{"id":80464,"date":"2026-03-30T04:00:00","date_gmt":"2026-03-30T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cia-como-agencia-americana-impulsionou-marcha-da-familia-com-deus-pela-liberdade\/"},"modified":"2026-03-30T04:00:00","modified_gmt":"2026-03-30T07:00:00","slug":"cia-como-agencia-americana-impulsionou-marcha-da-familia-com-deus-pela-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cia-como-agencia-americana-impulsionou-marcha-da-familia-com-deus-pela-liberdade\/","title":{"rendered":"CIA: como ag\u00eancia americana impulsionou Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade"},"content":{"rendered":"<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p>A noite de 13 de mar\u00e7o de 1964 ca\u00eda sobre o Rio de Janeiro quando o presidente Jo\u00e3o Goulart (Jango), diante de uma multid\u00e3o na Central do Brasil, anunciou medidas que alterariam o curso da hist\u00f3ria nacional. <span>A fala de Jango sobre a limita\u00e7\u00e3o das remessas de lucro estrangeiro e a promessa de reforma agr\u00e1ria ecoaram n\u00e3o apenas nas ruas, mas tamb\u00e9m nos gabinetes de Bras\u00edlia, nas sedes de corpora\u00e7\u00f5es multinacionais e nos corredores de Washington<\/span>, nos EUA.\u00a0<\/p>\n<p>Em Belo Horizonte, dias antes, o deputado federal Leonel Brizola, cunhado do presidente, havia sido impedido de discursar por um grupo de senhoras que empunhavam ter\u00e7os como escudos contra o que consideravam uma amea\u00e7a vermelha. \u201cRos\u00e1rios de f\u00e9 n\u00e3o podem ser levantados contra o povo\u201d, advertiu Goulart na Central do Brasil. A resposta a essa advert\u00eancia viria menos de uma semana depois, n\u00e3o em ora\u00e7\u00f5es silenciosas, mas no ru\u00eddo de meio milh\u00e3o de pessoas marchando sobre o asfalto de S\u00e3o Paulo, na tarde de 19 de mar\u00e7o, dia de S\u00e3o Jos\u00e9, padroeiro da fam\u00edlia.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69ca1f7ac9471\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69ca1f7ac9471\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Jo\u00e3o Goulart durante com\u00edcio na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de mar\u00e7o de 1964<\/figcaption><\/figure>\n<p>A Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade come\u00e7ou na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica \u00e0s 16 horas e seguiu rumo \u00e0 Pra\u00e7a da S\u00e9. Faixas empunhadas pelos manifestantes traziam dizeres que misturavam devo\u00e7\u00e3o religiosa e anticomunismo visceral: \u201cNossa Senhora Aparecida, iluminai os reacion\u00e1rios\u201d, \u201cVermelho bom, s\u00f3 o batom\u201d, \u201cVerde, amarelo, sem foice nem martelo\u201d. Mas o que parecia ser uma manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de fi\u00e9is preocupados era, na verdade, o resultado de uma engrenagem muito mais complexa, como explica a doutora em hist\u00f3ria Jana\u00edna Cordeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que pesquisa a atua\u00e7\u00e3o de grupos femininos conservadores no per\u00edodo do Estado de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Jana\u00edna, o movimento n\u00e3o surgiu do nada, mas sim de um contexto de intensa polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. <span>\u201cA primeira marcha acontece em S\u00e3o Paulo e \u00e9 concebida como uma marcha de desagravo ao Ros\u00e1rio, que teria sido ofendido pelo Jango ali no Com\u00edcio da Central do Brasil<\/span> no dia 13 de mar\u00e7o\u201d, explica. Ela detalha que essas mulheres, majoritariamente donas de casa e professoras prim\u00e1rias de classe m\u00e9dia, organizaram-se rapidamente: \u201cEssas mulheres s\u00e3o fundamentalmente donas de casa. Quando elas exercem profiss\u00f5es, elas s\u00e3o, em geral, ligadas ao cuidado, consideradas at\u00e9 na \u00e9poca femininas\u201d.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69ca1f7ac97ff\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69ca1f7ac97ff\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Mulheres durante a Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade, em 1964, exibem uma faixa contra o regime cubano<\/figcaption><\/figure>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do evento durou apenas cinco dias e contou ainda com a articula\u00e7\u00e3o de figuras como o deputado federal Ant\u00f4nio S\u00edlvio da Cunha Bueno, do PSD, e o vice-governador de S\u00e3o Paulo, Laudo Natel. O nome da marcha foi sugerido pela freira Ana de Lurdes, que a via como \u201cum ato de f\u00e9, numa hora de trevas\u201d. Nos bastidores, o governador de S\u00e3o Paulo, Ademar de Barros, recolhia fundos junto ao empresariado na sede da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp) para equipar a For\u00e7a P\u00fablica e garantir a ordem do evento.<\/p>\n<p>Com base em documentos e no depoimento do ex-agente da Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia Americana (CIA), Philip Agee, a historiografia indica que a ag\u00eancia fornecia dinheiro ao Ibad (Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m teriam\u00a0recebido contribui\u00e7\u00f5es da CIA e do empresariado para organizar a marcha, o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), a Camde (Campanha da Mulher pela Democracia), a FAUR (Fraterna Amizade Urbana e Rural) e a SRB (Sociedade Rural Brasileira).\u00a0<\/p>\n<p>Um documento sobre as \u201cmarchas da fam\u00edlia\u201d, organizado por Rodrigues Matias, obtido pela revista <em>Caros Amigos <\/em>em 2002, registra que \u201cJo\u00e3o Batista Leopoldo de Figueiredo, presidente do Ipes, foi uma das pe\u00e7as angulares da articula\u00e7\u00e3o do movimento\u201d.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69ca1f7ac9bde\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69ca1f7ac9bde\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Jo\u00e3o Batista Leopoldo de Figueiredo, do Ipes, que teria recebido apoio da CIA<\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>\u201cPadre da CIA\u201d: religi\u00e3o como arma de Guerra Fria<\/strong><\/h2>\n<p>A trajet\u00f3ria de um padre irland\u00eas que acreditava ter sido salvo por um milagre tamb\u00e9m ajuda a explicar como a f\u00e9 religiosa se transformou em instrumento de pol\u00edtica externa americana. Patrick Peyton, membro da Congrega\u00e7\u00e3o de Santa Cruz, havia contra\u00eddo tuberculose durante sua forma\u00e7\u00e3o sacerdotal nos Estados Unidos. Quando se recuperou, atribuiu sua salva\u00e7\u00e3o \u00e0 intercess\u00e3o de Nossa Senhora e do Ros\u00e1rio. A partir desse momento, Peyton dedicou sua vida a criar um movimento transnacional de devo\u00e7\u00e3o que se tornaria um dos instrumentos mais sofisticados de influ\u00eancia americana na Am\u00e9rica Latina durante a Guerra Fria.<\/p>\n<p>Peyton produzia filmes e programas de r\u00e1dio que promoviam a devo\u00e7\u00e3o ao Ros\u00e1rio. <span>Em 1962, quando chegou ao Brasil, sua Cruzada do Ros\u00e1rio em Fam\u00edlia se transformaria em um vetor de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/span> de propor\u00e7\u00f5es inesperadas, tamb\u00e9m impulsionando a Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69ca1f7ac9fd7\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69ca1f7ac9fd7\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption> O padre Patrick Peyton (\u00e0 direita) com o governador de S\u00e3o Paulo Adhemar de Barros<\/figcaption><\/figure>\n<p>A doutora em hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Isabella Villarinho Pereyra, descreve o papel dessa organiza\u00e7\u00e3o religiosa como fundamental para compreender o golpe de 1964. \u201cAs marchas eram meio que uma catarse coletiva daquele grupo de mulheres, que tinham uma agenda muito espec\u00edfica: salvar o Brasil do comunismo\u201d, explica Pereyra. \u201cE, naquele contexto, existia toda uma din\u00e2mica de palavras que travavam uma batalha contra o comunismo, n\u00e3o apenas no \u00e2mbito f\u00edsico dos militares, mas tamb\u00e9m na esfera espiritual\u201d.<\/p>\n<p>O Ros\u00e1rio n\u00e3o era simplesmente um s\u00edmbolo religioso. Era, na narrativa constru\u00edda pela Cruzada, a \u00fanica arma capaz de salvar o Brasil do comunismo. \u201cAs mulheres que marchavam acreditavam estar apelando a todos os tipos de ajuda poss\u00edveis, mobilizando n\u00e3o apenas a f\u00e9, mas tamb\u00e9m a m\u00eddia, as par\u00f3quias, as missas e a estrutura da Igreja Cat\u00f3lica\u201d, relata Pereyra.<\/p>\n<p><span>A conex\u00e3o entre a Cruzada do Ros\u00e1rio em Fam\u00edlia e a CIA n\u00e3o foi acidental. Ela havia sido constru\u00edda por Peter Grace, um grande empres\u00e1rio do ramo de exporta\u00e7\u00f5es<\/span>, amigo pessoal de Alan Dulles, ent\u00e3o diretor da CIA. \u201cO Peter Grace era um grande empres\u00e1rio do setor de exporta\u00e7\u00f5es. E ele era muito cat\u00f3lico\u201d, descreve Pereyra.<\/p>\n<p>Grace havia conhecido o padre Peyton em uma viagem a navio para a Europa, onde ambos participavam de uma feira de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Impressionado pelos filmes e programas de r\u00e1dio de Peyton, Grace se tornou seu principal financiador e, mais importante, seu intermedi\u00e1rio junto \u00e0 intelig\u00eancia americana. Grace foi quem prop\u00f4s levar o movimento das Cruzadas para a Am\u00e9rica Latina. A ideia encontrou apoio tanto na CIA quanto no Vaticano, que tinha suas pr\u00f3prias preocupa\u00e7\u00f5es com a regi\u00e3o. A Igreja Cat\u00f3lica enfrentava dois problemas na Am\u00e9rica Latina: um n\u00famero reduzido de padres e cl\u00e9rigos e a crescente influ\u00eancia de movimentos de esquerda. A combina\u00e7\u00e3o de interesses religiosos institucionais com os objetivos geopol\u00edticos dos EUA criou uma alian\u00e7a. O financiamento viria de Washington, mas a face p\u00fablica seria religiosa.<\/p>\n<p>Quando a Cruzada do Ros\u00e1rio em Fam\u00edlia se estabeleceu no Brasil, n\u00e3o foram homens de terno e gravata que fizeram a articula\u00e7\u00e3o inicial. Foram mulheres ligadas a grupos leigos cat\u00f3licos que criaram escrit\u00f3rios em Recife, no Rio de Janeiro, em Salvador, no Paran\u00e1 e em Belo Horizonte. O clero cat\u00f3lico, por meio de arcebispos e bispos, estabeleceu o primeiro contato com os fi\u00e9is, que se tornaram o bra\u00e7o direito da Cruzada. Essas mulheres, em sua maioria donas de casa e professoras prim\u00e1rias de classe m\u00e9dia, ligadas \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, come\u00e7aram a organizar-se em grupos que se multiplicaram rapidamente.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, a Uni\u00e3o C\u00edvica Feminina (UCF) havia iniciado suas atividades em 1961, fundando n\u00facleos no interior do estado, em Santos e outras cidades. No Rio de Janeiro, seis meses depois, foi fundada a Camde, que rapidamente expandiu seus n\u00facleos para outros bairros e cidades da regi\u00e3o. Mas havia um detalhe crucial: muitos dos maridos, irm\u00e3os e homens da fam\u00edlia dessas mulheres eram militares, empres\u00e1rios ligados ao Ipes e ao Ibad, ou executivos de corpora\u00e7\u00f5es multinacionais.<\/p>\n<p>Jana\u00edna Cordeiro ressalta que, embora as mulheres tivessem um papel de lideran\u00e7a muito forte e importante naquela conjuntura, essas outras organiza\u00e7\u00f5es envolvidas tamb\u00e9m foram centrais. \u201cTinham o que eles chamavam, na \u00e9poca, de classes produtoras; tinham setores do empresariado; tinham alguns sindicatos organizados que tamb\u00e9m chamavam para a marcha; tinham outras igrejas para al\u00e9m da Igreja Cat\u00f3lica.\u201d<\/p>\n<div data-effect=\"slide\">\n<div>\n<ul>\n<li>\n<figure><figcaption>Cruzada do Ros\u00e1rio em Fam\u00edlia no Rio de Janeiro<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Cruzada do Ros\u00e1rio em Fam\u00edlia no Rio de Janeiro<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Poster do Jornal do Dia  sobre a Cruzada em Porto Alegre<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<\/ul>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2>\u200b<strong>A orquestra\u00e7\u00e3o invis\u00edvel<\/strong><\/h2>\n<p>Segundo a pesquisa de Pereyra, a CIA determinava para onde as marchas do Ros\u00e1rio tinham de ir. \u201cSempre que eles chegavam no movimento, eram marcados jantares com empres\u00e1rios e a m\u00eddia local. Ent\u00e3o, eles recebiam muitos empres\u00e1rios e associa\u00e7\u00f5es comerciais e industriais e enviavam muitas cartas a essas pessoas\u201d, detalha Pereyra.<\/p>\n<p>O financiamento n\u00e3o vinha apenas da CIA. Grandes corpora\u00e7\u00f5es americanas, bem como empres\u00e1rios brasileiros ligados ao capital nacional, injetaram recursos para sustentar o movimento uma vez estabelecido nos estados brasileiros. A Alian\u00e7a para o Progresso, programa de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica americano, servia como um canal adicional de recursos. Havia uma narrativa que permeava todas as cruzadas, uma frase que aparecia em documentos da \u00e9poca: \u201cA verdadeira revolu\u00e7\u00e3o foi sua m\u00e3e que fez\u201d.<\/p>\n<p>Essa constru\u00e7\u00e3o narrativa permitia que as mulheres exercessem poder pol\u00edtico sem que isso fosse reconhecido como tal. Permitia que a CIA operasse por meio de estruturas religiosas e familiares, evitando a apar\u00eancia de interven\u00e7\u00e3o externa. Segundo Jana\u00edna Cordeiro, a narrativa funcionou: \u201ca mobiliza\u00e7\u00e3o legitimava o golpe, que era apresentado como resposta ao clamor das ruas\u201d.<\/p>\n<p>Um dos documentos mais reveladores da pesquisa de Pereyra indica que Peter Grace menciona a necessidade de uma entrevista entre o Padre Peyton e a CIA, na qual se evidencia que a conex\u00e3o entre a religi\u00e3o, o empresariado e a intelig\u00eancia americana n\u00e3o era informal ou acidental.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69ca1f7aca78f\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69ca1f7aca78f\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Carta de 1961 revela elo entre a Cruzada do Ros\u00e1rio, Peter Grace e o diretor da CIA, Allen Dulles<\/figcaption><\/figure>\n<h2><strong>O legado de uma marcha funesta<\/strong><\/h2>\n<p>Para compreender como as Cruzadas do Ros\u00e1rio em Fam\u00edlia e, posteriormente, a pr\u00f3pria Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade encontraram terreno f\u00e9rtil no Brasil, \u00e9 preciso considerar o contexto de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que marcou o in\u00edcio dos anos 1960. O governo de Jango enfrentava uma poderosa coaliz\u00e3o de for\u00e7as conservadoras e ultrarreacion\u00e1rias.\u00a0<\/p>\n<p>As reformas de base propostas por Goulart desagradavam profundamente os setores conservadores. A limita\u00e7\u00e3o \u00e0s remessas de lucro estrangeiro afetava as multinacionais. A reforma agr\u00e1ria aterrorizava os fazendeiros. A mobiliza\u00e7\u00e3o dos sindicatos e dos trabalhadores, coordenada pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), assustava a burguesia. Nesse contexto de radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, as Cruzadas do Ros\u00e1rio em Fam\u00edlia ofereciam uma linguagem que permitia aos setores retr\u00f3grados expressar suas preocupa\u00e7\u00f5es em termos religiosos e familiares, em vez de puramente econ\u00f4micos ou pol\u00edticos.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69ca1f7acab10\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69ca1f7acab10\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Manchete do Jornal do Brasil sobre marcha em S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<p>O historiador Boris Fausto, em entrevista para a <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica <\/strong>em 2019, ressalta que a marcha demonstrou que o golpe possu\u00eda um lastro social significativo no meio urbano, especialmente nas classes m\u00e9dia e alta, mas adverte que \u201cda\u00ed a falar em \u2018movimento representativo do conjunto da sociedade\u2019 vai uma enorme dist\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>A grande imprensa, com raras exce\u00e7\u00f5es, como o jornal <em>\u00daltima Hora<\/em>, de Samuel Wainer, desempenhou um papel crucial na constru\u00e7\u00e3o do clima de p\u00e2nico, mobilizando \u00e0 exaust\u00e3o o tema do perigo vermelho. <em>O Estado de S. Paulo<\/em>, por exemplo, publicou em suas p\u00e1ginas o manifesto de convoca\u00e7\u00e3o da marcha, alinhando-se abertamente aos conspiradores.<\/p>\n<p>\u201cA amea\u00e7a imediata de implanta\u00e7\u00e3o de um regime comunista n\u00e3o havia\u201d, afirma Fausto. O que existia era uma radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e uma disputa pelos rumos do desenvolvimento nacional. O golpe de 1964, longe de ser uma mera \u201cquartelada\u201d, foi uma articula\u00e7\u00e3o civil-militar-empresarial que surpreendeu as for\u00e7as democr\u00e1ticas e se instalou com absoluta for\u00e7a. A ditadura que se seguiu evidenciou a verdadeira natureza do movimento.<\/p>\n<p>Quando a Marcha da Fam\u00edlia terminou no come\u00e7o da noite de 19 de mar\u00e7o e a Catedral da S\u00e9 realizava a \u00faltima missa do dia, o destino do governo Jango estava selado. Doze dias depois, o golpe seria consumado. A marcha havia fornecido a chancela civil que os militares precisavam para agir.<\/p>\n<p>A primeira marcha em S\u00e3o Paulo serviu de rastilho de p\u00f3lvora. No Rio de Janeiro, uma marcha foi planejada para 2 de abril, mas o golpe foi antecipado para 31 de mar\u00e7o e efetivado em 1\u00b0 de abril, transformando a manifesta\u00e7\u00e3o em uma \u201cMarcha da Vit\u00f3ria\u201d. A que ocorreu no Rio reuniu cerca de 800 mil pessoas, segundo estimativas mais prudentes, enquanto S\u00e3o Paulo contabilizava 500 mil.<\/p>\n<p>Jana\u00edna Cordeiro pontua a dimens\u00e3o dessa mobiliza\u00e7\u00e3o: \u201cA marcha do Rio foi a maior que teve. A partir da\u00ed, essas marchas passaram a ser de comemora\u00e7\u00e3o\u201d. Ela acrescenta que o fen\u00f4meno se espalhou pelo pa\u00eds: \u201cao que parece, o Brasil marchou at\u00e9 setembro\u201d.<\/p>\n<p>O ar daquele mar\u00e7o de 1964 estava carregado de eletricidade, recordaria o historiador Jacob Gorender em entrevista sobre a v\u00e9spera do golpe militar. A Opera\u00e7\u00e3o Brother Sam, articulada por Washington, posicionou a Marinha e a For\u00e7a A\u00e9rea americanas prontas para intervir no Brasil caso o golpe enfrentasse resist\u00eancia armada ou resultasse em guerra civil. A interven\u00e7\u00e3o direta n\u00e3o foi necess\u00e1ria, mas a presen\u00e7a da frota ao largo da costa brasileira serviu como garantia de que o projeto de deposi\u00e7\u00e3o de Goulart n\u00e3o falharia. A derrubada do governo leg\u00edtimo era uma prioridade na l\u00f3gica da Guerra Fria, em que a ret\u00f3rica do \u201cperigo vermelho\u201d justificava a supress\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Mas o entusiasmo de muitos participantes logo se transformaria em desilus\u00e3o. Parcelas da sociedade que apoiaram a queda de Jango, acreditando em uma interven\u00e7\u00e3o breve para \u201crestaurar a ordem\u201d, viram-se presas a um regime autorit\u00e1rio que duraria 21 anos. Em 1968, muitos dos que haviam marchado com ter\u00e7os nas m\u00e3os estariam nas ruas protestando contra a viol\u00eancia de Estado. A ditadura que se seguiu suprimiu as liberdades, fez uma limpeza no parlamento, perseguiu e torturou opositores, at\u00e9 mat\u00e1-los, como retrataram os filmes \u201cEu ainda estou aqui\u201d (2024) e \u201cO Agente Secreto\u201d (2025).<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ans-limita-a-606-reajuste-de-planos-individuais-e-familiares\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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