{"id":79199,"date":"2026-03-20T14:33:21","date_gmt":"2026-03-20T17:33:21","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-capitalismo-algoritmico-e-a-subversao-possivel\/"},"modified":"2026-03-20T14:33:21","modified_gmt":"2026-03-20T17:33:21","slug":"o-capitalismo-algoritmico-e-a-subversao-possivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-capitalismo-algoritmico-e-a-subversao-possivel\/","title":{"rendered":"O capitalismo algor\u00edtmico e a subvers\u00e3o poss\u00edvel"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1492\" height=\"782\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5012996076419615760_w2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/photo_5012996076419615760_w2.jpg 1492w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20142955\/photo_5012996076419615760_w2-300x157.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20142955\/photo_5012996076419615760_w2-768x403.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1492px) 100vw, 1492px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Tudo indica, de forma inequ\u00edvoca, que no Ocidente est\u00e1 a ocorrer uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica, cujas consequ\u00eancias alastram-se muito al\u00e9m da \u00e1rea geogr\u00e1fica que costumamos associar \u00e0quele nome. H\u00e1 anos somos testemunhas de uma profunda crise de representa\u00e7\u00e3o e fun\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es \u2013 em diferentes n\u00edveis -, assim como dos padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e cultural. Trata-se da crise do modelo neoliberal, emergido h\u00e1 cinquenta anos da dissolu\u00e7\u00e3o do estado social que at\u00e9 ent\u00e3o havia caracterizado as sociedades europeias e norte-americanas do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>Entramos numa nova fase do ciclo vital do capitalismo.<\/p>\n<p>Entre os muitos nomes utilizados para descrev\u00ea-lo, escolhemos o de capitalismo algor\u00edtmico, por nos parecer aquele que melhor d\u00e1 conta das tens\u00f5es que o atravessam. Uma das suas caracter\u00edsticas mais evidentes \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o de capitais e poder substancial \u2013 assim como da capacidade de influenciar uma quota elevad\u00edssima de popula\u00e7\u00e3o mundial \u2013 nas m\u00e3os dum n\u00famero \u00ednfimo de pessoas. O contexto geral em que isto acontece \u00e9 a cont\u00ednua solicita\u00e7\u00e3o do caos e, consequentemente, a queda de qualquer regra que d\u00ea a ideia de limites n\u00e3o ultrapass\u00e1veis.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--31.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--31.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil encontrar algo de parecido nas fases antecedentes do capitalismo.<\/p>\n<p>Neste modelo, o limiar entre o interesse privado das grandes corpora\u00e7\u00f5es e a fun\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas torna-se quase impercept\u00edvel; as sobreposi\u00e7\u00f5es e intersec\u00e7\u00f5es entre os dois \u00e2mbitos est\u00e3o na base da sua reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A um nivel \u201cmolecular\u201d, a nova fase traduz-se numa diferente rela\u00e7\u00e3o entre sujeito e as estruturas (sociais, econ\u00f4micas, jur\u00eddico-administrativas, culturais) em que o sujeito se define e onde, ao mesmo tempo, \u00e9 definido e contido.<\/p>\n<p>O rapid\u00edssimo desenvolvimento e aplica\u00e7\u00e3o da IA representa desta mudan\u00e7a um dos pontos de maior for\u00e7a.<\/p>\n<p>Nascem novas infraestruturas \u2013 formais e informais \u2013 em conjunto com discursos, normas, leis, enunciados que as tornam concretas e \u201cverdadeiras\u201d. Nasce, enfim, um novo <em>dispositivo<\/em>: este conceito ser\u00e1 muito \u00fatil para o desenvolvimento do que se pretende discutir aqui.<\/p>\n<p>O objectivo destas p\u00e1ginas n\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, apenas tentar uma descri\u00e7\u00e3o \u2013 mesmo que seja muito parcial \u2013 do novo cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Pretendemos esbo\u00e7ar \u2013 de forma somente interlocut\u00f3ria \u2013 alguns pontos que nos parecem cruciais para vislumbrar uma via de fuga, uma poss\u00edvel rota de colis\u00e3o, um ato de pirataria, um respiro coletivo sincr\u00f4nico.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-27.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-27.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>Quer\u00edamos come\u00e7ar pelo segundo n\u00edvel, o que foi definido molecular. A IA est\u00e1 a assumir cada vez mais uma fun\u00e7\u00e3o indiscut\u00edvel na constitui\u00e7\u00e3o do novo ente que \u2013 com os fil\u00f3sofos p\u00f3s-estruturalistas franceses \u2013 chamamos de homem-m\u00e1quina. Trata-se de um ente conotado pela \u201cplena integra\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo em carne e osso e as suas prolonga\u00e7\u00f5es digitais, constitu\u00eddas pelo conjunto n\u00e3o homog\u00eaneo de dados, partilhados na dimens\u00e3o online\u201d, como escreve Davide Sisto no seu ensaio <em>I confini dell\u2019umano<\/em>.<\/p>\n<p>O homem-m\u00e1quina encontra na IA um horizonte prop\u00edcio para ir al\u00e9m das conex\u00f5es <em>cyborg<\/em> que o colocam, j\u00e1 a tr\u00eas d\u00e9cadas, num espa\u00e7o sem fronteiras f\u00edsicas. Naquele horizonte criam-se as condi\u00e7\u00f5es para uma rela\u00e7\u00e3o entre si e o ambiente que o inclui, marcada por novas caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>A externaliza\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os, fun\u00e7\u00f5es e mem\u00f3rias para as prolonga\u00e7\u00f5es digitais tem um impacto sobre a maneira de nos percebermos como sujeitos \u2013 ativos e passivos \u2013 de conhecimento. Muda, consequentemente, o nosso envolvimento direto na defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 verdadeiro, justo, eticamente vi\u00e1vel. Em s\u00edntese, se a rede tem-nos oferecido, desde os anos noventa, liga\u00e7\u00f5es, dados, possibilidade de intrus\u00e3o em \u00e2mbitos que nos eram preclusos at\u00e9 a d\u00e9cada antecedente, a IA n\u00e3o s\u00f3 amplifica \u2013 vertical e horizontalmente \u2013 essa possibilidade de forma incomensur\u00e1vel, mas \u201caltera o <em>locus<\/em> do poder representacional, isto \u00e9, o ponto de vista que organiza todas as perspectivas\u201d, escreve Lucas Vilalta, na apresenta\u00e7\u00e3o de uma confer\u00eancia de Kate Crawford.<\/p>\n<p>De outras ferramentas que entraram nas nossas vidas nas d\u00e9cadas passadas sab\u00edamos muito: a base do seu funcionamento, os processos produtivos que as trouxeram \u00e0s nossas m\u00e3os, as lutas travadas pela classe trabalhadora que naqueles produtos entra como \u201ctrabalho vivo\u201d. Os estudiosos \u201coperaistas\u201d italianos dos anos sessenta e setenta ensinaram-nos muito acerca da necessidade de termos este tipo de conhecimento.<\/p>\n<p>A natureza da IA e a velocidade brutal com que permeia a nossa maneira de viver entrava a possibilidade de nos confrontarmos com um processo de compreens\u00e3o \u2013 embora b\u00e1sica, superficial e, se for poss\u00edvel, cr\u00edtica \u2013 daquilo que temos \u00e0 nossa frente.\u00a0<\/p>\n<p>Isto, por\u00e9m, n\u00e3o parece representar um problema: a IA aparece logo como uma ferramenta que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 utilizada para melhorar as presta\u00e7\u00f5es individuais, como o computador pessoal, onde este texto \u00e9 ser digitado. Nasce logo como um ambiente de confian\u00e7a, onde \u00e9 poss\u00edvel e agrad\u00e1vel viver. O tom divertido e conciliador de qualquer ferramenta da IA faz-nos sentir \u00e0 vontade em dialogar com um <em>bot<\/em>. At\u00e9 chegamos a congratul\u00e1-lo\u00a0 \u2014 sempre que a resposta contenha uma aprecia\u00e7\u00e3o para o que estamos digitando.<\/p>\n<p>A capacidade dos sistemas de LLM (Large Language Model) de produzirem dedutivamente diferentes tipos de obras sem basear-se nos processos de treinamento por humanos direto e cont\u00ednuo tem um impacto avassalador na nossa ideia de uso tradicional das m\u00e1quinas. O espanto e a surpresa deixam-nos imunes \u00e0 vontade de conhecer \u2013 mais e criticamente \u2013 o que se passa.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 interessado na quantidade de energia e agua de que a nossa pergunta necessitou, quanto foram pagos os trabalhadores filipinos, indianos que introduziram bilh\u00f5es de dados e imagens para treinar a m\u00e1quina que nos responde? Ou onde e como foram extra\u00eddos os minerais que os <em>data centers<\/em> precisam para funcionar. Ou, ainda, se existe uma qualquer rela\u00e7\u00e3o entre o tratamento dos nossos dados oferecidos de borla e aqueles usados nas estrat\u00e9gias das corpora\u00e7\u00f5es especializadas para treinarem as m\u00e1quinas nas escolhas mortais dos alvos militares.<\/p>\n<p>H\u00e1 um outro aspecto espec\u00edfico que tem de ser mencionado, pois representa simbolicamente uma mudan\u00e7a que envolve diretamente a parte mais emocional e \u00edntima da vida. Os sites de encontros er\u00f3ticos e sentimentais dos anos noventa e da primeira d\u00e9cada do novo mil\u00eanio representam a arqueologia do que os chatbots nos oferecem hoje.<\/p>\n<p>No ano 2013, Spike Jonze realizou um bel\u00edssimo filme, <em>Her. <\/em>A hist\u00f3ria ai narrada parecia \u2013 \u00e0quela altura \u2013 algo bastante longe de se tornar real. Um homem namorava com um <em>bot<\/em>, uma mulher virtual, chamada Samantha. Doze anos depois, em dezembro de 2025, uma mulher japonesa casou com um <em>bot<\/em>, um homem virtual cujo perfil ela mesmo criou na ChatGPT. Neste segundo caso, n\u00e3o se trata dum filme.<\/p>\n<p>O que aparece naquela imagem n\u00e3o representa necessariamente o futuro dos casamentos; trata-se duma figura-limite, ou, se quisermos, um exemplo-sintoma. N\u00e3o importa quantas pessoas se casar\u00e3o desta forma nos pr\u00f3ximos anos; o que importa \u00e9 mostrar que um limite j\u00e1 foi alcan\u00e7ado, tornou-se poss\u00edvel e, mesmo por isso, ultrapass\u00e1vel.<\/p>\n<p>Voltando a argumentos mais gerais, reparemos como entre a segunda metade dos anos oitenta e primeira dos anos noventa, dois dos mais importantes pensadores do XX s\u00e9culo, Deleuze e Guattari, tinham bem claro qual era o rumo que estava marcado.<\/p>\n<p>No novo ente \u2013 escreve Deleuze \u2013 que nasce ap\u00f3s a \u201cmorte do homem\u201d, as for\u00e7as interiores do indiv\u00edduo relacionam-se com outras for\u00e7as do Fora. S\u00e3o as do sil\u00edcio, dos componentes gen\u00e9ticos, dos agramaticais. Essas for\u00e7as produzem uma certa literatura, a biologia molecular, as m\u00e1quinas de terceira gera\u00e7\u00e3o, cibern\u00e9ticas e inform\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Aqui parece estar a grande vis\u00e3o de Deleuze no que diz respeito a algo que ele n\u00e3o tinha experienciado diretamente. O que a IA faz \u00e9 lan\u00e7ar os tr\u00eas \u201cseres\u201d \u2013 o ser da linguagem, o da vida e o do trabalho \u2013 na dimens\u00e3o do finito-illimitado que \u00e9 a refer\u00eancia do novo sujeito, a que Deleuze chama \u201csuperhomem\u201d, no seu ensaio dedicado a Foucault.<\/p>\n<p>Felix Guattari escreveu o roteiro para o que devia ser um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, cyberpunk, na segunda metade dos anos oitenta, mas que nunca chegou a o ser: <em>Un amour d\u2019UIQ<\/em> (Universo Infra-Quark), muito bem analisado recentemente por Felice Cimatti.<\/p>\n<p>De um lado, temos uma forma hiperinteligente que transcende as vidas carnais dos humanos \u2013 o UIQ \u2013 e, doutro lado, os corpos desses, que interagem com a primeira. O resultado \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o maqu\u00ednica entre os dois entes, onde a subjetividade que a\u00ed se constitui \u201cn\u00e3o possui nem delimita\u00e7\u00f5es corporais fixas, nem personalidade constante, nem sequer orienta\u00e7\u00e3o sexual predefinida\u201d.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo psicanalista franc\u00eas apresenta aqui uma \u201ccarta de amor ao corpo\u201d. Recuperar o corpo com os seus limites, euforias e disforias, significa subtra\u00ed-lo, pelo menos parcialmente, ao del\u00edrio do agenciamento maqu\u00ednico enxertado na nova \u201ccosmot\u00e9cnica\u201d \u2013 empregando de forma n\u00e3o ortodoxa a defini\u00e7\u00e3o utilizada por Yuk Hui em <em>Tecnodiversidade<\/em> \u2013 que est\u00e1 a moldar as nossas vidas.<\/p>\n<p>\u00c9 um argumento que voltar\u00e1 nas \u00faltimas p\u00e1ginas deste texto, pois tem muito a ver com as formas de resist\u00eancia ao quadro apocal\u00edptico que o capitalismo algor\u00edtmico est\u00e1 a definir com crescente clareza e dramaticidade.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Retomemos o conceito de dispositivo que foi enunciado mais acima e, com isso, o n\u00edvel mais amplo que, com Deleuze, chamamos de \u201cmolar\u201d. Para explicarmos de forma clara a import\u00e2ncia deste conceito na economia destas provis\u00f3rias reflex\u00f5es, apresentamos a defini\u00e7\u00e3o dada por Foucault num ensaio inclu\u00eddo em <em>Dits et \u00c9crits<\/em>. O dispositivo \u00e9 \u201cum conjunto decisivamente heterog\u00eaneo, que inclui discursos, institui\u00e7\u00f5es, estruturas arquitet\u00f4nicas, decis\u00f5es regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados cient\u00edficos, filos\u00f3ficos, morais, propostas filantr\u00f3picas [\u2026]. O pr\u00f3prio dispositivo \u00e9 a rede que se pode estabelecer entre estes elementos\u201d.<\/p>\n<p>Parece-nos que, com o in\u00edcio da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo, esses elementos t\u00eam come\u00e7ado a apresentar caracter\u00edsticas que se v\u00e3o afastando dos ditados do neoliberalismo que marcaram a vida pol\u00edtica e econ\u00f4mica na altura da guinada de h\u00e1 cinquenta anos. Hoje, ap\u00f3s quinze anos, podemos afirmar que um novo dispositivo define as rela\u00e7\u00f5es desdobradas em todos os n\u00edveis.<\/p>\n<p>Associamos o conjunto de elementos que constituem o dispositivo hoje em dia ativo a dois substantivos que, no nosso entender, condizem com a situa\u00e7\u00e3o que estamos a vivenciar: caos e guerra.<\/p>\n<p>O capitalismo algor\u00edtmico prop\u00f5e um esquema de operatividade que est\u00e1 cada vez mais definido por linhas circulares que unem os dois termos, produzindo cen\u00e1rios que n\u00e3o parece exagerado definir apocal\u00edpticos.<\/p>\n<p>O desenvolvimento da IA fortalece aquele enredo, que se torna cada vez mais evidente por meio de estrat\u00e9gias declaradas e a\u00e7\u00f5es levadas a cabo onde n\u00e3o \u00e9 preciso disfar\u00e7ar nada. Tudo encontra uma explica\u00e7\u00e3o nos enunciados cient\u00edficos \u2013 ou pseudocient\u00edficos \u2013 que juntam confian\u00e7a absoluta na tecnologia, cren\u00e7as religiosas, diferen\u00e7as entre seres humanos baseadas no quociente de intelig\u00eancia. Os principais exponentes da classe vetorialista n\u00e3o abrem m\u00e3o de qualquer oportunidade para relembrar esses princ\u00edpios, como afirma Quinn Slobodan.<\/p>\n<p>Christian Marazzi, um dos analistas mais l\u00facidos e produtivos das transforma\u00e7\u00f5es do capitalismo, chegou a definir o envolvimento do Estado nas estrat\u00e9gias de desenvolvimento do capitalismo algor\u00edtmico como uma renascimento\u00a0 e atualiza\u00e7\u00e3o do \u201ccapitalismo de Estado\u201d. Uma leitura totalmente partilh\u00e1vel, que deixa aberta, por\u00e9m, uma quest\u00e3o. Qual \u00e9 o futuro do Estado?<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es estatais com as quais estamos habituados a lidar parecem ser postas em discuss\u00e3o pelos pensadores mais radicais da nova extrema-direita a n\u00edvel mundial, mais uma vez com os EUA na primeira linha. Quinn Slobodan, em <em>Capitalismo Destrutivo<\/em>, identifica esta tend\u00eancia com fragmeta\u00e7\u00e3o das entidades estatais e a cria\u00e7\u00e3o de zonas onde o padr\u00e3o de desenvolvimento e gest\u00e3o dos recursos, da produ\u00e7\u00e3o da riqueza \u2013 at\u00e9 da vida dos habitantes \u2013 se furta \u00e0s regras que, de formas diferentes, representam os alicerces da forma-Estado que saiu do Iluminismo.<\/p>\n<p>\u00c9 nessas zonas que os vetorialistas planejam uma exist\u00eancia que \u2013 como se n\u00e3o fosse suficiente a ferocidade do seu protetor \u2013 seja livre da amea\u00e7a, sempre presente, do \u201canticristo\u201d, assim como foi definida por Thiel.<\/p>\n<p>O fundador da Palantir v\u00ea esta amea\u00e7a nos que lutam contra as desigualdades e a favor de medidas sociais em prol das v\u00edtimas da onivoridade do sistema econ\u00f4mico que ele promove e que quer empurrar mais para frente.\u00a0 O anticristo de Thiel tem tamb\u00e9m as fei\u00e7\u00f5es de quem prop\u00f5e entraves ecologistas aos des\u00edgnios tra\u00e7ados pela voca\u00e7\u00e3o que o anima e aos outros vetorialistas.<\/p>\n<p>O dispositivo que surge hoje enquanto rede dos elementos acima listados \u00e9 direta express\u00e3o do \u201cregime de guerra e caos\u201d que gere as rela\u00e7\u00f5es em escala global. Esta parece-nos a mudan\u00e7a que enfrentamos hoje e que explica tudo o que de abomin\u00e1vel estamos vivenciando.<\/p>\n<p>Ao falarmos de caos entendemos a escolha de estrat\u00e9gias baseadas numa modalidade de produ\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e atordoadora de enunciados e imagens, cujo resultado \u00e9 avaliado nos primeiros minutos ap\u00f3s a declara\u00e7\u00e3o. Nesta estrat\u00e9gia, tudo pode ser afirmado e ao mesmo tempo negado. N\u00e3o importa se aquilo que foi dito tem uma correla\u00e7\u00e3o com fatos ou n\u00e3o, porque depois de pouqu\u00edssimos minutos chega a\u00ed uma outra declara\u00e7\u00e3o que desvia a aten\u00e7\u00e3o da primeira. As consequ\u00eancias dessa estrat\u00e9gia espalham-se vertical e horizontalmente em qualquer \u00e2mbito, desde os nossos lugares de trabalho, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre Estados.<\/p>\n<p>A IA favorece esta modalidade de produ\u00e7\u00e3o comunicativa. As correla\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas substituem a compreens\u00e3o l\u00f3gica, gradual; definem percursos cognitivos\u00a0 que apresentam as decis\u00f5es como objetivas, e mesmo por isso inquestion\u00e1veis. Atrav\u00e9s da IA encontram-se explica\u00e7\u00f5es, chaves de leitura, que oferecem uma justifica\u00e7\u00e3o a tudo o que \u00e9 levado \u00e0 frente como objetivamente verdadeiro, ou falso.<\/p>\n<p>Valha s\u00f3 como exemplo a narra\u00e7\u00e3o sobre a substitui\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, o maior pavor para uma ampla parte da popula\u00e7\u00e3o europeia, envelhecida, rancorosa e racista. Seja ou n\u00e3o real\u00edstica, basta apresent\u00e1-la, suportando-a com uma pesquisa num chatbot qualquer, e os resultados est\u00e3o a\u00ed.<\/p>\n<p>Por guerra, n\u00e3o entendemos apenas os conflitos b\u00e9licos de qualquer forma declarados. Esses s\u00e3o dram\u00e1ticos, criminais, genocidas (muitos esquecidos ou ignorados), mas n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos. H\u00e1 guerras impl\u00edcitas contra o ambiente, contra os povos que reivindicam formas de vida subtraidas \u00e0s l\u00f3gicas do capitalismo algor\u00edtmico. H\u00e1 guerras impl\u00edcitas contra as na\u00e7\u00f5es que escolhem um rumo diferente, reivindicando diferentes formas da soberania. H\u00e1 guerras contra as camadas das popula\u00e7\u00f5es que defendem espa\u00e7os sociais e formas produtoras de rendimento auto-geridos e coletivos, ou que defendem o direito a um trabalho digno. H\u00e1 guerra contra as estruturas do <em>welfare<\/em>, contra a cultura, contra os pobres, os marginais, as \u201cvidas infames\u201d.<\/p>\n<p>Por outras palavras, onde n\u00e3o h\u00e1 guerra declarada, h\u00e1 uma pol\u00edtica que n\u00e3o passa de \u201cguerra conduzida por outros meios\u201d. Elon Musk, respondendo a uma pergunta sobre os in\u00fameros sem-abrigos nos EUA, n\u00e3o perdeu tempo em rodeios de palavras, definindo-os como drogados, violentos, com doen\u00e7as mentais graves, que n\u00e3o passam de lixo e como tal t\u00eam de ser tratados.<\/p>\n<p>Mesmo \u00e0 frente de muitas d\u00favidas levantadas por estudos especializados sobre a escassa aplicabilidade em conflitos b\u00e9licos de par\u00e2metros utilizados em tempo de paz para treinar a IA, como \u00e9 o caso de S\u00e9rgio Amadeu da Silveira, o seu uso \u00e9 massivo. A IA oferece descri\u00e7\u00f5es de inimigos, estrat\u00e9gias para atingi-los, quantifica\u00e7\u00e3o de \u201cdanos colaterais\u201d e acelera\u00e7\u00e3o da \u201ckill-chain\u201d, ou seja, o tempo necess\u00e1rio para tomar uma decis\u00e3o.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias em Gaza s\u00e3o ao alcance de todos.<\/p>\n<p>Os programas Lavender e Gospel oferecem exemplos claros e assustadores sobre o uso da IA no massacre de palestinos pelo ex\u00e9rcito israelita. Lavender escolhe os alvos, com base nas informa\u00e7\u00f5es adquiridas no treinamento. A rapidez \u00e9 a sua principal caracter\u00edstica, o exterm\u00ednio de massa a consequ\u00eancia mais vis\u00edvel. \u201cDurante as fases iniciais da guerra, o ex\u00e9rcito deu aprova\u00e7\u00e3o geral para que os oficiais adotassem as listas de alvos a eliminar da Lavender, sem exig\u00eancia de verifica\u00e7\u00e3o minuciosa\u201d. \u201cO ex\u00e9rcito israelita atacou sistematicamente os indiv\u00edduos visados enquanto estes se encontravam nas suas casas \u2014 geralmente \u00e0 noite, quando toda a fam\u00edlia estava presente [\u2026]. Segundo as fontes, isto acontecia porque, do ponto de vista do que consideravam ser a intelig\u00eancia, era mais f\u00e1cil localizar os indiv\u00edduos nas suas resid\u00eancias privadas\u201d. Estes trechos s\u00e3o contidos no relat\u00f3rio de Yval Abraham sobre o uso e os efeitos de Lavender e de outras ferramentas de IA pelo ex\u00e9rcito israelita em Gaza.<\/p>\n<p>Neste sentido, Gaza marcou o limiar entre um antes e um depois. Com Gaza, ficou claro que qualquer a\u00e7\u00e3o, at\u00e9 as mais brutais e conturbadoras, n\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00f5es ou desculpas. Com Gaza, acabou de vez a distin\u00e7\u00e3o historicamente aceite entre alvos militares e popula\u00e7\u00e3o civil, e com essa acabou qualquer refer\u00eancia ao direito internacional.<\/p>\n<p>A guerra n\u00e3o tem contornos, nem um in\u00edcio e um fim, porque \u2013 como est\u00e1 a tornar-se evidente com sempre maior for\u00e7a \u2013 a guerra deixou de ser uma condi\u00e7\u00e3o de exe\u00e7\u00e3o. Antes disso, assume uma posi\u00e7\u00e3o central nas rela\u00e7\u00f5es internacionais e nacionais, assim como na defini\u00e7\u00e3o dos programas econ\u00f3micos dos principais pa\u00edses do Ocidente, e n\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n<p>O uso da for\u00e7a \u2013 material ou imaterial -, da retalia\u00e7\u00e3o, da chantagem, da amea\u00e7a em qualquer situa\u00e7\u00e3o considerada \u00fatil, nem precisam de ser disfar\u00e7adas. A sua aceita\u00e7\u00e3o intersecciona e junta pa\u00edses aparentemente afastados por orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, assim como diferentes setores das sociedades civis.<\/p>\n<p>Mas, felizmente, h\u00e1 sempre quem resiste.<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOnde h\u00e1 poder, h\u00e1 resist\u00eancia\u201d. A resist\u00eancia \u201cnunca est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de exterioridade em rela\u00e7\u00e3o ao poder\u201d. As resist\u00eancias t\u00eam de ser consideradas ao plural: essas s\u00e3o \u201cposs\u00edveis, necess\u00e1rias, improv\u00e1veis, espont\u00e2neas, selvagens, solit\u00e1rias, concertadas, rasteiras, violentas, irreconcili\u00e1veis, prontas ao compromisso, interessadas ou fadadas ao sacrif\u00edcio\u201d.<\/p>\n<p>Assumamos que o cen\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es de poder em que estamos envolvidos consta dos pontos que temos apresentado at\u00e9 agora. Cada um de n\u00f3s poderia fazer um rol \u2013 uns mais longo, outros menos \u2013 de situa\u00e7\u00f5es que julgue apresentem uma ou mais das caracter\u00edsticas de resist\u00eancia descritas por Foucault em \u201c<em>A Vontade de saber\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o maior continua a ser a mesma que atravessa os debates \u00e0 esquerda h\u00e1 d\u00e9cadas. O qu\u00e3o elevado \u00e9 o impacto de cada uma das resist\u00eancias elencadas, n\u00e3o apenas no que respeita ao espec\u00edfico \u00e2mbito de sua refer\u00eancia, mas sim na constru\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de outros poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Em cada ato de resist\u00eancia h\u00e1 um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o, com caracter\u00edsticas que mudam duma resist\u00eancia para outra, e em escalas diferentes. Quais articula\u00e7\u00f5es, resson\u00e2ncias se podem captar, favorecer, desenvolver entre subjetividades diferentes \u00e9 uma quest\u00e3o tratada por variadas abordagens. Alimenta uma discuss\u00e3o que existe desde que se tornou claro que n\u00e3o h\u00e1 mais um sujeito \u00fanico, \u00e0 volta do qual construir o processo que nos levar\u00e1 a um futuro resplandecente.\u00a0<\/p>\n<p>Resist\u00eancias e conflitos atravessam as sociedades sem terem um rumo \u00fanico. Tomam, antes, formas, tempos e dire\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis, a condizer com as emerg\u00eancias que surgem nos demais \u00e2mbitos onde aparece uma amea\u00e7a, uma injusti\u00e7a, um valor a defender, ou a conquistar.<\/p>\n<p>Tendo em conta a fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e0 escala global dos processos de valoriza\u00e7\u00e3o do capital, a primeira coisa que nos parece evidente \u00e9 que o encadeamento das resist\u00eancias \u2013 atuadas por sujeitos diferentes \u2013 produz maiores efeitos na medida em que se articula naquela escala.<\/p>\n<p>Isto conduz-nos a assuntos importantes.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a visibilidade das a\u00e7\u00f5es e a capacidade de intervir nos pontos sens\u00edveis da organiza\u00e7\u00e3o do sistema que chamamos capitalismo algor\u00edtmico. Os estivadores do porto de G\u00eanova e os povos ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia agem com meios, modalidades e objetivos diferentes, assim como s\u00e3o diferentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles utilizados por um <em>hacker<\/em> que trabalha numa plataforma qualquer, ou pelos armazenistas da Amazon.<\/p>\n<p>Estes quatro exemplos de sujeito produzem atos de resist\u00eancia, cuja visibilidade e relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica s\u00e3o ditadas por m\u00faltiplos fatores. A sua coloca\u00e7\u00e3o ao longo de cadeias de produ\u00e7\u00e3o de valor torna as resist\u00eancias e os conflitos emerg\u00eancias de elementos de ruptura pol\u00edtica. Aqueles atos problematizam por dentro a ordem global que os inclui, a partir das suas fissuras e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es para transformar o poder expresso pela polifonia de vozes e a\u00e7\u00f5es resistentes em pot\u00eancia <em>subversiva<\/em> alicer\u00e7am-se em quest\u00f5es essenciais e complexas. Duas, em particular, s\u00e3o brevemente argumentadas nesta parte final do texto.<\/p>\n<p>A primeira tem a ver com uma defini\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es em si, que nos ajude a abarcar a sua multiplicidade de que somos \u2013 direta ou indiretamente \u2013 testemunhas.<\/p>\n<p>Retomemos os quatro exemplos de antes, aos quais poder\u00edamos acrescentar outros que est\u00e3o quotidianamente diante dos nossos olhos, como os comit\u00eas de cidad\u00e3os contra o despejo de inquilinos, ou para defender espa\u00e7os sociais comuns.<\/p>\n<p>Se encararmos\u00a0 aquelas lutas como pontos \u2013 impl\u00edcita ou explicitamente \u2013 interligados, n\u00e3o ser\u00e1 suficiente defini-las espont\u00e2neas, coletivas, auto-organizadas. Como sugere Rodrigo Nunes em <em>Nem horizontal nem vertical <\/em>(2023)<em>, <\/em>o termo melhor para descrev\u00ea-las \u00e9 o de <em>a\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas<\/em>, pois h\u00e1 algo que, de qualquer maneira, as unem. Distribu\u00edda n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de solta.<\/p>\n<p>Um conceito simples de estat\u00edstica ajuda-nos a representar a distribui\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es. As a\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas s\u00e3o tais em fun\u00e7\u00e3o duma linha, em rela\u00e7\u00e3o a qual os pontos (as a\u00e7\u00f5es) resultam <em>dispersos<\/em>, com maior ou menor dist\u00e2ncia. A sua representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica \u00e9 um diagrama de dispers\u00e3o, com os \u201cpontos de resist\u00eancia\u201d a distribu\u00edrem-se em redor duma linha, que, neste caso, poder\u00edamos definir como a tend\u00eancia \u2013 <em>num momento e num espa\u00e7o espec\u00edfico<\/em> \u2013 das a\u00e7\u00f5es contra o biopoder do capitalismo algor\u00edtmico.<\/p>\n<p>Os pontos variam, tanto na posi\u00e7\u00e3o no diagrama, como em n\u00famero. Em consequ\u00eancia disso, muda a inclina\u00e7\u00e3o da linha, define um devir que n\u00e3o \u00e9 constante e previs\u00edvel \u2013 ao contr\u00e1rio do que acreditam ainda hoje os seguidores duma ortodoxia marxista sobre o \u00fanico sujeito revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Querendo utilizar a terminologia de Laclau, poder\u00edamos chamar aquela linha \u201csignificante vazio\u201d: n\u00e3o pertence diretamente e exclusivamente a nenhum dos pontos, mas cada um mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o, mais ou menos estreita, com ela. Maior o n\u00famero de pontos de resist\u00eancia e a sua proximidade com a linha, maior a intensidade e a pot\u00eancia em si da pr\u00f3pria linha.<\/p>\n<p>O segundo elemento \u2013 relacionado com o primeiro \u2013 tem a ver com a quest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o. Os pontos daquela dispers\u00e3o podem produzir efeitos locais, circunscritos, valiosos e bem relacionados com outros. O problema, de longa data, \u00e9 como desencadear processos de consolida\u00e7\u00e3o e multiplica\u00e7\u00e3o que tornem aqueles efeitos um ponto de guinada, do qual n\u00e3o se volta atr\u00e1s. As experi\u00eancias na maioria dos pa\u00edses do mundo mostram como aquela perspectiva est\u00e1 longe de ser facilmente alcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sendo a escala global a \u00fanica de que hoje faz sentido falar, o padr\u00e3o organizacional tamb\u00e9m tem de condizer com aquela escala. Isto significa que n\u00e3o existe o modelo ideal, que pode ser exportado ou importado, como acontecia h\u00e1 d\u00e9cadas com a forma-partido. Cada a\u00e7\u00e3o localmente contextualizada tem de encontrar o seu posicionamento numa \u201crede de trabalhos\u201d (<em>worknet<\/em>), mais do que num trabalho de rede (<em>network<\/em>), segundo a feliz distin\u00e7\u00e3o dada por Bruno Latour. O que \u00e9 central n\u00e3o \u00e9 a estrutura da rede em si, mas, sim, a capacidade dos trabalhos de produzir conex\u00f5es de rede, que v\u00e3o al\u00e9m da imediata identifica\u00e7\u00e3o do que \u00e9 cont\u00edguo.<\/p>\n<p>A este respeito, a sugest\u00e3o de Nunes no ensaio acima referido \u00e9 bastante clara. N\u00e3o faz sentido pensar em termos de organiza\u00e7\u00f5es individuais, mas, antes disso, conceber a organiza\u00e7\u00e3o \u201ccomo uma ecologia distribu\u00edda de rela\u00e7\u00f5es que atravessam e re\u00fanem diferentes formas de a\u00e7\u00e3o\u201d. Ou, em termos ainda mais claros, \u201cuma rede n\u00e3o totaliz\u00e1vel, composta de in\u00fameras redes, uma ecologia de rede em constante evolu\u00e7\u00e3o\u201d (205).<\/p>\n<p>A\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas e ecologia da organiza\u00e7\u00e3o produzem uma tens\u00e3o produtiva, baseada na valoriza\u00e7\u00e3o de especificidades e diversidades, no seio duma l\u00f3gica de funcionamento rizom\u00e1tica. Uma tens\u00e3o que amplia o n\u00famero de n\u00f3s, subindo e descendo ao longo das cadeias de abastecimento. Uma tens\u00e3o, enfim, que define novos objetivos, sempre que se d\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es, redesenhando e favorecendo as conex\u00f5es entre novos e velhos sujeitos resistentes.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da luta dos estivadores contra a guerra e o manuseamento de qualquer tipo de mercadoria com ela relacionada ensina-nos muito.<\/p>\n<p>Travada pelo estivadores de G\u00eanova em 2019, chegou, em 2026, a assumir uma dimens\u00e3o internacional, e internacionalista. Ao longo desses sete anos, a \u201clinha\u201d \u2013 como foi definida acima \u2013 ganhou um rumo bastante claro e favoreceu o alastramento das iniciativas para todo o tecido social da cidade.<\/p>\n<p>Em 2025 essas mobiliza\u00e7\u00f5es chegaram, com a solidariedade \u00e0 Palestina, a ter uma dimens\u00e3o inusitada. Houve muitas ocupa\u00e7\u00f5es de escolas e da universidade, os centros sociais organizaram debates sobre o significado do \u201cregime de guerra\u201d, alguns partidos pol\u00edticos menores da esquerda e o sindicato de base USB ampliaram ainda mais a leitura da fase atual, envolvendo outros sujeitos, principalmente na l\u00f3gistica. At\u00e9 o conselho municipal da cidade de G\u00eanova tomou uma posi\u00e7\u00e3o clara contra o tr\u00e1fego de armas no porto. Muitos artistas ofereceram-se para apoiar a luta com as sua obras. Uma organiza\u00e7\u00e3o de voluntariado recolheu cerca de 400 toneladas de produtos a enviar para a Palestina, em concomit\u00e2ncia com a miss\u00e3o da \u201cGlobal Sumud Flotilla\u201d.<\/p>\n<p>O eco internacional foi enorme: na greve geral proclamada pelo estivadores em novembro do 2025, estiveram em G\u00e9nova Greta Thunberg, Yanis Varoufakis, Chris Hedges e os rabinos nova-iorquinos opositores \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o da Palestina.<\/p>\n<p>O passo seguinte foi em fevereiro do 2026, com a proclama\u00e7\u00e3o duma greve internacional. Aderiram os trabalhadores de mais de vinte cidades europeias e mediterr\u00e2neas. A manifesta\u00e7\u00e3o em G\u00eanova teve a participa\u00e7\u00e3o e foi parcialmente liderada por Chris Smalls, o trabalhador da Amazon de Staten Island que organizou o primeiro sindicato dentro de uma das unidades estadunidenses daquela empresa.<\/p>\n<p>Cada escola, universidade, centro social, at\u00e9 chegar \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores de outras cidades, escolheu autonomamente a forma de se juntar \u00e0quela luta, ou, para melhor dizer, de fazer daquela luta a pr\u00f3pria luta. Houve discuss\u00f5es coletivas \u2013 em salas repletas de gente \u2013 onde cada representante dum dos \u201cpontos\u201d explicava a maneira de levar a cabo a pr\u00f3pria resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Em suma, a\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas que mostram uma atitude a contar com lideran\u00e7as igualmente distribu\u00eddas. Como sedimentar, ampliar e fortalecer esses <em>worknet<\/em> de experi\u00eancias de luta \u00e9 uma quest\u00e3o longe de ser suficientemente analisada. N\u00e3o obstante isso, parece-nos que aquela l\u00f3gica de a\u00e7\u00e3o e organizacional represente hoje o \u00fanico rumo vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Isto faz-nos voltar, de forma interlocut\u00f3ria, ao assunto com que come\u00e7ou este texto.<\/p>\n<p>Se aceitarmos que o nosso presente est\u00e1 marcado pela emerg\u00eancia duma nova ordem mundial que chamamos capitalismo algor\u00edtmico \u2013 com a produ\u00e7\u00e3o de guerra e caos e baseado na l\u00f3gica do conectivismo entre homem e m\u00e1quina \u2013 quais desafios temos \u00e0 nossa frente, em termos de a\u00e7\u00f5es e da sua organiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Ou, dito de outras formas, como construir as conex\u00f5es com aqueles segmentos da cadeia indispens\u00e1veis para que o conflito seja levado l\u00e1, onde o capital ganha maior for\u00e7a, isto \u00e9, onde produz informa\u00e7\u00e3o abstrata, por meio da apropria\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o social em escala global?<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es, que n\u00e3o passam de d\u00favidas, sobre as quais o debate est\u00e1, felizmente, vivo e aberto, foram j\u00e1 apresentadas num outro artigo. A\u00ed, foram tamb\u00e9m discutidas as possibilidades de promover o uso e a fun\u00e7\u00e3o de internet em chave democr\u00e1tica, assim como as descrevem muitos estudiosos.<\/p>\n<p>Isso nada subtrai \u00e0 urg\u00eancia de produzirmos n\u00f3s as conex\u00f5es de que precisamos, entre lutas fisicamente vis\u00edveis e lutas digitalmente viv\u00edveis. Sem essas conex\u00f5es, os nossos atos de pirataria n\u00e3o nos levar\u00e3o ao tesouro mais importante, aquele para o qual ainda vale a pena viver.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O capitalismo algor\u00edtmico e a subvers\u00e3o poss\u00edvel appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/contra-ofensiva-do-congresso-sobre-iof-governo-estuda-acao-junto-ao-stf\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/camara-iof_Bruno-Spada_Camara-dos-Deputados-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Contra ofensiva do Congresso sobre IOF, governo es...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/teatro-de-feira-no-territorio-da-reforma-agraria-popular\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1000405774-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Teatro de Feira no Territ\u00f3rio da Reforma Agr\u00e1ria P...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/com-indices-de-violencia-em-alta-vereadores-de-curitiba-aprovam-dia-municipal-dos-colecionadores-atiradores-e-cacadores\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/camila_gonda_rodrigo-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Com \u00edndices de viol\u00eancia em alta, vereadores de Cu...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/agroecologia-o-novo-mundo-em-gestacao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-21-at-16-32-21-20240217_Cesar-Lopes_GP-02jpgjpg-imagem-JPEG-850-566-pixels-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Agroecologia: o novo mundo em gesta\u00e7\u00e3o<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora est\u00e1 claro: sistema deixou de lado as m\u00e1scaras da civiliza\u00e7\u00e3o e progresso e assumiu sua face de caos e guerra. Apoia-se em tecnologias que nos desconstituem. Ainda assim, espalham-se resist\u00eancias. Que novas formas de luta e organiza\u00e7\u00e3o podem dar-lhes densidade?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/o-capitalismo-algoritmico-e-a-subversao-possivel\/\">O capitalismo algor\u00edtmico e a subvers\u00e3o poss\u00edvel<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":79200,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[9157,6961,597,6217,776,9,17171,6219,1228,25,39501,12633,14372,39502,5493,8765,39503],"tags":[],"class_list":["post-79199","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-amazon","category-big-data","category-big-techs","category-chatbot","category-elon-musk","category-eua","category-global-sumud-flotilla","category-ia","category-inteligencia-artificial","category-israel","category-large-language-model","category-palantir","category-peter-thiel","category-tecnodiversidade","category-tecnologia-em-disputa","category-vigilancia","category-yuk-hui"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79199"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79199\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}