{"id":78033,"date":"2026-03-12T14:58:48","date_gmt":"2026-03-12T17:58:48","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quem-sustenta-a-escala-6x1\/"},"modified":"2026-03-12T14:58:48","modified_gmt":"2026-03-12T17:58:48","slug":"quem-sustenta-a-escala-6x1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quem-sustenta-a-escala-6x1\/","title":{"rendered":"Quem sustenta a escala 6\u00d71?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5014854096451734392_w-2048x1365.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12145806\/photo_5014854096451734392_w-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12145806\/photo_5014854096451734392_w-300x200.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12145806\/photo_5014854096451734392_w-768x512.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12145806\/photo_5014854096451734392_w-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5014854096451734392_w-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12145806\/photo_5014854096451734392_w-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto, originalmente intitulado\u00a0\u201c<strong><strong>O peso do trabalho e os corpos que aguentam: quem s\u00e3o os corpos que sustentam as estruturas da escala 6\u00d71<\/strong><\/strong>\u201d foi escrito por <strong><strong>Wanise Cabral Silva<\/strong><\/strong>, <strong><strong>Ludmila Rodrigues Antunes<\/strong> <\/strong>e <strong><strong>Mariane Pereira Rodrigues<\/strong><\/strong> e faz parte de um dossi\u00ea organizado pelo Cesit\/Unicamp, Site DMT, Remir, GEPT\/UNB e FCE\/UFRGS e publicado em parceria com o <em>Outras Palavras<\/em>.\u00a0<strong>Leia aqui a s\u00e9rie completa<\/strong><\/p>\n<h3><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>N\u00e3o \u00e9 recente no Brasil o debate sobre as intensas jornadas de trabalho ou sobre as distintas dimens\u00f5es de informalidades e precariedades nas rela\u00e7\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es do trabalho. Para fins da discuss\u00e3o proposta sobre o movimento Vida Al\u00e9m do Trabalho (VAT) e as poss\u00edveis mudan\u00e7as urgente na Escala 6\u00d71 e sobre a jornada de trabalho no pa\u00eds, inscritas, inclusive, na Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) no 8\/25, consideramos importante lembrar a trajet\u00f3ria de luta das trabalhadoras e trabalhadores na contribui\u00e7\u00e3o para a regulamenta\u00e7\u00e3o e limita\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho desde antes da 1930 at\u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 (Brasil, 1988), e que foi em parte mutilada com a reforma trabalhista e suas decorrentes regulamenta\u00e7\u00f5es. Embora esteja claro que o mercado de trabalho no Brasil tenha estruturas sobre e sob o trabalho informal e prec\u00e1rio, no entanto, nos ateremos a quem s\u00e3o as trabalhadoras e trabalhadores formais, com Carteira de Trabalho e Previd\u00eancia Social, CTPS, assinada e que os corpos que sustentam as estruturas da Escala 6\u00d71.<\/p>\n<p>A luta das trabalhadoras e trabalhadores pela redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho \u00e9 hist\u00f3rica, remontando aos primeiros movimentos do S\u00e9culo XIX. Esse processo, aliado aos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e legislativos das d\u00e9cadas seguintes, refor\u00e7ou a necessidade de inserir o mundo do trabalho nos debates sobre garantias de direitos, no \u00e2mbito do fen\u00f4meno denominado \u201ctrabalhismo\u201d (Maior, 2025). Nesse percurso, conforme destaca Azevedo (2014), as mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o nacional foram precedidas por intensas mobiliza\u00e7\u00f5es sociais e sindicais que resultaram em acordos coletivos voltados \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do tempo de labor. Entre os marcos mais significativos est\u00e3o a funda\u00e7\u00e3o da Confedera\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria Brasileira (COB), em 1906, que conduziu lutas relevantes pela redu\u00e7\u00e3o da jornada no in\u00edcio do S\u00e9culo XX, e as Oposi\u00e7\u00f5es Sindicais, que, na d\u00e9cada de 1980, protagonizaram a campanha pelas 40 horas semanais. Ainda segundo o autor, dois momentos foram decisivos para a legisla\u00e7\u00e3o brasileira: a Constitui\u00e7\u00e3o de 1934 (Brasil, 1934), que fixou a jornada em 8 horas di\u00e1rias e 48 semanais, e a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 (Brasil, 1988), que reduziu o limite para 44 horas semanais, embora tenha rejeitado a proposta de ado\u00e7\u00e3o da jornada de 40 horas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-18.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-18.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o Federal (Brasil, 1988) vigente, em seu Artigo 7\u00ba, Inciso XIII, estabeleceu e limitou que a jornada de trabalho regular no Brasil n\u00e3o deve exceder 8 horas di\u00e1rias e 44 horas semanais, salvo previs\u00e3o diversa em conven\u00e7\u00e3o ou acordo coletivo, o que teria como objetivo proteger a sa\u00fade, o bem-estar e a dignidade do trabalhador. J\u00e1 o Artigo 67 da Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT) (Brasil, 1943) assegurou aos trabalhadores o direito a um descanso semanal remunerado de 24 horas consecutivas, preferencialmente aos domingos, em conson\u00e2ncia com os princ\u00edpios de preserva\u00e7\u00e3o do lazer e da conviv\u00eancia familiar. Com base nesses par\u00e2metros, \u00e9 comum a ado\u00e7\u00e3o da Escala 6\u00d71, na qual o empregado labora 8 horas di\u00e1rias durante 5 dias e 4 horas no sexto dia, totalizando as 44 horas semanais previstas, ou seja, se trabalha por seis dias consecutivos e repousa no s\u00e9timo.<\/p>\n<p>Legalmente admitida, essa modalidade de jornada suscita, por\u00e9m, relevantes e pol\u00eamicos questionamentos quanto \u00e0 sua conformidade com os direitos fundamentais do trabalho e com a dignidade da pessoa humana. A imposi\u00e7\u00e3o de jornadas com v\u00e1rios dias consecutivos de labor, sem um intervalo m\u00ednimo adequado para o repouso, j\u00e1 comprovado por in\u00fameros estudos pode ocasionar desgaste f\u00edsico e mental significativo, afrontando os preceitos constitucionais de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 seguran\u00e7a e ao bem-estar do trabalhador. Uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre a adequa\u00e7\u00e3o dessa estrutura de jornada \u00e0 realidade contempor\u00e2nea, na qual a promo\u00e7\u00e3o da qualidade de vida do trabalhador deve ser considerada um dos pilares centrais das rela\u00e7\u00f5es laborais. Se tornou hoje mais do que um imperativo para sua nova regulamenta\u00e7\u00e3o, mas uma forte manifesta\u00e7\u00e3o do alerta criado nos movimentos sociais e para sociedade como um todo sobre como se sentem em rela\u00e7\u00e3o as suas vidas e condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Ratificando nossos argumentos, e a insatisfa\u00e7\u00e3o dos segmentos e categorias de trabalhadoras e trabalhadores, n\u00e3o obstante as garantias constitucionais e infraconstitucionais, a jornada de trabalho no Brasil frequentemente ultrapassa limites razo\u00e1veis, muitas vezes ocorrendo em Escala 7\u00d70 (a exemplo de muitos trabalhadores informais, por conta pr\u00f3pria e de empresas de plataformas digitais), cabendo-nos ressaltar a necessidade pelo debate estruturado e participa\u00e7\u00e3o populacional na pol\u00edtica frente a um quadro de explora\u00e7\u00e3o que \u00e9 incompat\u00edvel com a dignidade da pessoa humana (Barbosa, 2024).<\/p>\n<p>Adriana Marcolino, diretora-t\u00e9cnica do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (DIEESE, 2019), ressalta a urg\u00eancia do debate acerca da Escala de Trabalho 6\u00d71. Concomitantemente a elabora\u00e7\u00e3o da Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) no 8\/25, apresentada pela Deputada Federal Erika Hilton, prop\u00f4s acabar com a referida escala, j\u00e1 foi protocolada na C\u00e2mara dos Deputados, no dia 25\/02\/2025. O texto da proposta aventou uma jornada de quatro dias de trabalho por semana e tr\u00eas de descanso, totalizando uma jornada de trabalho de 36 horas semanais, com a dura\u00e7\u00e3o do trabalho normalmente n\u00e3o superior a 8 horas di\u00e1rias, que, aparentemente, estaria em conson\u00e2ncia com as recomenda\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) e visou alinhar o Brasil ao cen\u00e1rio internacional. N\u00e3o \u00e9 muito lembrar, que, ainda que em conformidade com recomenda\u00e7\u00f5es de organismos internacionais do porte da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) \u2013 na qual o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio em in\u00fameros acordos \u2013, isso n\u00e3o pressup\u00f5e que a passagem da Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) no 8\/25 pela C\u00e2mara dos Deputados tenha ades\u00e3o ou simpatia de seus representantes, que s\u00e3o em sua maioria conservadores e pouco afeitos a mudan\u00e7as em que prevale\u00e7a o bem-estar de grupos mais vulner\u00e1veis e trabalhadores e trabalhadoras mulheres em geral. Nessa conjun\u00e7\u00e3o muito especial, a contribui\u00e7\u00e3o do movimento Vida Al\u00e9m do Trabalho (VAT), busca evidenciar o qu\u00e3o desumana \u00e9 a implementa\u00e7\u00e3o da Escala de Trabalho 6\u00d71 e o quanto est\u00e1 din\u00e2mica ceifa o direito ao descanso, \u00e0 vida e \u00e0 dignidade, humana das trabalhadoras e trabalhadores, reafirmando neste movimento o qu\u00e3o primordial e imprescind\u00edvel \u00e9 o protagonismo do trabalhador na luta pelo fim de jornadas abusivas e (re)constru\u00e7\u00e3o de direitos sociais e do trabalho dignos e justos.<\/p>\n<p>Entendemos que observar e investigar, a partir dos dados evidenciados por pesquisas em andamento, \u00e9 imprescind\u00edvel para identificar e problematizar quais s\u00e3o os corpos e sujeitos sociais que sustentam as atuais estruturas laborais e necess\u00e1rio para compreender a luta por novos direitos e de repensar as formas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, especialmente no que se refere \u00e0 jornada 6\u00d71 \u2013 modelo que, embora constitucional, revela-se profundamente injusto e carregado de impactos negativos j\u00e1 amplamente demonstrados pela literatura especializada. Nesse caminho, as interseccionalidades constituem um instrumento te\u00f3rico e anal\u00edtico fundamental para a compreens\u00e3o das complexidades do mundo social, das identidades e das experi\u00eancias humanas. Ao considerar que ra\u00e7a, g\u00eanero, classe e outros marcadores sociais de diferen\u00e7a n\u00e3o atuam isoladamente, mas em constante intera\u00e7\u00e3o, a perspectiva interseccional permite visibilizar como determinados grupos s\u00e3o atingidos de maneira mais profunda por estruturas de desigualdade e exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o da interseccionalidade revela-se imprescind\u00edvel para analisar os poss\u00edveis impactos da Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) no 8\/25, que, ao propor altera\u00e7\u00f5es estruturais na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, na regula\u00e7\u00e3o estatal e na prote\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o incide de forma uniforme sobre todas as trabalhadoras e trabalhadores. A partir dessa chave anal\u00edtica, torna-se poss\u00edvel identificar que os corpos mais vulnerabilizados \u2013 como mulheres, em especial as negras, pessoas pobres e pertencentes \u00e0s periferias urbanas \u2013 tendem a ser direta e positivamente afetados pelas mudan\u00e7as sugeridas pela PEC. Isso porque tais grupos j\u00e1 se encontram historicamente submetidos a um cen\u00e1rio de precariza\u00e7\u00e3o laboral, discrimina\u00e7\u00e3o estrutural e desigual acesso a direitos. A interseccionalidade, portanto, nos permite evidenciar que reformas aparentemente neutras podem aprofundar desigualdades preexistentes, refor\u00e7ando arranjos de poder que marginalizam determinados sujeitos sociais (Crenshaw, 2004).<\/p>\n<p>Este artigo se configura como um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o sobre um tema que apresenta m\u00faltiplas nuances, diversas abordagens e amplas possibilidades de an\u00e1lise. Em seu prop\u00f3sito, busca entender o perfil da(s) trabalhadora(s) e do(s) trabalhador(es) submetidos a Escala 6\u00d71 estudada, a partir de dados coletados na Amostra de Domic\u00edlio Cont\u00ednua (PNADC), na pesquisa em curso promovida pelo Sindicato dos Comerci\u00e1rios e pelo Observat\u00f3rio do Estado Social Brasileiro (2025) e Notas T\u00e9cnicas do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) do Instituto de Economia da Unicamp.<\/p>\n<h3><strong>A Escala 6\u00d71 tem Classe, Ra\u00e7a, G\u00eanero e Idade<\/strong><\/h3>\n<p>At\u00e9 o momento em que estamos escrevendo esse artigo[i], a pesquisa promovida pelo Sindicato dos Comerci\u00e1rios e pelo Observat\u00f3rio do Estado Social Brasileiro (2025) entrevistou 3.775 integrantes[ii] da classe trabalhadora submetidos \u00e0 Escala 6\u00d71, de mais de 400 munic\u00edpios, dos 27 Estados brasileiros, sendo a maioria (37,09%) na cidade do Rio de Janeiro. Desse total, 43,92% s\u00e3o homens, 54,57% mulheres, 0,19% outra, 0,56% n\u00e3o-bin\u00e1rio e 0,77% preferiram n\u00e3o responder. Aqui, se identifica o marcador social de g\u00eanero.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/HUCITEC-basaglia2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/HUCITEC-basaglia2.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/08\/31182112\/HUCITEC-basaglia2-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio Cont\u00ednua (IBGE, 2022), com tema \u201cOutras Formas de Trabalho\u201d, que levantou informa\u00e7\u00f5es sobre cuidado de pessoas, afazeres dom\u00e9sticos, produ\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3prio consumo e trabalho volunt\u00e1rio, em 2022, 92,1% das mulheres com 14 anos ou mais realizaram afazeres dom\u00e9sticos e\/ou cuidado de pessoas, enquanto apenas 80,8% dos homens desse grupo et\u00e1rio estavam envolvidos nessas atividades. Os homens da Regi\u00e3o Nordeste mostraram a menor taxa de realiza\u00e7\u00e3o: 73,9%. As mulheres dedicavam 9,6 horas a mais do que os homens aos afazeres dom\u00e9sticos e\/ou cuidados de pessoas. A divis\u00e3o das tarefas dom\u00e9sticas permanece desigual mesmo entre os trabalhadores: em m\u00e9dia, as mulheres ocupadas dedicaram 6,8 horas a mais do que os homens ocupados aos afazeres dom\u00e9sticos e\/ou cuidado de pessoas em 2022. E, por fim, as mulheres que se declararam pretas tinham a maior taxa de realiza\u00e7\u00e3o de afazeres dom\u00e9sticos (92,7%).<\/p>\n<p>Logo, o cotejamento desses dados com o resultado preliminar da pesquisa promovida pelo Sindicato dos Comerci\u00e1rios e pelo Observat\u00f3rio do Estado Social Brasileiro (2025) corrobora a hip\u00f3tese de que a jornada 6\u00d71 pode ser ainda mais cruel para as mulheres no Brasil. A elas \u00e9 atribu\u00edda uma dupla jornada: al\u00e9m das exig\u00eancias do trabalho remunerado \u2013 precarizado e informal \u2013 recaem sobre as responsabilidades do cuidado, do trabalho dom\u00e9stico e da reprodu\u00e7\u00e3o social da vida. Essa sobreposi\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es, geralmente naturalizada pelo discurso dominante, confirma que uma estrutura profundamente assim\u00e9trica e patriarcal constitutiva da realidade brasileira, que marginaliza o papel das mulheres como sujeitos aut\u00f4nomos no mundo do trabalho e obscurece a centralidade de sua contribui\u00e7\u00e3o para a manuten\u00e7\u00e3o da vida social. A invisibiliza\u00e7\u00e3o do trabalho reprodutivo e de cuidado refor\u00e7a a cis\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, t\u00edpica das economias capitalistas modernas, e legitima a explora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua das mulheres como recurso inesgot\u00e1vel de for\u00e7a de trabalho n\u00e3o remunerada (Saffioti, 2015; Federici, 2019).<\/p>\n<p>Segundo Marilane Teixeira, Clara Saliba, Caroline Lima de Oliveira e Lilia Bombo Alsisi (2025), a sobrecarga enfrentada pelas mulheres \u2013 intensificada tanto pelas jornadas extensas no mercado de trabalho quanto pelo ac\u00famulo de responsabilidades dom\u00e9sticas e de cuidado \u2013 evidencia a urg\u00eancia de repensar a organiza\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho. As autoras defendem que a reestrutura\u00e7\u00e3o das jornadas \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundamental para garantir maior equil\u00edbrio entre vida profissional e pessoal, possibilitando uma divis\u00e3o mais justa do tempo de cuidado, ainda fortemente concentrado sobre os ombros das mulheres. Esse debate \u00e9 central para compreender como a Escala 6\u00d71 e outras formas de intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho impactam desproporcionalmente as trabalhadoras, em especial as mulheres negras, que carregam de forma mais aguda as desigualdades estruturais de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 ra\u00e7a ou etnia, a pesquisa do Sindicato e do Observat\u00f3rio (2025), teve 43,21% de entrevistados que se autodeclararam com pele parda, 35,36% branca, 19,47% preta, 1,06% amarela, 0,32% ind\u00edgena e 0,58% preferiram n\u00e3o responder. No que concerne aos marcadores sociais de rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, se verifica que a maioria era composta por negros e pardos, somando aproximadamente 62,68%, confere suporte \u00e0 no\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma heran\u00e7a estrutural do per\u00edodo de explora\u00e7\u00e3o dos escravizados nas atuais rela\u00e7\u00f5es extenuantes de trabalho e uma desigualdade estrutural no mercado de trabalho em virtude das express\u00f5es da divis\u00e3o racial do trabalho[iii], que dificultou a ascens\u00e3o social das trabalhadoras e trabalhadores n\u00e3o brancos e perpetua um ciclo de pobreza, inseguran\u00e7a alimentar e exclus\u00e3o social geracionais. Outros dados que constituem um indicativo de falta de oportunidades e poucas chances de mobilidade social s\u00e3o as taxas de escolaridade, que indicam que 40% dos entrevistados possu\u00edam Segundo Grau completo, 5,03% Segundo Grau incompleto, 26,36% Superior Completo, 23,10% Superior Incompleto, 3,42% Ensino Fundamental completo e 1,64% Ensino Fundamental incompleto.<\/p>\n<p>Os dados acima corroboram a an\u00e1lise de Borsari, Scapini, Krein e Manzano (2024), em artigo publicado pelo CESIT\/Unicamp, ao evidenciar que o excedente estrutural de for\u00e7a de trabalho, presente desde o processo de industrializa\u00e7\u00e3o e da expans\u00e3o do assalariamento, aliado \u00e0 heran\u00e7a do passado escravocrata, destinou a popula\u00e7\u00e3o negra \u2013 em especial as mulheres \u2013 \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es mais prec\u00e1rias, mal remuneradas e desprovidas de garantias laborais. Nesse cen\u00e1rio, a informalidade e a precariedade n\u00e3o podem ser compreendidas como eventos pontuais ou transit\u00f3rios, mas sim como elementos constitutivos e persistentes do mercado de trabalho brasileiro, intensificados e ressignificados no per\u00edodo neoliberal.<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0 faixa et\u00e1ria, se observou uma curva ascendente a partir de 19 anos e 25 anos (25,85%), que atinge seu pico no interst\u00edcio entre 26 e 35 anos (33,19%) e entra em declive entre 36 e 45 anos (22,38%) e 46 e 60 anos (14,17%). Aqui, os dados se aproximam dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio Cont\u00ednua (IBGE, 2022), no 3\u00ba trimestre de 2024, em que as pessoas de 14 a 17 anos de idade representavam 6,8% das pessoas em idade de trabalhar; os jovens de 18 a 24 anos correspondiam a 12,3%; e as maiores parcelas eram formadas pelos grupos de 25 a 39 anos (28,9%) e de 40 a 59 anos (32,2%). Sem remontar a uma linearidade simplista, o marcador social geracional revela a centralidade do tempo e da idade na an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. As jornadas excessivas, desprovidas de pausas adequadas e de direito ao descanso, inevitavelmente encontram limites nos corpos, que n\u00e3o s\u00e3o infinitos em sua capacidade de suportar sobrecargas. Esse limite se torna ainda mais vis\u00edvel entre trabalhadoras e trabalhadores que alcan\u00e7am a faixa dos quinquagen\u00e1rios, momento em que se evidenciam tanto os efeitos acumulados de d\u00e9cadas de explora\u00e7\u00e3o laboral quanto os constrangimentos biol\u00f3gicos do envelhecimento.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, a experi\u00eancia do \u201ccansa\u00e7o de estar cansado\u201d torna- se uma condi\u00e7\u00e3o socialmente produzida e reiterada ao longo da vida laboral, sendo acentuada pela aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes de prote\u00e7\u00e3o, descanso e cuidado. A l\u00f3gica do capital, especialmente em sua fase atual, trata os corpos como recursos descart\u00e1veis, substitu\u00edveis e sem valor para al\u00e9m de sua capacidade imediata de gerar lucro. Assim, ao avan\u00e7ar da idade, essas trabalhadoras e trabalhadores se encontram diante de uma dupla penaliza\u00e7\u00e3o: de um lado, o desgaste f\u00edsico e psicol\u00f3gico causado pelas jornadas extenuantes; de outro, a amea\u00e7a de exclus\u00e3o precoce do mercado de trabalho, marcada pela desvaloriza\u00e7\u00e3o social e pela dificuldade de reinser\u00e7\u00e3o em ocupa\u00e7\u00f5es menos penosas.<\/p>\n<p>A pesquisa continuar\u00e1 sendo aplicada por todo territ\u00f3rio nacional, e busca oferecer continuamente novos dados e resultados que permitir\u00e3o o amadurecimento e aprofundamento das an\u00e1lises cr\u00edticas preliminares apresentadas neste artigo. Nossos apontamentos preliminares endossam que as an\u00e1lises das condi\u00e7\u00f5es de trabalho em regimes extenuantes, como a Escala 6\u00d71, n\u00e3o podem ser apartadas do estudo das configura\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do capital e nem avaliada e efetivamente resolvida apenas por meio da categoria de classe. A compreens\u00e3o dos impactos da Escala 6\u00d71 exige uma an\u00e1lise que integre as desigualdades de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a presentes no ambiente laboral. Ignorar a interseccionalidade entre esses eixos pode resultar em interpreta\u00e7\u00f5es limitadas das formas de domina\u00e7\u00e3o e das experi\u00eancias espec\u00edficas das trabalhadoras e trabalhadores. Nesse sentido, Birolli e Miguel (2015) ressaltam que qualquer an\u00e1lise que busque compreender as limita\u00e7\u00f5es das democracias contempor\u00e2neas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s desigualdades sociais deve necessariamente considerar as hierarquias resultantes da intera\u00e7\u00e3o entre classe, g\u00eanero e ra\u00e7a. Para os autores, a dissocia\u00e7\u00e3o desses eixos gera an\u00e1lises parciais e distorcidas, j\u00e1 que a domina\u00e7\u00e3o no capitalismo posiciona mulheres e pessoas n\u00e3o brancas em hierarquias que n\u00e3o podem ser reduzidas apenas \u00e0 classe, nem compreendidas isoladamente. Assim, estudos que considerem somente um dos eixos, como classe ou g\u00eanero, acabam limitando seu potencial explicativo e transformador, deixando de abarcar experi\u00eancias e interesses de diferentes grupos sociais.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, Zillah Eisenstein (2020 apud Collins e Bilge, 2020) afirma as categorias de classe e capitalismo s\u00e3o necess\u00e1ria e intrinsecamente interseccionais, acrescentando que as estruturas econ\u00f4micas e sociais se entrela\u00e7am com as rela\u00e7\u00f5es de poder e opress\u00e3o em m\u00faltiplas dimens\u00f5es. Para a autora, a formula\u00e7\u00e3o da desigualdade de classe deve considerar tamb\u00e9m ra\u00e7a e g\u00eanero, pois o capital sempre se materializa nos corpos que produzem o trabalho, de modo que a acumula\u00e7\u00e3o de riqueza est\u00e1 imbricada em estruturas racializadas e generificadas. Assim, compreender as desigualdades sociais contempor\u00e2neas exige analisar n\u00e3o apenas a explora\u00e7\u00e3o de classes, mas tamb\u00e9m o racismo, o sexismo e outros sistemas de poder que, de forma complexa e entrela\u00e7ada, estruturam a produ\u00e7\u00e3o da desigualdade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o disso, no nosso sentir, as an\u00e1lises interseccionais, enquanto sensibilidade anal\u00edtica, s\u00e3o pressupostos te\u00f3ricos fundamentais para propor um mapa rigoroso sobre desigualdades sociais e em quais condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o imersos os corpos das trabalhadoras e trabalhadores da Escala 6\u00d71, em especial as mulheres, negras e pobres. Conforme demonstrado, a Escala 6\u00d71 incide sobre elas de modo mais cruel, pois muitas vezes, al\u00e9m de trabalharem longas horas em ocupa\u00e7\u00f5es mal remuneradas, ainda s\u00e3o respons\u00e1veis pelo cuidado da pr\u00f3pria fam\u00edlia em seus lares. O resultado \u00e9 a perpetua\u00e7\u00e3o de um ciclo de cansa\u00e7o e exaust\u00e3o, que naturaliza a ideia de que seus corpos estariam sempre dispon\u00edveis para o trabalho, refor\u00e7ando o legado escravocrata que ainda se apresenta como um dos elementos que estrutura a divis\u00e3o social do trabalho no Brasil. Logo, a interseccionalidade enquanto chave anal\u00edtica possibilita uma abordagem presente para trabalhar elementos cr\u00edticos para a cria\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es, projetos e pol\u00edticas p\u00fablicas governamentais, mais adequadas e comprometidas com a garantia de condi\u00e7\u00f5es mais dignas de trabalho e uma vida al\u00e9m do trabalho.<\/p>\n<h3><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h3>\n<p>Para as considera\u00e7\u00f5es finais retomamos a reflex\u00e3o expressa na nota publicada pelo Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) em 2024, que questiona como e por que a sociedade, de forma renovada, se insurge \u201ccontra a subordina\u00e7\u00e3o do tempo da vida somente ao trabalho, com escalas que desorganizam a vida, com baixos rendimentos e aus\u00eancia de oportunidades de trabalho\u201d (Borsari et Al., 2024, s.p.). \u00c0 luz de nossa an\u00e1lise, a participa\u00e7\u00e3o da juventude nas recentes mobiliza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais \u2013 que reivindicam a redu\u00e7\u00e3o da jornada ou o direito ao n\u00e3o trabalho \u2013 revela, ainda que de modo amb\u00edguo, devido \u00e0 diversidade ideol\u00f3gica dos movimentos, a percep\u00e7\u00e3o compartilhada de que \u201ca vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 trabalho\u201d. Pelo contr\u00e1rio, o trabalho precisa proporcionar as condi\u00e7\u00f5es para as pessoas viverem ela em todas as suas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Movimento Vida Al\u00e9m do Trabalho (VAT) merece destaque por reacender o debate sobre a redu\u00e7\u00e3o da jornada e fomentar a organiza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o entre a classe trabalhadora em um contexto marcado pela individualiza\u00e7\u00e3o, fragmenta\u00e7\u00e3o das lutas coletivas e enfraquecimento das formas tradicionais de mobiliza\u00e7\u00e3o. Ao denunciar as condi\u00e7\u00f5es concretas de vida sob regimes extenuantes, como a Escala 6\u00d71, o movimento reposiciona o tempo livre como pauta pol\u00edtica e direito social fundamental. N\u00e3o por acaso, o Movimento Vida Al\u00e9m do Trabalho (VAT) reafirma seu compromisso com uma agenda ampla de justi\u00e7a social, inserindo-se em uma articula\u00e7\u00e3o coletiva que tensiona os limites do modelo produtivista e amplia o horizonte dos direitos no Brasil quando, recentemente, aderiu ao plebiscito organizado por movimentos sociais e centrais sindicais para que ocorreu entre julho e setembro de 2025 e abordou temas como redu\u00e7\u00e3o da jornada, isen\u00e7\u00e3o do imposto de renda e taxa\u00e7\u00e3o das grandes fortunas.<\/p>\n<p>Por outro lado, o protagonismo do Movimento Vida Al\u00e9m do Trabalho (VAT) pode ser compreendido como uma das \u00faltimas express\u00f5es relevantes de articula\u00e7\u00e3o social diante dos profundos retrocessos recentes, especialmente no que diz respeito \u00e0s recentes decis\u00f5es do Supremo Tribunal Federal (STF), que colocam em risco a autonomia da Justi\u00e7a do Trabalho e a atua\u00e7\u00e3o dos Sindicatos. C\u00e1ssio Casagrande e Rodrigo Carelli (2025) criticam de forma contundente o papel da Corte na fragiliza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, frequentemente justificada pelo discurso da flexibiliza\u00e7\u00e3o. Os autores alertam que uma eventual decis\u00e3o do STF poder\u00e1 representar um grave retrocesso nas garantias constitucionais dos trabalhadores, particularmente em rela\u00e7\u00e3o ao direito ao repouso semanal remunerado. A poss\u00edvel valida\u00e7\u00e3o da Escala \u201c7\u00d70\u201d \u2013 que autoriza o trabalho cont\u00ednuo durante sete dias consecutivos sem descanso \u2013 n\u00e3o apenas contraria os fundamentos da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, como tamb\u00e9m afronta diretamente o princ\u00edpio do direito ao descanso. Ao legitimar pr\u00e1ticas que burlam a formaliza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de trabalho, tal medida tende a intensificar a supress\u00e3o de direitos historicamente conquistados, aprofundando a vulnerabilidade e precariza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora brasileira.<\/p>\n<p>Portanto, entendemos que, atualmente, a preserva\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas no Brasil demandam um compromisso coletivo, articulando estrat\u00e9gias pol\u00edticas, jur\u00eddicas e sociais para enfrentar retrocessos institucionais, especialmente diante das amea\u00e7as recentes \u00e0s garantias hist\u00f3ricas do mundo do trabalho. A luta contra a Escala 6\u00d71 e pela redu\u00e7\u00e3o da jornada evidencia que, mesmo em contextos adversos, permanece viva e imprescind\u00edvel a busca por justi\u00e7a social, o reconhecimento do tempo como direito fundamental e a constru\u00e7\u00e3o de um modelo laboral mais justo, humano e sustent\u00e1vel. Nesse contexto, torna-se urgente fortalecer a mobiliza\u00e7\u00e3o social e sindical em defesa de uma jornada que respeite os limites do corpo e da vida, reconhecendo o direito ao tempo livre como condi\u00e7\u00e3o essencial para a exist\u00eancia plena al\u00e9m do trabalho. A Escala 6\u00d71 simboliza o conflito entre a l\u00f3gica produtivista e o direito a uma vida digna \u2013 que inclui descanso, lazer, conv\u00edvio social e desenvolvimento pessoal. Assim, a resist\u00eancia a regimes extenuantes extrapola a esfera econ\u00f4mica, revelando um campo fundamental de disputa para reconfigurar as estruturas sociais, considerando as m\u00faltiplas dimens\u00f5es da experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Ademais, \u00e9 fundamental que essa luta se desenvolva a partir de uma perspectiva interseccional, que reconhe\u00e7a as diferentes formas de opress\u00e3o que atravessam a experi\u00eancia da classe trabalhadora \u2013 como g\u00eanero, ra\u00e7a, classe e idade. A articula\u00e7\u00e3o coletiva que contempla essas m\u00faltiplas dimens\u00f5es fortalece a capacidade dos movimentos sociais de construir pautas mais inclusivas e representativas, capazes de transformar profundamente as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida. S\u00f3 por meio dessa abordagem ampliada ser\u00e1 poss\u00edvel enfrentar os desafios estruturais impostos pela l\u00f3gica produtivista e avan\u00e7ar na conquista de direitos que atendam \u00e0 totalidade das necessidades humanas.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>ALVES, L. D. A divis\u00e3o racial do trabalho como um ordenamento do racismo estrutural. <strong>Revista Servi\u00e7o Social, Racismo e Classes Sociais<\/strong>, v. 25, n. 2, pp. 212-221, 2022.<\/p>\n<p>AZEVEDO, A. M. A luta dos trabalhadores brasileiros pela redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e suas contradi\u00e7\u00f5es na atualidade. <strong>Debat<\/strong>, n. 12, pp. 44-63, 2014.<\/p>\n<p>BARBOSA, M. Vida al\u00e9m do trabalho: entenda o movimento que prega o fim da escala 6\u00d71. In: <strong>Alma Preta<\/strong>. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/almapreta. com.br\/sessao\/politica\/vida-alem-do-trabalho-entenda-o-movimento-que-prega-o-fim-da-escala-6\u00d71\/.<\/p>\n<p>BIROLLI, F.; MIGUEL, L. F. G\u00eanero, ra\u00e7a, classe: opress\u00f5es cruzadas e converg\u00eancias na reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades. <strong>Media\u00e7\u00f5es<\/strong>, v. 20, n. 2, pp. 27-55, 2015.<\/p>\n<p>BORSARI, P.; Et AL. (Orgs.). <strong>Jornada de trabalho na escala 6\u00d71: a insustentabilidade dos argumentos econ\u00f4micos e uma agenda a favor dos trabalhadores e das trabalhadoras<\/strong>. S\u00e3o Paulo: CESIT, 2024.<\/p>\n<p>BRASIL. [Decreto-Lei n\u00ba 5.452, de 1\u00ba de maio de 1943]. <strong>Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho<\/strong>. Bras\u00edlia: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 2026.<\/p>\n<p>BRASIL. [Constitui\u00e7\u00e3o (1988)]. <strong>Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil de 1988<\/strong>. Bras\u00edlia: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 2024.<\/p>\n<p>BRASIL. [Constitui\u00e7\u00e3o (1934)]. <strong>Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica dos Estados Unidos do Brasil (de 16 de julho de 1934). <\/strong>Rio de Janeiro, 1934.<\/p>\n<p>CASAGRANDE, C.; CARELLI, R. <strong>A Suprema Corte contra os trabalhadores<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Ventutini, 2025.<\/p>\n<p>COLLINS, P. H.; BILGE, S. <strong>Interseccionalidade<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2020.<\/p>\n<p>CRENSHAW, K. A interseccionalidade na discrimina\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a e g\u00eanero. In: VV. AA. <strong>Cruzamento: ra\u00e7a e g\u00eanero [Internet]<\/strong>. Bras\u00edlia, DF: Unifem; 2004.<\/p>\n<p>DIEESE. <strong>Revista Ci\u00eancias do Trabalho<\/strong>, v. 15, n. 15, pp. 1-200, 2019.<\/p>\n<p>FEDERICI, S. <strong>O Ponto Zero da Revolu\u00e7\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2019.<\/p>\n<p>IBGE. <strong>Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios Cont\u00ednua: outras formas de trabalho 2022<\/strong>. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.<\/p>\n<p>MAIOR, J. L. S. <strong>Hist\u00f3ria do Direito do Trabalho no Brasil: curso de direito do trabalho<\/strong> [Volume I]. S\u00e3o Paulo: Lacier, 2025.<\/p>\n<p>SAFFIOTI, H. <strong>G\u00eanero, patriarcado e viol\u00eancia<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular \/ Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2015.<\/p>\n<p>TEIXEIRA, M.; Et AL. <strong>Transforma\u00e7\u00e3o: o Brasil est\u00e1 pronto para trabalhar menos. A PEC da redu\u00e7\u00e3o da jornada e o fim da Escala 6\u00d71 (Nota n\u00ba 13).<\/strong> Campinas: TRANSFORMA\/UNICAMP, 2025.<\/p>\n<hr>\n<p>[i] \u00daltima atualiza\u00e7\u00e3o da plataforma: Quarta, 23\/04\/2025, 15:10:05.<\/p>\n<p>[ii] A pesquisa realizada pelo Sindicato dos Comerci\u00e1rios e pelo Observat\u00f3rio do Estado Social Brasileiro (2025) foi respondida por trabalhadoras e trabalhadores de diversos segmentos: hipermercados (31,39%), ind\u00fastria de roupas (3,42%), bares (4,11%), drogarias (3,87%), calls centers (5,38%), outros servi\u00e7os (18,68%), servi\u00e7os de sa\u00fade (3,23%), servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o (6,15%), servi\u00e7os gerais (0,61%), hot\u00e9is (2,68%), servi\u00e7os de transporte (1,43%), com\u00e9rcio em geral (14,65%), ind\u00fastria de alimentos e bebidas (1,85%), constru\u00e7\u00e3o civil (1,64%), servi\u00e7os dom\u00e9sticos (0,58%) e prefiro n\u00e3o responder (0,34%).<\/p>\n<p>[iii] De acordo com Alves (2022), \u201ca divis\u00e3o racial do trabalho \u00e9 uma categoria de an\u00e1-lise do racismo estrutural no mercado de trabalho assalariado brasileiro, que possi-bilita explicar a diferencia\u00e7\u00e3o das oportunidades, das condi\u00e7\u00f5es materiais, sociais e pol\u00edticas que estruturam o cotidiano das(os) trabalhadoras(es) negras(os) no Brasil\u201d.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Negros e mulheres s\u00e3o os que mais sofrem. Parte est\u00e1 esgotada quanto se torna quinquagen\u00e1ria \u2013 e ainda faltam 15 anos para aposentadoria<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/quem-sustenta-a-escala-6x1\/\">Quem sustenta a escala 6\u00d71?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":78034,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[38683,27204,1389,38684,1963,2008,5922,32212,2482,5834,1964,25323],"tags":[],"class_list":["post-78033","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-centro-de-estudos-sindicais-e-de-economia-do-trabalho","category-cesit-jornada","category-desigualdade-de-genero","category-desigualdade-de-raca","category-escala-6x1","category-fim-da-escala-6x1","category-leis-trabalhistas","category-pec-8-2025","category-reducao-da-jornada","category-trabalho-e-precariado","category-vat","category-vida-alem-do-trabalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78033","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78033"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78033\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78034"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78033"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78033"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78033"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}