{"id":79215,"date":"2026-03-20T20:04:56","date_gmt":"2026-03-20T23:04:56","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/elogio-da-pausa-e-demora-face-ao-frenesi-digital\/"},"modified":"2026-03-20T20:04:56","modified_gmt":"2026-03-20T23:04:56","slug":"elogio-da-pausa-e-demora-face-ao-frenesi-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/elogio-da-pausa-e-demora-face-ao-frenesi-digital\/","title":{"rendered":"Elogio da pausa e demora, face ao frenesi digital"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1260\" height=\"696\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/260320-Offline3b.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/260320-Offline3b.jpg 1260w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20200437\/260320-Offline3b-300x166.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20200437\/260320-Offline3b-768x424.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20200437\/260320-Offline3b-700x387.jpg 700w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/20200437\/260320-Offline3b-219x121.jpg 219w\" sizes=\"(max-width: 1260px) 100vw, 1260px\"><figcaption><em>Imagem: Glenn Harvey \/ Washington Post<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Pedro Paulo Gomes Pereira<\/strong><\/p>\n<p><strong><br \/><\/strong>T\u00edtulo original:<br \/><strong>O <\/strong><em><strong>feed <\/strong><\/em><strong>da exce\u00e7\u00e3o: ressentimento e desejo de autoridade<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um momento em que a pol\u00edtica deixa de bater \u00e0 porta e passa a vibrar no bolso. A exce\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o chega apenas por decretos: acende na tela. Desce pelo <em>feed<\/em> como quem percorre um nervo exposto. Antes de converter-se em ato jur\u00eddico, militar ou diplom\u00e1tico, aprende a respirar nas redes sociais digitais, onde o mundo \u00e9 reeditado a cada segundo por m\u00e9tricas de visibilidade e economias da aten\u00e7\u00e3o que recompensam o choque, a simplifica\u00e7\u00e3o e a puni\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-29.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-29.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Chamo de exce\u00e7\u00e3o o regime em que a suspens\u00e3o das media\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas \u2013 possibilidade inscrita na pr\u00f3pria ordem pol\u00edtica \u2013 passa a ser desejada como solu\u00e7\u00e3o leg\u00edtima para os conflitos. A figura simb\u00f3lica dessa promessa \u00e9 o que denomino Pai autorit\u00e1rio: a autoridade que oferece ordem como atalho, decis\u00e3o como cura, comando como descanso diante da vertigem do plural. Ele encarna a fantasia de simplifica\u00e7\u00e3o do mundo. Em contextos marcados por hist\u00f3rias coloniais, por\u00e9m, essa figura raramente permanece apenas interna. Surge, ent\u00e3o, o Pai estrangeiro: a autoridade deslocada para fora, investida do poder de legitimar, corrigir ou purificar a pol\u00edtica local. Se o Pai autorit\u00e1rio promete decidir, o Pai estrangeiro promete autorizar essa decis\u00e3o. E h\u00e1 mais: ele nomeia o desejo de submiss\u00e3o que atravessa o corpo pol\u00edtico, oferecendo-lhe reconhecimento e justificativa.<\/p>\n<p>Hoje, o Pai estrangeiro j\u00e1 n\u00e3o fala apenas do alto dos palanques imperiais; sussurra em v\u00eddeos de trinta segundos, em cortes virais, em memes que comprimem uma ontologia inteira numa gargalhada rancorosa. A tutela colonial, antes sustentada por rituais solenes de obedi\u00eancia, tornou-se interface \u2013 e a submiss\u00e3o, gesto cotidiano de deslizar o dedo.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 compreender como as redes sociais digitais se tornaram um meio de produ\u00e7\u00e3o da exce\u00e7\u00e3o: um laborat\u00f3rio em que se fabrica o desejo por solu\u00e7\u00f5es soberanas e se treina o olhar para reconhecer, na viol\u00eancia decis\u00f3ria, a \u00fanica gram\u00e1tica intelig\u00edvel do mundo. A exce\u00e7\u00e3o circula nas redes, mas nelas tamb\u00e9m se interioriza. Aprende-se a sentir pressa, a confundir justi\u00e7a com impacto, a tomar a humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica como m\u00e9todo pedag\u00f3gico e a imaginar o conflito democr\u00e1tico como ru\u00eddo a ser eliminado.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica de recomenda\u00e7\u00e3o do <em>feed<\/em> funciona como uma forma difusa de soberania. N\u00e3o decide por senten\u00e7as, mas por <em>rankings<\/em>; n\u00e3o pune com pris\u00f5es, mas com invisibilidades; n\u00e3o proclama estados de s\u00edtio, mas estados de tend\u00eancia. Distribui presen\u00e7as e aus\u00eancias, define o que merece ser visto, quem deve ser ouvido, quais afetos receber\u00e3o amplifica\u00e7\u00e3o. Nesse regime, a pol\u00edtica deixa de ser espa\u00e7o de argumenta\u00e7\u00e3o e se converte em engenharia de engajamento. A pergunta decisiva j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 \u201cisto \u00e9 verdadeiro?\u201d, mas \u201cisto performa?\u201d. A verdade transforma-se em vari\u00e1vel subordinada \u00e0 circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A f\u00e1brica digital da exce\u00e7\u00e3o come\u00e7a nesse deslocamento: quando o crit\u00e9rio p\u00fablico da raz\u00e3o cede ao crit\u00e9rio privado da m\u00e9trica. Medido pelo tempo de reten\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio, o enunciado favorece a excita\u00e7\u00e3o em vez da modera\u00e7\u00e3o, o gatilho em vez da d\u00favida, o corte em vez do processo. A democracia \u2013 com sua temporalidade lenta e sua indecidibilidade constitutiva \u2013 torna-se fric\u00e7\u00e3o no regime que recompensa a decis\u00e3o imediata. O regime de visibilidade do<em> feed<\/em> privilegia o inimigo n\u00edtido, a narrativa manique\u00edsta, a figura providencial que promete encurtar caminhos. Recompensa o Pai autorit\u00e1rio e amplifica o Pai estrangeiro.<\/p>\n<p>Este ensaio percorre cinco movimentos. O primeiro interroga o soberano estat\u00edstico e a forma de sujeito que ele produz; o segundo descreve a gram\u00e1tica cultural da exce\u00e7\u00e3o, feita de memes, virilidades e atalhos lingu\u00edsticos; o terceiro examina a economia pol\u00edtica do ressentimento, suas infraestruturas e seus mercados; o quarto articula tempo e colonialidade digital, mostrando como a urg\u00eancia reativa o desejo de tutela externa; o quinto recolhe rachaduras e impasses, permanecendo junto ao problema sem convert\u00ea-lo em programa. O ensaio busca acompanhar o modo como a exce\u00e7\u00e3o passa a nos habitar \u2013 e como passamos, talvez r\u00e1pido demais, a cham\u00e1-la de habitual.<\/p>\n<p><strong>O soberano estat\u00edstico e a produ\u00e7\u00e3o do sujeito<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/728x90_banner_sobcomuns-5.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/728x90_banner_sobcomuns-5.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2024\/06\/31200612\/728x90_banner_sobcomuns-300x37.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Nas redes sociais digitais, a exce\u00e7\u00e3o deixa de aparecer como acontecimento extraordin\u00e1rio e passa a operar como l\u00f3gica ordin\u00e1ria de organiza\u00e7\u00e3o do conflito pol\u00edtico. A autoridade j\u00e1 n\u00e3o se afirma por decretos, mas por m\u00e9tricas; n\u00e3o por senten\u00e7as, mas por rankings; n\u00e3o por proibi\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas, mas por regimes de visibilidade. O poder opera sem decis\u00e3o vis\u00edvel: recomenda, ret\u00e9m, acelera, silencia. A soberania assume forma estat\u00edstica.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica t\u00e9cnica fabrica o sujeito que lhe conv\u00e9m. O usu\u00e1rio experimenta o mundo como uma sequ\u00eancia de est\u00edmulos concorrentes, cada qual disputando fra\u00e7\u00f5es de segundo de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O <em>feed<\/em> n\u00e3o descreve a realidade: treina o sentir.<\/p>\n<p>Reagir antes de compreender, sentir antes de julgar, confundir intensidade com verdade \u2013 eis a pedagogia elementar do <em>feed<\/em>. A participa\u00e7\u00e3o converte-se em consumo; a cidadania, em \u00edndice de engajamento.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o possui vantagens competitivas porque coincide com a pr\u00f3pria engenharia das redes. Os sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o privilegiam conte\u00fados capazes de prolongar o tempo de tela e gerar intera\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas; o <em>autoplay<\/em> e o <em>scroll<\/em> infinito transformam a hesita\u00e7\u00e3o em desvio custoso; os bot\u00f5es de rea\u00e7\u00e3o comprimem posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em gestos elementares. O que n\u00e3o se traduz nesses formatos aparece como ru\u00eddo. A den\u00fancia furiosa circula melhor que a an\u00e1lise; o gesto punitivo ret\u00e9m mais que a delibera\u00e7\u00e3o; a amea\u00e7a performa melhor que o argumento.<\/p>\n<p>O \u201csoberano estat\u00edstico\u201d atua sem rosto. Ele decide o que pode continuar a aparecer e o que ser\u00e1 empurrado para o fundo da tela. Mecanismos como <em>shadowban<\/em>, desmonetiza\u00e7\u00e3o e modera\u00e7\u00e3o opaca n\u00e3o pro\u00edbem diretamente; apenas reduzem alcance, quebram a cadeia de recomenda\u00e7\u00f5es, tornam invis\u00edvel sem deixar rastro jur\u00eddico. A cada rolagem, o sujeito \u00e9 treinado a reconhecer binarismos elementares \u2013 traidor\/her\u00f3i, puro\/corrupto, patriota\/inimigo \u2013 enquanto a hist\u00f3ria se converte em caricatura oper\u00e1vel. A exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o rompe o sistema: \u00e9 seu formato nativo.<\/p>\n<p>Essa administra\u00e7\u00e3o do vis\u00edvel possui um verso sombrio. Certos corpos e vozes s\u00e3o amplificados at\u00e9 a satura\u00e7\u00e3o, enquanto outros desaparecem em zonas de irrelev\u00e2ncia onde a viol\u00eancia se torna inaud\u00edvel. Desaparecer do <em>feed<\/em> equivale a perder exist\u00eancia pol\u00edtica. No Brasil, isso \u00e9 cotidiano: opera\u00e7\u00f5es policiais espetacularizadas, a agonia Yanomami, vidas an\u00f4nimas nas pris\u00f5es \u2013 quando n\u00e3o convertidas em imagens rent\u00e1veis, deslizam para um territ\u00f3rio onde a contagem substitui o luto. A l\u00f3gica do <em>feed <\/em>n\u00e3o puxa o gatilho, mas decide quais gatilhos merecem ser vistos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 acaso que as figuras do populismo digital falem como memes encarnados. Elas oferecem ao sistema o que ele mais remunera: clareza bin\u00e1ria, energia emocional e conflito cont\u00ednuo. O espa\u00e7o p\u00fablico cede a um arquip\u00e9lago de bolhas que confirmam expectativas e radicalizam ressentimentos. A diferen\u00e7a converte-se em prova de hostilidade; o advers\u00e1rio reaparece como corpo a ser extirpado \u2013 terreno f\u00e9rtil para o chamado do Pai autorit\u00e1rio, promessa de ordem sem media\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, o <em>feed<\/em> n\u00e3o ordena apenas prefer\u00eancias; distribui destinos. Entre o que reluz e o que se apaga, forma-se uma economia moral que ensina a desejar a elimina\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o. A exce\u00e7\u00e3o torna-se gram\u00e1tica cotidiana do pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>A gram\u00e1tica cultura da exce\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A subjetividade do <em>feed<\/em> precisa de formas expressivas que tornem desej\u00e1vel o que o sistema recompensa. O meme, a performance viril e o idioma do atalho funcionam como m\u00e1quinas pedag\u00f3gicas que ensinam a imaginar a exce\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o natural dos conflitos. A l\u00edngua democr\u00e1tica (lenta e argumentativa) entra em tens\u00e3o com um dialeto de cortes e bravatas, feito para a mensura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O meme coincide com a pr\u00f3pria l\u00f3gica t\u00e9cnica das redes. <em>Templates<\/em>, <em>remix<\/em>, dueto e cortes curtos permitem replica\u00e7\u00e3o infinita com varia\u00e7\u00f5es m\u00ednimas. O valor est\u00e1 na reprodutibilidade com engajamento. A imagem ir\u00f4nica condensa o programa da exce\u00e7\u00e3o: ridiculariza procedimentos, glorifica o atalho, converte o outro em figura ris\u00edvel. A humilha\u00e7\u00e3o substitui o debate; o linchamento simb\u00f3lico antecede o jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Ao repetir cenas de vit\u00f3ria moral, estreita-se o imagin\u00e1vel at\u00e9 que apenas a interven\u00e7\u00e3o violenta pare\u00e7a razo\u00e1vel. Conte\u00fados com alta reten\u00e7\u00e3o sobem; o que exige contexto afunda. A exce\u00e7\u00e3o torna-se est\u00e9tica cotidiana, e o Pai autorit\u00e1rio surge como protagonista de um seriado infinito, sempre pronto a \u201cfazer o que precisa ser feito\u201d.<\/p>\n<p>A pedagogia da exce\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m de g\u00eanero. O her\u00f3i das redes \u00e9 o homem que decide sem hesitar, que exibe dureza como verdade. A masculinidade converte-se em interface pol\u00edtica: voz grave, desafio, amea\u00e7a jocosa. Armas e bravatas produzem rea\u00e7\u00f5es imediatas \u2013 combust\u00edvel afetivo para a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, a cena das redes fechadas. No <em>WhatsApp<\/em> e no <em>Telegram<\/em>, a exce\u00e7\u00e3o assume tom \u00edntimo. A criptografia cria sensa\u00e7\u00e3o de segredo; listas de transmiss\u00e3o transformam boatos em ordens; o \u00e1udio substitui a prova pela confian\u00e7a. Forma-se uma pedagogia subterr\u00e2nea em que o \u201cagir agora\u201d precede qualquer verifica\u00e7\u00e3o. Nesse mercado da aten\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica vira competi\u00e7\u00e3o de performances. O v\u00eddeo curto vence o argumento longo; o <em>print<\/em> triunfa sobre o processo. A exce\u00e7\u00e3o vence por audi\u00eancia \u2013 gl\u00f3ria que legitima o poder para al\u00e9m da lei. O cidad\u00e3o d\u00e1 lugar ao usu\u00e1rio. Ele n\u00e3o delibera; reage. A vontade geral converte-se em <em>trending topic<\/em>. A tutela do Pai autorit\u00e1rio torna-se atraente: figura que promete simplicidade num mundo complexo.<\/p>\n<p>Tudo isso produz muta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia pol\u00edtica. A exce\u00e7\u00e3o torna-se clima sensorial. A paci\u00eancia soa como fraqueza; a d\u00favida, como trai\u00e7\u00e3o. O presente comprime-se num agora cont\u00ednuo, e o Pai autorit\u00e1rio aparece como \u00fanico capaz de impor forma ao caos.<\/p>\n<p><strong>Economia pol\u00edtica do ressentimento<\/strong><\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o flutua como ideologia: ancora-se em cabos, <em>data centers<\/em>, mercados de dados e modelos de neg\u00f3cio. O ressentimento tornou-se mat\u00e9ria-prima porque ret\u00e9m aten\u00e7\u00e3o e produz informa\u00e7\u00e3o valiosa. A economia das redes converte o tempo ps\u00edquico em ativo mensur\u00e1vel: cada pausa, cada coment\u00e1rio, cada segundo de v\u00eddeo alimenta sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o que decidem o pr\u00f3ximo est\u00edmulo. A exce\u00e7\u00e3o prospera porque oferece o insumo mais rent\u00e1vel \u2013 excita\u00e7\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n<p>No Brasil, desigualdade hist\u00f3rica, baixa confian\u00e7a institucional e difus\u00e3o massiva de <em>smartphones<\/em> compuseram laborat\u00f3rio ideal.<em> WhatsApp<\/em>, <em>YouTube<\/em> e <em>Telegram<\/em> funcionam como dispositivos complementares: intimidade criptografada, espet\u00e1culo audiovisual e coordena\u00e7\u00e3o opaca. A verdade deixa de ser crit\u00e9rio e converte-se em efeito comunit\u00e1rio. O que \u201cfaz sentido\u201d \u00e9 o que confirma fronteiras morais; o resto vira ru\u00eddo. A exce\u00e7\u00e3o oferece narrativa simples para pa\u00eds complexo: existe um mal interno que exige a\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n<p>As m\u00e9tricas de engajamento transformam esse dualismo em motor de circula\u00e7\u00e3o. Conte\u00fados emocionalmente carregados recebem prioridade porque prolongam <em>o watch time <\/em>e a taxa de coment\u00e1rio \u2013 m\u00e9tricas que orientam o leil\u00e3o de an\u00fancios. Institui\u00e7\u00f5es que produzem fric\u00e7\u00e3o \u2013 Supremo, imprensa, universidade \u2013 aparecem como obst\u00e1culos ao fluxo. O sistema trata essas institui\u00e7\u00f5es como ru\u00eddo e recompensa quem promete silenci\u00e1-las. A exce\u00e7\u00e3o torna-se pol\u00edtica de limpeza do <em>feed<\/em>.<\/p>\n<p>Nada disso ocorreria sem rentabilidade. A indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 ativo valioso: mant\u00e9m o usu\u00e1rio conectado, gera dados comportamentais e alimenta o <em>microtargeting <\/em>publicit\u00e1rio. Quanto mais radical o conte\u00fado, maior a probabilidade de reten\u00e7\u00e3o; quanto maior a reten\u00e7\u00e3o, maior o pre\u00e7o do an\u00fancio. O desejo \u00e9 capturado antes de virar experi\u00eancia. A exce\u00e7\u00e3o torna-se modelo de neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica cria incentivos perversos. Moderadores s\u00e3o pressionados a tolerarem extremismos para n\u00e3o perderem engajamento; criadores aprendem a exagerar para sobreviver na <em>creator economy<\/em>; pol\u00edticos descobrem que o esc\u00e2ndalo rende mais que o trabalho silencioso. A esfera p\u00fablica transforma-se em bolsa de valores do ressentimento, e o Pai autorit\u00e1rio em ativo de alta performance \u2013 figura que garante cliques ao prometer decis\u00e3o sem processo.<\/p>\n<p>Empresas de <em>marketing<\/em> pol\u00edtico, no Brasil, exploraram essa economia com profissionalismo. Redes de perfis coordenados, disparos em massa e canais tem\u00e1ticos compuseram ind\u00fastria de exce\u00e7\u00e3o. A campanha permanente substituiu o governo; a guerra cultural, a pol\u00edtica social. O pa\u00eds tornou-se laborat\u00f3rio de monetiza\u00e7\u00e3o do \u00f3dio, onde a modera\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como custo e a d\u00favida como preju\u00edzo.<\/p>\n<p>A eros\u00e3o do idioma democr\u00e1tico \u00e9 efeito direto dessa infraestrutura. A pol\u00edtica, para existir como espa\u00e7o comum, depende de gram\u00e1tica de prova, responsabilidade e tempo. As redes introduzem outra l\u00edngua (<em>emojis<\/em>, cortes, rea\u00e7\u00f5es) que privilegia o atalho. O v\u00eddeo de quinze segundos pesa mais que o processo de quinze meses; o <em>print <\/em>vale mais que a senten\u00e7a fundamentada.<\/p>\n<p>Nesse idioma, a decis\u00e3o r\u00e1pida parece mais verdadeira que a decis\u00e3o justa. Aprende-se a desconfiar do que exige leitura longa ou compara\u00e7\u00e3o de fontes. A exce\u00e7\u00e3o apresenta-se como tradu\u00e7\u00e3o acess\u00edvel de um mundo opaco: \u201celes\u201d complicam, \u201cn\u00f3s\u201d simplificamos. O Pai autorit\u00e1rio encarna essa promessa de clareza imediata.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o exige pressa. Os ambientes digitais produzem uma sensa\u00e7\u00e3o permanente de emerg\u00eancia; o usu\u00e1rio vive como sentinela de uma guerra infinita. A pol\u00edtica democr\u00e1tica \u2013 arte do tempo longo \u2013 aparece como luxo. O futuro \u00e9 comprimido num presente cont\u00ednuo, e o Pai autorit\u00e1rio surge como gestor da ansiedade coletiva, promessa de sincronizar o pa\u00eds com o ritmo do <em>feed<\/em>.<\/p>\n<p>Essa economia pol\u00edtica do ressentimento prepara muta\u00e7\u00e3o mais profunda: a reorganiza\u00e7\u00e3o do tempo social pela urg\u00eancia algor\u00edtmica. A pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o examina como essa compress\u00e3o temporal converte a exce\u00e7\u00e3o em linguagem cotidiana do pertencimento e da elimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Tempo e colonialidade digital<\/strong><\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o reorganiza apenas afetos; reorganiza o tempo. O <em>feed<\/em> organiza o tempo pela interrup\u00e7\u00e3o: notifica\u00e7\u00f5es que fraturam a dura\u00e7\u00e3o, v\u00eddeos que substituem a mem\u00f3ria, crises que se sucedem antes de sedimentar experi\u00eancia. O presente \u00e9 comprimido num agora cont\u00ednuo em que a democracia \u2013 arte de demorar \u2013 aparece como fric\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa urg\u00eancia n\u00e3o \u00e9 met\u00e1fora. O <em>design<\/em> t\u00e9cnico premia a velocidade: o tempo de resposta vale mais que a consist\u00eancia; o coment\u00e1rio imediato pesa mais que a investiga\u00e7\u00e3o; a atualiza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua desautoriza a lembran\u00e7a. O <em>feed<\/em> substitui a narrativa por s\u00e9rie de impactos. O futuro encurta; o passado vira arquivo morto.<\/p>\n<p>A modernidade sempre distribuiu o tempo de forma desigual. Certos territ\u00f3rios foram definidos como \u201catrasados\u201d, outros como vanguarda. A l\u00f3gica do <em>feed<\/em> atualiza essa hierarquia ao prometer sincroniza\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea com um ritmo global idealizado. A exce\u00e7\u00e3o aparece como atalho temporal: decidir r\u00e1pido para n\u00e3o ficar para tr\u00e1s, punir logo para \u201centrar no mundo\u201d.<\/p>\n<p>Nas telas, essa promessa ganha corpo sens\u00edvel. Narrativas de efici\u00eancia policial, empreendedorismo militarizado e solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas circulam como modelos de acelera\u00e7\u00e3o. O usu\u00e1rio aprende a medir o pa\u00eds pelo compasso do <em>feed<\/em> e a interpretar a pr\u00f3pria realidade como defeito de velocidade. A tutela do Pai autorit\u00e1rio oferece reconcilia\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria entre na\u00e7\u00e3o e ritmo \u2013 algu\u00e9m que \u201ccorta a burocracia\u201d e \u201cresolve hoje\u201d.<\/p>\n<p>Essa temporalidade produz tamb\u00e9m zonas de n\u00e3o-tempo. Enquanto certos corpos s\u00e3o sincronizados com o espet\u00e1culo, outros permanecem presos a um presente repetitivo: favelas atravessadas por opera\u00e7\u00f5es sucessivas, garimpos onde a destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o vira not\u00edcia, pris\u00f5es que n\u00e3o contam hist\u00f3rias. A visibilidade organiza quem acelera e quem fica im\u00f3vel.<\/p>\n<p>A pressa redefine o que conta como a\u00e7\u00e3o leg\u00edtima. Processos judiciais, pol\u00edticas p\u00fablicas e delibera\u00e7\u00f5es coletivas parecem lentos demais para o compasso das redes. O Pai autorit\u00e1rio encarna a promessa de efici\u00eancia sem media\u00e7\u00e3o: decis\u00e3o sem processo, prote\u00e7\u00e3o sem conflito, verdade sem demora. A exce\u00e7\u00e3o torna-se m\u00e9todo de governo do tempo.<\/p>\n<p>Nessa disputa, o problema n\u00e3o \u00e9 apenas moral, mas t\u00e9cnico. A l\u00f3gica de engajamento recompensa rupturas r\u00e1pidas e penaliza rela\u00e7\u00f5es que exigem acompanhamento. O que pede cuidado, verifica\u00e7\u00e3o e aprendizagem aparece como custo improdutivo. A pol\u00edtica \u00e9 traduzida em cron\u00f4metro de engajamento.<\/p>\n<p>Tempo e exce\u00e7\u00e3o convergem para produzir um sujeito que deseja ser governado pelo impacto. Resta perguntar o que escapa a essa m\u00e1quina: hesita\u00e7\u00f5es, pr\u00e1ticas lentas, narrativas que recusam o corte. A pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o permanece junto a esses impasses, sem convert\u00ea-los em programa fechado.<\/p>\n<p><strong>Rachaduras e impasses<\/strong><\/p>\n<p>Se a exce\u00e7\u00e3o digital parece onipresente, ela n\u00e3o \u00e9 total. Esta se\u00e7\u00e3o recolhe as fissuras do quadro sem convert\u00ea-las em programa. N\u00e3o se trata de oferecer um programa normativo capaz de substituir a m\u00e1quina. O que essas fraturas revelam \u00e9 outra coisa: o reconhecimento de que a disputa pol\u00edtica se deslocou para as pr\u00f3prias infraestruturas de visibilidade e de tempo que organizam a experi\u00eancia p\u00fablica. A quest\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 simplesmente o que dizer no fluxo, mas como disputar seus ritmos, suas m\u00e9tricas e seus regimes de apari\u00e7\u00e3o. Mesmo no interior da m\u00e1quina persistem gestos que n\u00e3o se deixam traduzir integralmente em m\u00e9tricas: lutos que insistem contra o esquecimento, redes improvisadas diante de cat\u00e1strofes, circuitos de informa\u00e7\u00e3o que preferem a verifica\u00e7\u00e3o lenta ao impacto. S\u00e3o movimentos menores, frequentemente invis\u00edveis, mas que interrompem a pedagogia da urg\u00eancia.<\/p>\n<p>A circula\u00e7\u00e3o incessante de agress\u00f5es e exposi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas treina para a indiferen\u00e7a; o advers\u00e1rio converte-se em objeto de esc\u00e1rnio. Quando certos corpos deixam de ser reconhec\u00edveis como vidas, a viol\u00eancia j\u00e1 come\u00e7ou. Ainda assim, o roteiro n\u00e3o se cumpre sem restos. Boatos que n\u00e3o viralizam, v\u00eddeos que n\u00e3o ret\u00eam, campanhas que fracassam \u2013 a pr\u00f3pria infraestrutura produz falhas de captura. A exce\u00e7\u00e3o precisa repetir-se porque nunca se estabiliza completamente.<\/p>\n<p>Essas fraturas n\u00e3o s\u00e3o heroicas. Surgem de atritos banais: modera\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias que desaceleram a circula\u00e7\u00e3o, coletivos que recusam transformar dor em espet\u00e1culo, usos das redes por povos ind\u00edgenas como suporte de mem\u00f3ria e defesa territorial, circuitos coletivos de verifica\u00e7\u00e3o que retardam a amplifica\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, arquivos digitais comunit\u00e1rios que transformam o fluxo ef\u00eamero em mem\u00f3ria dur\u00e1vel, usu\u00e1rios que abandonam a discuss\u00e3o para preservar v\u00ednculos. N\u00e3o derrotam a l\u00f3gica do <em>feed<\/em>, mas desobedecem ao seu ritmo, abrindo intervalos nos quais a decis\u00e3o instant\u00e2nea perde autoridade.<\/p>\n<p>Podemos ler tais movimentos como tentativas de repolitizar a t\u00e9cnica: disputas por crit\u00e9rios de recomenda\u00e7\u00e3o, exig\u00eancias de transpar\u00eancia, experi\u00eancias de verifica\u00e7\u00e3o compartilhada, cria\u00e7\u00e3o de zonas lentas dentro do fluxo. Cada fric\u00e7\u00e3o reabre o tempo que a l\u00f3gica do<em> feed<\/em> tenta comprimir e mostra que a infraestrutura \u00e9 tamb\u00e9m campo de conflito sens\u00edvel. Nessas fraturas surge tamb\u00e9m outra tarefa: experimentar formas de recompor aquilo que o dispositivo desagrega.<\/p>\n<p>H\u00e1, contudo, um limite nessas rachaduras. Enquanto o regime de visibilidade continuar a operar segundo uma l\u00f3gica necropol\u00edtica, muitos seguir\u00e3o desaparecendo sem luto. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas quem fala, mas quem pode aparecer \u2013 e em que condi\u00e7\u00f5es. O Pai autorit\u00e1rio prospera justamente onde essas aus\u00eancias se naturalizam e onde a pressa substitui a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Os impasses revelam que o problema pertence \u00e0 pr\u00f3pria pol\u00edtica e se inscreve nas tecnologias que habitamos. As fissuras n\u00e3o anunciam salva\u00e7\u00e3o; mant\u00eam o horizonte aberto. Podemos nomear o que emerge dessas fissuras como uma pol\u00edtica da fric\u00e7\u00e3o. Se a exce\u00e7\u00e3o prospera na acelera\u00e7\u00e3o \u2013 na resposta imediata, no impacto cont\u00ednuo, na compress\u00e3o do tempo \u2013, resistir passa tamb\u00e9m por disputar o ritmo. Em vez de desligar a m\u00e1quina por decreto, trata-se de introduzir intervalos em seu funcionamento: momentos em que a rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica falha, em que o gesto de compartilhar hesita, em que a visibilidade deixa de obedecer inteiramente \u00e0s m\u00e9tricas da excita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exterior \u00e0 democracia; ela atravessa suas pr\u00f3prias formas. O que muda \u00e9 o regime temporal que a torna oper\u00e1vel. \u00c9 a partir dessas fissuras que a \u00faltima se\u00e7\u00e3o retoma a pergunta sobre como permanecer com o problema sem convert\u00ea-lo em ordem. Dessas fraturas emerge outra tarefa: experimentar modos de recompor aquilo que o dispositivo desagrega.<\/p>\n<p><strong>F<\/strong><strong>icar com o problema<\/strong><\/p>\n<p>Talvez o primeiro gesto seja recusar a pressa de concluir. A f\u00e1brica digital da exce\u00e7\u00e3o nos treina justamente para isso: fechar quest\u00f5es com rapidez, substituir a pergunta pelo veredito, transformar inquieta\u00e7\u00e3o em senten\u00e7a. Permanecer no problema \u00e9 quase um ato de desobedi\u00eancia ao ritmo do <em>feed<\/em>.<\/p>\n<p>O que fazer com um mundo em que os sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o operam mais r\u00e1pido que a pol\u00edtica? Como pensar a soberania quando ela se desloca para sistemas estat\u00edsticos que ningu\u00e9m elegeu? Que nome dar a essa autoridade que n\u00e3o decreta, mas recomenda; que n\u00e3o pro\u00edbe, mas invisibiliza \u2013 forma de governo sem decis\u00e3o que administra o poss\u00edvel em vez de legislar o justo? Ainda chamamos isso de governo ou j\u00e1 habitamos outra modalidade de poder?<\/p>\n<p>E o que resta da democracia quando o tempo da delibera\u00e7\u00e3o parece deslocado diante do tempo do <em>feed<\/em>? A exce\u00e7\u00e3o prospera porque promete sincronizar o mundo com nossa impaci\u00eancia. Mas de onde vem essa impaci\u00eancia? \u00c9 desejo de justi\u00e7a ou reflexo condicionado por interfaces que confundem intensidade com verdade e decidem, de antem\u00e3o, quem merece ser ouvido e quem pode ser descartado?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 simples nomear o lugar do Pai autorit\u00e1rio nesse cen\u00e1rio. Ele \u00e9 causa ou efeito da m\u00e1quina? Lidera o processo ou \u00e9 apenas seu avatar mais carism\u00e1tico? A promessa de tutela organiza o desejo coletivo, e o pr\u00f3prio <em>feed<\/em> aprende com esse desejo. Quem governa quem?<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, a quest\u00e3o do sujeito. Somos usu\u00e1rios, cidad\u00e3os, espectadores, dados? Em que momento a participa\u00e7\u00e3o se converte em captura? Quando o compartilhamento deixa de ser gesto pol\u00edtico para tornar-se trabalho gratuito para a m\u00e1quina \u2013 estreitamento do imagin\u00e1vel at\u00e9 que s\u00f3 reste obedecer ao fluxo? A exce\u00e7\u00e3o digital produz pertencimento ou apenas simula comunidade enquanto contabiliza cliques?<\/p>\n<p>Essas perguntas n\u00e3o pedem resposta imediata. Pedem demora. Pedem o desconforto de reconhecer que j\u00e1 n\u00e3o sabemos onde termina a t\u00e9cnica e come\u00e7a a pol\u00edtica. Pedem, sobretudo, aceitar que o problema n\u00e3o \u00e9 defeito passageiro do sistema, mas sua pr\u00f3pria forma de funcionamento.<\/p>\n<p>Ficar com o problema significa admitir que as redes n\u00e3o s\u00e3o ferramentas externas; s\u00e3o ambientes que nos habitam. Significa perceber que a exce\u00e7\u00e3o se infiltra nas pequenas decis\u00f5es de cada rolagem de tela. Implica, tamb\u00e9m, reconhecer que o desejo de tutela diz algo verdadeiro sobre nosso cansa\u00e7o diante da complexidade \u2013 sem transformar essa constata\u00e7\u00e3o em novo mandamento.<\/p>\n<p>Permanecer na pergunta n\u00e3o \u00e9 paralisia. \u00c9 recusa de solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis. \u00c9 suspeitar das promessas de limpeza do mundo, sejam militares, jur\u00eddicas ou algor\u00edtmicas. \u00c9 desconfiar do conforto que o Pai autorit\u00e1rio oferece quando nos livra da tarefa de decidir juntos \u2013 lembrando que toda pol\u00edtica da visibilidade produz tamb\u00e9m zonas onde a vida pode ser deixada morrer sem luto.<\/p>\n<p>Quem sabe o mais dif\u00edcil seja aceitar que n\u00e3o h\u00e1 exterior puro a partir do qual julgar a m\u00e1quina. Estamos dentro dela, aprendendo sua l\u00edngua enquanto tentamos critic\u00e1-la. A exce\u00e7\u00e3o digital \u00e9 nossa contempor\u00e2nea \u00edntima, n\u00e3o um monstro distante. Como pensar com aquilo que nos pensa?<\/p>\n<p>Ficar com o problema \u00e9 como conviver com um animal estranho: sem domestic\u00e1-lo depressa, mas tamb\u00e9m sem abandon\u00e1-lo ao descontrole. Nem rendi\u00e7\u00e3o ao Pai, nem ilus\u00e3o de pureza \u2013 apenas a arte incerta de coabitar com for\u00e7as que nos atravessam.<\/p>\n<p>O mundo que encolhe exige imagina\u00e7\u00e3o para suportar sua ambiguidade. A f\u00e1brica digital da exce\u00e7\u00e3o \u00e9 amea\u00e7a e espelho: revela nossa fome de sentido e nossa dificuldade de produzi-lo sem tutela. Perguntar por ela \u00e9 perguntar por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Seremos capazes de habitar as redes sem desejar que algu\u00e9m nos salve delas? Ou continuaremos a oferecer nossa inquieta\u00e7\u00e3o ao primeiro Pai autorit\u00e1rio que prometa silenciar o ru\u00eddo?<\/p>\n<p>Ficar com o problema \u00e9 aprender a viver sem essa promessa.<\/p>\n<p>O problema pode n\u00e3o estar apenas nas redes. Pode estar na estranha facilidade com que aprendemos a viver dentro delas, como quem aprende um novo modo de respirar sem perceber que o ar mudou. Deslizamos o dedo e o mundo se recomp\u00f5e em pequenos clar\u00f5es: indigna\u00e7\u00e3o, puni\u00e7\u00e3o, al\u00edvio. Tudo acontece r\u00e1pido demais para ganhar espessura. A exce\u00e7\u00e3o passa entre as imagens como um costume antigo, discreto, quase \u00edntimo \u2013 como se sempre tivesse habitado conosco e apenas esperasse o momento de se tornar vis\u00edvel.<\/p>\n<p>Resistir n\u00e3o \u00e9 simplesmente abandonar a m\u00e1quina. \u00c9 interromper o reflexo que ela produz em n\u00f3s: reagir antes de compreender, julgar antes de ouvir, punir antes de pensar. Entre a pressa que nos captura e a lentid\u00e3o que ainda respira em algum lugar, talvez a pol\u00edtica sobreviva apenas assim: como um pequeno atraso no tempo do mundo.<\/p>\n<p>Uma pausa no gesto que desliza.<\/p>\n<p>O dedo hesita.<\/p>\n<p>E, por um instante, o mundo volta a pesar.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Resistir pode n\u00e3o ser abandonar a m\u00e1quina, mas o que ela produz em n\u00f3s \u2013 e resgatar o tempo sereno da reflex\u00e3o<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/elogio-da-pausa-e-demora-face-frenesi-digital\/\">Elogio da pausa e demora, face ao frenesi digital<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":79216,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[7488,39512,5511,6804,10837,39513,39514,39515,6805,39516,39517,8345,25855,39518,5493],"tags":[],"class_list":["post-79215","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-algoritmos","category-autoritarismo-digital","category-capa","category-captura-da-atencao","category-captura-da-riqueza","category-captura-digital-da-riqueza","category-captura-do-ressentimento","category-colonialidade-digital","category-economia-da-atencao","category-excecao","category-producao-dos-sujeitos","category-redes","category-ressentimento","category-soberanos-estatisticos","category-tecnologia-em-disputa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79215\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79216"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}