{"id":77134,"date":"2026-03-06T17:09:31","date_gmt":"2026-03-06T20:09:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/apegos-ferozes-encontros-feministas-latino-americanos\/"},"modified":"2026-03-06T17:09:31","modified_gmt":"2026-03-06T20:09:31","slug":"apegos-ferozes-encontros-feministas-latino-americanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/apegos-ferozes-encontros-feministas-latino-americanos\/","title":{"rendered":"Apegos ferozes: Encontros feministas latino-americanos"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"863\" height=\"486\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/aborto_argentina12122844.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/aborto_argentina12122844.jpg 863w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/06170248\/aborto_argentina12122844-300x169.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/06170248\/aborto_argentina12122844-768x433.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 863px) 100vw, 863px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Alejandra Oberti<\/strong>, para a coluna da <em>BVPS (Biblioteca Virtual do Pensamento Social)<\/em> | Edi\u00e7\u00e3o: <strong>Maur\u00edcio Ayer<\/strong> <strong>(TEL\/UnB)<\/strong>, <em>Projeto Caminho de Formiga<\/em><\/p>\n<h3><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Em julho de 1981, nos arredores de Bogot\u00e1, cerca de duzentas mulheres reuniram-se no Primeiro Encontro Feminista da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, um acontecimento pol\u00edtico de grande relev\u00e2ncia para o feminismo regional por, ao menos, tr\u00eas raz\u00f5es. Em primeiro lugar, por sua persist\u00eancia ao longo do tempo: os Encontros continuam sendo realizados at\u00e9 hoje, a cada dois ou tr\u00eas anos, em diferentes pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe. Em segundo lugar, porque neles se condensaram debates centrais do feminismo da \u00e9poca \u2013 a autonomia do movimento, a dupla milit\u00e2ncia, a defini\u00e7\u00e3o de seu sujeito pol\u00edtico, a visibilidade l\u00e9sbica e a viol\u00eancia \u2013 formulados a partir de uma perspectiva situada na realidade latino-americana. Finalmente, porque os Encontros possibilitaram uma forma particular de articula\u00e7\u00e3o feminista que contribuiu para imaginar uma comunidade regional com um olhar pr\u00f3prio sobre os problemas do continente. Como assinalam as acad\u00eamicas e ativistas Sonia \u00c1lvarez, Elizabeth Friedman, Ericka Beckman, Maylei Blackwell, Norma Chinchilla, Nathalie Lebon, Marisa Navarro e Marcela R\u00edos Tobar (2003), esses espa\u00e7os foram cruciais para \u201cimaginar\u201d comunidades feministas latino-americanas, desafiar normas culturais nacionalistas e masculinistas e criar uma gram\u00e1tica pol\u00edtica feminista comum.<\/p>\n<p>Embora o Encontro de Bogot\u00e1 tenha sido um acontecimento inovador, ele n\u00e3o constituiu um fato isolado. Durante a d\u00e9cada de 1970 realizaram-se diversas reuni\u00f5es e confer\u00eancias de car\u00e1ter transnacional que reuniram mulheres do continente, muitas delas vinculadas a agendas acad\u00eamicas ou a organismos multilaterais.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--11.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--11.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Nesse contexto, o Encontro Feminista de 1981 destacou-se por reunir caracter\u00edsticas que o diferenciaram de outros espa\u00e7os: seu car\u00e1ter militante e aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o aos Estados, aos governos, \u00e0 academia e aos organismos internacionais; a discuss\u00e3o horizontal; e a inven\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias organizativas pr\u00f3prias. Tratou-se de um espa\u00e7o de reflex\u00e3o entre feministas latino-americanas sobre sua pr\u00f3pria realidade, um lugar de reconhecimento m\u00fatuo.<\/p>\n<p>O feminismo latino-americano forjou-se nesses Encontros, que foram simultaneamente resultado da conflu\u00eancia de din\u00e2micas locais e espa\u00e7os de cria\u00e7\u00e3o de novas perspectivas, formas de a\u00e7\u00e3o e v\u00ednculos afetivos. Nos Encontros circularam n\u00e3o apenas ideias, linguagens e valores, mas tamb\u00e9m emo\u00e7\u00f5es compartilhadas, fundamentais para compreender a pr\u00e1xis feminista regional. Nesse sentido, constitu\u00edram espa\u00e7os onde se forjaram alian\u00e7as afetivas feministas a partir da vulnerabilidade e da resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Nestas p\u00e1ginas apresento algumas das discuss\u00f5es que ocorreram no momento em que os Encontros come\u00e7avam a tomar forma: os debates sobre o car\u00e1ter que se pretendia lhes conferir, sua relev\u00e2ncia para a articula\u00e7\u00e3o de uma perspectiva feminista latino-americana e as discuss\u00f5es em torno do sujeito do feminismo. Como se chegou \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do Encontro de Bogot\u00e1? O que distingue o \u201cEncontro\u201d de outros f\u00f3runs internacionais? E o que representou essa modalidade de articula\u00e7\u00e3o para os feminismos da regi\u00e3o? Essas s\u00e3o algumas das perguntas que organizam a an\u00e1lise, atenta tanto \u00e0s discuss\u00f5es pol\u00edticas quanto aos v\u00ednculos afetivos gerados nesses espa\u00e7os.<\/p>\n<p>Estudar a hist\u00f3ria das a\u00e7\u00f5es e do pensamento feminista n\u00e3o \u00e9 tarefa simples. No caso dos Encontros, e apesar de sua import\u00e2ncia, a documenta\u00e7\u00e3o produzida neles n\u00e3o se encontra dispon\u00edvel de forma sistem\u00e1tica. \u201cFaltam genealogias\u201d \u2013 costuma-se dizer \u2013 embora o pensamento feminista tenha sido particularmente prol\u00edfico ao tentar tra\u00e7\u00e1-las, nutrindo a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com o trabalho das gera\u00e7\u00f5es que nos precederam. Uma antiga f\u00e1bula feminista insiste em reivindicar as bruxas e seu destino como emblema da sabedoria das mulheres cujos conhecimentos foram reprimidos e invisibilizados (Fischer, 1995: 70). Assim como esses saberes, os arquivos feministas tampouco s\u00e3o f\u00e1ceis de localizar, apesar dos esfor\u00e7os de militantes, grupos e projetos de documenta\u00e7\u00e3o que preservam e organizam entrevistas, atas de encontros, folhetos, documentos e fotografias que d\u00e3o testemunho das a\u00e7\u00f5es feministas. Come\u00e7o, portanto, estas notas reconhecendo esse trabalho de guardar, preservar, ordenar e publicar \u2013 muitas vezes de maneira artesanal \u2013 realizado em alguns centros de documenta\u00e7\u00e3o e, sobretudo, aquele que militantes de diferentes lugares realizam espontaneamente.[1]<\/p>\n<h3><strong>Encontro, feminista e latino-americano<\/strong><\/h3>\n<p>A ideia de realizar um Encontro Feminista da Am\u00e9rica Latina e do Caribe come\u00e7ou a tomar forma a partir da experi\u00eancia de algumas ativistas latino-americanas que participaram da Tribuna do Ano Internacional da Mulher, realizada no M\u00e9xico em 1975. Muitas delas retornaram com a convic\u00e7\u00e3o de que era necess\u00e1rio criar um espa\u00e7o pr\u00f3prio e aut\u00f4nomo, no qual as mulheres do continente pudessem refletir coletivamente sobre sua condi\u00e7\u00e3o e definir uma agenda feminista situada na realidade do Sul. No entanto, essa ideia levou alguns anos para se concretizar.<\/p>\n<p>O primeiro grupo a retomar esse desafio foi o coletivo venezuelano La Conjura, que prop\u00f4s Caracas como sede de um encontro feminista latino-americano. Diversos obst\u00e1culos, contudo, impediram que o Encontro fosse realizado naquele pa\u00eds. Nesse contexto, a Col\u00f4mbia surgiu como uma alternativa vi\u00e1vel, dado o dinamismo de seu movimento de mulheres, que rapidamente assumiu a organiza\u00e7\u00e3o do evento.<\/p>\n<p>Durante as reuni\u00f5es preparat\u00f3rias, realizadas em diferentes cidades do pa\u00eds, foram tomadas decis\u00f5es-chave sobre o car\u00e1ter do Encontro. A declara\u00e7\u00e3o elaborada naquele momento reafirmava a autonomia da Coordenadora e estabelecia que todas as participantes deveriam aceitar que sua participa\u00e7\u00e3o se daria em car\u00e1ter pessoal. Entretanto, em reuni\u00f5es posteriores, esses consensos foram questionados \u2013 sobretudo por militantes de partidos pol\u00edticos \u2013 e algumas decis\u00f5es passaram a ser tomadas por vota\u00e7\u00e3o, pr\u00e1tica que desde ent\u00e3o gera desconforto entre feministas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/08\/31180016\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Debateu-se se deveria ser convocado um encontro amplo, que reunisse todas as mulheres comprometidas com a liberta\u00e7\u00e3o feminina, ou um encontro estritamente feminista; e se a participa\u00e7\u00e3o deveria manter-se a t\u00edtulo individual. Houve avan\u00e7os e retrocessos, divis\u00f5es internas e, em determinado momento, chegou-se a considerar a possibilidade de realizar dois encontros paralelos. Finalmente, acordou-se a realiza\u00e7\u00e3o de um \u00fanico Encontro, em julho de 1981, em um espa\u00e7o cedido pelo Instituto Nacional de Estudos Sociais (INES), nos arredores de Bogot\u00e1.<\/p>\n<p>Apesar dos conflitos, o processo levou \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios fundamentais que marcariam os encontros posteriores: o car\u00e1ter feminista do evento, a participa\u00e7\u00e3o individual, a autonomia em rela\u00e7\u00e3o a partidos e organiza\u00e7\u00f5es, a constru\u00e7\u00e3o coletiva n\u00e3o hier\u00e1rquica e a aus\u00eancia de pain\u00e9is de especialistas. Consolidou-se tamb\u00e9m a ideia de autofinanciamento e da necessidade de contar com espa\u00e7os f\u00edsicos pr\u00f3prios para o debate entre feministas.<\/p>\n<p>Essas disputas, longe de serem meramente aned\u00f3ticas, condensam dilemas conceituais que acompanharam o feminismo latino-americano em sua constitui\u00e7\u00e3o como movimento pol\u00edtico com voz e agenda pr\u00f3prias, ao menos em dois sentidos. Por um lado, as tens\u00f5es contribu\u00edram para dar forma aos princ\u00edpios organizativos que passariam a caracterizar os Encontros. Por outro, instaurou-se o debate em torno da \u201cautonomia\u201d, no\u00e7\u00e3o que nem todas compreendiam da mesma maneira. Assim, ficou aberta a pergunta sobre o que significava construir um espa\u00e7o pol\u00edtico pr\u00f3prio para debater a partir do feminismo, sem tutela partid\u00e1ria nem subordina\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas (Suaza Vargas, 2008; Armenta <em>et al.,<\/em> 1981; Fischer, 2005).[2]<\/p>\n<p>Embora essa disputa n\u00e3o fosse nova \u2013 nem exclusiva da regi\u00e3o \u2013, declarar-se feminista em um contexto no qual boa parte das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e populares condenava o feminismo como um desvio pequeno-burgu\u00eas, distante dos urgentes problemas sociais e pol\u00edticos latino-americanos, representava um dilema para muitas militantes cuja trajet\u00f3ria pessoal as aproximava dessas correntes. Esse conflito ficou claramente refletido nos debates do Encontro, especialmente no ateli\u00ea \u201cluta pol\u00edtica\u201d, no qual se expressaram diferentes posi\u00e7\u00f5es sobre a dupla milit\u00e2ncia, a rela\u00e7\u00e3o entre luta feminista e anti-imperialismo e sobre como articular classe e g\u00eanero na luta feminista (Bolet\u00edn Internacional de las Mujeres Isis, 1981: 30).[3]<\/p>\n<p>Ao tentar elaborar uma s\u00edntese entre as diversas posi\u00e7\u00f5es acerca da autonomia e da dupla milit\u00e2ncia, a soci\u00f3loga feminista dominicana Magaly Pineda recorda, por contraste, sua experi\u00eancia na Tribuna realizada no M\u00e9xico em 1975 e destaca enfaticamente a disposi\u00e7\u00e3o ao encontro que se produzia em Bogot\u00e1:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Entendo autonomia como um termo que implica uma luta na qual tomamos nossa iniciativa, mas subordinada a um projeto social \u2013 n\u00e3o ao partido, mas a um projeto de transforma\u00e7\u00e3o, o projeto socialista ou de uma nova sociedade. Creio que, em termos de nosso feminismo aut\u00f4nomo, essa continua sendo \u2013 e deve continuar sendo \u2013 uma palavra-chave. Quanto \u00e0 dupla milit\u00e2ncia, trata-se de uma quest\u00e3o que n\u00e3o vamos resolver agora; inclusive, o mais rico de tudo isso \u00e9 que aqui h\u00e1 militantes falando de feminismo. Eu estava no M\u00e9xico em 1975, senhoras!\u2026 e nos dividimos entre pol\u00edticas e feministas. Aqui estamos agora mulheres buscando cada uma\u2026 (Cine Mujer, 1981).[4]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para al\u00e9m das diverg\u00eancias, o Encontro de Bogot\u00e1 representou, para aquelas que participaram, uma abertura a uma nova forma de viver o feminismo e um acontecimento pol\u00edtico singular. Nancy Sternbach, Marysa Navarro, Patricia Chuchryk e Sonia \u00c1lvarez (1994: 270) afirmam que, a partir desse encontro, as feministas da Am\u00e9rica Latina perceberam a possibilidade de \u201ccriar uma linguagem feminista pr\u00f3pria e comum, que repercutiu nas perspectivas a partir das quais cada grupo militava em seus pr\u00f3prios pa\u00edses\u201d. O Encontro reafirmou que o feminismo latino-americano n\u00e3o era uma importa\u00e7\u00e3o do Norte global, mas uma resposta \u00e0s opress\u00f5es interseccionais vividas na regi\u00e3o. Ao mesmo tempo, consolidou-se como um movimento amplo, diverso e em constante constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse primeiro momento, o conceito de autonomia adquiriu contornos cada vez mais complexos e passou a ser questionado sob novas perspectivas: a institucionaliza\u00e7\u00e3o do movimento, as ONGs, o financiamento internacional, a academia e a participa\u00e7\u00e3o em organismos estatais trouxeram novos desafios e tens\u00f5es. A institucionaliza\u00e7\u00e3o de algumas demandas feministas e a crescente procura por saberes especializados sobre mulheres e g\u00eanero por parte de organismos internacionais e governos nacionais impulsionaram modalidades de a\u00e7\u00e3o que extrapolavam as formas tradicionais de milit\u00e2ncia.<\/p>\n<h3><strong>Apegos ferozes<\/strong><\/h3>\n<p>Essa breve revis\u00e3o das mem\u00f3rias do momento de gesta\u00e7\u00e3o dos Encontros permite identificar alguns tra\u00e7os centrais para pensar seu lugar na genealogia dos feminismos latino-americanos.<\/p>\n<p>Primeiro, o gesto de dar-se um nome. Lidas em seu contexto hist\u00f3rico, as palavras \u201cencontro\u201d, \u201cfeminista\u201d e \u201clatino-americano\u201d condensam disputas de sentido e expressam uma defini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica situada do feminismo na regi\u00e3o, afirmando desde o in\u00edcio sua especificidade e sua diversidade.<\/p>\n<p>Segundo, os Encontros estabeleceram uma rela\u00e7\u00e3o expl\u00edcita entre as lutas feministas e os processos de transforma\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o do continente. Desde Bogot\u00e1, marcou-se uma diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos feminismos da Europa e dos Estados Unidos \u2013 inclusive aos feminismos socialistas \u2013 ao incorporar \u00e0 agenda a cr\u00edtica ao imperialismo, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de subordina\u00e7\u00e3o global e \u00e0s d\u00edvidas externas. Essas quest\u00f5es passaram a integrar os Encontros desde suas primeiras edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Terceiro, a pergunta pelo sujeito do feminismo: sua amplitude ou n\u00e3o; sua rela\u00e7\u00e3o com classe social, racismo e viol\u00eancias sociais; e a inclus\u00e3o de mulheres camponesas, trabalhadoras e de setores populares.<\/p>\n<p>Por fim, o problema da autonomia em rela\u00e7\u00e3o aos partidos pol\u00edticos, a institucionaliza\u00e7\u00e3o, a depend\u00eancia ou n\u00e3o de ag\u00eancias de financiamento e os v\u00ednculos com o Estado constituem um n\u00facleo problem\u00e1tico que permanece at\u00e9 o presente.<\/p>\n<p>Depois de Bogot\u00e1, os Encontros continuaram sendo espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o feminista. Funcionaram como cen\u00e1rios de intensos debates entre correntes e grupos e como arenas onde emergiram novas problem\u00e1ticas. A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de \u201cencontro\u201d consolidou-se como um n\u00f3 conceitual que articula uma forma de pensar o sujeito pol\u00edtico do feminismo e a trama de suas m\u00faltiplas determina\u00e7\u00f5es.,<\/p>\n<p>Essa trama \u00e9 pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m afetiva: forja-se nas discuss\u00f5es, mas tamb\u00e9m nos v\u00ednculos que nascem da vulnerabilidade e da resist\u00eancia, da esperan\u00e7a e da alegria, nesse movimento ondulante das emo\u00e7\u00f5es. N\u00e3o por acaso, muitas feministas relatam ter sa\u00eddo dos Encontros \u201csurpreendidas\u201d e \u201cmaravilhadas\u201d. Como assinala Sara Ahmed (2015), o assombro mant\u00e9m vivo o desejo de continuar buscando e abre a possibilidade de uma vida vivida com frescor. O testemunho de uma participante do Encontro de Bertioga, realizado em 1985, condensa essa experi\u00eancia afetiva: \u201cEscrever sobre aqueles dias \u00e9 tentar transmitir uma experi\u00eancia vivida com grande emo\u00e7\u00e3o, para a qual temo n\u00e3o ter palavras suficientes [\u2026] um n\u00e3o querer despedir-se, a express\u00e3o da energia, da alegria e do afeto que se desenvolveram no encontro.\u201d (Luna, 1985: 1-4)<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o apenas as experi\u00eancias compartilhadas, portanto, mas tamb\u00e9m as emo\u00e7\u00f5es que produzem proximidades e dist\u00e2ncias e que criam comunidades de afeto inst\u00e1veis, por\u00e9m poderosas. Estar juntas, discutir inclusive com f\u00faria, gerou um v\u00ednculo afetivo que tamb\u00e9m se estende e se conecta com aquelas que vieram antes: \u201cAs feministas nos encontramos umas \u00e0s outras, n\u00e3o necessariamente porque tenhamos percorrido os mesmos caminhos, mas porque reconhecemos nas hist\u00f3rias de outras algo que sentimos em nosso pr\u00f3prio corpo\u201d (Ahmed, 2021: 69).<\/p>\n<p>Os afetos constituem um componente fundamental da pol\u00edtica feminista e contribuem para a cria\u00e7\u00e3o de uma linguagem pol\u00edtica pr\u00f3pria. Enquanto o patriarcado, o capitalismo, as viol\u00eancias de Estado e o racismo representam a soma de m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia, os feminismos forjados nos Encontros \u2013 com suas discuss\u00f5es, risos e dan\u00e7as, imagens e poesias \u2013 disputam o direito de pensar a Am\u00e9rica Latina a partir de uma perspectiva feminista.<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>[1] Muitas ativistas feministas preservaram documenta\u00e7\u00e3o valiosa em suas casas e escrit\u00f3rios. Por outro lado, o Arquivo Hist\u00f3rico \u201cVamos Mujer. Movimiento Social de Mujeres\u201d, da Universidade Nacional da Col\u00f4mbia, e a Biblioteca \u201cRosario Castellanos\u201d, do Centro de Investiga\u00e7\u00f5es e Estudos de G\u00eanero da Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico, reuniram e sistematizaram a produ\u00e7\u00e3o documental e os arquivos de algumas organiza\u00e7\u00f5es e ativistas, realizando uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental para a preserva\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o do patrim\u00f4nio documental do feminismo e do movimento de mulheres.<\/p>\n<p>[2] As integrantes da Coordenadora elaboraram uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es que reuniram em um dossi\u00ea documental. Trata-se de relatos em primeira pessoa, di\u00e1logos e entrevistas \u2013 alguns manuscritos, outros datilografados \u2013 nos quais se referem \u00e0 sua experi\u00eancia como parte da Coordenadora e descrevem vividamente a rela\u00e7\u00e3o com as esquerdas colombianas e os avatares da dupla milit\u00e2ncia. O dossi\u00ea pode ser consultado no Archivo Hist\u00f3rico Vamos Mujer, da Universidad Nacional de Colombia.<\/p>\n<p>[3] As mem\u00f3rias do Primeiro Encontro foram publicadas no <em>Bolet\u00edn Internacional de las Mujeres Isis<\/em>, n.\u00ba 9 (1981). O n\u00famero, inteiramente dedicado ao evento, inclui tamb\u00e9m informa\u00e7\u00f5es sobre as participantes e os grupos que estiveram representados, bem como um informe sobre o que ocorreu nos ateli\u00eas. Integrantes da rede de comunicadoras que compunham a organiza\u00e7\u00e3o Isis, respons\u00e1vel pela edi\u00e7\u00e3o do <em>Bolet\u00edn<\/em>, estiveram entre as convidadas internacionais que participaram do encontro.<\/p>\n<p>[4] O coletivo militante Cine-Mujer, pioneiro no uso do v\u00eddeo como forma de tornar vis\u00edveis as lutas feministas, realizou este trabalho a partir dos registros feitos durante o Encontro. Pineda foi uma destacada soci\u00f3loga, professora, pesquisadora e lideran\u00e7a feminista dominicana. Desde cedo integrou as fileiras da esquerda em seu pa\u00eds, onde teve participa\u00e7\u00e3o ativa. Posteriormente, militou no movimento feminista, animando e articulando diferentes coletivos.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>AHMED, Sara. (2015). <em>La pol\u00edtica cultural de las emociones.<\/em> M\u00e9xico: UNAM.<\/p>\n<p>AHMED, Sara. (2021). <em>Vivir una vida feminista.<\/em> Buenos Aires: Caja Negra.<\/p>\n<p>\u00c1LVAREZ, Sonia E. et al. (2003). <em>Encontrando los feminismos latinoamericanos y caribe\u00f1os.<\/em> Revista Estudos Feministas, v. 11, n. 2, p. 543-575.<\/p>\n<p>ARMENTA, Martha et al. (1981). <em>Documento de trabajo del Primer Encuentro Feminista de Am\u00e9rica Latina y el Caribe.<\/em> Bogot\u00e1.<\/p>\n<p>BOLET\u00cdN INTERNACIONAL DE LAS MUJERES ISIS. (1981). Primer Encuentro Feminista de Am\u00e9rica Latina y el Caribe<em>.<\/em> <em>Bolet\u00edn Isis,<\/em> Santiago de Chile, ano 1, n. 30.<\/p>\n<p>CINE MUJER. (1981). <em>Testimonio de Magaly Pineda en el documental Llegaron las feministas. I Encuentro Feminista Latinoamericano y del Caribe<\/em> [document\u00e1rio, 54 min.]. Bogot\u00e1.<\/p>\n<p>FISCHER, Amalia. (1995). <em>Feministas latinoamericanas. Las nuevas brujas y sus aquelarres.<\/em> Tese (Maestr\u00eda en Ciencias de la Comunicaci\u00f3n) \u2014 Universidad Nacional Aut\u00f3noma de M\u00e9xico, M\u00e9xico.<\/p>\n<p>FISCHER, Amalia. (2005). Los complejos caminos de la autonom\u00eda<em>.<\/em> <em>Nouvelles Questions F\u00e9ministes<\/em>, v. 24, n. 2, p. 54-78. (Versi\u00f3n especial en castellano: Fem-e-libros).<\/p>\n<p>LUNA, Lola. (1985). <em>Testimonio del Encuentro de Brasil.<\/em> Archivo del Centro de Investigaciones y Estudios de G\u00e9nero de la Universidad Nacional Aut\u00f3noma de M\u00e9xico (CIEG-UNAM), Biblioteca Rosario Castellanos, Registro n. 12989.<\/p>\n<p>STERNBACH, Nancy S. &amp; NAVARRO, Marysa <em>et al<\/em>. (1994). Feminisms in Latin America: From Bogot\u00e1 to San Bernardo. <em>Signs,<\/em> v. 20, n. 2, p. 269-298.<\/p>\n<p>SUAZA VARGAS, Mar\u00eda Cristina. (2008). <em>So\u00f1\u00e9 que so\u00f1aba. Una cr\u00f3nica del movimiento feminista en Colombia de 1975 a 1982.<\/em> Bogot\u00e1: AECID.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Entre elas, a autonomia em rela\u00e7\u00e3o a partidos e o combate ao imperialismo <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/apegos-ferozes-encontros-feministas-latino-americanos\/\">Apegos ferozes: Encontros feministas latino-americanos<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":77135,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[347,6906,7259,3538,5599,6447,37903,37904,37905,6956,37906],"tags":[],"class_list":["post-77134","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-anti-imperialismo","category-anticapitalismo","category-bogota","category-descolonizacoes","category-direitos-reprodutivos","category-encontro-feminista-da-america-latina-e-do-caribe","category-encontro-feminista-de-1981","category-esquerda-feminista","category-feminismos","category-luta-feminista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77134","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77134"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77134\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}