{"id":78042,"date":"2026-03-12T17:58:00","date_gmt":"2026-03-12T20:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ia-do-pesadelo-atual-a-luta-por-florescimento-humano\/"},"modified":"2026-03-12T17:58:00","modified_gmt":"2026-03-12T20:58:00","slug":"ia-do-pesadelo-atual-a-luta-por-florescimento-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ia-do-pesadelo-atual-a-luta-por-florescimento-humano\/","title":{"rendered":"IA: Do pesadelo atual \u00e0 luta por florescimento humano"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5015247876233301012_w-2048x1365.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12175605\/photo_5015247876233301012_w-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12175605\/photo_5015247876233301012_w-300x200.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12175605\/photo_5015247876233301012_w-768x512.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12175605\/photo_5015247876233301012_w-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5015247876233301012_w-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/12175605\/photo_5015247876233301012_w-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Wired<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Os debates sobre os efeitos sociais, em geral negativos, da Intelig\u00eancia Artificial (IA) t\u00eam sido invariavelmente acompanhados por uma discuss\u00e3o sobre \u201c\u00e9tica\u201d ou \u201cuso \u00e9tico\u201d. A palavra ecoa uma preocupa\u00e7\u00e3o pertinente de diversos setores da sociedade sobre como aproveitar socialmente eventuais benef\u00edcios dos sistemas de IA sem que os malef\u00edcios fujam do controle. Ao mesmo tempo, a palavra \u00e9tica \u00e9 sacada, em especial por setores empresariais, como meio para fazer avan\u00e7ar a ideia de que uma esp\u00e9cie de \u201cbom comportamento\u201d ou comportamento \u00e9tico dos desenvolvedores e implementadores de tecnologias, que de alguma forma tornariam desnecess\u00e1rias, por parte do Estado, medidas regulat\u00f3rias, restritivas ou punitivas que de fato disciplinassem e controlassem o desenvolvimento e a aplica\u00e7\u00e3o da IA. A partir de entrevistas com empres\u00e1rios da Europa central, Baker-Brunnbauer (2021) aponta uma consider\u00e1vel dispers\u00e3o de sentidos entre eles sobre as defini\u00e7\u00f5es de \u00e9tica e moral. Uma constante, no entanto, foi percep\u00e7\u00e3o limitada sobre \u00e9tica, basicamente ligada \u00e0 imagem externa da empresa relacionada \u00e0 responsabilidade social. Apenas danos diretos e imediatos a consumidores foram tomados como dignos de considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um debate anal\u00edtico, significativo e propositivo sobre as consequ\u00eancias possivelmente transformadoras das tecnologias precisa articular cen\u00e1rios conjunturais, conceitos claros e um posicionamento localizado objetivo (Haraway, 1995). \u00c9 nesse sentido que inicialmente propomos, respectivamente, uma discuss\u00e3o sobre colonialismo e colonialidade digital; justi\u00e7a de dados e florescimento humano; e os limites das demandas por \u00e9tica se a perspectiva que se adota \u00e9 a das popula\u00e7\u00f5es minorizadas.<\/p>\n<h3><strong>Alinhamentos conceituais<\/strong><\/h3>\n<p>Ainda que o termo mais frequentemente mobilizado nos debates p\u00fablicos seja IA, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 muito mais amplo do que os sistemas generativos recentes, como o ChatGPT. O conceito de intelig\u00eancia artificial, entendido como a capacidade de sistemas computacionais produzirem classifica\u00e7\u00f5es, ordena\u00e7\u00f5es, infer\u00eancias e conte\u00fados a partir de grandes volumes de dados, antecede em muito a onda atual de modelos generativos. Como argumenta Crawford (2021), a IA deve ser compreendida n\u00e3o como uma tecnologia isolada, mas como um sistema sociot\u00e9cnico que envolve infraestruturas, cadeias de extra\u00e7\u00e3o, trabalho humano, pr\u00e1ticas institucionais e rela\u00e7\u00f5es de poder que moldam tanto sua produ\u00e7\u00e3o quanto seus efeitos. Na verdade, os arcabou\u00e7os que sustentam essa forma de an\u00e1lise e decis\u00e3o automatizada \u2013 sobretudo o aprendizado de m\u00e1quina, a minera\u00e7\u00e3o de dados, os sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o e a modelagem preditiva \u2013 tornaram-se parte central da vida social ao menos desde meados dos anos 2000, com a consolida\u00e7\u00e3o das infraestruturas de <em>big data <\/em>e a consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo de vigil\u00e2ncia (Zuboff, 2015) como l\u00f3gica basilar das grandes plataformas. Assim, a emerg\u00eancia dos modelos generativos \u00e9 apenas a manifesta\u00e7\u00e3o mais vis\u00edvel de um processo mais longo de intensifica\u00e7\u00e3o da extra\u00e7\u00e3o e processamento de dados, que reorganizam modos de conhecer, governar e interagir.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-19.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-19.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Nesse sentido, o debate sobre colonialismo e colonialidade digital \u00e9 indissoci\u00e1vel da discuss\u00e3o sobre IA. Qualquer discuss\u00e3o sobre \u00e9tica precisa levar em conta os efeitos assim\u00e9tricos que a digitaliza\u00e7\u00e3o vem produzindo em diferentes grupos populacionais.<\/p>\n<p>Antonio Casili (2017) nos ajuda a inventariar as primeiras men\u00e7\u00f5es a colonialismo nos debates sobre tecnologia digital. Inicialmente o termo colonialismo passou a ser mobilizado sobretudo como met\u00e1fora cr\u00edtica, procurando capturar a expans\u00e3o de formas de governo capitalista pr\u00f3prias da economia de plataformas. Um dos usos iniciais \u00e9 o de Casati (2013 <em>apud <\/em>Casilli, 2017), para quem o \u201ccolonialismo digital\u201d nomeia a normatividade autom\u00e1tica instaurada pelas empresas de tecnologia \u2013 a cren\u00e7a, fundada em determinismo tecnol\u00f3gico, de que toda a vida social deve ser mediada por sistemas conectados. Nesse enquadramento, o colonialismo refere-se a pol\u00edticas agressivas e decis\u00f5es econ\u00f4micas discricion\u00e1rias que moldam comportamentos e instituem assimetrias de poder, ainda que Casati n\u00e3o explore em detalhe como esses processos se enra\u00edzam em modelos de neg\u00f3cio, cadeias de valor e regimes de trabalho intensivo em dados. Nesse sentido, colonialismo est\u00e1 bastante pr\u00f3ximo do que, mais tarde, van Dijck (2014) j\u00e1 chamava de dado\u00edsmo (<em>dataism<\/em>), uma cren\u00e7a generalizada na quantifica\u00e7\u00e3o e sua objetividade, somada a uma confian\u00e7a no potencial do rastreamento de todos os tipos de comportamento humano e social atrav\u00e9s de tecnologias informacionais <em>on-line<\/em>. Ela aponta ainda a confian\u00e7a nos agentes institucionais em torno dessas opera\u00e7\u00f5es, tanto nos que coletam, interpretam e compartilham dados como aqueles que deveriam zelar para que essas atividades tivessem uso socialmente justo. Outro uso inicial mapeado por Casili \u00e9 o de Kleiner (2016, apud Casilli, 2017), que descreve a passagem de uma internet originalmente descentralizada e comunit\u00e1ria para uma rede centralizada e cercada por entidades corporativas oligopol\u00edsticas. Aqui, a coloniza\u00e7\u00e3o digital designa a apropria\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria das infraestruturas de comunica\u00e7\u00e3o, que reintermedeiam e homogenizam n\u00e3o apenas mercadorias, mas tamb\u00e9m as normas e pr\u00e1ticas sociais que lhes d\u00e3o contexto.<\/p>\n<p>Como argumenta Nyabola (2023), a colonialidade digital n\u00e3o se expressa apenas na extra\u00e7\u00e3o de dados ou no controle de infraestruturas, mas de forma particularmente aguda nas fronteiras, onde tecnologias biom\u00e9tricas, IA e vigil\u00e2ncia criam verdadeiras \u201cculturas de fronteira\u201d carcer\u00e1rias. \u00c9 nesse espa\u00e7o que as continuidades coloniais se atualizam com mais viol\u00eancia, projetando poder sobre popula\u00e7\u00f5es historicamente vulnerabilizadas.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico de Nyabola sobre a fronteira como um espa\u00e7o privilegiado de exerc\u00edcio de viol\u00eancia digital se fortalece quando conectado \u00e0 leitura estrutural de Kwet (2024). Para ele, o colonialismo digital opera por meio do controle das infraestruturas globais \u2013 cabos submarinos, data centers, sistemas operacionais, nuvens corporativas \u2013 que permitem a proje\u00e7\u00e3o extraterritorial de poder sobre outros Estados. Assim, o que Nyabola observa nas fronteiras, Kwet identifica no plano sist\u00eamico: a capacidade dos EUA e das <em>Big Techs <\/em>de definirem as condi\u00e7\u00f5es materiais que tornam poss\u00edveis tecnologias de vigil\u00e2ncia e controle migrat\u00f3rio.<\/p>\n<p>No contexto acad\u00eamico latino-americano, ainda que j\u00e1 houvesse discuss\u00f5es relevantes sobre as assimetrias de poder entre Norte e Sul no campo digital \u2013 e, mais especificamente, sobre as tecnologias de vigil\u00e2ncia \u2013 desde meados de 2015, mas com maior visibilidade a partir de 2019 nos simp\u00f3sios da Rede Latino-Americana de Estudos em Vigil\u00e2ncia, Tecnologia e Sociedade (Lavits), foi o texto de Couldry e Mejias (2019), <em>Data Colonialism: Rethinking Big Data\u2019s Re-lation to the Contemporary Subject<\/em>, que acabou por concentrar parte significativa do debate. Os autores formulam o conceito de colonialismo de dados, tomando como ponto de partida a coloniza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u2013 centrada na extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais e humanos e na constitui\u00e7\u00e3o das bases do capitalismo industrial \u2013 para argumentar que a atual economia de dados institui um novo regime de apropria\u00e7\u00e3o: n\u00e3o mais de terras ou corpos, mas da pr\u00f3pria vida cotidiana, formulada como rela\u00e7\u00f5es de dados implementadas pelas grandes plataformas, fazendo da vida cotidiana mat\u00e9ria-prima informacional. No entanto, embora reconhe\u00e7am a persist\u00eancia de pr\u00e1ticas explorat\u00f3rias que marcam a rela\u00e7\u00e3o estrutural entre Norte e Sul, sua an\u00e1lise tende a deslocar essa assimetria para um plano secund\u00e1rio. Ao ampliar o escopo do colonialismo de dados para englobar din\u00e2micas que atravessam tamb\u00e9m as popula\u00e7\u00f5es do Norte Global, o conceito perde precis\u00e3o para descrever as desigualdades hist\u00f3ricas e materiais que moldam, de forma diferenciada, as condi\u00e7\u00f5es de extra\u00e7\u00e3o, vulnerabilidade e depend\u00eancia no Sul Global.<\/p>\n<p>No mesmo ano, 2019, o pesquisador sul-africano Michael Kwet emprega o termo colonialismo digital em um texto de influ\u00eancia crescente na academia e na sociedade civil brasileiras, especialmente por explicitar as profundas assimetrias pol\u00edticas que estruturam o ambiente digital contempor\u00e2neo. Diferentemente de Couldry e Mejias, cujo foco recai sobretudo sobre as \u201crela\u00e7\u00f5es de dados\u201d, Kwet enfatiza que o cerne do problema est\u00e1 no controle das infraestruturas \u2013 e n\u00e3o apenas na produ\u00e7\u00e3o ou circula\u00e7\u00e3o dos dados. Para ele, as formas contempor\u00e2neas de domina\u00e7\u00e3o digital se inscrevem em uma continuidade direta com o sistema colonial: trata-se de um poder centralizado que opera por meio do dom\u00ednio de tr\u00eas pilares fundamentais do ecossistema digital \u2013 o <em>software <\/em>(controle do c\u00f3digo, do desenvolvimento e da propriedade intelectual), o <em>hardware <\/em>(controle de servidores e centros de dados) e a conectividade em rede (os meios de transporte e roteamento das informa\u00e7\u00f5es). Segundo Kwet, \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o\u201d significa precisamente a posse estruturante dessa infraestrutura digital, que se estende a uma s\u00e9rie de subsistemas dependentes \u2013 comunica\u00e7\u00e3o, entretenimento, trabalho, transporte, educa\u00e7\u00e3o e outros. O colonialismo digital manifesta-se, assim, na restri\u00e7\u00e3o das possibilidades de renda dos pa\u00edses e popula\u00e7\u00f5es \u201ccolonizados\u201d, na sua extrema depend\u00eancia dos meios e recursos controlados pelo Norte Global, na imposi\u00e7\u00e3o de uma divis\u00e3o internacional do trabalho que favorece os pa\u00edses centrais, na manuten\u00e7\u00e3o de hegemonias de classe, na captura de mecanismos de ensino, forma\u00e7\u00e3o e profissionaliza\u00e7\u00e3o, e, por fim, na administra\u00e7\u00e3o e controle de m\u00faltiplas formas de intera\u00e7\u00e3o social atrav\u00e9s da captura de pol\u00edticas p\u00fablicas, do planejamento econ\u00f4mico, dos servi\u00e7os de intelig\u00eancia e das pr\u00e1ticas de policiamento.<\/p>\n<p>Essas discuss\u00f5es sobre o colonialismo digital t\u00eam acontecido em um contexto que Couldry e Mejias (2023) denominam um <em>decolonial turn in data and technology research<\/em>, em texto em que se prop\u00f5e a fazer uma genealogia do conceito de colonialismo digital. Eles lembram que, paralelamente \u00e0s primeiras formula\u00e7\u00f5es sobre <em>data colonialism<\/em>, outros autores j\u00e1 mobilizavam lentes coloniais para analisar o digital no Sul Global. Entre esses trabalhos, destacam-se aqueles que tematizam as infraestruturas e os regimes de depend\u00eancia tecnol\u00f3gica, como Thatcher <em>et al. <\/em>(2016), que aparecem como um marco inicial ao introduzir a no\u00e7\u00e3o de colonialismo de dados. Em 2019, Stefania Milan e Emiliano Trer\u00e9, acad\u00eamicos do sul da Europa, organizaram um dossi\u00ea intitulado Big Data from the South, na revista <em>Television &amp; New Media<\/em>. Ainda que nem todos os textos adotassem diretamente a tese colonial, alguns trabalhos \u2013 incluindo o de Couldry e Mejias e, especialmente, o de Paula Ricaurte (2019) \u2013 ampliaram esse campo conceitual. Ricaurte desenvolve uma leitura explicitamente decolonial, interseccional e feminista do conceito de colonialismo de dados como articulado por Couldry e Mejias, apontando as continuidades entre a viol\u00eancia epist\u00eamica hist\u00f3rica e as pr\u00e1ticas con-tempor\u00e2neas de coleta, an\u00e1lise e explora\u00e7\u00e3o de dados.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/02\/31191312\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Cabe sublinhar tamb\u00e9m, na literatura internacional sobre estudos cr\u00edticos de dados (<em>critical data studies<\/em>), as men\u00e7\u00f5es \u00e0 ideia de justi\u00e7a de dados (<em>data justice<\/em>). Linnet Taylor (2017) formula o conceito como a busca por \u201cjusti\u00e7a na forma como as pessoas s\u00e3o visibilizadas, representadas e tratadas como resultado de sua produ\u00e7\u00e3o de dados digitais\u201d. A potencial subalternidade de grupos sociais fica evidente quando ela discute um dos pilares da justi\u00e7a de dados, o qual \u00e9 o engajamento com as tecnologias. Segundo ela, essa quest\u00e3o se cruza com a teoria p\u00f3s-colonial, enfatizando como os dados s\u00e3o processados e analisados nos mercados nacionais e globais, posiciona os indiv\u00edduos como subalternos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que controlam o processamento dessas informa\u00e7\u00f5es. Ela interliga esse debate com as discuss\u00f5es em torno dos obst\u00e1culos que os sistemas de dados podem significar para o florescimento humano, sendo importante na elabora\u00e7\u00e3o desse enquadramento um olhar para um ecossistema global que vai al\u00e9m das fronteiras dos pa\u00edses. Lyon (2021), por sua vez, enquadra o florescimento humano como algo que abrange mais do que ag\u00eancia ou autonomia individual, enfatizando suas dimens\u00f5es inerentemente relacionais e coletivas. O florescimento humano depende de condi\u00e7\u00f5es sociais e institucionais que n\u00e3o podem se sustentar em ambientes marcados por vigil\u00e2ncia assim\u00e9trica e reprodu\u00e7\u00e3o ou intensifica\u00e7\u00e3o de hierarquias de poder e classificat\u00f3rias. Lyon aponta que a transpar\u00eancia deve ser, em especial, direcionada para aqueles que controlam os sistemas de vigil\u00e2ncia. Justi\u00e7a de dados e florescimento humano aparecem como componentes insepar\u00e1veis de uma cr\u00edtica mais profunda \u00e0s estruturas globais que governam a vida digital.<\/p>\n<p>Assim, podemos sublinhar como a \u201cvirada decolonial digital\u201d (<em>digital decolonial turn<\/em>) proposta por Casili \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para uma ideia de florescimento humano no digital, um conceito eminentemente marcado pela interdepend\u00eancia entre grupos sociais diversos. O foco de Casili est\u00e1 nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho no digital, que ele procura visibilizar como uma categoria ampla, indo muito al\u00e9m do traba-lho pago ou simplesmente mal pago, abrangendo, por exemplo, atividades dos \u201cusu\u00e1rios\u201d das plataformas, os quais contribuem na produ\u00e7\u00e3o de um valor monet\u00e1rio por elas apropriado. Casili marca explicitamente como \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que o trabalho nas plataformas digitais \u00e9 consideravelmente feito por aqueles na \u201cbase da pir\u00e2mide\u201d, estando igualmente envolvidos nos mecanismos de extra\u00e7\u00e3o de dados por meio do labor digital. Nessa an\u00e1lise, introduz ainda o conceito de colonialidade digital, constru\u00eddo a partir de autores latino-americanos como An\u00edbal Quijano (2000) e Nelson Maldonado-Torres (2007).<\/p>\n<p>Quijano (2000) prop\u00f5e o conceito de colonialidade do poder, articulando as rela\u00e7\u00f5es coloniais de domina\u00e7\u00e3o \u00e0 expans\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o capitalista na globaliza\u00e7\u00e3o. A colonialidade do poder manifesta-se na classifica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mundial com base em crit\u00e9rios raciais, culturais e \u00e9tnicos, criando estruturas institucionais destinadas a governar esses grupos e assegurar sua subalterniza\u00e7\u00e3o por meio da inferioriza\u00e7\u00e3o permanente de seus modos de ser, existir e produzir conhecimento. \u00c9 dif\u00edcil n\u00e3o perceber como essas classifica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e estruturais acabam sendo embutidas \u2013 e muitas vezes ampliadas \u2013 pelos sistemas digitais contempor\u00e2neos, que operam classifica\u00e7\u00f5es sociais automatizadas baseadas em vigil\u00e2ncia. Maldonado-Torres (2007), por sua vez, desloca o foco para as experi\u00eancias subjetivas ao formular a colonialidade do ser, indicando que os sujeitos modernos, herdeiros do colonialismo hist\u00f3rico em posi\u00e7\u00f5es de poder ou subalternos, compartilham tra\u00e7os existenciais espec\u00edficos. Nesses sujeitos, a experi\u00eancia da exist\u00eancia j\u00e1 est\u00e1 atravessada pela l\u00f3gica colonial, marcada por hierarquiza\u00e7\u00f5es que atribuem humanidade plena a uns e negam-na a outros.<\/p>\n<p>Deste modo, por meio das diversas facetas da experi\u00eancia de colonialidade, ideais como o de florescimento humano acabam sendo entendidos como um privil\u00e9gio das popula\u00e7\u00f5es do Norte Global, na contram\u00e3o do que prop\u00f5e Lyon e Taylor. Cabe aqui explicitar o nosso entendimento das categorias de Norte e Sul Global, conceitos que muitas vezes s\u00e3o amarrados \u00e0 sua dimens\u00e3o geopol\u00edtica \u2013 que \u00e9 relevante, mas que n\u00e3o d\u00e1 conta da complexidade hist\u00f3rica das rela\u00e7\u00f5es sociais contempor\u00e2neas. Como observa Mahler (2017), Sul Global deixou de designar apenas Estados-na\u00e7\u00e3o economicamente desfavorecidos, passando a nomear pessoas e espa\u00e7os negativamente impactados pela globaliza\u00e7\u00e3o capitalista e, podemos acrescentar, pela colonialidade. Essas popula\u00e7\u00f5es frequentemente est\u00e3o do sul geogr\u00e1fico. Mas, do mesmo modo, \u00e9 necess\u00e1rio considerar que tamb\u00e9m existem popula\u00e7\u00f5es vulnerabilizadas em pa\u00edses ricos, vivendo condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias que as aproximam das experi\u00eancias do Sul Global. S\u00e3o imigrantes, refugiadas ou pertencem a grupos racializados e classes precarizadas. Importante ressaltar que s\u00e3o justamente essas popula\u00e7\u00f5es que, na economia de plataformas, geralmente ocupam os piores postos de trabalho, como entregadores, trabalhadores em fazendas de cliques, motoristas de aplicativo etc. Simetricamente, h\u00e1 grupos privilegiados em pa\u00edses do Sul que, por seus corpos, hist\u00f3rias e posi\u00e7\u00f5es sociais, se alinham mais ao Norte Global em termos de recursos, pr\u00e1ticas e imagin\u00e1rios. Voltaremos a isso, mas s\u00e3o justamente esses grupos os intermedi\u00e1rios que atuam na facilita\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a das grandes plataformas no Sul Global.<\/p>\n<p>Portanto, Norte e Sul Global n\u00e3o descrevem apenas lugares, mas posi\u00e7\u00f5es estruturais dentro de um sistema de desigualdades hist\u00f3ricas produzido e atualizado pela colonialidade. Empregar esses termos \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica \u2013 ao destacar processos de domina\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica e materialidades ecol\u00f3gicas \u2013 e tamb\u00e9m pol\u00edtica, ao assumir uma perspectiva posicionada para a escolha de categorias anal\u00edticas e de processos sociais a serem questionados. O que nos leva a indagar, de que \u00e9tica se fala e que \u00e9tica \u00e9 poss\u00edvel se estamos lidando com estruturas materiais e simb\u00f3licas de extra\u00e7\u00e3o de dados e recursos naturais, explora\u00e7\u00e3o de trabalho, epistemic\u00eddio e de atualiza\u00e7\u00e3o e intensifica\u00e7\u00e3o de estruturas hist\u00f3ricas de classifica\u00e7\u00e3o entre aqueles com direito ao florescimento e outros n\u00e3o reconhecidos como humanos?<\/p>\n<h3><strong>Soberania digital como resposta \u00e0 colonialidade<\/strong><\/h3>\n<p>\u00c9 a partir das discuss\u00f5es sobre colonialismo e colonialidade digital que propomos entender a emerg\u00eancia das discuss\u00f5es sobre soberania digital no Brasil. O pa\u00eds possui comunidade acad\u00eamica e sociedade civil bastante engajadas, pelo menos desde o in\u00edcio dos anos 2000, em temas como inclus\u00e3o digital; <em>software <\/em>livre e aberto; e direitos digitais, com \u00eanfases distintas a depender do per\u00edodo tecnopol\u00edtico em an\u00e1lise. Esses grupos t\u00eam convergido para o tema soberania digital em parte como resposta \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que as grandes plataformas digitais subordinam seus usu\u00e1rios a sistemas que oferecem recursos fechados e n\u00e3o criativos; apropriam-se e privatizam conhecimentos comuns que deveriam ser compartilhados; e violam direitos, em especial de minorias, por meio de pr\u00e1ticas de modera\u00e7\u00e3o injustas e n\u00e3o transparentes.<\/p>\n<p>No continente europeu, as men\u00e7\u00f5es a soberania digital surgem em documentos oficiais da Uni\u00e3o Europeia desde meados dos 2000, mas \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que ganha tra\u00e7\u00e3o progressivamente a partir de 2013, com as revela\u00e7\u00f5es de Edward Snowden sobre o esquema global de espionagem capitaneado pelos EUA, e se intensifica no fim da d\u00e9cada, a partir da constata\u00e7\u00e3o de perda de competitividade da empresas europeias frente as dos EUA (Pohle; Thiel, 2020).<\/p>\n<p>Ainda que o movimento <em>software <\/em>livre latino americano na d\u00e9cada de 2000 articulasse fortemente ideais de autonomia t\u00e9cnica, independ\u00eancia tecnol\u00f3gica e resist\u00eancia \u00e0s formas hegem\u00f4nicas de controle e depend\u00eancia (Evangelista, 2010), o vocabul\u00e1rio pol\u00edtico da \u00e9poca n\u00e3o formulava a no\u00e7\u00e3o de \u201csoberania digital\u201d, que s\u00f3 emergiria mais tarde, ainda que haja uma conex\u00e3o clara entre os dois momentos.<\/p>\n<p>O primeiro documento brasileiro a mencionar \u201csoberania digital\u201d em termos de reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 a carta, endere\u00e7ada ao ent\u00e3o candidato a presid\u00eancia, Luis In\u00e1cio Lula da Silva, em meados de 2022, intitulada \u201cPrograma de Emerg\u00eancia para a soberania digital\u201d (CARTA SOBERANIA DIGITAL, 2022). Escrito e assinado por centenas de acad\u00eamicos e ativistas, o documento alude a pontos convergentes ao trip\u00e9 de Michel Kwet que conformariam o colonialismo digital \u2013 cabos, <em>hardware <\/em>e <em>software <\/em>\u2013, al\u00e9m de mencionar a extra\u00e7\u00e3o de dados para opera\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia. S\u00e3o mencionados na carta o sucateamento e franqueamento de estruturas nacionais a empresas estrangeiras (<em>big techs<\/em>), a extra\u00e7\u00e3o de dados e a submiss\u00e3o da economia do pa\u00eds a um papel de consumidora de tecnologias. Pedem uma agenda de investimentos em tecnologia digital, afirmando que<\/p>\n<blockquote>\n<p>a agenda de transforma\u00e7\u00e3o digital brasileira precisa ser orientada ao bem-estar e ao florescimento humano de seus cidad\u00e3os, assim como ao enfrentamento da desigualdade, do racismo algor\u00edtmico e dos novos meios de segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>As ambi\u00e7\u00f5es v\u00e3o al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o soberana do Estado, no sentido geopol\u00edtico, afirma-se que \u00e9 preciso \u201ccolocar no centro de nossa proposta a expans\u00e3o da tecnodiversidade, da luta contra o epistemic\u00eddio, do desbloqueio da inventividade de nosso povo\u201d.<\/p>\n<p>No fim da d\u00e9cada de 2010, acad\u00eamicos ligados aos estudos das tecnologias digitais na educa\u00e7\u00e3o e da vigil\u00e2ncia passaram a denunciar os acordos que as universidades brasileiras progressivamente foram estabelecendo com grandes empresas de tecnologia dos EUA. Sem ouvir a comunidade acad\u00eamica de forma consistente, aprovando documentos apressadamente, consultando apenas seu corpo t\u00e9cnico, reitores das principais universidades assinaram acordos de uso \u201cgratuito\u201d de servi\u00e7os das plataformas digitais, como e-mail e armazenamento, desmobilizando as estruturas pr\u00f3prias das institui\u00e7\u00f5es. A carta cita explicitamente os estudos do Observat\u00f3rio Educa\u00e7\u00e3o Vigiada, que informava que<\/p>\n<blockquote>\n<p>79% das Institui\u00e7\u00f5es P\u00fablicas de Ensino Superior do pa\u00eds t\u00eam seus e-mails institucionais alocados em servidores privados, localizados fora do pa\u00eds, e que s\u00e3o gerenciados por empresas envolvidas no lucrativo mercado de coleta, an\u00e1lise e comercializa\u00e7\u00e3o de dados pessoais.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Evangelista e Gonsales (2024), a partir de novos dados publicados em estudo do CGI.br (2023) e de uma an\u00e1lise detalhada de parcerias firmadas por universidades e secretarias estaduais, mostram que esse processo n\u00e3o ocorreu de forma espont\u00e2nea, mas foi facilitado por intermedi\u00e1rios locais \u2013 gestores p\u00fablicos, consultores, t\u00e9cnicos e lideran\u00e7as educacionais que atuaram como pontes para a entrada das grandes plataformas no sistema educacional brasileiro. Trata-se do fen\u00f4meno mencionado anteriormente: segmentos sociais que vivem no Sul Global, mas cujos interesses, imagin\u00e1rios e pr\u00e1ticas est\u00e3o mais alinhados ao Norte Global do que ao contexto em que est\u00e3o inseridos.<\/p>\n<p>O principal articulador do documento, professor da UFABC, Sergio Amadeu, deu repetidas declara\u00e7\u00f5es de que a ideia de soberania digital, contida na carta e em documentos posteriores, evocava o termo em analogia \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o por \u201csoberania alimentar\u201d (achar), pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e pela Via Campesina.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O movimento campesino luta pela terra, pela reforma agr\u00e1ria, mas tamb\u00e9m quer ter soberania alimentar. O que significa isso? Ele quer decidir o que plantar e o que comer, sem a depend\u00eancia desses grandes grupos que controlam os alimentos (SBPCNET, 2025).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Vale lembrar que, em 2005, o F\u00f3rum Internacional de <em>Software <\/em>Livre, organizou o \u201cbanco de sementes livres\u201d, com o objetivo de oferecer \u00e0s comunidades ind\u00edgenas e quilombolas do Rio Grande do Sul sementes livres de modifica\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e sobre as quais n\u00e3o incida nenhum direito de propriedade intelectual. O conceito de soberania alimentar foi expresso pela primeira vez em documento da Via Campesina, em 1996 (Hach\u00e9, 2014). Mas foi sendo aperfei\u00e7oado ao longo dos anos, at\u00e9 ser descrito em documentos da sociedade civil, que chegaram a ser usados em cursos do ent\u00e3o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome (MDS), da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote>\n<p>importam \u00e0 soberania alimentar a autonomia e as condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho dos agricultores familiares e camponeses, o que se reflete na produ\u00e7\u00e3o de alimentos de qualidade, seguros, diversos, ambientalmente sustent\u00e1veis e adequados \u00e0 cultura local. Esse conceito \u00e9 tamb\u00e9m relevante no que diz respeito \u00e0 soberania das na\u00e7\u00f5es e sua autossufici\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos alimentos para consumo interno. Reme-te, ainda, \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de sementes tradicionais (crioulas) e da biodiversidade agr\u00edcola, al\u00e9m da valoriza\u00e7\u00e3o de cultura e h\u00e1bitos alimentares de diversas popula\u00e7\u00f5es (Le\u00e3o, 2013).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ainda assim, talvez por trazer um termo (soberania) tradicionalmente ligado a discuss\u00f5es da ci\u00eancia pol\u00edtica referentes \u00e0 autoridade pol\u00edtica de Estados, diversos outros grupos sentiram a necessidade de complementar ou retrabalhar o termo. O cap\u00edtulo brasileiro da Internet Society, em relat\u00f3rio de pesquisa feito com a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, afirma que existiria uma \u201cvariedade de interpreta\u00e7\u00f5es e narrativas\u201d relacionadas ao termo soberania digital e manifesta preocupa\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o aos efeitos sobre a governan\u00e7a multissetorial, apontando que \u201cencontrar um equil\u00edbrio entre a soberania nacional e a coopera\u00e7\u00e3o internacional \u00e9 complexo\u201d (Camelo, 2024). J\u00e1 o Coletivo de Tecnologia e Soberania Digital do PSOL procurou adicionar a palavra popular ao termo soberania digital. Formulou um dec\u00e1logo da soberania digital popular, mas descreveu o termo da seguinte maneira (a \u00eanfase \u00e9 dos autores originais):<\/p>\n<blockquote>\n<p>Para n\u00f3s, a Soberania Digital Popular, ou soberanias digitais populares, se trata da constru\u00e7\u00e3o de ferramentas, infraestruturas e plataformas socialistas e livres, a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para tal, bem como a elabora\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio coletivo a partir de an\u00e1lises conjunturais que <strong>viabilize o rompimento do colonialismo digital e de dados<\/strong>. Isto \u00e9, a soberania digital popular se baseia na defesa do desenvolvimento das condi\u00e7\u00f5es materiais e subjetivas para apropria\u00e7\u00e3o popular da sociedade da informa\u00e7\u00e3o, de forma a promover autonomias cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica orientadas ao bem comum e n\u00e3o que promovam a domina\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica, econ\u00f4mica, cultural e geopol\u00edtica. Em s\u00edntese, a soberania digital popular se refere \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de tecnologias <strong>\u2013 <\/strong>digitais ou n\u00e3o <strong>\u2013 <\/strong>emancipadoras a partir da sabedoria popular e da ci\u00eancia cidad\u00e3 que sejam facilitadoras da paz, da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, da promo\u00e7\u00e3o das igualdades digitais, da prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e do meio ambiente, portan-to, socialistas e livres (PSOL, 2023).<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>O levantamento do contexto acad\u00eamico, hist\u00f3rico e pol\u00edtico que levou \u00e0 formula\u00e7\u00e3o e \u00e0 ado\u00e7\u00e3o do termo soberania digital como reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica permite reconhecer que ele constitui uma categoria anal\u00edtica mais rigorosa e produtiva do que no\u00e7\u00f5es vagas de \u201c\u00e9tica\u201d largamente mobilizadas no debate p\u00fablico sobre tecnologia. Se a \u00e9tica aparece, com frequ\u00eancia, como um significante esvaziado \u2013 utilizado sobretudo por setores empresariais como dispositivo discursivo para evitar regula\u00e7\u00f5es, diluir responsabilidades ou deslocar para o plano individual problemas estruturais \u2013 a soberania digital emerge, ao contr\u00e1rio, de diagn\u00f3sticos situados de processos que marcam a tecnopol\u00edtica no Sul Global.<\/p>\n<p>A partir de um posicionamento situado, no sentido proposto por Haraway (1995), afirmamos que o termo soberania digital, por mais que pare\u00e7a poliss\u00eamico quando observado de uma distante falsa neutralidade, adquire contornos precisos quando analisado a partir de sua hist\u00f3ria de emerg\u00eancia no Brasil e na Am\u00e9rica Latina. Ele n\u00e3o nasce do setor empresarial \u2013 nacional ou internacional \u2013 tampouco de iniciativas tecnocr\u00e1ticas de governos, embora a estes sejam dirigidas demandas centrais. O termo \u00e9 produzido, e assim deve ser entendido seu sentido, sobretudo por ativistas, pesquisadores, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, movimentos sociais e comunidades t\u00e9cnicas que vivem cotidianamente os efeitos da colonialidade digital: depend\u00eancia tecnol\u00f3gica, vigil\u00e2ncia assim\u00e9trica, extrativismo de dados, imposi\u00e7\u00e3o de plataformas estrangeiras, eros\u00e3o das infraestruturas p\u00fablicas e apagamento sistem\u00e1tico das capacidades criativas e inventivas dos povos do Sul.<\/p>\n<p>Reconhecer essa hist\u00f3ria \u00e9 fundamental porque permite compreender a soberania digital n\u00e3o como uma aspira\u00e7\u00e3o de maior controle estatal sobre redes e dados, mas como uma categoria pol\u00edtica articulada a no\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a de dados, florescimento humano e tecnodiversidade. Trata-se de reivindicar n\u00e3o apenas a prote\u00e7\u00e3o de infraestruturas, mas a possibilidade de construir um futuro digital que n\u00e3o reencene os modos hist\u00f3ricos de domina\u00e7\u00e3o que marcaram \u2013 e continuam marcando \u2013 as rela\u00e7\u00f5es entre Norte e Sul. \u00c9 por isso que a analogia com a soberania alimentar n\u00e3o \u00e9 mero recurso ret\u00f3rico, mas uma opera\u00e7\u00e3o conceitual: ambas reivindicam condi\u00e7\u00f5es materiais e institucionais para que popula\u00e7\u00f5es historicamente vulnerabilizadas tenham controle sobre os meios que sustentam sua vida, sua cultura e sua autonomia coletiva.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a soberania digital, pensada desde o Sul Global, recoloca no centro do debate sobre tecnologia aquilo que a ret\u00f3rica empresarial da \u201c\u00e9tica\u201d obscurece: que n\u00e3o haver\u00e1 florescimento humano poss\u00edvel enquanto persistirem estruturas de colonialidade que organizam o trabalho, a vigil\u00e2ncia, os dados, as classifica\u00e7\u00f5es e o acesso \u00e0s infraestruturas. Por isso, soberania digital \u00e9 uma resposta situada que vai al\u00e9m dos limites da \u00e9tica empresarial; \u00e9 uma categoria que reconhece que as injusti\u00e7as do ecossistema digital n\u00e3o s\u00e3o desvios ou danos colaterais, mas atualiza\u00e7\u00f5es de uma longa hist\u00f3ria de hierarquiza\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<p>BAKER-BRUNNBAUER, J. Management perspective of ethics in artificial intelligence. <em>AI &amp; Ethics<\/em>, v. 1, n. 2, p. 173-181, 2021. DOI: 10.1007\/s43681-020-00022-3.<\/p>\n<p>CAMELO, Ana Paula <em>et al. Soberania digital <\/em>[recurso eletr\u00f4nico]: para qu\u00ea e para quem? An\u00e1lise conceitual e pol\u00edtica do conceito a partir do contexto brasileiro. S\u00e3o Paulo: FGV Direito SP, 2024.<\/p>\n<p>CARTA SOBERANIA DIGITAL. <em>Carta pela Soberania Digital<\/em>. 2022. Dispon\u00edvel em: https:\/\/cartasoberaniadigital.lablivre.wiki.br\/carta\/. 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Despolitiza, ao ignorar o colonialismo digital. Esvazia esfor\u00e7o por regula\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso construir uma \u201cnova \u00e9tica\u201d: a partir das lutas sociais e autonomia material do Sul global<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/ia-do-pesadelo-atual-a-luta-por-florescimento-humano\/\">IA: Do pesadelo atual \u00e0 luta por &lt;i&gt;florescimento humano&lt;\/i&gt;<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":78043,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[31739,4385,10471,11287,1217,38691,16814,1228,38692,1265,5498,1482,5493],"tags":[],"class_list":["post-78042","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colonialismo-de-dados","category-colonialismo-digital","category-data-centers","category-etica","category-genero","category-ia-etica7","category-ia-generativa","category-inteligencia-artificial","category-inteligencia-artificial-generativa","category-soberania-alimentar","category-soberania-digital","category-sul-global","category-tecnologia-em-disputa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78042","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78042"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78042\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78043"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78042"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78042"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78042"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}