{"id":80366,"date":"2026-03-29T00:00:19","date_gmt":"2026-03-29T03:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-escancarar-a-misoginia-das-ditaduras\/"},"modified":"2026-03-29T00:00:19","modified_gmt":"2026-03-29T03:00:19","slug":"para-escancarar-a-misoginia-das-ditaduras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-escancarar-a-misoginia-das-ditaduras\/","title":{"rendered":"Para escancarar a misoginia das ditaduras"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1104\" height=\"802\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Marcha-del-dia-de-la-mujer-1984-por-Alicia-Damico-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Marcha-del-dia-de-la-mujer-1984-por-Alicia-Damico-1.jpg 1104w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/27181601\/Marcha-del-dia-de-la-mujer-1984-por-Alicia-Damico-1-300x218.jpg 300w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2026\/03\/27181601\/Marcha-del-dia-de-la-mujer-1984-por-Alicia-Damico-1-768x558.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1104px) 100vw, 1104px\"><figcaption>Foto: Alicia Sanguinetti<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Claudia Bacci <\/strong>para a coluna da Biblioteca Virtual do Pensamento Social<br \/><em>Edi\u00e7\u00e3o: Maur\u00edcio Ayer (TEL\/UnB), Projeto Caminho de Formiga.<\/em><\/p>\n<p>A elabora\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias coletivas dolorosas na Am\u00e9rica Latina se reativa a cada anivers\u00e1rio dos golpes de Estado e dos conflitos armados que atravessaram a regi\u00e3o nas d\u00e9cadas de 1960 a 1980. No Cone Sul, esses marcos recentes incluem os 60 anos do golpe no Brasil (1964-1985), os 50 anos dos golpes no Chile (1973-1990) e no Uruguai (1973-1985), e neste ano, os 50 anos do golpe na Argentina (1976-1983). Os regimes de terror pol\u00edtico-social e de espolia\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica impostos pelas ditaduras militares \u2013com ativa participa\u00e7\u00e3o de setores civis\u2013 deixaram marcas profundas em nossas sociedades e continuam produzindo disputas p\u00fablicas. No que segue, vou apresentar um dos n\u00f3s do passado ditatorial na regi\u00e3o: a viol\u00eancia de g\u00eanero no tratamento dos crimes das ditaduras.<\/p>\n<p>A conflu\u00eancia dessas comemora\u00e7\u00f5es nos lembra que, apesar da irradia\u00e7\u00e3o temporal e do alcance geopol\u00edtico desigual, as ditaduras tamb\u00e9m coordenaram pol\u00edticas sistem\u00e1ticas e transfronteiri\u00e7as de persegui\u00e7\u00e3o, tortura e exterm\u00ednio da oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, com apoio estrat\u00e9gico dos Estados Unidos, por meio do Plano Condor (Lessa, 2022).<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-38.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/1-38.png 680w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/12\/04164347\/15-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>As datas \u201cmemor\u00e1veis\u201d tamb\u00e9m nos recordam a mobiliza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica de diferentes setores sociais, locais e internacionais, ativos na demanda por justi\u00e7a e na elabora\u00e7\u00e3o de sentidos sobre o passado (Jelin, 2017: 161). Essa resist\u00eancia \u00e0s ditaduras foi impulsionada por organiza\u00e7\u00f5es de um amplo espectro social: familiares de pessoas presas e desaparecidas, grupos eclesiais ecum\u00eanicos, organiza\u00e7\u00f5es sindicais, profissionais e partid\u00e1rias, organiza\u00e7\u00f5es internacionais de prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e agrupa\u00e7\u00f5es de ativistas no ex\u00edlio.<\/p>\n<p>As mulheres participaram muito ativamente, liderando a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e integrando organismos de direitos humanos. Diante da centralidade que as for\u00e7as repressivas atribu\u00edam aos pap\u00e9is estereotipados de g\u00eanero, \u00e0 fam\u00edlia na ordem social e \u00e0 separa\u00e7\u00e3o entre os espa\u00e7os p\u00fablico e privado, m\u00e3es, esposas, av\u00f3s e familiares de pessoas desaparecidas ou sequestradas lutaram politizando seus pap\u00e9is sociais. Embora o \u201cfamilismo\u201d e o \u201cmaternalismo\u201d caracterizassem tanto a representa\u00e7\u00e3o social das ditaduras quanto a de quem as resistia (Jelin, 2017: 197), tamb\u00e9m podemos entend\u00ea-los como formas de mascarar estrat\u00e9gias pol\u00edticas de visibiliza\u00e7\u00e3o e den\u00fancia (Scheibe Wolff, 2015).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os primeiros anos de recupera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, quando a press\u00e3o do movimento de direitos humanos promoveu inst\u00e2ncias de responsabiliza\u00e7\u00e3o pelos crimes das ditaduras na regi\u00e3o (Hayner, 2011; Figari Lay\u00fas, 2023), no presente alguns governos da regi\u00e3o tentam instalar o esquecimento, a distor\u00e7\u00e3o e a nega\u00e7\u00e3o desses crimes. O ataque aos avan\u00e7os da justi\u00e7a e \u00e0 busca pela verdade n\u00e3o se limita aos setores mais ou menos radicalizados das \u201cnovas\u201d direitas regionais, pois converge com pol\u00edticas que buscam restaurar hierarquias tradicionais de g\u00eanero funcionais \u00e0 ordem econ\u00f4mico-pol\u00edtica capitalista atual por meio do desmantelamento de pol\u00edticas de g\u00eanero (Guti\u00e9rrez &amp; Oberti, 2024; Caminotti &amp; Tabbusch, 2021; Corr\u00eaa, 2022).<\/p>\n<p>As ditaduras perseguiram toda forma de transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social e cultural, desde as milit\u00e2ncias revolucion\u00e1rias at\u00e9 as correntes culturais de liberta\u00e7\u00e3o sexual, express\u00f5es sociais e culturais reprimidas por desafiarem a ordem pol\u00edtico-sexual-social (Cosse, 2025). Mulheres militantes pol\u00edticas e\/ou sociais sofreram formas espec\u00edficas de viol\u00eancia sexual e de g\u00eanero no marco das pol\u00edticas de terror e repress\u00e3o pol\u00edtica.[1] Apesar disso, as den\u00fancias de abusos sexuais e estupros contra mulheres, presentes desde os primeiros testemunhos de sobreviventes e ex-presxs pol\u00edticos, foram tardiamente reconhecidas no \u00e2mbito das diferentes inst\u00e2ncias de justi\u00e7a e de responsabiliza\u00e7\u00e3o (Green &amp; Quinalha, 2014; Memoria Abierta, 2012; Insausti, 2015; Vel\u00e1squez Nimatuj, 2020; De Giorgi, 2022; Sempol, 2025, entre muitos outros). Na Am\u00e9rica Latina, a viol\u00eancia de g\u00eanero e sexual constitui um dos n\u00f3s desses \u201cpassados que n\u00e3o passam\u201d.<\/p>\n<h3><strong>O direito a ter direitos<\/strong><\/h3>\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000, Charlotte Bunch destacou a import\u00e2ncia de estabelecer coaliz\u00f5es que consolidassem o reconhecimento dos direitos das mulheres: \u201cAo afirmar que <em>os direitos das mulheres s\u00e3o direitos humanos<\/em>, estamos mostrando como as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos t\u00eam dimens\u00f5es de g\u00eanero \u2013 o fato de ser homem ou mulher define como experimentamos essas viola\u00e7\u00f5es \u2013 assim como de classe, ra\u00e7a, orienta\u00e7\u00e3o sexual, idade e cultura\u201d (Bunch, 2000: 243-244, it\u00e1licos da autora). O movimento feminista dos anos 1980-1990 propunha \u201cum mundo sem viol\u00eancia\u201d e o exerc\u00edcio pleno dos direitos humanos para todas e todos.<\/p>\n<p>Os estudos sobre a viol\u00eancia sob regimes repressivos ou conflitos armados na regi\u00e3o indicam que a viol\u00eancia sexual expressa estruturas de g\u00eanero hier\u00e1rquicas e formas extremas de masculinidade e sexismo que alcan\u00e7am tanto n\u00edveis subjetivos quanto rela\u00e7\u00f5es sociais mais amplas (Franco, 2016). Centradas no tormento e na objetifica\u00e7\u00e3o dos corpos, as viol\u00eancias de g\u00eanero intensificam a crueldade como estrat\u00e9gia para reprimir solidariedades interpessoais ligadas aos pap\u00e9is de g\u00eanero das mulheres nas comunidades e organiza\u00e7\u00f5es de milit\u00e2ncia, articuladas com a tortura e o desaparecimento for\u00e7ado (Memoria Abierta, 2012).<\/p>\n<p>Uma parte importante do trabalho social de elabora\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia pol\u00edtica e social sofrida durante as ditaduras recaiu tamb\u00e9m sobre mulheres que, como v\u00edtimas dessas viol\u00eancias, familiares e sobreviventes, ofereceram seus testemunhos diante de comiss\u00f5es da verdade, julgamentos e comemora\u00e7\u00f5es. O direito internacional dos direitos humanos constituiu-se como um espa\u00e7o de disputa pelo reconhecimento da viol\u00eancia pol\u00edtica das ditaduras na regi\u00e3o, assim como da viol\u00eancia contra as mulheres. Organiza\u00e7\u00f5es e coletivos locais e internacionais de mulheres e feministas acompanharam mulheres de diferentes origens e pa\u00edses a testemunhar em f\u00f3runs internacionais, at\u00e9 alcan\u00e7ar a incorpora\u00e7\u00e3o de men\u00e7\u00f5es espec\u00edficas aos direitos das mulheres como inalien\u00e1veis, integrais e indivis\u00edveis, sob a consigna \u201cos direitos das mulheres s\u00e3o direitos humanos\u201d. Tamb\u00e9m demandaram a implementa\u00e7\u00e3o de formas espec\u00edficas de justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o que contemplassem as dimens\u00f5es econ\u00f4mica, social, pol\u00edtica e cultural, bem como os ciclos de vida das mulheres, advertindo sobre os obst\u00e1culos que surgem da pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica do Estado e da persist\u00eancia de preconceitos sexistas, racistas e classistas intensificados em processos de extrema viol\u00eancia (Bacci, 2022).<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/HUCITEC-vozesindigenas-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/HUCITEC-vozesindigenas-1.png 728w, https:\/\/estaticos.opara.me\/outraspalavras\/uploads\/2025\/08\/31182107\/HUCITEC-vozesindigenas-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Desde a I Confer\u00eancia Mundial da Mulher da ONU, realizada no M\u00e9xico em 1975, que inaugurou a D\u00e9cada das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Mulher, e a II Confer\u00eancia em Copenhague (1980), na qual as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais de mulheres obtiveram status consultivo junto ao Conselho Econ\u00f4mico e Social, a viol\u00eancia contra as mulheres foi sendo constru\u00edda como um problema que transcendia as paredes dos lares e as rela\u00e7\u00f5es familiares. A III Confer\u00eancia em Nair\u00f3bi (1985) incluiu uma se\u00e7\u00e3o sobre a viol\u00eancia e o abuso sexual contra mulheres, e a de Pequim (1995) formulou a Declara\u00e7\u00e3o e a Plataforma de A\u00e7\u00e3o sobre os direitos das mulheres. Entre os marcos desse percurso encontram-se tamb\u00e9m a Conven\u00e7\u00e3o para a Elimina\u00e7\u00e3o de Todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o contra as Mulheres (CEDAW), de 1979, e a Confer\u00eancia Mundial de Direitos Humanos de Viena (1993), cujo Programa de A\u00e7\u00e3o reconheceu a especificidade dos direitos das mulheres, das crian\u00e7as e dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito regional, a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos ratificou em 1995 a Conven\u00e7\u00e3o Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Viol\u00eancia contra a Mulher (Conven\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m do Par\u00e1), que definiu a viol\u00eancia contra a mulher como uma viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, afirmando a responsabilidade dos Estados em sua preven\u00e7\u00e3o, puni\u00e7\u00e3o e erradica\u00e7\u00e3o nos \u00e2mbitos p\u00fablico e privado. As declara\u00e7\u00f5es da CEDAW e da Conven\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m do Par\u00e1 foram fundamentais para a promulga\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00f5es em diferentes pa\u00edses da regi\u00e3o em defesa dos direitos das mulheres e contra a viol\u00eancia sexista e aquilo que hoje denominamos feminic\u00eddio.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito internacional, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugosl\u00e1via (1998) considerou como crimes contra a humanidade as den\u00fancias de estupro e escravid\u00e3o sexual no contexto do conflito armado, e o Tribunal Penal Internacional para Ruanda visibilizou os estupros como parte do genoc\u00eddio naquele pa\u00eds (1995). Nos anos 2000, o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional estabeleceu que o estupro, a escravid\u00e3o sexual, a prostitui\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, a gravidez for\u00e7ada e a esteriliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, cometidos no marco de ataques generalizados ou sistem\u00e1ticos contra a popula\u00e7\u00e3o civil, constituem crimes contra a humanidade. Em 2007, a iniciativa da ONU A\u00e7\u00e3o contra a Viol\u00eancia Sexual em Conflitos promoveu programas estatais de preven\u00e7\u00e3o e acompanhamento de sobreviventes.<\/p>\n<p>Os di\u00e1logos, debates e testemunhos apresentados nesses diversos f\u00f3runs incentivaram a apropria\u00e7\u00e3o do discurso dos direitos humanos para representar as experi\u00eancias das mulheres, assim como a constru\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es pol\u00edticas transversais de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe. A din\u00e2mica resistente do movimento de mulheres e dos feminismos nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u2013a mar\u00e9 feminista crescente desde os anos 2000\u2013 tem buscado fortalecer e consolidar essas transforma\u00e7\u00f5es do marco dos direitos nas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Retomando as cr\u00edticas de Hannah Arendt ao universalismo abstrato dos direitos humanos em <em>As origens do totalitarismo<\/em> (1951), Elizabeth Jelin perguntava, na d\u00e9cada de 1990: \u201cComo se atualiza o direito a ter direitos?\u201d (Jelin, 2020 [1993]: 297). A resposta n\u00e3o era categ\u00f3rica: o car\u00e1ter situado dos direitos humanos, isto \u00e9, as marcas de desigualdades de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe, entre outras dimens\u00f5es da experi\u00eancia subjetiva e social, transforma seu alcance em diferentes contextos.<\/p>\n<h3><strong>Testemunhar<\/strong><\/h3>\n<p>A visibiliza\u00e7\u00e3o dos efeitos dessas viol\u00eancias sobre as vidas das mulheres, seus entornos familiares e a sociedade como um todo tamb\u00e9m revela a extensa e rica hist\u00f3ria de milit\u00e2ncia, ativismo e resist\u00eancia pol\u00edtica na regi\u00e3o. M\u00e3es, av\u00f3s, esposas, filhas, ex-presas pol\u00edticas, sobreviventes: sob todas essas denomina\u00e7\u00f5es encontramos iniciativas em favor da mem\u00f3ria, da verdade e da justi\u00e7a. Os testemunhos dessas mulheres ensaiam representa\u00e7\u00f5es singulares das experi\u00eancias vividas, ao mesmo tempo em que desafiam a homogeneiza\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias coletivas, propondo novas perguntas, relatos e imagens sobre o passado \u2013novos n\u00f3s para sua compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>As leituras retrospectivas em chave de g\u00eanero sobre as ditaduras e os processos de democratiza\u00e7\u00e3o posteriores apontam as limita\u00e7\u00f5es das comiss\u00f5es da verdade sobre os crimes das ditaduras do Cone Sul (Joffily, 2011), ou ainda casos como o do Julgamento das Juntas Militares argentinas em 1985 (\u00c1lvarez, 2019; Bacci, 2025). Embora essas inst\u00e2ncias tenham inclu\u00eddo relatos muito claros de viol\u00eancia sexual contra mulheres detidas em centros clandestinos e pris\u00f5es, as mulheres que testemunharam tiveram de esperar v\u00e1rias d\u00e9cadas para serem ouvidas pela justi\u00e7a e pela sociedade. Como sustenta Jelin (2017: 16), o \u201ctrabalho da mem\u00f3ria\u201d das cat\u00e1strofes e das situa\u00e7\u00f5es-limite sociais implica a possibilidade social de ressignifica\u00e7\u00e3o dessas experi\u00eancias e exige \u201crepensar a rela\u00e7\u00e3o entre mem\u00f3ria e pol\u00edtica, e entre mem\u00f3ria e justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es mencionadas no \u00e2mbito do direito internacional propiciaram novas inst\u00e2ncias de legitima\u00e7\u00e3o desses testemunhos, tanto na justi\u00e7a quanto em espa\u00e7os de memorializa\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00f5es culturais.[2] Um exemplo paradigm\u00e1tico \u00e9 a Comiss\u00e3o da Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o no Peru (CVR-Peru), pioneira em integrar a perspectiva de g\u00eanero no levantamento de testemunhos sobre o conflito armado naquele pa\u00eds entre 1980 e 2000 (G\u00f3mez Correal <em>et al., <\/em>2023). Em seu Relat\u00f3rio Final, incluiu um cap\u00edtulo de an\u00e1lise de g\u00eanero com uma se\u00e7\u00e3o sobre a viol\u00eancia sexual \u2013 estupros em massa, gravidezes e esteriliza\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, servid\u00e3o sexual \u2013 como parte das pr\u00e1ticas de disciplinamento social. O relat\u00f3rio indicava tamb\u00e9m que as mulheres silenciavam suas pr\u00f3prias experi\u00eancias para priorizar o que havia ocorrido com seus familiares homens, por medo de repres\u00e1lias e do descr\u00e9dito em seus entornos familiares e sociais.<\/p>\n<p>Kimberly Theidon (2011), em sua pesquisa sobre esse per\u00edodo no Peru, considerou as condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas das mulheres das popula\u00e7\u00f5es mais afetadas da Serra Sul, assinalando que as testemunhas diante da CVR enfrentavam tanto a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero quanto o preconceito racial por serem camponesas e falantes de qu\u00e9chua. Para a autora, seus \u201csil\u00eancios\u201d constitu\u00edam tamb\u00e9m estrat\u00e9gias de autoprote\u00e7\u00e3o individual e comunit\u00e1ria, tentativas de preservar a intimidade e a unidade familiar e social.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o testemunhal das mulheres que sofreram viol\u00eancia de g\u00eanero no contexto de processos ditatoriais e de conflitos armados na Am\u00e9rica Latina continua gerando reflex\u00f5es nos processos de justi\u00e7a e mem\u00f3ria, assim como nas reconstru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Os legados das testemunhas chegam at\u00e9 a mar\u00e9 verde pelo direito ao aborto e contra a viol\u00eancia feminicida. Seus testemunhos ainda encontram resist\u00eancia social, j\u00e1 que seus perpetradores continuam contando com a cumplicidade social com a viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Os governos conservadores de direita na regi\u00e3o (e no mundo) buscam limitar o alcance dessas transforma\u00e7\u00f5es subjetivas e socioculturais, expressas nos direitos das mulheres e das diversidades sexo-gen\u00e9ricas, por meio de discursos p\u00fablicos que recorrem a f\u00f3rmulas e ide\u00e1rios sexistas violentos. Os testemunhos sobre as diversas formas de viol\u00eancia de g\u00eanero perpetradas sob regimes ditatoriais e autorit\u00e1rios do s\u00e9culo XX continuam sendo fundamentais para reconhecer tamb\u00e9m suas express\u00f5es mais atuais, como ocorre com os feminic\u00eddios e os travestic\u00eddios. Situar as dimens\u00f5es que atravessam as palavras e os sil\u00eancios de quem testemunha \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o incontorn\u00e1vel para atualizar o \u201cdireito a ter direitos\u201d, abrir novas vias para a a\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no presente e tamb\u00e9m para a imagina\u00e7\u00e3o de um futuro sem viol\u00eancias.<\/p>\n<h3><strong>Notas<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>[1] Na Argentina, a viol\u00eancia de g\u00eanero sob a ditadura tamb\u00e9m se expressou no plano sistem\u00e1tico de apropria\u00e7\u00e3o de beb\u00eas e no assassinato de suas m\u00e3es ap\u00f3s o parto.<\/p>\n<p>[2] Na Argentina, a primeira condena\u00e7\u00e3o por esses delitos foi proferida em 2010, na \u201cCausa Molina\u201d; em 2024 foi proferida a primeira condena\u00e7\u00e3o por crimes sexuais contra mulheres trans e travestis na \u201cCausa Brigadas\u201d. Quanto \u00e0s produ\u00e7\u00f5es memoriais e culturais, apenas a lista no Cone Sul j\u00e1 ultrapassa as possibilidades deste espa\u00e7o.<\/p>\n<h3><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<hr>\n<p>\u00c1LVAREZ, Victoria. (2019). <em>\u00bfNo te habr\u00e1s ca\u00eddo? Terrorismo de Estado, violencia sexual, testimonios y justicia en Argentina.<\/em> M\u00e1laga: Universidad de M\u00e1laga.<\/p>\n<p>BACCI, Claudia. (2025). <em>Reverberaciones testimoniales en la escena judicial.<\/em> In: CRENZEL, Emilio (ed.). <em>En y m\u00e1s all\u00e1 de los tribunales.<\/em> Chapel Hill: Editorial A Contracorriente.<\/p>\n<p>BACCI, Claudia. (2022). Afectos justos: escenas del g\u00e9nero y la justicia (Argentina, Per\u00fa, Guatemala). In: OBERTI, Alejandra &amp; BACCI, Claudia (comps.). <em>Testimonios, g\u00e9nero y afectos: Am\u00e9rica Latina desde los territorios y las memorias al presente.<\/em> Villa Mar\u00eda: EDUVIM. 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Estupros em massa, gravidezes for\u00e7adas, esteriliza\u00e7\u00f5es e servid\u00e3o sexual foram usados para disciplinamento social. Muitas calaram sobre o que viveram, por medo de repres\u00e1lias e do descr\u00e9dito<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/feminismos\/para-escancarar-a-misoginia-das-ditaduras\/\">Para escancarar a misoginia das ditaduras<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":80367,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[347,41606,1284,544,41607,6956,1782,2110,1090,236],"tags":[],"class_list":["post-80366","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-conferencia-mundial-da-mulher","category-ditadura","category-ditadura-militar","category-ditadura-na-america-latina","category-feminismos","category-misoginia","category-tortura","category-violencia-de-genero","category-violencia-sexual"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80366","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80366"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80366\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80367"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80366"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80366"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80366"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}