vida para o mundo. N\u00e3o \u00e9 que Will possa ser descrito exatamente assim. Essa uma parte de sua faceta, pois em sua totalidade \u00e9 muito mais exuberante que isso. Ele n\u00e3o \u00e9 p\u00e1lido para sua fam\u00edlia, mas tem suas quest\u00f5es internas n\u00e3o resolvidas que cobram outros formas de viver, para n\u00e3o somente ir atr\u00e1s do sustento de sua fam\u00edlia, mas tamb\u00e9m alimentar sua pr\u00f3pria alma.<\/p>\n<p>Aquilo que era uma defesa contra o pai, um severo pai, defesa ps\u00edquica que foi a de exacerbar sua sensibilidade intelectual, para sobreviver psiquicamente aos fardos dessa vida, e encontrar algum amor em outros olhos que n\u00e3o fossem os de seus pais \u2013 j\u00e1 que parece ter-lhe faltado \u2013, se torna ent\u00e3o um constante castigo. Uma carga \u2013 a de se fazer representar por sua capacidade intelectual e art\u00edstica \u2013 que sente precisar manter a qualquer custo para se sentir vivo, ou simplesmente de fato <em>estar vivo<\/em>. N\u00e3o o fazendo, se sente um inv\u00e1lido. Viver em \u201cbanho-maria\u201d o estragaria, faria fenecer seu brilho, segundo o que parece sentir.<\/p>\n<p>E \u00e9 o <em>medo<\/em>, o problema. Sempre \u00e9. Esmagado por ele. Tamb\u00e9m o medo da morte. Do desaparecimento. Da assun\u00e7\u00e3o ao abismo. Como Orfeu, n\u00e3o pode olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Segurar seu beb\u00ea, que acaba de nascer, ent\u00e3o, \u00e9 segurar o fr\u00e1gil cr\u00e2nio em suas m\u00e3os \u2013 a ang\u00fastia, a agonia, o desespero, o drama da doen\u00e7a da d\u00favida: \u201cSer ou n\u00e3o ser\u201d, como na pe\u00e7a. E em postura \u201cteatral\u201d dizer: \u201cEis a quest\u00e3o\u201d; O resto \u00e9 sil\u00eancio. O medo \u00e9 o do sil\u00eancio. Sufocado que est\u00e1 por sua pris\u00e3o mental, como sabiamente v\u00ea sua esposa.<\/p>\n<p>N\u00e3oo conseguir mais manter suas defesas ps\u00edquicas intactas (apesar de delas n\u00e3o mais precisar, ao menos na forma como acredita <em>dever ser<\/em>) \u00e9 seu infort\u00fanio e abismo. \u00a0E poderia ser sua salva\u00e7\u00e3o. Sua liberdade. Mas \u00e9 seu medo maior. Porque esse \u00e9 o grande problema de nossas defesas que empregamos vida afora: elas deixam de fazer sentido em algum momento da vida. Durante a inf\u00e2ncia e boa parte da juventude (e muitas vezes de nossa vida adulta) ela realmente se fez resolutamente necess\u00e1ria. Mas em alguma altura da vida essas defesas deixam de ser imprescind\u00edveis. Ao contr\u00e1rio, come\u00e7am a atrapalhar tudo em nossas vidas. Um tipo de fixa\u00e7\u00e3o que vai dando as cores e a mat\u00e9ria de nossas neuroses (e\/ou psicoses).<\/p>\n<p>J\u00e1 Agnes, no filme, \u00e9 uma mulher sem medo. N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o tenha medo, mas tem uma forma de coragem ou destemor pr\u00f3prios de algu\u00e9m que se agarra \u00e0 terra mas n\u00e3o a prende entre as m\u00e3os. Seu \u00fanico medo talvez seja o de estar longe de sua terra, se desconectando daquilo que a protege tamb\u00e9m, como na cena em que \u00e9 impedida de parir sozinha nos seus cantos da floresta, por conta dos poderes do patriarcado ali novamente operando \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Seguindo a l\u00f3gica da sabedoria de intelectuais como foi Nego Bispo, por exemplo, poder\u00edamos aqui repetir: \u201cComo fica a situa\u00e7\u00e3o de um povo que p\u00f5e a gera\u00e7\u00e3o neta na creche e a gera\u00e7\u00e3o av\u00f3 no asilo e diz que a fam\u00edlia \u00e9 a base de tudo!? E mais\u2026 um povo que p\u00f5e veneno na terra, p\u00f5e esgoto nas \u00e1guas e res\u00edduos gasosos no ar o que devem esperar da natureza!?\u201d. N\u00e3o \u00e9 o caso de Agnes. Ela n\u00e3o padece desses males, e n\u00e3o espera uma vingan\u00e7a da natureza.<\/p>\n<p>Os homens se sentem perdidos porque n\u00e3o compreendem a conex\u00e3o que a m\u00e3e (uma m\u00e3e como Agnes) tem com seus filhos[9]. N\u00e3o estou dizendo aqui que ela seria o t\u00edpico prot\u00f3tipo do que \u00e9 uma \u201cverdadeira m\u00e3e\u201d, incorrendo no risco de cair no engodo de alvo de toda necess\u00e1ria cr\u00edtica feminista em rela\u00e7\u00e3o ao que normalmente e erroneamente esperamos de uma mulher no papel de m\u00e3e, e mergulhar\u00edamos assim no <em>discurso maternalista<\/em>. O que estou colocando \u00e9 que Will acaba por se colocar \u00e0 parte de um papel de cuidado em rela\u00e7\u00e3o ao filho \u2013 papel que ele n\u00e3o consegue exercer, determinado que est\u00e1 por seu papel social, j\u00e1 t\u00e3o cristalizado historicamente, e um lugar que n\u00e3o deseja mudar. Apesar de ter uma forte identifica\u00e7\u00e3o com seus filhos, evidente que n\u00e3o \u00e9 do mesmo modo da m\u00e3e que ele, como genitor, ir\u00e1 cuidar ativamente daqueles que participou em gerar. A tal da \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o materna prim\u00e1ria\u201d[10] \u00e9 objeto da aten\u00e7\u00e3o de Agnes quase cem por cento do tempo. Quando n\u00e3o alcan\u00e7a seus pr\u00f3prios ideais \u2013 inating\u00edveis \u2013 se culpa. Ela \u00e9 ligada aos filhos t\u00e3o intensamente, do mesmo modo que \u00e9 vinculada \u00e0 natureza e seus poderes.<\/p>\n<p>Mas um pai n\u00e3o pode esperar mais de si do que deveria. N\u00e3o ser seu pr\u00f3prio esp\u00edrito obsessor. N\u00e3o ser seu pr\u00f3prio superego severo e cruel. E ent\u00e3o: uma m\u00e3e tamb\u00e9m n\u00e3o. Muito menos ela. Em um tempo em que vida e morte eram muito pr\u00f3ximos, talvez tiv\u00e9ssemos mais consci\u00eancia desses fen\u00f4menos. Hoje apenas disfar\u00e7amos que sabemos. Pois, de certa forma, apesar de termos conquistado muito tecnologicamente, de termos aumentado nossa longevidade, ainda estamos t\u00e3o perto do abismo da morte como antes. Negamos nosso desamparo radical. \u201cA nega\u00e7\u00e3o da morte\u201d, como diz a obra de Ernest Becker.<\/p>\n<p>A mulher n\u00e3o poderia, dessa forma, esperar mais de si al\u00e9m daquilo que lhe compete, assim como o pai, que seria o compartilhamento dos cuidados a um rec\u00e9m-nascido ou crian\u00e7a. Ou seja, direitos e deveres iguais nesses essenciais cuidados.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 sempre embrutecido pois atormentado. Nunca sabe seu lugar no mundo. Ter que \u201cmatar o pai\u201d parece impresso em seu DNA. \u00a0E <em>Culpa<\/em>. Tudo o que acontece depois remete a essa culpa primordial. Fica o tempo todo perdido procurando esse seu tal \u201clugar no mundo\u201d.<\/p>\n<p>As mulheres, como a m\u00e3e de Agnes, morrem no parto. Os homens, ficam perdidos.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>\u201cO belo \u00e9 feio, e o feio \u00e9 belo\u201d (<em>Fair is foul, and foul is fair<\/em>), como brincam suas crian\u00e7as (frase que vai aparecer em uma outra obra de Shakespeare, \u201cMacbeth\u201d). Antit\u00e9ticas palavras[11]. Pois todas as ra\u00edzes criativas s\u00e3o encontradas na inf\u00e2ncia. Outros artistas n\u00e3o nos deixam negar[12].<\/p>\n<p>E s\u00e3o as m\u00e3es e pais quem trazem sempre \u00e0s m\u00e3os as chaves. Alimentam n\u00e3o s\u00f3 na nutri\u00e7\u00e3o de seus filhos; \u201ca m\u00e3e suficientemente boa\u201d ou o \u201cambiente suficientemente bom\u201d \u2013 conceito cunhado por Winnicott \u2013 \u00e9 a alimenta\u00e7\u00e3o da alma e os sonhos de seus filhos.<\/p>\n<p>Vamos em busca de sa\u00eddas e aventuras, ent\u00e3o. Quando \u00e9 sonho, quando \u00e9 fuga? O que poderia ser at\u00e9 bom: a aventura; a experi\u00eancia e busca do diverso[13].<\/p>\n<p>\u201cI\u2019ll be brave, father!\u201d, diz Hamnet ao pai. Em algum outro momento essa mesma bravura fica mais expl\u00edcita e se presentifica, quando Hamnet diz \u00e0 sua irm\u00e3 que a substituiria em sua doen\u00e7a, e assim estaria disposto a enfrentar a morte em nome da restaura\u00e7\u00e3o completa da sa\u00fade dela.<\/p>\n<p>Agnes poderia ser uma esp\u00e9cie de \u201cm\u00e3e <em>solo<\/em>\u201d, mas d\u00f3i n\u00e3o ter mais o homem ao seu lado para testemunhar sua dor. S\u00e3o seus limites, tamb\u00e9m. Naturais. Como pedir um hero\u00edsmo infind\u00e1vel, mesmo de uma mulher corajosa que \u00e9?<\/p>\n<p>A coragem no filho guarda rela\u00e7\u00e3o direta ao papel que Agnes exerceu em sua vida.<\/p>\n<p>Agnes diz em algum momento que Will est\u00e1 preso em sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a, em outras palavras \u2013 utilizando as \u201cnossas\u201d aqui \u2013, em suas pr\u00f3prias maquina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fantasias. O que para ele era teatro, para o filho era uma verdade vivida, encarnada. A raiva que Agnes repentinamente mostra ter por seu marido depois da morte de Hamnet, em que Will vai embora novamente rumo \u00e0 Londres,<\/p>\n<p>O homem precisa buscar para se encontrar. Will precisa n\u00e3o somente ir embora para se \u201creencontrar\u201d de alguma forma com o filho \u2013 como ele diz a ela \u2013, mas para encontrar a si mesmo, nunca t\u00e3o perdido como agora.<\/p>\n<p>A mulher parece ir sempre de encontro a si mesma e ao outro, e desde que n\u00e3o tenha sido pisada e oprimida em alto grau, consegue n\u00e3o se perder[14]. J\u00e1 o homem, ele sabe (dif\u00edcil generalizar, mas deve saber) de suas mis\u00e9rias, ou as esconde de si com maestria. Will, na trama, mostra com veem\u00eancia a forma como se encara. Olha para si de forma extremamente autorrecriminadora (forma t\u00edpica da melancolia), ap\u00f3s a morte do filho, e mesmo antes (por breves momentos depois do nascimento da primeira filha). Se acha o pior dos seres humanos na face da Terra. N\u00e3o tem ilus\u00f5es quanto a si mesmo. Metido em seus pr\u00f3prios labirintos, perdido na floresta escura da sua alma, sem ningu\u00e9m para acompanh\u00e1-lo. Isso aparece bem, quando apesar de Agnes dizer que ele \u00e9 um bom homem, ainda assim Will insiste que est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Uma breve digress\u00e3o: Karl Marx, em \u201cO 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte\u201d, diz que Hegel apresentava a ideia de que \u201ctodos os grandes fatos e todos os grandes personagens da hist\u00f3ria mundial s\u00e3o encenados, por assim dizer, duas vezes.\u201d E que \u201cele esqueceu de acrescentar: a primeira vez como trag\u00e9dia, a segunda como farsa.\u201d O que vem depois da trag\u00e9dia? E da farsa, ent\u00e3o? O cr\u00edtico de arte Hal Foster tentar responder a isso em sua obra \u201cO que vem depois da farsa?\u201d; ao falar sobre artistas, filmes e livros em que se apoia para argumentar em torno das poss\u00edveis respostas, ele comenta sobre um filme, em que \u201cDean pergunta ao ator: qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com sua consci\u00eancia de si? Voc\u00ea j\u00e1 sentiu medo de palco? J\u00e1 conseguiu se esquecer do olhar da plateia? Ele responde de forma amb\u00edgua que, como todos os atores, ele s\u00f3\u00a0 se torna real quando trabalha em um \u2018grande texto\u2019, mas que, assim como \u2018bons pais\u2019, bons atores s\u00e3o capazes de fornecer um espa\u00e7o-tempo para um faz de conta que se torna concreto, real.\u201d Diz ainda a partir de um livro (\u201c10:04\u201d de Ben Lerner): \u201c\u2019A mentira descreve minha vida melhor do que a verdade\u2019, diz (ou imagina dizer) o narrador de 10:04: \u2018A arte \u00e9 o que faz a vida ser mais interessante que a arte\u2019. [\u2026] em \u2018<em>Event for a Stage\u2019<\/em>\u201d. S\u00e3o propostas, segundo Hall Foster, sobre como \u201co artif\u00edcio, o brilho ut\u00f3pico da fic\u00e7\u00e3o, pode ser colocado a servi\u00e7o do real\u201d.<\/p>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o como espa\u00e7o para ascendermos ao que \u00e9 real.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 hist\u00f3ria do filme Hamnet, William, ali na hist\u00f3ria retratada, parece s\u00f3 ter ganho novamente o respeito de sua esposa ao trazer seu filho \u00e0 luz, atrav\u00e9s da arte. N\u00e3o \u00e9 que o casal tivesse desmoronado pelo caminho. Pelo contr\u00e1rio, a cumplicidade entre os dois se mostra o tempo todo de forma muito evidente.<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 quando William atua e dirige sua importante pe\u00e7a aos olhos dela que ela o compreende\u2026 Compreende porque v\u00ea um pouco mais de luz novamente em William e na vida. E consegue recuperar, resgatar a \u201cvis\u00e3o\u201c do filho, a presen\u00e7a viva de Hamnet dentro dela, que ningu\u00e9m poder\u00e1 arrancar[15].\u00a0 E assim reconsiderar Will \u00e0 luz de tudo isso.<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que talvez me dou conta, como espectador de uma obra cinematogr\u00e1fica, de outro fen\u00f4meno: que \u00e9 quando eu consigo perceber a \u201cluz\u201d desse menino \u2013 o personagem \u2013 dado que \u00e9 a magia de Shakespeare mesmo dentro do filme que retrata ele (Shakespeare), Hamnet, e Hamlet \u2013, isso tudo faz o garoto Hamnet voltar \u00e0 vida aos meus olhos tamb\u00e9m, e de como a diretora ilumina isso pra gente, com sua arte, convertendo o querido personagem novamente para uma figura mais viva dentro da gente[16]. \u00c9 a\u00ed que me dou conta da necessidade de se enaltecer a atua\u00e7\u00e3o do menino que representou o Hamnet \u2013 Jacobi Jupe \u2013, de como a luminesc\u00eancia do filme tem muito a ver com a figura carism\u00e1tica, bela e carinhosa deste garoto e deste personagem. Ficamos t\u00e3o fisgados pela atua\u00e7\u00e3o de Jessie Buckley \u2013 que roubou a cena, n\u00e3o s\u00f3 por sua interpreta\u00e7\u00e3o de Agnes, mas pela pr\u00f3pria personagem \u2013, que quase nos faz esquecer o garoto (Hamnet &amp; Jacobi Jupe: quem representa quem?), com sua absoluta singeleza, e performance intensa de todas aquelas emo\u00e7\u00f5es, t\u00e3o dif\u00edceis de trazer ao \u201cpalco\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me questiono: Onde est\u00e1 o real? Quem representa quem? Harold Bloom equaliza e nivela o ser humano Shakespeare ao seu personagem Hamlet[17], como se fossem a mesma pessoa, ou como se o personagem fosse mais real que o criador. Eles parecem belamente se confundir na vis\u00e3o dele. Diz Bloom em seu cap\u00edtulo especial sobre a trag\u00e9dia, sobre essa \u201cconfus\u00e3o\u201d ou paradoxo (em que cita a opini\u00e3o de outra dualidade fict\u00edcia\/real, James Joyce e seu personagem autoficcional Stephen): \u201cJoyce\/Stephen, no entanto, n\u00e3o concorda. Hamlet, o Pr\u00edncipe Dinamarqu\u00eas, e Hamnet Shakespeare s\u00e3o g\u00eameos, e Shakespeare seria, portanto, o pai de seu mais c\u00e9lebre personagem. Mas seria o Fantasma o autor da pe\u00e7a? Shakespeare, com toda aten\u00e7\u00e3o, e com muita ast\u00facia, apresenta-nos um pai e um filho totalmente diferentes um do outro, nas figuras do velho Hamlet e do Pr\u00edncipe. [\u2026] Das qualidades que tomam o Pr\u00edncipe not\u00e1vel, nenhuma poderia ser atribu\u00edda ao pai guerreiro. Como puderam Hamlet e Gertrudes gerar um filho t\u00e3o intelectual a ponto de ser imposs\u00edvel contextualiz\u00e1-lo, mesmo na pe\u00e7a shakespeanana? Na verdade, o Pr\u00edncipe Hamlet parece-se t\u00e3o pouco[18] com o pai quanto com o tio usurpador. [\u2026] Ser\u00e1 que podemos aquilatar o que Hamlet significava para Shakespeare? [\u2026] N\u00e3o existe um Hamlet \u2018real\u2019, assim como n\u00e3o existe um Shakespeare \u2018real\u2019: o personagem, tanto quanto o autor, \u00e9 um espelho d\u2019\u00e1gua onde contemplamos o nosso pr\u00f3prio reflexo\u201d.<\/p>\n<p>E o aparente? O mal? E o bem? \u201cO belo \u00e9 feio, e o feio \u00e9 belo\u201d? Somos criadores ou criaturas, afinal? Criaturas do dem\u00f4nio ou divinas? \u201cSer ou n\u00e3o ser?\u201d Nos acostumamos tanto \u00e0 \u201cardilosa vestimenta do inferno\u201d[19], \u00e0s apar\u00eancias, ao \u201cparecer\u201d em detrimento do ser, que n\u00e3o reparamos mais nos maravilhamentos de e do <em>ser<\/em>.\u00a0 Como Guimar\u00e3es Rosa, ent\u00e3o, \u201cexplico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem \u2013 ou \u00e9 o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidad\u00e3o, \u00e9 que n\u00e3o tem diabo nenhum. Nenhum! \u2013 \u00e9 o que digo.\u201d<\/p>\n<p>O filme nos lembra disso. N\u00e3o somente da ideia acima de que o mal grassa a partir de dentro do homem. Mas dessas possibilidades do sublime, de arrebatamento, perplexidade, deslumbramento. O personagem de Hamlet \u2013 na trag\u00e9dia shakespeariana \u2013, precisa, em seu final, que seu amigo e confidente Hor\u00e1cio interceda por ele e explique aos \u201cdesinformados\u201d as origens de seus atos e motivos. Que Hor\u00e1cio seja uma testemunha de sua hist\u00f3ria, e a relate, como guardi\u00e3o de sua verdade[20]. A cena final de Hamnet guarda rela\u00e7\u00e3o com isso, pois impacta tanto em n\u00f3s, creio que por conta dessa qualidade po\u00e9tica que \u00e9 a do <em>testemunho<\/em>. Quando assistimos \u00e0 Agnes testemunhando todo aquele desdobramento da pe\u00e7a encenada, vislumbramos toda sua dor, e a beleza reencontrada pela arte, e nos identificamos.<\/p>\n<p>O momento em que ela d\u00e1 a m\u00e3o ao ator que faz o Hamlet na pe\u00e7a, e todos a acompanham, \u00e9 a cena que costura toda a narrativa. E \u00e9 de uma beleza arrebatadora. Quaisquer palavras ser\u00e3o poucas para descrever cada momento da cena constru\u00edda pela cineasta e pelas pessoas ali \u2013 vivas \u2013 contracenando com suas pr\u00f3prias dores. Todos os personagens\/atores ali est\u00e3o comungando da mesma dor, e ao mesmo tempo da mesma \u201cbeleza\u201d sublime em que est\u00e3o, por ora, amalgamados. Quando cada um dos espectadores da pe\u00e7a levantam suas m\u00e3os est\u00e3o compartilhando o luto e seu atravessamento, anteriormente s\u00f3 vivenciado por Agnes. Todo luto \u00e9 compartilhado, precisa ser vivenciado em comunh\u00e3o a outras pessoas.<\/p>\n<p>E \u00e9 o momento em que as artes tamb\u00e9m se fundem. Ali est\u00e1 o cinema, o teatro, a literatura e sua poesia, e a m\u00fasica. Esse \u00e9 um dos pontos altos da arte de Chlo\u00e9 Zhao. A estupenda m\u00fasica de Max Richter \u2013 \u201cOn the Nature of Daylight\u201d \u2013 nessa cena final (m\u00fasica que j\u00e1 apareceu em outros filmes e s\u00e9ries) se torna o casamento perfeito, pois consegue reunir, integrar, suturar toda essa costura art\u00edstica e po\u00e9tica de uma forma poucas vezes vistas no cinema.<\/p>\n<p>Pois a verdadeira arte \u00e9 democr\u00e1tica. Por natureza. Quaisquer tentativas de fazer o contr\u00e1rio \u00e9 da ordem da hierarquiza\u00e7\u00e3o do poder, que busca alienar.<\/p>\n<p>\u201cE o resto \u00e9 sil\u00eancio\u201d.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>O menino Hamnet, pouco antes de morrer, parece preso a uma teia. Foi necess\u00e1rio os pais o \u201creencontrarem\u201d por meio da arte e se reconhecerem em suas dores, para \u201clibert\u00e1-lo\u201d. \u00c9 s\u00f3 quando aquele que se perdeu \u00e9 reavivado pela mem\u00f3ria que de fato ele pode partir. Nesse sentido, o resto ser sil\u00eancio, nesse singular momento, \u00e9 algo da ordem da liberdade, de n\u00e3o precisarmos mais sermos consumidos pelo sofrimento. Hamnet pode partir, e n\u00f3s tamb\u00e9m. Ainda que a dor fique, e a saudade permane\u00e7a e receba toda licen\u00e7a para sempre estar.<\/p>\n<p>E a arte nisso tudo? Ou melhor: a imagina\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Agnes, quando da morte de seu falc\u00e3o, diz \u00e0 Hamnet: \u201cToda vez que lembrar dele, basta\u2026.\u201d assobiar. Um pouco antes ela fala \u00e0 filha de como o alecrim \u00e9 usado para <em>lembrar<\/em>. O assobio e um assopro desejante faz quase que magicamente \u201caparecer\u201d p\u00e1ssaros voando no c\u00e9u; a imagina\u00e7\u00e3o como sa\u00edda para o luto, a perda. Agnes, nesse sentido, tamb\u00e9m \u00e9 uma artista[21].<\/p>\n<p>Sa\u00edmos do cinema, portanto, com esse b\u00e1lsamo de realidade e imagina\u00e7\u00e3o a n\u00f3s oferecido, irremediavelmente vivos da sala escura. Mais vivos do que antes. O filme de Chlo\u00e9 \u00e9 uma <em>ode<\/em> ao cinema, \u00e0 arte.<\/p>\n<p>Como diz Bloom em sua obra sobre Shakespeare: \u201cHamlet \u00e9 o paradigma da dor, mas expressa seu pesar com uma verve esfuziante, e sua perene espirituosidade faz com que ele pare\u00e7a vivaz, mesmo estando de luto\u201d.<\/p>\n<p>\u201cHamnet\u201d emociona tanto, pois nos lembra que somos humanos, nos inventa novamente \u2013 lembrando aqui do texto de Bloom. Nos inventa porque nos lembra que temos que nos criar, todos os dias. Nos inventa porque sa\u00edmos do cinema mais uma vez atravessados pela verdade existencial de sermos seres de <em>como\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>empatia<\/em>. Transfigurados que sa\u00edmos da sala escura, ao ganhar a claridade e o redemoinho das ruas, nos perguntamos onde \u00e9 que est\u00e1 o real\u2026 Um portal parece aberto, e n\u00e3o se fecha mais\u2026<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>[1] Acho que aquilo que eu precisei me certificar nesse texto aqui \u2013 como ficar\u00e1 claro ao final \u2013 \u00e9 provar que eu realmente \u2013 ou ainda \u2013 existo, dado que o que foi vivenciado atrav\u00e9s da tela me pareceu muito mais real do que toda a \u201crealidade\u201d reinante.<\/p>\n<p>[2] E que s\u00f3 soube da exist\u00eancia desse \u201cfilme\u201d hoje, ao escrever esse texto. Para comprovar que n\u00e3o estou mentindo, aqui est\u00e1 o detalhe da coisa: \u201cAs\u00a0gl\u00e2ndulas lacrimais\u00a0s\u00e3o estruturas bilobadas situadas na \u00f3rbita superior externa de cada olho, respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da por\u00e7\u00e3o aquosa do filme lacrimal. Elas lubrificam, nutrem e protegem a superf\u00edcie ocular, drenando o excesso de l\u00e1grimas para o nariz\u201d.<\/p>\n<p>[3] Mais auscultadamente, Bion diz, em sua estranh\u00edssima, interessante e bela obra \u201cUma mem\u00f3ria do futuro: I \u2013 O Sonho\u201d, que Falstaff, personagem de Shakespeare, \u201cum artefato conhecido, \u00e9 mais \u2018real\u2019, nas formula\u00e7\u00f5es verbais de Shakespeare, do que incont\u00e1veis milh\u00f5es de pessoas que s\u00e3o opacas, invis\u00edveis, desvitalizadas, irreais, em cujos nascimentos e mortes \u2013 e, que pena! at\u00e9 mesmo casamentos \u2013 somos obrigados a acreditar, j\u00e1 que sua exist\u00eancia \u00e9 certificada e garantida pela assim chamada certid\u00e3o oficial\u201d (Bion, W. R., 1989, p. 8).<\/p>\n<p>[4] William Shakespeare.<\/p>\n<p>[5] S\u00eaneca, em sua obra \u201cSobre a Ira\u201d, utiliza diversos exemplos hist\u00f3ricos para ilustrar os perigos e a irracionalidade de determinadas \u201cpaix\u00f5es\u201d, como exemplo a ira, com hist\u00f3rias de reis e poderosos que cometeram atos atrozes motivados pela f\u00faria. Um dos exemplos not\u00e1veis envolve o c\u00f4nsul romano Cneu Calp\u00farnio Pis\u00e3o (Gnaeus Calpurnius Piso): Pis\u00e3o, tomado de ira, ordenou que fosse levado \u00e0 execu\u00e7\u00e3o um\u00a0 soldado sob a suspeita de que ele havia assassinado seu companheiro, desaparecido. Pouco tempo depois, o companheiro reapareceu, bem no momento em que o soldado condenado j\u00e1 exibia seu pesco\u00e7o para ser arrancado, provando a inoc\u00eancia desse soldado. Um centuri\u00e3o, ao perceber o erro, ordena \u00e0 sentinela suspender a execu\u00e7\u00e3o. Em vez de reconhecer a inoc\u00eancia do soldado, Pis\u00e3o ficou ainda mais furioso com a desobedi\u00eancia e no auge da sua ira ordenou a execu\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas homens: o soldado inicialmente acusado que ainda n\u00e3o matara, o outro que havia retornado e n\u00e3o morrera (simplesmente por ter se atrasado) e o centuri\u00e3o (por n\u00e3o ter cumprido a ordem inicial imediatamente). S\u00eaneca parece usar essa hist\u00f3ria para demonstrar como buscamos raz\u00f5es para a nossa pr\u00f3pria f\u00faria, raiva e vontade de poder, o que leva, na maioria das vezes, \u00e0 decis\u00f5es injustas e precipitadas e sem fundamento, destruindo assim toda base de confian\u00e7a humana. Ou seja, nos fazendo sempre herdeiros do trono do trauma.<\/p>\n<p>[6] A raiz etimol\u00f3gica da palavra \u201cdiabo\u201d \u2013 <em>diabolus<\/em> \u2013 diz daquele \u201cque acusa\u201d, \u201cque divide\u201d, \u201ccalunia\u201d.<\/p>\n<p>[7] Ferenczi diz: \u201cEssa suposi\u00e7\u00e3o etiol\u00f3gica se apoia em uma das diferentes concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas em uso, relativas \u00e0 efic\u00e1cia das puls\u00f5es de vida ou de morte nas diferentes etapas da vida. Existia a tend\u00eancia a pensar que nos indiv\u00edduos que acabam de chegar \u00e0 vida, as puls\u00f5es desse tipo eram mais importantes devido ao impressionante empurr\u00e3o do crescimento; em geral, se tendia a representar as puls\u00f5es de morte e de vida como simples s\u00e9ries complementares, nas quais o m\u00e1ximo de vida devia corresponder ao seu in\u00edcio e o ponto zero \u00e0 idade avan\u00e7ada. Agora parece que n\u00e3o ocorre assim exatamente. De qualquer forma, ao in\u00edcio da vida intra e extrauterina, os \u00f3rg\u00e3o e suas fun\u00e7\u00f5es se dilatam com uma abund\u00e2ncia e uma rapidez surpreendentes, mas somente em condi\u00e7\u00f5es particularmente favor\u00e1veis de prote\u00e7\u00e3o do embri\u00e3o e da crian\u00e7a. A crian\u00e7a deve ser levada, com muito amor, ternura e cuidados, a perdoar seus pais por haver-lhe trazido ao mundo sem o consultar, porque de outro modo os impulsos de destrui\u00e7\u00e3o despertam prontamente. E, no fundo, n\u00e3o h\u00e1 porque estranhar-se isso, pois o beb\u00ea, contrariamente ao adulto, est\u00e1 muito mais perto do n\u00e3o-ser individual, do que n\u00e3o tenha sido afastado ainda pela experi\u00eancia de vida. Para as crian\u00e7as, caminhar at\u00e9 esse n\u00e3o-ser seria muito mais f\u00e1cil. A \u201cfor\u00e7a vital\u201d que resiste \u00e0s dificuldades da vida n\u00e3o \u00e9 ainda muito forte no momento do nascimento; aparentemente somente se refor\u00e7a por tr\u00e1s da imuniza\u00e7\u00e3o progressiva contra os atentados f\u00edsicos e ps\u00edquicos, mediante um tratamento e uma educa\u00e7\u00e3o levadas com tato. De acordo com o decrescimento da curva de morbidez e de mortalidade da idade m\u00e9dia, a puls\u00e3o de vida podia contrapesar as tend\u00eancia \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o na idade madura.\u201d<\/p>\n<p>[8] A famosa express\u00e3o \u201cuma libra de carne\u201d aparece na pe\u00e7a\u00a0\u201cO Mercador de Veneza\u201d\u00a0de\u00a0William Shakespeare, que \u00e9 o cerne do contrato firmado entre o agiota judeu Shylock e o mercador crist\u00e3o Ant\u00f4nio, que oferece seu pr\u00f3prio corpo como garantia de um empr\u00e9stimo.<\/p>\n<p>[9] E podem ter o que a psicanalista Karen Horney chamou de \u201cinveja do \u00fatero\u201d, ou inveja da maternidade. Ela sugeriu que \u201ca inveja masculina da gravidez, da amamenta\u00e7\u00e3o e da maternidade \u2014 do papel primordial da mulher na cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da vida \u2014 levava os homens a reivindicar sua superioridade em outros campos\u201d. (fonte: https:\/\/www.britannica.com\/biography\/Karen-Horney)<\/p>\n<p>[10] Hoje um controverso conceito winnicottiano, pois \u00e9 normalmente voltado \u00e0s mulheres, dado que essa \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o\u201d devotada poderia ser exercida por pessoas de quaisquer g\u00eaneros.<\/p>\n<p>[11] No Inconsciente, como diz Freud, a l\u00f3gica convencional e a contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe. Se valendo de teses de linguistas, Freud vai falar de como em algumas l\u00ednguas primitivas as representa\u00e7\u00f5es opostas convivem harmonicamente no inconsciente, explicitando assim a dimens\u00e3o subjetiva na linguagem.<\/p>\n<p>[12] Um exemplo, entre tantos, foi o escritor, roteirista e ator mexicano Roberto Bola\u00f1os (e que, aqui, sem entrar no m\u00e9rito da quest\u00e3o de arte \u201cmenor\u201d ou \u201cmaior\u201d), que se utilizou muito das mem\u00f3rias de sua inf\u00e2ncia para a cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de seus personagens mais famosos, como o Chaves e o Chapolin, segundo seu livro de mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>[13] Empreendemos v\u00e1rias jornadas heroicas durante a vida e aparentemente nos afastamos de nossas origens e vamos nos distorcendo at\u00e9 o limite, gerando toda sorte de viol\u00eancias e abismos internos desde l\u00e1 de nossas transgeracionais ra\u00edzes mais \u201cprimitivas\u201d, de nossos ancestrais mais remotos. Parece certo que alguns povos n\u00e3o precisaram fazer esse mesmo tipo de jornada, vivendo em conson\u00e2ncia a um estado de natureza mais direto. Os povos origin\u00e1rios de nosso pa\u00eds pode ser um exemplo. Isso n\u00e3o cria a necessidade de demonizarmos as formas como o ser humano ao longo da hist\u00f3ria se empenhou em sair de seu \u201clar\u201d. O problema \u00e9 quando o ser humano realizou isso buscando atingir n\u00e3o a diversidade, n\u00e3o a experi\u00eancia com o diferente, a variedade, ou \u201ca realidade\u201d, mas foi se organizando a partir disso para obter mais poder e posse para dom\u00ednio dos outros, de outros povos e outras culturas diferentes da dele. Isso fez com que a experi\u00eancia com o diverso se tornasse sempre um fen\u00f4meno de luta contra aquilo que fosse desconcordante. Perdemos o que melhor poderia vir de um encontro com outros territ\u00f3rios e culturas.<\/p>\n<p>[14] Opress\u00f5es que fizeram parte do que normalmente ocorreu ao longo da hist\u00f3ria. Os homens, na busca de mais poder, retiraram as mulheres dos lugares e ocupa\u00e7\u00f5es a que estavam ligadas em t\u00e3o alto grau. Homens que se julgavam acima da lei e de Deus; como aconteceu, por exemplo, no avan\u00e7o da medicina, em que homens despreparados assumiram o posto que outrora era das mulheres. E que, a partir disso, irrefutavelmente com resultados desastrosos, com erros e viol\u00eancias obst\u00e9tricas impar\u00e1veis cometidas (aqui usando o exemplo da medicina do parto) todos esses dias por esses pretensos m\u00e9dicos. Silvia Federici, em \u201cCalib\u00e3 e a Bruxa\u201c, diz: \u201cCom a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 curandeira popular, as mulheres foram expropriadas de um patrim\u00f4nio de saber emp\u00edrico, relativo a ervas e rem\u00e9dios curativos, que haviam acumulado e transmitido de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o \u2014 uma perda que abriu o caminho para uma nova forma de cercamento: o surgimento da medicina profissional, que, apesar de suas pretens\u00f5es curativas, erigiu uma muralha de conhecimento cientifico indisput\u00e1vel, inacess\u00edvel e estranho para as \u2018classes baixas\u2019 (Ehrenreich e English, 1973; Starhawk, 1997). [\u2026] Tanto na Franca, quanto na Inglaterra, a partir do final do s\u00e9culo XVI, poucas mulheres foram autorizadas a praticar a obstetr\u00edcia, uma atividade que, at\u00e9 ent\u00e3o, havia sido seu mist\u00e9rio inviol\u00e1vel. Por volta do in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, come\u00e7aram a aparecer os primeiros homens parteiros e, em questao de um s\u00e9culo, a obstetr\u00edcia havia ca\u00eddo quase completamente sob controle estatal. Segundo Alice Clark, o continuo processo de substitui\u00e7\u00e3o das mulheres por homens na profiss\u00e3o \u00e9 um exemplo do modo como elas foram exclu\u00eddas de todos os ramos de trabalho especializado, conforme as oportunidades de obten\u00e7\u00e3o de um treinamento profissional adequado lhes eram negadas. (Clark, 1968, p. 265)\u201d.<\/p>\n<p>[15] Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de um processo de luto.<\/p>\n<p>[16] Veja tamb\u00e9m a cena \u2013 bem antes, mais para a metade do filme \u2013 em que ela d\u00e1 um enquadre discreto para a \u00faltima vez que Will v\u00ea Hamnet vivo, na despedida deles antes de Will ir trabalhar em Londres por algum tempo.<\/p>\n<p>[17] Segundo Bloom: \u201cAparentemente, o nome foi uma homenagem prestada por Shakespeare a um amigo, Hamnet, ou Hamlet Sader, mas qualquer ingl\u00eas chamado Hamnet\/Hamlet, em \u00faltima an\u00e1lise, invocava a<\/p>\n<p>figura lend\u00e1ria de Amleth, conforme o jovem Shakespeare, dado \u00e0 leitura, bem o sabia. Amleth era famoso por sua esperteza e loucura, das quais dependeu seu grande triunfo. Teria sido o primeiro Hamlet uma trag\u00e9dia? Ser\u00e1 que o Pr\u00edncipe morria, ou tal evento surgiria mais tarde, como o pre\u00e7o da apoteose do personagem enquanto consci\u00eancia e intelecto? O Amleth lend\u00e1rio, segundo Belleforest, casa-se com a filha do rei da Bet\u00e2nia e, ent\u00e3o, vinga-se do pai, matando o tio. Torna-se, assim, uma esp\u00e9cie de her\u00f3i brit\u00e2nico, e podemos imaginar Shakespeare escrevendo o primeiro Hamlet tendo em mente certas esperan\u00e7as com respeito ao filho, ent\u00e3o uma crian\u00e7a de tr\u00eas ou quatro anos de idade. Quando Shakespeare escreve a vers\u00e3o final de Hamlet, Hamnet Shakespeare j\u00e1 est\u00e1 morto h\u00e1 quatro anos, e o fantasma do menino de onze anos n\u00e3o consta da pe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>[18] (Nota minha sobre este detalhe da cita\u00e7\u00e3o): Destaco aqui tamb\u00e9m a improbabilidade de um filho de comerciante endividado se tornar um artista, um intelectual, como \u00e9 retratada a figura de William Shakespeare no filme. A improbabilidade poss\u00edvel de acontecimentos como estes \u00e9 vista todos os dias, em que a vida imita a arte, ou a arte imita a vida, ou que aquilo que soa t\u00e3o improv\u00e1vel \u00e9 na verdade extremamente cr\u00edvel. E no campo da arte, portanto, seria uma prova de <em>verossimilhan\u00e7a<\/em>.<\/p>\n<p>[19] Formula\u00e7\u00e3o presente em outra obra de Shakespeare.<\/p>\n<p>[20] Segundo Harold Bloom: \u201cPor que Hamlet se preocupa com sua reputa\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma? Em momento algum \u00e9 t\u00e3o ardente como ao exigir de Hor\u00e1cio que continue vivo \u2013 n\u00e3o pela alegria de viver, e apesar do sofrimento que \u00e9 a vida \u2013, apenas para salvaguardar o bom nome do Pr\u00edncipe. Somente no final da pe\u00e7a o p\u00fablico assume alguma import\u00e2ncia para Hamlet, que necessita de n\u00f3s para conferirmos valor e sentido \u00e0 sua morte. Sua hist\u00f3ria precisa ser contada, e n\u00e3o apenas a Fortimbr\u00e1s, e deve ser relatada por Hor\u00e1cio, o \u00fanico que a conhece verdadeiramente\u201d. Recorro aqui a essa passagem, pois de alguma forma mostra a import\u00e2ncia da narrativa e da arte em nossas vidas, trazer \u00e0 vida aquilo que j\u00e1 passou. A beleza e infinitude do personagem e obra \u201cHamlet\u201d \u00e9 referido por Bloom, citando Nietzsche, o qual afirmava \u201cque Hamlet era dotado do \u2018conhecimento verdadeiro, da vis\u00e3o da verdade terr\u00edvel\u2019, isto \u00e9, o abismo entre a realidade<\/p>\n<p>mundana e o devaneio dionis\u00edaco de uma consci\u00eancia infinita\u201d. \u201cHamlet somos n\u00f3s\u201d, conforme falou William Hazlitt.<\/p>\n<p>[21] E Will, um bruxo. Um \u201cbruxo das palavras\u201d, segundo a psicanalista Carla Pierre.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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A amea\u00e7a de um abismo sempre ao lado. Um homem atormentado pela incompletude. Uma fam\u00edlia devastada pela morte do filho e a imagina\u00e7\u00e3o como sa\u00edda para o luto. Retalhos do filme baseado na vida de Shakespeare<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/hamnet-criadores-criaturas\/\">&lt;i&gt;Hamnet&lt;\/i&gt;: Criadores ou criaturas?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":76058,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[37108,37109,33987,37110,37111,1217,33988,36449,37112,5499,14743,37113,1286,37114],"tags":[],"class_list":["post-76057","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bruxas-da-floresta","category-caliba-e-a-bruxa","category-chloe-zhao","category-encenacao","category-ficcao","category-genero","category-hamlet","category-hamnet","category-harold-bloom","category-poeticas","category-psicanalise","category-silvia-federici","category-teatro","category-willian-shakespeare"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76057","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76057"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76057\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76058"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76057"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76057"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76057"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}