{"id":80066,"date":"2026-03-27T00:00:44","date_gmt":"2026-03-27T03:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/gaza-ha-luz-no-fim-do-tunel-para-o-ocidente\/"},"modified":"2026-03-27T00:00:44","modified_gmt":"2026-03-27T03:00:44","slug":"gaza-ha-luz-no-fim-do-tunel-para-o-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/gaza-ha-luz-no-fim-do-tunel-para-o-ocidente\/","title":{"rendered":"Gaza: H\u00e1 luz no fim do t\u00fanel para o Ocidente?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WH7C2K6WKVAONOZP5LCJYJ3HIU-1-2048x1365.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/25185711\/WH7C2K6WKVAONOZP5LCJYJ3HIU-1-1500x1000.jpg 1500w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/25185711\/WH7C2K6WKVAONOZP5LCJYJ3HIU-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/25185711\/WH7C2K6WKVAONOZP5LCJYJ3HIU-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/25185711\/WH7C2K6WKVAONOZP5LCJYJ3HIU-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WH7C2K6WKVAONOZP5LCJYJ3HIU-1-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/25185711\/WH7C2K6WKVAONOZP5LCJYJ3HIU-1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: Jehad Alshrafi\/AP<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Livros utilizados pelo autor: <strong><em>Didier Fassin, Moral Abdication: How the World Failed to Stop the Destruction of Gaza, Londres, Verso, 2024, 128 pp. | Pankaj Mishra, The World After Gaza, Londres, Fern Press, 2025, 292 pp.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o de Gaza, o exterm\u00ednio da sua sociedade, terminar\u00e1 antes de ambos se completarem absolutamente? N\u00e3o, se o governo de Israel, a maioria dos seus cidad\u00e3os e os Estados Unidos conseguirem o que querem. Israel nunca far\u00e1 as pazes com o povo palestino, nem em Gaza, nem em Jerusal\u00e9m, nem na Cisjord\u00e2nia. Enquanto houver palestinos entre o rio e o mar, eles ser\u00e3o um obst\u00e1culo para Israel e a miss\u00e3o n\u00e3o estar\u00e1 cumprida. Na verdade, agora, ap\u00f3s dois anos de massacres e exterm\u00ednio, a paz, sejam quais forem os seus termos, n\u00e3o seria mais do que uma cat\u00e1strofe nacional para Israel, uma derrota devastadora. A paz teria que p\u00f4r fim ao bloqueio de Gaza, que j\u00e1 dura quase duas d\u00e9cadas, subsidiado por quatro presidentes estadunidenses: Bush, Obama, Biden e Trump. Os habitantes da Faixa de Gaza teriam que ser libertados da sua pris\u00e3o ao ar livre e deveria ser permitida a entrada de visitantes. Muitas mais imagens viriam a p\u00fablico do que as que t\u00eam surgido at\u00e9 agora de uma paisagem devastada, cujas casas, escolas, hospitais, igrejas e universidades foram irremediavelmente danificadas. Seriam contadas hist\u00f3rias de crian\u00e7as sem pais, de pais sem filhos, de fam\u00edlias sem m\u00e3es ou pais, de seres definhados, famintos, aleijados no corpo e na alma. Seriam iniciadas investiga\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o apenas por parte da corrupta Autoridade Palestiniana paga por Israel: testemunhas seriam ouvidas, mem\u00f3rias registradas, acontecimentos reconstitu\u00eddos, os comandantes israelenses\u00a0respons\u00e1veis pelos piores crimes seriam identificados e o genoc\u00eddio deixaria de ser uma abstra\u00e7\u00e3o jur\u00eddica. O Estado de Israel acabaria finalmente por se tornar um Estado p\u00e1ria, como a Alemanha teria sido depois de 1945, n\u00e3o fosse porque os seus amigos estadunidenses precisavam de um aliado vassalo contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e que fosse tamb\u00e9m funcional para lan\u00e7ar a Guerra da Coreia. \u201cDesfruta da guerra, a paz ser\u00e1 terr\u00edvel\u201d, costumavam sussurrar os alem\u00e3es entre si, quando a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim.<\/p>\n<p>N\u00e3o se vislumbra um fim. O pesadelo continuar\u00e1 e ser\u00e1 permitido que continue, enquanto houver palestinos que se recusem a ser governados por sujeitos como Netanyahu. No momento em que escrevo este artigo, Israel capturou mais de metade da Faixa de Gaza, declarando-a \u201czona de seguran\u00e7a\u201d ap\u00f3s a ter esvaziado dos seus habitantes, contando para isso com o acordo t\u00e1cito do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, uma primeira entrega do sonho imobili\u00e1rio da Organiza\u00e7\u00e3o Trump. O que restava da Faixa foi aparentemente dividido em duas metades pelo ex\u00e9rcito israelense, para a manter fragmentada at\u00e9 \u00e0 chegada da Junta de Paz, dirigida por Trump, tendo neste caso a paz como objetivo de limpeza \u00e9tnica executada por diferentes meios. Entretanto, o massacre na Cisjord\u00e2nia continua com o apoio de uma grande maioria de cidad\u00e3os israelenses, deixando milhares de palestinos assassinados nos dois anos de guerra de Gaza pelo ex\u00e9rcito e pelos chamados colonos livres, desprovidos de quaisquer restri\u00e7\u00f5es no exerc\u00edcio da sua viol\u00eancia, muitos deles cidad\u00e3os estadunidenses, cheios de nostalgia por nascerem tarde demais para participar nas guerras contra o povo palestino.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--43.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--43.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em qualquer caso, se algo correr mal, Israel \u00e9 militarmente invenc\u00edvel, gra\u00e7as ao apoio inabal\u00e1vel dos Estados Unidos e da Alemanha, dado que conta com mais de trezentos avi\u00f5es de guerra prontos para o combate (Hamas: nenhum), com aproximadamente cinquenta helic\u00f3pteros de ataque (Hamas: nenhum), com o sistema de defesa a\u00e9rea conhecido como Domo de Ferro (Hamas: nada parecido), com dois mil e duzentos tanques de combate (Hamas: nenhum) e pelo menos cento e setenta escavadoras Caterpillar D9 (Hamas: nenhuma), transformando o que erradamente se denomina guerra numa matan\u00e7a de alta tecnologia de um povo indefeso, que est\u00e1 sendo bombardeado at\u00e9 faz\u00ea-los regressar \u00e0 idade da pedra. A isto acrescente a trindade completa da guerra nuclear convencional: m\u00edsseis terrestres, toda a pan\u00f3plia de avi\u00f5es de combate, bombardeiros e de vigil\u00e2ncia e submarinos nucleares fornecidos pela Alemanha, tudo complementado com a bomba nuclear da propaganda que consiste na acusa\u00e7\u00e3o de antissemitismo, realmente eficaz, como mostram Mishra e Fassin nos livros resenhados neste artigo, nas democracias do hemisf\u00e9rio norte, onde os partid\u00e1rios locais de Israel a utilizam liberalmente.<\/p>\n<p>Com o respaldo inabal\u00e1vel dos Estados Unidos, o governo israelense pode sentir-se livre para continuar com o que a maioria dos seus cidad\u00e3os considera ser a sua tarefa leg\u00edtima: limpar Gaza de seu pr\u00f3prio povo. Dois anos ap\u00f3s o in\u00edcio da guerra, no final de novembro de 2025, segundo a <em>Statista<\/em>, foi notificada a morte de 69.185 gazenses (de acordo com a informa\u00e7\u00e3o fornecida pelo governo do Hamas em Gaza, que n\u00e3o conta os in\u00fameros mortos sepultados sob os escombros das casas arrasadas pelos bombardeiros e escavadoras israelenses) e 170.698 feridos[1]. Durante o mesmo per\u00edodo, a informa\u00e7\u00e3o fornecida pelo governo israelense constata que, \u201cap\u00f3s o in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es terrestres na Faixa de Gaza iniciadas a 27 de outubro de 2023, 471 soldados israelenses ca\u00edram em combate\u201d, o que representa menos de vinte mortos por m\u00eas e uma propor\u00e7\u00e3o de baixas de 1:147 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s causadas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o palestina, um pre\u00e7o muito baixo que torna a continua\u00e7\u00e3o da guerra politicamente sustent\u00e1vel em Israel, embora o fim desta esteja longe. De acordo com diversas estimativas, o Hamas, a quem a imprensa alem\u00e3 se refere estereotipadamente como \u201cgrupo terrorista\u201d, ainda contava com um contingente entre 16.000 e 18.000 combatentes armados, quando foi revelado o plano de paz de Trump, face aos 20.000 ou 30.000 que se acredita ter quando a matan\u00e7a come\u00e7ou[2].<\/p>\n<p>Com ou sem Trump, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o alguma para Israel aceitar qualquer acordo que n\u00e3o seja a conquista definitiva da Palestina \u201cdo rio ao mar\u201d, tal como prev\u00ea h\u00e1 muito tempo o programa eleitoral do partido de Netanyahu. Ao contr\u00e1rio da antiga Jugosl\u00e1via, os Estados Unidos e os seus vassalos da Europa Ocidental n\u00e3o veem em Gaza qualquer \u201cdever de proteger\u201d, uma celebrada inova\u00e7\u00e3o estadunidense introduzida no direito internacional na d\u00e9cada de 1990, para al\u00e9m do dever de proteger Israel de prestar contas pelos seus crimes. Se a situa\u00e7\u00e3o se tornasse insustent\u00e1vel para Israel, a elite israelense sabe que, para continuar a matar, poderia contar com o mundo se sentindo aterrorizado pela sua \u201cop\u00e7\u00e3o Sans\u00e3o\u201d, isto \u00e9, a utiliza\u00e7\u00e3o do seu arsenal nuclear para garantir que, se o Estado israelense tiver que cair, todos os outros Estados existentes \u00e0 sua volta, em particular o Ir\u00e3 e o L\u00edbano, e talvez tamb\u00e9m o Egito e a S\u00edria, a \u201czona cinzenta\u201d de Israel, ter\u00e3o que cair com ele. No improv\u00e1vel caso de os seus aliados o abandonarem, por exemplo, se continuar a guerra colocasse em perigo os interesses fundamentais da classe que financia as campanhas eleitorais estadunidenses, Israel poderia sentir-se como o governo alem\u00e3o no final da Segunda Guerra Mundial, quando constatou que a sua \u00fanica op\u00e7\u00e3o era esperar contra todas as esperan\u00e7as um milagre: \u201cAssumimos uma culpa t\u00e3o enorme que s\u00f3 podemos continuar; n\u00e3o h\u00e1 volta atr\u00e1s\u201d (Heinrich Himmler, supostamente, a um diplomata noruegu\u00eas em abril de 1945). A diferen\u00e7a, claro, \u00e9 que enquanto a Alemanha naquele momento n\u00e3o tinha bombas nucleares, Israel as tem.<\/p>\n<p>Assim, a destrui\u00e7\u00e3o continuar\u00e1, f\u00edsica, institucional, social e moralmente, num cen\u00e1rio j\u00e1 quase irrepar\u00e1vel neste momento. Se alguma vez esta destrui\u00e7\u00e3o chegar ao fim, ningu\u00e9m saber\u00e1 como remover os escombros deixados pelos bombardeios, nem como reconstruir as casas, os hospitais, as escolas e universidades, as mesquitas e igrejas, as ruas e os portos, os esgotos e os sistemas de \u00e1gua. (Poderia chegar-se aos campos de golfe e clubes de campo de Trump de helic\u00f3ptero, enquanto a Junta de Paz, em colabora\u00e7\u00e3o com a Gaza Humanitarian Foundation, poderia levar \u00e1gua e comida a alguns poucos afortunados). Onde viveriam os habitantes de Gaza, entretanto? Que pa\u00eds, em nome da \u201ccomunidade internacional\u201d, organizaria primeiro o \u00eaxodo e depois o regresso, sob o olhar atento das For\u00e7as de Defesa de Israel e dos seus irm\u00e3os de armas americanos? Quem pagaria os orfanatos, os lares para deficientes, os cuidados m\u00e9dicos para aqueles que enlouqueceram nos bunkers e enquanto procuravam comida para as suas fam\u00edlias? Os alem\u00e3es estar\u00e3o ocupados durante anos financiando a sua outra guerra, na Ucr\u00e2nia, enquanto os seus aliados israelenses, claro, os Estados Unidos, seguramente n\u00e3o contribuir\u00e3o com um \u00fanico centavo para todas estas tarefas de repara\u00e7\u00e3o consequ\u00eancia do genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>Depois de Gaza, portanto, continuar\u00e1 a existir Gaza, pelo menos num futuro previs\u00edvel. Tanto Fassin como Mishra esperam mais massacres em massa, mais despejos, mais fomes, talvez com interrup\u00e7\u00f5es ocasionais implementadas numa chave de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, salpicadas com breves aberturas das novas e mais rigorosas fronteiras impostas a Gaza para permitir a entrada de suprimentos suficientemente reduzidos para manter a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 beira da inani\u00e7\u00e3o: todo este jogo cruel, fingindo miseric\u00f3rdia, para depois voltar a apertar o cerco, acompanhado de assassinatos em s\u00e9rie de agricultores e criadores de gado por parte de colonos homicidas compulsivos na Cisjord\u00e2nia e da constru\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00f5es financiadas pelos Estados Unidos para os colonos israelenses em Jerusal\u00e9m Oriental (para n\u00e3o falar dos reluzentes hot\u00e9is Trump constru\u00eddos em lugares pitorescos e fortemente armados de Gaza, uma vez limpa dos seus grosseiros habitantes), tudo isto intercalado com ocasionais \u201cpausas humanit\u00e1rias\u201d em benef\u00edcio dos governos da Europa Ocidental, art\u00edfices dos lan\u00e7amentos a\u00e9reos de alimentos a partir de avi\u00f5es da Bundeswehr, para que os consumidores de not\u00edcias alem\u00e3es tenham a certeza de que os habitantes de Gaza n\u00e3o ter\u00e3o que morrer com o est\u00f4mago vazio.<\/p>\n<p>Fassin, embora considere que a esquerda israelense\u201d[se encontra] esmagada e [\u00e9] inaud\u00edvel\u201d (pp. 89 e segs.), que os pa\u00edses ocidentais, presos do feiti\u00e7o da propaganda antissemita dos seus lobbies israelenses, continuar\u00e3o \u201capoiando incondicionalmente o governo israelense\u201d, e que \u201co verdadeiramente popular l\u00edder Marwan Barghouti, considerado por muitos como um poss\u00edvel negociador e futuro presidente da Autoridade Palestina[\u2026] e condenado a cinco pris\u00f5es perp\u00e9tuas [cumpridas nos campos de concentra\u00e7\u00e3o israelenses] continuar\u00e1 preso, enquanto nenhum pol\u00edtico israelense parece disposto a considerar a possibilidade de entabular conversa\u00e7\u00f5es\u201d (p. 90), Fassin, mesmo consciente de todo este sombrio panorama, termina o seu livro, apesar do seu admir\u00e1vel e s\u00f3brio realismo, com um poema de um poeta palestino escrito \u201cpouco antes de morrer, em 7 de dezembro de 2023, num bombardeio seletivo contra o apartamento onde tinha se refugiado com a sua irm\u00e3, que tamb\u00e9m morreu, tal como o seu irm\u00e3o e quatro dos seus sobrinhos e sobrinhas\u201d (p. 91)[3].<\/p>\n<p>Claro, n\u00e3o s\u00f3 Gaza precisaria ter repara\u00e7\u00e3o depois de Gaza, mas tamb\u00e9m Israel deveria ser reparado e, consequentemente, teria que aprender a deixar de ser um Estado assassino, embora, ao contr\u00e1rio da Alemanha em 1945, ningu\u00e9m saiba quem poderia ensin\u00e1-lo a deixar de o ser e como faz\u00ea-lo. Na verdade, tanto para Fassin como para Mishra, o genoc\u00eddio de Israel, tanto em Gaza como nos Territ\u00f3rios Ocupados, \u00e9 um desastre moral tamb\u00e9m para o \u201cOcidente\u201d no seu conjunto, que deu \u00e0 luz Israel, mas que n\u00e3o soube nem tem sabido educ\u00e1-lo adequadamente. O pequeno livro de Fassin, brilhantemente escrito e admiravelmente conciso (128 p\u00e1ginas), documenta e diz tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para que os leitores e as leitoras vejam para al\u00e9m do v\u00e9u da dupla linguagem dos governos ocidentais e das suas classes pol\u00edticas. Fassin concentra-se nesse discurso, isto \u00e9, em como essa linguagem tortuosa foi concebida para produzir consentimento perante o crime contra a humanidade por antonom\u00e1sia da nossa \u00e9poca, e em como o referido discurso foi constru\u00eddo para que a opini\u00e3o p\u00fablica e as cidadanias ocidentais n\u00e3o percebam nem tenham consci\u00eancia da matan\u00e7a em curso em Gaza, nem do grau nem da forma como este crime monstruoso as afeta.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-4.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-4.jpg 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/05\/31183543\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O cap\u00edtulo 1 recapitula o tratamento dado nos relatos ocidentais \u00e0 tentativa do Hamas efetuada a 7 de outubro de 2023 de p\u00f4r fim a dezesseis anos de cativeiro coletivo; o cap\u00edtulo 2 trata do uso estrat\u00e9gico do conceito de terrorismo; o cap\u00edtulo 3 aborda a quest\u00e3o do genoc\u00eddio (\u201cAs palavras importam, especialmente quando t\u00eam resson\u00e2ncia hist\u00f3rica, significado pol\u00edtico e implica\u00e7\u00f5es legais\u201d, p. 26), e o cap\u00edtulo 4 analisa a forma como se \u201cinstrumentaliza\u201d a mem\u00f3ria do antissemitismo assassino alem\u00e3o para tornar inomin\u00e1vel a matan\u00e7a e a tortura indiscriminadas perpetradas por Israel. O cap\u00edtulo 5 detalha o aumento da censura no que costumavam ser democracias liberais, o cap\u00edtulo 6 descreve o sil\u00eancio das vozes p\u00fablicas ocidentais sobre os efeitos da m\u00faltipla desumaniza\u00e7\u00e3o a que \u00e9 submetido o povo de Gaza por um cativeiro que se prolonga h\u00e1 d\u00e9cadas, enquanto o cap\u00edtulo 7 descreve o ofuscamento sistem\u00e1tico no discurso ocidental do prop\u00f3sito etno-colonialista da ocupa\u00e7\u00e3o israelense de Gaza, Jerusal\u00e9m Oriental e Cisjord\u00e2nia, enquanto o cap\u00edtulo 8 resume o que Fassin entende por \u201cabdica\u00e7\u00e3o moral\u201d: a corrup\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica das palavras para que se tornem inadequadas para distinguir entre o bem e o mal. Aqui Fassin cita (p. 88) Tuc\u00eddides sobre a guerra do Peloponeso, que assinalou como, no curso de uma destrui\u00e7\u00e3o cada vez mais absurda, \u201cat\u00e9 o significado habitual das palavras em rela\u00e7\u00e3o aos atos se modificou nas justifica\u00e7\u00f5es de que estes eram objeto\u201d. Na opini\u00e3o de Fassin, eminente antrop\u00f3logo social e soci\u00f3logo, s\u00e3o precisamente \u201cestas falsifica\u00e7\u00f5es\u201d que \u201cjustificam [o imperativo] de que os cientistas sociais, com humildade, mas com determina\u00e7\u00e3o, fa\u00e7am ouvir a sua verdade, por fr\u00e1gil que seja\u201d.<\/p>\n<p>Quanto a Mishra, o seu livro tamb\u00e9m \u00e9 realmente bem documentado; vejam-se em particular os longos cap\u00edtulos sobre a Alemanha, \u201cFrom Antisemitism to Philosemitism\u201d, e sobre os Estados Unidos, \u201cAmericanizing the Holocaust\u201d. Mas revela-se mais relevante o fato de Mishra se esfor\u00e7ar por explicar \u00e0 opini\u00e3o ocidental branca como os judeus, considerados durante muito tempo pelos brancos como profundamente n\u00e3o brancos para todos os efeitos pr\u00e1ticos, chegaram a ser convidados a juntar-se aos seus torturadores quando, depois de 1945, transformaram a Palestina no seu Estado-na\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s terem tentado em v\u00e3o esses exterminadores brancos emular a branquidade na Europa Ocidental tratando os seus irm\u00e3os do Leste Europeu como se fossem de cor. Mishra situa a coopta\u00e7\u00e3o dos judeus na <em>Herrenrasse<\/em> [ra\u00e7a dominante] branca e o apoio econ\u00f4mico e militar sem precedentes hist\u00f3ricos concedido por esta \u00faltima ao Estado de Israel, n\u00e3o num hipot\u00e9tico sentimento de culpa por parte dos supremacistas brancos pelo que lhes fizeram durante s\u00e9culos aos judeus, mas na pol\u00edtica de descoloniza\u00e7\u00e3o das d\u00e9cadas de 1950 e 1960. Ent\u00e3o, quando a supremacia branca estava \u00e0 beira do colapso, os brancos puderam utilizar um aliado para os ajudar a travar a mar\u00e9 anticolonial, especialmente no Oriente Pr\u00f3ximo, um aliado que, ao contr\u00e1rio dos desacreditados colonos, podia reivindicar um direito hist\u00f3rico e moral, por muito fr\u00e1gil que fosse, a viver e dominar onde, como povo, lhes tinha sido permitido buscar ref\u00fagio depois de tanto sofrimento.<\/p>\n<p>O livro de Mishra oferece aos leitores ocidentais uma ideia do que veem e sentem os observadores do Sul global, quando contemplam o absoluto desprezo com que os colonos sionistas trataram e continuam a tratar aqueles a quem arrancaram as suas terras e continuam a arranc\u00e1-las. Para Mishra, isto \u00e9 indistingu\u00edvel da forma como os colonos europeus na \u00c1frica mantiveram os africanos locais atr\u00e1s da cerca do apartheid e de como se sentiram no direito, no continente norte-americano, de exterminar por completo aqueles que se interpunham no seu caminho e que acreditavam ser \u00edndios. Desta perspectiva, as eventuais diferen\u00e7as que possam existir entre Gaza e o Holocausto s\u00e3o menos relevantes, se \u00e9 que o s\u00e3o, do que o id\u00eantico papel que desempenham na legitima\u00e7\u00e3o e defesa da supremacia branca. Nos \u00faltimos cap\u00edtulos do seu livro, Mishra, seguindo os passos de Edward Said, apresenta um not\u00e1vel esbo\u00e7o da concep\u00e7\u00e3o do mundo do que se tem chamado \u201cteoria p\u00f3s-colonial\u201d. No seu centro encontram-se a conquista e a destrui\u00e7\u00e3o \u00fanicas das sociedades tradicionais n\u00e3o brancas em todo o mundo por parte do imperialismo branco, armado com uma tecnologia militar superior e apetrechado com as sabidas provas cient\u00edficas da inferioridade \u201cracial\u201d dos seus semelhantes humanos de cor, a quem tinham convencido de que n\u00e3o eram humanos de todo. (Quem escreve teria gostado de encontrar algumas refer\u00eancias mais ao capitalismo, al\u00e9m do racismo, como for\u00e7a motriz da expans\u00e3o ocidental). O modo como Mishra insiste na necessidade de romper com a estreiteza de vis\u00e3o da hist\u00f3ria mundial padr\u00e3o branco-ocidental \u00e9 impressionante pela sua erudi\u00e7\u00e3o, em particular no que respeita \u00e0 forma como a hist\u00f3ria e a pr\u00e9-hist\u00f3ria do antissemitismo e a postura pr\u00f3-israelense se enquadram na era moderna de globaliza\u00e7\u00e3o violenta e racista-imperialista. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio aceitar todas as ramifica\u00e7\u00f5es e exageros pol\u00eamicos da teoria p\u00f3s-colonial, embora este leitor, at\u00e9 agora vergonhosamente desinformado, n\u00e3o tenha encontrado muito que objetar na sua aplica\u00e7\u00e3o por parte de Mishra ao caso de Gaza, para reconhecer que a teoria social no mundo depois de Gaza ter\u00e1 que incorporar alguns dos seus temas e ideias centrais para ser cr\u00edvel n\u00e3o apenas moralmente, mas tamb\u00e9m academicamente.<\/p>\n<p>A Alemanha, o segundo apoiador incondicional de Israel, poder\u00e1 ser, ainda mais do que os Estados Unidos, um lugar mais do que adequado para investigar a convers\u00e3o ocidental depois de 1945 do antissemitismo ao filossemitismo. Com a sua impass\u00edvel equanimidade perante a crueldade desenfreada, a sua estudada aus\u00eancia de emo\u00e7\u00e3o moral, o sil\u00eancio g\u00e9lido da sua classe pol\u00edtica e intelectual, de jornalistas a professores, de realizadores de cinema e artistas a escritores, e mesmo entre os estudantes na medida em que cresceram na Alemanha e querem fazer carreira l\u00e1, este pa\u00eds volta a surgir como um caso extremo de desequil\u00edbrio pol\u00edtico. Tanto Mishra como eu prestamos especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 vers\u00e3o alem\u00e3 da \u201cisraelmania\u201d estatal[4]. No entanto, o que est\u00e1 acontecendon a Alemanha nestes dias ainda deve ser plenamente compreendido: a transi\u00e7\u00e3o para um filossemitismo fan\u00e1tico identificado como antipalestino, que olha para o lado com a mesma indiferen\u00e7a moral de sempre, o mesmo sil\u00eancio oportunista, a mesma covardia impiedosa. A seguir, abordarei alguns dos fatores que creio estarem em jogo aqui, na esperan\u00e7a de que me seja perdoado por utilizar os excelentes livros de Mishra e Fassin como ocasi\u00e3o para especular sobre algumas das peculiaridades mais aterrorizadoras do meu pa\u00eds natal.<\/p>\n<p><strong>Notas sobre a Gaza da Alemanha[5]<\/strong><\/p>\n<p>A Alemanha n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico lugar onde as fontes tradicionais de coes\u00e3o social, identidade coletiva e lealdade pol\u00edtica est\u00e3o se esgotando\u00a0na era do neoliberalismo globalizado, minando as institui\u00e7\u00f5es herdadas da pol\u00edtica democr\u00e1tica do per\u00edodo p\u00f3s-guerra. \u00c0 incerteza sobre a identidade coletiva e a seguran\u00e7a econ\u00f4mica juntaram-se os altos n\u00edveis de imigra\u00e7\u00e3o, em particular ap\u00f3s a abertura das fronteiras alem\u00e3s em 2015, verdadeira data de nascimento da <em>Alternative f\u00fcr Deutschland<\/em>. Em resposta \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o e ao descontentamento que gerou, desde a centro-direita ergueram-se cedo vozes que pediam uma insist\u00eancia e uma aplica\u00e7\u00e3o mais en\u00e9rgicas do que, na g\u00edria dos consultores de imagem da \u00e9poca, se denominava <em>Leitkultur <\/em>alem\u00e3, isto \u00e9, a \u201ccultura dominante\u201d que definia a germanidade, que os imigrantes deviam respeitar, sen\u00e3o interiorizar, independentemente de quererem ser alem\u00e3es ou preferirem n\u00e3o o ser. As listas provis\u00f3rias de atitudes e pr\u00e1ticas essencialmente alem\u00e3s mudavam, mas inclu\u00edam sempre elementos que se esperava fossem considerados n\u00e3o isl\u00e2micos por parte da comunidade mu\u00e7ulmana, desde que as crian\u00e7as desfrutassem de carne de porco nos almo\u00e7os escolares at\u00e9 que as mulheres andassem pelas ruas sem len\u00e7os na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>As defini\u00e7\u00f5es cada vez mais autorit\u00e1rias da <em>Leitkultur<\/em> alem\u00e3 tamb\u00e9m inclu\u00edam a aceita\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma responsabilidade especial, de fato intergeracional, em rela\u00e7\u00e3o ao Holocausto, que postulava um dever c\u00edvico dela derivado, que inclu\u00eda o apoio ao \u201cdireito de existir\u201d do Estado de Israel e isso independentemente das fronteiras que este decidisse estabelecer para si. Quando ap\u00f3s 7 de outubro de 2023 os jovens imigrantes, em particular os estudantes, com ra\u00edzes no Oriente M\u00e9dio come\u00e7aram a expressar publicamente a sua solidariedade com as v\u00edtimas da ocupa\u00e7\u00e3o israelense de Gaza, o governo alem\u00e3o, em conson\u00e2ncia com o <em>lobby <\/em>nacional pr\u00f3-israelense, deixou claro que a <em>Leitkultur<\/em> alem\u00e3 era vinculativa n\u00e3o s\u00f3 para os alem\u00e3es aut\u00f3ctones, mas tamb\u00e9m para os imigrantes, independentemente da sua proveni\u00eancia, e que isso seria imposto, se necess\u00e1rio, com a ajuda da pol\u00edcia e dos tribunais. Preventivamente, o antissemitismo, concebido de acordo com a \u201cdefini\u00e7\u00e3o operativa\u201d da <em>The International Holocaust Remembrance Association<\/em> (IHRA), foi declarado efetivamente inconstitucional mediante uma resolu\u00e7\u00e3o do <em>Bundestag<\/em>, a qual n\u00e3o \u00e9 formalmente legisla\u00e7\u00e3o e, portanto, fica fora da jurisdi\u00e7\u00e3o do Tribunal Constitucional[6].<\/p>\n<p>Posteriormente, a <em>Israelkritik<\/em>[a cr\u00edtica a Israel], que durante algum tempo foi tolerada com relut\u00e2ncia desde que se limitasse aos meios e n\u00e3o aos fins da guerra israelense, passou a ser redefinida de forma geral como antissemita[7]. Com efeito, isto converteu o antisslamismo e, em particular, o antipalestinismo numa express\u00e3o bem-vinda do antiantissemitismo, tra\u00e7ando uma linha divis\u00f3ria entre os bons alem\u00e3es antiantissemitas e os maus antissemitas antialem\u00e3es, tivessem ou n\u00e3o passaporte alem\u00e3o. Isso n\u00e3o s\u00f3 estabeleceu uma vers\u00e3o da cultura c\u00edvica alem\u00e3 quase can\u00f4nica cortada pelo padr\u00e3o da <em>Staatsraison<\/em>, cuja ades\u00e3o \u00e0 mesma pode ser e de fato \u00e9 posta \u00e0 prova mediante question\u00e1rios aplicados a quem solicita cidadania alem\u00e3, mas tamb\u00e9m alimenta o sentimento antimu\u00e7ulmano e anti-imigra\u00e7\u00e3o entre os eleitores contr\u00e1rios \u00e0 chegada de popula\u00e7\u00e3o migrante, j\u00e1 que promete tornar mais dif\u00edcil ou menos atrativa a imigra\u00e7\u00e3o dos mu\u00e7ulmanos, instrumentalizando de fato o Holocausto para reservar <em>Deutschland den Deutschen <\/em>(Alemanha para os alem\u00e3es). Embora esta vers\u00e3o da cultura c\u00edvica alem\u00e3 tenha sido idealizada para atrair eleitores da <em>Alternative f\u00fcr Deutschland<\/em>, na realidade ajudou este partido a substituir o antigo antissemitismo da direita alem\u00e3 como aglutinante social de uma<em>Volksgemeinschaft<\/em>alem\u00e3 por um novo antimu\u00e7ulmanismo, o que permitiu que este partido, independentemente do seu discurso etnonacionalista, se apresentasse como um firme defensor de Israel e da cumplicidade do Estado alem\u00e3o com o mesmo.<\/p>\n<p>O alinhamento com um partido <em>v\u00f6lkische<\/em>como a <em>Alternative f\u00fcr Deutschland <\/em>n\u00e3o constitui o \u00fanico problema para a economia moral alem\u00e3 ao definir o apoio a Israel em Gaza como uma luta contra o antissemitismo. Aqui entram em jogo significados e ambiguidades mais profundos, que atormentam a consci\u00eancia coletiva alem\u00e3 na sua luta com as mem\u00f3rias de culpa e o seu desejo de reden\u00e7\u00e3o, a qual se lograria mediante a institucionaliza\u00e7\u00e3o das primeiras. No centro de tudo isto encontra-se o dogma da singularidade, da incomparabilidade, do Holocausto, que \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o mais transcendental do fil\u00f3sofo J\u00fcrgen Habermas para a cultura pol\u00edtica alem\u00e3. A ideia surgiu durante o denominado <em>Historikerstreit <\/em>(o \u201cdebate dos historiadores\u201d), quando em 1986 Habermas, um ilustre antes da reunifica\u00e7\u00e3o, atacou a afirma\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o levantada pelo historiador Ernst Nolte, considerado pr\u00f3ximo da direita burguesa e do novo chanceler Helmut Kohl, de que o <em>Rassenmord<\/em> [assassinato racial] alem\u00e3o dos judeus europeus havia sido de certo modo uma \u201crea\u00e7\u00e3o causal\u201d da burguesia alem\u00e3 ao <em>Klassenmord<\/em> [assassinato de classe] dos bolcheviques durante e depois da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro[8]. Na opini\u00e3o de Habermas, ao apresentar o Holocausto como mais um massacre estatal do s\u00e9culo XX, Nolte e quem se colocou do seu lado minimizavam e trivializavam o crime alem\u00e3o com a inten\u00e7\u00e3o de diminuir a import\u00e2ncia ou negar a persistente culpabilidade da Alemanha como pa\u00eds e isso a fim de abrir o caminho para uma pol\u00edtica externa alem\u00e3 mais nacionalista e segura de si mesma e de abandonar o seu compromisso com a integra\u00e7\u00e3o europeia. Se o Holocausto n\u00e3o fosse considerado categoricamente diferente de outras pol\u00edticas de exterm\u00ednio, que diferentes pa\u00edses tinham praticado e continuavam a praticar, o persistente sentimento de culpa alem\u00e3o, que presumivelmente serviu depois da Segunda Guerra Mundial para deslegitimar qualquer afirma\u00e7\u00e3o de um \u201cinteresse nacional\u201d da Alemanha, por n\u00e3o falar da lideran\u00e7a alem\u00e3 na Europa, poderia desvanecer-se e a \u201cquest\u00e3o alem\u00e3\u201d, que havia ocupado de forma t\u00e3o destrutiva o continente durante a primeira metade do s\u00e9culo XX, seria de novo uma realidade.<\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o decretada por Habermas de fazer compara\u00e7\u00f5es cedo passou a fazer parte do conjunto de normas, informais e formais, que regulam o discurso pol\u00edtico <em>bienpensant<\/em>na Alemanha[9]. Hoje em dia, n\u00e3o s\u00f3 negar o Holocausto, mas tamb\u00e9m \u201cminusvaloriz\u00e1-lo\u201d (<em>verharmlosen<\/em>), \u00e9 um delito na Alemanha, nos termos do Artigo 130 do C\u00f3digo Penal, que trata da <em>Volksverhetzung<\/em> (incitamento p\u00fablico ao \u00f3dio). A linguagem, modificada uma e outra vez ao longo dos anos, \u00e9 t\u00e3o complexa que se torna praticamente incompreens\u00edvel para os n\u00e3o juristas e apenas intelig\u00edvel para os pr\u00f3prios juristas. Basicamente, o Artigo 130 tipifica como delito (a) negar o Holocausto, (b) situ\u00e1-lo na mesma categoria que outros delitos \u201cnormais\u201d, que negam assim a sua singularidade, e (c) incitar ao \u00f3dio contra algu\u00e9m acusando-o de cometer um ato similar ao Holocausto. Como resultado desta norma, qualquer compara\u00e7\u00e3o na ret\u00f3rica pol\u00edtica ou na historiografia profissional com, por exemplo, o exterm\u00ednio das duas cidades japonesas de Hiroxima e Nagasaki em 1945 (que foram duas para testar modelos concorrentes de bombas nucleares desenvolvidas pelos Estados Unidos para uso originalmente contra a Alemanha), com o prolongado bombardeamento com napalm dos camponeses vietnamitas, ou com o bombardeio de Hamburgo (\u201cOpera\u00e7\u00e3o Gomorra\u201d) em julho de 1943 pela for\u00e7a a\u00e9rea brit\u00e2nica sob o comando de \u201cBomber Harris\u201d, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 moralmente fr\u00edvola na Alemanha, o que bem pode ser o caso, mas tamb\u00e9m pun\u00edvel pela lei, j\u00e1 que poderia reduzir o Holocausto a um crime contra a humanidade entre outros, o que \u00e9 assim talvez porque se acredita que isso legitimaria de alguma maneira uma suposta persistente inclina\u00e7\u00e3o alem\u00e3 pelo assassinato racista em massa[10]. Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, esta compara\u00e7\u00e3o pode constituir legalmente uma difama\u00e7\u00e3o, sendo os difamados aqueles cujas a\u00e7\u00f5es se comparam com o Holocausto, caso sejam aliados da Alemanha, e pode constituir al\u00e9m disso uma difama\u00e7\u00e3o antissemita, se a parte comparada e, portanto, difamada, \u00e9 o Estado de Israel[11].<\/p>\n<p>Na vida intelectual normal, claro, a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica forma de estabelecer empiricamente a natureza de algo, incluindo a sua singularidade. O que est\u00e1 proibido comparar \u00e9 assim atribu\u00eddo a <em>priori<\/em> a uma categoria pr\u00f3pria, com N=1, regida por leis e princ\u00edpios pr\u00f3prios, particulares mais do que universais, metaf\u00edsicos no sentido de que est\u00e3o fora do alcance das causalidades e teorias \u201cf\u00edsicas\u201d deste mundo, o que faz com que a sua aplica\u00e7\u00e3o seja um erro de categoria[12]. O tabu contra o que na g\u00edria jur\u00eddica e pol\u00edtica alem\u00e3 atual se denomina \u201crelativiza\u00e7\u00e3o\u201d[13] do Holocausto, consistente em relacion\u00e1-lo com outra coisa para o compreender melhor \u2014 compreender no sentido de <em>verstehende Soziologie<\/em>[14] \u2014 tamb\u00e9m se aplica ao ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, o que torna blasf\u00eamia relacionar causalmente este ataque com uma pr\u00e9-hist\u00f3ria que inclui, por exemplo, dezesseis anos de bloqueio e centenas de v\u00edtimas indefesas no decurso do que na g\u00edria militar israelense se denomina \u201ccortar a relva\u201d[15], como descobriu Judith Butler quando, em resposta \u00e0 sua <em>Relativierung<\/em>, foi declarada antissemita na Alemanha[16].<\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o da \u201crelativiza\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m pode ser utilizada para justificar a recusa em aplicar o direito internacional \u00e0 guerra travada por Israel contra Gaza e contra a popula\u00e7\u00e3o palestina em geral, e de fato \u00e9 amplamente utilizada na Alemanha para esse fim. Se o Holocausto \u00e9 incompar\u00e1vel, a reivindica\u00e7\u00e3o israelo-likudista da totalidade da Palestina, que afinal \u00e9 uma consequ\u00eancia do Holocausto, tamb\u00e9m deve ser incompar\u00e1vel. Da\u00ed se deduz que os meios utilizados por Israel para fazer valer essa reivindica\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser genocidas, j\u00e1 que um Estado s\u00f3 pode ser acusado de genoc\u00eddio se for um Estado como todos os outros, sujeito \u00e0s mesmas normas que os demais. Israel, postulada como a reden\u00e7\u00e3o do Holocausto, n\u00e3o pode estar sujeita a tais normas e exigir que as cumpra equivaleria a antissemitismo. Por isso, um historiador israelense como Omer Bartov, que dedicou a sua vida a estudar o genoc\u00eddio em todas as suas brutais muta\u00e7\u00f5es, se arriscaria na Alemanha a ser julgado por antissemitismo e a ir para a pris\u00e3o, se declarasse publicamente que as suas investiga\u00e7\u00f5es demonstraram, como ele pr\u00f3prio afirma com horror, que a guerra de Israel em Gaza \u00e9, efetivamente, um caso do que estudou, isto \u00e9, de genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>Um exemplo de como, na mente alem\u00e3, o car\u00e1ter \u00fanico do Holocausto gera imunidade para o Estado de Israel n\u00e3o apenas face \u00e0 desaprova\u00e7\u00e3o alem\u00e3, mas tamb\u00e9m face ao direito internacional, \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica emitida por J\u00fcrgen Habermas, juntamente com outras tr\u00eas pessoas, sob o t\u00edtulo de \u201cPrinc\u00edpios de solidariedade\u201d, pouco mais de um m\u00eas ap\u00f3s 7 de outubro de 2023, quando a destrui\u00e7\u00e3o israelense de Gaza j\u00e1 estava muito avan\u00e7ada[17]. Nela Habermas fala de um \u201cataque do Hamas que n\u00e3o pode ser superado em crueldade\u201d (\u201cden an Grausamkeit nicht zu \u00fcberbietenden Angriff der Hamas\u201d; na sua pr\u00f3pria tradu\u00e7\u00e3o para ingl\u00eas, a frase \u00e9 vertida, sup\u00f5e-se que por raz\u00f5es t\u00e1ticas, como \u201cHamas\u2019 unparalleled atrocity\u201d), comparando esta organiza\u00e7\u00e3o, embora de forma impl\u00edcita, com o \u00e2mbito nazi, de modo que o que ele chama \u201ca resposta de Israel\u201d n\u00e3o pode ser t\u00e3o \u201ccruel\u201d como o est\u00edmulo do Hamas. A seguir, Habermas declara que a \u201crepres\u00e1lia\u201d est\u00e1 \u201cjustificada em princ\u00edpio\u201d sem mencionar nenhuma lei internacional que possa estabelecer limites a essa repres\u00e1lia, para afirmar imediatamente de forma apod\u00edtica que \u201capesar de toda a preocupa\u00e7\u00e3o com o destino da popula\u00e7\u00e3o palestina\u201d, preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aparece em nenhum lugar nos seus \u201cprinc\u00edpios de solidariedade\u201d, \u201cos crit\u00e9rios de ju\u00edzo se desvanecem por completo, quando se atribuem inten\u00e7\u00f5es genocidas \u00e0s a\u00e7\u00f5es de Israel\u201d, j\u00e1 que estas \u201cn\u00e3o justificam de modo algum as rea\u00e7\u00f5es antissemitas, especialmente na Alemanha\u201d (e menos em outros lugares?). Uma vez identificada a atribui\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es genocidas como antissemitas, a declara\u00e7\u00e3o conclui: \u201cTodos aqueles no nosso pa\u00eds que cultivaram sentimentos e convic\u00e7\u00f5es antissemitas sob todo o tipo de pretextos e agora veem uma oportunidade bem-vinda para os expressar sem inibi\u00e7\u00f5es devem acatar isto\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, em nenhum outro lugar se levaram a cabo debates sobre se o massacre de Gaza por parte de Israel cumpre alguma defini\u00e7\u00e3o legal de genoc\u00eddio com o mesmo sofisma impass\u00edvel que na Alemanha, como se importasse muito se uma matan\u00e7a massiva, altamente tecnol\u00f3gica e profundamente assim\u00e9trica de uma popula\u00e7\u00e3o indefesa e a destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica das suas condi\u00e7\u00f5es materiais de vida \u00e9 tecnicamente um genoc\u00eddio ou simplesmente algo que fica \u00e0 porta de o ser. O simples racioc\u00ednio abdutivo \u2014 \u201cse parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, ent\u00e3o provavelmente \u00e9 um pato\u201d \u2014 n\u00e3o penetra nas fortifica\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o de pedra alem\u00e3o, protegido das emo\u00e7\u00f5es por uma estranha combina\u00e7\u00e3o de <em>Sachlichkeit <\/em>[objetividade] e covardia. Especialmente quando o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a <em>Staatsraison <\/em>alem\u00e3, haver\u00e1 sempre um advogado que emita um parecer pericial tranquilizador, por muito estranho que seja; na Alemanha sempre houve abund\u00e2ncia de advogados servi\u00e7ais. Um exemplo disso \u00e9 uma destacada acad\u00eamica especialista em direito internacional, codiretora de um instituto de investiga\u00e7\u00e3o ainda mais prestigiado, especializado nesta disciplina. Juntamente com outros juristas, representou a Alemanha no Tribunal Internacional de Justi\u00e7a, cuja sede o Estado alem\u00e3o havia comparecido, sem necessidade alguma de o fazer, para argumentar, seguindo a linha de Habermas, que independentemente do que estivesse a ocorrer em Gaza, n\u00e3o era nem podia ser um genoc\u00eddio. Uma das raz\u00f5es pelas quais isso tinha que ser assim foi argumentada mais tarde por esta acad\u00eamica num artigo publicado no <em>Frankfurter Allgemeine Zeitung<\/em>co escrito com um colega israelense[18]. O artigo afirmava que, embora fosse certo que os principais ministros do governo israelense tinham expressado publicamente a sua firme inten\u00e7\u00e3o de exterminar a popula\u00e7\u00e3o de Gaza, bombardeando-a e matando-a \u00e0 fome, havia que ter em conta que o ex\u00e9rcito israelense, que afinal insiste em ser \u201co ex\u00e9rcito mais \u00e9tico do mundo\u201d, era conhecido por rejeitar as ordens que infringiam o direito humanit\u00e1rio de guerra. Cito textualmente: \u201cNa pr\u00e1tica, as t\u00e1ticas b\u00e9licas e as opera\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de Israel s\u00e3o determinadas quase exclusivamente pelo ex\u00e9rcito. H\u00e1 ind\u00edcios (!!) de que o ex\u00e9rcito leva muito a s\u00e9rio a sua obriga\u00e7\u00e3o de cumprir a lei dos conflitos armados. Al\u00e9m disso, as atividades do ex\u00e9rcito israelense n\u00e3o s\u00e3o determinadas apenas pelas ordens dos seus generais. Um elemento caracter\u00edstico da cultura das For\u00e7as de Defesa de Israel (FDI) \u00e9 a ampla discricionariedade que \u00e9 concedida aos comandantes e soldados de menor patente. Um ataque contra a infraestrutura civil est\u00e1 sujeito a uma cadeia de aprova\u00e7\u00f5es, mas <em>de fato<\/em> a decis\u00e3o final recai nos soldados no terreno\u201d[19].<\/p>\n<p>A guerra de Israel contra o povo de Gaza (para Habermas, simplesmente uma \u201cpopula\u00e7\u00e3o\u201d) deixou e continua a deixar ru\u00ednas por toda a parte, sem d\u00favida na pr\u00f3pria Gaza, onde se estima que s\u00f3 remover os escombros levar\u00e1 uma d\u00e9cada ou mais, mas tamb\u00e9m em Israel, cujos cidad\u00e3os j\u00e1 come\u00e7aram a abandonar o seu pa\u00eds em massa. O mesmo acontece com os pa\u00edses que continuam a ajudar Israel a levar a cabo e a legitimar o seu genoc\u00eddio em Gaza, pa\u00edses nos quais seria urgente restaurar o sentido da integridade p\u00fablica e da moralidade pol\u00edtica, enquanto isso ainda for poss\u00edvel; e com as institui\u00e7\u00f5es do direito internacional, que ser\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1rias agora que o mundo luta por uma nova ordem multipolar[20]. Ser\u00e3o escritos e devem escrever-se muitos mais livros sobre o \u201cmundo depois de Gaza\u201d. Mas seja qual for esse mundo, quando talvez se materialize, Gaza far\u00e1 sempre parte dele, como as col\u00f4nias e a economia escravista da era do Iluminismo, como Auschwitz e Vars\u00f3via, como Hiroshima e Nagasaki, como o Vietn\u00e3 e todos esses outros lugares de assassinatos em massa em grande escala, que tantas vezes nos fazem desesperar de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] O 25 de novembro de 2025, a Max Planck Society, a principal rede institucional n\u00e3o universit\u00e1ria dedicada \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da Alemanha, informou no seu site sobre um estudo elaborado pelo seu Institute for Demographic Research (\u201cGaza: um estudo revela uma perda de vidas e uma queda da esperan\u00e7a de vida sem precedentes\u201d). Utilizando sofisticadas t\u00e9cnicas de estima\u00e7\u00e3o, a equipe de investiga\u00e7\u00e3o descobriu que \u201co n\u00famero atual de v\u00edtimas mortais violentas [da guerra de Gaza] provavelmente supera as 100.000\u201d, com estimativas que oscilam entre 100.000 e 112.000 (G\u00f3mez-Ugarte et al., 2025). O estudo e o fato de a Max Planck Society obviamente n\u00e3o poder evitar a publica\u00e7\u00e3o deste relat\u00f3rio s\u00e3o ainda mais relevantes, se se tiver em conta que esta institui\u00e7\u00e3o despediu em outubro de 2023 um professor visitante australiano por expressar em privado a sua satisfa\u00e7\u00e3o pela fuga da pris\u00e3o ao ar livre dirigida pelo Hamas em Gaza.<\/p>\n<p>[2] Parece justificado concluir, a partir da sua not\u00e1vel resili\u00eancia, que o Hamas continua a gozar de um amplo apoio entre a popula\u00e7\u00e3o de Gaza. A 30 de outubro de 2025, o Frankfurter Allgemeine Zeitung informou sobre uma sondagem realizada entre os habitantes de Gaza, com uma sofistica\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica impressionante, segundo a qual o apoio popular ao Hamas aumentou durante os dois anos da campanha genocida israelita (\u201cDie Hamas bleibt unter Pal\u00e4stinensern st\u00e4rkste Kraft\u201d, p. 5). Por exemplo, o estudo descobriu que 69 por cento da popula\u00e7\u00e3o palestiniana de Gaza e da Cisjord\u00e2nia era contra o desarmamento do Hamas (87 por cento na Cisjord\u00e2nia e 55 por cento na Faixa de Gaza); apenas 29 por cento no total era a favor do desarmamento.<\/p>\n<p>[3] Barghouti n\u00e3o se encontrava inclu\u00eddo entre os dois mil palestinianos libertados a 13 de outubro de 2015 da \u201cdeten\u00e7\u00e3o administrativa\u201d imposta por Israel, isto \u00e9, da situa\u00e7\u00e3o de encarceramento ilimitado e sem julgamento, contemplada na primeira fase do \u201cPlano de Paz\u201d de Trump. Claro, o Plano n\u00e3o prev\u00ea nenhum papel para o inimigo, salvo que entregue as armas e, portanto, permita que as For\u00e7as de Defesa de Israel o matem.<\/p>\n<p>[4] Sobre o mesmo tema, ver Andersen et al. (2024), della Porta (2024; 2025a, 2025b), Friese (2024), Gysi (2016), Kundnani (2025) e T\u00fcbner-Hansen (2024a e 2025b).<\/p>\n<p>[5] Como constatei depois de terminar este manuscrito, grande parte do que digo aqui coincide com o recente ensaio de Omer Bartov, \u201cWir haben nichts gewusst\u201d, Berlin Review, 10 de outubro de 2025.<\/p>\n<p>[6] Uma mera resolu\u00e7\u00e3o do Bundestag n\u00e3o \u00e9, tecnicamente, mais do que uma declara\u00e7\u00e3o, o que significa que n\u00e3o \u00e9 legalmente vinculativa para ningu\u00e9m. No entanto, tal e como funciona a pol\u00edtica alem\u00e3, em particular atrav\u00e9s do dispositivo da obedi\u00eancia antecipada, na pr\u00e1tica funciona como se se tratasse de legisla\u00e7\u00e3o formal, a qual n\u00e3o est\u00e1 sujeita a revis\u00e3o judicial. Sobre a \u201cfabrica\u00e7\u00e3o de consentimento\u201d (Chomsky) burocr\u00e1tica de corte alem\u00e3o, ver o meu artigo sobre a Bundesamt f\u00fcr Verfassungsschutz [Servi\u00e7o Federal Alem\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o] publicado na London Review of Books (2024).<\/p>\n<p>[7] Se a defini\u00e7\u00e3o da IHRA confirma este extremo, \u00e9 discut\u00edvel, mas irrelevante: as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e as organiza\u00e7\u00f5es privadas alem\u00e3s interpretam-no assim e obrigam os cidad\u00e3os a fazer o mesmo.<\/p>\n<p>[8] Para uma compila\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas dos textos centrais do \u201cdebate dos historiadores\u201d, ver Knowlton e Cates (1993).<\/p>\n<p>[9] Para uma interessante vis\u00e3o de \u201cHabermas como pensador \u00e9tnico por excel\u00eancia\u201d, ver Irfan Ahmad (2025). Tamb\u00e9m numa perspectiva \u201cp\u00f3s-colonial\u201d, ver Saffari e Shabani (2025).<\/p>\n<p>[10] Mencionar outras v\u00edtimas da maquinaria de exterm\u00ednio nazi-alem\u00e3 ao mesmo tempo que o Holocausto \u00e9 permitido pela lei, mas n\u00e3o se faz num ambiente social educado. A Erinnerungskultur alem\u00e3, at\u00e9 hoje, simplesmente n\u00e3o tem em conta os 2,8 milh\u00f5es de civis polacos n\u00e3o judeus, que foram assassinados sob a ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3, al\u00e9m dos 3 milh\u00f5es de judeus polacos. (Esta \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais as rela\u00e7\u00f5es entre a Alemanha e a Pol\u00f4nia s\u00e3o t\u00e3o m\u00e1s at\u00e9 hoje, apesar de ambos os pa\u00edses serem membros da Uni\u00e3o Europeia). A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior no que respeita aos 13-15 milh\u00f5es de cidad\u00e3os n\u00e3o combatentes da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (dos quais 2,7 milh\u00f5es s\u00e3o considerados judeus), que foram assassinados pela Wehrmacht e pelas SS atr\u00e1s da linha da frente, e aos aproximadamente 4 milh\u00f5es de soldados do Ex\u00e9rcito Vermelho que morreram em campos de prisioneiros de guerra alem\u00e3es (mais de metade da totalidade dos prisioneiros de guerra sovi\u00e9ticos) e como trabalhadores escravos empregados nas f\u00e1bricas alem\u00e3s. Quando a Alemanha recorda o genoc\u00eddio nazi, fazendo v\u00e1rias vezes ao ano, exclusivamente recorda o Holocausto, que \u00e9 o que vem \u00e0 mente da cidadania, circunst\u00e2ncia que de uma maneira francamente estranha diminui afinal a dimens\u00e3o \u00fanica e horripilante da indiscriminada matan\u00e7a nazi-alem\u00e3.<\/p>\n<p>[11] N\u00e3o h\u00e1 dados sobre a frequ\u00eancia com que o Artigo 130 \u00e9 invocado nos processos penais, mas para cumprir o seu prop\u00f3sito, pode ser suficiente que este simplesmente exista.<\/p>\n<p>[12] Na verdade, um sacril\u00e9gio. As conota\u00e7\u00f5es religiosas s\u00e3o evidentes. Quando Mois\u00e9s perguntou a Deus pelo seu nome, a resposta foi \u201cEu sou o que sou\u201d, ou seja, Deus \u00e9 \u00fanico no seu g\u00eanero. Da\u00ed se deriva a proibi\u00e7\u00e3o de fazer uma \u201cimita\u00e7\u00e3o\u201d de Deus, isto \u00e9, algo que pretenda ser \u201ccomo\u201d ele, embora nada possa s\u00ea-lo. O incumprimento deste mandato \u00e9 um delito de lesa-majestade: \u201cPorque eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus ciumento\u201d. O pensamento alem\u00e3o bienpensant insiste que o Holocausto \u00e9 e continuar\u00e1 a ser o crime humano definitivo por excel\u00eancia, que n\u00e3o pode conhecer concorr\u00eancia alguma.<\/p>\n<p>[13] Relativierung, como em: \u201cden Holocaust relativieren\u201d: relativizar em contraposi\u00e7\u00e3o a absolutizar no sentido de separar do contexto ou singularizar, que \u00e9 o que se exige.<\/p>\n<p>[14] Comumente conhecida como sociologia interpretativa.<\/p>\n<p>[15] Termo t\u00e9cnico utilizado pelo ex\u00e9rcito israelita para se referir ao assassinato sistem\u00e1tico de pessoas de Gaza suspeitas de serem ou de estarem a tornar-se l\u00edderes de um futuro levantamento, utilizando para isso m\u00edsseis de precis\u00e3o, drones ou bombardeamentos seletivos.<\/p>\n<p>[16] No entanto, n\u00e3o \u00e9 um delito pun\u00edvel situar a fuga da pris\u00e3o do Hamas de 7 de outubro de 2023 na mesma categoria que o Holocausto, algo que fazem constantemente os pol\u00edticos e jornalistas israelitas e alem\u00e3es, quando descrevem estereotipicamente o 7 de outubro como \u201co maior assassinato em massa de judeus desde o Holocausto\u201d, tornando-o num assassinato de judeus de corte nazi pelo simples fato de serem judeus.<\/p>\n<p>[17] \u201cPrinciples of Solidarity\u201d, Frankfurter Allgemeine Zeitung, 13 de novembro de 2023.<\/p>\n<p>[18] \u201cAngriff auf Israel: Was hei\u00dft hier Genozid?\u201d, Frankfurter Allgemeine Zeitung, 30 de janeiro de 2024.<\/p>\n<p>[19] Tradu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Compare-se com os numerosos relatos da imprensa internacional sobre as atrocidades cometidas pelas For\u00e7as de Defesa de Israel, incluindo a tortura sistem\u00e1tica de prisioneiros, alguns dos quais Fassin cita, cap. 4, pp. 37-45. Cada dia aparecem mais, incluindo v\u00eddeos gravados por soldados dos seus massacres e mostrados com orgulho no TikTok. Neste contexto, \u00e9 de destacar o artigo publicado no The New Yorker a 25 de abril de 2025 sobre os advogados militares americanos, que colaboram com o departamento jur\u00eddico das FDI para aprender a reduzir os padr\u00f5es atuais do direito internacional humanit\u00e1rio. Ver Colin Jones, \u201cWhat\u2019s Legally Allowed in War. How U.S. military lawyers see Israel\u2019s invasion of Gaza \u2013 and the public\u2019s reaction to it \u2013 as a dress rehearsal for a potential conflict with a foreign power like China\u201d. Aparentemente a inten\u00e7\u00e3o dos americanos \u00e9 aprender com as FDI como argumentar \u201cque as leis da guerra s\u00e3o muito mais permissivas do que muitos [advogados] e a opini\u00e3o p\u00fablica parecem apreciar\u201d. Segundo o artigo, \u201cGaza n\u00e3o s\u00f3 parece um ensaio geral do tipo de combate que os soldados americanos podem enfrentar\u201d, cuja execu\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria exigiria padr\u00f5es legais menos rigorosos, mas pode servir como \u201cum teste da toler\u00e2ncia da opini\u00e3o p\u00fablica americana dos n\u00edveis de morte e destrui\u00e7\u00e3o, que acarretam este tipo de guerras\u201d. O que vem \u00e0 mente aqui n\u00e3o \u00e9 tanto a China como um pa\u00eds como a Venezuela, objeto de uma invas\u00e3o americana lan\u00e7ada para erradicar os \u201cnarcoterroristas\u201d.<\/p>\n<p>[20] No entanto, a aprova\u00e7\u00e3o pela ONU do \u201cPlano de paz\u201d de Trump para a Palestina \u00e9 um precedente terr\u00edvel.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, contribua com um PIX para <strong>outrosquinhentos@outraspalavras.net<\/strong> e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico.<\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Gaza: H\u00e1 luz no fim do t\u00fanel para o Ocidente? appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nikolas-ferreira-esta-em-brasilia-apos-marcha-audaciosa-por-bolsonaro-moraes-monitora-apos-desmonte-de-acampamentos-sob-risco-de-novo-8-1\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Nikolas Ferreira est\u00e1 em Bras\u00edlia ap\u00f3s marcha auda...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pejotizacao-armadilha-para-o-brasil\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/call-center-mangabeira-e-obras-no-jose-americo-foto-kleide-teixeira-681-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Pejotiza\u00e7\u00e3o, armadilha para o Brasil<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/clubes-sociais-negros-como-espacos-de-universalidade-negra\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Clubes Sociais Negros como Espa\u00e7os de Universalida...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/violencia-politica-de-genero-cotidiano-de-mulheres-que-ocupam-a-politica-na-camara-de-curitiba\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Viol\u00eancia pol\u00edtica de g\u00eanero: cotidiano de mulhere...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o haver\u00e1 mais vida na Faixa \u2013 casas reconstru\u00eddas, escolas, hospitais \u2013, porque Israel n\u00e3o pode tolerar a mem\u00f3ria do que praticou. Igualmente brutais s\u00e3o a censura e o sil\u00eancio frente ao terror. H\u00e1 reden\u00e7\u00e3o enquanto o sionismo existir?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/gaza-luz-no-fim-do-tunel-para-o-ocidente\/\">Gaza: H\u00e1 luz no fim do t\u00fanel para o Ocidente?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":80067,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[14427,5511,9202,2687,2929,53,2441],"tags":[],"class_list":["post-80066","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-antissionismo","category-capa","category-crimes-de-israel","category-crise-civilizatoria","category-genocidio-em-gaza","category-netanyahu","category-sionismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80066"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80066\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}