{"id":77183,"date":"2026-03-07T15:22:19","date_gmt":"2026-03-07T18:22:19","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-feminismo-e-a-luta-de-classes\/"},"modified":"2026-03-07T15:22:19","modified_gmt":"2026-03-07T18:22:19","slug":"o-feminismo-e-a-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-feminismo-e-a-luta-de-classes\/","title":{"rendered":"O feminismo e a luta de classes"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" width=\"900\" height=\"703\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Foto-da-Revista-Socialista-Internacional.jpg\" alt=\"\" decoding=\"async\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Foto-da-Revista-Socialista-Internacional.jpg 900w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Foto-da-Revista-Socialista-Internacional-300x234.jpg 300w, https:\/\/vermelho.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Foto-da-Revista-Socialista-Internacional-768x600.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\"><\/p>\n<p>Na <strong>2\u00aa Confer\u00eancia Internacional de Mulheres Socialistas<\/strong>, realizada em 1910, em Copenhague (Dinamarca), Clara Zetkin prop\u00f4s homenagear as 129 oper\u00e1rias que morreram queimadas em uma f\u00e1brica de Nova Iorque ap\u00f3s reivindicarem a redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho. A proposta foi instituir uma jornada mundial de luta no <strong>8 de mar\u00e7o<\/strong>, em homenagem a essas heroicas trabalhadoras t\u00eaxteis. Essa iniciativa selava simbolicamente a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a caminhada libertadora das mulheres e a luta dos trabalhadores pela sua emancipa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Estamos \u00e0s v\u00e9speras de mais um 8 de mar\u00e7o em um mundo marcado por um capitalismo em crise, pela crescente financeiriza\u00e7\u00e3o da economia, pelo desinvestimento no setor produtivo e pelo aumento do desemprego. Ao mesmo tempo, observamos a desregulamenta\u00e7\u00e3o, a informaliza\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. A pandemia da <strong>Covid-19<\/strong> aprofundou esse cen\u00e1rio e evidenciou ainda mais as desigualdades existentes, demonstrando como as mulheres foram as maiores v\u00edtimas dessa conjuntura, sobretudo por estarem majoritariamente inseridas no trabalho informal e prec\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Feminismo x Luta de Classes<\/strong><\/p>\n<p>Vale destacar que os marxistas, ao longo do tempo, sempre se preocuparam com a opress\u00e3o das mulheres e ofereceram uma interpreta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para o fen\u00f4meno, afirmando que <strong>\u201ca quest\u00e3o feminina \u00e9 uma quest\u00e3o social e s\u00f3 como tal poder\u00e1 ser resolvida\u201d<\/strong>. Realizaram uma das primeiras an\u00e1lises sistem\u00e1ticas sobre o tema, desnaturalizando a condi\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o feminina e situando sua origem em um processo hist\u00f3rico-social. Dessa forma, superaram abordagens essencialistas que atribu\u00edam \u00e0 natureza humana a base da domina\u00e7\u00e3o e da subordina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas cr\u00edticas foram dirigidas \u00e0s teses marxistas sobre a quest\u00e3o da mulher, sobretudo a de que teriam deixado de lado sua especificidade e reduzido sua condi\u00e7\u00e3o a uma quest\u00e3o econ\u00f4mica, como um ap\u00eandice das rela\u00e7\u00f5es produtivas. No livro <strong>\u201cA Ideologia Alem\u00e3\u201d<\/strong>, Marx e Engels demonstram compreender esse aspecto como parte de um \u00fanico processo. Ali afirmam que a reprodu\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o da vida dos indiv\u00edduos, assim como as rela\u00e7\u00f5es sociais que eles estabelecem, s\u00e3o t\u00e3o importantes quanto as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Essa concep\u00e7\u00e3o amplia a compreens\u00e3o coletiva da subjetividade humana.<\/p>\n<p>Outra resposta a essa quest\u00e3o foi dada por Engels em 1890, em carta a Bloch, quando esclareceu: \u201c(\u2026) segundo a concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria, o fator que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, determina a hist\u00f3ria \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o da vida real. Nem Marx nem eu afirmamos, uma vez sequer, algo mais do que isso. Se algu\u00e9m o modifica, afirmando que o fato econ\u00f4mico \u00e9 o \u00fanico fato determinante, converte aquela tese numa frase vazia, abstrata e absurda. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 a base, mas os diferentes fatores da superestrutura que se levanta sobre ela \u2014 as formas pol\u00edticas da luta de classes e seus resultados, as constitui\u00e7\u00f5es que, uma vez vencida uma batalha, a classe triunfante redige etc, as formas jur\u00eddicas, e inclusive os reflexos de todas essas lutas reais no c\u00e9rebro dos que nelas participam, as teorias pol\u00edticas, jur\u00eddicas, filos\u00f3ficas, as id\u00e9ias religiosas e o desenvolvimento ulterior que as leva a converter-se num sistema de dogmas \u2014 tamb\u00e9m exercem sua influ\u00eancia sobre o curso das lutas hist\u00f3ricas e, em muitos casos, determinam sua forma, como fator predominante\u201d. <em>(grifos de Engels)<\/em><\/p>\n<p>Marx e Engels demonstraram em suas obras que a opress\u00e3o da mulher coincide com o surgimento da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e das classes sociais. Indicaram que a hist\u00f3ria da submiss\u00e3o feminina come\u00e7a quando a mulher \u00e9 afastada da produ\u00e7\u00e3o social. Essa ideia aparece j\u00e1 no <strong>Manifesto do Partido Comunista<\/strong>, de 1848, onde est\u00e1 presente a concep\u00e7\u00e3o de que somente a socializa\u00e7\u00e3o da propriedade pode fazer desaparecer a situa\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>No texto <strong>\u201cA Quest\u00e3o Judaica\u201d<\/strong>, Marx faz a distin\u00e7\u00e3o entre emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e emancipa\u00e7\u00e3o humana, indicando os limites da igualdade jur\u00eddica ou formal como instrumento de revers\u00e3o da subordina\u00e7\u00e3o vivida pelas mulheres. A subordina\u00e7\u00e3o n\u00e3o cessar\u00e1 apenas com a elimina\u00e7\u00e3o das distin\u00e7\u00f5es legais, mas exige uma transforma\u00e7\u00e3o das estruturas econ\u00f4micas e pol\u00edticas geradoras de desigualdades.<\/p>\n<p>Em 1884, dando continuidade aos estudos de Marx sobre Morgan, Engels publica <strong>\u201cA Origem da Fam\u00edlia, da Propriedade Privada e do Estado\u201d<\/strong>, onde analisa as diversas fases hist\u00f3ricas do desenvolvimento da humanidade para comprovar que as mudan\u00e7as na condi\u00e7\u00e3o da mulher sempre corresponderam \u00e0s grandes transforma\u00e7\u00f5es sociais, ao desenvolvimento da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica. Analisa a involu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o da mulher, das condi\u00e7\u00f5es de igualdade na \u00e9poca do considerado comunismo primitivo at\u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da chamada civiliza\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7a que se operou a partir da exclus\u00e3o da mulher do processo produtivo social.<\/p>\n<p>Da\u00ed sua conclus\u00e3o: \u201cA emancipa\u00e7\u00e3o da mulher e sua equipara\u00e7\u00e3o ao homem s\u00e3o e continuar\u00e3o sendo imposs\u00edveis enquanto ela permanecer exclu\u00edda do trabalho produtivo social e confinada ao trabalho dom\u00e9stico.\u201d<\/p>\n<p>Augusto Bebel, um dos fundadores da II Internacional, tamb\u00e9m se dedicou ao tema e escreveu <strong>\u201cA Mulher e o Socialismo\u201d<\/strong> em 1889. Ele tem o mesmo argumento de Marx e Engels sobre a quest\u00e3o e afirma: \u201cTodas as opress\u00f5es sociais encontram sua raiz na depend\u00eancia econ\u00f4mica do oprimido em sua rela\u00e7\u00e3o com o opressor. Desde os tempos mais remotos, a mulher se encontra nessa situa\u00e7\u00e3o: a hist\u00f3ria do desenvolvimento da sociedade humana o ensina\u201d.<\/p>\n<p>Clara Zetkin colocou entre os objetivos da 2\u00ba Internacional a <strong>paridade entre os sexos<\/strong> e a defesa das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho das mulheres prolet\u00e1rias. Al\u00e9m da luta pelo sufr\u00e1gio feminino, defendia uma legisla\u00e7\u00e3o mais humana para as condi\u00e7\u00f5es de trabalho das oper\u00e1rias e a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica espec\u00edfica das mulheres trabalhadoras. Sofreu cr\u00edticas por diferenciar a posi\u00e7\u00e3o de classe na luta feminina, mas contribuiu decisivamente para compreender a dimens\u00e3o espec\u00edfica da opress\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>L\u00eanin, por sua vez, deixou clara a estrat\u00e9gia da luta pela emancipa\u00e7\u00e3o feminina como parte integrante da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria. Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, participou da elabora\u00e7\u00e3o de leis que ampliaram direitos das mulheres. Defendia o combate \u00e0 dupla jornada de trabalho e afirmava: \u201ca tarefa principal do movimento oper\u00e1rio feminino consiste na luta pela igualdade econ\u00f4mica e social da mulher e n\u00e3o somente pela igualdade formal. A tarefa principal \u00e9 incorporar a mulher ao trabalho social produtivo, arranc\u00e1-la da escravid\u00e3o do lar, liberta-la da subordina\u00e7\u00e3o \u2013 embrutecedora e humilhante- ao eterno ambiente da cozinha e do quarto das crian\u00e7as\u201d. \u00c9 uma luta prolongada que requer uma radical transforma\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica social e dos usos e costumes.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m afirmou: \u201cN\u00e3o se pode assegurar a verdadeira liberdade nem edificar a democracia e o socialismo sem chamar as mulheres ao servi\u00e7o c\u00edvico e \u00e0 vida pol\u00edtica.\u201d<\/p>\n<p><strong>Perspectivas<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a grande contribui\u00e7\u00e3o do pensamento marxista: identificar a origem estrutural da opress\u00e3o feminina e estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre emancipa\u00e7\u00e3o social e emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>O capitalismo avan\u00e7ou e as rela\u00e7\u00f5es de trabalho se transformaram. O desafio atual \u00e9 compreender como a domina\u00e7\u00e3o e a subordina\u00e7\u00e3o foram se estruturando ao longo da hist\u00f3ria e assumindo novas formas no per\u00edodo contempor\u00e2neo. A partir da ideia da subordina\u00e7\u00e3o da mulher como algo socialmente estruturado.<\/p>\n<p>A <strong>Revolu\u00e7\u00e3o de 1917<\/strong>, na R\u00fassia, foi um marco hist\u00f3rico na luta contra o capitalismo, significando a esperan\u00e7a de um mundo socialista, sem explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Mas a queda do <strong>Muro de Berlim<\/strong>, em 1989, simbolizou o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o colapso do \u201ccampo socialista\u201d e do \u201csocialismo real\u201d, abalando convic\u00e7\u00f5es, propiciando o reordenamento na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mundial e o surgimento de teorias que apregoavam o fim da hist\u00f3ria, da luta de classes e do trabalho, no contexto de tentar impor o pensamento \u00fanico neoliberal. <strong>Francis Fukuyama<\/strong>, fil\u00f3sofo e funcion\u00e1rio do Departamento de Estado norte-americano, foi o arauto da tese de que o Ocidente havia conseguido o estado final do processo hist\u00f3rico, representado pela sociedade capitalista e liberal (Losurdo, D., 2015).<\/p>\n<p>Essa ofensiva reacion\u00e1ria teve seu contraponto no extraordin\u00e1rio desenvolvimento econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico da <strong>China<\/strong>, que passa a ser alvo dos raivosos ataques de <strong>Trump<\/strong> e, aqui no Brasil, de <strong>Bolsonaro<\/strong>. A crise econ\u00f4mica tamb\u00e9m vem servindo de freio aos Estados Unidos, embora suas ambi\u00e7\u00f5es neocoloniais n\u00e3o tenham desaparecido.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o receitu\u00e1rio neoliberal de redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado na economia e nas pol\u00edticas p\u00fablicas, a supremacia do mercado, a financeiriza\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o do investimento no setor produtivo da economia, a desregulamenta\u00e7\u00e3o e flexibiliza\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho produziram mais desigualdades, mais desemprego, concentra\u00e7\u00e3o da riqueza e exclus\u00e3o social. Todas essas quest\u00f5es, a redu\u00e7\u00e3o do trabalho formal e o aumento da informalidade, turvaram o entendimento da centralidade do trabalho, com repercuss\u00e3o nos estudos feministas.<\/p>\n<p>A pensadora feminista norte-americana <strong>Nancy Fraser<\/strong>, em entrevista ao jornal <strong>The Guardian<\/strong>, afirma: \u201cTemo que o movimento pela liberta\u00e7\u00e3o das mulheres tenha se enredado em uma liga\u00e7\u00e3o perigosa com esfor\u00e7os neoliberais para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade de livre-mercado. Isso explicaria por que ideias feministas, que j\u00e1 fizeram parte de uma vis\u00e3o de mundo radical, sejam cada vez mais expressas em termos individuais\u201d. E continua: \u201cO que est\u00e1 por tr\u00e1s dessa altera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a de ares no car\u00e1ter do capitalismo. O capitalismo organizado pelo Estado de p\u00f3s-guerra tem dado espa\u00e7o a um novo formato \u2014 desorganizado, globalizante, neoliberal\u201d.<\/p>\n<p>Ao rejeitar o \u201ceconomicismo\u201d e politizar o \u201cpessoal\u201d, algumas feministas ampliaram a agenda pol\u00edtica para desafiar as hierarquias de status pressupostas nas constru\u00e7\u00f5es culturais de diferen\u00e7a de g\u00eanero. O resultado deveria ter sido a expans\u00e3o da luta por justi\u00e7a, de forma a conter tanto a cultura quanto a economia. Todavia, conclui Fraser, \u201co resultado real foi o foco unilateral em \u2018identidade de g\u00eanero\u2019, \u00e0s custas de assuntos p\u00e3o com manteiga\u201d. Ainda pior, diz Fraser, \u201crecorreu-se \u00e0 pol\u00edtica identit\u00e1ria bem encaixada com um liberalismo crescente, que quis nada mais do que reprimir toda a mem\u00f3ria de igualdade social\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nesse rumo est\u00e1 a argumenta\u00e7\u00e3o da estudiosa francesa <strong>Dani\u00e8le Kergoat<\/strong> (2019), que alerta para o fato de que a centralidade do trabalho (assalariado e dom\u00e9stico) parece posta em quest\u00e3o pela fragmenta\u00e7\u00e3o de eixos de luta.<\/p>\n<p>A recente crise econ\u00f4mica e a pandemia da <strong>Covid-19<\/strong> chamaram aten\u00e7\u00e3o para as consequ\u00eancias desastrosas da financeiriza\u00e7\u00e3o, recolocando na ordem do dia a import\u00e2ncia do setor produtivo da economia e o papel do Estado, destacando a necessidade de valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho e sua centralidade.<\/p>\n<p>Fica cada vez mais evidente que, nos marcos da sociedade capitalista em que vivemos, produtora de mercadorias e da mais-valia para a acumula\u00e7\u00e3o do capital, o trabalho continua tendo centralidade. Portanto, o conflito capital-trabalho permanece central.<\/p>\n<p>Assim, as tentativas de achar um lugar para a dimens\u00e3o subjetiva da domina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero n\u00e3o podem nos levar a abdicar de qualquer perspectiva estrutural de um sistema econ\u00f4mico-pol\u00edtico mais amplo, de suas bases concretas.<\/p>\n<p>Para <strong>Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros<\/strong> (2002), o impulso do capital para a expans\u00e3o lucrativa interessa incluir a mulher no mercado de trabalho, mas impondo limita\u00e7\u00f5es e desigualdades, jogando sobre os ombros das mulheres o peso das disfun\u00e7\u00f5es sociais associadas \u00e0 crescente instabilidade da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Fica evidente que o trabalho \u00e9 uma quest\u00e3o central para entender o sistema de explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 no centro das opress\u00f5es de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a. \u00c9 tamb\u00e9m espa\u00e7o de resist\u00eancia e luta, lugar de solidariedade e coopera\u00e7\u00e3o, de socializa\u00e7\u00e3o e, portanto, fonte de emancipa\u00e7\u00e3o individual e coletiva.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o processo emancipat\u00f3rio das mulheres depende da combina\u00e7\u00e3o entre a consci\u00eancia de g\u00eanero, a consci\u00eancia de classe e a consci\u00eancia de ra\u00e7a. O feminismo emancipacionista, que se baseia nos pressupostos marxistas, entende que a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres se relaciona com a emancipa\u00e7\u00e3o coletiva de todas as formas de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, com a emancipa\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A luta feminista e antirracista libertadora se entrela\u00e7a com a luta de classes, numa mesma perspectiva emancipat\u00f3ria. Como diz <strong>Silvia Federici<\/strong>, qualquer projeto feminista exclusivamente implicado com a discrimina\u00e7\u00e3o sexual, sem situar a \u201cfeminiza\u00e7\u00e3o da pobreza\u201d no contexto do avan\u00e7o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas, estar\u00e1 condenado \u00e0 irrelev\u00e2ncia e \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Bandeiras atuais da luta feminista<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>Igualdade salarial entre homens e mulheres<\/strong> para trabalho de igual valor.<\/li>\n<li><strong>Combate \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero e ao feminic\u00eddio<\/strong>, com pol\u00edticas p\u00fablicas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres.<\/li>\n<li><strong>Valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico e de cuidado<\/strong>, historicamente invisibilizado e majoritariamente realizado por mulheres.<\/li>\n<li><strong>Direito \u00e0 creche p\u00fablica e \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o do cuidado<\/strong>, garantindo condi\u00e7\u00f5es para a plena participa\u00e7\u00e3o das mulheres no trabalho e na vida pol\u00edtica.<\/li>\n<li><strong>Enfrentamento ao racismo e \u00e0s desigualdades que atingem principalmente mulheres negras e perif\u00e9ricas.<\/strong><\/li>\n<li><strong>Defesa dos direitos trabalhistas<\/strong>, contra a precariza\u00e7\u00e3o, a informalidade e a retirada de direitos.<\/li>\n<li><strong>Participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica parit\u00e1ria<\/strong>, ampliando a presen\u00e7a das mulheres nos espa\u00e7os de poder e decis\u00e3o.<\/li>\n<li><strong>Autonomia sobre o pr\u00f3prio corpo e direitos reprodutivos<\/strong>, como parte da liberdade e da cidadania plena das mulheres.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>ARAUJO, Clara. <strong>Marxismo e Feminismo: tens\u00f5es e encontros de utopias atuais<\/strong>. Encarte te\u00f3rico. <em>Revista Presen\u00e7a da Mulher<\/em>, 2000.<\/p>\n<p>ANTUNES, Ricardo. <strong>Adeus ao Trabalho?<\/strong> S\u00e3o Paulo: Cortez Editora, 1995.<\/p>\n<p>BEBEL, August. <strong>La mujer y el socialismo<\/strong>. Madri: Ediciones Akal, 1977.<\/p>\n<p>ENGELS, Friedrich. <strong>A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado<\/strong>. In: <em>Obras Escolhidas<\/em>, vol. 3. Lisboa\/Moscou, 1985.<\/p>\n<p>ENGELS, Friedrich. <strong>Carta a Bloch<\/strong>. In: <em>Obras Escolhidas<\/em>, vol. 3. Lisboa: Avante, 1985.<\/p>\n<p>FEDERICI, Silvia. <strong>O ponto zero da revolu\u00e7\u00e3o: trabalho dom\u00e9stico, reprodu\u00e7\u00e3o e luta feminista<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Elefante, 2019.<\/p>\n<p>LOSURDO, Domenico. <strong>A luta de classes: uma hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2015.<\/p>\n<p>MARUANI, Margaret (org.). <strong>Trabalho, logo existo: perspectivas feministas<\/strong>. Rio de Janeiro: FGV, 2019.<\/p>\n<p>M\u00c9SZ\u00c1ROS, Istv\u00e1n. <strong>Para al\u00e9m do capital<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Boitempo\/Unicamp, 2002.<\/p>\n<p>VALADARES, L. <strong>A controv\u00e9rsia \u201cFeminismo x Marxismo\u201d<\/strong>. <em>Revista Princ\u00edpios<\/em>, n. 18. 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