{"id":77321,"date":"2026-03-08T10:00:10","date_gmt":"2026-03-08T13:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/violencia-de-guerra-afeta-gravemente-mulheres-e-criancas-afirma-antropologa\/"},"modified":"2026-03-08T10:00:10","modified_gmt":"2026-03-08T13:00:10","slug":"violencia-de-guerra-afeta-gravemente-mulheres-e-criancas-afirma-antropologa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/violencia-de-guerra-afeta-gravemente-mulheres-e-criancas-afirma-antropologa\/","title":{"rendered":"\u2018Viol\u00eancia de guerra afeta gravemente mulheres e crian\u00e7as\u2019, afirma antrop\u00f3loga"},"content":{"rendered":"<p><span>\u201cChegar ao 8 de Mar\u00e7o vendo meninas iranianas morrerem em ataques dos Estados Unidos e Israel a escolas \u00e9 um retrato brutal de como conflitos armados e disputas geopol\u00edticas impactam gravemente sobre mulheres e crian\u00e7as\u201d. A posi\u00e7\u00e3o \u00e9 da professora e antrop\u00f3loga Francirosy Campos.<\/span><\/p>\n<p><span>A fala marca da docente do Departamento de Psicologia Social na Universidade de S\u00e3o Paulo, campus de Ribeir\u00e3o Preto (FFCLRP), remete \u00e0 ofensiva militar dos Estados Unidos e Israel contra o Ir\u00e3, que j\u00e1 matou mais de 1.332 iranianos, ao menos 171 em uma escola infantil para meninas na cidade de Minab, sul do Ir\u00e3, no primeiro dia do ataque, no qual <\/span><span>crian\u00e7as entre sete e 12 anos foram a maioria das v\u00edtimas<\/span><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>\u201cAs mulheres raramente t\u00eam um dia de paz. E, em contextos de guerra, essa vulnerabilidade se intensifica de maneira dram\u00e1tica. Os corpos femininos e infantis acabam sendo atravessados diretamente pela viol\u00eancia, destrui\u00e7\u00e3o e terror\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Al\u00e9m dessa viol\u00eancia, comunidades ocidentais e feministas liberais resgataram a recorrente premissa de que \u201cmulheres do Oriente M\u00e9dio e\/ou mu\u00e7ulmanas\u201d precisam ser salvas do islamismo e do uso do hijab \u2013 v\u00e9u isl\u00e2mico.<\/span><\/p>\n<p><span>Para discutir esse cen\u00e1rio, as contradi\u00e7\u00f5es do feminismo ocidental e a pot\u00eancia pol\u00edtica das mulheres mu\u00e7ulmanas, <strong>Opera Mundi<\/strong> entrevistou Francirosy Campos, professora e pesquisadora das rela\u00e7\u00f5es entre g\u00eanero, religi\u00e3o e islamofobia.<\/span><\/p>\n<p><strong>Leia a entrevista de Opera Mundi com a professora Dra. Francirosy Campos na \u00edntegra:<\/strong><\/p>\n<p><b>Opera Mundi: chegamos a mais um 8 de mar\u00e7o com mulheres e meninas \u00e1rabes e mu\u00e7ulmanas sendo alvos (vide a escola prim\u00e1ria bombardeada no Ir\u00e3), violentadas e subjugadas pela Ocidente. Como a senhora avalia esse cen\u00e1rio desde a escalada do genoc\u00eddio israelense perpetrado por Israel?<\/b><\/p>\n<p><b>Francirosy Campos:<\/b><span> as mulheres raramente t\u00eam um dia de paz. E. em contextos de guerra, essa vulnerabilidade se intensifica de maneira dram\u00e1tica. Os corpos femininos e infantis acabam sendo atravessados diretamente pela viol\u00eancia, pela destrui\u00e7\u00e3o e pelo terror.\u00a0<\/span><span>Chegar ao 8 de mar\u00e7o vendo meninas morrerem em ataques a escolas \u00e9 um retrato brutal de como conflitos armados e disputas geopol\u00edticas impactam gravemente sobre mulheres e crian\u00e7as. No caso recente do Ir\u00e3, a viol\u00eancia que atingiu uma escola de meninas em Minab, com mais de 165 v\u00edtimas, \u00e9 algo profundamente assustador e evidencia o grau de brutalidade que essas popula\u00e7\u00f5es est\u00e3o enfrentando.<\/span><\/p>\n<p><span>Desde a escalada da guerra em Gaza, em 2023, tamb\u00e9m se tornou ainda mais evidente algo que muitos j\u00e1 denunciavam: o sofrimento palestino frequentemente n\u00e3o mobiliza a mesma como\u00e7\u00e3o internacional. Pelo contr\u00e1rio, muitas vezes busca-se justificar ou criminalizar os pr\u00f3prios palestinos, produzindo uma desumaniza\u00e7\u00e3o que transforma pessoas em n\u00fameros e estat\u00edsticas. Quando isso acontece, perde-se de vista que estamos falando de vidas, fam\u00edlias e comunidades inteiras.<\/span><\/p>\n<p><span>Do ponto de vista dos direitos humanos, a prote\u00e7\u00e3o de civis deveria ser o princ\u00edpio central em qualquer conflito. Mulheres e crian\u00e7as, especialmente, deveriam ocupar um lugar de prioridade absoluta nas agendas de prote\u00e7\u00e3o internacional. No entanto, n\u00e3o foi isso que vimos acontecer em Gaza e tampouco \u00e9 o que estamos observando em epis\u00f3dios recentes no Ir\u00e3. As viol\u00eancias que atingem essas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o m\u00faltiplas: deslocamento for\u00e7ado, fome, destrui\u00e7\u00e3o de casas, colapso dos servi\u00e7os de sa\u00fade \u2013 inclusive os servi\u00e7os de sa\u00fade materna \u2013, viol\u00eancia sexual, perda das redes de apoio comunit\u00e1rio e um luto permanente que atravessa gera\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span>Quando a guerra normaliza a ideia de \u201cdano colateral\u201d, os primeiros a se tornarem estat\u00edstica s\u00e3o justamente os grupos mais vulner\u00e1veis. Por isso, quando olhamos para Gaza hoje, muitos especialistas e organiza\u00e7\u00f5es denunciam que estamos diante de uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria de propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, frequentemente caracterizada como um processo genocida em curso.<\/span><\/p>\n<p><b>A situa\u00e7\u00e3o das mulheres mu\u00e7ulmanas \u00e9 mencionada raras vezes por movimentos feministas atuais e que essas mulheres precisam ser \u201csalvas\u201d. Esta como\u00e7\u00e3o seletiva levanta a quest\u00e3o: por que essas mulheres n\u00e3o recebem express\u00f5es de preocupa\u00e7\u00e3o ou simpatia das feministas ocidentais? Ser\u00e1 porque s\u00e3o vistas como mais pr\u00f3ximas dos ideais feministas ocidentais e, portanto, consideradas mais \u201cdignas\u201d?<\/b><\/p>\n<p><span>Esse \u00e9 um debate antigo e, infelizmente, ainda avan\u00e7amos pouco nele. A ideia de que mulheres mu\u00e7ulmanas precisam ser \u201csalvas\u201d j\u00e1 foi amplamente criticada por intelectuais e antrop\u00f3logas como Lila Abu-Lughod e Saba Mahmood, que mostram como esse discurso revela muito mais sobre as ansiedades e pressupostos do Ocidente do que sobre a realidade das pr\u00f3prias mulheres mu\u00e7ulmanas.<\/span><\/p>\n<p><span>No imagin\u00e1rio de parte do chamado feminismo branco ocidental, essas mulheres s\u00e3o frequentemente retratadas apenas como subjugadas ou v\u00edtimas passivas. Mas isso n\u00e3o \u00e9 solidariedade. \u00c9, muitas vezes, uma esp\u00e9cie de \u201cmiss\u00e3o civilizat\u00f3ria\u201d contempor\u00e2nea, profundamente marcada por heran\u00e7as coloniais. A l\u00f3gica do \u201csalvamento\u201d funciona justamente ao reduzir mulheres mu\u00e7ulmanas a sujeitos sem ag\u00eancia, escolhendo um \u00fanico s\u00edmbolo \u2013 geralmente o v\u00e9u \u2013 como prova absoluta de opress\u00e3o, enquanto ignora a enorme diversidade de experi\u00eancias e contextos: diferen\u00e7as de classe, ra\u00e7a, pa\u00eds, contexto pol\u00edtico, guerra, migra\u00e7\u00e3o, ocupa\u00e7\u00e3o militar ou regimes autorit\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p><span>Nesse enquadramento simplificado, basta que uma mulher use um len\u00e7o para que seja automaticamente vista como algu\u00e9m oprimida ou como cidad\u00e3 de segunda classe, especialmente aos olhos de mulheres que adotam outros estilos de vida e formas de express\u00e3o. O que desaparece nesse processo \u00e9 a escuta das pr\u00f3prias mulheres mu\u00e7ulmanas e de suas lutas locais.<\/span><\/p>\n<p><span>Parte do feminismo ocidental ainda cai nessa armadilha porque permanece preso a um certo universalismo que toma a experi\u00eancia europeia ou norte-americana como padr\u00e3o de emancipa\u00e7\u00e3o. Assim, mede-se a \u201cdignidade\u201d ou a \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d de outras mulheres pela proximidade com esse modelo cultural. O resultado \u00e9 justamente essa como\u00e7\u00e3o seletiva: a viol\u00eancia causa indigna\u00e7\u00e3o quando se parece com aquilo que reconhecemos em nossos pr\u00f3prios contextos, mas passa a ser tratada como algo \u201ccomplexo demais\u201d quando exige questionar pol\u00edticas externas, alian\u00e7as militares, narrativas midi\u00e1ticas ou estruturas globais de poder.<\/span><\/p>\n<p><span>Al\u00e9m disso, esse problema n\u00e3o \u00e9 exclusivo desse debate. O pr\u00f3prio feminismo negro precisou construir caminhos aut\u00f4nomos justamente para enfrentar esse universalismo que privilegiava algumas experi\u00eancias femininas em detrimento de outras. Esse hist\u00f3rico deveria nos ensinar que n\u00e3o existe uma \u00fanica trajet\u00f3ria de emancipa\u00e7\u00e3o e que um feminismo verdadeiramente solid\u00e1rio precisa reconhecer pluralidade, escutar diferentes vozes e abandonar hierarquias impl\u00edcitas entre mulheres.<\/span><\/p>\n<p><b>A senhora argumenta que dever\u00edamos entender a islamofobia como uma forma de racismo e n\u00e3o como uma forma de intoler\u00e2ncia ou discrimina\u00e7\u00e3o religiosa. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 importante tamb\u00e9m dentro do movimento feminista?<\/b><\/p>\n<p><span>Importa muito. Quando tratamos a islamofobia apenas como uma forma de \u201cpreconceito religioso\u201d, perdemos um aspecto central do problema: ela frequentemente opera como um processo de racializa\u00e7\u00e3o. Ou seja, determinadas pessoas passam a ser identificadas como \u201cmu\u00e7ulmanas\u201d n\u00e3o apenas por sua f\u00e9, mas por marcadores como apar\u00eancia, origem, idioma, nome ou vestimenta. A partir da\u00ed, uma s\u00e9rie de estere\u00f3tipos s\u00e3o projetados sobre esses corpos \u2013 associados \u00e0 ideia de amea\u00e7a, atraso, viol\u00eancia ou misoginia \u2013 criando uma imagem homog\u00eanea e desumanizante.<\/span><\/p>\n<p><span>Essa din\u00e2mica faz com que a discrimina\u00e7\u00e3o ultrapasse o campo religioso. Muitas vezes, ela atinge inclusive pessoas que nem s\u00e3o mu\u00e7ulmanas, mas que s\u00e3o lidas socialmente como tal. No caso das mulheres, isso se torna ainda mais vis\u00edvel por meio do que muitas pesquisadoras chamam de hijabfobia, isto \u00e9, a hostilidade direcionada especificamente a mulheres que usam o v\u00e9u.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-248465\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_2026-03-02_12-34-24-e1772831398459.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_2026-03-02_12-34-24-e1772831398459.jpg 800w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_2026-03-02_12-34-24-e1772831398459-300x180.jpg 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_2026-03-02_12-34-24-e1772831398459-768x461.jpg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_2026-03-02_12-34-24-e1772831398459-150x90.jpg 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_2026-03-02_12-34-24-e1772831398459-750x450.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Funeral de crian\u00e7as mortas ap\u00f3s ataque de EUA e Israel em Lamerd <br \/>Tasnim \/ Alireza Ameri<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>A racializa\u00e7\u00e3o das mulheres mu\u00e7ulmanas come\u00e7a justamente nesse ponto. Posso falar tamb\u00e9m a partir da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia: desde que passei a usar o hijab, a quantidade de ataques e ofensas que recebo, especialmente quando participo de entrevistas ou apare\u00e7o publicamente, \u00e9 enorme. Coment\u00e1rios como \u201cvolta para o seu pa\u00eds\u201d aparecem com frequ\u00eancia, mesmo quando se trata de mulheres que nasceram e vivem no mesmo pa\u00eds h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>O v\u00e9u acaba funcionando como um marcador vis\u00edvel que atrai discursos racistas, xenof\u00f3bicos e islamof\u00f3bicos ao mesmo tempo. Vivemos em uma sociedade em que, para muitos, o v\u00e9u passa a concentrar tudo aquilo que consideram estranho, amea\u00e7ador ou \u201cfora do lugar\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>Dentro do movimento feminista, reconhecer a islamofobia como uma forma de racializa\u00e7\u00e3o muda completamente o modo de agir. N\u00e3o basta apenas defender o \u201crespeito \u00e0 religi\u00e3o\u201d. \u00c9 preciso enfrentar estruturas mais amplas: pol\u00edticas de Estado, vigil\u00e2ncia e criminaliza\u00e7\u00e3o de comunidades, proibi\u00e7\u00f5es de vestimentas religiosas, discrimina\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, exclus\u00e3o escolar e viol\u00eancia institucional. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio questionar como certos discursos que se apresentam como feministas acabam, na pr\u00e1tica, refor\u00e7ando a islamofobia \u2013 por exemplo, quando tratam mulheres mu\u00e7ulmanas como incapazes de tomar decis\u00f5es sobre seus pr\u00f3prios corpos e suas pr\u00f3prias vidas.<\/span><\/p>\n<p><span>Um feminismo comprometido com a justi\u00e7a precisa reconhecer essas intersec\u00e7\u00f5es entre racismo, xenofobia e islamofobia, e garantir que as pr\u00f3prias mulheres mu\u00e7ulmanas sejam ouvidas como sujeitos pol\u00edticos de suas experi\u00eancias e de suas lutas.<\/span><\/p>\n<p><b>Quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas e diferen\u00e7as comparada ao feminismo isl\u00e2mico de outras correntes feministas?<\/b><\/p>\n<p><span>Em primeiro lugar, \u00e9 importante lembrar que o termo \u201cfeminismo isl\u00e2mico\u201d n\u00e3o foi originalmente cunhado pelas pr\u00f3prias mulheres mu\u00e7ulmanas. Ele surge, em grande medida, em ambientes acad\u00eamicos e pol\u00edticos ocidentais para descrever as lutas de mulheres em contextos mu\u00e7ulmanos \u2013 especialmente no caso de intelectuais e ativistas iranianas. Assim como acontece com o chamado feminismo ocidental, que tamb\u00e9m possui m\u00faltiplas correntes e diferen\u00e7as internas, aquilo que se convencionou chamar de feminismo isl\u00e2mico tamb\u00e9m apresenta contornos diversos e n\u00e3o \u00e9 um movimento homog\u00eaneo.<\/span><\/p>\n<p><span>Talvez possamos compreender essa pluralidade a partir de tr\u00eas dimens\u00f5es principais:<\/span><\/p>\n<p><span>A primeira \u00e9 o contexto: essas lutas emergem de realidades locais espec\u00edficas \u2013 no Magreb, no Mashreq, no Ir\u00e3 ou nas di\u00e1sporas mu\u00e7ulmanas ao redor do mundo. Portanto, n\u00e3o se trata de uma agenda importada ou simplesmente adaptada de outros feminismos, mas de movimentos que respondem a condi\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e culturais pr\u00f3prias.<\/span><\/p>\n<p><span>A segunda dimens\u00e3o \u00e9 a disputa de interpreta\u00e7\u00e3o. Em muitos casos, mulheres mu\u00e7ulmanas t\u00eam se dedicado \u00e0 releitura de textos religiosos e tradi\u00e7\u00f5es a partir de suas pr\u00f3prias experi\u00eancias. Isso inclui tamb\u00e9m a cr\u00edtica ao uso patriarcal que Estados, institui\u00e7\u00f5es religiosas ou comunidades fazem da religi\u00e3o. Um exemplo conhecido \u00e9 o trabalho da te\u00f3loga Amina Wadud, que prop\u00f5e uma leitura do Alcor\u00e3o atenta \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero e \u00e0 forma como as interpreta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas muitas vezes marginalizaram a experi\u00eancia das mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span>A terceira dimens\u00e3o diz respeito \u00e0s frentes de luta. Essas mulheres frequentemente enfrentam simultaneamente duas camadas de opress\u00e3o: de um lado, patriarcados internos \u2013 familiares, comunit\u00e1rios ou institucionais \u2013 e, de outro, press\u00f5es externas como racismo, islamofobia, guerras, ocupa\u00e7\u00f5es, san\u00e7\u00f5es e heran\u00e7as coloniais.<\/span><\/p>\n<p><span>A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a correntes feministas estritamente seculares n\u00e3o est\u00e1 em uma suposta oposi\u00e7\u00e3o aos direitos das mulheres, como muitas vezes sugere o estere\u00f3tipo. A diferen\u00e7a est\u00e1, sobretudo, no ponto de partida. Algumas agendas preferem fundamentar a defesa de direitos na linguagem religiosa; outras utilizam uma linguagem laica; e muitas articulam essas duas dimens\u00f5es, dependendo do contexto pol\u00edtico e das estrat\u00e9gias poss\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><span>Tamb\u00e9m \u00e9 importante destacar que nem todas as mulheres \u00e1rabes, mu\u00e7ulmanas ou africanas mu\u00e7ulmanas necessariamente se identificam com o termo \u201cfeminismo\u201d. Em muitos casos, a categoriza\u00e7\u00e3o dessas lutas como \u201cfeministas\u201d vem mais de fora \u2013 de pesquisadores, jornalistas ou observadores externos \u2013 do que das pr\u00f3prias mulheres envolvidas. Por isso, compreender essas experi\u00eancias exige sensibilidade para as formas locais de nomear e organizar suas pr\u00f3prias lutas por justi\u00e7a, dignidade e direitos.<\/span><\/p>\n<p><b>Como conciliar a luta feminista com a defesa do direito de usar o hijab ou v\u00e9u, em sociedades onde esse s\u00edmbolo \u00e9 frequentemente visto como opressor?<\/b><\/p>\n<p><span>A luta por direitos das mulheres n\u00e3o significa retirar o hijab de nossas cabe\u00e7as. Isso \u00e9 algo que a sociedade \u2013 mulheres e homens \u2013 ainda precisa compreender melhor. Um feminismo coerente deve combater qualquer forma de imposi\u00e7\u00e3o: tanto obrigar uma mulher a usar o v\u00e9u quanto obrig\u00e1-la a retir\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p><span>Eu mesma escrevi sobre isso em 2013, refletindo sobre os m\u00faltiplos sentidos do uso do v\u00e9u ou do hijab. Ele pode ter significados diversos: pode expressar f\u00e9, identidade, pudor, est\u00e9tica, pertencimento, prote\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 resist\u00eancia pol\u00edtica. Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m pode ser imposto por estruturas familiares ou pelo pr\u00f3prio Estado. \u00c9 justamente nesse ponto que o feminismo deve atuar: ampliando o espa\u00e7o de escolha e reduzindo as formas de coer\u00e7\u00e3o que limitam a autonomia das mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span>Em sociedades onde o v\u00e9u \u00e9 proibido, ele se transforma em um marcador racializado e passa a ser alvo de discrimina\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o \u2013 na escola, no mercado de trabalho e em servi\u00e7os p\u00fablicos. Basta observar a situa\u00e7\u00e3o de muitas mulheres mu\u00e7ulmanas na Fran\u00e7a, que enfrentam um ambiente de forte vigil\u00e2ncia e hostilidade. Tenho amigas brasileiras revertidas ao Isl\u00e3 que, ao viverem na Fran\u00e7a, acabaram retirando o len\u00e7o por medo e pelas constantes abordagens em reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Sem sobrenomes \u00e1rabes, muitas vezes eram tratadas com suspeita e acusadas de liga\u00e7\u00e3o com terrorismo simplesmente por terem adotado o Isl\u00e3.<\/span><\/p>\n<p><span>Por outro lado, em contextos onde o uso do v\u00e9u \u00e9 obrigat\u00f3rio, ele pode se tornar uma ferramenta de controle sobre o corpo feminino. Nos dois casos, portanto, o problema n\u00e3o est\u00e1 no tecido em si, mas nas estruturas de poder que tentam decidir sobre o corpo e a vida das mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span>Costumo dizer que o v\u00e9u n\u00e3o cobre o pensamento. As mulheres mu\u00e7ulmanas est\u00e3o presentes nas suas lutas, seus enfrentamentos cotidianos, universidades, movimentos sociais, produ\u00e7\u00e3o intelectual e pol\u00edtica. E, em contextos de guerra e viol\u00eancia, muitas est\u00e3o apenas tentando sobreviver \u00e0 dor mais profunda que existe: ver seus filhos mortos, desejar enterr\u00e1-los com dignidade, chorar por eles e continuar vivendo sua f\u00e9 e sua devo\u00e7\u00e3o em meio \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>Como o feminismo isl\u00e2mico dialoga com os feminismos secular, decolonial e latino-americano?<\/b><\/p>\n<p><span>Costumo dizer que aquilo que muitos chamam de feminismo isl\u00e2mico pode ser compreendido tamb\u00e9m como uma forma de feminismo decolonial, porque ele questiona e desconstr\u00f3i estruturas de poder herdadas do colonialismo. Ao mesmo tempo, \u00e9 importante n\u00e3o exigir que todas as mulheres mu\u00e7ulmanas se identifiquem necessariamente com o r\u00f3tulo de \u201cfeministas isl\u00e2micas\u201d. Muitas dessas mulheres est\u00e3o engajadas em lutas por direitos e justi\u00e7a social, mesmo que utilizem outras formas de nomear suas pr\u00e1ticas pol\u00edticas.<\/span><\/p>\n<p><span>De modo geral, essas lutas dialogam com outras correntes feministas \u2013 especialmente os feminismos decoloniais e latino-americanos \u2013 em pelo menos tr\u00eas dimens\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span>A primeira \u00e9 o antirracismo e o anti-imperialismo. Feminismos decoloniais e latino-americanos t\u00eam apontado como a viol\u00eancia de Estado, a militariza\u00e7\u00e3o e din\u00e2micas da economia pol\u00edtica global \u2013 como san\u00e7\u00f5es, ocupa\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es militares \u2013 afetam profundamente a vida das mulheres. Nesse sentido, as experi\u00eancias de mulheres mu\u00e7ulmanas em diferentes contextos tamb\u00e9m revelam como g\u00eanero, guerra e colonialidade est\u00e3o interligados.<\/span><\/p>\n<p><span>A segunda dimens\u00e3o \u00e9 a cr\u00edtica ao universalismo. A ideia de que existe um \u00fanico caminho ou um \u00fanico modelo de emancipa\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 contestada. Em seu lugar, entram categorias como pluralidade, territ\u00f3rio, religi\u00e3o, ra\u00e7a e classe, que mostram como as experi\u00eancias das mulheres s\u00e3o diversas e situadas historicamente.<\/span><\/p>\n<p><span>A terceira dimens\u00e3o \u00e9 a troca pr\u00e1tica de experi\u00eancias e solidariedades. H\u00e1 di\u00e1logos e articula\u00e7\u00f5es em torno de agendas comuns, como o enfrentamento da viol\u00eancia estatal, a defesa da justi\u00e7a reprodutiva, o acesso \u00e0 sa\u00fade, os direitos de migrantes e a constru\u00e7\u00e3o de redes comunit\u00e1rias de prote\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Claro que existem tens\u00f5es nesse di\u00e1logo. A religi\u00e3o muitas vezes aparece como um ponto sens\u00edvel. Alguns setores feministas seculares temem que a presen\u00e7a da religi\u00e3o nos debates legitime discursos conservadores. Por outro lado, muitas ativistas religiosas receiam ser exclu\u00eddas ou marginalizadas dentro dos pr\u00f3prios movimentos feministas.<\/span><\/p>\n<p><span>Talvez o caminho mais produtivo esteja em deslocar o foco da identidade para as estruturas de poder. Ou seja, criticar o patriarcado e o autoritarismo \u2013 e n\u00e3o as identidades religiosas em si \u2013 e construir alian\u00e7as em torno de objetivos concretos: seguran\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, trabalho digno e o enfrentamento de todas as formas de viol\u00eancia. Isso permite que diferentes correntes feministas dialoguem e cooperem sem exigir uniformidade de pensamento ou de pr\u00e1ticas religiosas.<\/span><\/p>\n<p>O post \u2018Viol\u00eancia de guerra afeta gravemente mulheres e crian\u00e7as\u2019, afirma antrop\u00f3loga apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/camara-dos-deputados-diz-ao-stf-que-suspendeu-salario-de-zambelli\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">C\u00e2mara dos Deputados diz ao STF que suspendeu sal\u00e1...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trump-pressiona-petroliferas-dos-eua-para-operar-na-venezuela-e-empresas-querem-garantias\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Trump pressiona petrol\u00edferas dos EUA para operar n...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/senador-rogerio-prestigia-40a-edicao-da-corrida-cidade-de-aracaju-e-da-a-largada-oficial-da-prova\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Senador Rog\u00e9rio prestigia 40\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Corrida Ci...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/com-5a-revisao-seguida-do-mercado-previsao-da-inflacao-cai-para-55-em-2025\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/inflacao_MARCELO-CAMARGOAGENCIA-BRASI-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Com 5\u00aa revis\u00e3o seguida do mercado, previs\u00e3o da inf...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cChegar ao 8 de Mar\u00e7o vendo meninas iranianas morrerem em ataques dos Estados Unidos e Israel a escolas \u00e9 um retrato brutal de como conflitos armados e disputas geopol\u00edticas impactam gravemente sobre mulheres e crian\u00e7as\u201d. 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