{"id":77157,"date":"2026-03-07T04:00:00","date_gmt":"2026-03-07T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tudo-que-e-vivo-quer-viver\/"},"modified":"2026-03-07T04:00:00","modified_gmt":"2026-03-07T07:00:00","slug":"tudo-que-e-vivo-quer-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tudo-que-e-vivo-quer-viver\/","title":{"rendered":"Tudo que \u00e9 vivo quer viver"},"content":{"rendered":"<p>Dia desses, eu estava varrendo a casa e achei um escorpi\u00e3o galego enorme! Lukas ficou encantado, se acocorou pra olhar, maravilhado com aquele corpo inusitado, um misto de doideira de aranha, caranguejo e perigo.<\/p>\n<p>O encantamento meio inocente de Lukas mudou a minha perspectiva sobre o que geralmente significa encontrar um escorpi\u00e3o em casa (ou em qualquer canto). Fui do medo \u00e0 piedade: o escorpi\u00e3o n\u00e3o tem culpa de ser escorpi\u00e3o, nem de carregar consigo um veneno letal.<\/p>\n<p>Depois, fui da piedade \u00e0 filosofia: talvez o escorpi\u00e3o sequer saiba que \u00e9 um escorpi\u00e3o, sequer saiba que seu corpo carrega um veneno letal. \u00c9 como se ele, escondido numa fresta da porta, fosse a minha barata, e eu fosse uma GH que se mudou pro Cear\u00e1. Fui da filosofia \u00e0 doidice completa: ser\u00e1 que existe algo no corpo humano (ou seja, no meu corpo) que seja veneno letal para algum ser no universo?<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>De toda forma, o encontro com o escorpi\u00e3o foi tr\u00e1gico (sobretudo pra ele kkk), mas tamb\u00e9m muito rico em significado.<\/p>\n<p>No primeiro momento, o que pertence ao instinto, senti apenas a urg\u00eancia de mat\u00e1-lo, no melhor (ou pior) estilo \u201cou eu, ou ele\u201d. Depois, quanto mais olhava pra ele, mais fui imaginando quem ele poderia ser, sua hist\u00f3ria \u00fanica de vida, sua personalidade, que bichinhos ele teria comido na noite anterior, como tomou a decis\u00e3o de se esconder naquela fresta, se ele j\u00e1 tinha matado um gato, uma crian\u00e7a, uma pessoa, se j\u00e1 era casado, se tinha filhos, quais eram os planos dele ou dela pra aquele dia, para seu futuro.<\/p>\n<p>N\u00e3o sendo daqui e sem saber o que fazer, pedi pra Lukas ligar pro caseiro, o maravilhoso Seu Z\u00e9 Maia, que, antes de ser caseiro, \u00e9 pescador e fil\u00f3sofo. Ele respondeu prontamente: \u201cInfelizmente, precisa matar, porque ele \u00e9 venenoso\u201d.<\/p>\n<p>O \u201cinfelizmente\u201d me pegou e olhei pra Lukas, que estava com aquela cara de enterro, triste pelo pobre aracn\u00eddeo. Quer\u00edamos arrumar um jeito de salvar o bicho, mesmo tendo recebido a orienta\u00e7\u00e3o de mat\u00e1-lo, de algu\u00e9m que n\u00e3o somente era nativo, mas tamb\u00e9m muito s\u00e1bio. E a\u00ed vieram mais alguns minutos de elucubra\u00e7\u00e3o: e se a gente varrer o animal pra longe? N\u00e3o, cairia no terreno do vizinho. E se a gente simplesmente ignorar a presen\u00e7a do escorpi\u00e3o e deixar ele a\u00ed? N\u00e3o, a gente podia esquecer que ele estava em casa e assust\u00e1-lo sem querer e levar uma picada \u2013 al\u00e9m disso, tem Chul\u00e9, o gato, para quem a picada seria mais dolorosa e letal. E se a gente botar o bicho num pote e soltar num terreno baldio? Lukas adorou a ideia \u2013 vale ressaltar que dois dias antes, ele tinha se recusado a matar uma barata do tamanho de um navio, porque ela estava l\u00e1 na dela, t\u00e3o grande e tranquila, dando seu rol\u00ea no jardim.<\/p>\n<p>Assim fizemos: pegamos um copo e um prato e, a partir da\u00ed, tudo aconteceu muito r\u00e1pido. O objetivo inicial de Lukas era \u201corientar\u201d o escorpi\u00e3o a entrar no prato e, depois, colocar o copo em cima. Quando tentou fazer isso, o bicho se encaralhou e, sabiamente, se escondeu debaixo das bordas do prato (que era fundo) e ficou andando em c\u00edrculos em volta do prato, numa rapidez admir\u00e1vel, pra confundir seus predadores (a gente).<\/p>\n<p>Quando Lukas foi pegar no prato, o escorpi\u00e3o tentou pic\u00e1-lo; n\u00e3o sei como n\u00e3o conseguiu, e foi a\u00ed, numa fra\u00e7\u00e3o de segundo, que Lukas acabou matando o pobre. Foi horr\u00edvel, ficamos arrasados, porque aquele foi um embate claramente desproporcional: dois humanos enormes, armados de chinelo e pau, contra um bicho que n\u00e3o pesa nem 10 gramas, n\u00e3o chega nem a 10 cent\u00edmetros.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Aqui entra em cena uma coisa que qualquer humano \u00e9 \u00f3timo em fazer: inventar hist\u00f3rias pra justificar\u00a0coisas na gente que a gente n\u00e3o gosta, ou\u00a0que a gente fez e desaprova. Pra isso, perguntei ao Google se o escorpi\u00e3o amarelo era perigoso e, pra minha surpresa, ele \u00e9, e muito.<\/p>\n<p>Existem mais de 200 esp\u00e9cies de escorpi\u00e3o no Brasil, mas apenas quatro s\u00e3o perigosas, incluindo o \u201cescorpi\u00e3o amarelo do nordeste\u201d, que provavelmente era o que tinha l\u00e1 em casa. Seu veneno \u00e9 neurot\u00f3xico; causa dor intensa imediata e pode levar \u00e0 morte por complica\u00e7\u00f5es card\u00edacas e respirat\u00f3rias. \u00c9 uma esp\u00e9cie urbana que se reproduz rapidamente, porque a f\u00eamea n\u00e3o precisa de macho pra se reproduzir (essa parte eu amei!). S\u00f3 em 2025, mais de 200 pessoas morreram no Brasil em decorr\u00eancia da picada de escorpi\u00e3o!<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Um dia antes do escorpi\u00e3o aparecer, tive uma conversa muito bonita com Seu Z\u00e9 Maia, sobre a barata que Lukas n\u00e3o quis matar. Entre as muitas coisas bonitas que ele disse, uma me marcou bastante: \u201cAdelaide, tudo o que vive quer viver\u201d.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Dif\u00edcil sair desse impasse moral. S\u00f3 agora, semanas depois e escrevendo essas linhas, acho que consigo chegar numa pista que talvez me ajude a sair da sinuca de bico: o verbo \u201cprecisa\u201d na frase \u201cinfelizmente precisa matar\u201d.<\/p>\n<p>Numa outra, das muitas conversas que tivemos, enquanto ele abria com maestria e uma faquinha cega uns cocos que ele mesmo plantou e colheu, Seu Z\u00e9 Maia filosofou sobre a precis\u00e3o: sobre como \u00e9 ela quem determina as escolhas das pessoas, sobretudo dos mais pobres, muitas vezes colocando-os em situa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m moralmente desafiadoras, que os fazem tomar decis\u00f5es question\u00e1veis, mas que os ajudam a sair de um perrengue imediato.<\/p>\n<p>Seu Z\u00e9 Maia concluiu dizendo que nem ele nem ningu\u00e9m pode julgar decis\u00f5es tomadas com base na precis\u00e3o \u2013 \u00e9 ela quem determina a escolha de quem n\u00e3o tem o que perder.<\/p>\n<p>Talvez esteja a\u00ed o X da quest\u00e3o: a precis\u00e3o de matar o escorpi\u00e3o, j\u00e1 que ali era uma aposta entre viver e morrer (ou, pelo menos, sofrer muito ou nada). Vov\u00f3 foi picada por um que estava escondido dentro do sapato dela e diz que foi a maior dor que ela sentiu na vida (e olhe que ela teve 16 filhos de parto normal!).<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>\u201cPrecisar\u201d matar o escorpi\u00e3o me colocou diretamente em confronto mental com as hist\u00f3rias que as mulheres agricultoras de um vilarejo no sert\u00e3o do Moxot\u00f3 me contaram meses antes. Para elas, \u201ccobra \u00e9 cobra\u201d e elas n\u00e3o t\u00eam muita cerim\u00f4nia em assumir que o resultado do encontro com uma cobra \u00e9 quase sempre a morte da bicha.<\/p>\n<p>Duas hist\u00f3rias em particular me chamaram a aten\u00e7\u00e3o: um dia, Dona Neusa foi trabalhar no mato, na coleta de caju. Levou a filha pequena, que ela n\u00e3o tinha com quem deixar, e deixou a menina brincando no ch\u00e3o. Certa hora, ela viu uma l\u00edngua de cobra saindo por entre as folhas ca\u00eddas ao redor da \u00e1rvore, bem pertinho de onde a filhinha dela estava. Dona Neusa n\u00e3o teve d\u00favida: arrancou um galho de caju e deu na cobra at\u00e9 ter certeza de que a tinha matado. Quando retirou as folhas de cima, se deu conta, com certa tristeza, mas sem nenhum remorso, de que a cobra em quest\u00e3o era uma espetacular salamanta arco-\u00edris da caatinga, uma cobra rara, em risco de extin\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o tem pe\u00e7onha e n\u00e3o representa nenhum perigo para humanos \u2013 al\u00e9m de ser bel\u00edssima, por ser iridescente, como o nome j\u00e1 indica.<\/p>\n<p>Em outro momento, Milena contou outra hist\u00f3ria espetacular: depois de amamentar seu filho rec\u00e9m-nascido, ela colocou um colch\u00e3o no ch\u00e3o, na frente da casa, porque era uma noite de muito calor, e foram dormir. Ela acordou com uma cobra preta se aninhando perto dela e do beb\u00ea, confirmando, na vis\u00e3o dela, a lenda rural de que cobras pretas colocam a ponta do rabo (cobras t\u00eam rabo? Enfim, botam a pontinha do corpo) na boca do beb\u00ea, enquanto bebem o leite materno. No susto e no escuro, Milena gritou e seu marido matou o animal, pra s\u00f3 depois descobrirem que se tratava de uma cobra preta \u2013 um bicho de estonteante beleza e que, al\u00e9m de n\u00e3o ser perigosa para humanos, ainda por cima se alimenta de cobras venenosas, como a cascavel, ajudando no seu controle.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Ouvindo as hist\u00f3rias das mulheres, fiquei triste pelas cobras, mas a verdade \u00e9 que, no ponto de politiza\u00e7\u00e3o em que me encontro, n\u00e3o posso mais cometer o erro de achar que sei melhor como viver num territ\u00f3rio, do que as pessoas que vivem nele. Assim, como forasteira citadina, que nunca tive que catar caju pra viver ou levar filhos nas costas pra trabalhar, eu tenho mais \u00e9 ouvir e aprender, n\u00e3o ouvir e julgar. N\u00e3o posso me dar ao luxo da decep\u00e7\u00e3o moralista, pois preciso simplesmente aceitar que n\u00e3o tenho nada a ver com isso. E tem mais: nesses dois exemplos, ainda que n\u00e3o se possa falar de \u201cprecis\u00e3o\u201d ao matar uma cobra, d\u00e1 pra falar muito bem do instinto de sobreviv\u00eancia e da rea\u00e7\u00e3o impulsiva de proteger a cria contra qualquer amea\u00e7a, que \u00e9 completamente compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 imposs\u00edvel falar o mesmo sobre maus tratos e torturas intencionais, atos que nada t\u00eam a ver com a precis\u00e3o sobre a qual Seu Z\u00e9 Maia filosofou. Por isso, fazer justi\u00e7a por Orelha, sobretudo tendo em vista as patacoadas do judici\u00e1rio de Santa Catarina, n\u00e3o \u00e9 fazer justi\u00e7a s\u00f3 a um ser vivo em particular \u2013 a responsabiliza\u00e7\u00e3o precisa ocorrer como um marco civilizat\u00f3rio no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/argentina-por-que-milei-reivindica-as-malvinas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/photo_5055739934546792057_y-2-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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