{"id":79203,"date":"2026-03-20T16:13:37","date_gmt":"2026-03-20T19:13:37","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-inteligencia-coletiva-da-teia-dos-pontos-de-cultura\/"},"modified":"2026-03-20T16:13:37","modified_gmt":"2026-03-20T19:13:37","slug":"a-inteligencia-coletiva-da-teia-dos-pontos-de-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-inteligencia-coletiva-da-teia-dos-pontos-de-cultura\/","title":{"rendered":"A intelig\u00eancia coletiva da Teia dos Pontos de Cultura"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/53a5edeb-6574-4813-bca7-385e787cec7e-1024x682-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/53a5edeb-6574-4813-bca7-385e787cec7e-1024x682-1.jpeg 1024w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20161244\/53a5edeb-6574-4813-bca7-385e787cec7e-1024x682-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20161244\/53a5edeb-6574-4813-bca7-385e787cec7e-1024x682-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20161244\/53a5edeb-6574-4813-bca7-385e787cec7e-1024x682-1-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Foto: Anderson Souza (SECOM)<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Teia \u00e9 a forma social e o ambiente em que a Intelig\u00eancia Vital \u00e9 tecida. S\u00e3o encontros de encantamento, reflex\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o coletiva. Celebra-se e reflete-se sobre a celebra\u00e7\u00e3o at\u00e9 que ela se transforma em novas a\u00e7\u00f5es e Teias de Conhecimento e luta coletiva. S\u00e3o tecituras cont\u00ednuas compondo um grande emaranhado de identidades e diversidades, quebra de velhas hierarquias culturais e emerg\u00eancia de novas legitimidades e cria\u00e7\u00f5es. Uma forma de consulta popular que une as linguagens do cora\u00e7\u00e3o, da cabe\u00e7a e das m\u00e3os (o <em>sentirpensaragir <\/em>que se harmoniza na Cultura do Encontro). Campos de resson\u00e2ncias humanas, lugar onde experi\u00eancias, mem\u00f3rias e saberes entram em circula\u00e7\u00e3o e passam a se transformar mutuamente. A Teia \u00e9 <em>sentipensante<\/em>.<\/p>\n<p>Aprendi isso quando propus a primeira Teia Nacional dos Pontos de Cultura em 2006, quando o Programa Cultura Viva come\u00e7ava a se espalhar por todo o pa\u00eds (\u00e0 \u00e9poca com aproximadamente 500 Pontos de Cultura). A primeira Teia foi no edif\u00edcio da Bienal de S\u00e3o Paulo. Tinha que ser l\u00e1 pelo efeito simb\u00f3lico da ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o mais consagrado para a chamada \u201cgrande arte\u201d pelos perif\u00e9ricos, invisibilizados e silenciados. Os Pontos de Cultura precisavam se verem e serem vistos. E assim aconteceu com as tr\u00eas seguintes Teias Nacionais at\u00e9 2010, culminando com a IV Teia Nacional em Fortaleza sob o tema <em>\u201cTambores Digitais\u201d<\/em> e presen\u00e7a de aproximadamente 5 mil pessoas e mais de 3 mil Pontos de Cultura. N\u00e3o eram apenas eventos culturais, <em>happenings, <\/em>congresso, semin\u00e1rioou F\u00f3rum, eram experi\u00eancias sociais in\u00e9ditas, de encantamento e maravilhamento. Mestres da cultura popular sentavam-se ao lado de jovens de coletivos digitais, ind\u00edgenas dialogavam com grupos de hip-hop, quilombolas trocavam saberes com artistas de vanguarda. O Brasil profundo encontrando o Brasil emergente.<\/p>\n<p>Muito j\u00e1 escrevi sobre as Teias da Cultura Viva, por isso n\u00e3o me deterei aqui em seus impactos espec\u00edficos, procedimentos e mem\u00f3ria. Interessa-me seu significado mais profundo: a Teia como <em>locus <\/em>para a ativa\u00e7\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia coletiva.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--32.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--32.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Na Teia a pol\u00edtica deixa de ser apenas institucional e se transforma em processo vivo de cria\u00e7\u00e3o social. Quando promovida a partir do Estado, como fresta naquela experi\u00eancia \u00fanica e que n\u00e3o se repetiu depois que eu sa\u00ed do governo (preciso registrar), acontecia algo raro na vida institucional: o Estado deixou de falar <em>para<\/em> a sociedade e passou a escutar <em>com<\/em> ela. N\u00e3o somente escutar (e depois n\u00e3o dar sequ\u00eancia, como normalmente ocorre com processos artificializados de escuta institucional), mas escutar <em>com <\/em>a sociedade<em>. <\/em>N\u00e3o s\u00e3o apenas mesas e palestras, s\u00e3o rodas de conversa, nem s\u00e3o apresenta\u00e7\u00f5es de espet\u00e1culos art\u00edsticos previamente definidos, mas arte improvisada, acontecida a quente, com sentido. O que se produz na Teia, quando a Teia \u00e9 para valer, n\u00e3o \u00e9 apenas programa\u00e7\u00e3o cultural e processos deliberativos de organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 consci\u00eancia coletiva emergindo. Um momento de efervesc\u00eancia social que s\u00f3 se realiza quando a energia social ultrapassa a soma dos indiv\u00edduos e produz novas formas de solidariedade. Pequenos lampejos da noosfera a impulsionarem a consci\u00eancia humana que se reconhece como for\u00e7a coletiva sobre a Terra.<\/p>\n<p>A humanidade entrou em uma etapa hist\u00f3rica em que o conhecimento deixa de ser produzido apenas por grupos ou indiv\u00edduos isolados e passa a emergir de redes colaborativas, rasgando toda forma de fronteira. A Intelig\u00eancia Vital, quando ativada com \u00e9tica, est\u00e9tica e m\u00e9todo filos\u00f3fico, \u00e9 uma capacidade distribu\u00edda por toda parte, tendo que ser continuamente valorizada e coordenada em tempo real. A Teia \u00e9 express\u00e3o concreta dessa forma de intelig\u00eancia, n\u00e3o como tecnologia, mas como cultura.<\/p>\n<p>Quando pessoas se encontram para compartilhar saberes, a intelig\u00eancia deixa de ser individual e se torna campo comum. Muitas formas de intelig\u00eancia emergem de processos de intera\u00e7\u00e3o entre m\u00faltiplos agentes simples e a mente n\u00e3o \u00e9 apenas um centro de comando, mas uma dan\u00e7a de padr\u00f5es que se organizam. Algo semelhante ocorre em uma Teia, n\u00e3o existe um c\u00e9rebro central, mas sim um processo coletivo de sentir, pensar e agir.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno, como intelig\u00eancia coletiva consciente, s\u00f3 acontece quando comunidades aprendem a refletir sobre si mesmas e a produzir decis\u00f5es mais s\u00e1bias do que qualquer indiv\u00edduo isolado poderia formular. E tem na Teia um laborat\u00f3rio social de intelig\u00eancia compartilhada. Onde muitas vozes se encontram, o pensamento ganha profundidade, densidade e liga. Algo semelhante ocorre na natureza a partir de padr\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o entre superorganismos, como a conversa entre ra\u00edzes, plantas ou fungos, tornando-os capazes de produzir solu\u00e7\u00f5es criativas quando as diferen\u00e7as s\u00e3o integradas em um mesmo campo de intera\u00e7\u00e3o. Procede o mesmo com a emerg\u00eancia de sistemas cognitivos coletivos, como redes de aprendizagem distribu\u00eddas que conectam indiv\u00edduos em processos de intelig\u00eancia ampliada.<\/p>\n<p>A Teia, como exercitada no Brasil em per\u00edodo inicial junto ao Estado, via programa Cultura Viva, e depois espalhada pela sociedade, sobretudo por movimentos autonomistas, anarquistas e de raiz, \u00e9 a express\u00e3o inesperadamente simples de teorias complexas e de fronteira. Muitas que s\u00f3 agora come\u00e7am a ser elaboradas. Pessoas reunidas em roda, compartilhando experi\u00eancias, escutando umas \u00e0s outras, reorganizando a compreens\u00e3o do mundo. E sem nenhum algoritmo, apenas com humanidade.<\/p>\n<p>Diferente de um congresso verticalizado ou de um festival organizado a partir de um palco central, a Teia dissolve hierarquias r\u00edgidas. Para uma Teia n\u00e3o se elege delegados, as pessoas simplesmente v\u00e3o por consci\u00eancia e desejo<sup>1<\/sup>. Na Teia n\u00e3o h\u00e1 poder duradouro porque nada \u00e9 fixo. Nela, as fronteiras entre quem fala e quem escuta tornam-se mais porosas. Tudo se mistura. Hist\u00f3rias, reflex\u00f5es ordenadas e desordenadas, mem\u00f3rias, afetos. Uma dan\u00e7a, um gesto, vale mais que um discurso. Numa Teia n\u00e3o se decide por voto ou bra\u00e7os levantados, e sim por abra\u00e7os. Ao menos quando organizadores de Teias n\u00e3o se deixam corromper pelos poderes e suas formas de sempre. Os modos de express\u00e3o e decis\u00e3o se transformam, n\u00e3o \u00e9 apenas a palavra que circula, h\u00e1 a ciranda.<\/p>\n<p>A Teia \u00e9 uma ciranda. Fruto de uma dial\u00e9tica org\u00e2nica que modela encantamento, reflex\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o, foi a forma que eu encontrei para dar consist\u00eancia pr\u00e1tica ao conceito de <em>Zona do Desenvolvimento Proximal,<\/em> de Vigotsky. Est\u00e1 no primeiro documento que escrevi sobre o Cultura Viva e que foi amplamente distribu\u00eddo. Nas palavras de Vigotsky:<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cZona de Desenvolvimento Proximal define aquelas fun\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o amadureceram, mas que est\u00e3o em processo de matura\u00e7\u00e3o, fun\u00e7\u00f5es que amadurecer\u00e3o, mas que est\u00e3o presentemente em estado embrion\u00e1rio. Essas fun\u00e7\u00f5es poderiam ser chamadas de \u2018brotos\u2019 ou \u2018flores\u2019 do desenvolvimento, ao inv\u00e9s de \u2018frutos\u2019 do desenvolvimento. O n\u00edvel do desenvolvimento real caracteriza o desenvolvimento mental retrospectivamente, enquanto a zona de desenvolvimento proximal caracteriza o desenvolvimento prospectivamente\u201d<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Antes de prosseguir, uma observa\u00e7\u00e3o: por favor, parem de usar o termo <em>\u201ccirandeiro\u201d<\/em> de forma pejorativa. Ciranda n\u00e3o \u00e9 frivolidade, \u00e9 sabedoria coletiva, ela nasce do encontro entre povos pescadores e o movimento das mar\u00e9s, das m\u00e3os que se unem em roda para acompanhar o ritmo do mar.<\/p>\n<p>\u201c<em>Para dan\u00e7ar ciranda juntamos m\u00e3os com m\u00e3os.\u201d<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exatamente isso que o mundo mais necessita?<\/p>\n<p>Juntar m\u00e3os com m\u00e3os em rodas de igualdade, liberdade, felicidade e beleza. Reconhecer essa dimens\u00e3o cirandeira da vida em comunidade \u00e9 gostar do povo, fazer revolu\u00e7\u00e3o com alegria e reconhecer na pot\u00eancia da cultura popular o germe para a emancipa\u00e7\u00e3o profunda. Num tempo em que a modernidade l\u00edquida<sup>3<\/sup> dissolve v\u00ednculos sociais, a ciranda de nosso povo pescador reaparece como um gesto profundo de reconstru\u00e7\u00e3o do comum. Decidir em roda \u00e9 a forma mais antiga da democracia. As sociedades s\u00e3o tecidas por longas cadeias de interdepend\u00eancia, nenhum indiv\u00edduo existe isoladamente e todos estamos enredados nessa teia de rela\u00e7\u00f5es que nos formam e transformam. A Teia torna vis\u00edvel essa interdepend\u00eancia como uma pedagogia da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mundo contempor\u00e2neo exige uma forma de pensamento capaz de reconhecer a complexidade das rela\u00e7\u00f5es humanas e naturais. Aproximando ci\u00eancia, ecologia, filosofia, pol\u00edtica e cultura, particularmente a cultura popular, compreendemos a vida como uma rede de processos interdependentes. A Teia \u00e9 express\u00e3o dessa vis\u00e3o, ela n\u00e3o separa raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o, nem pol\u00edtica e cultura, muito menos conhecimento e experi\u00eancia. Na Teia tudo entra em circula\u00e7\u00e3o e o conhecimento ordenado (institucional, acad\u00eamico\u2026) encontra o conhecimento intruso, popular, ancestral, sensorial\/art\u00edstico e revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Se a democracia n\u00e3o se limita \u00e0s institui\u00e7\u00f5es formais, ela exige a constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os onde sentimento e express\u00f5es do povo circulem em igualdades. Numa Teia n\u00e3o cabe decidir por voto ou disputa e sim por consensos progressivos e sensoriais\/cognitivos. Tem que ser assim porque ali acontece algo especial: a produ\u00e7\u00e3o coletiva de consci\u00eancia cr\u00edtica. A Teia \u00e9 esse espa\u00e7o e esse jeito, e se n\u00e3o for, n\u00e3o ser\u00e1 Teia.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m educa ningu\u00e9m sozinho, assinalou Paulo Freire. Sendo assim, ningu\u00e9m deve pensa o mundo sozinho, pensemos com os outros e para os outros. Em ciranda (s\u00f3 para provocar \u2013 rs). Imaginem o povo em ciranda, dan\u00e7ando pela Revolu\u00e7\u00e3o. Uma Revolu\u00e7\u00e3o profunda, de raiz, por isso radical. Depois de enfrentar destemidamente bombas e cacetetes, spray de pimenta, balas de borracha ou metal, o povo vence. E ainda vai dan\u00e7ar ciranda sobre seus opressores.<\/p>\n<p>Teia como luta. As Teias n\u00e3o s\u00e3o apenas espa\u00e7os de encantamento, reflex\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o tamb\u00e9m espa\u00e7os de luta. Enquanto reviso esse texto para a segunda edi\u00e7\u00e3o, acompanho a luta liderada pelos povos ind\u00edgenas em Santar\u00e9m pela revoga\u00e7\u00e3o do decreto 13.600\/2025, que abriria caminho para a privatiza\u00e7\u00e3o dos rios amaz\u00f4nicos e uma s\u00e9rie de danos ambientais decorrentes. O porto da Cargill, \u00e0s margens do Tapaj\u00f3s, se tornou s\u00edmbolo de um modelo predat\u00f3rio de explora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, atraindo grandes embarca\u00e7\u00f5es com gr\u00e3os destinados ao mercado internacional enquanto comunidades ind\u00edgenas e ribeirinhas viam suas terras, seus rios e modos de vida amea\u00e7ados. O merc\u00fario do garimpo ilegal a ser novamente revolvido por dragagens para hidrovias. Um desastre. Foi ent\u00e3o que algo se moveu. Ind\u00edgenas, pescadores, ambientalistas, jovens estudantes e organiza\u00e7\u00f5es sociais come\u00e7aram a se encontrar, conversavam nas aldeias, nas margens dos rios. E sem que algu\u00e9m decretasse, uma Teia se formou. Teia de luta. Pessoas que antes protestavam separadamente se reconheceram como parte de um mesmo processo. Vieram as assembleias com rodas de conversa, os cantos. At\u00e9 que um dia decidiram ocupar o porto, atacaram as barca\u00e7as de a\u00e7o com flechas de bambu e transmiss\u00f5es de v\u00eddeo nas redes sociais. O que era para ser um protesto localizado e censurado, ganhou parte da na\u00e7\u00e3o, extravasou, comunicou. N\u00e3o foi apenas um ato pol\u00edtico, foi um gesto simb\u00f3lico poderoso. Ind\u00edgenas com seus cocares, jovens ambientalistas com faixas, ribeirinhos acostumados \u00e0s correntes do rio. A floresta desafiou o gr\u00e3o de soja e o rio Tapaj\u00f3s enfrentou o mercado. Mercado, esse ser invis\u00edvel cujas grandes decis\u00f5es sequer passam pela Amaz\u00f4nia, mas a afetam. Nesse momento a consci\u00eancia humana come\u00e7ou a agir como for\u00e7a transformadora. Mais de um m\u00eas de mobiliza\u00e7\u00e3o renhida. E veio a conquista com a revoga\u00e7\u00e3o do decreto que permitiria a privatiza\u00e7\u00e3o de rios amaz\u00f4nicos. N\u00e3o foi conquista fruto de uma intelig\u00eancia isolada, mas de uma Teia tecida coletivamente. Quando o povo se encontra e compartilha caminho, a hist\u00f3ria muda de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A filosofia nasce da capacidade de interrogar o mundo a partir da experi\u00eancia vivida. A Teia \u00e9 exatamente isso, uma filosofia em movimento. Ela emerge quando pessoas percebem que pensar juntas pode revelar caminhos que ningu\u00e9m enxergaria sozinho. \u00c9 uma efervesc\u00eancia coletiva. Quem j\u00e1 participou de uma Teia (das boas) reconhece esse momento. H\u00e1 um instante em que algo se acende e as pessoas percebem que n\u00e3o est\u00e3o sozinhas, que seus problemas podem ser compartilhados e que suas lutas tamb\u00e9m podem ser. Nesse instante a Intelig\u00eancia Vital se transforma em for\u00e7a hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Fa\u00e7am muitas Teias!<\/p>\n<p>Dos povos<\/p>\n<p>Das artes<\/p>\n<p>Dos bairros<\/p>\n<p>Das metr\u00f3poles, cidadezinhas e aldeias<\/p>\n<p>Teias da Amaz\u00f4nia<\/p>\n<p>Do clima<\/p>\n<p>Da juventude<\/p>\n<p>Teias da cultura<\/p>\n<p>Da Vida versus o Capital<\/p>\n<p>Juntem tudo.<\/p>\n<p>Aproximem o n\u00edvel de desenvolvimento real do n\u00edvel de desenvolvimento potencial, como sugeriu Vygotsky. O \u201cvir a ser\u201d que est\u00e1 pronto para rebentar. A Teia \u00e9 a forma social da Intelig\u00eancia Vital, ela nasce quando pessoas descobrem que sentir coletivamente, pensar e agir junto, \u00e9 mais alegre e poderoso do que perecer sozinho. Isso \u00e9 simples e revolucion\u00e1rio. Teia \u00e9 intelig\u00eancia em estado coletivo e nisso reside sua for\u00e7a. Num mundo cada vez mais comandado por algoritmos, redes digitais e fluxos autom\u00e1ticos de informa\u00e7\u00e3o, a Teia recorda algo essencial: a intelig\u00eancia humana n\u00e3o nasce das m\u00e1quinas, nasce do encontro.<\/p>\n<p><em>OS \u2013 Esse artigo \u00e9 cap\u00edtulo do livro SEMENTEIRA \u2013 gr\u00e3os para transformar radicalmente a sociedade via pol\u00edticas culturais \u2013 C\u00e9lio Turino, ed. AUTONOMIA LITER\u00c1RIA, 2025<\/em><\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1 Um simulacro de Teia acontece quando se verticaliza o processo de participa\u00e7\u00e3o. Evidente que h\u00e1 limita\u00e7\u00f5es operacionais e de recursos, mas em rela\u00e7\u00e3o aos Pontos de Cultura, por exemplo, at\u00e9 a quarta Teia Nacional havia recurso com passagem e hospedagem para ao menos uma pessoa por Ponto, e sem cercear outras que desejassem ir pelos pr\u00f3prios meios. O mesmo em rela\u00e7\u00e3o a apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas ou oficinas, quem quisesse ia e fazia. Do contr\u00e1rio perde-se a espontaneidade, atrofia-se o <em>Conatus (<\/em>do latim: <em>esfor\u00e7o; impulso, inclina\u00e7\u00e3o, tend\u00eancia; cometimento). <\/em>Desestimula-se a inclina\u00e7\u00e3o inata da ag\u00eancia individual ou coletiva continuar a existir e se aprimorar. A presen\u00e7a livre e aleat\u00f3ria, despida de poder, \u00e9 parte do conceito. Quando a Teia vira simulacro h\u00e1 uma perda imensa de energia vital, tudo vira disputa e, de repente, as pessoas se veem tragadas em f\u00f3runs intermin\u00e1veis para discutir o \u201cnada\u201d, s\u00f3 poder, regulamentos e ranqueamentos para decidir quem vai ou quem n\u00e3o vai, quem pode e quem n\u00e3o pode. Pela Intelig\u00eancia Vital ativada em Teias a regula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 pela l\u00f3gica do Poder, ela se regula pela Pot\u00eancia (substantiva feminina, notem). N\u00e3o h\u00e1 necessidade de voto, s\u00f3 consenso, partilha e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>2 VIGOTSKY, L. S. \u2013 A forma\u00e7\u00e3o social da mente, pg. 113 \u2013 Martins Fontes, 2003<\/p>\n<p>3 Como observado por Zygmunt Bauman<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post A intelig\u00eancia coletiva da Teia dos Pontos de Cultura appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dia-da-vitoria-em-moscou-exibe-novo-eixo-geopolitico-com-china-e-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/7ccc517a-27b2-4fba-99f2-f32d8e120d18-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Dia da Vit\u00f3ria em Moscou exibe novo eixo geopol\u00edti...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/banco-de-trabalhadoras-na-india-reune-milhares-de-acionistas-ninguem-fica-para-tras\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/miraia-chatterjee-world-economic-forum-sandra-blaser-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Banco de trabalhadoras na \u00cdndia re\u00fane milhares de ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/bolsonaro-se-complica-pf-encontra-provas-de-alinhamento-a-trump-para-subverter-a-soberania-nacional\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Bolsonaro se complica: PF encontra provas de alinh...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ue-congela-acordo-com-eua-apos-ameacas-e-acelera-divorcio-com-trump\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/FlickrParlamento-Europeu-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">UE congela acordo com EUA ap\u00f3s amea\u00e7as e acelera d...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encontro de coletivos de todo o pa\u00eds acontecer\u00e1 em maio. Mais que mero f\u00f3rum, \u00e9 um espa\u00e7o de trocas. De encantamento e articula\u00e7\u00e3o de lutas. Carrega uma filosofia em movimento, capaz de interrogar o mundo a partir da experi\u00eancia coletiva<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/a-inteligencia-coletiva-da-teia-dos-pontos-de-cultura\/\">A intelig\u00eancia coletiva da Teia dos Pontos de Cultura<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":79204,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[38234,16063,39504,5604,39505,39506,39507],"tags":[],"class_list":["post-79203","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coletivos-culturais","category-inteligencia-coletiva","category-ponos-de-cultura","category-pos-capitalismo","category-teia-nacional","category-teias-da-cultura-viva","category-trocas-culturais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79203","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79203"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79203\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79204"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79203"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79203"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79203"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}