{"id":78556,"date":"2026-03-16T19:43:40","date_gmt":"2026-03-16T22:43:40","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-frear-a-furia-destrutiva-em-2026\/"},"modified":"2026-03-16T19:43:40","modified_gmt":"2026-03-16T22:43:40","slug":"como-frear-a-furia-destrutiva-em-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-frear-a-furia-destrutiva-em-2026\/","title":{"rendered":"Como frear a f\u00faria destrutiva em 2026?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1140\" height=\"641\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/050-053_Entrev-Janine_308-0-1140.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/050-053_Entrev-Janine_308-0-1140.jpg 1140w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/16194306\/050-053_Entrev-Janine_308-0-1140-300x169.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/16194306\/050-053_Entrev-Janine_308-0-1140-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1140px) 100vw, 1140px\"><figcaption>Foto: Revista Fapesp<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Renato Janine Ribeiro<\/strong> em entrevista a <strong>Thiago Gama<\/strong><\/p>\n<p>Professor titular de \u00c9tica e Filosofia Pol\u00edtica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), o\u00a0ex-ministro Renato Janine Ribeiro \u00e9 uma das vozes mais l\u00facidas e sofisticadas do pensamento cr\u00edtico brasileiro contempor\u00e2neo. Fil\u00f3sofo formado pela USP, com mestrado pela <em>Universit\u00e9 de Paris-I, Panth\u00e9on-Sorbonne<\/em>, doutorado pela USP e p\u00f3s-doutorado pela <em>British Library<\/em>, Janine Ribeiro construiu uma trajet\u00f3ria \u00edmpar que articula o rigor acad\u00eamico com a interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica qualificada. Foi ministro de Estado da Educa\u00e7\u00e3o entre abril e outubro de 2015, no governo da presidenta Dilma Rousseff, e diretor de Avalia\u00e7\u00e3o da Capes (2004-2008), onde dirigiu as avalia\u00e7\u00f5es trienais de mais de 2.500 cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Brasil. Atualmente, preside a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) \u2013 mandato de julho de 2021 a julho de 2025 \u2013 e \u00e9 pesquisador s\u00eanior do CNPq. Sua obra, vasta e multifacetada, transita da exegese dos cl\u00e1ssicos da filosofia pol\u00edtica \u2013 com destaque para seus estudos sobre Thomas Hobbes, que lhe renderam os livros\u00a0<em>A Marca do Leviat\u00e3<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Ao Leitor Sem Medo<\/em>\u00a0\u2013 \u00e0 an\u00e1lise aguda da realidade brasileira. <\/p>\n<p>\u00c9 autor de uma das mais instigantes teorias sobre a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacional, que desenvolve a partir do conceito de \u201csociedade ocidental dissidente\u201d e do papel central dos afetos na vida p\u00fablica, tema que aprofunda em\u00a0<em>O Afeto Autorit\u00e1rio \u2013 televis\u00e3o, \u00e9tica, democracia<\/em>. Venceu o Pr\u00eamio Jabuti de melhor ensaio em 2001 com\u00a0<em>A Sociedade contra o Social: o alto custo da vida p\u00fablica no Brasil<\/em>, obra seminal que investiga a invers\u00e3o perversa entre v\u00edcios p\u00fablicos e virtudes privadas no pa\u00eds. Publicou, entre outros t\u00edtulos fundamentais,\u00a0<em>A Boa Pol\u00edtica \u2013 ensaios sobre a democracia na era da Internet<\/em>\u00a0(2017) e\u00a0<em>A P\u00e1tria Educadora em Colapso \u2013 reflex\u00f5es de um ex-ministro sobre a derrocada de Dilma Rousseff e o futuro da educa\u00e7\u00e3o no Brasil<\/em>\u00a0(2018). Sua produ\u00e7\u00e3o intelectual foi reconhecida com as mais altas distin\u00e7\u00f5es: \u00e9 condecorado com a Ordem Nacional do M\u00e9rito Cient\u00edfico (1997), a Ordem de Rio Branco (2009), a Ordem do M\u00e9rito Naval (2015) e a Grande Medalha da Inconfid\u00eancia (2018). \u00c9 Professor Honor\u00e1rio do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da USP (2016), acad\u00eamico em\u00e9rito da Academia Paulista de Direito, membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias, da Academia de Ci\u00eancias do Estado de S\u00e3o Paulo e cidad\u00e3o honor\u00e1rio do Estado do Piau\u00ed. No \u00e2mbito da cultura, integra o Conselho Consultivo de Inhotim e o Conselho Superior de Estudos Avan\u00e7ados da FIESP. Concebeu e apresentou duas s\u00e9ries de programas televisivos sobre \u00e9tica para a TV Futura, posteriormente exibidos pela TV Globo. Colunista semanal do jornal\u00a0<em>Valor Econ\u00f4mico<\/em>, Janine continua a exercer, com rara capacidade anal\u00edtica, o papel do intelectual p\u00fablico que n\u00e3o se furta ao debate dos grandes temas nacionais.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Prancheta--16.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Prancheta--16.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2022\/12\/31181126\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Nesta entrevista exclusiva a\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>, Renato Janine Ribeiro enfrenta as quest\u00f5es mais prementes de nosso tempo: o sequestro do desejo democr\u00e1tico pelos algoritmos do \u00f3dio, o fetichismo burocr\u00e1tico que sabota a soberania cient\u00edfica, o papel do intelectual no descr\u00e9dito da pol\u00edtica, a reconstru\u00e7\u00e3o de referenciais comuns diante da fragmenta\u00e7\u00e3o social, a pot\u00eancia do afeto como ant\u00eddoto ao ressentimento neofascista, a defesa dos investimentos p\u00fablicos em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade em tempos de austeridade e a urg\u00eancia de uma temporalidade lenta, reflexiva, que nos permita escapar da tirania da rapidez. <\/p>\n<p><strong>Em sua obra \u201cA Boa Pol\u00edtica\u201d, o senhor distingue o desejo democr\u00e1tico da exig\u00eancia republicana. Como essa tens\u00e3o se manifesta hoje, quando o desejo parece capturado por algoritmos de \u00f3dio?<\/strong><\/p>\n<p>A minha oposi\u00e7\u00e3o entre democracia e rep\u00fablica \u00e9 que a Democracia \u00e9 um clamor dos de baixo, dos pobres, enquanto a Rep\u00fablica \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o que visa a fazer funcionar o todo e, nesse sentido, ela acaba, querendo ou n\u00e3o, estando mais pr\u00f3xima da preserva\u00e7\u00e3o do status quo. Ent\u00e3o se torna muito importante na democracia um desejo \u00e0s vezes revolucion\u00e1rio, rebelde, capaz at\u00e9 de derrubar o regime, enquanto a rep\u00fablica est\u00e1 mais preocupada com a governabilidade. Defendi esta tese sobre ambas em dois livros que publiquei em 2000<sup>1<\/sup>. Neste contexto, entendi que, no Brasil, o PT, o Partido dos Trabalhadores, era um partido de vertente democr\u00e1tica, enquanto o PSDB, preocupado sempre com a governabilidade, valorizava mais o tema da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O desejo \u00e9 obviamente mais irracional do que a vontade. A vontade se compreende na express\u00e3o \u201cfor\u00e7a de vontade\u201d, que nos cobra domesticar, domar o pr\u00f3prio desejo, n\u00e3o deixar que ele nos domine. A ideia republicana \u00e9 que o desejo \u00e9 perigoso para o corpo pol\u00edtico, porque, para dar um paralelo que ilustra bem as coisas, ele vai nos fazer comer doce, comer gordura, comer a\u00e7\u00facar; para vencer a obesidade, precisa-se de muita vontade, muita for\u00e7a de vontade. Agora, nesta minha tese, eu valorizo o desejo no seu lado positivo, como aquilo que vai al\u00e9m da mera necessidade, que realiza a pessoa na sua diversidade. Mas os afetos tamb\u00e9m podem ser negativos. As paix\u00f5es positivas s\u00e3o as de afirma\u00e7\u00e3o, amor, amizade, a disposi\u00e7\u00e3o a cooperar. J\u00e1 as paix\u00f5es negativas est\u00e3o ligadas ao \u00f3dio, \u00e0 raiva, \u00e0 f\u00faria, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, \u00e0 vontade de destruir. Ora, estamos num momento em que as paix\u00f5es negativas est\u00e3o sendo instigadas com muita for\u00e7a, e esse problema exige que o combate pol\u00edtico seja travado n\u00e3o apenas de forma racional, mas tamb\u00e9m no plano do desejo.<\/p>\n<p>O que isso quer dizer? Que precisamos constantemente verificar de que maneira a extrema direita, na sua f\u00faria negacionista, est\u00e1 conseguindo conquistar as paix\u00f5es e mentes, mais at\u00e9 as paix\u00f5es do que as mentes das pessoas em geral, independentemente at\u00e9 do n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o, porque h\u00e1 pessoas com forma\u00e7\u00e3o superior que s\u00e3o conquistadas por esse discurso do \u00f3dio. Precisamos ser capazes de travar a luta nesse ponto, que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para quem, como o mundo acad\u00eamico, valoriza especialmente a raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O senhor criticou recentemente a \u201cop\u00e7\u00e3o brasileira pela burocracia\u201d como um entrave \u00e9tico. De que forma esse fetiche administrativo sabota a soberania cient\u00edfica e o progresso social do Sul Global?<\/strong><\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o brasileira pela democracia e pela burocracia n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de meios que s\u00e3o dif\u00edceis, irritantes etc. \u00c9 uma tend\u00eancia que temos a resolver as quest\u00f5es no papel. Com muita frequ\u00eancia, quando temos um problema importante, pensamos de que maneira vamos legislar sobre ele e n\u00e3o como vamos trat\u00e1-lo. Aqui, talvez n\u00e3o haja apenas uma tradi\u00e7\u00e3o portuguesa do cart\u00f3rio, da burocracia, da administra\u00e7\u00e3o, mas algo franc\u00eas: quando escreve o\u00a0<em>Antigo Regime e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, Tocqueville levanta a ideia de que os ingleses desenvolveram na pr\u00e1tica as quest\u00f5es p\u00fablicas e pol\u00edticas, que toda a forma\u00e7\u00e3o do Estado ingl\u00eas \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o de longo prazo, ao longo dos s\u00e9culos, na qual as pessoas v\u00e3o aprendendo com muito ensaio e erro, e at\u00e9 mesmo com duas revolu\u00e7\u00f5es no s\u00e9culo XVII, mas revolu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o mudam tanto o mundo quanto a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa mudar\u00e1 um s\u00e9culo depois da segunda revolu\u00e7\u00e3o inglesa de 1688, a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Gloriosa. Ent\u00e3o, Tocqueville entende que os revolucion\u00e1rios franceses deviam muito aos homens de letras, aos fil\u00f3sofos, que se dedicaram a conhecer os problemas, mas sem terem experi\u00eancia pr\u00e1tica com eles. Da\u00ed, no entender dele, uma insufici\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, insufici\u00eancia por seus excessos, coisa de\u00a0<em>philosophes<\/em>. Talvez n\u00f3s, no Brasil, outorguemos muita import\u00e2ncia aos textos. Penso sobretudo na import\u00e2ncia dos advogados em nossa sociedade. Muitas vezes se espera que a solu\u00e7\u00e3o venha de novas leis. Vou dar um exemplo: a CLT, Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho, j\u00e1 em 1943, pro\u00edbe pagar sal\u00e1rios diferentes pela mesma fun\u00e7\u00e3o. No entanto, apesar de fazer quase um s\u00e9culo que temos essa determina\u00e7\u00e3o t\u00e3o importante \u00e9tica e juridicamente, volta e meia surgem projetos de lei, que acabam sendo aprovados, para proibir pagar sal\u00e1rios diferentes para homens e mulheres. Mas por que isso? Porque a lei n\u00e3o \u00e9 aplicada. Parece que aqui muitas vezes basta a lei, mas ela n\u00e3o se aplica.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-2.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/08\/31180016\/BANNER-Outras-palavras-NOVEMBRO7-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ou o recente caso do c\u00e3o Orelha, chacinado por jovens em Santa Catarina: a rea\u00e7\u00e3o nas ruas foi pedir novas leis, quando as que existem j\u00e1 puniriam os respons\u00e1veis. Nesse ponto, vou lembrar uma a\u00e7\u00e3o boa de uma pessoa condenada por corrup\u00e7\u00e3o: Paulo Maluf. Quando ele se tornou prefeito de S\u00e3o Paulo, em 1993, foi quem imp\u00f4s o respeito \u00e0 exig\u00eancia do cinto de seguran\u00e7a, j\u00e1 prevista em lei, mas at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o aplicada. Na \u00e9poca, dizia-se que cada dia isso salvava seis vidas: diariamente, havia seis pessoas que morriam no tr\u00e2nsito apenas em S\u00e3o Paulo, por n\u00e3o usarem o cinto de seguran\u00e7a. Depois de S\u00e3o Paulo adotar isso, todos os estados come\u00e7aram a fiscalizar quem usa e quem n\u00e3o usa o cinto de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor analisa o papel do intelectual p\u00fablico hoje, frente ao \u201cdescr\u00e9dito da pol\u00edtica\u201d e \u00e0 ascens\u00e3o de lideran\u00e7as que fazem da mediocridade um signo de autenticidade?<\/strong><\/p>\n<p>No meu entender, o intelectual j\u00e1 \u00e9 intelectual p\u00fablico, porque entendo o intelectual como aquele que se diferencia do cientista em geral, da pessoa culta em geral, do acad\u00eamico em geral, porque ele discute o valor das coisas. Enquanto estou estudando, digamos, Thomas Hobbes, ou algu\u00e9m est\u00e1 estudando o meio ambiente, ou est\u00e1 estudando um fil\u00f3sofo qualquer, um ponto qualquer de biologia ou f\u00edsica, estamos fazendo ci\u00eancia, mas de certa forma estamos confinados em nossa academia, sem d\u00favida discutindo com os nossos pares e fazendo avan\u00e7ar o conhecimento, a ci\u00eancia, a filosofia. Mas no momento em que passamos a discutir o valor das coisas, tanto das coisas que estudamos quanto das coisas que vemos fora e para as quais usamos nosso instrumental te\u00f3rico, anal\u00edtico e de pesquisa, neste momento somos intelectuais. Ent\u00e3o, o intelectual j\u00e1 \u00e9 p\u00fablico por defini\u00e7\u00e3o. Agora, qual \u00e9 o problema que temos a\u00ed? Primeiro, posso dizer que ao longo da minha vida assisti praticamente a um avan\u00e7o muito grande da figura dos intelectuais. Isso se deve muito \u00e0\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0nos anos 1980, quando fez seu projeto Folha e se cercou de intelectuais, inclusive alguns que formavam sua famosa equipe de articulistas, da qual nunca fiz parte, mas nessa \u00e9poca, por uma ou duas d\u00e9cadas, eu escrevi bastante no jornal sobre assuntos muito diferentes, e muitas outras pessoas mais conhecidas, mais avan\u00e7adas do que eu, mais seniores do que eu, tamb\u00e9m escreviam no jornal. Fora isso, tamb\u00e9m penso que teve muita import\u00e2ncia a atividade de Adauto Novaes, da Funarte, quando realizou uma s\u00e9rie de semin\u00e1rios, come\u00e7ando com \u201cOs Sentidos da Paix\u00e3o\u201d, que teriam muito impacto de p\u00fablico. A destacar que tiveram, neste contexto, especial import\u00e2ncia os fil\u00f3sofos. Dos semin\u00e1rios que Adauto Novaes organizou nos anos 80 e 90, pelo menos um ter\u00e7o dos participantes era da filosofia.<\/p>\n<p>Curiosamente, nesse per\u00edodo final da ditadura, come\u00e7o da democracia, a direita participava pouco tanto da cultura quanto da discuss\u00e3o p\u00fablica com base intelectual. Ela era formada por pol\u00edticos ou mesmo advogados, mas de forma\u00e7\u00e3o mais limitada. O advento de intelectuais de direita no espectro da discuss\u00e3o p\u00fablica \u00e9 recente, deve ter 10 ou 15 anos, uns deles com qualidade, outros sem.<\/p>\n<p>Agora, o que est\u00e1 se vendo \u00e9 um descr\u00e9dito de modo geral da esfera p\u00fablica. Na sociedade brasileira, h\u00e1 um capitalismo prim\u00e1rio, selvagem, que ocupa o espa\u00e7o quase todo. Se o princ\u00edpio do capitalismo \u00e9 a busca do lucro, n\u00e3o h\u00e1 nada errado ou ileg\u00edtimo nisso, mas tem que ser feito dentro de limites muito claros. Se virmos o grande fil\u00f3sofo do capitalismo iniciante, que \u00e9 John Locke, notaremos que ele coloca a quest\u00e3o da propriedade privada dentro de um contexto de uma organiza\u00e7\u00e3o definida por Deus. \u00c9 dentro desse quadro que temos a busca do lucro.<\/p>\n<p>Ou veja \u201cAmor e Morte\u201d de David E. Kelley, na HBO. Essa s\u00e9rie mostra um assassinato cometido por uma mulher, mas paradoxalmente, tanto a assassina quanto sua v\u00edtima, quanto todos na pequena cidade americana em que vivem, organizam sua sociabilidade dentro da igreja. H\u00e1 um quadro dentro do qual as pessoas, mesmo a criminosa, est\u00e3o colocadas: a vida social \u00e9 organizada. Mas o que acontece no Brasil? Esse enquadramento aqui \u00e9 fraco. Os indiv\u00edduos ficam muito soltos. Em meu livro\u00a0<em>A sociedade contra o social,<\/em>\u00a0tomei a c\u00e9lebre express\u00e3o de Bernard Mandeville: \u201cv\u00edcios privados, benef\u00edcios p\u00fablicos\u201d. Os v\u00edcios privados t\u00eam como um dos seus principais exemplos a gan\u00e2ncia. Acontece que a gan\u00e2ncia \u00e9 o pr\u00f3prio motor do capitalismo, s\u00f3 que precisa ser enquadrada. Ela tem que respeitar as leis; ao ser enquadrada, gerar\u00e1 benef\u00edcios p\u00fablicos. Aqui a equa\u00e7\u00e3o se inverte, vemos no p\u00fablico os v\u00edcios e no mundo privado as virtudes. Ent\u00e3o, aqui a moral \u00e9 socialmente improdutiva.<\/p>\n<p>Aqui, a busca do lucro, sem estar baseada num respeito ao quadro social, ao p\u00fablico, ao corpo pol\u00edtico, acaba gerando corrup\u00e7\u00e3o. Com isso, quando cada um busca simplesmente sua vantagem pessoal, ao se dissolver o quadro em que todos lidamos com os outros, a confian\u00e7a se torna imposs\u00edvel. Vamos ver o que \u00e9 confian\u00e7a: confian\u00e7a \u00e9 praticamente o mesmo que f\u00e9, ou \u00e9 o fundamento dos la\u00e7os sociais. Eu, quando ando pelo centro da cidade ou em qualquer bairro, confio em que ningu\u00e9m vai me atacar. A chance de algu\u00e9m me atacar \u00e9 m\u00ednima. Se estou num lugar ermo \u00e0 noite, ou considerado perigoso, minha desconfian\u00e7a aumenta. Quero dizer que a gente, para poder viver em sociedade, tem uma confian\u00e7a impl\u00edcita nos outros, e essa confian\u00e7a \u00e9 a base do la\u00e7o social. Quando cada um procura sua vantagem, quando \u00e9 cada um por si, some essa confian\u00e7a e passamos a descrer de tudo. Ent\u00e3o, teremos medo da criminalidade, real ou imagin\u00e1ria; medo dos governantes, que podem se corromper; medo dos candidatos, que alguns acham que s\u00e3o todos da mesma cepa ruim, e por a\u00ed vai. Ao descr\u00e9dito, se soma o negacionismo.<\/p>\n<p>Temos dois negacionismos, o cient\u00edfico, que se op\u00f5e \u00e0 ci\u00eancia; e o negacionismo dos fatos, que solapa o trabalho dos jornalistas decentes; com eles, perdemos as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de conv\u00edvio em sociedade, que se baseia na confian\u00e7a um no outro e no acordo sobre certos princ\u00edpios. Por exemplo, acreditamos todos que o sol vai nascer amanh\u00e3, ou pelo menos vai clarear o dia; acreditamos nos resultados da loteria; acreditamos no resultado das elei\u00e7\u00f5es; acreditamos nas vacinas. Ora, os dois \u00faltimos pontos foram extremamente contestados pela extrema direita nos \u00faltimos anos. Quando n\u00e3o acreditamos mais no resultado das elei\u00e7\u00f5es, a coisa fica muito perigosa. Passamos a achar que h\u00e1 uma fraude na base do pr\u00f3prio poder que nos governa, e ele se torna ileg\u00edtimo. E ao se tornar ileg\u00edtimo, dep\u00f4-lo se torna leg\u00edtimo, o que explica o 8 de janeiro de 2023, quando a extrema direita tentou derrubar o governo eleito do Brasil e cogitou inclusive assassinar o presidente, o vice-presidente e o ministro do Supremo Tribunal Federal. \u00c9 muito grave o efeito da perda da confian\u00e7a, e vai ser dif\u00edcil restabelecer essa confian\u00e7a inclusive nesses par\u00e2metros b\u00e1sicos.<\/p>\n<p><strong>Vivemos um tempo em que o di\u00e1logo parece ter sa\u00eddo de cena. Como reconstruir um referencial comum de sociedade diante do avan\u00e7o de particularismos que fragmentam o tecido democr\u00e1tico?<\/strong><\/p>\n<p>Da quest\u00e3o do fim do di\u00e1logo j\u00e1 tratei um pouco ao dizer que, para o di\u00e1logo, n\u00f3s precisamos de alguns referenciais comuns. Eu diria que s\u00e3o de duas ordens: primeiro, os fatos. Precisamos ter um acordo sobre certos fatos, que podem ser elementares: o sol se levanta, estamos no hemisf\u00e9rio sul, o pa\u00eds em que vivemos \u00e9 o Brasil, o presidente se chama tal, ganhamos v\u00e1rias Copas do Mundo. E o segundo s\u00e3o os valores. Precisamos ter certos valores, como a verdade \u00e9 superior \u00e0 mentira, ou o bem \u00e9 melhor que o mal. No caso da pol\u00edtica, elei\u00e7\u00f5es livres definem quem vai governar, elei\u00e7\u00f5es livres supondo que n\u00e3o haja jogo baixo, que n\u00e3o haja exclus\u00e3o de candidato favorito por manobras golpistas, como aconteceu em 2018, quando o compl\u00f4 da Lava Jato tirou Lula, que era o favorito das pesquisas, e colocou Bolsonaro na presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Claro que podemos discutir os valores. Por exemplo, eu entendo que o valor b\u00edblico, e mais do que b\u00edblico, universal, \u201cn\u00e3o matar\u00e1s\u201d, n\u00e3o abrange apenas a situa\u00e7\u00e3o em que uma pessoa \u00e9 exterminada com faca, com uma arma branca, arma de fogo ou veneno, mas tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es em que, por descaso, desaten\u00e7\u00e3o, ego\u00edsmo ou neglig\u00eancia, se deixa uma pessoa morrer. Portanto, \u201cn\u00e3o matar\u00e1s\u201d, no meu entender, tem tamb\u00e9m uma extens\u00e3o para pol\u00edticas sociais: deixar uma pessoa morrer de fome \u00e9 violar esse mandamento b\u00edblico, e mais que b\u00edblico, de praticamente todas as sociedades que existem. Agora, nesse ponto pode haver diverg\u00eancia, pode haver pessoas que entendem \u201cn\u00e3o matar\u00e1s\u201d num sentido mais estrito. Esse \u00e9 um ponto que pode estar em disputa, mas o princ\u00edpio de n\u00e3o matar eu penso que \u00e9 universal. N\u00e3o mentir \u00e9 outro princ\u00edpio importante. Mas Benjamin Constant, o fil\u00f3sofo franco-su\u00ed\u00e7o, critica Kant porque este obrigaria uma pessoa a dizer a um assassino onde estava a v\u00edtima que este busca, e Kant acabou concordando que sim, devia dizer a verdade mesmo a um assassino em busca de seu assassinando, por assim dizer. Isso de Kant me parece bastante errado. Mas \u00e9 um caso em discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem uma comunidade de respeito a certos fatos e certos valores, \u00e9 dif\u00edcil a conviv\u00eancia e o di\u00e1logo. O di\u00e1logo \u00e9 crucial para desenvolver, a partir de fatos e valores comuns, proposi\u00e7\u00f5es importantes. No conflito direita-esquerda, em que a esquerda defende pol\u00edticas sociais mais generosas, eu diria mais justas e mais igualit\u00e1rias, \u00e9 preciso que os dois tenham base nos fatos e em valores, quer dizer, que haja um acordo geral sobre a igualdade de todo ser humano, sobre a liberdade de todo ser humano, talvez at\u00e9 sobre, para completar o tr\u00edptico da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, talvez at\u00e9 sobre a fraternidade que devemos aos nossos semelhantes. Mas, a partir disso, podemos discutir uma pol\u00edtica adequada. Por exemplo, o PSDB no governo adotou pol\u00edticas sociais, o PT adotou pol\u00edticas sociais mais amplas, mais profundas, mas \u00e9 inteiramente normal que, dentro de uma democracia, haja um partido de mais \u00e0 direita que adota pol\u00edticas sociais mais limitadas, porque acredita que a economia de mercado poder\u00e1 proporcionar inclus\u00e3o grande e, por isso, se abst\u00e9m de incentivos diretamente do governo; e, por outro lado, o partido de esquerda quer que as pol\u00edticas sociais sejam essencialmente pol\u00edticas p\u00fablicas. Isso tudo \u00e9 normal.<\/p>\n<p>O problema que temos hoje, e n\u00e3o apenas no Brasil, \u00e9 haver um negacionismo muito grande. O negacionismo afeta basicamente duas profiss\u00f5es: um que ataca a ci\u00eancia e teve como grande exemplo a sabotagem n\u00e3o apenas das vacinas contra a Covid, mas, antes mesmo disso, a a\u00e7\u00e3o contra a medida de distanciamento f\u00edsico. Outro \u00e9 o ataque aos jornalistas, que n\u00e3o hesita em usar fake news \u2014 lembrando que este \u00e9 apenas um eufemismo para a produ\u00e7\u00e3o de mentira em escala industrial. Ora, como vou dialogar com uma pessoa que, se voc\u00ea disser a ela \u201cpesquisas cient\u00edficas mostram tais ou quais coisas\u201d, dir\u00e1 que n\u00e3o acredita nas pesquisas cient\u00edficas? E se voc\u00ea come\u00e7ar um di\u00e1logo com base em fatos, ela disser que tem direito a ter uma opini\u00e3o? Opini\u00e3o \u00e9 uma forma de conhecimento inferior \u00e0 da ci\u00eancia, porque n\u00e3o tem prova, \u00e9 apenas a doxa, como se diz em grego. Essa perda do di\u00e1logo afeta n\u00e3o s\u00f3 a democracia como regime pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m o pr\u00f3prio conv\u00edvio das pessoas: fam\u00edlias racharam em fun\u00e7\u00e3o do negacionismo.<\/p>\n<p><strong>Em sua an\u00e1lise das \u201csociedades dissidentes\u201d, o afeto ocupa lugar central na vida p\u00fablica. Como evitar que essa pot\u00eancia afetiva seja convertida em combust\u00edvel para o ressentimento neofascista?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 uma tese com a qual trabalho h\u00e1 muito tempo, ou seja, a de que o Brasil \u00e9 uma sociedade ocidental dissidente. Eu j\u00e1 pensei que a Am\u00e9rica Latina como um todo fosse, mas hoje tenho certeza de que o Brasil \u00e9. E isso quer dizer o qu\u00ea? Quer dizer que temos valores comuns com o Ocidente, mas tamb\u00e9m somos diferentes dele. Localizo essa diferen\u00e7a n\u00e3o na nossa miscigena\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, mas na import\u00e2ncia grande dada ao afeto em nossa cultura. E esse ponto para mim ficou muito saliente, por exemplo, com o uso do cora\u00e7\u00e3o em campanhas pol\u00edticas, inclusive de direita. Paulo Maluf em S\u00e3o Paulo: \u201cEu amo S\u00e3o Paulo\u201d com o cora\u00e7\u00e3o; Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es na Bahia fazendo escrever \u201cSalvador\u201d com o cora\u00e7\u00e3o no lugar do \u201c\u00f3\u201d. H\u00e1 aqui o que chamei de \u201cafeto autorit\u00e1rio\u201d<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o a ele, minha tese \u00e9 que o PT apostou no afeto democr\u00e1tico, do qual \u00e9 exemplo a famosa met\u00e1fora de Lula comparando o ato de governar com o de cuidar de uma jabuticabeira \u2014 sendo que a gente quer que a jabuticabeira d\u00ea frutos rapidamente, mas ela demora de 7 a 10 anos. Temos que cuidar dela e ter esperan\u00e7a, como ele disse v\u00e1rias vezes, mas assumindo ele o compromisso de que, mesmo que demorasse, iria realizar o que prometeu. Esse discurso dele contrastava com o de seu antecessor na presid\u00eancia, Fernando Henrique Cardoso, muito mais focado na raz\u00e3o, mas uma raz\u00e3o de senso comum. Ali\u00e1s, quem me disse isso foi o pr\u00f3prio Fernando Henrique, sem se gabar de forma alguma, n\u00e3o dizendo que sua racionalidade fosse superior \u00e0 emocionalidade de Lula, porque me disse: \u201cminha raz\u00e3o p\u00fablica, raz\u00e3o quando eu falo \u00e0 sociedade, \u00e9 do n\u00edvel do senso comum\u201d. Assim, em vez da met\u00e1fora da jabuticabeira, Fernando Henrique usava a aula de Max Weber, sobre as duas \u00e9ticas etc<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<p>Em suma, temos um afeto autorit\u00e1rio que foi fartamente utilizado pela direita, uma racionalidade de senso comum que foi uma marca dos oito anos do PSDB na presid\u00eancia da Rep\u00fablica, e um afeto democr\u00e1tico que \u00e9 o eixo do PT. O problema que voc\u00ea coloca \u00e9: estar\u00e1 o afeto sequestrado pelo \u00f3dio? Ter\u00e1 esse afeto democr\u00e1tico completado o seu ciclo de vig\u00eancia e teria sido substitu\u00eddo pelo \u00f3dio? Bom, volto \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de 1989, retrocedamos. Nela vi uma contraposi\u00e7\u00e3o entre um discurso \u00e9pico de esquerda, de Lula, e um discurso \u00e9pico de direita, de Fernando Collor de Mello, que acabou sendo eleito. Uma epopeia era prometida ao Brasil pelos dois principais candidatos, os dois finalistas do segundo turno, passando por pontos diferentes, mas eram discursos \u00e9picos, que queriam a constitui\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds forte, uma utopia nos dois casos: uma utopia de esquerda, uma utopia baseada na solidariedade, em pol\u00edticas p\u00fablicas, o inverso, uma utopia de direita, uma utopia baseada no liberalismo e no enriquecimento dos indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>E nessa elei\u00e7\u00e3o de 1989 num segundo plano ficou justamente o PSDB, que depois chegaria ao governo, mas que prop\u00f4s, nele, um discurso prosaico. Fernando Henrique \u00e9 um mestre da prosa e fez n\u00e3o s\u00f3 uso da prosa como fez um governo algo prosaico. Um jornalista, Elio Gaspari, criticava com frequ\u00eancia o que parecia a ele uma esp\u00e9cie de farol baixo da presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, se houve num momento uma epopeia de direita, Bolsonaro, contra o PT, n\u00e3o reciclou uma epopeia de direita, adotou um discurso do \u00f3dio, da destrui\u00e7\u00e3o. O discurso de Collor, embora tenha utilizado na reta final da campanha eleitoral o golpe baixo de chamar a ex-namorada de Lula para a TV para desqualificar a imagem de seu rival, era um discurso que prometia vinho e mel, prometia muita felicidade. J\u00e1 Bolsonaro diria, poucos meses depois da sua posse, no almo\u00e7o na embaixada brasileira em Washington, que sua inten\u00e7\u00e3o era primeiro destruir para depois construir. Mas jamais disse o que queria construir. Tanto \u00e9 que os pr\u00f3prios minist\u00e9rios foram desfalcados: ao deixar o governo, a m\u00e1quina p\u00fablica estava bastante avariada. E esse \u00e9 um problema s\u00e9rio: precisamos ter uma m\u00e1quina p\u00fablica que funcione, da mesma forma que precisamos que as metas fixadas pela Constitui\u00e7\u00e3o, entre elas acabar com a pobreza no Brasil, sejam realizadas. N\u00e3o importa tanto se por uma via liberal, como o PSDB tentou, ou por uma via progressista, como o PT se empenhou em fazer. Mas o que n\u00e3o se pode \u00e9 ir contra. O problema desses quatro anos de Bolsonaro e do legado que ele deixou, e que ainda amea\u00e7a nossa elei\u00e7\u00e3o deste final de ano de 2026, o problema \u00e9 que continua forte, continua popular junto a muitas pessoas, a ideia de que o que deve nos unir \u00e9 o \u00f3dio, o que deve formar a pol\u00edtica brasileira \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o de \u00f3dio de uns aos outros. Isso \u00e9 assustador. E nesse sentido, o prop\u00f3sito afetivo, talvez afetuoso, que o PT encarnou, est\u00e1 em s\u00e9rias dificuldades.<\/p>\n<p><strong>Diante da atual instabilidade geopol\u00edtica global, qual deve ser a estrat\u00e9gia brasileira para preservar os investimentos em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade p\u00fablica contra as press\u00f5es de austeridade?<\/strong><\/p>\n<p>Esse contexto est\u00e1 grave. V\u00ea-se isso sobretudo na Europa. Na Europa, as injun\u00e7\u00f5es da guerra da Ucr\u00e2nia t\u00eam levado a maior parte dos pa\u00edses a reduzir os investimentos sociais e a transferir esse dinheiro para despesas b\u00e9licas. Isso pode ser at\u00e9 se entender, mas \u00e9 assustador, porque com isso apenas se agravam crises que j\u00e1 existem. Por qu\u00ea? Porque a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade s\u00e3o historicamente subfinanciadas, embora no Brasil esse d\u00e9ficit seja bem maior. O custo da sa\u00fade aumenta mais que a infla\u00e7\u00e3o, e da mesma forma, o custo de uma boa educa\u00e7\u00e3o. Mas, quando n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se coloca mais dinheiro, porque n\u00e3o se quer taxar os ricos, mas se tira dinheiro disso para desviar para despesas b\u00e9licas, a coisa fica assustadora. No caso do Brasil, n\u00e3o s\u00e3o despesas b\u00e9licas, mas \u00e9 a amea\u00e7a da d\u00edvida. Temos um d\u00e9ficit fiscal que se amplia o tempo todo devido \u00e0 pol\u00edtica de juros do Banco Central. Essa pol\u00edtica de juros visa justamente aumentar o d\u00e9ficit do Estado brasileiro e, com isso, permitir \u00e0 direita reclamar do d\u00e9ficit, clamando pelo corte em investimentos sociais. H\u00e1 essa coisa assustadora pela qual a direita procura inviabilizar os investimentos p\u00fablicos, as pol\u00edticas sociais no Brasil e no resto do mundo. Isso \u00e9 muito evidente nos Estados Unidos com Trump 2, foi vis\u00edvel no Brasil com Bolsonaro e est\u00e1 acontecendo na Europa a pretexto da guerra. Ent\u00e3o, neste contexto, o que temos que fazer? Temos que lutar para reverter isso. Uma pauta importante na Europa \u00e9 combater esse desvio de dinheiro para a guerra, procurar a paz. Essa paz n\u00e3o vai ser boa, n\u00e3o vai ser justa, a Ucr\u00e2nia provavelmente vai perder territ\u00f3rio, mas \u00e9 melhor uma paz ruim do que uma guerra p\u00e9ssima e sem fim. No Brasil, o que devemos fazer \u00e9 exigir uma taxa\u00e7\u00e3o dos mais ricos, que pode passar por quatro impostos: no \u00e2mbito federal, o imposto de renda da pessoa f\u00edsica, que deve ter uma progressividade maior. \u00c9 muito correto isentar at\u00e9 5.000 BRL de renda mensal, mas \u00e9 preciso fazer com que as pessoas que recebem 10, 15 mil n\u00e3o estejam sujeitas \u00e0 mesma al\u00edquota de quem recebe 100, 200 mil, 1 milh\u00e3o por m\u00eas. No \u00e2mbito estadual, temos dois impostos que \u00e9 importante fazer crescer: um imposto sobre transmiss\u00e3o de bens, conhecido como imposto de heran\u00e7a, hoje muito baixo, enquanto nos Estados Unidos pode chegar a mais de 40%. Outro imposto estadual que pode tamb\u00e9m ter progressividade \u00e9 o IPVA, imposto sobre propriedade de ve\u00edculos automotores, que deveria ser progressivo, porque n\u00e3o faz sentido que um carro de 50.000 BRL pague o mesmo percentual de um carro de 5 milh\u00f5es, uma Lamborghini. Finalmente, no \u00e2mbito municipal, o imposto predial e territorial urbano tamb\u00e9m deveria ser progressivo, de modo que as pessoas mais ricas o paguem mais. Ent\u00e3o, em s\u00edntese, trata-se de taxar a renda e o patrim\u00f4nio. Esta luta \u00e9 fundamental. Temos a necessidade de mostrar \u00e0 sociedade que os mais ricos podem e devem contribuir mais do que os mais pobres para o bem comum.<\/p>\n<p><strong>O jornalismo de profundidade busca a \u201clonga dura\u00e7\u00e3o\u201d do pensamento. Qual a import\u00e2ncia dessa temporalidade lenta para a emancipa\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia cr\u00edtica brasileira?<\/strong><\/p>\n<p>Temporalidade lenta da imprensa? Estamos num tempo da rapidez. Alternamos as imagens num celular de um instante para outro. As redes sociais multiplicam seus est\u00edmulos, o que cria uma impaci\u00eancia bastante grande. Perdemos a dimens\u00e3o da paci\u00eancia, do foco, da concentra\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 complicado para quem lida com o conhecimento, porque ele exige paci\u00eancia, n\u00e3o se faz a jato. Isso tudo cria uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil para n\u00f3s todos, e temos que prestigiar a imprensa que faz an\u00e1lises. Como os fatos chegam muito rapidamente, seja pela imprensa, seja pelas redes sociais, o que falta \u00e9 an\u00e1lise e discuss\u00e3o. Infelizmente, a imprensa parece preferir colunistas de opini\u00e3o a analistas com base s\u00f3lida.<\/p>\n<p>1: Folha explica democracia &amp; Folha explica rep\u00fablica, ambos pela Publifolha.<\/p>\n<p>2: <em>O afeto autorit\u00e1rio \u2013 televis\u00e3o, \u00e9tica, democracia<\/em>. Cotia: Ateli\u00ea Editorial, 2005.<\/p>\n<p>3: A respeito, ver meu <em>A p\u00e1tria educadora em colapso<\/em>, S\u00e3o Paulo: Tr\u00eas Estrelas, 2017.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Como frear a f\u00faria destrutiva em 2026? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ccj-da-camara-quer-dificultar-acesso-a-acoes-de-constitucionalidade-no-stf\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/img20250930164146579MED-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">CCJ da C\u00e2mara quer dificultar acesso a a\u00e7\u00f5es de co...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/garda-revolucionaria-do-ira-liderada-pelo-filho-de-ali-khamenei-aguarda-eua-para-confronto-no-estreito-de-ormuz\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Garda Revolucion\u00e1ria do Ir\u00e3, liderada pelo filho d...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sobre-os-vetos-de-lula-e-os-proximos-capitulos-da-novela-do-pl-da-devastacao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Sobre os vetos de Lula e os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos da ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/saude\/2025\/08\/com-investimento-de-r-24-bilhoes-governo-federal-anuncia-compra-de-equipamentos-de-saude\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1653126&amp;o=node') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Com investimento de R$ 2,4 bilh\u00f5es, governo federa...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor provoca: grande sintoma da crise pol\u00edtica do Brasil \u00e9 a perda dos \u201cafetos democr\u00e1ticos\u201d, hoje sequestrados pelo \u00f3dio. Mas, quando a desconfian\u00e7a impera na sociedade, a sa\u00edda passa por pol\u00edticas p\u00fablicas concretas, como a taxa\u00e7\u00e3o dos super-ricos<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/como-frear-a-furia-destrutiva-em-2026\/\">Como frear a f\u00faria destrutiva em 2026?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":78557,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[39024,39025,6007,39026,355,1760,39027,39028],"tags":[],"class_list":["post-78556","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-afetos-autoritarios","category-afetos-democraticos","category-crise-brasileira","category-crise-politica-brasileira","category-desinformacao","category-eleicoes-2026","category-odio-na-politica","category-renato-janine-ribeiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78556","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78556"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78556\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/78557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}