{"id":80660,"date":"2026-03-31T12:00:00","date_gmt":"2026-03-31T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/apoio-dos-eua-a-ditadura-documentos-revelam-tensao-e-conflito-nas-relacoes-bilaterais\/"},"modified":"2026-03-31T12:00:00","modified_gmt":"2026-03-31T15:00:00","slug":"apoio-dos-eua-a-ditadura-documentos-revelam-tensao-e-conflito-nas-relacoes-bilaterais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/apoio-dos-eua-a-ditadura-documentos-revelam-tensao-e-conflito-nas-relacoes-bilaterais\/","title":{"rendered":"Apoio dos EUA \u00e0 ditadura: documentos revelam tens\u00e3o e conflito nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais"},"content":{"rendered":"<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p>A \u00faltima viagem do norte-americano Nelson Aldrich Rockefeller ao Brasil ocorreu em 1969, quando o bilion\u00e1rio do setor petroleiro e filantropo tinha 61 anos. Experiente nas rela\u00e7\u00f5es com a Am\u00e9rica Latina, onde a funda\u00e7\u00e3o que leva o nome de sua fam\u00edlia atua desde 1916, Rockefeller havia estado no pa\u00eds diversas vezes, mas essa viagem derradeira era a primeira na nova capital, Bras\u00edlia. Passados cinco anos desde o golpe de Estado, em 1964, quando o apoio norte-americano foi fundamental para a deposi\u00e7\u00e3o do presidente Jo\u00e3o Goulart e a ascens\u00e3o dos militares ao poder, as rela\u00e7\u00f5es bilaterais entre os dois pa\u00edses n\u00e3o eram t\u00e3o amistosas como se poderia supor e Rockefeller, ent\u00e3o governador do estado de Nova Iorque, vinha na condi\u00e7\u00e3o de emiss\u00e1rio do presidente Richard Nixon \u2014 por quem fora incumbido de reafirmar a amizade dos Estados Unidos com o Brasil.<\/p>\n<p>Rockefeller procurou demonstrar entusiasmo por Bras\u00edlia, \u00e0 qual se referiu como \u201cum lugar que o resto do mundo ainda n\u00e3o alcan\u00e7ou\u201d e em cujo projeto arquitet\u00f4nico teria se inspirado na constru\u00e7\u00e3o do complexo governamental Empire State Plaza, em Albany, capital do estado de Nova Iorque, edificado entre 1965 e 1978. Acostumado \u00e0s divers\u00f5es do Rio de Janeiro, o empres\u00e1rio, entretanto, estranhou a austeridade da nova capital, onde foi recebido com ar oficial e sob um forte esquema de seguran\u00e7a. Rockefeller expressaria, em relat\u00f3rio sobre a viagem, certo desconforto nas duas reuni\u00f5es que teve com o presidente brasileiro, o marechal Arthur da Costa e Silva, no Pal\u00e1cio da Alvorada.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cbe22ea4d87\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cbe22ea4d87\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Posse do presidente Costa e Silva em 15 de mar\u00e7o de 1967, em sess\u00e3o conjunta do Congresso Nacional<\/figcaption><\/figure>\n<p>O militar teria feito quest\u00e3o de esclarecer alguns pontos de diverg\u00eancia entre os dois pa\u00edses, come\u00e7ando pela invas\u00e3o do escrit\u00f3rio da <em>Associated Press<\/em> no Brasil, em um epis\u00f3dio que conflagrou a censura a jornalistas e ve\u00edculos de imprensa e que foi motivo de protesto do embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, personagem fundamental nas articula\u00e7\u00f5es que antecederam 1964. Na sequ\u00eancia, Costa e Silva rememorou o golpe, afirmando o protagonismo brasileiro: havia sido uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o do povo que se op\u00f4s ao comunismo\u201d, instaurando \u201cum governo do povo dedicado ao povo\u201d. Embora tenha enfatizado o car\u00e1ter \u201cnacional\u201d da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d, o presidente reiterou a lealdade brasileira aos Estados Unidos, alegando que o desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds e a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida do povo eram de interesse norte-americano, uma vez que a mis\u00e9ria dos pa\u00edses pr\u00f3ximos representava uma amea\u00e7a ao vizinho do Norte.<\/p>\n<p>Confrontado pelo empres\u00e1rio a respeito de supostas restri\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos no Brasil sob a ditadura, especialmente contra os chamados presos de consci\u00eancia \u2013 jornalistas, artistas e intelectuais encarcerados por suas ideias e n\u00e3o por envolvimento na luta armada \u2013, Costa e Silva justificou que os Estados Unidos haviam dado pouca assist\u00eancia militar ao Brasil ap\u00f3s o golpe e que, em face do \u201caberto ataque comunista ao Ocidente\u201d, a democracia podia esperar.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, havia, naquele momento, press\u00e3o pol\u00edtica contra a ditadura no Brasil. O senador democrata Frank Church sugeriu o cancelamento da viagem de Rockefeller ao pa\u00eds como forma de protesto contra as not\u00edcias sobre exacerba\u00e7\u00f5es do governo que reverberavam por l\u00e1. O Congresso pressionava o Executivo para que condicionasse as ajudas ao Brasil ao restabelecimento das liberdades democr\u00e1ticas. Rockefeller acreditava, entretanto, como rezava uma certa tradi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa norte-americana, que os regimes militares eram algo cong\u00eanito na Am\u00e9rica Latina, sendo melhor \u201cconviver com eles do que isol\u00e1-los\u201d.<\/p>\n<p>Quem conta toda essa hist\u00f3ria \u00e9 Antonio Pedro Tota no livro \u201cO Amigo Americano \u2013 Nelson Rockefeller e o Brasil\u201d (2014). Ela \u00e9 ilustrativa de uma mudan\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es entre os Estados Unidos e o Brasil ap\u00f3s o golpe de 1964, reconhecidamente sustentado pelos norte-americanos, e demonstra, contrariando o senso comum, que elas foram permeadas por tens\u00e3o, dissenso e, eventualmente, conflito.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cbe22ea515c\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cbe22ea515c\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Rockefeller, ent\u00e3o governador do estado de Nova Iorque, esteve no Brasil na condi\u00e7\u00e3o de emiss\u00e1rio do presidente Richard Nixon<\/figcaption><\/figure>\n<p>Embora, na pr\u00e1tica, o encontro entre Nelson Rockefeller e Costa e Silva tenha servido para atualizar as lealdades do Brasil para com os Estados Unidos, condicionada a apoio militar e econ\u00f4mico, ele exp\u00f5e alguns aspectos da rela\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses ap\u00f3s 1964 que merecem ser considerados: primeiro, uma leitura do golpe que, mesmo sem negar a participa\u00e7\u00e3o norte-americana, defende o protagonismo brasileiro e o suposto car\u00e1ter popular e nacionalista da resist\u00eancia ao comunismo internacional; segundo, o ressentimento brasileiro \u00e0 pouca assist\u00eancia militar ap\u00f3s a conhecida opera\u00e7\u00e3o Brother Sam, que se manteve apenas at\u00e9 que Jango fosse deposto e os militares ascendessem ao poder; terceiro, a d\u00fabia rela\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos com as ditaduras militares latino-americanas, que ajudaram a promover e legitimar, mas que expuseram a fal\u00e1cia da democracia na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito a participa\u00e7\u00e3o norte-americana no golpe de 1964 \u00e9 conhecida. Em discurso proferido no Recife, no calor dos acontecimentos, Leonel Brizola atribuiu ao ent\u00e3o recente golpe o estatuto de obra do \u201cimperialismo yankee\u201d. Preso pela Marinha durante a ditadura, acusado de subvers\u00e3o, o historiador Moniz Bandeira escreveu \u201cPresen\u00e7a dos Estados Unidos no Brasil\u201d, lan\u00e7ado em 1973, no qual apontava a participa\u00e7\u00e3o do Departamento de Estado norte-americano e da CIA no golpe. Em 1981, Ren\u00e9 Armand Dreifuss publicaria \u201c1964 \u2013 A conquista do Estado\u201d, no qual n\u00e3o apenas a participa\u00e7\u00e3o direta dos Estados Unidos, via ag\u00eancias federais, <em>corpus<\/em> diplom\u00e1tico e for\u00e7as armadas, foi demonstrada, mas tamb\u00e9m a de empresas privadas, tais como Texaco, Shell, ESSO (das iniciais S.O., referentes a Standard Oil, empresa pertencente \u00e0 fam\u00edlia Rockefeller), Bayer, General Electric, IBM, Coca-Cola, Cigarros Souza Cruz e General Motors, muitas delas norte-americanas, que financiaram institui\u00e7\u00f5es brasileiras gestoras do golpe, sobretudo o Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais (IPES).<\/p>\n<h2><strong>Documentos desclassificados comprovam a participa\u00e7\u00e3o norte-americana al\u00e9m do golpe<\/strong><\/h2>\n<p>A despeito de trabalhos historiogr\u00e1ficos importantes, baseados em pesquisas de arquivo, a participa\u00e7\u00e3o norte-americana no golpe foi, durante muito tempo, desacreditada, considerada resultado de teorias conspirat\u00f3rias elaboradas por pol\u00edticos e intelectuais de esquerda. As evid\u00eancias, entretanto, foram aparecendo progressivamente.<\/p>\n<p>Em 2004, por ocasi\u00e3o dos 40 anos do golpe, a Universidade George Washington desclassificou documentos do <em>National Security Archive<\/em> referentes ao \u201cBrazil Project\u201d, que cont\u00eam fontes sobre a participa\u00e7\u00e3o norte-americana no golpe, demonstrando que os Estados Unidos estavam preparados para intervir militarmente no processo de deposi\u00e7\u00e3o de Jango, caso as for\u00e7as brasileiras fracassassem.<\/p>\n<p>Em 2008, o historiador Carlos Fico publicou \u201cO Grande Irm\u00e3o\u201d, baseado em documenta\u00e7\u00e3o ent\u00e3o in\u00e9dita coletada nos Estados Unidos, especialmente em fontes intituladas \u201c<em>Country Analysis and Strategy Paper<\/em>\u201d (CASP), abrigadas no <em>National Archives and Records Administration<\/em> (NARA), que consistiam em relat\u00f3rios conjuntos elaborados por diversos setores da embaixada norte-americana no Brasil, pelo Departamento de Estado e por ag\u00eancias federais norte-americanas durante a ditadura militar brasileira.<\/p>\n<p>Em 2012, a presidente Dilma Rousseff consolidou a justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o no Brasil, ao assinar a Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o \u2212 que estabeleceu novos par\u00e2metros para a libera\u00e7\u00e3o de documentos com informa\u00e7\u00f5es sobre viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos pelo Estado brasileiro durante a ditadura \u2212 e instituir a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV).<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69cbe22ea5553\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\" data-wp-key=\"69cbe22ea5553\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Em dezembro de 2014, a presidente Dilma Rousseff recebeu o relat\u00f3rio final elaborado pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 2013, a partir de um contato entre o historiador brasileiro Sidnei Munhoz, que fazia parte da CNV, e o brasilianista norte-americano James Green, foi estabelecido o projeto <em>Opening the Archives<\/em>, uma parceria entre a Universidade Estadual de Maring\u00e1 (UEM) e a <em>Brown University<\/em> com apoio dos arquivos nacionais do Brasil e dos Estados Unidos, que visa \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o e disponibiliza\u00e7\u00e3o on-line de documentos referentes \u00e0 presen\u00e7a dos Estados Unidos no Brasil entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1980. Em entrevista ao site do projeto, James Green, colunista da <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>, afirmou que a ideia de disponibilizar as fontes para livre acesso surgiu quando ele pesquisava no NARA para a escrita do livro \u201cApesar de voc\u00eas\u201d, publicado em 2009.<\/p>\n<p>Com efeito, o NARA possui uma vasta documenta\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es entre os Estados Unidos e o Brasil, notadamente durante a ditadura, parte da qual j\u00e1 foi investigada por historiadores brasileiros. Em 2011, quando estive no arquivo pela primeira vez fazendo pesquisa para o doutorado, identifiquei fontes sobre a atua\u00e7\u00e3o de uma ag\u00eancia federal at\u00e9 ent\u00e3o pouco conhecida no Brasil, a <em>United States Information Agency <\/em>(USIA). A pesquisa ensejou um dos primeiros trabalhos sobre a atua\u00e7\u00e3o do Programa de Fomento ao Livro da ag\u00eancia no pa\u00eds, atuante entre 1953 e 1973, que desempenhou papel central na chamada Guerra Fria cultural. A tese, defendida em 2013, foi publicada em 2015, sob o t\u00edtulo \u201cGuerra Fria e Pol\u00edtica Editorial\u201d, e demonstrou que o programa estabeleceu uma complexa rede de contatos no Brasil, envolvendo empres\u00e1rios, editores e escritores, cujos interesses n\u00e3o devem ser menosprezados. O tema foi objeto de reportagem da <strong>P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<p>Mais recentemente, com a abertura dos arquivos JFK, novas possibilidades de pesquisa foram abertas, cujos efeitos ainda n\u00e3o podem ser calculados.<\/p>\n<h2><strong>A complexidade das rela\u00e7\u00f5es Brasil-EUA exige uma leitura al\u00e9m do senso comum<\/strong><\/h2>\n<p>A historiografia tem demonstrado alguns aspectos relevantes das rela\u00e7\u00f5es Brasil-Estados Unidos ao longo da hist\u00f3ria e, em particular, na ditadura, que apontam caminhos para investiga\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<ol>\n<li>Assumir a participa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos no golpe n\u00e3o deve implicar no ju\u00edzo de que o regime que o sucedeu, o militar, tenha sido necessariamente americanista. A an\u00e1lise documental, qualitativa, de cada governo, programa, acordo \u00e9 fundamental para entender a complexidade dessa rela\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<li>Ainda que a ideia de desenvolvimento, notadamente econ\u00f4mico, assumida como projeto para o pa\u00eds pelos militares estivesse, especialmente nos anos 1960, em acordo com as teorias da moderniza\u00e7\u00e3o, amplamente em voga entre intelectuais e <em>policymakers<\/em> norte-americanos no per\u00edodo, ela era pensada por uma chave nacionalista;<\/li>\n<li>O projeto de moderniza\u00e7\u00e3o para o Brasil antecede o governo Castelo Branco e, portanto, deve ser analisado sob uma perspectiva mais ampla, tal como se nota nas rela\u00e7\u00f5es dos governos J\u00e2nio Quadros e Jango com a Alian\u00e7a para o Progresso, por exemplo;<\/li>\n<li>A presen\u00e7a dos Estados Unidos no Brasil n\u00e3o \u00e9, nem de longe, uma novidade da era John Kennedy, instaurada com a cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a para o Progresso e da USAID. Ainda que, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, o isolacionismo tivesse grande for\u00e7a nos Estados Unidos, sendo a abertura de fronteiras uma pauta espec\u00edfica de presidentes como Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson, o processo de capilariza\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds remonta ao s\u00e9culo 19, com especial atua\u00e7\u00e3o da iniciativa privada;<\/li>\n<li>As funda\u00e7\u00f5es privadas foram um bra\u00e7o importante da diplomacia norte-americana, vide a atua\u00e7\u00e3o da Rockefeller, da Carnegie e da Ford. Embora a historiografia j\u00e1 tenha apontado o papel de grandes fortunas no golpe, considerando os financiamentos da Standard Oil, da fam\u00edlia Rockefeller, ao IPES, o papel espec\u00edfico das funda\u00e7\u00f5es ainda merece investiga\u00e7\u00f5es mais detidas;<\/li>\n<li>A avalia\u00e7\u00e3o do sucesso ou do insucesso dos programas norte-americanos no Brasil \u00e9 um tema especialmente interessante. Se os conhecidos acordos MEC-USAID, por exemplo, que presidiram a reforma universit\u00e1ria promovida pelos militares em 1968, foram vistos no Brasil como uma forte inger\u00eancia norte-americana sobre o pa\u00eds, do lado de l\u00e1, eles foram, em parte, aceitos como um fracasso. Isso demonstra que suas pretens\u00f5es eram de maior monta e, talvez por isso mesmo, n\u00e3o foram completamente atingidas;<\/li>\n<li>Embora a presen\u00e7a de cientistas estrangeiros no Brasil, particularmente na Amaz\u00f4nia, tamb\u00e9m seja um fen\u00f4meno antigo, os governos militares definiram uma pol\u00edtica para a regi\u00e3o que por vezes comprometeu interesses estrangeiros, a exemplo do decreto de Costa e Silva, de 1969, que restringiu essa presen\u00e7a e foi recebido no exterior como sintoma do \u201cchauvinismo\u201d dos homens da caserna;<\/li>\n<li>O tema dos direitos humanos, sobretudo em se tratando de pris\u00f5es por crimes \u201cde consci\u00eancia\u201d denunciadas por organiza\u00e7\u00f5es como a Anistia Internacional, \u00e9 um elemento importante para compreender o gradativo desgaste da imagem internacional da ditadura, inclusive nos Estados Unidos. As cr\u00edticas que os governos militares brasileiros receberam, nessa dire\u00e7\u00e3o, estavam ligadas \u00e0 dimens\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o do regime, \u00e0 suspens\u00e3o dos valores democr\u00e1ticos, com \u00eanfase nos temas da censura e da tortura;<\/li>\n<li>As cr\u00edticas que os governos militares brasileiros receberam, nessa dire\u00e7\u00e3o, estavam ligadas \u00e0 dimens\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o do regime, \u00e0 suspens\u00e3o dos valores democr\u00e1ticos, com especial \u00eanfase nos temas da censura e da tortura.<\/li>\n<li>Embora haja alguma dimens\u00e3o de mal-estar, esses temas jamais foram fundamentais para reduzir ou mesmo eliminar a presen\u00e7a dos Estados Unidos no continente. A mudan\u00e7a de rota na pol\u00edtica externa americana nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980 explica muito mais. Um olhar detido para o continente seria retomado pelo Consenso de Washington e pelas pol\u00edticas neoliberais, no final dos anos 1980. Isso se refletiu na Constituinte de 1987, por exemplo, quando o pa\u00eds fez um <em>lobby<\/em> incisivo, com especial interesse nas quest\u00f5es ambientais;<\/li>\n<li>\u00a0A incompatibilidade entre os Estados Unidos e as ditaduras latino-americanas nunca passou, a rigor, de um problema te\u00f3rico, que os ide\u00f3logos da pol\u00edtica externa norte-americana conseguiram resolver bem, embora tenha tido implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas. Desde a chamada Era Kennan, no in\u00edcio da Guerra Fria, a ideia da \u201cdemocracia como fetiche\u201d era tida como poss\u00edvel, inclusive para os Estados Unidos, uma vez que se defendia o Executivo forte e se assumia o Congresso como express\u00e3o de um povo intelectualmente limitado e provinciano. Essa premissa n\u00e3o nos deve fazer supor, entretanto, que n\u00e3o fossem leg\u00edtimas as cr\u00edticas \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o norte-americana de apoiar ditaduras em outros pa\u00edses, entoadas inclusive por cidad\u00e3os norte-americanos.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o, como o Brasil n\u00e3o o \u00e9, um pa\u00eds homog\u00eaneo. Para compreender a hist\u00f3ria de sua pol\u00edtica externa, h\u00e1 que se considerar as diversas frentes de sua atua\u00e7\u00e3o no ultramar: a diplomacia formal, as ag\u00eancias de Estado, os programas federais, as funda\u00e7\u00f5es privadas, as empresas. H\u00e1 que se considerar agentes e institui\u00e7\u00f5es militares e civis, pol\u00edticos e diplom\u00e1ticos, n\u00e3o apenas norte-americanos, mas tamb\u00e9m brasileiros, em seus assuntos e motivos pr\u00f3prios. Seus rastros est\u00e3o nos arquivos. Muito tem sido feito pelos historiadores, mas ainda h\u00e1 muito por fazer. Assumir que o apoio dos Estados Unidos \u00e0 ditadura brasileira n\u00e3o foi simples nem linear \u00e9 um bom come\u00e7o de conversa.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lentidao-no-stj-poe-em-risco-execucao-da-pena-de-criminoso-da-ditadura-uruguaia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lentid\u00e3o no STJ p\u00f5e em risco execu\u00e7\u00e3o da pena de c...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/resultado-prouni-2026-e-divulgado-pelo-mec-confira-se-voce-conquistou-a-bolsa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/portal_unico-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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