{"id":78546,"date":"2026-03-16T17:47:38","date_gmt":"2026-03-16T20:47:38","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wikifavelas-as-sementes-de-marielle-franco\/"},"modified":"2026-03-16T17:47:38","modified_gmt":"2026-03-16T20:47:38","slug":"wikifavelas-as-sementes-de-marielle-franco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wikifavelas-as-sementes-de-marielle-franco\/","title":{"rendered":"Wikifavelas: As sementes de Marielle Franco"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"853\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5026256319794580420_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5026256319794580420_y.jpg 1280w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/16174540\/photo_5026256319794580420_y-300x200.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/16174540\/photo_5026256319794580420_y-768x512.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/16174540\/photo_5026256319794580420_y-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Em 2018, manifesta\u00e7\u00e3o por justi\u00e7a no caso Marielle Franco, no Rio de Janeiro, reunia milhares na Cinel\u00e2ndia\/ Pablo Vergara<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Desde 2018, o dia 14 de mar\u00e7o nunca mais foi o mesmo. S\u00e3o oito anos desde a brutal execu\u00e7\u00e3o de Marielle Franco, ent\u00e3o vereadora pelo PSOL no Rio de Janeiro, e Anderson Gomes, seu motorista. Em 2026 temos um elemento novo na hist\u00f3ria: finalmente, ap\u00f3s anos de muita press\u00e3o popular, em particular das lutas que sua fam\u00edlia travou ao longo do caminho, o Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu o julgamento dos mandantes do assassinato de Marielle e escancarou um ecossistema do crime que persiste no estado do Rio de Janeiro.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>I. Justi\u00e7a como atitude al\u00e9m da condena\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Desde 2018, acompanhamos a multiplica\u00e7\u00e3o de vozes, homenagens e lutas em mem\u00f3ria de Marielle Franco. No Dicion\u00e1rio de Favelas Marielle Franco, acompanhamos a hist\u00f3ria de Sementes que Ecoam em v\u00e1rios espa\u00e7os: h\u00e1 aquelas que trilham o bom combate no parlamento, como a pr\u00f3pria vi\u00fava de Marielle, Monica Ben\u00edcio, vereadora da cidade do Rio, legislando na mesma casa em que Marielle legislou por dois anos antes de ser morta; ou no poder executivo, como a irm\u00e3 de Marielle, Anielle Franco, atual Ministra da Igualdade Racial do Brasil; mas tamb\u00e9m h\u00e1 milhares de sementes espalhadas pelos movimentos sociais, universidades, institui\u00e7\u00f5es de pesquisa ou grupos diversos, produzindo movimento e mobilizando outros mundos todos os dias.\u00a0<\/p>\n<p>Para todas as sementes, o julgamento que ocorreu no \u00faltimo m\u00eas n\u00e3o foi apenas o fim de um rito jur\u00eddico, mas uma resposta a um ciclo de viol\u00eancias que persiste todos os dias em nosso pa\u00eds. Uma mulher, negra, favelada, socialista, bissexual, m\u00e3e, defensora dos direitos humanos\u2026 foi morta, a tiros, no exerc\u00edcio de seu mandato parlamentar, em uma das maiores metr\u00f3poles do mundo. Que tipo de fissura esse crime produz na democracia brasileira? Como a execu\u00e7\u00e3o de Marielle \u00e9 um analisador da situa\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds?\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Prancheta--14.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Prancheta--14.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A din\u00e2mica de elimina\u00e7\u00e3o dos inimigos e a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos opositores s\u00e3o engrenagens vivas de um coronelismo urbano remodelado. Agora, com o fim do julgamento e com os mandantes e executores sentenciados, toda uma arquitetura do crime \u00e9 revelada e o Estado participa como s\u00f3cio da banditagem. No banco dos r\u00e9us h\u00e1 deputado, conselheiro do TCU, chefe de pol\u00edcia\u2026 Matar Marielle, assim como matar tantos jovens favelados cotidianamente, n\u00e3o \u00e9 um sintoma de um Estado sem lei, mas \u00e9 a certeza de que esse Estado foi capturado pelos grupos que operam o crime organizado de alta escala.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Durante o julgamento do caso no STF, o Ministro Fl\u00e1vio Dino descreveu o caso de Marielle como um produto de uma complexa m\u00e1quina de poder, citando que este seria um assassinato produzido pelo ecossistema criminoso, que prospera na fus\u00e3o entre mil\u00edcias, grilagem de terras, racismo estrutural, misoginia e poder. No Dicion\u00e1rio de Favelas Marielle Franco, podemos observar an\u00e1lises em verbetes sobre a tem\u00e1tica das mil\u00edcias, que contribuem na elabora\u00e7\u00e3o sobre essas tramas. O envolvimento dos irm\u00e3os Braz\u00e3o, pol\u00edticos de longa data, ocupantes de cargos no poder legislativo e judici\u00e1rio, e de Rivaldo Barbosa, o ex-chefe da Pol\u00edcia Civil, ilustra uma realidade em que o mentor da execu\u00e7\u00e3o mandava at\u00e9 mesmo em quem devia investigar o crime. Esse arranjo, que Monica Ben\u00edcio descreve como um ecossistema que amplia seus tent\u00e1culos, imp\u00f5e uma l\u00f3gica de dom\u00ednio territorial e subjetivo que reproduz os tempos mais sombrios da nossa hist\u00f3ria, transformando a pol\u00edtica em um campo de exterm\u00ednio para quem ousa desafiar a grilagem, a mil\u00edcia e o poder das fam\u00edlias tradicionais. Essa estrutura de poder opera sob um autoritarismo capilarizado, uma forma particular de ditadura cotidiana que n\u00e3o precisa de um golpe institucionalizado para se manifestar, mas se faz presente em cada amea\u00e7a a lideran\u00e7as comunit\u00e1rias que n\u00e3o podem fazer pol\u00edtica nas suas favelas, em cada opera\u00e7\u00e3o policial que usa de tanques de guerra e nas execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias sob a justificativa de \u201crestabelecer a ordem\u201d (seja l\u00e1 o que for a ordem).\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Nas tramas do Rio de Janeiro, em que \u00e9 dif\u00edcil entender onde termina o Estado e come\u00e7a o poder paralelo, a coer\u00e7\u00e3o de grupos opositores \u00e9 regra, e as mulheres negras que ocupam espa\u00e7os de poder sentem na pele todos os dias essa viol\u00eancia. Em estudo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), a Deputada Federal Taliria Petrone aparece como a congressista mais amea\u00e7ada da atual legislatura. J\u00e1 a Deputada Estadual Renata Souza, ex chefe de gabinete de Marielle, precisou recorrer \u00e0 ONU e a \u00e0 OEA diante de graves e seguidas amea\u00e7as \u00e0 sua vida no come\u00e7o do ano de 2026. Thais Ferreira, vereadora da cidade do Rio de Janeiro, precisou acionar medidas urgentes de seguran\u00e7a ap\u00f3s criticar publicamente a chacina ocorrida no Rio de Janeiro em outubro de 2025, tendo recebido in\u00fameros ataques at\u00e9 mesmo envolvendo sua fam\u00edlia. O que tem em comum entre Taliria, Renata e Thais? Tr\u00eas mulheres negras, m\u00e3es e perif\u00e9ricas que, no uso dos seus poderes como parlamentares, t\u00eam denunciado o banditismo de estado e fortalecido redes de lutas em defesa de outro mundo. Assim como Marielle.\u00a0<\/p>\n<p>O que conecta Marielle e suas sementes n\u00e3o \u00e9 a viol\u00eancia. \u00c9 justamente a esperan\u00e7a compartilhada de que podemos construir um mundo em que a popula\u00e7\u00e3o viva em paz, com mulheres e meninas seguras, com a popula\u00e7\u00e3o negra livre do racismo, com uma cidade para todas as pessoas. Com seguran\u00e7a para os nossos direitos, tendo sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, moradia, trabalho digno e tempo para viver al\u00e9m do trabalho. A viol\u00eancia \u00e9 uma resposta ofensiva dos poderosos diante do acirramento da conjuntura e das pautas que apresentamos todos os dias para transformar o Brasil. A viol\u00eancia \u00e9 um dispositivo de inscri\u00e7\u00e3o de medo, que visa controlar a pot\u00eancia pol\u00edtica dos corpos favelados, negros e pobres.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Lutar por mem\u00f3ria e comemorar o fim do processo de julgamento \u00e9 tamb\u00e9m disputar simbolicamente que a impunidade n\u00e3o pode ser um caminho para os criminosos que tentaram calar Marielle Franco, disputando assim a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a. O fim do julgamento n\u00e3o traz Marielle e Anderson de volta. Nenhuma senten\u00e7a paga a dor da execu\u00e7\u00e3o de uma jovem parlamentar, m\u00e3e, esposa, amiga, filha, irm\u00e3. Sem d\u00favidas, o julgamento \u00e9 uma sinaliza\u00e7\u00e3o de que a barb\u00e1rie n\u00e3o pode ser recurso dentro da pol\u00edtica, mas a verdadeira vit\u00f3ria contra esse coronelismo moderno estar\u00e1 na capacidade coletiva de manter viva a utopia de uma pol\u00edtica que n\u00e3o precise de m\u00e1rtires, mas de participa\u00e7\u00e3o livre, segura e plena para todas as pessoas.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>II. Feminic\u00eddio Pol\u00edtico e horizontes legislativos<\/strong><\/h3>\n<p>Como analisa o soci\u00f3logo italiano Guido Viale, em reflex\u00f5es compartilhadas pelo Instituto Humanitas Unisinos, uma das bases do patriarcado reside na pretens\u00e3o do homem de considerar a mulher como sua \u201cpropriedade\u201d. No capitalismo perif\u00e9rico brasileiro, essa no\u00e7\u00e3o de posse n\u00e3o se limita ao \u00e2mbito dom\u00e9stico, mas se estende ao espa\u00e7o p\u00fablico e ao campo pol\u00edtico institucional, como na ocupa\u00e7\u00e3o de cargos no executivo e legislativo.<\/p>\n<p>Quando uma mulher negra e favelada ocupa a tribuna, ela est\u00e1, aos olhos desse coronelismo urbano que descrevemos, invadindo uma propriedade que historicamente pertence aos homens, brancos, de fam\u00edlias tradicionais (leia-se: ricas e poderosas). A viol\u00eancia pol\u00edtica \u00e9 uma das ferramentas de gest\u00e3o que utiliza diferentes t\u00e1ticas, desde silenciamentos, agress\u00f5es, ass\u00e9dios, at\u00e9 mesmo a execu\u00e7\u00e3o, para restabelecer muros simb\u00f3licos.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/banner-outras-palavras_-02257-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/banner-outras-palavras_-02257-1.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/02\/31190927\/banner-outras-palavras_-02257-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio de enfrentamento que ganha for\u00e7a o debate sobre o feminic\u00eddio pol\u00edtico. N\u00e3o se trata apenas de um crime contra a vida de uma mulher, mas de um atentado contra o projeto coletivo que ela representa. No Congresso Nacional, propostas como o PL 953\/2026 buscam tipificar essa modalidade de crime, endurecendo as penas e, sobretudo, criando mecanismos de prote\u00e7\u00e3o para mulheres que, como Renata Souza, Tal\u00edria Petrone e Thais Ferreira, seguem na linha de frente sob a mira do \u00f3dio organizado.<\/p>\n<p>Segundo Renata Souza, em verbete publicado no Dicion\u00e1rio de Favelas, o feminic\u00eddio pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 apenas a jun\u00e7\u00e3o do feminic\u00eddio com o assassinato pol\u00edtico por convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. Ele \u00e9 um crime que se amalgama na interseccionalidade, termo cunhado pela jurista Kimberl\u00e9 Crenshaw e essencial para entendermos como ra\u00e7a, g\u00eanero e classe condicionam a estrutura de opress\u00e3o no Brasil. Marielle n\u00e3o foi morta apenas por ser mulher ou apenas por sua atua\u00e7\u00e3o parlamentar. Ela foi executada porque seu corpo encarnava o desafio m\u00e1ximo ao sistema racista-patriarcal-classista: era uma mulher negra e perif\u00e9rica em ascens\u00e3o pol\u00edtica mete\u00f3rica. Ao utilizarmos a f\u00f3rmula g\u00eanero+ra\u00e7a\/etnia+classe, revelamos que a visibilidade p\u00fablica de Marielle a tornava, para o sistema, um corpo mat\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tipificar o feminic\u00eddio pol\u00edtico \u00e9 um passo civilizat\u00f3rio, mas n\u00e3o basta se o endurecimento de um tipo penal n\u00e3o for acompanhado de mecanismos cotidianos de sufocamento de pr\u00e1ticas de viol\u00eancia. Na Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo, por exemplo, um deputado estadual da bancada bolsonarista \u00e9 acusado de viol\u00eancia contra mulher, cometeu atos de viol\u00eancias contra deputadas da casa e segue no exerc\u00edcio de seu mandato. N\u00e3o falamos de puni\u00e7\u00f5es antes do devido processo legal, mas a cria\u00e7\u00e3o de protocolos de afastamentos durante as investiga\u00e7\u00f5es, por exemplo, \u00e9 fundamental.\u00a0<\/p>\n<p>Sem isso, n\u00e3o avan\u00e7amos no reconhecimento de que h\u00e1 uma falha geol\u00f3gica projetada nas tramas do poder institucional que vulnerabiliza ainda mais lideran\u00e7as femininas, negras e perif\u00e9ricas. Estabelecer protocolos de combate a todo tipo de viol\u00eancia contra mulheres \u2013 inclusive alguns previstos no rec\u00e9m promulgado Pacto Federativo de Enfrentamento ao Feminic\u00eddio, assinado pelo presidente Lula em fevereiro de 2026 \u2013 \u00e9 o come\u00e7o de um caminho para que o Brasil se reconstrua, garantindo dignidade para mulheres e meninas.\u00a0<\/p>\n<p>A lei pode ser um ponto de partida, mas nunca de chegada. A legisla\u00e7\u00e3o precisa estar acompanhada de uma mudan\u00e7a profunda na cultura pol\u00edtica que ainda tolera a misoginia e o racismo como ferramentas de disputa. Ao mesmo tempo que disputamos as estruturas penais, precisamos refor\u00e7ar caminhos de disputa de consci\u00eancia. No mesmo m\u00eas em que o julgamento de Marielle \u00e9 conclu\u00eddo, diferentes crimes contra mulheres e meninas seguiram chocando o nosso pa\u00eds, revelando que essa senten\u00e7a judicial, embora necess\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 capaz de estancar sozinha uma epidemia de viol\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 devastadora: o Brasil ainda amarga a estat\u00edstica de quatro mulheres assassinadas por dia, v\u00edtimas de um feminic\u00eddio que se alimenta da normaliza\u00e7\u00e3o do \u00f3dio. N\u00e3o estamos falando de casos isolados ou crimes passionais: \u00e9 uma engrenagem de desumaniza\u00e7\u00e3o que prepara o terreno para a viol\u00eancia f\u00edsica letal.\u00a0<\/p>\n<p>Como apontou a Ministra do STF, C\u00e1rmen L\u00facia, h\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o planejada \u00e0 crescente presen\u00e7a da mulher no espa\u00e7o p\u00fablico, um projeto de sociedade que recusa uma civiliza\u00e7\u00e3o de iguais. Cabe destacar o lugar das plataformas digitais nesta trama, constituindo um solo f\u00e9rtil e lucrativo para o ecossistema do crime contra mulheres. H\u00e1 den\u00fancias de circula\u00e7\u00e3o desenfreada de conte\u00fados mis\u00f3ginos que reduzem mulheres a objetos de posse ou alvos de descarte. O discurso red pill (movimento \u00e9 associado \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de \u00f3dio contra as mulheres) prega abertamente a inferioridade feminina e legitima a agressividade masculina como prova de virilidade. O que antes estava restrito a f\u00f3runs clandestinos agora \u00e9 consumido por crian\u00e7as e adolescentes em seus celulares, educando novas gera\u00e7\u00f5es dentro de uma l\u00f3gica de horror e domina\u00e7\u00e3o de mulheres por homens.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 liberdade de express\u00e3o que justifique a incita\u00e7\u00e3o ao exterm\u00ednio e \u00e0 viol\u00eancia e incidir sobre essa pedagogia do \u00f3dio \u00e9 urgente, para colocar um freio nos ciclos de viol\u00eancia que hoje capturam crian\u00e7as para a doutrina do \u00f3dio. Destacamos o PL 6075\/2025 de Samia Bonfim que busca criminalizar a promo\u00e7\u00e3o e a incita\u00e7\u00e3o de conte\u00fados mis\u00f3ginos na rede, importante no momento em que vivemos.\u00a0<\/p>\n<h3><strong>III. Sementes e Girass\u00f3is: uma utopia permanente<\/strong><\/h3>\n<p>Podemos dizer que a ideia em torno do termo \u201csemente\u201d deixou de ser uma met\u00e1fora po\u00e9tica para se tornar uma categoria de an\u00e1lise sociol\u00f3gica. O efeito do assassinato, como j\u00e1 analisado em in\u00fameras publica\u00e7\u00f5es, catalisou uma onda de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem precedentes, especialmente entre mulheres negras, bissexuais e moradoras de favelas, que viram na execu\u00e7\u00e3o de Marielle um chamado para as lutas na pol\u00edtica institucional, passando a compartilhar e dar consequ\u00eancias \u00e0s utopias que mobilizaram a Marielle em vida.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Em 2018, o \u201cEfeito Marielle\u201d manifestou-se com vigor nas elei\u00e7\u00f5es. Mulheres que haviam trabalhado com ela, como Renata Souza, M\u00f4nica Francisco e Dani Monteiro, foram eleitas para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro com vota\u00e7\u00f5es expressivas, levando um conjunto de compromissos com a defesa dos direitos humanos, a seguran\u00e7a p\u00fablica cidad\u00e3 e a justi\u00e7a social ao parlamento e ocupando o imagin\u00e1rio pol\u00edtico como girass\u00f3is: flores que, mesmo em tempos sombrios, buscam a luz e se sustentam coletivamente. M\u00f4nica, inclusive, nos apresenta a perspectiva de que hackear o poder \u00e9 um ato de resist\u00eancia diante de um cotidiano de viol\u00eancias que cerceia mulheres negras de acessarem espa\u00e7os de poder.\u00a0<\/p>\n<p>Contudo, essa utopia, parafraseando Galeano, existe para que a gente continue a andar. Como bem lembra M\u00f4nica Ben\u00edcio, o projeto de sociedade que Marielle representava segue sendo atacado todos os dias. N\u00e3o podemos viver lutas estritamente parlamentares. Marielle ocupava a tribuna como megafone das lutas do mundo, das favelas, dos movimentos sociais. \u00c9 essa pol\u00edtica do cotidiano que sustenta a verdadeira resist\u00eancia, a disputa n\u00e3o se encerra nas urnas nem nos tribunais. Ela ocorre cotidianamente na arena da mem\u00f3ria, na constru\u00e7\u00e3o de um mundo comum, na produ\u00e7\u00e3o de outra sociabilidade.\u00a0<\/p>\n<p>Desde o primeiro disparo, houve uma tentativa deliberada de assassinar a reputa\u00e7\u00e3o de Marielle por meio de campanhas massivas de desinforma\u00e7\u00e3o e fake news. Do lado de c\u00e1, a mem\u00f3ria de Marielle tornou-se um s\u00edmbolo de um outro mundo poss\u00edvel. Essa utopia permanente exige de n\u00f3s tamb\u00e9m uma vigil\u00e2ncia constante. O julgamento dos mandantes foi necess\u00e1rio, mas a verdadeira justi\u00e7a \u00e9 a continuidade das lutas que ela encarnava. Cada nova lideran\u00e7a que surge de um territ\u00f3rio popular, cada pol\u00edtica p\u00fablica que prioriza a vida digna, e cada esfor\u00e7o para manter viva a sua hist\u00f3ria s\u00e3o as formas reais de dizer que eles n\u00e3o conseguiram nos interromper. Marielle presente \u00e9, acima de tudo, uma tarefa coletiva de resist\u00eancia e constru\u00e7\u00e3o de futuro e produ\u00e7\u00e3o de um mundo estranho a esse que conhecemos.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Em resposta, projeto de sociedade que ela representava inspirou novas lideran\u00e7as negras e perif\u00e9ricas. Justi\u00e7a do caso d\u00e1 for\u00e7a a sua mem\u00f3ria, que tornou-se s\u00edmbolo de um outro mundo poss\u00edvel<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/wikifavelas-as-sementes-de-marielle-franco\/\">Wikifavelas: As sementes de Marielle Franco<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":78547,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[10178,39014,39015,307,1088,39016,6956,1668,1782,7575,229,9551],"tags":[],"class_list":["post-78546","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-anderson-gomes","category-assassinato-de-marielle-franco","category-dicionario-das-favelas","category-direitos-humanos","category-feminicidio","category-feminicidio-politico","category-feminismos","category-marielle-franco","category-misoginia","category-pais","category-racismo","category-red-pill"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78546"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78546\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78547"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}