{"id":77870,"date":"2026-03-11T17:04:08","date_gmt":"2026-03-11T20:04:08","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-o-verde-volta-se-contra-os-povos-tradicionais\/"},"modified":"2026-03-11T17:04:08","modified_gmt":"2026-03-11T20:04:08","slug":"quando-o-verde-volta-se-contra-os-povos-tradicionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-o-verde-volta-se-contra-os-povos-tradicionais\/","title":{"rendered":"Quando o \u201cverde\u201d volta-se contra os povos tradicionais"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"982\" height=\"483\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Screenshot-2026-03-11-at-17-02-00-Telegram-Web.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Screenshot-2026-03-11-at-17-02-00-Telegram-Web.png 982w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/11170206\/Screenshot-2026-03-11-at-17-02-00-Telegram-Web-300x148.png 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/11170206\/Screenshot-2026-03-11-at-17-02-00-Telegram-Web-768x378.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 982px) 100vw, 982px\"><figcaption><em>Ru\u00ednas de uma vila localizada no interior do Parque do Jurupar\u00e1<\/em>. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Gazeta de S.Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A hist\u00f3ria do ambientalismo \u00e9 marcada por um debate profundo sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o ser humano e a natureza. Longe de ser um movimento monol\u00edtico, ele se desdobra em diferentes escolas de pensamento que carregam vis\u00f5es distintas sobre conserva\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e o papel das popula\u00e7\u00f5es humanas. A partir das obras de Joan Mart\u00ednez Alier e Antonio Carlos Diegues, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar um panorama dessas correntes e compreender os apontamentos cr\u00edticos que as atravessam, especialmente no que tange \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o entre uma vis\u00e3o \u201cintocada\u201d da natureza e as pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis de comunidades tradicionais.<\/p>\n<p>Em \u201cCorrentes do Ecologismo\u201d, Joan Mart\u00ednez Alier sistematiza o pensamento ambiental em tr\u00eas grandes vertentes, cada uma com sua l\u00f3gica e linguagem de valora\u00e7\u00e3o espec\u00edficas. A primeira \u00e9 o culto \u00e0 vida selvagem, tamb\u00e9m conhecido como preservacionismo ou ecologismo profundo. Esta corrente, com forte influ\u00eancia de pa\u00edses como Estados Unidos, Austr\u00e1lia e Alemanha, atribui um valor intr\u00ednseco \u00e0 natureza, defendendo sua preserva\u00e7\u00e3o em estado \u201cpuro\u201d, intocado pela a\u00e7\u00e3o humana. Seu foco est\u00e1 na cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas selvagens (wilderness) e na prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade por seu valor espiritual, est\u00e9tico ou ecol\u00f3gico inerente.<\/p>\n<p>A segunda corrente \u00e9 o evangelho da ecoefici\u00eancia, frequentemente associado ao \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d fraco e \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Surgido a partir da confer\u00eancia de Estocolmo (1972) e consolidado no Relat\u00f3rio Brundtland (1987), este discurso \u00e9 hegem\u00f4nico entre governos e grandes corpora\u00e7\u00f5es. Ele defende a compatibiliza\u00e7\u00e3o entre crescimento econ\u00f4mico e preserva\u00e7\u00e3o ambiental por meio da tecnologia, da gest\u00e3o eficiente dos recursos e da valora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da natureza. Acredita-se que o mercado e a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica podem \u201cesverdear\u201d o capitalismo.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Prancheta-4-7.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Prancheta-4-7.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Por fim, Mart\u00ednez Alier apresenta o ecologismo dos pobres, ou movimento por justi\u00e7a ambiental. Esta corrente, originada no Sul Global, n\u00e3o nasce de uma preocupa\u00e7\u00e3o primariamente est\u00e9tica ou espiritual com a natureza, mas sim da luta por sobreviv\u00eancia diante da degrada\u00e7\u00e3o ambiental causada pela minera\u00e7\u00e3o, pelo agroneg\u00f3cio, pela polui\u00e7\u00e3o e por grandes projetos de infraestrutura. Para as popula\u00e7\u00f5es tradicionais, o ambiente \u00e9 a fonte imediata de reprodu\u00e7\u00e3o social e cultural. A linguagem utilizada n\u00e3o \u00e9 a do valor monet\u00e1rio ou do sagrado, mas a da ecologia pol\u00edtica, reivindicando justi\u00e7a social, direitos territoriais e o reconhecimento de seus modos de vida.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente na cr\u00edtica \u00e0 primeira corrente \u2013 o preservacionismo \u2013 que se insere a obra seminal de Antonio Carlos Diegues, \u201cO mito moderno da natureza intocada\u201d. Diegues analisa como o modelo de \u00e1reas naturais protegidas, criado nos Estados Unidos no s\u00e9culo XIX com a cria\u00e7\u00e3o do Parque Nacional de Yellowstone, foi exportado como verdade universal para o resto do mundo, especialmente para os pa\u00edses tropicais.<\/p>\n<p>Este modelo, segundo o autor, fundamenta-se em uma ideologia espec\u00edfica: a de que o ser humano \u00e9 intrinsecamente um agente de destrui\u00e7\u00e3o da natureza. Para \u201cproteg\u00ea-la\u201d, seria necess\u00e1rio, ent\u00e3o, criar \u201cilhas de conserva\u00e7\u00e3o\u201d, espa\u00e7os p\u00fablicos e vazios, de grande beleza c\u00eanica, onde a natureza pudesse ser admirada e reverenciada pelo homem urbano, mas jamais habitada. A este ideal, Diegues d\u00e1 o nome de mito moderno da natureza intocada: a cren\u00e7a de que a conserva\u00e7\u00e3o efetiva s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na aus\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>O grande problema \u00e9 que essas \u201cilhas de conserva\u00e7\u00e3o\u201d nunca foram, de fato, territ\u00f3rios intocados. Eles sempre foram habitados por comunidades que se relacionaram de modo harmonioso com a natureza. A \u00e1rea que hoje abriga o Parque de Yellowstone, por exemplo, foi territ\u00f3rio sagrado de diversas comunidades ind\u00edgenas (Crow, Shoshone, Bannock, Blackfeet, entre outras) por milhares de anos, mas que sofreram um processo de remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, com a cria\u00e7\u00e3o do parque, em 1872, para que turistas, ent\u00e3o, pudessem apreciar a \u201cnatureza intocada\u201d.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A transposi\u00e7\u00e3o desse modelo para pa\u00edses como o Brasil segue o mesmo tipo de viola\u00e7\u00e3o. Nossas florestas e ecossistemas n\u00e3o eram vazios demogr\u00e1ficos, mas sim territ\u00f3rios historicamente habitados por popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, quilombolas, caipiras, ribeirinhos e extrativistas. Esses grupos, ao contr\u00e1rio da vis\u00e3o do colonizador, desenvolveram ao longo de s\u00e9culos formas de apropria\u00e7\u00e3o comunal dos recursos naturais, baseadas em um profundo conhecimento do mundo natural. Por meio de sistemas engenhosos de manejo, eles n\u00e3o s\u00f3 conservaram, mas tamb\u00e9m potencializaram a diversidade biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de cria\u00e7\u00e3o de parques e reservas de prote\u00e7\u00e3o integral, ao desconsiderar a presen\u00e7a desses povos e expuls\u00e1-los de suas terras, gerou uma grave injusti\u00e7a ambiental. Ela desarticulou redes de conviv\u00eancia harm\u00f4nicas e realmente sustent\u00e1veis, apagou saberes tradicionais e criou um conflito onde antes havia equil\u00edbrio. O que o preservacionismo classifica como \u201cimpacto humano\u201d, Diegues reinterpreta como o resultado da ruptura de uma antiga alian\u00e7a entre o homem e a natureza pela civiliza\u00e7\u00e3o urbano-industrial. Os mitos de uma natureza intocada s\u00e3o, na verdade, constru\u00e7\u00f5es modernas que desprezam o papel de popula\u00e7\u00f5es tradicionais como agentes hist\u00f3ricos da conserva\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente essa contradi\u00e7\u00e3o entre o mito da natureza intocada e a realidade da ocupa\u00e7\u00e3o tradicional que se materializa no Parque Estadual do Jurupar\u00e1 (PEJU). Localizado nos munic\u00edpios de Ibi\u00fana e Piedade, regi\u00e3o metropolitana de Sorocaba, interior do Estado de S\u00e3o Paulo, se constitui em um caso emblem\u00e1tico dos conflitos socioambientais gerados pela pol\u00edtica de cria\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o integral no Brasil.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>\u201cCercamentos verdes\u201d<\/strong><\/h3>\n<p>A sociedade caipira constitui uma das mais importantes matrizes culturais do Brasil, profundamente enraizada no processo de forma\u00e7\u00e3o social e territorial do pa\u00eds. Longe da vis\u00e3o estereotipada, a cultura caipira representa um complexo modo de vida gestado no encontro entre portugueses, ind\u00edgenas e negros, que se desenvolveu em vasta regi\u00e3o do territ\u00f3rio brasileiro e deixou marcas indel\u00e9veis na l\u00edngua, na culin\u00e1ria, na m\u00fasica, na religiosidade e nas formas de sociabilidade que at\u00e9 hoje caracterizam o povo brasileiro.\u00a0<\/p>\n<p>Foi Antonio Candido que revelou o caipira, em sua obra \u201cOs Parceiros do Rio Bonito\u201d, como sujeito de identidade dos paulistas e de todos os habitantes do pa\u00eds. Candido foi o respons\u00e1vel por tornar o caipira objeto do conhecimento cient\u00edfico e refer\u00eancia sociol\u00f3gica na explica\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira. Ele descreveu uma sociedade organizada em torno da agricultura de subsist\u00eancia e da coopera\u00e7\u00e3o entre vizinhos e familiares, com um tipo de economia semifechada, onde os caipiras permaneciam isolados em bairros rurais, baseados na agricultura de subsist\u00eancia, ind\u00fastria caseira e trocas pr\u00f3prias da solidariedade interfamiliar e vicinal.\u00a0<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es de vizinhan\u00e7a e parentesco constitu\u00edam o cerne da organiza\u00e7\u00e3o social caipira. O mutir\u00e3o, forma de trabalho coletivo em que vizinhos se reuniam para ajudar uns aos outros, especialmente nas colheitas e na constru\u00e7\u00e3o de casas, expressava essa solidariedade fundamental. A cultura tradicional caipira \u00e9 intrinsecamente ligada \u00e0 terra: a autossufici\u00eancia, o n\u00e3o ac\u00famulo de capital, a produ\u00e7\u00e3o apenas para o pr\u00f3prio sustento, sem extinguir o potencial da terra ou destru\u00ed-la, s\u00e3o caracter\u00edsticas fundamentais desse modo de vida. O territ\u00f3rio \u00e9 pe\u00e7a chave na preserva\u00e7\u00e3o dos modos de vida tradicionais. Com as profundas transforma\u00e7\u00f5es ocorridas a partir de meados do s\u00e9culo XX, no entanto, hoje restam apenas fragmentos desta cultura.<\/p>\n<p>A comunidade que vive no que hoje \u00e9 chamado de Parque Estadual do Jurupar\u00e1 (PEJU) representa um desses fragmentos que ainda resistem, mantendo o modo de vida caipira h\u00e1 mais de oito gera\u00e7\u00f5es, mas agora encontra-se amea\u00e7ada pela pol\u00edtica de conserva\u00e7\u00e3o que transformou o territ\u00f3rio dessas fam\u00edlias, sem qualquer consulta pr\u00e9via, em unidade de conserva\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o integral, modalidade que n\u00e3o admite ocupa\u00e7\u00e3o humana, ainda que esta seja anterior \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do parque, como atesta o plano de manejo elaborado em 2009.\u00a0<\/p>\n<p>O PEJU foi criado pelo Decreto Estadual n\u00ba 35.703, de 22 de setembro de 1992, assinado pelo ent\u00e3o governador Luiz Ant\u00f4nio Fleury Filho, com extens\u00e3o de 26.250,47 hectares (aproximadamente 262,5 km\u00b2), abrangendo terras dos munic\u00edpios de Ibi\u00fana (cerca de 98% da \u00e1rea) e Piedade (os 2% restantes). Segundo o Sistema Nacional de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o (SNUC), institu\u00eddo posteriormente pela Lei Federal n\u00ba 9.985\/2000, a categoria \u201cunidade de conserva\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o integral\u201d exige a desapropria\u00e7\u00e3o das \u00e1reas particulares e a remo\u00e7\u00e3o de quaisquer ocupantes humanos, por tratar-se de \u00e1rea de dom\u00ednio p\u00fablico com fins de preserva\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do parque inaugurou um per\u00edodo de profunda indefini\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias residentes, que passaram a sofrer diversos tipos de opress\u00e3o. De uma hora pra outra foram impedidas de manter seus cultivos de subsist\u00eancia, os porcos\u00a0e galinhas foram confiscados pela administra\u00e7\u00e3o do parque, o acesso \u00e0 energia el\u00e9trica foi impedido e at\u00e9 mesmo o acesso \u00e0s suas pr\u00f3prias resid\u00eancias passou a ser restringido. A infraestrutura, que um dia reuniu a comunidade, foi demolida \u2013 como a escola e a igreja. Inaugurou-se, ent\u00e3o, um processo de apagamento da hist\u00f3ria daquelas pessoas, mas tamb\u00e9m do reconhecimento oficial da comunidade como parte do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e cultural da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A comunidade vive agora sob constante amea\u00e7a de remo\u00e7\u00e3o, num processo que se arrasta por d\u00e9cadas e que, sob o governo de Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos), ganhou contornos de urg\u00eancia e viol\u00eancia institucional. Os moradores denunciam que o governo estadual est\u00e1 promovendo a demoli\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis sem nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o e tratando fam\u00edlias inteiras como criminosas. H\u00e1 reiteradas tentativas de di\u00e1logo por parte da comunidade, mas as expuls\u00f5es e demoli\u00e7\u00f5es de im\u00f3veis seguem ocorrendo, como parte da sistem\u00e1tica recusa do poder p\u00fablico em ouvi-la.<\/p>\n<p>O governo Tarc\u00edsio, ao dar prosseguimento \u00e0s demoli\u00e7\u00f5es e \u00e0 pol\u00edtica de remo\u00e7\u00e3o, revela uma escolha pol\u00edtica clara: privilegiar uma concep\u00e7\u00e3o abstrata e importada do preservacionismo em detrimento do direito ao territ\u00f3rio e \u00e0 moradia de popula\u00e7\u00f5es que, de fato, conservaram a \u00e1rea durante gera\u00e7\u00f5es. Esta postura contraria frontalmente o paradigma da etnoconserva\u00e7\u00e3o proposto por Diegues, que defende a integra\u00e7\u00e3o dos saberes tradicionais \u00e0s pol\u00edticas de preserva\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m desrespeita os princ\u00edpios da Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio, que determina a consulta pr\u00e9via e informada \u00e0s comunidades tradicionais sempre que medidas legislativas ou administrativas possam afet\u00e1-las. Promovendo a viola\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos.<\/p>\n<h3><strong>O Frankenstein jur\u00eddico<\/strong><\/h3>\n<p>As a\u00e7\u00f5es judiciais em curso configuram um verdadeiro \u201cFrankenstein Jur\u00eddico\u201d. O Estado move a\u00e7\u00f5es por dano ambiental contra essas fam\u00edlias, mas a mat\u00e9ria de fundo \u00e9 o direito possess\u00f3rio. O processo de desapropria\u00e7\u00e3o, no entanto, revela graves v\u00edcios de origem e procedimentos que violam direitos fundamentais e princ\u00edpios b\u00e1sicos do ordenamento jur\u00eddico. A aus\u00eancia de estudos antropol\u00f3gicos, a neglig\u00eancia com a realidade fundi\u00e1ria documentada e os erros cartogr\u00e1ficos que resultam na remo\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias fora dos limites do parque evidenciam que o poder p\u00fablico tem conduzido este conflito com base em arbitrariedades, e n\u00e3o em crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e legais.<\/p>\n<p>Um dos aspectos mais graves do processo \u00e9 a completa aus\u00eancia de um estudo antropol\u00f3gico que identifique e caracterize as comunidades tradicionais que habitam a regi\u00e3o. O pr\u00f3prio plano de manejo do parque j\u00e1 indicava a necessidade de um laudo complementar que investigasse a exist\u00eancia de fam\u00edlias tradicionais no interior da unidade de conserva\u00e7\u00e3o. Anos se passaram, e essa an\u00e1lise nunca foi realizada.<\/p>\n<p>A omiss\u00e3o deste estudo n\u00e3o \u00e9 um mero detalhe burocr\u00e1tico. Trata-se de uma viola\u00e7\u00e3o direta de direitos assegurados pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal e por conven\u00e7\u00f5es internacionais. A aus\u00eancia do estudo antropol\u00f3gico cumpre, na pr\u00e1tica, uma fun\u00e7\u00e3o perversa: ao n\u00e3o reconhecer oficialmente o car\u00e1ter tradicional dessas fam\u00edlias, o Estado as despe de prote\u00e7\u00f5es legais espec\u00edficas e as trata como \u201cinvasores\u201d ou \u201cocupantes irregulares\u201d comuns. Apaga-se, assim, s\u00e9culos de hist\u00f3ria e uma rela\u00e7\u00e3o de pertencimento e manejo sustent\u00e1vel do territ\u00f3rio que remonta ao in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, com a forma\u00e7\u00e3o de comunidades nos caminhos dos tropeiros que ligavam o Sul do pa\u00eds \u00e0 cidade de Sorocaba.<\/p>\n<p>O segundo pilar da arbitrariedade reside no fato de que o processo de desapropria\u00e7\u00e3o tem sido conduzido sem um adequado estudo fundi\u00e1rio que considere a complexa hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. A documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica revela que a \u00e1rea do atual parque foi objeto de uma A\u00e7\u00e3o Discriminat\u00f3ria iniciada em 1939, que assegurou a delimita\u00e7\u00e3o das terras p\u00fablicas, separando-as das terras particulares e de outras posses leg\u00edtimas. Na \u00e9poca, foram contabilizadas 183 glebas. Em 1959, com o t\u00e9rmino da A\u00e7\u00e3o Demarcat\u00f3ria, ficou estabelecido o processo de legitima\u00e7\u00e3o de posses, visando a transfer\u00eancia do dom\u00ednio das terras para as fam\u00edlias da regi\u00e3o. Ao final desse longo processo, o n\u00famero de glebas subiu para 212, das quais 207 foram consideradas aptas pela Fazenda P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo a receberem os t\u00edtulos de dom\u00ednio. Esta decis\u00e3o foi publicada no Di\u00e1rio Oficial do Estado em 19 de abril de 1973. Faltava, portanto, apenas a outorga formal dos t\u00edtulos \u2013 um ato burocr\u00e1tico que nunca foi conclu\u00eddo.<\/p>\n<p>O governo estadual simplesmente ignorou todo este hist\u00f3rico e, em 30 de agosto de 1978, decretou a \u00e1rea como Reserva Florestal, transformando-a posteriormente em Parque Estadual em 1992. O que se v\u00ea, portanto, \u00e9 uma invers\u00e3o completa da l\u00f3gica jur\u00eddica: fam\u00edlias que o pr\u00f3prio Estado reconheceu como leg\u00edtimas possuidoras e aptas a receber o t\u00edtulo de propriedade passaram a ser tratadas como \u201cinvasoras\u201d de uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o criada posteriormente. O processo de remo\u00e7\u00e3o tem atingido fam\u00edlias que sequer est\u00e3o dentro dos limites oficiais do Parque Estadual do Jurupar\u00e1. Relatos da comunidade indicam que as demoli\u00e7\u00f5es e ordens de despejo est\u00e3o sendo aplicadas sobre propriedades localizadas fora da poligonal do parque, ou seja, em \u00e1reas onde a restri\u00e7\u00e3o legal nem sequer deveria incidir.\u00a0<\/p>\n<p>Este fato revela a precariedade e o descaso com que o poder p\u00fablico tem tratado a quest\u00e3o. Erros cartogr\u00e1ficos em processos de desapropria\u00e7\u00e3o s\u00e3o inadmiss\u00edveis, especialmente quando implicam na destrui\u00e7\u00e3o de moradias e no desenraizamento de fam\u00edlias inteiras. A demoli\u00e7\u00e3o de casas de pessoas que est\u00e3o fora da \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental n\u00e3o apenas configura um ato ilegal, mas tamb\u00e9m exp\u00f5e a face mais cruel de uma pol\u00edtica que parece operar no autom\u00e1tico, sem qualquer compromisso com a precis\u00e3o t\u00e9cnica ou com a dignidade das pessoas atingidas.\u00a0<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das ilegalidades formais, o processo tem sido marcado por um tratamento desumano aos moradores. Guaritas de controle de acesso ao parque e sua gest\u00e3o pela Funda\u00e7\u00e3o Florestal imp\u00f5e priva\u00e7\u00f5es de direitos fundamentais, como impedir que os moradores levem eletrodom\u00e9sticos para suas resid\u00eancias ou promovam reparos m\u00ednimos em suas casas. Esta pol\u00edtica de \u201csufocamento\u201d das condi\u00e7\u00f5es de vida parece ter como objetivo for\u00e7ar a sa\u00edda das fam\u00edlias por exaust\u00e3o, antes mesmo de qualquer decis\u00e3o judicial definitiva. Impedir algu\u00e9m de consertar o telhado de sua pr\u00f3pria casa ou substituir uma geladeira velha por uma nova n\u00e3o \u00e9 uma medida de prote\u00e7\u00e3o ambiental, \u00e9 uma forma de coer\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e material, que submete as pessoas a condi\u00e7\u00f5es degradantes.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o dos Moradores e Sitiantes do Jurupar\u00e1 e Adjac\u00eancias, conhecida pela sigla AJA, criada em 2004, representa a formaliza\u00e7\u00e3o institucional de um movimento de resist\u00eancia que, na pr\u00e1tica, j\u00e1 dura mais de meio s\u00e9culo. A pr\u00f3pria grafia da sigla, \u201cAJA\u201d, j\u00e1 carrega um duplo sentido: \u00e9 a abrevia\u00e7\u00e3o de \u201cAssocia\u00e7\u00e3o do Jurupar\u00e1 e Adjac\u00eancias\u201d, mas tamb\u00e9m funciona como um verbo no imperativo, uma convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o diante da injusti\u00e7a. A AJA tem atuado em diversas frentes para combater o que classifica como \u201cuma injusti\u00e7a social praticada pelo governo\u201d. A principal bandeira da associa\u00e7\u00e3o \u00e9 o reconhecimento da legitimidade da ocupa\u00e7\u00e3o humana no territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Diante de tantos v\u00edcios e arbitrariedades, a comunidade do Jurupar\u00e1, por meio da AJA, tem reiteradamente solicitado ao governo estadual a abertura de um grupo de trabalho amplo, que revise a classifica\u00e7\u00e3o do parque e busque o di\u00e1logo com os envolvidos. A reivindica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 por um tratamento privilegiado, mas sim por um processo que observe o correto ordenamento jur\u00eddico, realize os estudos t\u00e9cnicos devidos e reconhe\u00e7a os direitos historicamente constitu\u00eddos. O principal desafio da associa\u00e7\u00e3o \u00e9 o reconhecimento da legitimidade dos t\u00edtulos de posse, que remontam ao per\u00edodo anterior \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do parque, s\u00e3o registrados em cart\u00f3rio e foram publicados no Di\u00e1rio Oficial do Estado da d\u00e9cada de 1970. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m reivindicam a reclassifica\u00e7\u00e3o do Parque, considerando-o compat\u00edvel com a presen\u00e7a humana, enquadrando-o na categoria de reserva de desenvolvimento sustent\u00e1vel (RDS) ou reserva extrativista (Resex), que concilia a conserva\u00e7\u00e3o com a presen\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es tradicionais.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que a reclassifica\u00e7\u00e3o pretendida abrange menos de 10% da \u00e1rea total do parque, isso significa que 90% do parque permaneceria como \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o integral. N\u00e3o se trata, portanto, de inviabilizar a conserva\u00e7\u00e3o ambiental, mas de setorizar o territ\u00f3rio, conciliando a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade com a presen\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es que demonstraram, ao longo de gera\u00e7\u00f5es, serem capazes de manej\u00e1-la de forma sustent\u00e1vel. Essa recategoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia pragm\u00e1tica e imediata para garantir a sobreviv\u00eancia das fam\u00edlias, mas a luta mais ampla \u00e9 pela descoloniza\u00e7\u00e3o dos modelos de conserva\u00e7\u00e3o e pelo reconhecimento de territ\u00f3rios tradicionalmente ocupados como categorias aut\u00f4nomas de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Ao Capital, tudo!<\/strong><\/h3>\n<p>Um dos aspectos mais graves dessa pol\u00edtica \u00e9 a seletividade com que a lei ambiental \u00e9 aplicada. Enquanto as comunidades tradicionais s\u00e3o tratadas como amea\u00e7a \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o, grandes empreendimentos econ\u00f4micos operam com ampla liberdade dentro das mesmas \u00e1reas protegidas. Dentro dos limites do Parque Estadual do Jurupar\u00e1 (PEJU), a Companhia Brasileira de Alum\u00ednio (CBA), do Grupo Votorantim, opera quatro usinas hidrel\u00e9tricas. Se a narrativa oficial para justificar a remo\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o ambiental, o caso das hidrel\u00e9tricas exp\u00f5e a fragilidade desse argumento.\u00a0<\/p>\n<p>Ora, uma usina hidrel\u00e9trica representa uma interven\u00e7\u00e3o de alt\u00edssimo impacto ambiental. Ela altera o regime dos rios; interfere na fauna aqu\u00e1tica; exige a manuten\u00e7\u00e3o de uma estrutura industrial permanente dentro da \u00e1rea supostamente \u201cprotegida\u201d. No entanto, contra essas estruturas, o poder p\u00fablico n\u00e3o move uma \u00fanica a\u00e7\u00e3o de remo\u00e7\u00e3o ou demoli\u00e7\u00e3o. Este contraste \u00e9 percebido com clareza pelos moradores; enquanto a energia el\u00e9trica \u00e9 negada \u00e0 comunidade, a Votorantim alimenta suas f\u00e1bricas na cidade de Alum\u00ednio com energia gerada pelas hidrel\u00e9tricas que, ironicamente, s\u00e3o movidas pelas \u00e1guas do PEJU. Enquanto a comunidade tradicional \u00e9 impedida de cultivar os alimentos para a sua pr\u00f3pria subsist\u00eancia ou impedida de passar com uma geladeira pelas correntes que agora cercam a \u00e1rea, uma multinacional do setor de miner\u00e1rio mant\u00e9m, sem qualquer entrave, uma infraestrutura de gera\u00e7\u00e3o de energia altamente impactante.<\/p>\n<p>O grupo empresarial tem um discurso p\u00fablico fortemente ancorado na sustentabilidade. Por meio da empresa Reservas Votorantim, o grupo administra o \u201cLegado das \u00c1guas\u201d, uma reserva privada de 31 mil hectares de Mata Atl\u00e2ntica no Vale do Ribeira, vizinha ao Parque do Jurupar\u00e1, que \u00e9 apresentada como modelo de conserva\u00e7\u00e3o e ecoturismo. O discurso institucional da Votorantim fala em \u201ccombinar prote\u00e7\u00e3o ambiental com gera\u00e7\u00e3o de renda, valor compartilhado e desenvolvimento das comunidades locais\u201d. No entanto, este discurso contrasta fortemente com a realidade no Jurupar\u00e1. Enquanto a empresa \u00e9 louvada por preservar suas \u00e1reas e oferecer servi\u00e7os ambientais, as hidrel\u00e9tricas da CBA \u2013 sua pr\u00f3pria subsidi\u00e1ria \u2013 operam dentro de um parque p\u00fablico, contribuindo para a degrada\u00e7\u00e3o silenciosa dos recursos h\u00eddricos e para a manuten\u00e7\u00e3o de um status quo que expulsa popula\u00e7\u00f5es tradicionais.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio do governo estadual sobre as hidrel\u00e9tricas, em contraste com a trucul\u00eancia contra as fam\u00edlias, revela a dimens\u00e3o pol\u00edtica e de classe do conflito. N\u00e3o se trata, portanto, de uma aplica\u00e7\u00e3o ison\u00f4mica da lei ambiental. Trata-se de uma disputa territorial onde um lado \u2013 o das popula\u00e7\u00f5es tradicionais \u2013 \u00e9 tratado como \u201cinvasor\u201d e tem suas casas demolidas, enquanto o outro \u2013 o do grande capital industrial \u2013 \u00e9 tratado como parceiro, mesmo quando suas opera\u00e7\u00f5es causam danos ambientais objetivos.<\/p>\n<h3><strong>A comunidade clama por apoio<\/strong><\/h3>\n<p>A luta da comunidade do Jurupar\u00e1, representada pela AJA, transcende, portanto, a defesa das fam\u00edlias. Ela se insere no campo mais amplo da justi\u00e7a ambiental e da ecologia pol\u00edtica, conforme teorizado por Mart\u00ednez Alier. O que a associa\u00e7\u00e3o denuncia \u00e9 que o discurso da \u201cprote\u00e7\u00e3o da natureza\u201d tem sido utilizado como instrumento de expropria\u00e7\u00e3o territorial, enquanto os verdadeiros agentes de degrada\u00e7\u00e3o operam com total liberdade.<\/p>\n<p>Enquanto o governo Tarc\u00edsio insistir em ignorar os erros deste processo \u2013 a aus\u00eancia de estudos antropol\u00f3gicos, o desprezo pela documenta\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, a remo\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias fora dos limites do parque e o tratamento coercitivo dos moradores \u2013 estar\u00e1 construindo n\u00e3o a prote\u00e7\u00e3o da natureza, mas sim um monumento \u00e0 injusti\u00e7a social e ao atropelo da lei. A preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente n\u00e3o pode ser feita \u00e0s custas do sofrimento de cidad\u00e3os desamparados e assediados pelo Estado.<\/p>\n<p>Diante de um quadro t\u00e3o estarrecedor de viola\u00e7\u00f5es, em que o pr\u00f3prio Estado \u2013 que deveria ser o garantidor de direitos \u2013 atua como algoz, expulsando fam\u00edlias de suas terras ancestrais sob o pretexto de \u201cproteger a natureza\u201d enquanto acoberta os verdadeiros agentes de degrada\u00e7\u00e3o ambiental, a comunidade do Parque Estadual do Jurupar\u00e1 clama por apoio ativo. N\u00e3o se trata de um pedido assistencialista, mas de um chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o por justi\u00e7a: advogados, defensores p\u00fablicos, juristas comprometidos com a fun\u00e7\u00e3o social do Direito, ativistas ambientais que compreendem a insustentabilidade de um preservacionismo autorit\u00e1rio, pesquisadores, estudantes, comunicadores e todos aqueles que acreditam que a prote\u00e7\u00e3o da natureza n\u00e3o pode ser feita contra os povos que historicamente a preservam \u2013 todos s\u00e3o convocados a somar for\u00e7as com a Associa\u00e7\u00e3o dos Moradores e Sitiantes do Jurupar\u00e1 e Adjac\u00eancias (AJA).\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 preciso denunciar o racismo ambiental que opera na seletividade entre expulsar comunidades tradicionais e preservar interesses empresariais; \u00e9 urgente exigir a realiza\u00e7\u00e3o do estudo antropol\u00f3gico h\u00e1 d\u00e9cadas prometido; \u00e9 fundamental levar aos tribunais e \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica os documentos de 1973 que comprovam a legitimidade das posses; \u00e9 necess\u00e1rio pressionar o governo estadual a substituir a pol\u00edtica de demoli\u00e7\u00f5es e sofrimento por uma mesa de di\u00e1logo efetivo que conduza \u00e0 recategoriza\u00e7\u00e3o do parque, reconhecendo o modo de vida caipira como parte do patrim\u00f4nio cultural e ambiental a ser protegido. A comunidade do Jurupar\u00e1 resiste h\u00e1 oito gera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o pode ser silenciada agora pela trucul\u00eancia de um Estado que, ao inv\u00e9s de proteger, destr\u00f3i.\u00a0<\/p>\n<p>O momento \u00e9 de solidariedade, h\u00e1 mais uma demoli\u00e7\u00e3o de casa prevista para acontecer. Que a sociedade civil, a academia, o sistema de justi\u00e7a e a imprensa se levantem ao lado da AJA, pois a vit\u00f3ria dessa luta n\u00e3o ser\u00e1 apenas das fam\u00edlias amea\u00e7adas, ser\u00e1 uma vit\u00f3ria da democracia, dos direitos humanos e de um novo paradigma de conserva\u00e7\u00e3o ambiental, onde a natureza e a cultura caminhem juntas, como sempre caminharam na comunidade Jurupar\u00e1.\u00a0<\/p>\n<p>Para apoiar a luta da comunidade do PEJU, entre em contato com a AJA atrav\u00e9s das redes sociais @ajasustentavel<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Agentes hist\u00f3ricos de preserva\u00e7\u00e3o, s\u00e3o v\u00edtimas de uma \u201cprote\u00e7\u00e3o integral\u201d que, ao mesmo tempo, abre as portas para  projetos de grandes empresas<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/terraeantropoceno\/quando-o-verde-volta-se-contra-os-povos-tradicionais\/\">Quando o \u201cverde\u201d volta-se contra os povos tradicionais<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":77871,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[38512,38513,38514,38515,38516,38517,19421,38518,38519,5840],"tags":[],"class_list":["post-77870","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antonio-carlos-diegues","category-ecologismo","category-ibiuna","category-ilhas-de-conservcacao","category-parque-do-yellowstone","category-parque-estadual-do-jurupara","category-povos-tradicionais","category-remocao","category-sistema-nacional-de-unidades-de-conservacao","category-terra-e-antropoceno"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77870","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=77870"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/77870\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77871"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=77870"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=77870"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=77870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}