{"id":78322,"date":"2026-03-14T18:55:52","date_gmt":"2026-03-14T21:55:52","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/jerusalem-e-o-epicentro-da-crise-do-oriente-medio\/"},"modified":"2026-03-14T18:55:52","modified_gmt":"2026-03-14T21:55:52","slug":"jerusalem-e-o-epicentro-da-crise-do-oriente-medio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/jerusalem-e-o-epicentro-da-crise-do-oriente-medio\/","title":{"rendered":"Jerusal\u00e9m \u00e9 o epicentro da crise do Oriente M\u00e9dio"},"content":{"rendered":"<p><span>Todos os anos, na \u00faltima sexta-feira do m\u00eas sagrado do Ramad\u00e3, milh\u00f5es de pessoas em diferentes partes do mundo se mobilizam para marcar o Dia Internacional de Al-Quds, o nome \u00e1rabe da cidade de Jerusal\u00e9m.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Institu\u00edda em 1979 pelo l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica do Ir\u00e3, o Imam Ruhollah Khomeini, a data n\u00e3o \u00e9 apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de solidariedade \u00e0 Palestina. Ela expressa a compreens\u00e3o de que Jerusal\u00e9m ocupa um lugar central na disputa hist\u00f3rica, pol\u00edtica e civilizacional em torno da quest\u00e3o palestina.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-249356\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rsz_1jerusalem.webp\" alt=\"Desde a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, em 1948, Jerusal\u00e9m tornou-se um dos principais focos de tens\u00e3o do conflito palestino-israelense. O direito internacional considera Jerusal\u00e9m Oriental territ\u00f3rio ocupado, e in\u00fameras resolu\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas afirmam que as medidas adotadas por Israel para alterar o status da cidade n\u00e3o possuem validade jur\u00eddica.\u00a0&lt;br&gt; (Foto: Filip Marcus Adam \/ Pexels)\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rsz_1jerusalem.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rsz_1jerusalem-300x200.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rsz_1jerusalem-768x512.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rsz_1jerusalem-150x100.webp 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/rsz_1jerusalem-750x500.webp 750w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Desde a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, em 1948, Jerusal\u00e9m tornou-se um dos principais focos de tens\u00e3o do conflito palestino-israelense. O direito internacional considera Jerusal\u00e9m Oriental territ\u00f3rio ocupado, e in\u00fameras resolu\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas afirmam que as medidas adotadas por Israel para alterar o status da cidade n\u00e3o possuem validade jur\u00eddica.\u00a0<br \/>(Foto: Filip Marcus Adam \/ Pexels)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>Jerusal\u00e9m \u00e9 uma das cidades mais antigas do mundo. Fundada h\u00e1 cerca de cinco mil anos, durante mil\u00eanios diferentes povos governaram a cidade, mas a presen\u00e7a \u00e1rabe e isl\u00e2mica marcou profundamente sua hist\u00f3ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>A partir do s\u00e9culo VII, a cidade permaneceria majoritariamente sob administra\u00e7\u00e3o \u00e1rabe e isl\u00e2mica por mais de doze s\u00e9culos, com exce\u00e7\u00e3o do per\u00edodo das Cruzadas. Nesse longo per\u00edodo, Jerusal\u00e9m foi um espa\u00e7o de coexist\u00eancia religiosa, onde mu\u00e7ulmanos, crist\u00e3os e judeus puderam praticar suas cren\u00e7as.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Essa hist\u00f3ria milenar contrasta com a narrativa ideol\u00f3gica promovida pelo movimento sionista moderno. Surgido na Europa no final do s\u00e9culo XIX, o sionismo transformou interpreta\u00e7\u00f5es religiosas em fundamento pol\u00edtico para um projeto de coloniza\u00e7\u00e3o territorial na Palestina.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Um dos pilares desse discurso foi a ideia de que Jerusal\u00e9m teria sido a capital de um poderoso reino b\u00edblico governado por Davi e Salom\u00e3o, cuja heran\u00e7a hist\u00f3rica legitimaria a cria\u00e7\u00e3o de um Estado judeu na Palestina.<\/span><\/p>\n<p><span>Entretanto, pesquisas arqueol\u00f3gicas e historiogr\u00e1ficas contempor\u00e2neas colocam essa narrativa sob forte questionamento. Escava\u00e7\u00f5es realizadas ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o conseguiram produzir evid\u00eancias materiais que confirmem a exist\u00eancia de um grande reino unificado em Jerusal\u00e9m nos tempos atribu\u00eddos a Davi e Salom\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Historiadores como Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman argumentam que muitos dos relatos b\u00edblicos foram constru\u00eddos s\u00e9culos depois dos eventos que descrevem e n\u00e3o correspondem \u00e0s evid\u00eancias arqueol\u00f3gicas dispon\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><span>Apesar dessas controv\u00e9rsias acad\u00eamicas, o mito b\u00edblico continua sendo utilizado como instrumento pol\u00edtico para justificar a ocupa\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span>Desde a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, em 1948, Jerusal\u00e9m tornou-se um dos principais focos de tens\u00e3o do conflito palestino-israelense. O direito internacional considera Jerusal\u00e9m Oriental territ\u00f3rio ocupado, e in\u00fameras resolu\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas afirmam que as medidas adotadas por Israel para alterar o status da cidade n\u00e3o possuem validade jur\u00eddica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span>Ainda assim, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o governo israelense intensificou pol\u00edticas destinadas a modificar o car\u00e1ter demogr\u00e1fico e pol\u00edtico da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span>Essas pol\u00edticas incluem a expans\u00e3o de assentamentos ilegais, a demoli\u00e7\u00e3o de casas palestinas, a expuls\u00e3o de fam\u00edlias de bairros hist\u00f3ricos e a restri\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da liberdade de culto e de circula\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o palestina. O objetivo \u00e9 transformar Jerusal\u00e9m em uma capital exclusiva do Estado israelense, consolidando um processo de coloniza\u00e7\u00e3o que viola frontalmente o direito internacional.<\/span><\/p>\n<p><span>Nos \u00faltimos anos, entretanto, a situa\u00e7\u00e3o adquiriu uma dimens\u00e3o ainda mais preocupante.<\/span><\/p>\n<p><span>Grupos extremistas vinculados ao movimento de coloniza\u00e7\u00e3o sionista passaram a defender abertamente a destrui\u00e7\u00e3o da Mesquita de Al-Aqsa e do Domo da Rocha, dois dos mais importantes santu\u00e1rios do Isl\u00e3, para dar lugar \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um chamado \u201cTerceiro Templo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span>O que durante d\u00e9cadas foi um discurso marginal passou a ganhar espa\u00e7o em setores da pol\u00edtica israelense e em organiza\u00e7\u00f5es que atuam diretamente na Esplanada das Mesquitas, frequentemente sob prote\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>A simples possibilidade de uma a\u00e7\u00e3o contra o complexo de Al-Haram al-Sharif representa uma provoca\u00e7\u00e3o de propor\u00e7\u00f5es incalcul\u00e1veis. A Mesquita de Al-Aqsa \u00e9 o terceiro lugar sagrado do Isl\u00e3 e um s\u00edmbolo espiritual para mais de dois bilh\u00f5es de mu\u00e7ulmanos em todo o mundo. Qualquer tentativa de destruir ou alterar esse patrim\u00f4nio religioso teria repercuss\u00f5es que ultrapassariam em muito as fronteiras da Palestina.<\/span><\/p>\n<p><span>Jerusal\u00e9m tornou-se, assim, o ponto de converg\u00eancia das diferentes dimens\u00f5es do conflito: religiosa, hist\u00f3rica, pol\u00edtica e geopol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span>Para o povo palestino, a defesa de Jerusal\u00e9m n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o simb\u00f3lica. Trata-se da preserva\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia hist\u00f3rica. A cidade representa a mem\u00f3ria coletiva de uma sociedade que h\u00e1 d\u00e9cadas enfrenta ocupa\u00e7\u00e3o militar, coloniza\u00e7\u00e3o territorial e pol\u00edticas sistem\u00e1ticas de deslocamento populacional.<\/span><\/p>\n<p><span>N\u00e3o por acaso, Jerusal\u00e9m tamb\u00e9m se tornou um poderoso s\u00edmbolo de mobiliza\u00e7\u00e3o internacional. Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, protestos em defesa da cidade e da Mesquita de Al-Aqsa ocorreram em diferentes pa\u00edses, envolvendo movimentos sociais, organiza\u00e7\u00f5es religiosas e ativistas de direitos humanos.<\/span><\/p>\n<p><span>O Dia de Al-Quds expressa exatamente essa dimens\u00e3o global da causa palestina. Ele lembra que a quest\u00e3o de Jerusal\u00e9m n\u00e3o pode ser reduzida a uma disputa territorial localizada. Trata-se de um conflito que envolve princ\u00edpios fundamentais do direito internacional, como a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, a proibi\u00e7\u00e3o da aquisi\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio pela for\u00e7a e a prote\u00e7\u00e3o dos lugares sagrados das diferentes tradi\u00e7\u00f5es religiosas.<\/span><\/p>\n<p><span>A hist\u00f3ria demonstra que ocupa\u00e7\u00f5es coloniais raramente conseguem se sustentar indefinidamente. Ao longo do s\u00e9culo XX, in\u00fameros povos conseguiram conquistar sua independ\u00eancia ap\u00f3s d\u00e9cadas de domina\u00e7\u00e3o estrangeira. A persist\u00eancia da resist\u00eancia palestina, apesar das imensas assimetrias militares, reflete essa mesma l\u00f3gica hist\u00f3rica.<\/span><\/p>\n<p><span>Jerusal\u00e9m continua sendo o cora\u00e7\u00e3o pol\u00edtico, espiritual e simb\u00f3lico da Palestina. E enquanto o povo palestino continuar a lutar por seus direitos nacionais e pela preserva\u00e7\u00e3o de seus lugares sagrados, a quest\u00e3o de Al-Quds permanecer\u00e1 no centro da agenda internacional.<\/span><\/p>\n<p><span>Mais do que uma cidade, Jerusal\u00e9m tornou-se um s\u00edmbolo universal da luta contra a ocupa\u00e7\u00e3o e pela dignidade dos povos. E enquanto existir resist\u00eancia, Al-Quds jamais se render\u00e1!<\/span><\/p>\n<p><b><i>(*) Sayid Marcos Ten\u00f3rio<\/i><\/b><i><span> \u00e9 Historiador e Especialista em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. \u00c9 fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida \u00e0 terra da resist\u00eancia (2. Ed. Anita Garibaldi\/Ibraspal, 2022).<\/span><\/i><\/p>\n<p>O post Jerusal\u00e9m \u00e9 o epicentro da crise do Oriente M\u00e9dio apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-federal-lanca-em-brasilia-programa-para-levar-direitos-a-populacao-em-situacao-de-rua\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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