{"id":80089,"date":"2026-03-26T18:21:24","date_gmt":"2026-03-26T21:21:24","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ia-como-a-china-esta-vencendo\/"},"modified":"2026-03-26T18:21:24","modified_gmt":"2026-03-26T21:21:24","slug":"ia-como-a-china-esta-vencendo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ia-como-a-china-esta-vencendo\/","title":{"rendered":"IA: Como a China est\u00e1 vencendo"},"content":{"rendered":"<figure><figcaption>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/The Conversation<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A China construiu uma vantagem estrutural no campo da intelig\u00eancia artificial que vai muito al\u00e9m da corrida por modelos de fronteira e os bilion\u00e1rios investimentos em infraestrutura. Um trabalho encomendado pela\u00a0Comiss\u00e3o de An\u00e1lise Econ\u00f4mica e de Seguran\u00e7a EUA-China\u00a0do Congresso dos Estados Unidos conseguiu mapear esta estrat\u00e9gia de forma pormenorizada. Para obter avan\u00e7os na corrida, as empresas e o governo chin\u00eas operam em sintonia por meio de dois circuitos de retroalimenta\u00e7\u00e3o que se refor\u00e7am mutuamente \u2014 um digital e um f\u00edsico. Juntos, ambos geram uma din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o de vantagens que independem do acesso a semicondutores avan\u00e7ados. \u00c9 precisamente essa estrutura de dois la\u00e7os que os controles de exporta\u00e7\u00e3o americanos n\u00e3o conseguem interceptar. O que temos a aprender com isso?<\/p>\n<p>O\u00a0documento, intitulado\u00a0<em>Two Loops: How China\u2019s Open AI Strategy Reinforces Its Industrial Dominance<\/em>\u00a0e assinado pela analista s\u00eanior Ngor Luong, foi publicado nesta semana. Em suas trinta p\u00e1ginas, o texto da comiss\u00e3o \u2014 um \u00f3rg\u00e3o independente do Congresso americano criado para monitorar as implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e de seguran\u00e7a da rela\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses \u2014 chega a conclus\u00f5es que desafiam a narrativa dominante sobre a corrida de IA. Ele nos mostra que o debate sobre vencedores e perdedores n\u00e3o se resume a quem tem o maior modelo ou o chip mais avan\u00e7ado. Mas quem souber implantar intelig\u00eancia artificial em maior escala na economia real, gerar mais dados propriet\u00e1rios com isso, e transformar esses dados em vantagem competitiva duradoura. Nessa corrida, a China saiu na frente de uma forma que Washington ainda n\u00e3o sabe como responder.<\/p>\n<h3><strong>O primeiro la\u00e7o: c\u00f3digo aberto como arma estrat\u00e9gica<\/strong><\/h3>\n<p>A aposta chinesa no c\u00f3digo aberto n\u00e3o foi uma concess\u00e3o \u00e0 necessidade nem um sinal de fraqueza tecnol\u00f3gica. Foi uma escolha estrat\u00e9gica deliberada, com ra\u00edzes na pol\u00edtica industrial do pa\u00eds desde pelo menos o\u00a0Plano Nacional de Desenvolvimento de IA de 2017, e que foi sendo refor\u00e7ada pelo\u00a014\u00ba Plano Quinquenal\u00a0e, mais recentemente, pela iniciativa \u201cAI+\u201d do Conselho de Estado, formalizada em agosto do ano passado. A l\u00f3gica \u00e9 elegante: se voc\u00ea n\u00e3o pode vencer na corrida pelo chip mais poderoso \u2014 devido \u00e0s restri\u00e7\u00f5es de exporta\u00e7\u00e3o americanas \u2014 , vencer\u00e1 tornando seus modelos t\u00e3o acess\u00edveis, t\u00e3o baratos e t\u00e3o adapt\u00e1veis que o mundo inteiro passe a us\u00e1-los, melhor\u00e1-los e redistribu\u00ed-los. E cada ciclo de uso gera mais itera\u00e7\u00f5es, mais deriva\u00e7\u00f5es, mais melhorias.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--45.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/14--45.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164350\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O resultado \u00e9 vis\u00edvel em n\u00fameros. Conforme an\u00e1lise da comiss\u00e3o, os modelos Qwen, da Alibaba,\u00a0j\u00e1 acumulam mais de cem mil derivados\u00a0na plataforma Hugging Face \u2014 o maior ecossistema de modelos abertos do mundo \u2014 , superando o Llama da Meta. Em agosto de 2025,\u00a0os modelos chineses ultrapassaram os americanos\u00a0em total de downloads na mesma plataforma. Entre novembro e dezembro daquele ano, sete dos dez modelos mais baixados eram chineses. E os desenvolvedores de todo o mundo fazem o\u00a0<em>upload<\/em>\u00a0de derivados de modelos chineses de volta \u00e0 plataforma quase duas vezes mais r\u00e1pido do que fazem com modelos americanos. A China n\u00e3o est\u00e1 apenas participando do ecossistema global de IA aberta. Est\u00e1, cada vez mais, definindo sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O diferencial de pre\u00e7os explica boa parte desse sucesso. O Kimi K2.5, da startup Moonshot AI,\u00a0custa quatro vezes menos\u00a0que o GPT-5.2 da OpenAI para desempenho equivalente \u2014 ambos com \u00edndice de intelig\u00eancia 47 na escala din\u00e2mica da plataforma Artificial Analysis. O DeepSeek, o modelo que no in\u00edcio de 2025 surpreendeu o mundo ao atingir desempenho pr\u00f3ximo ao dos gigantes americanos com fra\u00e7\u00e3o do custo computacional,\u00a0foi eleito pela revista Time\u00a0como uma das melhores inven\u00e7\u00f5es de 2025. A Minimax, outra startup chinesa,\u00a0abriu capital na Bolsa de Hong Kong em janeiro\u00a0com o pre\u00e7o das a\u00e7\u00f5es dobrando no primeiro dia de negocia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o sinais de um setor em dificuldades. S\u00e3o sinais de um ecossistema em plena acelera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo chin\u00eas n\u00e3o apenas tolera essa din\u00e2mica \u2014 ele a financia ativamente. Pelo lado da oferta, prov\u00edncias como Gansu, Guizhou e Mong\u00f3lia Interior\u00a0oferecem cortes de at\u00e9 50% nas contas de eletricidade para data centers. Pelo lado da demanda, Pequim subsidia o acesso a modelos j\u00e1 baratos por meio de\u00a0vouchers de API\u00a0e compra direta de licen\u00e7as de modelos pr\u00e9-treinados para pequenas e m\u00e9dias empresas. O objetivo declarado \u00e9 simples: maximizar a ado\u00e7\u00e3o, gerar dados, minimizar as barreiras de entrada e usar a abertura como instrumento para estabelecer padr\u00f5es t\u00e9cnicos que o mundo inteiro precisar\u00e1 seguir.<\/p>\n<h3><strong>O segundo la\u00e7o: f\u00e1bricas como m\u00e1quinas de produzir dados<\/strong><\/h3>\n<p>Se o primeiro la\u00e7o \u00e9 digital, o segundo \u00e9 f\u00edsico \u2014 e \u00e9 a\u00ed que a vantagem chinesa se torna mais dif\u00edcil de replicar ou de abalar. A premissa \u00e9 que \u00e0 medida que os dados dispon\u00edveis publicamente na internet se tornam um recurso finito, o pr\u00f3ximo diferencial competitivo no desenvolvimento de IA ser\u00e1 a capacidade de gerar dados propriet\u00e1rios de alta qualidade a partir do uso real em contextos espec\u00edficos. O Epoch AI, instituto de pesquisa independente,\u00a0estima que os dados de alta qualidade\u00a0dispon\u00edveis publicamente para treinamento de modelos de linguagem podem se esgotar entre 2026 e 2032. Quando isso acontecer, quem tiver mais dados industriais propriet\u00e1rios levar\u00e1 vantagem decisiva.<\/p>\n<p>E a China tem, nesse quesito, uma combina\u00e7\u00e3o de ativos que nenhum outro pa\u00eds consegue replicar na mesma escala. S\u00e3o\u00a0mais de 30 mil f\u00e1bricas inteligentes\u00a0conectadas criando uma uma infraestrutura massiva de internet das coisas (<em>IoT<\/em>) e redes 5G que gera milh\u00f5es de pontos simult\u00e2neos de coleta de dados. Isso \u00e9 garantido por empresas de rob\u00f3tica como a\u00a0AgiBot\u00a0e a\u00a0Fourier, que liberam\u00a0<em>datasets<\/em>\u00a0abertos de treinamento para IA incorporada ao mundo f\u00edsico.\u00a0C\u00e2meras HD em linhas de produ\u00e7\u00e3o\u00a0permitem que sistemas de vis\u00e3o computacional detectem defeitos em tempo real, reduzindo taxas de falha em equipamentos e economizando centenas de milhares de d\u00f3lares anualmente em uma \u00fanica f\u00e1brica a partir de manuten\u00e7\u00e3o preditiva.<\/p>\n<p>A implementa\u00e7\u00e3o de IA na base industrial n\u00e3o apenas resolve problemas operacionais imediatos. Ele gera dados que alimentam modelos melhores, que por sua vez viabilizam aplica\u00e7\u00f5es ainda mais sofisticadas, que geram dados ainda mais ricos. Cada ciclo \u00e9 mais r\u00e1pido e mais barato que o anterior \u2014 e, crucialmente, nenhum deles depende de acesso aos chips mais avan\u00e7ados do mundo. Um modelo de inspe\u00e7\u00e3o de qualidade numa f\u00e1brica em Guangdong n\u00e3o precisa da escala computacional de um GPT-5. Precisa de um pequeno modelo de vis\u00e3o computacional ajustado com dados de linha de produ\u00e7\u00e3o, rodando em hardware de borda. Isso a China tem de sobra.<\/p>\n<p>Pequim entende o valor estrat\u00e9gico desses dados h\u00e1 anos. Isso \u00e9 poss\u00edvel constatar ao listarmos as principais medidas cronologicamente:<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/HUCITEC-basaglia4-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/HUCITEC-basaglia4-2.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/08\/31182110\/HUCITEC-basaglia4-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<ul>\n<li>2017: O\u00a0presidente Xi Jinping descreveu os dados\u00a0como \u201cum novo fator de produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/li>\n<li>2020: O\u00a0Comit\u00ea Central do Partido Comunista formalizou o dado\u00a0como o quinto fator de produ\u00e7\u00e3o \u2014 ao lado de terra, trabalho, capital e tecnologia.<\/li>\n<li>2022: \u201c20 Medidas sobre Dados\u201d.<\/li>\n<li>2023: cria\u00e7\u00e3o da\u00a0Administra\u00e7\u00e3o Nacional de Dados\u00a0e a populariza\u00e7\u00e3o das bolsas de negocia\u00e7\u00e3o de produtos de dados.<\/li>\n<li>2023: China \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo a ter\u00a0padr\u00f5es cont\u00e1beis nacionais para ativos de dados\u00a0\u2014 permitindo que empresas reconhe\u00e7am seus dados como ativos intang\u00edveis ou estoque nos balan\u00e7os patrimoniais.<\/li>\n<li>2025: lan\u00e7amento da plataforma nacional para registrar e compartilhar\u00a0Recursos de Dados P\u00fablicos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Olhando tudo isso em perspectiva fica clara a constru\u00e7\u00e3o met\u00f3dica de uma infraestrutura institucional para transformar vantagem de implementa\u00e7\u00e3o em ativo estrat\u00e9gico duradouro. Nenhum outro pa\u00eds chegou perto de fazer isso de forma sistem\u00e1tica. O Brasil tem dados. A \u00cdndia tem dados. A Indon\u00e9sia tem dados. Mas nenhum deles construiu ainda o aparato para transformar esses dados em ativo cont\u00e1bil, em pol\u00edtica industrial e em vantagem competitiva de IA ao mesmo tempo. A China n\u00e3o descobriu uma f\u00f3rmula m\u00e1gica \u2014 ela simplesmente levou a s\u00e9rio uma pergunta que os outros ainda est\u00e3o adiando.<\/p>\n<h3><strong>O elo entre os dois la\u00e7os: os pequenos modelos<\/strong><\/h3>\n<p>A conex\u00e3o entre os dois la\u00e7os n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia, mas \u00e9 o ponto mais original e revelador da an\u00e1lise de Luong. O mecanismo que os une \u00e9 a emergente predomin\u00e2ncia dos pequenos modelos de linguagem \u2014 os SLMs, na sigla em ingl\u00eas \u2014 sobre os grandes modelos de fronteira nas aplica\u00e7\u00f5es industriais e comerciais do mundo real.<\/p>\n<p>A narrativa dominante na IA americana continua centrada na escala a partir de modelos cada vez maiores, treinados em quantidades crescentes de dados e computa\u00e7\u00e3o, produzindo capacidades cada vez mais impressionantes em casos cada vez mais complexos. Essa l\u00f3gica das \u201cleis de escalonamento\u201d orientou anos de investimentos bilion\u00e1rios. Mas pesquisadores da Nvidia publicaram um\u00a0<em>paper<\/em>\u00a0em 2025 argumentando que pequenos modelos \u201clidam com a maior parte das subtarefas operacionais\u201d em sistemas de IA ag\u00eantica, com custos de dez a trinta vezes menores que as alternativas de fronteira. O futuro, dizem eles, \u00e9 \u201cheterog\u00eaneo\u201d: grandes modelos para racioc\u00ednio complexo ocasional, pequenos modelos especializados para a maioria das aplica\u00e7\u00f5es implantadas. SLMs favorecem ecossistemas abertos como o chin\u00eas, democratizando adapta\u00e7\u00f5es industriais r\u00e1pidas e baratas a partir de bases pr\u00e9-treinadas, dando vantagem estrutural \u00e0 China.<\/p>\n<p>O\u00a0modelo mais baixado do Hugging Face no final de 2025\u00a0n\u00e3o era um grande modelo de fronteira. Era o Tarsier2-Recap-7b, um pequeno modelo especializado em legendagem de v\u00eddeo, desenvolvido pela ByteDance \u2014 a empresa por tr\u00e1s do TikTok \u2014 a partir de um ajuste fino do Qwen2-VL-7B da Alibaba. Um ecossistema que funciona assim \u2014 modelo-base aberto, especializa\u00e7\u00e3o guiada pela comunidade, itera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida \u2014 est\u00e1 otimizado para produzir exatamente o tipo de IA que a pr\u00f3xima fase da competi\u00e7\u00e3o vai exigir.<\/p>\n<h3><strong>O ponto cego de Washington<\/strong><\/h3>\n<p>O que acontece quando a pol\u00edtica industrial de um pa\u00eds \u00e9 calibrada para combater uma amea\u00e7a que j\u00e1 passou? O autor do estudo \u00e9 direto ao apontar o que considera uma falha estrat\u00e9gica no desenho da resposta dos EUA. Os controles de exporta\u00e7\u00e3o americanos foram calibrados para atingir o primeiro la\u00e7o: restringindo o acesso a chips avan\u00e7ados, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 limitar a capacidade chinesa de treinar grandes modelos de fronteira. \u00c9 uma pol\u00edtica que faz sentido dentro de sua pr\u00f3pria l\u00f3gica. Mas \u00e9 uma l\u00f3gica que pode estar errada ou, no m\u00ednimo, incompleta.<\/p>\n<p>O segundo la\u00e7o \u2014 gera\u00e7\u00e3o de dados industriais por implementa\u00e7\u00e3o em escala \u2014 opera com computa\u00e7\u00e3o menos avan\u00e7ada, modelos abertos dispon\u00edveis globalmente e vantagem acumulada por aplica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por pr\u00e9-treinamento. Nada disso \u00e9 estancado por restri\u00e7\u00f5es a exporta\u00e7\u00f5es de chips. E \u00e9 exatamente nesse segundo la\u00e7o que a vantagem chinesa \u00e9 mais s\u00f3lida e mais dif\u00edcil de replicar.<\/p>\n<p>A resposta americana tem sido fragmentada. A OpenAI\u00a0lan\u00e7ou seus primeiros modelos\u00a0de peso aberto desde o GPT-2 em agosto de 2025, depois que seu CEO\u00a0Sam Altman admitiu\u00a0que a empresa esteve \u201cno lado errado da hist\u00f3ria\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao c\u00f3digo aberto. A Nvidia\u00a0lan\u00e7ou o Nemotron 3 agora em mar\u00e7o. O Plano de A\u00e7\u00e3o de IA de 2025 do governo Trump\u00a0reconhece a import\u00e2ncia dos modelos abertos. O projeto\u00a0ATOM, iniciativa do setor, tenta fomentar um ecossistema americano competitivo. Mas o principal campe\u00e3o do ecossistema aberto americano \u2014 a Meta \u2014 est\u00e1 em retirada: seu pr\u00f3ximo modelo de grande escala, codinome \u201cAvocado\u201d, dever\u00e1 adotar abordagem fechada de API, abandonando os downloads de pesos que definiram a fam\u00edlia Llama. A ironia n\u00e3o escapa ao relat\u00f3rio: a Meta est\u00e1 fechando seus modelos em parte porque empresas chinesas, especialmente a DeepSeek, usaram a arquitetura aberta do Llama para acelerar suas pr\u00f3prias capacidades. O ecossistema aberto americano est\u00e1 sendo corro\u00eddo pelo sucesso da estrat\u00e9gia que tentava combater.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros gaps identificados pelo relat\u00f3rio. N\u00e3o existe equivalente americano ao esfor\u00e7o sistem\u00e1tico da China de converter implementa\u00e7\u00e3o industrial em ativo de dados. Os investimentos americanos \u2014 desde os incentivos do CHIPS Act at\u00e9 os financiamentos da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Ci\u00eancias \u2014 foram direcionados majoritariamente ao desenvolvimento de modelos de fronteira, n\u00e3o \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o da aplica\u00e7\u00e3o no mundo real. N\u00e3o h\u00e1 m\u00e9tricas padronizadas para medir como modelos est\u00e3o sendo usados em solu\u00e7\u00f5es industriais. E a possibilidade de que a IA incorporada ao mundo f\u00edsico represente um caminho alternativo v\u00e1lido para intelig\u00eancia artificial geral \u2014 uma via que a China est\u00e1 ativamente explorando em laborat\u00f3rios, f\u00e1bricas e centros de pesquisa \u2014 recebe aten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica m\u00ednima em Washington.<\/p>\n<h3><strong>O que est\u00e1 em jogo para o resto do mundo<\/strong><\/h3>\n<p>O relat\u00f3rio de Luong foi escrito de uma perspectiva de seguran\u00e7a nacional americana. Mas suas implica\u00e7\u00f5es para os demais pa\u00edses \u2014 especialmente para o Sul Global \u2014 s\u00e3o igualmente significativas, mesmo que o texto n\u00e3o as desenvolva diretamente. O que seu trabalho n\u00e3o consegue responder \u00e9 se a vantagem estrutural vai de fato se materializar, ou se vai esbarrar nos mesmos gargalos que frearam outras apostas chinesas de longo prazo \u2014 a rigidez burocr\u00e1tica, a autocensura que contamina os dados, a desconfian\u00e7a internacional que encarece a ado\u00e7\u00e3o fora da \u00f3rbita chinesa. O relat\u00f3rio \u00e9 convincente no diagn\u00f3stico. Nas proje\u00e7\u00f5es \u00e9 mais otimista sobre a China do que a evid\u00eancia dispon\u00edvel talvez justifique.<\/p>\n<p>O que o pesquisador sustenta s\u00e3o os riscos de seguran\u00e7a para os EUA. Segundo ele, a domin\u00e2ncia chinesa no ecossistema global de IA aberta significa que pa\u00edses em desenvolvimento que adotam modelos abertos \u2014 e o far\u00e3o, dada a rela\u00e7\u00e3o custo-desempenho imbat\u00edvel \u2014 est\u00e3o construindo sua infraestrutura de IA sobre funda\u00e7\u00f5es definidas em Pequim. Luong sustenta que arquiteturas, formatos de dados, caracter\u00edsticas de seguran\u00e7a e outras funcionalidades est\u00e3o sendo moldadas por escolhas t\u00e9cnicas e pol\u00edticas baseadas na estrat\u00e9gia chinesa. O NIST americano j\u00e1 identificou que os modelos DeepSeek s\u00e3o mais vulner\u00e1veis a riscos cibern\u00e9ticos que equivalentes americanos. Pesquisadores documentaram\u00a0mecanismos de autocensura em chatbots chineses\u00a0sobre temas politicamente sens\u00edveis.<\/p>\n<p>A assimetria de dados apontada no relat\u00f3rio \u00e9 estruturalmente an\u00e1loga \u00e0s depend\u00eancias de plataforma que o Sul Global j\u00e1 conhece. Modelos chineses melhoram com dados globais \u2014 cada desenvolvedor no Brasil, na Indon\u00e9sia ou na Nig\u00e9ria que usa o Qwen como base contribui, direta ou indiretamente, para o ecossistema. Mas os dados industriais e institucionais chineses permanecem fechados, protegidos por uma lei de seguran\u00e7a de dados que restringe o compartilhamento al\u00e9m-fronteiras. \u00c9 uma abertura assim\u00e9trica: o mundo contribui para a infraestrutura de IA da China, mas a China n\u00e3o devolve o equivalente segundo o estudo.<\/p>\n<p>Mas como tudo isso envolve mais software e menos hardware esta parece ser uma f\u00f3rmula mais alcan\u00e7\u00e1vel por outros pa\u00edses. Investir em dados gerados por pessoas e empresas e usar capacidade de processamento mais b\u00e1sica para o desenvolvimento de SLMs, focando em aplica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, n\u00e3o \u00e9 algo que exija investimentos comparados aos que as big techs est\u00e3o fazendo. Envolve muito mais um esfor\u00e7o de coordena\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o institucional entre atores de diversos segmentos do que milhares de chips funcionando em um data center gigante devorador de energia.<\/p>\n<p>Para pa\u00edses como o Brasil, que buscam construir ativamente suas estrat\u00e9gias de soberania digital e governan\u00e7a de IA, a leitura do relat\u00f3rio da comiss\u00e3o do Congresso oferece um mapa do terreno que vai muito al\u00e9m da rivalidade sino-americana. A pergunta que se imp\u00f5e n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cde quem ser\u00e3o os chips?\u201d ou \u201cquem regular\u00e1 as plataformas?\u201d. \u00c9 uma pergunta mais fundamental provoca a reflex\u00e3o sobre quem controlar\u00e1 a infraestrutura fundacional sobre a qual toda a IA do s\u00e9culo XXI ser\u00e1 constru\u00edda? Os dois la\u00e7os concebidos no texto de Luong sugerem que essa pergunta pode j\u00e1 estar sendo respondida \u2014 em f\u00e1bricas de Guangdong, em <em>datasets<\/em> de rob\u00f3tica de Xangai, e em centenas de milhares de modelos derivados circulando livremente pelo Hugging Face.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da comiss\u00e3o do Congresso americano foi escrito para Washington. Mas quem deveria l\u00ea-lo com mais aten\u00e7\u00e3o talvez sejam os pa\u00edses que v\u00e3o adotar esses modelos sem ter participado da decis\u00e3o de como eles foram constru\u00eddos, com quais dados, com quais valores embutidos e com quais aus\u00eancias deliberadas. Se n\u00e3o corrermos atr\u00e1s do preju\u00edzo, a pr\u00f3xima rodada da soberania digital n\u00e3o vai ser decidida em Bras\u00edlia, em Jacarta ou em Lagos. Vai ser decidida antes \u2014 no momento em que cada pa\u00eds escolhe, ou deixa de escolher, sobre qual funda\u00e7\u00e3o vai construir sua IA. E a China \u00e9 uma candidata cada vez mais forte a tornar isso uma op\u00e7\u00e3o palp\u00e1vel.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Ao desprezar objetivos fantasiosos, e apostar em c\u00f3digos abertos, Pequim driblou o bloqueio de chips. O que o Brasil pode aprender com isso<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/ia-como-a-china-esta-vencendo\/\">IA: Como a China est\u00e1 vencendo<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":80090,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[39601,41031,292,16860,23210,3385,2290,1228,13747,8918,27084,6592,14373,1482,5493,337],"tags":[],"class_list":["post-80089","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alibaba","category-alibaba7","category-china","category-chips","category-codigo-aberto","category-deepseek","category-guerra-comercial","category-inteligencia-artificial","category-nvidia","category-open-source","category-openai","category-robotica","category-sam-altman","category-sul-global","category-tecnologia-em-disputa","category-xi-jinping"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80089","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80089"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80089\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80090"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80089"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80089"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80089"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}